TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:09 am

— Meu "Pai" - chamava-o assim a garota, que, por intercessão espiritual de Tecla, havia sido curada de hanseníase -, eu gosto muito do senhor...
Não conheci o meu "Papai" verdadeiro e poucas lembranças tenho de minha "Mamãe", mas, para mim, o senhor e Tecla são os pais que eu tenho para amar!...
Diante de tanto carinho, Paulo, com a menina junto a si, não tinha coragem de rejeitá-la ou mesmo de pensar nas consequências históricas que o facto haveria de ter para a sua biografia de homem de Deus - e, com certeza, isso pouco lhe importava!
O próprio Simão Pedro, tanto em Cafarnaum quanto em Jerusalém, também era acusado de abusar de jovens possuídas que o procuravam para se livrarem dos espíritos que as atormentavam...
Numa ocasião, no segundo ano da Missão do Senhor, muito entristecido, o ex-pescador procurara o Mestre para se queixar de certa maledicência que, neste sentido, vinha se espalhando em torno de seu nome.
— Senhor - queixou-se ao Divino Amigo -, eu estou sendo acusado de engravidar uma jovem que...
— Eu sei, Simão! - simplesmente, respondeu o Senhor.
— Juro-Lhe, no entanto...
— Não há qualquer necessidade disso, Simão! - interceptou-o o Mestre, antes que concluísse a frase.
Do Filho do Homem também dirão tudo isso e muito mais!
Se, para me seguir, não estiver disposto a suportar o veneno da maledicência humana, como poderá, de mim, vir a prestar maiores testemunhos quando a isso você for chamado?!...
— Tamar, minha filha - dizia-lhe Paulo com a ternura que qualquer homem, tendo o mínimo de sentimento no coração, é capaz de se dirigir a uma criança órfã -, espiritualmente, todos somos de Deus, que é nosso Pai Maior!
No entanto, eu me sinto, sim, seu pai pelos laços do espírito, porque você é a menina que todo pai gostaria de ter por filha!...
E logo entrava a lhe falar de Jesus.
— Jesus, minha filha - contava-lhe -, é nosso Mestre e veio a Terra para nos ensinar o caminho da verdadeira felicidade, quando, então, nos reuniremos todos numa mesma e única família!
Ele nos ensinou amarmos a todos, indistintamente...
— Mesmo aqueles que nos maltratam?! - perguntava Tamar, sob as reminiscências das perversidades que ela e sua mãe, com o pequeno grupo de leprosos, experimentavam, de aldeia em aldeia, por onde passavam a mendigar.
— Sim, mesmo aqueles que nos maltratam! - respondia o Apóstolo.
Porque, em verdade, aqueles que pretendem nos fazer mal, não nos fazem mal algum, a não ser a si mesmos.
Você entendeu?!
— Entendi, porque é isso que a mamãe Tecla e a "Vovó" Acácia me têm ensinado! - redarguia Tamar com vivacidade.
— Ah, como Deus é bom!
A minha mamãe de verdade não pôde ficar comigo, mas Deus me deu uma família muito grande - a "mamãe" Tecla, a "vovó", o senhor, que é meu pai espiritual, Jesus, que é meu "irmão", e o "tio" Petrónio...
Certa noite, porém, logo após o término da pregação, que tinham o cuidado de fazer, sem despertar a atenção de curiosos, Tecla foi chamada por uma senhora, porque um pedinte reclamava lá fora sua presença.
Enquanto Paulo se entretinha em conversação com os que desejavam saber mais a respeito do Reino de Deus, Tecla, na companhia de Petrónio, vai até à porta da casa, onde se encontravam reunidos (tais reuniões, em Icónio, por medida de segurança, não tinham endereço fixo) e se depara com um mendigo em deplorável estado de saúde.
Aquele homem sequer tinha forças a fim de levantar a mão e pedir algo para comer.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:09 am

De barbas e cabelos extremamente crescidos e profundas olheiras, o mendigo fitou-a por instantes e, com dificuldade, pronunciou o nome dela:
— Tecla!
A senhora não teve qualquer dúvida - aquela voz era a de seu pai, Mésimo!
— Papai! - exclamou ela, amparando o pobre que, no esforço para chegar até ali, desabara ofegante. — Papai!...
Revirando os olhos enterrados nas órbitas, Mésimo, de facto, estava irreconhecível.
O corpo, muito magro e febril, e a respiração difícil lhe prenunciavam o fim.
— Tecla!... - tornou o progenitor.
Eu não... tenho... muito tempo, minha... filha!
Você... estava... certa! Perdoe-me!...
— Papai! - repetia ela, abaixando-se para socorrer Mésimo, que, praticamente, agonizava em seus braços.
— Perdoe-me, filha! - insistia.
Perdoe-me!
Eu... também... me fiz... cristão! Eu... a expulsei... de casa!...
— Não - redarguiu a Mártir -, o senhor apenas facilitou o meu encontro com Jesus Cristo!...
Quando Petrónio, que voltava, tentou lhe dar um pouco d'água na boca, Mésimo expirou, amparado pela filha, a quem, um dia, ele, praticamente, expulsara de casa.
Nesse ínterim, Paulo saíra de dentro da residência, chegando a tempo de ver que Tecla cerrava as pálpebras do próprio progenitor, que, ao deixar o corpo, como se quisesse levar com ele a imagem da filha para o Mais Além, não fechara os olhos por completo.
— Paulo - elucidou a Discípula -, este era meu pai, Mésimo!
— Com todo o mal que ele, por desconhecer a Jesus, possa ter causado a você, Tecla, ele foi mais feliz que o meu pai, que, infelizmente, deixou este mundo, sem se fazer cristão!...
Com o auxílio de Petrónio e outros amigos, Tecla, na manhã do outro dia, tratou de dar sepultamento digno ao genitor, que, no passado, fora um dos homens mais ricos de Icónio.
Daí a uma semana, Paulo - junto a Barnabé, Tecla e Petrónio - passando por Listra, ainda trouxera consigo o jovem Timóteo; seguiria para Antioquia da Psídia, indo a Tróade e Filipos - cidades nas quais a presença do Apóstolo era reclamada.
— Mais tarde - comentou Tecla com o antigo rabino, referindo-se à paisagem próxima do Rio Orontes -, eu pretendo me instalar, em definitivo, nestas imediações.
A não ser a fim de buscar Tamar e Acácia, para que fiquem em minha companhia, não mais pretendo voltar a Icónio.
Conforme está escrito em "Atos dos Apóstolos", no capítulo 16, versículos 6 a 10 -
"E, percorrendo a região frígiogaiata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia,
mas o Espírito de Jesus não o permitiu.
E, tendo contornado Mísia, desceram à Tróade.
À noite, sobreveio a Paulo uma visão, na qual um varão macedónio estava em pé e lhe rogava, dizendo:
'Passa à Macedónia e ajuda-nos'.
Assim que teve a visão, imediatamente procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o Evangelho".
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:09 am

26 - Em Tróade e Filipos
Em Tróade, a saúde de Barnabé da sinais de piora, e ele, então, comunica a Paulo que pretendia seguir apenas até Filipos, porque não desejava atrasá-los na viagem, a qual sequer tinha chegado à metade do percurso a ser empreendido.
Paulo traçara planos de ir a Bereia, seguindo até a Corinto e Atenas, passando por Éfeso.
Barnabé, com dificuldade crescente de respirar, permaneceria em Filipos, em casa de amigos.
Filipos ficava na helénica Macedónia e, inicialmente, não constava do roteiro delineado por Paulo; todavia, atendendo à visão do varão macedónio que lhe solicitara auxílio, o Evangelizador dos Pagãos para lá se dirige, conforme Lucas descreve em "Atos dos Apóstolos", no capítulo 16, versículos 11 a 15:
"Tendo, pois, navegado de Tróade, seguimos em direitura a Samotrácia, no dia seguinte a Neápolis e dali a Filipos, cidade da Macedónia, primeira do distrito e colónia.
Nesta cidade permanecemos alguns dias.
Quando foi sábado, saímos da cidade para junto do rio, onde nos pareceu haver um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que para ali tinham concorrido.
Certa delas, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia.
Depois de ser baptizada, ela e toda a sua casa nos rogou, dizendo:
'Se julgais que eu sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa e aí ficai'.
E nos constrangeu a isso".
Desnecessário dizer que Tecla, cuja presença é omitida nesta segunda viagem de Paulo, em "Atos dos Apóstolos", redigido por Lucas, era a única mulher que os acompanhava, sendo que Paulo, ao longo de toda a viagem, percebeu quanto a companhia dela se lhes fizera providencial, inclusive na pregação da Mensagem, de vez que, na maioria das vezes, eram justamente as simpatizantes e confiantes mulheres que abriam as portas de suas casas para o Evangelho.
Junto a Barnabé, Tecla se desdobrava em cuidados, procurando não deixar que o companheiro ficasse sem se alimentar durante muito tempo e, fosse por mar ou por terra, dele não se afastava com os seus serviços de enfermagem.
Navegando de Tróade a Samotrácia, debaixo de forte tempestade, a embarcação balançara tanto, que, várias vezes, Barnabé vomitara, chegando a desfalecer.
Enquanto os homens, inclusive Paulo e Petrónio, Timóteo e Silas, bem como outros, lutavam para tirar o excesso de água que as ondas bravias lançavam para dentro do barco, Tecla se postara ao lado de Barnabé, aconchegando-lhe a cabeça cansada em seu próprio colo.
— Creio, minha filha - disse-lhe o amigo de Chipre -, que não poderei seguir com vocês...
Meus pressentimentos estavam certos:
eu deveria ter ficado em Jerusalém!
— Não diga isso, Sr. Barnabé - rebateu ela.
A sua presença é imprescindível para nós, e, mesmo porque - acrescentou, falando-lhe praticamente aos ouvidos -, conforme sabe, Paulo escuta apenas a você...
A verdade é que, por vezes, Paulo, não conseguindo deixar de se consumir pelo remorso, caía em periódicos estados depressivos; assim, de temperamento voluntarioso, costumava tomar decisões súbitas e não muito acertadas, sobre as quais somente capitulava sob a influência de Barnabé.
— Mas desconfio - acrescentava o Apóstolo - que, de facto, não poderei prosseguir, pois passaria a ser um estorvo para vocês, e longe de mim atrasá-los com a mensagem do Senhor a tanta gente que espera por ela!
Talvez, minha filha, esteja mesmo chegando a hora de eu trocar de corpo...
Foi através daquele diálogo que Tecla, embora amiúde ele não se manifestasse a respeito, percebeu que Barnabé também esposava a crença na Reencarnação.
— Então?!...
— Sim, eu também penso como os gregos:
sem a multiplicidade das existências, não alcançaremos a completa redenção, e, quanto mais velho e doente fui ficando, mais clara esta verdade se me tornou patente.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:09 am

Tornei-me cristão já sendo homem velho, cometi erros em minha trajectória de vida e, evidentemente, não me sinto justificado perante o Senhor e a própria consciência.
— Não fale assim! - replicou Tecla.
Se o senhor, que é um homem virtuoso, assim pensa de si mesmo...
— Não, minha filha - rebateu o ancião -, eu não sou tão virtuoso quanto você e outros possam imaginar...
Ah, como gostaria de ter conhecido o Evangelho ainda na minha juventude!
Mas não há de ser nada...
Voltaremos, não é?! - disse-lhe com uma piscadela.
— Intrigante é que Paulo evita falar a respeito do assunto - comentou a devotada Colaboradora.
— Pessoalmente, ele tem motivos para tanto - ponderou Barnabé.
Muito tem sofrido com suas reminiscências e não se perdoa pelo que fez a Estêvão e, consequentemente, aos seguidores, em geral, de nossa Causa.
Para que amemos a Paulo, precisamos amá-lo como ele é e não como gostaríamos que fosse!
A verdade, digo-lhe, é que nenhum dos Doze tem feito mais pela difusão da Boa Nova do que ele...
Barnabé, sofrendo outra crise de tosse, não pôde estender-se naquele diálogo com Tecla.
A tempestade se acalmou, e, por fim, eles chegaram a Filipos, cidade de clima extremamente agradável.
Instalando-se numa hospedaria, e logo, como sempre fazia, procurando informar-se em torno da existência de templos na cidade, Paulo ficou sabendo que, nas proximidades de um rio de águas tranquilas, algumas pessoas costumavam reunir-se para orar aos deuses.
Dirigiram-se para lá, com Barnabé, amparado por Tecla e Petrónio, caminhando com dificuldade.
Paulo se surpreendeu com o grande número de mulheres que ali estavam em silêncio, entregues à meditação.
Eles, então, se assentaram, e, sem perder tempo, Paulo, após ter olhado para Barnabé, como a lhe procurar a aprovação, levantou-se e passou a anunciar Jesus Cristo ao grupo.
Porém, enquanto Paulo falava, Tecla era olhada com tanta insistência pelas mulheres, que, sentindo-se encabulado, o Converso de Damasco caminhou até a ela, que velava junto a Barnabé, pela primeira vez, tomando ele mesmo a iniciativa de convidá-la à pregação.
Incentivada por Barnabé, Tecla caminhou até mais perto do grupo e, como sempre, inspirada por Abigail, começou a dizer, sumariando a história de seu encontro com Jesus:
— Meus irmãos e minhas irmãs, como quase todos vocês, eu também acreditava na existência dos deuses...
Não obstante, um dia, encontrando-me, como hoje vocês aqui se encontram, às margens deste rio, na expectativa de uma resposta do Céu às minhas ardentes súplicas, pude ouvir faiar de Jesus, que, filho de José e Maria, nasceu em Belém de Judá!
Ele teve existência real, e, em toda a Judeia, muitos podem testemunhar os seus feitos.
O Cristo foi nosso contemporâneo - esteve entre nós ainda há pouco, e, após ser rejeitado pelos seus, foi morto pelos inimigos romanos.
Todavia, conforme havia predito aos seus seguidores, no terceiro dia, Ele ressurgiu dos mortos!...
A plateia, atenta, escutava a palavra tocada de emoção da Pregadora, notadamente, porque, sendo, em maioria, composta por mulheres, admirava-se de ouvir uma mulher predicando como um grande tribuno, mesmo porque, em quase todas as cidades da Ásia Menor, as mulheres também viviam em estado de extrema submissão aos homens.
Então, quando Tecla falou sobre as curas realizadas por Jesus, relacionando os muitos fenómenos que, a partir Dele, se desencadearam, como o da multiplicação dos pães e dos peixes para uma multidão de mais de cinco mil pessoas, o interesse pelo Messias foi aumentando.
Depois de alguns minutos, a Expositora calou-se e, sem nada dizer, caminhou para junto de Barnabé, deixando, assim, que a palavra que Paulo retomara tivesse melhor repercussão.
Naquele dia, porém, somente Lídia, uma vendedora de púrpura, se encorajara à conversão, convidando a todos para que fossem até à sua casa falar a respeito de Jesus aos demais familiares.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 02, 2018 10:09 am

A figura paterna de Barnabé, por fazê-la se recordar da fisionomia de seu genitor, inspirou tanta ternura à Lídia, que ela passou a tratá-lo com deferência especial, preocupando-se com seu estado de saúde.
Então, a convite dela, o grupo se dividiu, com Tecla e Barnabé indo se hospedar em sua casa, enquanto os demais permaneciam nas dependências da estalagem.
Numa determinada tarde de sábado, o grupo, novamente se dirigindo para aquele lugar de oração em Filipos, foi abordado por uma jovem adivinha que, na cidade, desfrutava de certo prestígio, mormente junto ao comércio local, por suas indicações de beberagens e compra de artigos de natureza mística.
A questão é que as pregações de Paulo e Tecla estavam começando a prejudicar os comerciantes que, assim, começaram a se aborrecer com a presença daqueles intrusos na cidade.
A jovem adivinhadora, que era médium equivocada, havia sido mandada para desmoralizar o grupo, principalmente a Paulo e Barnabé que o lideravam - o seu propósito era o de contestá-los publicamente.
Acontece, porém, que, naquela tarde, incorporada pelo espírito que a assistia, em vez de desmoralizá-los, a médium e o espírito, dominados por forças espirituais de ordem superior, começaram, sim, a enaltecê-los, dizendo:
"Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação"!
Diante do ocorrido, que Lucas, igualmente, descreve com certa riqueza de detalhes em "Atos dos Apóstolos", e com maior riqueza ainda, é narrado por Emmanuel, na obra "Paulo e Estêvão", a jovem médium - para nos valermos de um termo utilizado por Allan Kardec, em "O Livro dos Médiuns" - tem as suas faculdades mediúnicas suspensas, ocasionando, assim, grande prejuízo aos que as exploravam.
Revoltados com a situação, os comerciantes avançam sobre o grupo e apoderam-se de Paulo e Silas, levando-os à presença das autoridades da cidade.
Deixemos que o próprio autor de "Atos dos Apóstolos" nos fale a respeito das consequências do episódio:
".. e, levando-os aos pretores, disseram: Estes homens, sendo judeus, perturbam nossa cidade, propagando costumes que não podemos receber nem praticar, porque somos romanos.
Levantou-se a multidão, unida contra eles, e os pretores, rasgando-lhes as vestes, mandaram açoitá-los com varas.
E, depois de lhes darem muitos açoites, os lançaram no calabouço, ordenando ao carcereiro que os guardasse com toda a segurança.
Este, recebendo tal ordem, levou-os para o cárcere interior e lhes prendeu os pés no tronco.
Por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus, e os demais companheiros de prisão escutavam.
De repente, sobreveio tamanho terremoto, que sacudiu os alicerces da prisão; abriram-se todas as portas; soltaram-se as cadeias de todos".
0 singular episódio incidente na prisão de Paulo e Silas surtira mais efeito na conversão de muitos em Filipos do que todas as pregações que, até então, Paulo, Tecla e Barnabé haviam promovido.
Porque, não apenas o carcereiro que despertara vendo as portas do calabouço abertas se converteu - muitos dos prisioneiros, que ali estavam trancafiados por culpa de pequenos delitos ou mesmo por protestarem contra a deplorável situação social em que viviam, se fizeram cristãos.
Os próprios pretores, sabendo do acontecido, com receio do Deus que pregavam, desconsideraram as acusações que pesavam sobre eles.
Tomando a decisão de seguir adiante, visitando Anfípolis e Apolónia, Barnabé dialoga com Paulo e diz a ele que sua saúde não lhe consentiria continuar.
Já que, em Filipos, não mais existia acusação contra eles, se demoraria algumas semanas na casa de Lídia, que o hospedava - assim que se sentisse em condições físicas mais favoráveis retornaria a Jerusalém, onde, certamente, poderiam se reencontrar.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:02 am

Tecla, que tanto se afeiçoara ao irmão da ilha de Chipre, não querendo deixá-lo a sós, também desejou ficar para lhe fazer companhia, com o que o próprio Barnabé não concordou.
— Tecla, não se preocupe! - disse-lhe ele.
Eu ficarei bem...
Se você puder deixar Petrónio comigo e se ele assim o quiser, eu lhe agradecerei.
No entanto, você precisa seguir adiante.
A sua palavra dirigida às mulheres é importante na semeadura de nossos princípios.
Os homens podem não lhe dar crédito, como dão às palavras de Paulo, mas, de acordo com o que costuma nos dizer Simão, "nenhuma profecia da Escritura provém de particular interpretação"...
— Mas o senhor precisa de mim - insistia a valorosa Discípula.
— Lídia e Petrónio nada me deixarão faltar.
Depois, de que nos valeria sair semeando, sem que deixássemos alguém para cuidar das sementes que germinam?!...
Respirando um pouco mais aliviado, embora tendo os pés muito inchados, Barnabé continuou:
— Ainda somos poucos e, a fim de que nossos esforços se multipliquem, nossa aparente divisão é providencial...
O Senhor nos recomenda:
"A seara na verdade é grande, mas os trabalhadores são poucos"!
Estaremos sempre juntos, minha filha!
Mesmo que, porventura, nossos passos não mais se cruzarem sobre este mundo, haveremos de nos reencontrar...
Tecla esboçou um sorriso triste.
Naquele momento, as palavras de Barnabé estavam sendo proféticas, porque, de facto, os dois não mais se veriam sobre a Terra!
Depois de obter alguma melhora na casa de Lídia, o companheiro de Paulo delibera voltar a Jerusalém, mas suas forças não permitem que ele avance além de Antioquia da Pisídia, onde, sem ser martirizado como desejaria, e como alguns dos historiadores cristãos afirmam que ele o tenha sido, na própria Ilha de Chipre, Barnabé, o "Filho da Exortação", deixou o corpo enquanto falava do Evangelho a um grupo de cristãos.
Paulo demorou a ter notícias de seu desenlace, mas quando soube que o amigo havia partido, assim reagiu:
— Em espírito, tive dois grandes pais em minha vida:
Gamaliel e Barnabé! Agora, verdadeiramente, me sinto completamente órfão!...
Antes que, da Tessalónica, chegassem a Bereia, Tecla, escutando a voz de Abigail, ficou sabendo que lá, na Sinagoga, os judeus eram mais estudiosos, e que, por isso, a palavra de Paulo teria melhor aceitação.
Bereia, no entanto, era um reduto de "mulheres gregas de alta posição", e que, a estas, ela deveria procurar dirigir-se.
Assim, enquanto Paulo, falando na Sinagoga, concitava os judeus a examinarem as Escrituras, no ponto em que as profecias haviam se referido ao advento do Messias, e lhes fornecia suficientes subsídios para que, por si mesmos, chegassem à conclusão de que, no Cristo, elas já se haviam cumprido, Tecla, travando conhecimento com uma senhora de nome Achila, participava de uma reunião em sua casa com mais de dez mulheres.
— Amigas! - anunciou Achila a presença de Tecla.
Temos, hoje, connosco alguém que achei deveras interessante...
Trata-se da cristã Tecla de Icónio, que me pareceu portadora de muitas virtudes relativas à sabedoria.
— Mas - indagou uma das senhoras - afinal, ela é judia, grega ou romana?...
— Digamos - respondeu Tecla com vivacidade -, que eu seja romana, grega e judia...
Afinal - acrescentou -, como cada uma de nós poderia separar todas as gotas de sangue que nos correm nas veias pela sua nacionalidade?!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:03 am

— Então - insistiu a interlocutora -, você, ao mesmo tempo, é pagã e cristã?!...
— Fui pagã, sou cristã, mas, acima de tudo, sou alguém que, como os nossos mais notáveis filósofos, não se cansa de procurar a Verdade - Verdade que, para mim, começando com Sócrates, culminou em Jesus Cristo!...
— Não era Ele, no entanto, um fanático religioso que foi condenado como malfeitor?!
— Longe disso! - acentuou Tecla, que, de acordo com a condição cultural da plateia, sabia conduzir o seu discurso.
O Cristo contestava toda e qualquer espécie de fanatismo...
Dizia-nos Ele:
"Seja o vosso falar sim sim; não não"!
Por quase os mesmos motivos que Sócrates, Ele foi condenado à morte!
E, porventura, o grande sábio, que - creio - todas nós admiramos, notadamente pela defesa que fazia de nossa condição de mulher, era um malfeitor?!...
— Em absoluto! - responderam elas, quase em uníssono.
— Pois Jesus, filho de José e Maria, cuja Mãe eu pude conhecer no Vale de Hébron, também era um defensor das mulheres.
E entrou a falar-lhes da singular intervenção que o Cristo fizera da mulher surpreendida em adultério, de seu diálogo com a mulher samaritana, de seu fraternal carinho para com Maria de Magdala, que foi a primeira mulher a segui-Lo, na condição de Mestre...
— Não obstante - inquiriu outra das mulheres gregas presentes -, se assim é, em que é que, porventura, o Cristo consegue superar Sócrates?!...
— Sócrates - respondeu Tecla com firmeza -, sem dúvida, era o mais sábio dos homens, mas o Cristo foi o Verbo Divino - a Sócrates, falava o seu daimon; pela boca do Cristo, era o Criador que nos falava, e, por suas atitudes, ainda era o Criador que agia...
— Podemos ler algo a respeito Dele?! - tornou a última que se pronunciara. — Por que você, que parece tanto saber da vida Dele, como fez Platão a respeito de Sócrates, não nos escreve algo sobre a sua Vida?!...
— Talvez, um dia, eu o faça! - respondeu Tecla no inteligente diálogo que, mais tarde, haveria de render sazonados frutos, de vez que aquelas senhoras nobres, possuidoras de muitos recursos financeiros, empreendiam constantes viagens a Atenas e outras cidades vizinhas, e, por certo, levariam consigo as informações que a Mártir lograra transmitir-lhes com tanta lógica e emoção.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:03 am

27 - Em Atenas
Qual acontecia em todas as cidades por onde passavam, pregando a Boa Nova, Paulo e seus amigos - entre eles, evidentemente, Tecla - foram escorraçados de Bereia.
Segundo Lucas, que, em "Atos dos Apóstolos", sumariou a trajectória missionária do ex-doutor de Tarso, "logo que os judeus de Tessalónica souberam que a palavra de Deus era anunciada por Paulo também em Bereia, foram lá excitar e perturbar o povo".
Porque, àquela altura de sua viagem, não mais contava com a palavra amiga de Barnabé, Paulo buscava em Tecla o exemplo de coragem para seguir adiante, porque a Mártir de Icónio, sem que, por vezes, nada tivesse necessidade de dizer, justamente por ser mulher, lhe era valioso incentivo em tão ásperas lutas.
Tecla, a fim de ser útil ao pequeno grupo, que, ainda, era integrado por Lucas, Timóteo e Silas, extrapolava em suas funções de Pregadora do Evangelho, porque, quando, não raro, tinham necessidade de parar em algum trecho de caminho para se alimentarem, ela fazia questão de aquecer a comida para todos.
Certa vez, em um de seus raros momentos de descontracção, ao vê-la preocupada em encontrar alguns gravetos para acender pequena fogueira, Paulo gracejou: — Tecla! Tecla!
Você está preocupada com muitas coisas, contudo apenas uma é necessária...
Compreendendo a alusão do Apóstolo, que se referia a episódio ocorrido na casa de Lázaro, em Betânia, envolvendo Marta e Maria, suas irmãs, quando o Senhor advertira a Marta pela sua excessiva preocupação com as fainas domésticas, gracejando de volta em paráfrase, Tecla respondeu:
— Paulo! Paulo! Sei que nem só de pão viverá o homem, mas, no momento, eu também sei que é de pão que, para continuar vivendo, o homem necessita!...
Fazemos questão de registar o facto, porque, quase sempre, de maneira geral, se esquece o lado humano que, como não poderia deixar de ser, era pertinente a todos os Apóstolos, que não apenas sabiam chorar, no testemunho da fé em Cristo, mas também sorrir!
Foi assim que, aos poucos, Tecla conquistou a confiança e a simpatia de Paulo, que nela passara a ver a figura de uma irmã, sobretudo, se destacando pela rara inteligência que possuía, aliada a inegáveis virtudes.
Deixando Timóteo e Silas para trás, na companhia de Lucas e Tecla, Paulo, ao chegar à prodigiosa cidade de Atenas, ficou indignado com o culto aos deuses a que os gregos ainda se entregavam, além da exploração mercenária da fé que observava em cada rua por onde passava.
Com seu temperamento forte, não conseguiu deixar de dizer com ênfase:
— Isto é uma sodomia do espírito!...
Sem sequer tomar um gole d'água, ali mesmo, em plena praça, começou ele sua pregação, logo passando a contender com filósofos epicureus e estóicos, que, observando a figura simples do Apóstolo, quase lhes parecendo estarem novamente na presença de Sócrates, o ironizavam, dizendo:
— "Que quer dizer este tagarela?".
Convidaram-no, pois, ao Areópago, onde, com maior liberdade, ele poderia expor seu pensamento em torno do que consideravam uma nova doutrina, porque a verdade é que, após ter-se condenado Sócrates à morte, a Filosofia, na Grécia, começara a entrar em colapso, com falsos sábios enxameando as ruas da célebre metrópole helénica.
Com Lucas e Tecla, o Apóstolo se dirigiu ao referido templo e, sem rodeios, começou a falar de Jesus Cristo, que, a princípio, embora o descaso intelectual que votavam aos judeus, os quais consideravam por fanáticos religiosos, os atenienses escutando-o imaginaram se tratar de um filósofo que, de súbito, pudesse ter emergido da Judeia.
Quando, porém, ele se referiu à ressurreição dos mortos, enfatizando a imortalidade e exemplificando com a ressurreição do próprio Cristo, que, redivivo, lhe surgira na estrada de Damasco, os gregos, literalmente, passaram a zombar de seu discurso e, sem o menor interesse mas com descaso, foram abandonando o Areópago.
— "A respeito disso - disseram-lhe -, nós o ouviremos noutra ocasião"!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:03 am

— Sinceramente - comentou Paulo com Lucas e Tecla - eu não saberia dizer o que é pior:
se a mais completa ignorância em torno da Verdade ou se a soberba de quem se supõe estar na absoluta posse dela!...
— Eu diria - respondeu ela, confortando o companheiro de viagem -, que, neste caso, como em tantos outros, os extremos acabam se tocando, porque a soberba intelectual não é senão a outra face da moeda da ignorância!...
— Estou mais bem compreendendo agora - emendou o Apóstolo - o motivo pelo qual, antes de me estender a mão para que eu me levantasse, a fim de servi-Lo neste mundo, o Senhor me deixou cair tão profundamente!...
— A posição desses nossos irmãos atenienses - lamentou Tecla, referindo-se aos epicureus e aos estóicos -, que, por um lado, pregam a busca sistemática do prazer e, por outro, a excessiva austeridade ética, não se coaduna com a Mensagem do Evangelho, porque o Cristo não quer a morte do pecador...
Foi quando Paulo, ouvindo-a, pronunciou uma de suas mais belas frases, que, inclusive, teria oportunidade de inserir em uma de suas inesquecíveis Cartas, endereçadas aos coríntios:
— "Ai de mim, se não pregar o Evangelho!..."
Registrou Lucas, em "Atos", que algumas poucas pessoas presentes no Areópago não deixaram de se interessar pela palavra do Apóstolo dos Gentios, destacando, entre elas, um homem de nome Dionísio e uma mulher chamada Dámaris.
E, antes que partissem para Corinto, foi justamente na casa de Dámaris que o pequeno grupo conseguiu fundar a primeira igreja cristã em Atenas.
Embora, em muitas de suas pregações, Paulo, sem, contudo, guardar a menor consciência disso, se sentisse envolvido pelo espírito de Estêvão, com maior frequência era através do sonho que ele conseguia obter contacto mais directo e lúcido com o Mundo Espiritual que o guiava.
Se, em Atenas, a semeadura da Palavra não correspondera às expectativas, em Corinto, ela seria altamente favorável.
"Teve Paulo, durante a noite, uma visão em que o Senhor lhe disse:
Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade."
Com base nesse sonho e na acolhida que ali tiveram, Paulo, com seus amigos, passou um ano e meio "ensinando entre eles a palavra de Deus".
Os coríntios formavam uma comunidade singular, porque, de facto, muitos deles eram espíritos diferentes, que ali se haviam corporificado para servirem à Causa do Evangelho - inclusive, aceitavam com naturalidade o intercâmbio que, entre vivos e mortos, poderia estabelecer-se, e, por esse motivo, nas reuniões que com eles eram promovidas, as manifestações mediúnicas ocorriam com frequência.
Ao contrário dos atenienses, que ironizaram o que Paulo lhes dissera sobre ressurreição, para os habitantes de Corinto, ele pôde até mesmo mencionar a existência do corpo espiritual, explicando:
"Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual.
Se há corpo natural, há também corpo espiritual" - em clara referência ao que, mais tarde, Allan Kardec denominaria "perispírito"!
Numa dessas reuniões com os cristãos de Corinto, Tecla, convidada por ele a falar ao grande número de mulheres presentes no recinto, sendo totalmente envolvida pelo espírito Abigail, assim se pronunciou:
— Irmãos e irmãs de Corinto, que o Senhor seja louvado!
O Cristo é nova luz para o nosso entendimento da Vida, que não se limita à existência do homem sobre a face da Terra.
Ele veio para nos libertar e nos fazer entender que não somos o corpo que perece - que, para nós, o corpo que envergamos não passa de veste transitória, a fim de que possamos tecer a túnica nupcial que envergaremos um dia...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:03 am

Muito, no entanto, ainda nos compete fazer sobre este mundo, onde apenas as balizas do Reino Divino estão sendo fincadas no solo de nossos corações...
Não pensemos, assim, em salvação individual, porque o Cristo, que nada mais tinha a fazer na Terra, não nos esqueceu!
Ele veio a nós por muito nos amar...
Os opositores de nossa Causa não são para serem odiados, e, sim, para serem a cada vez mais amados, porque "os sãos não necessitam de médico", mas os enfermos!
A rigor, não temos inimigos; portanto por inimigos não somos combatidos - somos combatidos por irmãos imersos na ignorância, na mesma ignorância em que, até ontem, nós nos encontrávamos imersos.
Adquirindo esta compreensão de nossos adversários, lograremos perdoar-lhes, como o Cristo nos perdoou tê-Lo crucificado!
Aqui, neste recinto, em relação aos muitos erros cometidos, não há ninguém de consciência tranquila, todavia já conseguimos desfrutar de relativa paz, porque começamos a imprimir às nossas vidas um rumo diferente...
Aceitar a Jesus, na condição de Senhor e Mestre, é o nosso verdadeiro renascer, porque de pouco nos vale sobreviver à morte do corpo, sem que promovamos nosso renascimento espiritual.
Ouvindo as considerações de Tecla, que, visivelmente, se encontrava em estado de transe mediúnico, Paulo se impressionava e não conseguia mesmo controlar as lágrimas que lhe escorriam nas faces marcadas pelo sofrimento.
— Irmãos e irmãs de Corinto! - prosseguiu Tecla.
Entendamos que o Evangelho é uma prova do amor de Deus a toda a Humanidade!
Sem a luz da Verdade, que o Cristo veio acender nas trevas de nossa ignorância, que haveria de ser de nós?!
Para onde continuaríamos caminhando?!
Em que novo abismo haveríamos de nos precipitar?!
Como darmos sentido a palavras como "felicidade", "alegria", "esperança", "amor"?!
Para onde iríamos?!
Foi pensando justamente assim que Simão Pedro, um dos Doze escolhidos por Ele, teve oportunidade de Lhe dizer:
"Senhor, para quem iremos?!
Tu tens as palavras de vida eterna!"
Naquele momento, inspiradamente, Simão falou a Jesus por todos nós - mesmo por aqueles que ainda O têm recusado e, com certeza, continuarão a recusá-lo pelo tempo em que permanecerem de espírito enrijecido...
— "Senhor, para quem iremos?!" - eis a pergunta que, mesmo antes de conhecê-lo, eu me fazia em Icónio, quando, um dia, ao ouvir Paulo, pelas palavras deste paternal amigo, Ele me respondeu...
Agora, mercê da Divina Misericórdia, não mais caminho sem rumo, porque sei qual é o Caminho - o Cristo é o Caminho!
Irmãos e irmãs de Corinto - encerrou Tecla com eloquência - as palavras de Jesus são palavras de vida eterna, porque Ele veio para nos tutelar a caminhada até a Eternidade!
Ele é nosso Guieiro!
Sem Ele, nossa existência neste mundo carece de fundamento, porque continuaremos a viver como se viver fosse o cumprimento de dolorosa pena, a que estamos condenados até que a morte dela nos liberte!
Não! A vida na Terra não é uma cela onde fomos trancafiados por um Criador implacável, que, talvez, se divirta com as nossas dores...
Deus é Pai! Deus é Amor!
A vida neste corpo que animamos transitoriamente é oportunidade de aprendizado e crescimento, porque Jesus nos exortou:
"Sede perfeitos como perfeito é vosso Pai celestial"!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:03 am

Eis, em suma, o que significa viver: voltarmos ao divinal e feliz regaço de nosso Pai Criador!...
Quando Tecla silenciou, não havia quem não estivesse a chorar de emoção, naquela pequena igreja em Corinto.
Esperava-se que, como de hábito, Paulo, posteriormente, tomasse a palavra e fizesse a sua pregação, mas, naquela noite, tocado nas fibras mais íntimas, ele se escusou de efectuar qualquer pronunciamento.
Durante longos minutos, a plateia permaneceu envolvida pelas vibrações das palavras que, ao mesmo tempo, lhe haviam tocado o coração e feito meditar.
Tinha-se a sensação de que o Céu baixara à Terra, e o encontro das duas Dimensões fazia com que todos ali presentes se sentissem transferidos para outro Plano de Vida.
Em seguida, antes que as pessoas começassem a retirar-se, Paulo e Tecla, no que foram assessorados por outros, repartiram com todos os presentes os poucos pães que haviam conseguido para aquela noite.
Quando, então, estavam prestes a encerrar as actividades, uma pobre senhora adentra o recinto, trazendo nos braços de avó aflita a neta desfalecida.
A menina, aparentemente, estava morta.
Brincava à tarde, nos arredores de sua casa, quando fora picada por peçonhenta víbora.
Os pais estavam na pesca, e a avó, em desespero, recorrera aos préstimos de um mago que vivia ali, na cidade.
— Entreguei a ele todo o meu dinheiro - disse a senhora -, e, durante muito tempo, ele empregou seus sortilégios em vão...
Mandou-me embora, proferindo palavrões.
Estava em minha casa, a velar o corpo de minha neta, de minha pequena Eulália, quando me falaram de vocês...
Paulo e Tecla se entreolharam, porque, afinal, a peçonha da víbora deveria estar agindo no corpo da menina havia várias horas.
— Falaram-me de vocês, os seguidores do "Caminho", e me disseram que, em nome de bondoso homem que morreu na cruz, vocês fazem milagres...
Então, em desespero, trouxe até aqui o corpo de minha neta.
Por caridade! Intercedam por ela!
Ela é tudo que temos neste mundo...
Disseram-me que o Crucificado, de quem vocês são Discípulos, fez um homem levantar-se do túmulo, e Ele mesmo, ao ser morto e sepultado, ressurgiu da morte!...
— Minha senhora - tentou argumentar Paulo, naquele transe, mas, a um aceno de Tecla, o Apóstolo silenciou, ante a expectativa crescente de todos.
Pensando em que não poderiam falhar ali e que, talvez, tudo aquilo acontecia por artimanha das Trevas, para anular o êxito da reunião que se findava, Tecla ajoelhou-se, tomou a menina ao colo, descobriu-lhe a ferida que a víbora provocara na perna e, repetidamente, se pôs a sugar o veneno, que, lentamente, agia no corpo de Eulália.
Durante longos minutos, sem sucesso aparente, Tecla sugou na ferida arroxeada na perna da garota, que permanecia inanimada, qual se, de facto, estivesse morta.
Porém, naquele momento, quando estava prestes a desistir, Tecla, elevando os olhos para o Alto, invocou o nome do Cristo.
— Senhor - disse ela -, que, para nós, seja feita a Vontade de Deus, mas que, para esta menina, seja feita a Sua misericórdia!...
Naquele instante, um líquido amarelo grosso, com rajas de sangue, começou a escorrer lentamente da ferida aberta na perna da menina, como se, através de poderosa intervenção espiritual, o tóxico injectado pela víbora estivesse sendo todo expurgado de seu corpo!
O espanto era geral!
O próprio Paulo, bem como Lucas, que era médico, jamais haviam presenciado um fenómeno daquela natureza!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:04 am

A pequena Eulália, então, entreabriu os olhos, ao que a avó, notando o discreto movimento de suas pálpebras, desatou a gritar, promovendo comoção geral:
— Ela está viva! Minha neta reviveu! Jesus Cristo é verdadeiro!...
Tecla estava exânime. Nada conseguiu fazer, a não ser afastar, com veemência, a sua própria destra, dos lábios da senhora que insistia em beijá-la.
— Não! Não a mim! - exclamou.
Ao Cristo! A Jesus Cristo! - insistiu, desfalecendo de imediato, sendo socorrida por Paulo e Lucas, os quais, apanhando-a no chão, a convulsionasse, a colocaram em cima de uma laje à guisa de leito.
— O veneno! - gritou alguém.
O veneno da víbora passou para o corpo dela!...
De fato, no ato de sugar a peçonha da perna de Eulália, que apenas haveria de ficar, por sequela, com pequena atrofia de ordem muscular, Tecla acabara por ingerir certa porção do líquido amarelado, que, entrando em sua circulação sanguínea, lhe comprometeria a saúde por vários dias.
Conduzida à casa de Áquila e Priscila, sua esposa, durante quase duas semanas, a Mártir de Icónio se entregaria a repetidas crises convulsivas que, não fosse pela intercessão do Plano Superior, teriam precipitado seu desenlace!
Todavia, ela ainda tinha muito a fazer antes de abandonar o corpo - precioso instrumento na tarefa que abraçara por amor ao Evangelho do Cristo.
A saúde, porém, nunca mais haveria de ser a mesma, tanto assim que lhe faltaram condições físicas ideais para que seguisse com Paulo até ao termo de sua segunda viagem missionária, que, de Corinto, ainda se estenderia à parte da Síria, visitando Cencreia e, posteriormente, Éfeso, onde ele pouco pôde demorar-se.
Quando, por fim, Tecla se viu livre das convulsões, estava excessivamente emagrecida e fraca, sem forças para retomar as pregações na igreja de Corinto.
Mesmo assim, quando conseguiu pôr-se de pé, amparada por Áquila e Priscila, fazia questão de comparecer aos cultos, para desmentir os boatos que corriam em torno de sua saúde, com os adversários dos cristãos espalhando notícias de que não houvera nenhum milagre no caso de Eulália, de vez que a "feiticeira" cristã tinha sido envenenada pela própria farsa que encenara em nome do Crucificado...
Durante mais de ano, Tecla perdeu contacto com Paulo e Barnabé, e as informações que lhe chegavam de Jerusalém davam conta de que a situação na "Casa do Caminho" era das mais difíceis.
Alguns diziam que, após a partida de Paulo para a terceira viagem, praticamente repetindo o mesmo roteiro, Simão decidira ir a Roma, o que, desde muito, planeava fazer, porque o seu mais ardente desejo era o de testemunhar a Fé junto aos companheiros que vinham morrendo nas arenas.
A verdade é que Simão nunca pudera se perdoar pelo facto de ter negado a Jesus por três vezes e, neste sentido, apenas haveria de sentir-se em paz quando, por fim, tivesse oportunidade de morrer hipotecando seu amor ao Divino Mestre.
Como tencionava, assim que as condições lhe permitiram, Tecla viajou a Icónio, para se reencontrar com Acácia e Tamar e, com ambas, se estabelecer na região da Selêucida, às margens do Rio Tigre.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:04 am

28 - Morte de Pedro e Paulo
Com Nero no poder, sucedendo a Cláudio, não tardou muito para que o ex-pupilo do virtuoso preceptor, Séneca, renunciasse à Virtude em favor do Vício e aderisse integralmente à Crueldade Desumana! Eis, então, que os cristãos passaram a suportar as mais acerbas e desumanas perseguições.
O referido Imperador, transformado em joguete das forças invisíveis que se opunham à expansão do Cristianismo, tornou-se responsável pelo incêndio de Roma, no ano 64, e culpou os seguidores do Cristo pela insanidade.
Durante cinco dias, assumindo proporções inimagináveis, a capital do Império ardeu em chamas, sendo que quatro dos quatorze distritos da cidade foram totalmente reduzidos a cinzas e sete deles ficaram parcialmente destruídos!
Para acalmar o povo (milhares pereceram, e outros tantos tudo perderam!), os espectáculos nos circos recrudesceram.
Nero ordenou que todo cristão que não abjurasse de sua crença fosse sumariamente executado, jogado aos cães, a fim de ser estraçalhado, senão ser queimado vivo ou crucificado!
Foi pela época do reinado do Imperador (infelizmente, também matricida, ordenando a execução de sua própria mãe, Agripina, a fim de que pudesse se consorciar com Popeia Sabina) que Simão Pedro deliberou ir pregar o Evangelho em Roma, onde a sua presença, desde muito, vinha sendo reclamada pelos irmãos de Ideal.
Deixando Jerusalém, Simão, com a mente povoada por constantes visões do Mundo Espiritual, chega a Roma e logo implanta seu ministério, pregando inicialmente em catacumba abandonada, erguida num dos bairros mais miseráveis da grande cidade.
Os romanos, extremamente supersticiosos, sabiam, através de espionagem, que os cristãos costumavam se reunir nos ditos cemitérios subterrâneos, mas, mesmo os soldados, não tinham coragem de adentrar o Reino dos Mortos, que supunham ser governado pelo deus Hades, ou Plutão.
No entanto, aos cristãos, não restava espaço e alternativa para que promovessem suas reuniões noutros lugares, onde haveriam de ser facilmente aprisionados.
Por esse motivo, nos é justo dizer que, à semelhança do que aconteceria ao Espiritismo, considerado a Doutrina dos Mortos, igualmente, o Cristianismo, durante trezentos anos, emergiu das entranhas da Terra!
Simão chega a Roma em meados do ano de 65 e, em lágrimas, constata que, efectivamente, a situação dos cristãos era dramática!
Ninguém saberia explicar o prodígio de os seguidores do Nazareno continuarem a multiplicar-se, sob os piores reveses, que, ao longo da História da Humanidade, jamais seriam impingidos aos adeptos de nenhuma outra crença religiosa - nem mesmo os judeus, pela época do "Holocausto", padeceriam tanta perseguição quanto padeceram os cristãos, que as Trevas pretendiam extinguir da superfície do Orbe.
Indo residir na casa pobre de um amigo de nome Leocádio, que vivia nos arredores de Roma como se fosse indigente, foi também na condição de indigente que Simão, durante algum tempo, conseguiu ocultar-se e sobreviver em Roma, porque sua cabeça havia sido posta a prémio por Tigelino, o Prefeito - tão fiel a Nero quão cruel para os cristãos!
O comandante da Guarda Pretoriana, informado da presença do Apóstolo de Cafarnaum na cidade, passara a considerar ponto de honra prendê-lo e executá-lo em público, acreditando que, com semelhante medida, por falta de liderança, deixaria os cristãos desnorteados.
O que, efectivamente, não era verdade, porque o movimento cristão, extrapolando da liderança do inesquecível Pescador, já contava com inúmeros outros inspiradores, que, com a morte de suas duas maiores expressões, Pedro e Paulo, no mesmo ano de 67, haveria de continuar em sua vitoriosa trajectória, até que Constantino, através do Edito de Milão, no tardio ano de 325, proclamasse o Cristianismo como religião oficial do Estado.
Simão e Leocádio, cuja esposa e único filho já haviam sido atirados às feras, disfarçados de mendigos, costumavam esmolar pelas ruas de Roma e, assim, se inteiravam das notícias e conspirações que Tigelino, de maneira obsessiva, tramava contra os cristãos.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:04 am

Foi por esse motivo que, praticamente, durante um ano, Simão permaneceu em quase anonimato para os próprios companheiros, que, afinal, padecendo torturas, poderiam delatá-lo.
Sem se revelar, ele comparecia às reuniões nas catacumbas, que eram realizadas altas horas da noite, quando a cidade adormecia, como se fosse um estranho, porque, ali, poucos dos que o haviam conhecido pessoalmente seriam capazes de identificá-lo pelos traços fisionómicos.
Contudo, em certa ocasião, durante uma das reuniões, não mais suportando aquela situação e considerando que o momento de seu testemunho estava próximo, Simão, retirando o capuz que lhe cobria o rosto, disse em alto e bom som:
— Meus irmãos, eu sou Simão Pedro!
Fui eu que, antecedendo ao episódio da Crucificação, neguei a Jesus por três vezes...
Não pretendo mais me ocultar porque, sinceramente, sinto vergonha de mim!
Sei que minha cabeça está a prémio, e não temo a morte!
Vim para estar com vocês e morrer com vocês, como, um dia, Jesus morreu por nós!
Ele vive, e nós viveremos todos!
Não há razão para que continuemos a nos considerarmos imprescindíveis ao Evangelho...
Não passo de mero soldado do Cristo, destinado a tombar no campo de batalha!
Todavia, a vitória pertencerá a Ele e somente a Ele!...
Naquela noite mais penumbrosa que todas as demais, no amplo espaço da catacumba onde estavam reunidos, uma fila de irmãos e irmãs se formou para que Simão os abençoasse.
Era comovente a atitude de quantos dele se aproximavam e se prosternavam de joelhos, como se sua presença fosse a presença do próprio Senhor!
De todas as maneiras, o Apóstolo tentava esquivar-se dos que, então, passaram a lhe beijar as mãos e os pés, pedindo:
— Abençoe-me, meu pai, pois sei que, amanhã ou depois, estarei entre os mortos da arena - solicitava-lhe um ancião de barbas tão encanecidas quanto as suas.
— Simão, dê-me forças para que eu não vacile! - rogava-lhe uma senhora que trazia o neto pela mão.
Eu não tenho com quem deixar o meu pequeno Vitório...
— Ah! - exclamava um jovem, agarrando-se-lhe às vestes - eu quero morrer por Jesus, mas tenho receio de abjurar...
Não me deixe fraquejar!
Que eu possa me fazer digno daquele que é o Senhor...
Profundamente comovido, o Apóstolo, por sua vez, a todos se recomendava:
— Orem vocês por mim, meus irmãos, para que eu não fracasse outra vez!...
Nos primeiros meses do ano de 67, quando deixava um dos cultos realizados nas catacumbas, Simão, que, de facto, terminara denunciado, é preso por soldados pretorianos, a mando de Tigelino.
Lançado à prisão, permanece vários dias sem comer, apenas recebendo uma caneca d'água no período da tarde, com a especial finalidade de que fosse mantido vivo...
Antes de sua execução, que, justamente na Via Ápia, se daria pela crucificação e não no circo, como muitos historiadores supõem, Simão é levado à presença de Nero, o qual desejava ardentemente conhecê-lo.
Quando a sua figura de homem aparentemente comum adentra o palácio imperial, o Imperador, que sempre vivia sob o domínio de tenebrosas forças espirituais a controlá-lo, dele se põe a escarnecer:
— Então, você é o líder dos miseráveis que incendiaram Roma e que seguem Aquele que foi pregado na cruz?!
Eu não imaginava que você pudesse ser uma figura tão inexpressiva!
- falou a rodeá-lo, lhe observando de perto o corpo outrora vigoroso.
Se é que sabe falar, diga alguma coisa para que eu possa ouvi-lo!...
— Jesus Cristo reina! - exclamou o Apóstolo, recebendo, de imediato, violenta bofetada que Tigelino lhe desferira no rosto.
— Quê?! Você deve estar louco!...
Um rei cujo trono foi a cruz dos bandidos?!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 03, 2018 10:04 am

— Jesus Cristo vive! - tornou Simão, com destemor.
— Vocês não passam de ratos embarafustados nos esgotos das catacumbas e querem desafiar a mim, o Divino César?! - gritou em um de seus muitos acessos de cólera.
— Jesus Cristo vence! - redarguiu aquele que, a convite do Senhor, se fizera pescador de homens.
— Chega! Basta! - disse Nero a Tigelino.
Alguém tão sem expressão e tão sem substância...
Como pode?! Isso mostra a incompetência de Cláudio para enfrentar esses judeus, que também sempre pesaram aos cofres de Roma.
E, com um gesto de teatral desprezo, ordenou:
— Crucifiquem-no nu!
E que o seu corpo miserável sirva de repasto para as aves de rapina, na Via Ápia!
Deixem-no apodrecer ao Sol!...
Foi assim que, no ano de 67, Simão Pedro, diante de Nero, após testemunhar o Cristo por três vezes, quanto por três vezes o houvera negado, foi crucificado, com a notícia da morte do considerado chefe da resistência dos cristãos se espalhando por toda a cidade.
Não obstante, ao contrário de retraírem-se, os adeptos do "Caminho" mais começaram a se expor, com os seus exemplos de fé e resignação demolindo, a pouco e pouco, as consideradas muralhas inexpugnáveis de Roma, pagã e corrupta!
Conforme dissemos, no mesmo ano de 67, quando ainda imperava Nero, mas cujo magno laurel feneceria, meses depois, em 68, Paulo de Tarso é preso e, igualmente, condenado à morte.
No último capítulo de "Atos dos Apóstolos" de número 28, versículos 23 a 31, estas são as derradeiras notícias do Missionário, o qual também fora pregar a Boa Nova na Capital do Império:
"Havendo-lhe eles marcado um dia, vieram em grande número ao encontro de Paulo na sua própria residência.
Então, desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do Reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela Lei de Moisés como pelos Profetas.
Houve alguns que ficaram persuadidos pelo que ele dizia; outros, porém, continuaram incrédulos.
E, havendo discordância entre eles, despediram-se, dizendo Paulo estas palavras:
Bem falou o Espirito Santo a vossos pais, por intermédio do Profeta Isaías, quando disse:
Vai àquele povo e diz-lhe:
De ouvido ouvireis e não entendereis; vendo, vereis e não percebereis.
Porquanto o coração daquele povo se tornou endurecido; com os ouvidos ouviram tardiamente e fecharam os seus olhos, para que jamais vejam com os olhos, nem ouçam com os ouvidos, para que não entendam com o coração, e se convertam e por mim sejam curados.
Tomais, pois, conhecimento de que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios.
E eles a ouvirão.
Ditas estas palavras, partiram os judeus tendo entre si grande contenda.
Por dois anos, permaneceu Paulo na própria casa, que alugara, onde recebia todos que o procuravam.
Pregando o Reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo."
Paulo é preso na residência de Lino, sendo, na companhia do dono da casa e de sua esposa, conduzido a uma prisão do Monte Esquilino.
Tigelino, que o considerava mais perigoso que Simão, ordenara que ele permanecesse incomunicável, porque, mesmo no cárcere, a palavra eloquente de Paulo poderia provocar a revolta de outros prisioneiros que, resignadamente, esperavam a morte.
Mais tarde, retirado da prisão por um destacamento de soldados, Paulo, que fora transportado num carro para um dos cemitérios da Via Ápia, ouviu as explicações de quem exercia as funções de chefe do grupo - explicações que, com a devida vénia, transcreveremos do que Emmanuel registrou nas páginas de seu insuperável "Paulo e Estêvão":
— "O Prefeito dos Pretorianos, por sentença de César, ordenou que fôsseis sacrificado no dia imediato ao da morte dos cristãos votados às comemorações do circo realizadas ontem.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:11 am

Deveis saber, portanto, que estais vivendo os últimos momentos".
Calmo, olhos brilhantes e mãos amarradas, Paulo de Tarso, mudo até então, exclamou, surpreendendo os verdugos com sua majestosa serenidade:
— Ciente da tarefa criminosa que vos incumbe desempenhar...
Os discípulos de Jesus não temem os algozes que só lhes podem aniquilar o corpo.
Não julgueis que vossa espada possa eliminar-me a vida, de vez que, vivendo estes fugazes instantes em corpo cornai, isto significa que vou penetrar, sem mais demora, nos tabernáculos da Vida Eterna, com o meu Senhor Jesus Cristo, o mesmo que vos tomará contas, tanto quanto a Nero e a Tigelinol...
(...) Não sou digno de lástima.
Tende antes compaixão de vós mesmos, porquanto morro cumprindo deveres sagrados, em função de Vida Eterna; enquanto que vós, ainda, não podeis fugir às obrigações grosseiras da vida transitória.
Chorai por vós, sim, porque eu partirei, buscando o Senhor da Paz e da Verdade, que dá vida ao mundo; ao passo que vós, terminada vossa tarefa de sangue, tereis de voltar à hedionda convivência dos mandantes de crimes tenebrosos da vossa época!...
O algoz continuava a fitá-lo com assombro, e Paulo, notando a tremura com que ele empunhava a espada, concitou, resoluto:
— Não tremais!...
Cumpri vosso dever até ao fim!
Um golpe violento fendeu-lhe a garganta, seccionando quase inteiramente a venerável cabeça, que se nevara aos sofrimentos do mundo."!
Ignora-se onde os corpos de Pedro e Paulo foram sepultados, não sendo os seus túmulos, na actualidade, mais que indicações simbólicas para os cristãos que, ao longo dos séculos, merecidamente, passaram a cultuar-lhes a memória como dois dos maiores Expoentes do Evangelho, em todos os tempos.
Lino, o dono da casa em que Paulo se encontrava quando foi preso, em Roma, passou a liderar os cristãos, após a decapitação do Apóstolo.
Timóteo, Tito, Lucas e Alexandre de Jesus, dentre outros, bem como o próprio João Evangelista, se tornaram pontos de referência espiritual para os que prosseguiam enfrentando o fanatismo dos judeus ortodoxos e o paganismo dos romanos.
Somente meses depois foi que Tecla ficou sabendo, em detalhes, do que sucedera a Simão e a Paulo.
Ela já estava, com Acácia e Tamar, domiciliada na região da Selêucida, onde deliberara fixar-se.
Dois irmãos, chamados Crispo e Júlio, portando fragmentos da Carta que Paulo escrevera aos Romanos, bem como da Primeira Epístola de Pedro, chegaram a Mísia, onde, naquela oportunidade, Tecla se encontrava pregando.
Eles estavam a caminho da Cesareia, todavia um naufrágio no Mar Egeu fez com que, providencialmente, eles fossem dar à costa de Mísia.
Inteirando-se, assim, do que acontecera aos seus dois grandes amigos, a quem considerava por seus pais espirituais, Tecla não reprimiu, uma vez mais, copiosas lágrimas por aqueles que, em verdade, sempre lhe serviram de inspiração, no bendito apostolado.
Porém, reencarnacionista, um pensamento a confortava:
com certeza, no Grande Futuro, os dois baluartes do Cristianismo dos primeiros tempos haveriam de voltar à Terra, dando sequência ao trabalho que, sob as sublimes directrizes do Senhor, eles apenas haviam começado.
Tecla fez questão de copiar para si os documentos de que Crispo e Júlio, jovens quase adolescentes, se faziam portadores aos cristãos de Jerusalém, que davam continuidade às tarefas da "Casa do Caminho" - sendo que ela mesma, pela facilidade com que lidava com a palavra escrita, se encarregaria de fazer outras cópias da preciosa documentação que, somente em alguns de seus trechos, alcançaria o homem na actualidade.
Àquela altura, Barnabé também já demandara a Pátria Espiritual, como igualmente Tiago, filho de Alfeu.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:12 am

Dos Doze, ao que se sabia, apenas João sobrevivia, na crença literal que se depositara nas palavras com que o Cristo, respondendo a certo questionamento de Simão, havia pronunciado a seu respeito:
"Se eu quero que eu ele permaneça até que eu venha, que te importa?"
Tais palavras, obviamente, interpretadas fora do contexto da Reencarnação, mesmo tendo sido pronunciadas pelo Excelso Mestre, careceriam de sentido, porque a verdade reside em que, do ponto de vista físico, João, embora partindo em idade provecta, não permaneceu até que Ele viesse...
Contudo, sendo o Espiritismo o simbólico retorno da Doutrina de Jesus ao mundo e assim, portanto, Ele mesmo, na chamada "Parúsia", fácil deduzir-se que João Evangelista, na personalidade de Hippolyte-Léon-Denizard Rivail - Allan Kardec -, sempre permaneceu, como permanece, vigilante na defesa dos postulados cristãos.
Na Selêucida, pode-se dizer que Tecla, passando a habitar uma gruta de Isáuria, próxima a Pisídia, orientava inúmeros rapazes e moças na Doutrina Cristã, sendo ela, efectivamente, quem fundou a primeira escola com bases no Evangelho.
Não mais desfrutando de saúde para longas viagens, no máximo, por vezes, ela se deslocava até a Damasco, onde sua palavra era sempre aguardada com enorme expectativa.
Ela foi, assim, a primeira mulher a fazer-se eremita, à semelhança dos que, tempos depois, seriam denominados "Santos do Deserto", que se insulariam em austeras disciplinas, como Santo Antão, mas que, embora aparentemente fugindo do convívio social, cumpriam elevada função de ordem transcendente, pois sempre eram procurados por quantos neles desejassem inspirar-se na conquista da virtude e na renúncia aos apelos da vida mundana.
Quando a Mártir de Icónio não estava ocupando o tempo na orientação aos jovens, que nela procuravam pautar suas vidas, ou, então, em peregrinação missionária nas proximidades da gruta de Isáuria, passava o dia entregue à meditação e à escrita, trabalhando incansavelmente pela divulgação dos princípios cristãos, pelos quais ela a tudo renunciara na Terra.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:12 am

29 - Últimos Dias
Tristes notícias chegaram a Tecla, a respeito de Helena e Ananias, em Selinus.
O casal cristão não fugira ao testemunho por apedrejamento, a que fora submetido por instigação de judeus fanáticos da Sinagoga de Atália.
Helena, recebendo violenta pedrada na fronte, tombara de imediato, ao passo que Ananias, ainda agonizando ao chão, teve o corpo trespassado por um golpe de punhal no peito.
Contudo, a violência que contra os cristãos se generalizava em toda parte, provocava grande indignação nas almas nobres, que, espontaneamente, passavam a voltar-se para a doutrina do Cristo.
Quando Helena e Ananias foram martirizados, o trabalho que ambos estavam desenvolvendo em Selinus, como em toda a região, estava proporcionando os melhores frutos, de vez que outros pequenos núcleos cristãos se instalavam em casas daquela região da Ásia.
Petrónio, na companhia de João, que tomara Maria Nazaré sob sua protecção, se exilara em Éfeso, passando a servi-los com extrema dedicação.
Fora ele que presenciara o desdobramento do chamado "Vidente de Patmos", o qual, em transe, descrevera os quadros constantes do livro "Apocalipse".
Informações davam conta a Tecla de que, em Éfeso, era sempre muito grande o número de peregrinos que procuravam conhecer a "Santíssima" que, na casinha pobre a que se recolhera, permanecia inspirando os espíritos ao Evangelho de seu Amado Filho.
Enfim, quase todos os amigos mais próximos de Tecla se haviam distanciado, sendo que a maioria fora morta em testemunho da Fé.
Acácia, acometida por insidiosa enfermidade, expirara, aos poucos, sob os seus e os cuidados de Tamar.
— Não nos diremos "adeus" - disse-lhe Tecla, velando à sua cabeceira de moribunda.
Logo nos reencontraremos, minha boa Acácia!
No Outro Lado, peço-lhe, não se esqueça de mim com os seus inefáveis zelos...
Durante alguns anos, Tecla viveu apenas em companhia de Tamar, a menina hanseniana que adoptara por filha querida.
Seguindo os exemplos da benfeitora, Tamar não quis consorciar-se, que, educada por Tecla, auxiliava-a nos serviços de pregação da Boa Nova.
Aquela, no entanto, que, mais tarde, a Igreja passaria a considerar na condição de "igual aos Apóstolos", estava destinada a viver os seus últimos tempos na Terra em completa solidão.
Tamar, escorregando numa pedra, caíra de relativa altura e fracturara a bacia, desencadeando-se em seu organismo uma infecção que não pôde ser debelada.
Tecla, de joelhos, orava incessantemente pela recuperação da filha do coração, implorando a Jesus a curasse.
Porém, ela, que já intercedera uma vez em seu favor, não o pôde fazer de novo.
Em noite chuvosa e fria, Tamar expirou em seus braços, não sem antes confortar a mãe, que a pranteava:
— Não chore por mim, mãezinha!...
Jesus é bom!
Ele salvou-me duas vezes, sim.
Primeiro, quando me livrou das chagas que haviam tomado conta de meu corpo; depois, quando, me entregando aos seus cuidados, Ele me ensinou o caminho para o seu Reino de Amor...
Não chore!...
— Por meu intermédio, o Senhor curou a tantos! - soluçava Tecla, dizendo:
E alguns deles mais de uma vez; agora, Ele parece não mais ouvir minhas orações...
— Mas a senhora me ensinou que só Jesus pode nos curar para sempre, mãezinha! - redarguia Tamar com dificuldade.
E esta cura para sempre, conforme a senhora sabe, não está no corpo, que perece e morre, e, sim, no espírito, que vive para a Eternidade!...
Tecla sepultou o corpo da filha a poucos metros da gruta em que passara a viver, em Isáuria.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:12 am

Certa noite, sentindo-se em maior solidão, sonhou que Tamar, voltando da morte, lhe dizia:
— Mamãe, Maria de Nazaré também viu seu Filho partir...
Sempre pertenceremos uma à outra, para que, juntas, pertençamos a Jesus Cristo!
Enquanto, pelo seu amor, tudo não perdermos sobre a Terra, nossos espíritos não se farão dignos Dele!...
E, sorrindo, acrescentou:
— O amor de Jesus nos pede exclusividade, mãezinha!...
Tecla acordou no meio da noite, tendo lágrimas nos olhos, mas, com discreto sorriso nos lábios, repetindo para que ela mesma pudesse ouvir as derradeiras palavras que Tamar lhe dissera:
— O amor de Jesus nos pede exclusividade, mãezinha!...
— Com que, então - perguntou a si, de coração confortado -, o Senhor é assim tão cioso de nosso amor?!
Mas como?! Se eu já me consagrei a Ele de corpo e alma?!...
Naquele instante, a inconfundível voz de Abigail lhe soou aos ouvidos:
— Não obstante, no amor que sente por nós, o Senhor é insaciável.
Ele quer que, amando o próximo como a nós mesmos, não amemos o próximo mais do que devemos amar a Ele!...
Tecla, compreendendo, passara o resto do dia sorrindo.
Estranhando a atitude descontraída, os amigos que, de quando em quando, a visitavam, lhe perguntaram:
— Que houve?!
Qual o motivo de tanta alegria?!...
— Ah! - respondia ela.
Eu descobri que o Senhor é ciumento!
Ele nos quer, a cada um de nós, somente para Si!
-e sorria, sendo que muitos começaram a imaginar que, aos mais de oitenta de idade, ela já estivesse prejudicada em sua lucidez intelectual.
Todavia, embora já alquebrada fisicamente, a locomover-se com extrema dificuldade, Tecla ainda tinha muitos inimigos, os quais não entendiam como ela, sendo cristã, lograra livrar-se de todas as perseguições em que milhares de adeptos da doutrina do Nazareno haviam sucumbido e continuavam a sucumbir!
Quando alguém a indagava sobre o assunto, sem perder o bom humor, ela simplesmente respondia:
— O Senhor ainda quer me testar um pouco mais em minha fé!
Com certeza, Ele ainda não me considerou digna de Seu Reino e, como não me quer mandar para as Geenas...
A outros, redarguia:
— Ainda tenho muitas arestas, e o Senhor tem gastado comigo o corte de quase todos os Seus cinzéis...
Eu já Lhe disse que espíritos como o meu só podem ser lavrados a machado, mas Ele não me ouve!...
Um dia, um homem estranho, chegando à gruta em que Tecla vivia, sob a vigilância de amigos que, em verdade, nunca a deixavam completamente a sós, atirando-se-lhe aos pés, começou a dizer:
— Perdoe-me, senhora!
Perdoe-me!...
Tratava-se de um antigo feiticeiro que, por invejar a condição espiritual da Mártir, muitas vezes a caluniara, dizendo que, à noite, ela, que era considerada uma mulher intocada, promovia verdadeiras orgias dentro da gruta...
— Meu neto estava gravemente enfermo, e eu, com todos os meus conhecimentos, não lhe podia devolver a saúde...
Nenhum de meus amigos nada podia fazer por ele que, a cada dia, me parecia se aproximar das sombras da morte.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:12 am

Ele, então, me pediu que o trouxesse até à senhora...
Era coisa que, em definitivo, eu não quis fazer!
Silenciou por instantes e prosseguiu contando:
— Ela pode me curar, vovô! - ele insistia comigo, sem que eu, por amor próprio, não quisesse atendê-lo.
Eu nunca acreditei na doutrina do Crucificado...
Fala-se tanta coisa, e, depois, hoje em dia, não há nada mais perigoso do que ser cristão - nem ser assassino é mais perigoso do que ser cristão!
Tecla, serena, ouvia a narrativa do homem que, de joelhos, se desmanchava em lágrimas.
— Naquela noite - continuou o feiticeiro - meu querido Pólux piorou tanto, com a febre e com os delírios, que, sinceramente, eu estava apenas à espera de que ele fechasse os olhos para que a sua agonia tivesse fim...
De madrugada, vencido pelo cansaço da vigília de muitos dias, eu adormeci ao seu lado, escutando-lhe os gemidos, para, de manhãzinha, acordar com ele me chamando...
— Vovô, vovô! - ouvi a sua voz, que me despertava de terrível pesadelo.
Vovô, aquela senhora esteve aqui esta noite!
Ela me curou, vovô!...
— Aquela senhora?! - perguntei a ele, sem entender o que estava acontecendo.
Que senhora, meu filho?!
— Aquela mulher da gruta, vovô!
Ela esteve aqui, ao meu lado, impôs a mão sobre a minha cabeça e orou chamando por um homem de nome Jesus...
Eu estou curado, vovô!
Curado! Tenho fome!
Eu estou com fome!...
E, em pranto convulsivo, o velho feiticeiro, que vivia de explorar a crendice alheia, exclamava:
— Foi a senhora!
Foi a senhora!
Meu neto pôde vê-la...
Ensine-me esse sortilégio!...
— Mas eu não me lembro de nada! - respondeu Tecla com simplicidade.
Eu não saí daqui...
E o único "sortilégio" que conheço é o de orar a Jesus Cristo, que é meu Mestre!...
— Perdoe-me! - insistia o homem. — Perdoe-me!...
— Perdoar-lhe de quê, meu irmão?!
Você nunca me fez mal algum, mesmo porque o mal que pretendemos fazer a alguém é somente o mal que fazemos a nós mesmos!...
— Mas eu tinha que vir até aqui, para dizer à senhora que, desde muito, os meus amigos estão pretendendo agredi-la, a fim de maculá-la em suas virtudes de mulher, que, agora, sei, são verdadeiras: a senhora é uma santa!...
— Santa?! - rejeitou Tecla o elogio.
Uma santa velha, caindo aos pedaços, que vive dentro de uma gruta?!
Ora, meu irmão, não me tente dessa outra maneira!...
Prefiro que você me crave um punhal no peito ou que me decepe a cabeça com um golpe de espada, antes que me inocule tal veneno no espírito!...
Tecla havia se levantado do tosco banco de pedra onde passava a maior parte do tempo e, com dificuldade, caminhava dentro da gruta, dizendo, agora tomada de indignação:
— Deixe que venham!
Não possuirão mais que um remanescente de matéria imprestável!...
Não é somente isto que, em geral, os homens acham que as mulheres têm para lhes oferecer?!
Quanta mediocridade!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:12 am

Agora, melhor entendo meu Senhor, quando perguntou aos judeus:
"Até quando vos hei de sofrer?!"
Deixe que venham! - insistia, talvez, pela vez primeira, perdendo a serenidade que sempre a caracterizava.
O homem, assustado com semelhante transfiguração, emudeceu.
— Agora - ordenou a Mártir -, você se vá daqui e leve consigo a tentação que me trouxe...
Eu sou e sempre fui lama!
- exclamou, lembrando o que, muitas vezes, durante a existência de noventa anos, ela tivera oportunidade de repetir.
— Seja grato a Jesus Cristo, que isto me basta!
Vá-se daqui!...
O feiticeiro, porém, erguendo-se do chão em que continuava prostrado, saiu ainda mais convencido da santidade daquela mulher que ele, tantas vezes, caluniara.
O episódio, no entanto, caindo no conhecimento dos demais mistificadores da região, que se sentiam prejudicados no comércio de explorar a ignorância e a superstição populares, acirrou-lhes o ânimo contra Tecla, que, aliás, em suas pregações, não perdia oportunidade de alertar o povo contra a acção dos falsos cristos e, neste caso, dos falsos profetas.
"Guardai-vos dos falsos profetas que vêm ter convosco, cobertos de peles de ovelha, e que por dentro são lobos rapaces.
Conhecê-los-eis pelos seus frutos.
Podem colher-se uvas nos espinheiros ou figos nas sarças?" - ela sempre fazia questão de frisar.
Naquela época, a palavra "feiticeiro", evidentemente, era um termo genérico, que, com muita frequência, se empregava para designar todos aqueles que se punham a lidar com as forças invisíveis consagradas ao Mal, sendo que era muito comum que a tais, inclusive, se chegasse a encomendar a morte das pessoas através das poções venenosas, quando não delirantes, que eles se dispunham a preparar, em troca de dinheiro.
Três deles, então, prepararam um ataque contra a veneranda Tecla, combinando entre si que não deveriam matá-la, transformando-a em mártir, mas, sim, conspurcá-la em suas virtudes femininas - virtudes que, aliás, vinham servindo de inspiração para muitas jovens, que, ao colocarem-se a serviço do Evangelho, faziam opção pela castidade virginal.
Tecla, conforme registramos anteriormente, seria, no Cristianismo, a precursora da clausura em que muitas mulheres cristãs passariam a viver na solidão dos mosteiros e dos conventos, que, naqueles tempos recuados, tiveram sua justa razão de ser.
Combinando o assalto para quando anoitecesse, usando capuzes que lhes cobriam as fisionomias exóticas, os três homens, furtivamente, se aproximaram da gruta, onde Tecla parecia estar à espera.
— Que pretendem?! - perguntou ao vê-los.
Vieram abusar de uma morta?!
Desejam possuir minha carne já inservível?!...
Ecoando dentro da gruta, suas palavras como que os paralisaram m sua acção.
— Vocês chegaram tarde, meus amigos! - disse-lhes.
Chegaram, porém, a tempo de serem as únicas testemunhas da minha partida deste mundo...
Arregalem bem os olhos, porque, a partir de hoje, vocês não mais voltarão a enxergar a luz do dia!...
Assim dizendo, antes que os três homens, a portarem armas e cordas para amarrá-la, vencendo o medo que os tomara, decidissem pelo que, afinal, tinham planejado fazer, Tecla se retirou para os fundos da cripta, que tinha inúmeras passagens através da rocha, e não mais pôde ser vista por eles, mesmo porque, assim que a Mártir lhes desapareceu diante dos olhos, os três ficaram completamente cegos!
Espalhou-se, assim, a lenda de que, com o intuito de proteger Tecla, o Senhor fizera com que uma rocha se abrisse e lhe abraçasse o corpo, livrando-a do intento de seus algozes!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:13 am

A verdade, porém, é que ela, no esforço de enveredar por uma das passagens existente nos fundos da gruta, sofrera um mal súbito e rolara precipício abaixo, dando a impressão de que, qual o profeta Elias, fora, de corpo e alma, arrebatada aos Céus.
Os três feiticeiros, eles mesmos, se encarregaram de espalhar a notícia do facto aparentemente sobrenatural, que, antes de ficarem completamente cegos, haviam podido presenciar.
Por dois dias seguidos, os amigos cristãos de Tecla vasculharam a gruta, à procura de seu corpo, sendo que, somente no terceiro dia, foram encontrá-lo numa estreita fenda, inteiramente preservado de qualquer decomposição!
Contudo, com receio de que, caso ali fosse sepultado o seu corpo, o túmulo fosse profanado, os cristãos levaram-na a Selêucida, onde lhe deram piedosa sepultura, a qual, com o tempo, passou a ser objecto de peregrinação.
A valorosa Mártir, tendo cumprido cabalmente a tarefa para que, enfim, renascera, mas à qual, pelo seu próprio valor, superando expectativas, dera maiores dimensões do que se poderiam esperar de uma mulher em época tão difícil, retornava ao Mundo Espiritual, após ter escrito na Terra uma das páginas mais luminescentes no livro daqueles que souberam testemunhar sua fé no Evangelho.
Como Paulo, ela, igualmente, poderia dizer, que o Apóstolo dos Gentios grafou em sua Segunda Carta a Timóteo:
— "Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé"!
A notícia do desenlace de Tecla depressa chegou a Icónio, Listra, Derbe, Antioquia, Jerusalém, Roma...
Durante longo tempo, suas lutas em prol da Causa Cristã foram citadas como exemplos para os cristãos do segundo e do terceiro século, mas, infelizmente, pouco ou quase nada em documentação escrita se deixou registrado sobre ela.
Por esse motivo, nos dias atuais, embora Tecla seja considerada um dos ícones da Igreja Católica, muitos há que supõem que sua vida não passou de mera lenda, ou, então, que seus feitos não foram assim tão grandiosos, para merecerem ser biografados pelos contemporâneos...
Precisamos, porém, dizer que, à semelhança da Grande Mártir, muitas mulheres houve às quais o Cristianismo muito passou a dever, no campo da exemplificação. Segundo pudemos dizer alhures, essa lamentável omissão de nomes e feitos deve-se à influência da sociedade judaico-romana, excessivamente machista - influência à qual, infelizmente, até mesmo os homens cristãos mais proeminentes dos primeiros séculos não conseguiram se safar.
No livro "História Eclesiástica", de Eusébio de Cesareia, um dos poucos que conseguiram chegar aos nossos dias, documentando a História dos quatro primeiros séculos da Igreja Cristã, raríssimas são as menções do historiador a vultos femininos, sem os quais, no mínimo, os maiores nomes do Cristianismo Nascente não teriam ido ao mundo.
Não exageramos em dizer que, nos testemunhos de fé a que os cristãos foram chamados, nos primeiros três séculos do Cristianismo, o número das mulheres que pereceram nos circos, em espectáculos públicos ou isoladamente, nada fica a dever ao dos homens que morreram pela mesma causa, sendo, ainda, que muitos deles se fizeram mártires e heróis do Evangelho por inspiração de suas mães, esposas, filhas e irmãs.
Por esse motivo, escrevendo sucintamente sobre alguns episódios da vida de Tecla de Icónio, pretendemos também prestar nossa sincera homenagem àquelas anónimas heroínas do Cristianismo Nascente que, mais do que os homens, souberam atender as palavras que, em relação a Jesus, inspiradamente, fluíram dos lábios de Maria de Nazaré, nas Bodas de Caná da Galileia:
"Fazei tudo o que ele vos disser"!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:13 am

30 - No Mundo Espiritual
Tecla cumprira abençoada trajectória na Terra, junto a tantos outros espíritos que, provenientes do sistema planetário de Capela, cujas diversidades geraram diferentes raças na Terra, haviam, outrora, rejeitado as lições do Senhor, que, em todos os orbes do Universo, se sintetizam no "Amai-vos uns aos outros".
Tais espíritos, acolhidos pelo Cristo, na Terra, ao mesmo tempo em que teriam oportunidade de redimir-se, cooperariam no aprendizado dos primitivos habitantes do Planeta e de outros que para ele se transfeririam, em busca de experiência.
Podemos, pois, afirmar, uma vez mais, que os cristãos dos primeiros tempos, em maioria, não eram espíritos considerados propriamente terrestres, mas, sim, irmãos da Grande Família Universal, entre quedas e soerguimentos, em contínua ascensão para Deus.
Tecla cumprira abençoada trajectória na Terra, junto a Óbvio que muitos outros, cujo berço evolutivo tenha sido a própria Terra, aproveitaram a oportunidade da presença do Divino Mestre sobre ela e, ao contacto com Ele, principiaram por iluminar-se interiormente, revelando notável aproveitamento.
Tecla, porém, repetimos, e outros, entre os quais os próprios Apóstolos e, ainda, Paulo de Tarso, eram espíritos que traziam consigo considerável bagagem evolutiva, dispostos agora a não mais se afastarem do caminho do Amor e da Verdade. Contudo, alguns deles, como Judas Iscariotes, por exemplo, ainda claudicariam no momento do testemunho, equivocado ele e os aliados por considerarem Jesus como Rei de Israel, ante a profética vinda do Messias; e, aos carmas que traziam consigo de outras Esferas, acrescentariam os carmas que, pela sua invigilância, viriam a adquirir no Orbe Terrestre.
O que afirmamos não se baseia apenas na revelação, mas, principalmente, na lógica, porque o mundo de há mais de dois mil anos, em nenhum aspecto - nem mesmo no biológico -, favorecia o aparecimento de homens e mulheres da estirpe espiritual que caracterizava os cristãos primitivos.
Deixando o corpo já nonagenário, Tecla, extremamente exaurida em todas as suas energias, viu-se fora da gruta de Isáuria, onde passara os últimos anos de profícua existência, na condição de asceta.
A princípio, com as ideias um tanto confusas, imaginou que estivesse apenas tendo um sonho, um delírio, igual a outros que, em muitas ocasiões, tivera, quando, mormente nos primeiros anos de sua conversão, se percebia numa campina verdejante, atapetada de flores.
Mas, agora, ela fazia parte daquela imensa procissão de peregrinos que, assinalados por inúmeras cicatrizes, retornavam do campo de batalha...
De imediato, não pôde reconhecer a ninguém - a nenhum daqueles homens e mulheres que, às centenas, formavam um só bloco iluminado, caminhando sobre o tapete de grama esmeraldina, atraídos por imenso foco de luz a brilhar ao cume de um monte.
Aquela paisagem, com certeza, não lhe era de todo estranha, todavia, os rostos que podia divisar eram diferentes dos que ela se habituara a identificar, em seus desdobramentos.
Embora com certo abatimento, que não sabia bem se lhe acometia o corpo ou o espírito, contraditoriamente, ela caminhava com facilidade, quase como se estivesse a deslizar sobre a relva: ao mesmo tempo em que experimentava vontade de chorar, sentia tamanha alegria no coração, que nem todas as palavras do vocabulário conseguiriam exprimir.
Caminhando rente a ela, de fronte alevantada e olhos postos no radioso foco de luz que lhes centralizava as atenções adiante, observou irmãos e irmãs que, em seu corpo espiritual, ostentavam as marcas do martírio que lhes havia sido impingido, em defesa do Evangelho - cada uma delas era como se lhes fosse, ao peito, uma medalha de heroísmo, conferida pelos Céus aos que não haviam desertado ao testemunho a que tinham sido convocados!
No entanto, eis que, agora, aqueles espíritos que, durante algum tempo, haviam se exilado no corpo, voltavam à Pátria de origem, a fim de prestarem contas de suas atitudes às soberanas Leis da Vida.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:13 am

Tecla, olhando para si mesma, a não ser à altura do tórax, onde, certa vez, recebera forte pancada desferida por um calhau que lhe partira uma costela, não reparou em seu corpo nenhuma outra marca luminescente que se destacasse; então, considerou que, entre todos com os quais se pusera a caminhar, era ela o espírito mais apagado.
E assim pensando, envergonhada de si mesma, a Mártir do Icónio foi ficando para trás, até colocar-se no último lugar da fila dos peregrinos.
Quando, depois de muito e muito seguir, na direcção daquele sublime foco de luz, que, ao mesmo tempo, se lhe mostrava a brilhar tão longe e tão perto, a pequena multidão estacou e, espontaneamente, se pôs de joelhos, como alguém que, humilde, se aquieta para ouvir um veredicto.
Tecla, que se prostrara com dificuldade, era a derradeira...
Súbito, uma Voz melodiosa e inconfundível, emergindo daquela luz que parecia pulsar na Altura, começou a falar com extrema doçura:
— "Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração, e achareis repouso para vossas almas, pois é suave meu jugo e leve meu fardo"!
Evidentemente, nossa palavra não conseguiria traduzir toda a beleza das Palavras que, naquele momento, o Senhor fazia ecoar no coração de cada um daqueles espíritos que o haviam servido com fidelidade no mundo.
O fenómeno, porém, era semelhante ao acontecido na Festa de Pentecoste, quando, comunicando-se com a multidão, os espíritos que se manifestaram se puseram a falar de modo que cada um dos presentes os entendesse em seu próprio idioma!
— "Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua.
Estavam, pois, atónitos e se admiravam, dizendo: Vede!
Não são, porventura, galileus todos estes que aí estão falando?
E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna, partos, medos e elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto e Ásia; da Frigia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia nas imediações de Cirene e romanos que aqui residem, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes; como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?".
Portanto, como se estivesse dirigindo-se particularmente a Tecla, aquela voz, cujo timbre nunca lhe havia soado aos ouvidos mortais, mas na qual ela adivinhava a voz do Divino Mestre, que tantas e tantas vezes anelara escutar, lhe dizia:
— Bem-aventurada és, porque cumpriste todos os teus deveres com dignidade!
Não te entristeças, porque, em meu Reino, os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros...
Sobe, pois, filha, ao meu encontro e ao encontro daqueles que, há longo tempo, permanecem à tua espera!...
Sem que soubesse explicar o ocorrido, como que por encanto, todo o cansaço da Mártir desapareceu, e, então, ela começou a experimentar uma sensação de leveza muito maior do que aquela a fazê-la deslizar sobre a campina - porém, à exacta medida que subia, o ponto de chegada lhe parecia estar cada vez mais distante!
Foi quando, a determinada altura, quando já prestes a sentir vertigem, por não mais conseguir respirar o ar rarefeito daquele ambiente etéreo, sua visão se dilatou, e ela pôde enxergar inúmeros amigos que, sorrindo, vinham saudá-la em seu regresso ao Mundo Espiritual.
Dezenas deles, em fila, se punham a abraçá-la, depositando-lhe fraterno ósculo na fronte, fazendo com que, assim, gradativamente, ela se sentisse revigorada.
Em primeiro lugar, vinha Barnabé, sorridente, a dizer-lhe:
— Tecla, minha irmã, que Deus a abençoe!
Rendo a você meu tributo de reconhecimento e minha gratidão!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 04, 2018 10:13 am

Depois, um a um, foram se sucedendo:
Acácia e Tamar, o próprio Tiago, filho de Alfeu, Estela e Petrónio, Helena e Ananias...
Para sua imensa surpresa, como um dos integrantes da fila, apareceu Simão Pedro, que lhe abria os braços paternais.
Logo em seguida, veio Paulo, que, demoradamente, a abraçou em lágrimas, sussurrando-lhe, baixinho, aos ouvidos:
— Perdoe-me, Tecla!...
E, por último, de mãos dadas, assemelhando-se a duas estrelas, dois irmãos, dentre os mais belos espíritos que surgiram para recepcioná-la, apresentaram-se:
— Eu sou Abigail! - disse a jovem que, praticamente, em toda a sua trajectória terrena, tanto a protegera.
— E eu sou Estêvão! - exclamou o Primeiro Mártir Cristão, com extrema ternura no olhar.
— Meu Deus! - tornou Tecla, admirada, reconhecendo-o.
Você... Você é quem eu sempre vi em meus sonhos!
À época, porém, tinha a impressão de que eu era mais jovem que você!
Agora, no entanto...
— Você não deve ter-se observado bem, Tecla! - redarguiu Estêvão, sorrindo.
Você se esqueceu do que nos disse o Mestre?!
E repetiu:
"Digo-vos, em verdade, que aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, nele não entrará"!
Foi quando, então, reparando em si mesma, a Mártir glorificada se enxergou completamente transfigurada...
Não mais era a mulher cujas faces o tempo assinalara com muitas rugas e que, nos últimos lustros, constrangera a caminhar com muitas dificuldades.
— Terei, porventura, assim, chegado ao Reino de Deus?! - inquiriu Tecla, que, fisicamente, se sentia tornar ao tempo de sua melhor juventude em Icónio.
— Ainda nos falta muito! - respondeu Estêvão, com o bom humor característico dos espíritos felizes.
Rejuvenescemos, mas ainda não nos fizemos crianças o suficiente!...
— Então, para onde vamos?! - perguntou ela, preocupada.
— Rumo a Jerusalém, para a "Casa do Caminho"! - atalhou Simão, elucidando.
— Mas - replicou Tecla -, ao que sei, a "Casa do Caminho" acabou sendo fechada; depois, por ordem do Sinédrio, foi incendiada...
— O Sinédrio, no entanto - disse Simão -, não pôde derrubar seus alicerces espirituais...
A "Casa do Caminho", na Jerusalém Espiritual, continua em franca actividade, e, por lá, temos muito trabalho a empreender!...
Volitando para as imediações da Crosta, em direcção da chamada "Cidade dos Profetas", Tecla pôde anotar a extensão dos serviços que, de facto, os aguardavam, porque a tarefa de cristianização da Humanidade, que nunca se interrompe, sempre se desdobrou dos Dois Lados da Vida.
A "Casa do Caminho" com que a Mártir pôde se deparar no Além era de dimensões muitíssimo mais amplas do que aquela que, em Jerusalém, ela conhecera, um dia.
E, passados cerca de dois mil anos em que semelhante fortaleza espiritual se ergueu sobre a Terra, a abençoada Instituição continua com o seu ministério e há de continuar, dentro dos mesmos padrões com que foi fundada, até que os séculos se consumem para a Redenção da Humanidade!
Por assim dizer, a "Casa do Caminho" e não os mais diversos templos religiosos que se ergueram após, chegando mesmo a descaracterizar os traços espirituais de sua singela arquitectura, há de prosseguir, sendo o simbólico vínculo do Cristianismo da Terra com o Cristianismo em suas origens.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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