TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:33 am

— Compreendo - balbuciou Tecla, com lágrimas nos olhos.
— Servir a Deus - prosseguiu Maria, com infinita ternura - é muito diferente que servir aos homens, aos quais, muitas vezes, a fim de que possamos realmente auxiliá-los, precisamos desagradar.
Em que pese a sua luta íntima, qual é a vida que você prefere: a de hoje ou a de ontem?!...
— Não resta dúvida que prefiro a minha vida de hoje, minha Mãe, porque, ontem, eu não passava de uma semente sufocada sob a pedra...
— Não se preocupe com seus pais, porque Deus a eles não esquecerá! Jesus dizia-nos:
"Observai os pássaros do céu:
não semeiam, não ceifam, nada guardam em celeiros, mas vosso Pai Celestial os alimenta.
Não sois muito mais do que eles?"...
Quase sempre, o auxílio espiritual de que realmente necessitamos nos chega de forma que nos é desagradável!
A questão é que, de hábito, valorizamos demais esta existência, que breve passa, em detrimento do espírito imortal!
Aquele que se imagina estar de pé, sem que sofra o abalo da queda, em verdade, não consegue se aprumar!
Você, porventura, crê que eu ou José não tenhamos enfrentado duras oposições familiares por nosso Filho?!
Muitos se afastaram de nós, e, hoje, a rigor, minha família é a família espiritual de Jesus, porque, à excepção de Sara e Joel, no Hebron, ninguém mais quis oferecer-me abrigo...
— Todavia, quanto isto nos dói no coração, não?!
— Sem dúvida, minha filha! - argumentou Maria.
Mas vejamos o caso do próprio Simão, que chegou a ser chamado de pai ingrato pelos próprios filhos!
Raros os que tiveram a mesma sorte de Filipe, que, em seu idealismo, contou com a aprovação de duas filhas!
Paulo, após a visão de Damasco, ao retornar, doente, a casa, foi banido pelo genitor, que o tratou como a um mendigo...
O testemunho se nos torna mais doloroso, quando, em determinados lances da Vida, precisamos nos apartar daqueles que se recusam a conceder-nos liberdade de colocar o amor a Deus acima de nossos caprichos e interesses!...
As palavras ditas pela Senhora caíam como um bálsamo sobre o coração de Tecla, que, na condição de filha, não podia esquecer-se de Mésimo e Teóclia, seus progenitores.
Sua mãe, de saúde comprometida, não suportara os conflitos que, a partir de sua conversão ao Cristianismo, se lhe desencadearam, mas por onde andaria seu pai, que, embora a incompreensão revelada em relação a ela, chegando a levá-la à presença das autoridades em Icónio e Antioquia, não deixava de ser seu pai?!
— Sinto-me mais confortada ao ouvi-la, minha Mãe! - exclamou Tecla.
Não que, em um só instante, eu tenha hesitado em minhas convicções, todavia eu não esperava da parte de meus pais semelhante reacção...
De repente, para eles, foi como se eu nada mais passasse a significar!...
— O problema, filha, é que nossa noção de família ainda é extremamente exclusivista.
E narrou:
— Certa vez, quando meu Filho falava ao povo, eu e seus primos-irmãos estávamos do lado de fora; um de seus primos, de nome Judas, sentindo-se desprestigiado, começou a gritar que éramos sua família e que as pessoas nos deixassem entrar a fim de estarmos com Ele.
Judas exaltou-se tanto, que uma das pessoas, preocupada com o tumulto que se formava, fez com que meu Filho soubesse que estávamos ali.
Então, ante o silêncio que se fizera, nós próprios pudemos ouvi-lo perguntar:
"Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?"
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:34 am

Em seguida, apontando para os Discípulos e para o povo que, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora, se aglomerava naquela casa, elucidou:
"Eis minha mãe meus irmãos.
Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai Celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe"!
Judas, evidentemente, e os outros seus primos irmãos, saíram blasfemando, dizendo que ele havia perdido o juízo, mas, em meu coração, pude compreender o sentido profundo de suas palavras, que até hoje me norteiam os sentimentos...
— Nossa família é a Humanidade! - concluiu Tecla.
— Sim - respondeu.
No entanto, observemos que Ele nos disse "qualquer que fizer a vontade de meu Pai Celeste" e não a vontade Dele ou ainda de seu pai terrestre - àquela época, José não mais vivia sobre a Terra!
Naquele exacto momento foi que, para mim, ficou mais claro que, de facto, meu Filho não era meu Filho, mas, sim, o que todos somos:
filhos de Deus e irmãos uns dos outros!
Desde então, eu deixei de ser sua Mãe, para ser um de seus discípulos, entendendo que sua genealogia espiritual transcendia minha própria existência!...
— Meu pai e minha mãe?...
— São seus irmãos - são nossos irmãos! - redarguiu a Senhora, passando a destra espalmada sobre os cabelos de Tecla, para pousá-la ternamente em sua face.
Os nossos verdugos, por mais nos façam sofrer, são nossos irmãos e como tal devemos amá-los!
Um dia, haverão de compreender que o mal que intentam nos fazer, eles estão fazendo a si mesmos!
Foi o que disse Jesus em suas derradeiras palavras, ao expirar no Calvário:
"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"!
Poucos de nós pudemos escutá-Lo a falar assim, porque Ele já estava completamente sem forças...
Dois soldados que, montando guarda, estavam mais próximos, ao ouvi-lo falar em perdão, naquelas circunstâncias, caíram de joelhos e, profundamente arrependidos, se entregaram a convulsivo pranto, arrastando-se, sobre a lama, até onde eu me encontrava, na companhia de João, e vieram me beijar as mãos...
E foi assim que me vi abraçando dois dos algozes de meu próprio Filho e os abençoando!...
Profundamente comovida, a Mártir de Icónio nada conseguia falar, porque, por mais que Maria se esforçasse para parecer-lhe uma figura humana, ela não conseguia vê-la senão na condição de um anjo do Céu transfigurado em mulher sobre a Terra.
Durante algumas semanas, Tecla, Acácia e Ananias ali estiveram, sob a hospitalidade de Sara e Joel, até que, um dia, a Senhora lhes disse que não mais convinha permanecerem no Hebron, pois, em sonho, ela havia sido alertada de que os inimigos se aproximavam.
A viagem até Bataneia seria excessivamente longa, e eles precisavam partir com certa urgência.
— Minha filha - disse Maria, ao despedir-se de Tecla com um ósculo maternal -, seja forte!
Pressinto que, doravante, você será chamada a mais amargos testemunhos, mas não esmoreça!...
Orarei por você!...
Foi dali que, antes de retornar a Jerusalém, Tecla, na companhia de Acácia e Ananias, tomou a decisão de voltar a Icónio, passando pela cidade de Tarso, esperando encontrar a Paulo e Barnabé.
No entanto, quando da passagem dela pela cidade de Tarso, os dois companheiros já estariam a caminho de Jerusalém, preocupados com a situação dos Apóstolos que lá seguiam enfrentando imensa luta!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:34 am

21 - Tamar, a Filha Adoptiva
Pode-se dizer que Paulo, sem dúvida, foi o grande modelo e exemplo de Tecla, que, tanto na palavra quanto na acção, procurava imitar o Grande Converso de Damasco.
Em sua viagem de volta à cidade natal, agora já retemperada pelo sofrimento e amadurecida pela convivência que procurava manter com quem pudesse instruí-la sobre a vida do Cristo, a fiel Discípula do Evangelho, peregrinando de aldeia em aldeia, não perdia tempo na semeadura. A qualquer pessoa que encontrasse no caminho, fazia questão de anunciar a Boa Nova.
Logo que saiu de Tarso, nas proximidades de Derbe, acompanhada por Acácia e Ananias, ela se deparou com um grupo de leprosos, semelhante a tantos outros que viviam a mendigar pelas estradas, cruelmente impedidos que eram de adentrar as cidades.
Ao avistá-los, impressionada com a sua condição de extrema indigência, em vez de evitá-los, como costumavam fazer os viajores, que os identificavam por chocalho ou guizo que traziam amarrado aos farrapos que vestiam, aproximou-se, apiedada de sua situação.
Um deles, imaginando que a jovem não os tivesse identificado na condição de leprosos, gritou, tomando a frente do grupo, composto por três homens, três mulheres e uma criança:
— Afaste-se de nós!
Somos imundos!
Afaste-se, porque fomos esquecidos pelos homens e por Deus!...
Obrigados por severa lei a se denunciarem, os doentes que assim, porventura, não procedessem, eram denunciados às autoridades judaicas, que, então, enviava soldados para matá-los por apedrejamento - o receio de contágio era tamanho, que, cumprindo a determinação, os soldados não se valiam de suas espadas, porque caso uma gota de sangue respingasse sobre um deles, este seria imediatamente banido pelos companheiros.
Sem dar ouvidos, pois, à advertência, seguida a certa distância por Acácia e Ananias, que chegaram a pedir-lhe passarem adiante, apenas deixando-lhes na estrada coberta de pó algum alimento, Tecla aproximou-se quanto nunca ninguém ousava se aproximar de um leproso.
No Antigo Testamento, existe uma recomendação para que, inclusive, sobre uma pedra que um leproso tivesse sentado ninguém mais sobre ela se sentasse por cem anos - além do mais, a lepra era considerada "doença dos egípcios", aos quais os judeus haviam passado a odiar encarniçadamente.
— Se os homens os esqueceram - exclamou Tecla, apeando-se do pequeno animal que a transportava -, Deus não os esqueceu!
Vocês já ouviram falar de Jesus Cristo?...
O curioso é que, estarrecidos com a atitude da pregadora, os doentes, instintivamente, recuaram alguns passos, como se o contágio pudesse vir dela para eles e não deles para ela.
— Não, nunca ouvimos! - disse energicamente o homem, continuando a apelar para Tecla e os seus amigos os deixassem em paz com a sua desdita.
Você nos quer ver mortos?!
Não lhe bastará o sofrimento que, dos pés à cabeça, nos assinala o corpo apodrecendo em vida?!...
E, assim dizendo, o homem se despiu da capa escura que o cobria, mostrando o corpo ainda relativamente jovem todo coberto de feridas pustulentas.
— Veja nosso estado!
Afaste-se! Deixe-nos!
Temos uma criança connosco...
Não nos condene à morte!
Se as autoridades souberem, amanhã mesmo mandarão soldados para nos apedrejarem; então, permaneceremos insepultos...
Ignorando os apelos do enfermo, Tecla, retirando da bolsa um pedaço de pão e algumas amêndoas, caminhou de mão estendida na direcção da menina, que, de todo o grupo, era a menos atacada pela morfeia.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:34 am

— Venha, minha filha! - disse, abrindo um sorriso angelical.
Qual é o seu nome?!
Não tenha medo de mim!...
Não lhe farei nenhum mal!
Venha! Chegue um pouco mais perto de mim - insistia com destemida ternura.
Então, soltando-se da mão de uma das senhoras, que deveria ser a mãe, a menina, estendendo a mãozinha, caminhou para ela, aceitando a dádiva do pão e das amêndoas, porque, em verdade, fazia dias que o grupo não encontrava nada para comer.
Como que magnetizada pela bondade de Tecla, a pequena não conseguia afastar-se, e, então, Tecla insistiu:
— Como você se chama?!
Você é uma garota tão linda!...
— Tamar! - respondeu com timidez.
— Tamar, minha filha - falou Tecla, que, para ficar da mesma altura da menina, havia se ajoelhado no chão -, vou orar a Jesus Cristo por você!
Você já ouviu falar Dele?!
Sobre a Terra, nunca, desde os tempos de Abraão, houve um homem tão bom...
Ela amava as crianças!...
Impressionados com a atitude de Tecla, o grupo foi se aproximando, porque aquela jovem mulher não poderia ser uma pessoa comum.
Embora não ousassem maior aproximação, postaram-se atrás de Tamar, que, com uma das mãos, lhes havia estendido o alimento para que o dividissem entre si.
— Jesus, minha filha, é o Messias tão ansiosamente esperado por todos os homens...
É Ele, verdadeiramente, quem nos pode sarar as feridas!
Nós também somos doentes - disse.
Podemos não ter chagas em nosso corpo, mas trazemos muitas chagas na alma...
A pior doença é a que nos acomete o coração!...
E, durante alguns minutos, Tecla falou do Senhor àqueles pobres leprosos que viviam percorrendo as estradas, sob as intempéries do dia e da noite, sofrendo ainda mais, fosse com o calor ou com o frio.
Encorajados pelo seu exemplo, Acácia e Ananias se aproximaram; então, tirando pães e amêndoas de suas bolsas e uma bilha d'água, deixaram a sua pequena oferta com o grupo, que, naquele dia, Jesus visitava através do virtuoso espírito que tomara corpo na Terra para cooperar nos alicerces da construção do Reino Divino entre os homens!
— Tamar - falou Tecla à menina, antes de despedir-se.
— Todos os dias, eu orarei a Jesus por você e pelos seus amigos...
Acredite que Ele tem poder suficiente para curá-la!
Você é uma garota tão linda! - repetiu.
Doravante, agora que ouviu falar no nome de Jesus, mais linda você há de ficar!...
— Como a senhora é boa! Nunca ninguém nos tratou assim! - exclamou aquela que era a mãe da pequena.
— Não, minha irmã! - respondeu.
A bondade que existe em mim não me pertence - sim a Jesus Cristo!
Não se esqueçam Dele!
Não se esqueçam deste Nome!
Seja no corpo ou na alma, Ele representa todas nossas esperanças de cura!...
Depositando um ósculo na fronte de Tamar, a corajosa discípula do Evangelho despediu-se do grupo, porque o firmamento escurecido prometia forte tempestade e todos precisavam procurar abrigo.
— Não muito distante - informou a mãe da pequena -, há pequena gruta que, de quando em quando, utilizamos para nos proteger do Sol muito forte...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:34 am

Se vocês se apressarem, poderão lá chegar, antes que o temporal desabe.
— E vocês?! - indagou Tecla. — Onde vocês se esconderão?!...
— Ah, minha irmã! - respondeu a pobre enferma - somente assim é que conseguimos tomar banho e lavar as nossas vestes...
Nem nós mesmos estamos a suportar o odor que vem emanando de nossos corpos e de nossas roupas!...
— Mas - argumentou a Mártir, que, a cada dia, mais se agigantaria em seu apostolado -, vocês poderão adoecer!...
Esboçando um sorriso de melancolia, a senhora respondeu:
— Mais do que já estamos, minha boa senhora?!
Se adoecermos mais gravemente, a morte nos será o remédio de que andamos à procura...
Não se preocupe!...
De facto, não demorou muito e forte tempestade se desencadeou, obrigando Tecla, Acácia e Ananias a passarem a noite na cripta rochosa que lhes fora indicada pela mãe de Tamar.
Acácia e Ananias, então, passaram a se comportar como quem estivesse na presença de alguém que se transfigurava, pois, após a viagem empreendida ao Hebron, depois de seu contacto com Maria de Nazaré, Tecla não era mais quem eles haviam conhecido.
Inexplicavelmente, seus cabelos começaram a adquirir um tom prateado e o seu semblante, embora conservando a beleza da juventude, deixava transparecer a maturidade espiritual, que, a cada ruga precocemente adquirida, ainda mais se lhe acentuaria no rosto.
Tecla, praticamente, passara a noite em oração, pedindo a Jesus que intercedesse em favor do grupo de leprosos, para o qual, por excesso de timidez de sua parte, ela não ousara qualquer tentativa de cura.
Todavia a lembrança da pequena Tamar lhe apertava o coração e era principalmente pela menina de que se tomara de profunda simpatia que ela rogava a Jesus em suas preces.
— Senhor - suplicava - todo e qualquer mérito que eu possa ter ou que, durante toda a minha vida, eu venha a ter, por caridade, peço-lhe que seja transferido para Tamar...
Cure-a, Senhor, cure-a!
Por conta de minhas fraquezas, não ousei impor as mãos sobre ela, e, invocando o seu Nome, pedir que ela fosse curada, pois, neste sentido, temi pelo meu próprio fracasso...
Em Seu nome, Senhor, eu não poderia falhar!
Por minha causa, tive receio de que desacreditassem do que as minhas palavras lhes diziam a respeito de Sua bondade e de Seu amor!
Perdoa-me, Senhor, perdoa-me!
Todavia, que Tamar não seja punida pela minha fragilidade de fé...
Em nome de Deus, cure-a, Senhor!...
Foi assim que Tecla, a noite inteira, ante a chuva torrencial que caía lá fora, passou em oração, enquanto Acácia e Ananias, vencidos pelo cansaço, se haviam entregado a pesado sono.
Somente quando o dia começara a clarear, a tempestade se foi amainando, dando ensejo a que o Sol brilhasse no firmamento, tendo enorme arco-íris que se formou com a intenção de abraçar a Terra.
Tecla, que tanto se entregara à oração, estava um tanto abatida, com profundas olheiras decorrentes da insónia.
— Comamos alguma coisa! - disse-lhe Acácia, procurando o que lhes sobrara dentro das bolsas.
Creio que quase nada nos restou, mas estamos próximos de Derbe e lá poderemos nos reabastecer.
Assim, fizeram rápida refeição e, quando se preparavam para deixar a gruta em que se tinham abrigado, Tecla, em indizível transporte de felicidade, percebe a presença de uma menina que lhe abre um sorriso iluminado.
Era Tamar que, inicialmente, ela imaginou ser um delírio de sua mente...
— Quem é?! - perguntou aos dois companheiros de viagem, realmente crendo-se vítima de alucinação.
— É aquela menina! - exclamou Ananias.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:35 am

— É Tamar! - confirmou Acácia.
— Meu Deus! - tornou Tecla.
Será que lhe estamos vendo a aparição?!
Terá ela sucumbido sob a tempestade?!...
Contudo, toda a apreensão de Tecla se desfez quando Tamar, correndo em sua direcção, se lhe atirou aos braços e, então, ela pôde constatar que sua visão não era fruto de perturbação psíquica de sua parte.
— Tamar! - exclamou com incomparável sentimento de alegria a tomar-lhe a alma toda.
É você, minha filha!
Mas que houve com suas feridas?!
Como você está ainda mais linda!
Louvado seja Jesus Cristo!
Ele a curou, minha filha!
Ele a curou!...
Neste instante, sustendo a menina de sete anos em seus braços, Tecla pôde ver a mãe de Tamar, que, ao longe, lhe acenava com gratidão, como que a lhe agradecer pelo ocorrido e a lhe confiar a tutela da pequena que, evidentemente, não mais poderia continuar na companhia do grupo de leprosos.
Tamar, que Tecla passou a adoptar, seria a filha que ela jamais teria, transformando-se em protectora de seus passos, quando, com o corpo desgastado pela acção do tempo e pelas muitas lutas que enfrentou, mal conseguiria caminhar.
Ela e Acácia se desvelariam pela menina, que as passaria a considerar na condição de mãe e avó.
A Mártir não mais obteve notícias do grupo que encontrara na estrada para Derbe, recebendo informações não muito precisas de que, depois de não muito tempo, seus integrantes teriam sido trucidados a mando de um proprietário de terras nas redondezas, que, pela simples presença deles nas imediações, se sentia prejudicado em seus negócios.
Evidentemente, Tecla, em suas viagens na pregação do Evangelho, nem sempre poderia estar junto a Tamar, a qual, quando isso ocorria, permanecia sob os cuidados de Acácia, mas sempre esperando o retorno de sua benfeitora ao lar, de quem recebia as mais preciosas instruções.
Tamar, a filha adoptiva de Tecla, seria a noiva espiritual de Alexandre de Jesus, filho de Onesíforo.
Impedidos de se unirem em matrimónio, pela consagração de ambos à Causa do Evangelho e por entenderem que, a todo instante, estavam com a sua vida em perigo, os dois, pelos laços mais puros do amor, haveriam de unir-se para a Eternidade.
Cada qual passaria a ser a inspiração do outro, e, por esse motivo, quando Alexandre voltou à Terra sob a personalidade de Orígenes, porque não pretendia que a simples atracção da carne o levasse a unir-se a alguém, fez voto de castidade, chegando ao extremo de causar-se mutilação!
Por isso somente aqueles que estiverem lendo essas narrativas com os olhos do espírito serão capazes de compreender sua essência espiritual, porque a história da maioria de seus personagens transcende a trajectória que eles foram chamados a cumprir na existência terrestre.
Sempre que possível, Tecla, em seus ternos diálogos com Tamar, explicaria à querida filha do coração:
— Tamar, minha filha, como você sabe, não sou eu a mãe que, no ventre, gerou o seu corpo...
Sua verdadeira mãe nunca a abandonou!
Jamais se permita pensar assim!
Ela a amou tanto que, pela sua felicidade, foi capaz de renunciar à felicidade de tê-la consigo!
Amor como o de sua mãe por você é muito difícil de encontrar-se em qualquer parte da Terra!
Eu a amo profundamente, mas o amor de sua mãe por você é muito superior ao meu!
Lembre-se sempre dela e seja-lhe grata!...
— Para onde foi mamãe? - inquiria a garota com vivacidade, nestas ocasiões.
Tecla, que era adepta da crença na Reencarnação, sempre respondia:
— Sua mamãe, querida, está protegendo você para além desta vida, porque Jesus Cristo, com a própria ressurreição, nos mostrou que a morte não existe!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:35 am

Você e sua mãe ainda estarão juntas muitas e muitas vezes!...
— Com a senhora também?!
— Comigo também! - elucidava a benfeitora.
— Porque eu nunca vou querer me separar da senhora! - dizia Tamar, enlaçando Tecla pelo pescoço e cobrindo-a de beijos afectuosos.
Eu sou a filha mais feliz do mundo, porque tenho três mães:
a mamãe de verdade, a senhora e Acácia!...
— Mas não esqueça, Tamar, que existem muitas meninas e meninos, que não têm sequer uma mãe - são os completamente órfãos!
Um dia, quando você puder, mesmo que não venha a ser mãe como eu não sou, que você procure ser mãe como o Senhor quis que eu fosse!
Todos os filhos são filhos de todas as mães...
E a menina repetia o que já aprendera de cor:
— E todas as mamães são mamães de todos os filhos!...
— Isto mesmo - enfatizava Tecla.
Jesus se fez irmão de todos os homens e mulheres e, por nós, não hesitou em dar a Vida na Cruz!
De Derbe, passando por Listra, Tecla chegara a Icónio, procurando conservar-se no anonimato, o que, em verdade, não lhe custou grande esforço, porque, fisicamente, ninguém seria capaz de reconhecer nela a jovem de outrora, que, embora a contragosto, sempre se aprontava com esmero para sair às ruas.
Em Icónio, dirigiram-se a casa de um parente de Acácia, que, por ter-se feito também cristão, recebeu a prima e seus amigos com fraternidade.
Todos se encantavam com a vivacidade de Tamar, que, em verdade, parecia ter recebido do Alto muito mais que a cura da insidiosa enfermidade.
— Como vão as coisas por aqui?! - perguntou Tecla, cuja história o primo de Acácia conhecia.
— As perseguições estão cada vez piores - esclareceu.
— Soube que, na semana passada, em Antioquia, logo após o espectáculo dos gladiadores no anfiteatro, quatro cristãos foram lançados às feras.
Existem espiões em toda parte; por isso, convém que procurem agir com a maior discrição, evitando, inclusive, sair às ruas.
E acentuou:
— Dizem, Tecla, que há uma ordem de prisão expedida contra você e que ainda está em vigor.
O Procônsul não lhe perdoa por considerar que você o desmoralizou de público!...
Ele, por vezes, é objecto de chacota da parte de seus inimigos, que falam de sua fragilidade perante você - uma simples moça!
Aqui, em Icónio, duas cabeças estão a prémio: a de Paulo e a sua!
Espalharam que você deixou a Tamíride por ter-se apaixonado por Paulo...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:35 am

22 - Estêvão
Deixando Tamar sob os cuidados de Acácia, passados alguns dias de descanso em Icónio, nos quais procurou agir com a maior discrição possível, Tecla, em companhia de Ananias, empreendeu viagem de volta a Jerusalém.
Copiando o exemplo de Paulo, que se fizera o maior divulgador da Boa Nova, a Mártir, por onde passava, não perdia oportunidade de espalhar a Mensagem do Evangelho, graças ao que, por seu intermédio, muitas agremiações cristãs, ditas igrejas, começaram a ser fundadas.
Portanto, com a finalidade de aproveitar ao máximo a sua ida a Jerusalém, Tecla deliberou cumprir diferente roteiro, o qual incluía, dentre outras, as cidades de Selinus e Perga, que se erguiam nas proximidades do Mediterrâneo.
De lá, valendo-se da navegação, seguiriam até Cesareia e, desta, a Jerusalém, no interior da Judeia.
eixando Tamar sob os cuidados de Acácia, passados Chegando a Selinus, importante cidade portuária da época, pôde perceber a presença de pessoas provenientes de várias localidades da Ásia Menor, e, sendo assim, impulsionada pelo espírito Abigail, não perdeu tempo.
Visitando o mercado da referida cidade, onde os negociantes propunham a excelência de suas mercadorias, notadamente os produtos da pesca, junto à barraca de uma jovem de nome Helena, começou a falar.
De início, não logrou chamar a atenção de ninguém, pois, no mercado, era comum que, de inesperado, alguém se pusesse a efectuar propaganda verbal de seus produtos, e também que as numerosas vítimas de perturbações psicológicas dessem livre curso às suas alucinações e delírios, sendo que estes últimos, quando começavam a perturbar em excesso, eram expulsos até a bordoadas.
— Irmãos e irmãs - pregou Tecla - aproximem-se para ouvir a palavra de Jesus Cristo! Ele é o Messias, de quem os profetas dos judeus sempre falaram...
Aproximem-se! Jesus, o Filho de Deus, veio à Terra para nos ensinar o caminho da Redenção Espiritual!
Ele mesmo, sendo crucificado pelos romanos, venceu a morte e, como havia previsto, ressurgiu no terceiro dia!...
Quando Tecla fez referência à vitória de Jesus sobre a morte, mencionando os romanos, pelos quais os povos conquistados tinham tremenda aversão, muitos pararam para ouvir o que dizia aquela mulher, a qual, afinal, não tinha a aparência dos loucos que, em seus discursos, se punham a falar de modo ininteligível.
E, depois, era muito raro que uma mulher tivesse a coragem de se valer da palavra em público - isso, inclusive, não era considerado de bom tom, a menos que, por exemplo, fosse uma meretriz a enaltecer os próprios predicados.
— Jesus é o nosso Salvador! - anunciava Tecla.
Ele representa a síntese de toda a sabedoria humana e, sem dúvida, foi superior aos próprios sábios gregos a quem muitos admiram pelos seus conhecimentos.
Com coragem exemplar, Ele enfrentou o poder dos romanos e o fanatismo dos judeus, revelando ao homem o caminho para a Vida Eterna!
Suas virtudes não se revelaram apenas através das palavras, mas, principalmente, pelas suas atitudes...
O Excelso Senhor curou leprosos, fez andar paralíticos, restituiu a visão a cegos, ressuscitou mortos!
Em toda parte, muitos estão se fazendo seus seguidores...
Eu mesma - continuava com admirável eloquência - sou uma prova viva de seu poder invencível, porque, antes, vivia triste e amargurada, sem nenhuma esperança na existência, que, a cada dia, nos consome!
Não estamos caminhando para a morte, mas para a Vida!
Foi isto que Ele nos ensinou...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:35 am

Os romanos se sentiram ameaçados por Ele e consentiram na exigência dos judeus em crucificá-Lo como um malfeitor qualquer.
Todavia, os dias do Império estavam contados...
O fanatismo religioso do povo judeu, que se contradiz em suas atitudes em relação aos mais pobres, foi superado por Ele, que nos ensinava a amar a Deus na pessoa do próximo, sendo ele quem fosse!...
Selinus, evidentemente, era uma cidade repleta de judeus dos mais conservadores, fiéis à doutrina de Moisés, que era considerado por eles na condição do maior dos Profetas, que, guindado à condição de um deus mitológico, continuava, como muitos acreditavam, a viver no topo do Monte Nebo, onde deu por conclusa sua missão.
Percebendo que Tecla, através de sua palavra, colocava a figura do Cristo acima do inolvidável legislador hebreu, uma voz se ergueu na multidão, conclamando o povo:
— Esta mulher é louca! Apedrejem-na!
0 que ela está dizendo é blasfémia! Blasfémia!
É o Demónio que está falando por ela...
Onde é que já se viu colocar um malfeitor acima de Moisés?!
Façamo-la calar-se, antes que a ira de Jeová se volte contra nós!...
No mesmo instante, outras vozes se levantaram, fazendo coro ao que aquele homem dizia:
— Blasfémia! Blasfémia!...
E completavam:
— Como ousa uma mulher nos falar assim?!...
Abaixando-se, para cumprirem o estranho ritual, enchiam as mãos de terra e a lançavam sobre a própria cabeça, numa espécie de autopunição, até que um deles, apanhando uma pedra lançou-a na direcção de Tecla, no que foi seguido por muitos outros, em sessão de apedrejamento que se consumaria, caso a vítima não tivesse contado com o auxílio de inesperada benfeitora.
Eis que, ouvindo-a falar, Helena, que já tinha escutado certa referência a Jesus, profundamente sensibilizada por suas palavras, a tomou pela mão, e, seguidas por Ananias, ante o tumulto que se fez, depressa deixaram o mercado.
Felizmente, desta vez, como se tivessem sido desviadas por mão invisível, nenhuma das pedras lançadas atingira Tecla que, guiada pela jovem salvadora, chegou às dependências simples de casa erguida no alto de um morro da cidade.
Somente aí foi que Tecla pôde conversar com Helena, inclusive, inteirando-se de seu nome, o qual, até então, era absolutamente desconhecido por ela.
— Que Deus a abençoe, minha filha! -agradeceu a valorosa tarefeira do Evangelho.
Não fosse por você, provavelmente, eu teria sido trucidada!
Não consigo entender o que as pessoas podem ter contra Jesus Cristo!
Muitos, ao simples pronunciar de seu Nome, como que se revoltam diante de grande ameaça!...
Você é cristã?! - perguntou.
— Não! - respondeu Helena.
No entanto, através de um tio, que tem negócios em Jerusalém, pude ouvir falar do Nazareno...
E, não sei por quê, desde então, eu me senti de espírito vinculado ao Dele!...
— Outros, como você - ponderou Tecla -, reagem desta maneira:
ouvem dizer a respeito Dele e, de súbito, são tomados por singular simpatia por Ele!
Aconteceu o mesmo comigo:
quando ouvi o Seu Nome ser pronunciado pela primeira vez, era como se eu já o conhecesse e simplesmente estivesse à espera de Seu chamado!...
— Não reparem na singeleza da casa! - desculpou-se Helena, que, preocupada, observava o movimento lá fora por pequena abertura da janela.
Moro aqui sozinha e vivo do comércio de peixes...
Fui criada pelo meu pai, pois se quer cheguei a conhecer minha mãe, que, quando deixou este mundo, ainda estava me amamentando.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 31, 2018 9:35 am

— O que houve com seu pai? - indagou a pregadora do Evangelho.
— Há pouco mais de seis meses, ele também partiu - esclareceu, pesarosa. — Meu pai ficou doente...
Os médicos disseram que ele teve um mal que faz com que o cérebro comece a sangrar.
Cuidei dele durante muito tempo, mas papai já não conseguia mais dizer uma única palavra.
Certo dia, amanheceu morto...
Sinto-me culpada, mas o sono veio, e não consegui ficar acordada para impedir que a morte dele se aproximasse.
— Seu pai vive! - exclamou Tecla. — Jesus Cristo, com a própria ressurreição, provou que a morte não existe, e até mesmo o seu corpo desapareceu do túmulo!
Não fique triste, Helena!
Um dia, todos haveremos de nos reunir a nossos amados no Reino de Jesus, pois, conforme Ele mesmo ensinava, o seu Reino não é deste mundo!...
— Fale-me de Jesus - solicitou a jovem, que, ao ver que cessara a agitação lá fora, se tranquilizou.
— Jesus é a luz de nossa vida! - antecipou-se Ananias, sentindo-se atraído pela coragem e pela beleza de Helena.
Sem Ele, este mundo não faz sentido, porque o egoísmo torna nossa vida insuportável!...
Notando a afeição que nascia entre os dois jovens, Tecla entendeu dever alegar cansaço e, com a intenção de deixar que os dois conversassem com maior liberdade, pediu permissão a Helena para repousar um pouco.
De facto, ao subir o morro correndo, o músculo cardíaco da Mártir de Icónio dera os primeiros sinais de um processo arrítmico que haveria de acompanhá-la dali por diante.
— O Cristo veio ao mundo para renovar todas as concepções humanas, fazendo com que o homem se liberte de suas superstições e de suas crendices, que não mais têm a menor razão de ser.
Com Ele é que passamos a enxergar o que, sem Ele, não enxergávamos - embora imaginando que tudo nós pudéssemos saber!
Ah, Helena! - prosseguia Ananias.
— Não há sacrifício que, por Ele, não possamos fazer, até mesmo o de Lhe oferecer a própria vida, quanto Ele nos ofereceu a Dele!
Em seu coração, Helena sentia renovado pulsar, qual se as palavras de Ananias lhe descortinassem nova motivação para viver.
— Sinceramente - continuava o jovem companheiro de viagem de Tecla -, eu não sei como alguém consegue viver fora do Amor de Jesus!
Que é que este mundo t em a nos oferecer?!
Que é que, afinal, sobre ele pode nos interessar?!
Antes, as pessoas viviam crendo na existência dos deuses, que, em verdade, não passam de expressões materiais de uma crença primitiva...
Os deuses nunca desceram do Olimpo, para conviverem connosco!
Jeová, o Senhor dos Exércitos, sempre nos inspirou mais temor que propriamente amor! Jesus, o Filho do Deus Verdadeiro, veio nos ensinar que o Pai nos ama!
Eu nunca me senti tão amado por Deus!...
Embalada pelas doces palavras que Ananias dizia a Helena, Tecla adormeceu e, de novo, vendo-se fora do corpo, pôde, em espírito, uma vez mais, avistar-se com Abigail, que a conduziu à presença de Estêvão.
Quem, porventura, tivesse a oportunidade de observá-los, com certeza, nada mais conseguiria ver que o encontro de duas estrelas!...
— Tecla - dirigiu-lhe o Protomártir do Cristianismo a palavra, directamente, pela vez primeira - em nome de Jesus, venho instar com você que não esmoreça em sua trajectória.
Não importa que os nossos próprios irmãos de Ideal venham a esquecê-la...
Não importa! - repetiu.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:51 am

A História, quase sempre, não faz justiça aos que a escrevem em suas mais belas páginas! No futuro, a existência do próprio Senhor há de ser questionada por aqueles que se lhe opõem aos propósitos divinos.
As Trevas urdem, e haverão de urdir, mil maneiras, no sentido de confundir as mentes incautas, retardando a hora de sua emancipação espiritual.
Em seu natural anseio de expansão, todo espírito pagará alto preço aos que insistem permanecer imersos em sua ignorância voluntária.
Após provocar pequena pausa em suas considerações, que somente registramos em sua essência sublime, o espírito iluminado de Estêvão continuou:
— Pela sua condição de mulher, você ainda há de amargar muita incompreensão e menosprezo...
Não se deixe abater!
Durante séculos e séculos, no coração da mulher é que, de preferência, a semente da Fé se desenvolverá - semente da qual, na maioria das vezes, os homens apenas e tão-somente colherão os frutos, sem que sequer se lembrem de agradecer a semente que os produziu!
Eis que a alma feminina, simbolicamente, tendo-se originado de uma das costelas do homem, foi criada justamente a partir daquela que lhe sustentava o coração!
Prossiga, em sua trajectória, a semear, porque, quando o Cristo nos falou em torno da Parábola do Semeador, ele não o identificou pela sua condição sexual...
No Grande Futuro, a Humanidade, pela indiferença dos homens em relação às coisas do espírito, ao correr risco de sobrevivência, há de se socorrer do sentimento de Amor que existe represado no coração da mulher que se faz mãe e irmã dos filhos e irmãos rebeldes dos quais Deus lhe concedeu a tutela!...
Novo intervalo, e prosseguiu o fiel Discípulo de Jesus:
— Não aspire a vir ao nosso encontro tão depressa, porque carecemos de quem, verdadeiramente, se disponha a velar pela mensagem do Evangelho no mundo!
Não se esqueça, no entanto, de que, por mais longo se lhe faça o desterro sobre a Terra, diante da Eternidade, ele não passa de um instante só! Cautela!
Não se desvie dos passos do Cristo...
Existe maior glória em morrer aos poucos por Ele do que por Ele sacrificar-se única vez, como quem, no fundo, pode estar apenas desejando libertar-se dos grilhões do cárcere terreno!...
A visão se desfez e, sob forte enlevo espiritual, Tecla acordou, ouvindo Ananias dizer a Helena:
— Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida! Ele é a luz que jamais se apagará!
Por intermédio Dele é que estamos conhecendo a Verdade, que liberta!...
Sem dúvida, aqueles cristãos da primeira hora do Evangelho na Terra eram diferentes de quase todos os espíritos que, quer pela breve passagem Dele entre os homens ou mesmo na superfície de outras Esferas, ainda não tinham conhecido o Cristo.
O compromisso espiritual que haviam assumido transcendia o de sua própria conversão ao Cristianismo sobre a face do Planeta!
Despertando mais descansada e com o coração batendo mais ritmado no peito, Tecla tornou a agradecer à jovem que, arriscando a vida, os acolhera em sua casa.
— Minha filha, o Senhor a recompensará! - exclamou, depositando-lhe fraterno ósculo em sua face.
Sendo você ainda tão jovem e tão frágil, como foi corajosa!
Não tivesse sido pela sua intervenção, talvez nos tivesse sucedido o pior!...
As palavras de nosso Redentor têm-se confirmado para nós outros, a cada passo:
"Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que tenha o Filho do homem"!
Segundo Simão, devemos interpretar que, para nós, Israel é o mundo, porquanto, em verdade, o povo escolhido pelo Cristo é a Humanidade inteira!...
Prestativa e generosa, assim que Tecla terminou de efectuar estas considerações, Helena levantou-se e repartiu com ela e Ananias o escasso alimento que possuía em casa.
— Vocês me perdoem, mas isto é tudo quanto tenho na despensa...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:51 am

Desde que o meu pai se foi, os negócios não andam bem!
Fiquei sozinha e, nos dias presentes, que pode uma mulher sozinha?! Tenho suportado o assédio de homens inescrupulosos, que, a troco de serem meus amantes, se oferecem para me proteger...
— Mas creio - considerou Tecla, falando sob os auspícios de sua intuição aguçada - que você não estará sozinha por muito tempo...
Ao impacto de tais palavras, que soaram tão naturais nos lábios da Mártir, Ananias, em sua timidez, não pôde esconder o rubor que lhe tomou conta do rosto.
Não obstante, mudando de assunto, Tecla, comentou:
— Que pena! Imaginei que, aqui em Selinus, à semelhança do que Paulo tem feito em outras localidades, pudéssemos fundar uma igreja!...
— E por que não?! - perguntou Helena, tendo os olhos a brilhar.
A minha casa é muito pobre, mas considerem-na como sendo de vocês...
Quero me consagrar a Jesus!
Será que Ele me aceita, assim como sou?!...
— Tolinha! - gracejou a interlocutora.
O Senhor não nos traça condições para segui-Lo!
E, caso Ele não a aceitasse, como aceitaria a nós, que estamos tão longe de seus sentimentos tão puros?!
A sua casa, doravante, também será de Jesus!
Amanhã mesmo, quando cair a noite, se você nos permitir, realizaremos a nossa primeira reunião...
— Tenho dois amigos a quem poderei convidar - disse Helena com a alegria de alguém que tivesse sendo visitada pelo Céu.
Rafael e Ana, com certeza, se interessarão...
E inquiriu:
— Ananias, você iria comigo convidá-los?!
— Sim, claro! - respondeu o jovem num transporte de felicidade.
— Amanhã, então, eu não irei trabalhar...
— Considero prudente tal providência - concordou Tecla.
— Precisamos ter cuidado, pois, embora o tumulto se tenha generalizado, pode ser que alguém nos tenha visto fugir conduzidos por você...
Assim se fez. No outro dia, com as presenças de Rafael e Ana, Tecla fundou em Selinus a primeira comunidade cristã.
Antes de continuar empreendendo viagem a Jerusalém - ela ainda desejava passar por Perga - a Mártir chamou Ananias e Helena, que, de facto, mostravam, dia a dia, maior afeição um pelo outro, e disse-lhes com a objectividade inegável:
— Desde o primeiro momento, percebi a afinidade que une os corações de vocês dois...
Por isso, eu não posso permitir que você, Ananias, continue a me acompanhar. Farei o restante da viagem sozinha...
Não temam, porque não haverá perigo.
Perga é uma cidade tranquila, e por lá não me demorarei mais que o suficiente para verificar a possibilidade de fundar algum núcleo dos princípios que abraçamos no Evangelho.
— Mas... - tentou argumentou Ananias.
— Peço-lhe não discuta comigo! - redarguiu Tecla que, quando necessário, também sabia ser enérgica.
Não nos intrometamos nos Desígnios Divinos!
O que aconteceu com vocês dois em Selinus não foi obra do acaso.
Tenho absoluta certeza de que um estava à espera do outro!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:51 am

23 - De Atália a Jerusalém
Passando por Perga, Tecla partiu para Jerusalém, esperando que lá, novamente, pudesse avistar-se com Simão, João e Paulo.
As notícias que, dificilmente, ela obtinha, davam conta de que a situação da "Casa do Caminho" não era das melhores, pois, com a perseguição recrudescendo, muitos dos mantedores de suas tarefas assistenciais haviam debandado.
Para embarcar, de Perga, ela viajou até Atália, na Lícia.
Em lá chegando, enquanto permanecia à espera de um barco que pudesse transportá-la com maior segurança, ela procurou uma hospedaria onde pudesse abrigar-se.
Atália era um povoado como Selinus, que vivia basicamente da pesca, porém mais próximo de Hierápolis, cidade vizinha de Laodiceia.
A senhora, dona do estabelecimento, era uma mulher idosa, que coxeava de uma perna, em consequência de fractura mal consolidada na juventude.
Ela a recebeu com simpatia e perguntou:
— Você viaja sozinha?!
É muita coragem de sua parte, mormente nestes dias em que os assaltantes pululam em todos os lugares, e, depois, se você for confundida com um cristão ou cristã...
Tecla, sem desejar expor-se, respondeu que tinha muitos amigos e que, desde pequena, aprendera a depositar a sua maior confiança em Deus, e não nos homens.
A sua resposta, contudo, deixou um tanto intrigada a dona da estalagem, pois não era comum que alguém se referisse a Deus naqueles dias, principalmente com a fervorosa entonação que identificara em suas palavras.
— Em Deus ou nos deuses?! - inquiriu Magda - este o nome da proprietária da pousada que era mantida em sua própria casa.
Compreendendo o alcance do questionamento, Tecla, sem hesitar, redarguiu:
— Em Deus!...
— Mas no Deus dos judeus - Jeová?! - tornou a mulher com extrema cautela, a olhar de um lado a outro, com receio de que alguém as escutasse conversando.
— Em Deus, nosso Pai! - esclareceu a corajosa Discípula, olhando fixamente para Magda, que, então, com a ponta do indicador, traçou sobre a mesa em que Tecla se acomodara para jantar, o vestígio do sinal da cruz, desfazendo-a quase em seguida com um pano que trazia na mão.
— Sim - disse Tecla, sem vacilar - é neste Deus que eu creio.
Magda esboçou discreto sorriso, pois ela também nutria grande simpatia pela doutrina do Nazareno.
Quando terminou o jantar, a hóspede perguntou a respeito das acomodações que poderia ocupar, a fim de passar aquela noite fria.
— Olhe, a pensão está cheia - disse-lhe a estalajadeira.
— Se você não se importar, poderá dividir comigo o meu quarto, que é o maior da casa.
Farei para você um preço especial...
E sussurrou-lhe aos ouvidos:
— Então, antes de dormir, poderíamos conversar...
Você concorda?!
— Sem dúvida! - respondeu a Pregadora do Evangelho.
Entraram a conversar sobre os negócios do albergue, e, através de Magda, Tecla ficou sabendo que somente dentro de dois dias lhe seria possível tomar uma embarcação, a fim de seguir viagem, rumo a Jerusalém.
De Atália, ela viajaria até Chipre e de Chipre até Cesareia, sita no litoral.
Quando anoiteceu, Tecla foi conduzida por Magda aos seus aposentos, que, gentil, naquela noite gelada, levara água quente destinada a que a sua hóspede se banhasse, reconfortando-se.
— Depois que você se trocar - disse - eu voltarei.
Verei se tenho na cozinha alguma erva com que fazer um chá para nós.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:51 am

Dali a pouco, a generosa hospedeira, com duas fumegantes canecas de chá nas mãos, voltava para também se recolher.
— Filha - disse-lhe - logo que chegou, fiquei impressionada, porque você se parece muito com a minha Virgínia, a única filha que, durante algum tempo, o Céu me concedeu.
— Que houve com ela?! - inquiriu a interlocutora, atenta.
— Eu a tive depois de velha e, tendo nascido muito frágil, cresceu com a saúde debilitada.
Ela teve um mal que acomete o peito e que faz expelir sangue pela boca...
Virgínia era o seu retrato!
— A senhora é viúva?! - deu Tecla sequência ao diálogo.
— Sim. O meu esposo era dono desta estalagem e de dois grandes barcos de pesca.
Não suportando a dor pela morte de nossa filha, um dia, quando acordei, ele estava morto ao meu lado.
Joaquim era o seu nome.
Um homem extremamente bom, cinco anos mais velho do que eu.
Efectuou-se uma pausa e Magda inquiriu:
— Mas, diga-me, você também é simpática à doutrina do Nazareno?!
Não tenha medo, minha filha, pode confiar em mim!
Quem me falou a respeito do Messias dos judeus foi um amigo de meu marido, residente na Ilha de Chipre, que, quando vinha por aqui, costumava se hospedar connosco.
O nome dele é José, José de Chipre!
— José de Chipre?! - admirou-se Tecla, logo identificando neste nome a figura de Barnabé, o qual, ao converter-se ao Cristianismo, assim passara a ser tratado.
— Sim. Depois que perdeu toda a família, ele se fez cristão.
A última notícia que tive dele conta que foi residir em Jerusalém, a ver se se encontrava com um sobrinho de nome Marcos.
— Eu o conheço! - exclamou a heroína cristã, pondo-se a narrar detalhes de sua conversão em Icónio.
Tive oportunidade de conhecê-lo na companhia de Paulo, cidadão romano de Tarso, na Província da Cilicia, na Ásia Menor, tornada território romano por Pompeu e Vespasiano.
Ouvindo-os falar sobre Jesus é que eu abracei a doutrina do Nazareno!
Magda, que não cabia em si de contente, replicou:
— Como este mundo, de facto, é pequeno!
José de Chipre era um homem muito rico, e, graças a ele, é que, certa vez, não fomos à falência!
Ele emprestou dinheiro a meu esposo para que recomeçássemos, pois, à época, repleto de mercadorias, o nosso único barco naufragara.
Então, em rápidas palavras, sempre conversando em baixo tom de voz - providência indispensável em tempos tão perigosos - Tecla resumiu a história de sua conversão ao Evangelho, dando à nova amiga notícias da Casa dos Apóstolos, em Jerusalém.
Ao falar a respeito da comunidade fundada por ela em Selinus, no lar de Helena, Magda manifestou o desejo de que a sua casa também se transformasse em reduto da Mensagem Cristã.
— Você está consciente do que deseja? - interrogou-lhe Tecla.
Se as autoridades da Sinagoga a descobrirem, com certeza, você haverá de ser denunciada e, então...
— Ah, minha filha! Desde que a minha Virgínia se foi, nada mais há que possa me prender neste mundo...
E, agora, a única maneira de encontrá-la será dispondo de mim mesma - e , para tanto, que melhor causa poderá haver do que esta?!
Desejo, sim, que a minha casa se transforme em um núcleo da doutrina consoladora do Nazareno!...
Foi assim que, antes de partir para Jerusalém, prosseguindo em sua abençoada semeadura, Tecla encontrou ensejo de fundar mais uma igreja cristã na Ásia Menor.
A cidade de Atália, onde Magda era muito estimada, devido à sua intensa actividade portuária, fez-se importante centro de difusão da Boa Nova.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:51 am

Quando estava prestes a embarcar, Magda chamou a Tecla em seu quarto e, removendo de sob a cama uma das pedras do assoalho, tirou significativa importância em moedas de ouro e prata, e, ao entregá-la a Tecla, pediu que fizesse aquele dinheiro chegar às mãos de Simão Pedro.
— Pelo que você me disse - ponderou -, eles estão tendo dificuldades para sobreviverem... Este dinheiro, em absoluto, não me fará falta.
Aliás, conservá-lo aqui, devido ao grande número de assaltos que vêm ocorrendo, põe a minha vida em risco! Eu não quero morrer por ele:
se eu tiver que morrer, que seja pelo Cristo!
— Creio que a sua dádiva chegará num momento de extrema necessidade, porque, segundo sei, Paulo e Barnabé estavam retornando a Jerusalém com os recursos que angariaram em sua primeira viagem missionária, mas o percurso realizado não foi assim tão extenso.
Simão e seus amigos estavam enfrentando enormes dificuldades para darem o que comer aos pobres e doentes, os quais, em verdadeira multidão, se aglomeram às portas de sua Casa.
— Procure tomar cuidado, filha - recomendou a bondosa senhora -, porque, mesmo dentro do barco, se alguém descobrir que você é portadora de tal importância, não hesitará, por ela, em lançá-la às águas do mar...
— Tomarei! Não se preocupe! - respondeu.
Eu já estava triste por estar voltando de mãos vazias...
Foi a Providência Divina que me fez bater às suas portas!
Que o Senhor a abençoe!...
De Atália a Cesareia, a viagem de Tecla transcorreu sem consideráveis incidentes.
Chovia muito, e a embarcação, açoitada pelas ondas, quase soçobrou, mas isso fez com que os tripulantes não tivessem outra preocupação que não a preservação de suas vidas.
Desembarcando em Cesareia, na Samaria, antes de chegar a Jerusalém da Judeia, a destemida seareira ainda teria que percorrer cerca de duzentas milhas, e, talvez, os mais perigosos de toda a sua caminhada!
A cidade de Cesareia ficava localizada no sopé sudoeste do Monte Hermon e chegara a ser visitada por Jesus.
Foi justamente nessa povoação que o Mestre dirigiu aos Discípulos a célebre pergunta:
"Quem diz o povo ser o Filho do homem?"
Ao que, segundo consta em Mateus, Simão respondeu:
"Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo"!
Segundo os registros de Lucas, neste diálogo com os discípulos, Jesus fez clara referência à Reencarnação, porque, ante a pergunta que Ele lhes formulara, se chegou a cogitar que o Mestre poderia ser Elias ou, então, algum dos antigos Profetas que retornara.
Evidentemente que, caso não admitissem a possibilidade da Reencarnação, a resposta dos discípulos a Jesus careceria totalmente de sentido - "Responderam eles:
João Batista, mas outros, Elias; e ainda outros dizem que ressurgiu um dos antigos profetas"!
Procurando não levantar suspeitas, Tecla sentiu necessidade de breve descanso.
O esforço da viagem para o organismo frágil de uma mulher começara a lhe pesar excessivamente.
Contudo, naqueles dias, nas cidades da Palestina, ninguém se encorajava, mesmo em se tratando de uma mulher, a oferecer abrigo a estranhos, porque a perseguição aos cristãos era pretexto para quaisquer espécies de arbitrariedade.
Amados e, ao mesmo tempo, odiados, os cristãos, em toda a Judeia, estavam sendo considerados na condição de verdadeiro flagelo para o povo, e a cabeça de muitos deles começava a ser posta a prémio.
Convém esclarecer que muitas pessoas, sendo acusadas injustamente pelos que lhes ambicionavam os bens materiais, terminavam entregando-se ao Cristo, justamente por isto - pela delação de que eram vítimas por parte de quem os acusava indebitamente, com o propósito de ficarem com parte do confisco de suas fortunas.
Foi o que aconteceu a um grande proprietário de terras, chamado Eli Ben Nohal, que, invejado por seus vizinhos, fora denunciado por um deles na condição de seguidor do Sublime Crucificado.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:52 am

Levado à presença das autoridades judaicas em Cesareia, a princípio, negou que tivesse aderido à doutrina do Cristo, porque, em verdade, ele não se fizera cristão.
Porém, um dos juízes de sua causa, que, desde muito, lhe invejava a posição, ordenou que ele e seus três filhos menores fossem açoitados.
Como não podiam fazê-lo confessar ser o que ele não era, o rude magistrado, que tudo tramara com o falso delator, mandou serem os seus filhos marcados com ferro em brasa!
Não suportando ver a tortura a que os meninos estavam prestes a ser submetidos, Nohal, que, por sua vez, tivera sido espancado diante deles, gritou para que todos ouvissem:
— Até agora, eu não conhecia a Jesus senão pelo pronunciar de seu Nome, mas, doravante, eu sou Renego o Deus de Moisés e me entrego ao Deus de Jesus Cristo!
Somente agora, pelo que vocês estão fazendo a mim e aos meus filhos, percebo que Ele foi injustamente pregado na Cruz!...
Tomou fôlego e, em lágrimas, voltou a dizer:
— Eu sou cristão!
Eu sou cristão! - bradou, a contorcer-se entre as correntes que o prendiam.
Vendo o pai naquele desespero, o filho mais velho, um rapazinho de apenas quatorze anos de idade, endossou as palavras do progenitor:
— Eu também, papai!
Eu também sou cristão!...
Era assim que, sem sequer terem tido ainda oportunidade de conhecer a doutrina de Jesus, muitos se faziam cristãos.
— Sou cristão! - continuava o rapaz com estoicismo.
Sou cristão, por mim e por meus irmãos menores!...
Todavia, em vez de, mediante confissão, quando seguida de abjuração, serem libertados, como era de praxe, Nohal ouviu a sentença:
— Hoje, teremos espectáculo! - proclamou o insano magistrado que ansiava por lhe usurpar os bens.
Que eles sejam trucidados pelos touros!
Os cristãos são agentes do Maligno!...
Desde que eles surgiram, nunca mais o povo judeu pôde saber o que é paz!
Os romanos estão furiosos connosco, e, por isso, têem aumentando os seus impostos...
Que os novos cristãos sejam levados para o "cercado"!...
Evidentemente que Cesareia, como quase a totalidade das cidades na Judeia, não possuía anfiteatro, mas em todas elas existia um espaço, denominado "cercado", ou pequeno "circo", destinado a lutas e competições, bem como a outros espectáculos públicos que também incluíam as festas.
De imediato, levados para o "cercado", uma espécie de arena precariamente armada, foram soltos os quatro, com Nohal e seu filho mais velho tentando proteger os dois menores do que estava prestes a lhes suceder.
Em torno do "cercado", em semicírculo, a multidão, sempre curiosa pelo inusitado, aglomerara-se, na expectativa do que, dentro de instantes, se desenrolaria.
Três touros bravos, com os olhos devidamente vendados, foram trazidos e, sob a ordem do iníquo juiz, foram soltos no improvisado "circo".
Era costume que, em espectáculos desta natureza, os touros, logo em seguida, fossem sacrificados, com as suas carnes ficando à mercê da plateia.
Por este motivo, com o intuito de abatê-los, os lanceiros já se encontravam a postos.
Muitas vezes, no entanto, acontecia um touro escapar e, até que fosse morto, promovia grande estrago à multidão, causando até outras mortes!
Assim, pois, que se viram livres, os três ferozes bovinos, atraídos pela presença de Nohal e dos filhos no "cercado", avançaram, com fúria, contra eles, sob o aplauso frenético do povo.
Com certeiro golpe, um dos touros, correndo e apontando os chifres pontiagudos para uma das vítimas, atravessou o peito do filho mais velho de Nohal, o qual, sem gemer, tombou numa poça de sangue!
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Ave sem Ninho

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:52 am

Os outros dois correram em direcção ao pai, que, oferecendo o próprio corpo por escudo, na protecção aos outros dois meninos, igualmente caiu ferido de morte, sendo insistentemente escoiceado pelos bravios animais!
Desnecessário descrever como os dois outros menores pereceram sob as patas implacáveis dos ferozes e agressivos touros.
Não obstante, naquele dia, o inesperado aconteceu, porque, como se estivessem possuídos, os mesmos temíveis bovinos, rompendo o "cercado", correram na direcção da multidão, chifrando e pisoteando a quem encontrassem pela frente.
Um deles, tomando rumo contrário ao dos outros dois, precipitou-se na direcção do iníquo juiz, que, tentando fugir, acabou varado pelas costas, tendo morte instantânea!
O povo, que se dispersara, interpretou o facto como sendo um castigo do Deus dos cristãos contra ele, espalhando-se a notícia de que tal divindade era poderosa e depressa se vingava de seus inimigos!...
Em Cesareia, depois daquele dia fatídico, muitos procuraram maiores informações a respeito da doutrina do Filho do Carpinteiro de Nazaré e, assim, se inclinaram à nova fé.
Como precisasse vencer a distância de duzentas milhas até Jerusalém, percorrendo estradas perigosas, sendo abordada por um mendigo de boa aparência, que lhe estendia a mão súplice, Tecla perguntou a ele se não conhecia ninguém confiável que tencionasse ir a Jerusalém - ela estaria disposta a pagar pela companhia.
— Minha senhora - respondeu o mendigo, que se chamava Petrónio -, há muito que pretendo ir a Jerusalém, mas não disponho de recursos para a viagem.
Quase não posso caminhar...
Se a senhora conseguir adquirir algum animal de transporte, eu não lhe cobrarei nada pela minha companhia.
Conheço um mercador de jumentos que quer vender dois dos animais mais velhos de seu plantel.
— E que pretende você fazer em Jerusalém? - perguntou-lhe Tecla.
— Ah!, eu tenho ouvido falar muito do Messias...
Dizem que Ele já veio e que foi crucificado.
A senhora sabe, as notícias correm...
Mas eu gostaria de saber isso por mim mesmo, pois meu pai afirmava que, segundo os seus estudos das Escrituras, o Messias estava para nascer!
Então, deve ser verdade...
As profecias adiantavam que Ele seria rejeitado!...
— No entanto, por que o senhor está a mendigar?!
Não me parece que tenha sido mendigo a vida inteira...
— E, de facto, não, minha senhora - respondeu o homem.
— Contudo, ser cristão sendo mendigo, talvez seja a melhor forma de sobreviver hoje em dia!
Ninguém liga para mim! Muitos até supõem que eu seja louco!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:52 am

24 - "Actos de Paulo e Tecla"
A viagem da litorânea Cesareia a interioriana Jerusalém corria sem maiores incidentes.
Em companhia de Petrónio, o qual passou a admirar a coragem daquela mulher que, sozinha, se arriscava constantemente na difusão do Evangelho, Tecla, durante o percurso, entregava-se ao fervor da oração.
Foi quando, de súbito, se lhe desenvolveu a clariaudiência!
O calor era intenso, e ela, não mais tão jovem quanto outrora, sentia que as suas forças se esvaíam, quando escutou gentis palavras de estímulo a lhe ecoarem aos ouvidos:
— Tecla, não esmoreça!
Estamos com você...
Principalmente, nossas irmãs necessitam muito de seus exemplos de fé e perseverança!...
Pensando que delirava ou mesmo que as palavras ouvidas por ela tinham partido de Petrónio, perguntou:
Quê?! Foi você que falou, Petrónio?!...
Não, meu irmão, eu não desanimarei...
Apenas, estou um pouco cansada.
Estranhando a reacção da senhora, que, para ele, de facto, parecia delirar sob o Sol escaldante, o companheiro de viagem, comentou:
— Mas eu não disse nada, senhora!...
Procuremos a sombra de uma rocha, para descansarmos um pouco, pois eu também já ando com as ideias confusas.
— Isso! — Tornou a ouvir na acústica da alma a voz que, aos poucos, se lhe identificaria como sendo a de Abigail.
Descansem um pouco...
Jerusalém já não está tão distante assim! Refaça as energias, Tecla!
Encontrando a sombra de pequeno monte que se elevava próximo à estrada, ambos para lá se dirigiram e nele se recostaram, esperando que o calor amainasse.
— Eu não sei - comentou Tecla - como possa existir alguém que se sinta inútil para servir a Deus neste mundo, se até uma pedra bruta, esquecida num trecho de caminho deserto, pode nos servir de abençoado refúgio...
Petrónio, o mendigo, concordou dizendo:
— Já fui um homem de posses, senhora...
Infelizmente, eu não soube ser previdente o suficiente, pois, caso contrário, não estaria na condição em que hoje estou...
— E não teria encontrado a Jesus! - redarguiu Tecla com precisão.
Alguns encontram a Jesus porque O procuram; outros, porque são procurados por Ele...
— Que modo estranho tem o Mestre de nos chamar ao Seu Reino, não?! - observou o companheiro de andança.
— Por certo, meu amigo, quando, noutras oportunidades, Ele nos chamou de maneira diversa, nós não O ouvimos...
Mas, Petrónio, diga-me:
não foi você que falou comigo, quase o tempo todo, durante a viagem?!
Porventura, cruzamos com alguma caravana?!...
— Não, senhora! Não era eu!
Tampouco cruzamos com quem quer que fosse - o caminho esteve sempre deserto!
Imaginei que a senhora estivesse orando em voz alta; por isso, não quis incomodá-la.
É que, dali em diante, à sensibilidade intuitiva dela viria juntar-se a faculdade psíquica da clariaudiência, que, em muitas ocasiões, lhe seria extremamente útil no apostolado cristão.
Aliás, a mediunidade, na sua Primeira Carta aos Coríntios, seria qualificada por Paulo de "dons espirituais", chegando a escrever que "a manifestação do Espírito é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso".
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:52 am

Quando o Sol começou a se esconder, Tecla e Petrónio, com as montarias igualmente descansadas, deliberaram continuar viagem. Contudo, ao se prepararem para montá-las, quatro homens surgidos de repente, armados de pedras e paus, os cercaram, anunciando, ameaçadores:
— É um assalto!
Não reajam, pois, caso contrário, os mataremos...
Queremos apenas os animais!...
Temendo pelo pior, Petrónio quis esboçar alguma reacção, mas, de imediato, foi contido por Tecla, que, com serenidade, lhe tomou das mãos as rédeas do jumento que ele montava e, junto com o seu animal, entregou as duas alimárias aos quatro assaltantes.
— Podem levá-los - disse.
Talvez lhes sejam mais úteis que a nós.
Faremos o restante da viagem a pé...
— Vocês têm dinheiro?! - perguntou o chefe do bando.
— Não! - respondeu Petrónio.
— Temos, sim! - replicou Tecla de imediato.
Nem ele mesmo sabe, mas temos, sim! - confirmou, ante a surpresa do mendigo.
Temos, mas ele não nos pertence...
O chefe do bando sorriu e ironizou:
— De facto, não lhes pertence porque, doravante, será nosso!
— Não, meu irmão! Não nos pertence porque pertence a Jesus Cristo!
Eu apenas o estou transportando a fim de que se transforme em pão para os pobres de Simão Pedro, em Jerusalém.
Ouvindo o nome de Jesus ser pronunciado, os quatro homens, instintivamente, recuaram, com um deles desatando a gritar:
— Ela é uma bruxa!... Fujamos!
Ou a maldição dos cristãos nos acompanhará para sempre!...
Assim dizendo, sem olharem para trás, os quatro assaltantes, que nem sequer quiseram levar consigo os jumentos, saíram correndo em direcção ignorada!
Sem conseguir deixar de sorrir, Tecla comentou, enquanto procurava acomodar-se no dorso do pequeno animal que a servia:
— Você viu como o nome de Jesus pode nos proteger de várias maneiras, Petrónio?!
Se, por conta Dele, muitos correm atrás de nós; por conta Dele, muitos correm de nós...
É que, naquela época, pelas curas que realizavam e pelos espíritos que expulsavam dos ditos endemoninhados, bem como pelo que acabava sucedendo aos perseguidores dos cristãos, como, por exemplo, a conversão do próprio ex-doutor Saulo de Tarso, os adeptos do Nazareno, pelos mais supersticiosos, eram tidos como poderosos feiticeiros...
Em Jerusalém, todos sabiam que um dos doutores da lei que, em pleno Sinédrio, esbofeteara a Simão, logo após fora vítima de grave problema de saúde e sofrera estranha hemiplegia - a mão com que ele agredira o inolvidável
Pescador de Cafarnaum ficara paralítica!
Depois desse episódio, nenhuma autoridade judaica ousava tocar directamente um cristão - mandava que os seus subalternos o fizessem!
Chegando à considerada Cidade dos Profetas, Tecla e Petrónio se dirigiram à "Casa do Caminho", onde o mendigo ficou impressionado com o número de necessitados que, como se estivessem a sitiá-la, permaneciam nos arredores da Instituição.
— É sempre assim, meu irmão - esclareceu a Mártir.
E, sorrindo, acrescentou:
— Você sabe que muitos não vêm até aqui porque ficam com medo de contrair uma doença?!...
À porta da Instituição, foram recebidos por João, que, ternamente, os abraçou, sendo apresentado a Petrónio, com quem, pelas suas vestes de mendigo, ele depressa se identificou.
(Petrónio, séculos mais tarde, reencarnaria na personalidade de Frei Leão, um dos mais fiéis discípulos de Francisco de Assis!)
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 01, 2018 9:52 am

— Tecla, minha irmã - indagou-lhe João -, como foi a viagem?!
E Ananias?! Você esteve com a nossa Mãe?!
Vamos! Entremos! Conte-me as novidades!...
Enquanto, rapidamente, comiam alguma coisa e tomavam um pouco de vinho, a recém-chegada, sintetizando, narrou a João os principais lances de sua viagem a Hébron, onde pudera estar com Maria de Nazaré.
Contou-lhe sobre a afinidade entre Ananias e Helena, o que fez João sorrir com imenso carinho.
— Onde está Simão?! - perguntou Tecla em seguida.
— Simão e Tiago - respondeu João - foram, outra vez, convocados a darem explicações ao Sinédrio, que, segundo soubemos, está sendo ameaçado pelo Imperador Cláudio, porque, em Roma, muitos se têm feito cristãos!
Na Capital do Império, estão todos apreensivos, pois os seguidores de Jesus têm-se multiplicado!
Simão, inclusive, está sendo chamado com insistência para ir pregar em Roma! Breve, ele estará de partida...
Entrementes, antes que Tecla tivesse tempo de perguntar, eis que surgem Paulo e Barnabé, que não sabiam de sua chegada.
O encontro dos três foi emocionante, pois, ao deparar com os reputados missionários, ela emocionou-se profundamente, pondo-se até a chorar, no que foi paternalmente confortada pelo segundo.
— Sossegue, minha filha! - disse-lhe Barnabé.
Está tudo bem!
Que alegria em revê-la!...
Simão e João nos falaram de seu trabalho!
Que o Senhor seja louvado!...
Paulo, porém, um tanto mais reservado, limitou-se a depositar-lhe um ósculo na fronte, comentando:
— Você não mais se parece, em praticamente nada, com aquela jovem que conhecemos em Icónio...
Em verdade, as peregrinações, as lutas e as muitas privações faziam com que Tecla parecesse bem mais idosa.
O mesmo, no entanto, podia se dizer de Paulo e Barnabé, especialmente deste, que, doente do coração e tendo os pés um tanto inchados, caminhava com dificuldade.
Muito reservada, Tecla, porém, evitou fazer qualquer comentário sobre o abatimento dos dois amigos, especialmente de Paulo, que dela sempre mantinha certa distância.
Não demorou que Simão e Tiago regressassem.
Após os cumprimentos iniciais, em reunião informal, Simão pôs os companheiros a par do que estava acontecendo.
— As notícias são boas e também ruins - disse.
Boas, porque a mensagem evangélica, com velocidade, está se difundindo em Roma; ruins porque, com isso, podemos esperar medidas mais severas contra nós a qualquer momento.
Muitos senadores estão exigindo que Cláudio renuncie em favor de Nero, seu filho adoptivo, inicialmente, justo e brando, mas, depois, um verdadeiro tirano, cruel e sanguinário, mormente para com os cristãos.
Se ele chegar ao poder!...
O Sinédrio, ao que me pareceu, está perdendo o prestígio que tinha com Roma, porque não está conseguindo sufocar o nosso Movimento Renovador!
— E jamais lograrão fazê-lo! - exclamou Paulo.
— Sim - ponderou Simão -, mas, por outro lado, devemos considerar que, com a multiplicação de adeptos, o Movimento de expansão do Evangelho nos está fugindo ao controle...
Muitos, indebitamente, já começam a falar em nome do Senhor...
Falsos seguidores Dele enxameiam em toda parte!...
— Creio que isso seja benéfico - ousou comentar Tecla, embora com certa timidez.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:08 am

— Não! - reagiu Paulo.
Isso não pode acontecer...
Ao dizê-lo, de imediato, foi seguido por Tiago:
— Paulo tem razão!
Não podemos consentir que os pagãos se apropriem de nossas ideias - precisamos continuar centralizando o Movimento em Jerusalém...
— Não nos esqueçamos, no entanto, do que nos disse o próprio Senhor - considerou João, com propriedade:
"E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo"!
Sinceramente, acredito que o Messias não tenha vindo apenas para nós, os judeus, nem tampouco apenas para pagãos romanos...
Ele foi bem claro: "...atrairei todos a mim mesmo"!
— Sempre fui favorável - redarguiu Paulo - a que a Mensagem Cristã chegasse aos gentios, pois eu próprio era e ainda sou um deles!
Todavia, não concordo com o Movimento crescer desordenadamente...
Neste sentido, temo pelo futuro!
— Mas eu não lhe disse, Paulo, que isso era um perigo?! - rebateu Tiago.
Quando me opus a que a Mensagem fosse levada aos gentios, era isso o que eu mais temia e mais continuo a temer!
— Agora, porém, é tarde... - considerou Simão.
— A questão - falou João, de maneira inspirada - é que não estamos pensando do mesmo modo que, talvez, o Senhor esteja pensando...
Com o Movimento centralizado em Jerusalém, ele seria facilmente sufocado. Espalhando-se assim...
Vocês se recordam do que Ele nos disse?!
— "O espírito sopra onde quer e ouves sua voz, mas não sabes donde ele vem nem para onde vai..."
Acredito que devemos continuar fazendo o nosso trabalho, zelando unicamente pela autenticidade da Mensagem que nos foi confiada pelo Mestre!
— Estou com João! - frisou Simão, indagando em seguida.
— O que nossa irmã Tecla pensa a respeito?!
Não satisfeito com a atitude de Simão, pedindo o parecer de uma mulher, Tiago, alegando afazeres inadiáveis, levantou-se e saiu, no que, diga-se, quase foi seguido por Paulo.
— Eu também fui educada como pagã, pois meus pais, em que pese à ascendência judaica do genitor, Mésimo, por parte de alguns parentes, igualmente rendiam culto aos deuses.
Agradeço ao Senhor que, através da palavra de Paulo, me resgatou da indigência espiritual!
A Verdade deve ser livre, pois, se a prendermos, ela deixará de ser a Verdade!
Com todo o respeito à opinião de Tiago e Paulo, bem como à de outros cujos pensamentos se identificam com os deles, não devemos nos preocupar com outra coisa que não seja semear, porque, a rigor, o crescimento da semente não reflecte a vontade do homem, mas de Deus!
Em Hébron, nossa Mãe nos falou a respeito da Parábola do Semeador...
Neste instante, percebendo a estatura espiritual de Tecla, Barnabé ousou sugerir:
— Paulo, talvez eu não possa acompanhá-lo ao longo de toda a sua próxima viagem: minha saúde se encontra um tanto comprometida.
Sei que você pretende cumprir mais amplo
roteiro. Sugiro que, com a finalidade de lhe fazer companhia, a irmã Tecla siga connosco.
— Uma mulher em minha companhia?! - reagiu o Apóstolo.
— Que haverão de pensar de mim?!...
— E que haverão de pensar de Tecla, Paulo?! - rebateu Barnabé, constrangendo o companheiro à reflexão.
O amigo Petrónio, se ele não se importar, poderá também seguir connosco.
O companheiro de viagem de Tecla, que a acompanhara de Cesareia a Jerusalém, concordou de imediato.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:08 am

— Claro! Com a maior alegria! - respondeu.
E, depois, conheço bem todas essas estradas que cortam a Síria, a Cilicia, a Galácia e a Frigia, até a Macedónia...
Paulo, que ainda resistia, retrucou:
— Mesmo viajando em companhia de três homens, não sei se ficará bem ter uma mulher na peregrinação que pretendo empreender...
— Paulo - observou Tecla, inspirada por Abigail -, se as mulheres estão servindo para morrer por Jesus, por que não haveriam de servir para viver por Ele?!
O argumento foi definitivo.
Pressionado pelos olhares de Simão, João e Barnabé, finalmente, Paulo anuiu, e não se arrependeria, porque, nas vezes em que o Apóstolo estaria doente, Tecla é que dele haveria de cuidar com zelos fraternais.
Foi a partir desta decisão que começariam a se elaborar os célebres "Atos de Paulo e Tecla" que, injustamente, alguns estudiosos do futuro considerariam obra de natureza apócrifa.
Quando Tiago soube que Tecla, na primeira oportunidade, partiria em companhia de Paulo, ficou contrariado, mas não deixou de experimentar certo alívio, porque a presença dela na "Casa do Caminho" já era motivo de contrariedade para ele, principalmente, quando Simão Pedro a convidava a falar nos cultos que se realizavam.
Na noite daquele mesmo dia, após as laboriosas actividades de assistência aos desvalidos, a Servidora, que se acomodara num banco tosco junto a João e Petrónio, o qual se tomara por ela de grande afeição, esperando que a palavra a ser ouvida em pregação fosse a de Paulo ou a de Tiago, senão, então, a do próprio Simão, surpreendeu-se quando o líder espiritual da "Casa do Caminho" a convidou a falar.
— Ah, quem sou eu - procurou escusar-se ao convite formulado - que ainda não me considero completamente nascida do Senhor!...
— Pois nós, igualmente, ainda estamos a nascer Dele, minha filha! - replicou Simão, com humildade.
Aqui não há ninguém que do Cristo já se possa considerar completamente nascido!...
A palavra sábia de Simão fez os que ali se demoravam reconhecerem o valor e o direito da mulher na pregação da Boa Nova e silenciarem possíveis contestações ou resmungos.
Naquele mesmo instante, Tecla ouviu o que Abigail lhe sussurrava aos ouvidos:
— Levante-se e fale!...
Não obstante o pioneirismo dela e o heroísmo de tantas almas femininas em defesa da fé cristã, como Blandina, a jovem escrava, e outras tantas que permaneceram no anonimato nas páginas da História do Cristianismo Nascente, encorajando
os homens que elas próprias geraram a morrer por amor a Jesus Cristo, por séculos e séculos, que agora estão quase a expirar, as mulheres se viram confinadas a mosteiros e conventos, quase completamente entregues a uma vida de contemplação totalmente nulificante!
Ainda no Concílio de Trento, em pleno século XVI , a Igreja Católica, através de seus teólogos, discutia se a mulher realmente possuía alma, já que, segundo diz a Bíblia, Jeová soprou apenas no nariz de Adão, esquecida de que, no século VIII, uma mulher de nome Joana, nascida em Constantinopla, extremamente inteligente e culta, entre os anos de 850 e 858, dirigira os destinos da Igreja com o nome de João VIII.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:08 am

25 - Viagem Missionária
Simão e Paulo compreendiam que era preciso agir com rapidez, porque, intuitivamente, sentiam que não demoraria muito serem chamados a maiores testemunhos.
Roma que, de início, lidara com os cristãos como se eles constituíssem apenas mais um dos muitos focos de sedição do povo judeu contra os dominadores, não lhes ligando, portanto, muita importância, começava a perceber o alcance daquele Movimento que, a cada dia, fazia mais adeptos na Capital do Império.
Cláudio, o desventurado Imperador, pressionado pelas forças políticas do Governo, publicou um édito pelo qual expulsava os judeus das terras romanas e, com eles, os cristãos, pois, até então, os latinos não faziam muita distinção entre uns e outros - o que mais irritava os adeptos do Judaísmo contra os seguidores do Cristo, culpando-os por todos os excessos com que, ultimamente, vinham sendo tratados pelos dominadores.
Ambos, Simão e Paulo, acalentavam o desejo de pregar o Evangelho em Roma, considerado o centro do Paganismo.
Aliás, a presença deles dois era reclamada por cristãos romanos que, bravamente, vinham resistindo às prisões e aos espancamentos, mesmo à morte para que abjurassem a nova fé.
Mais tarde, ao suceder a Cláudio, o Imperador Nero daria a monstruosa mostra de como os cristãos haveriam de ser tratados por ele.
Um jovem nobre e corajoso, de nome Alexandre, que se houvera feito cristão e que, por isso, se insurgira contra os deuses, na Brescia, pregava abertamente sua crença na doutrina do Nazareno.
A referida cidade estava sob a tutela de Diana, irmã de Apolo - deuses romanizados, antes gregos:
Artemis e Febo.
Alexandre, que passara a liderar os cristãos, combatendo a idolatria à deusa, desafiava os pagãos.
Imitando Elias, que se defrontara com os sacerdotes do deus Baal, o jovem líder cristão convidou uma multidão ao templo da deusa, onde, à frente de todos, desafiou sua estátua de pedra, dizendo:
— Em nome de Jesus Cristo, ordeno-lhe, ó demónio Diana, que destrua logo seu altar e reedifique-o para nosso Deus!...
Horrorizados com o que consideraram insuportável blasfémia, os sacerdotes tentaram fazê-lo se calar, mas o desafiante continuou a falar:
Se, de facto, você é uma deusa e possui algum poder, fulmine-me com ele, pois, caso contrário, evoco o poder de Jesus Cristo contra o demónio que você representa!...
Segundo a tradição, antes que os sacerdotes agissem contra Alexandre, ouviu-se grande ruído e a estátua da deusa, como se estivesse sendo destruída a martelo, transformou-se em ruínas, enquanto o jovem cristão prosseguia, com voz firme e resoluta:
— Ordeno que você fuja daqui...
Afaste-se, demónio enganador!...
Então, ainda segundo a tradição religiosa, estranhos rugidos de animal selvagem ecoaram no templo, acompanhados de ladridos de cães, para, em seguida, tudo voltar à calmaria!...
Quando a poeira se dissipou, à feição do profeta Elias, no Monte Carmelo, Alexandre estava de pé, contemplando, vitorioso, mas complacente, a multidão a apupar os sacerdotes da deusa!
Então, não se dando por vencidos, avançaram de punhos cerrados sobre ele, o espancaram e o levaram à presença de Feliciano, que era o Prefeito da cidade.
— Queremos que ele seja condenado à morte! - exigiram os sacerdotes, que, desmoralizados, viam seus interesses definitivamente arruinados.
Feliciano hesitou.
Conhecia a família de Alexandre e não desejava chegar a tais extremos.
E, depois, também conhecia de perto o carácter dos sacerdotes do templo, que viviam de explorar a credulidade alheia.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:08 am

Porém, pressionado, o Prefeito tentou fazer com que o jovem cristão reconhecesse que havia exagerado, e, assim, a sua pena seria comutada - apenas e tão-somente, ele seria obrigado a providenciar uma nova estátua da deusa.
— Nero - disse-lhe Feliciano - ordena que a seita cristã seja proscrita de todo o Império...
Ser cristão é crime!...
— Não recuarei - responde Alexandre.
— Pelo menos - insiste Feliciano -, ajoelhe-se diante da estátua de Marte, o grande Deus da Guerra, e eu declararei você livre.
Esqueceremos o episódio, mesmo porque a estátua de Diana pode ter sido destruída por um tremor de terra e não pela acção do Deus dos cristãos...
— Marte?! - exclamou Alexandre.
Trata-se de outro demónio...
Não obedecerei!...
E, erguendo os olhos para cima, orou diante de Feliciano:
— Senhor Jesus Cristo, ensina igualmente a este que somente o Senhor é Deus, que somente o Senhor é santo e poderoso!...
Conta-se que, quando terminou a ardente súplica, a estátua de Marte, da qual Feliciano estava rente, se fez em pedaços e, em sua queda, quase o atingiu!
— Sacrilégio! - gritou o Prefeito, ordenando, de imediato, que o sacrílego iconoclasta fosse açoitado com correias de búfalo e que, depois de ter as carnes retalhadas, fosse amarrado à cauda de um touro bravio e cego, que deveria arrastá-lo por toda a cidade.
Ante o olhar desafiador dos sacerdotes, a ordem foi cumprida.
Arrastado pelo búfalo enraivecido a correr sem rumo, o corpo do jovem supliciado ora era projectado contra pilastras, ora contras paredes de pedra das casas, deixando um rastro de sangue pelas ruas.
A cidade, em estado de frenesi, aplaudia o espectáculo que lhe era proporcionado à ignorância.
Todavia, quando o touro selvagem se deteve em sua correria desenfreada, Alexandre, para espanto geral, embora todo ensanguentado, levantou-se e, com as forças que lhe restavam, pôs-se a pregar triunfantemente o Evangelho!
— Em verdade - gritou Feliciano -, existe um demónio poderoso que o protege e que o possui...
Vejamos, no entanto, como ele reagirá agora.
Decepem os braços do condenado! - ordenou.
Sem, contudo, calar-se, Alexandre, imperturbável, continuava pregando Jesus Cristo, e, com a sua atitude estóica, a pouco e pouco, o povo começou a murmurar que, de facto, o Deus dos cristãos deveria ser uma grande Potestade - o Deus verdadeiro!
Obedecendo à ordem de Feliciano, os carrascos se aproximaram e, com fortes golpes de espada, lhe deceparam os braços, mas, mesmo assim, Alexandre, em estado de transe, sustentado por forças invisíveis, não se calou, com os aplausos do povo dando lugar agora a protestos veementes contra os sacerdotes e o Prefeito.
— Ah! - bradou Feliciano.
Você ainda não se cala?!
Cortem a cabeça dele!
Vejamos, assim, se ele continuará a falar...
Com um só golpe de espada, a cabeça de Alexandre rolou por terra, mas, efectivamente, era tarde, porque os sacerdotes pagãos haviam sofrido fragorosa derrota em praça pública, e o jovem mártir cristão passaria a ser aclamado santo.
Somente naquele dia, quase todos os habitantes de Brescia se tornaram cristãos.
Após ultimar preparativos para a viagem próxima, Paulo e Tecla conversavam com Simão Pedro nas dependências da "Casa do Caminho", de cuja direcção, devido aos muitos afazeres do Apóstolo de Cafarnaum, Tiago, filho de Alfeu, gradativamente, ia assumindo a responsabilidade.
— Paulo - dizia-lhe Simão, também chamado Cefas, -, eu sinto que o tempo urge, e não podemos adiar realizações...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:09 am

Dentro em breve, deverei ir a Roma, de onde, sinceramente, não sei se voltarei.
Nem mesmo posso dizer a você que não seja esta a última vez que nos estamos encontrando neste mundo...
— Ora, Simão - tentou desconversar o ex-doutor de Tarso - , não pense em ir-se reunir ao Senhor agora!...
Precisamos muito de sua presença connosco, porque a sua autoridade moral impõe silêncio a muitas discórdias existentes entre nós.
Tecla, por sua vez, acentuava:
— O Senhor não solicitou que você, Simão, apascentasse suas ovelhas?...
— Sim - respondia o Apóstolo, de olhos marejados.
Pressentindo que eu O negaria por três vezes consecutivas, Ele me perguntou se eu O amava:
"Simão, filho de João, tu me amas?"
Obviamente, sem pestanejar, eu lhe respondi que O amava; então, Ele me pediu:
"Pastoreia as minhas ovelhas".
Mas, justamente por isso, sinto que devo ir a Roma...
Logo, ao intervalo que se fez espontâneo, Simão voltou a falar:
— Paulo, eu sei do carinho que você sempre nutriu pelos gentios, e, graças ao seu esforço neste sentido, como também ao de Tecla, o Evangelho v em se difundindo com rapidez até às cidades da Macedónia...
Considere, porém, que todos nós estamos sujeitos ao imprevisível - se o Senhor enfrentou a morte no madeiro, não podemos esperar que a tarefa nos seja menos penosa.
Utilize a facilidade de que você dispõe para escrever, Paulo, e escreva, como também você, Tecla - escrevam cartas às comunidades cristãs junto às quais não podemos estar com facilidade, pois a maioria de nossos irmãos são pessoas simples, carentes de uma palavra de orientação...
A sugestão de Simão, mais tarde, seria lembrada por Paulo, logo após a frustração experimentada por ele em Atenas, no Areópago.
Impossibilitado de continuar atendendo às solicitações de todas as igrejas, ele registraria, pela intuição, a voz de Estêvão a lhe dizer como se fosse a voz do próprio Senhor:
— "Poderás resolver o problema, escrevendo a todos os irmãos em meu nome; os de boa vontade saberão compreender, porque o valor da tarefa não está na presença pessoal do missionário mas no conteúdo espiritual do seu verbo, da sua exemplificação e da sua vida.
Doravante, Estêvão permanecerá mais conchegado a ti, transmitindo-te meus pensamentos, e o trabalho de evangelização poderá ampliar-se em benefício dos sofrimentos e das necessidades do mundo"!
Reunidos no Mundo Espiritual, Estêvão e Abigail acompanhariam, de perto, a segunda maior viagem missionária de Paulo, também a mais extensa delas.
Partindo de Jerusalém, ele passa por Antioquia, na Pisídia; vai a Tarso, sua cidade natal, na Cilicia, Derbe, Listra, Icónio, etc., chegando até a Macedónia, na Grécia, e que, em 146, seria reduzida a província romana.
Barnabé, Tecla e Petrónio, dentre outros, seus companheiros de viagem, o assessoravam em todas as suas necessidades, porque, no longo percurso, várias vezes, o Apóstolo dos Gentios viria a carecer dos cuidados fraternais que os amigos lhe dispensariam.
Antes, porém, que prossigamos com a nossa narrativa, carecemos de registrar a causa de alguns historiadores, equivocadamente, afirmarem que, em determinada altura de sua vida, traindo os votos afectivos com Abigail, Paulo se fizera pai
de uma menina, inclusive com insinuações maledicentes a respeito de seu relacionamento com Tecla.
É que, após terem passado por Derbe e Listra, chegando a Icónio, Paulo teve oportunidade de conhecer Tamar, a filha adoptiva de Tecla, que lá permanecia sob os cuidados de Acácia.
Tomando-se de grande afeição pela garota, consentiu que ela passasse a tratá-lo por "Pai".
Os inimigos de Paulo e Tecla, que ainda eram numerosos em Icónio, encarregaram-se de espalhar a calúnia, dizendo que ambos, desde muito, se tinham feito amantes, e que, portal motivo, Tecla rompera com Tamíride, mergulhando sua família em grande desgosto...
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Ave sem Ninho

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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