TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:23 am

— Na semana passada, com um grupo, armamos uma cilada para aquele velho que comanda a "Casa" aquele tal de Simão Pedro, que também é um mago!
Ele tinha ido ao mercado mendigar restos de legumes e verduras...
Nós, então, o cercamos e atiramos pedras contra ele, mas, inexplicavelmente, não conseguimos que nenhuma delas o atingisse!
Ele nos mirou com olhos tão profundos e penetrantes, que tivemos de fugir, pois ficamos com medo de que nos lançasse algum feitiço!...
— Dizem - argumentava um dos mais revoltados - que as palavras que eles pronunciam são cabalísticas...
O homem que foi morto na cruz e que chegou a ressuscitar um morto era a encarnação do Demónio!
Estamos dominados pelos seus sequazes...
Em minha opinião, nem presos eles devem ser - precisam logo ser mortos, passados a fio da espada, tendo as cabeças decepadas!
Eles falam em perdão, amor, caridade...
Tudo isso é para atrair os incautos!
Ora, a nossa lei é a do "olho por olho, dente por dente"...
Moisés nos libertou do Egipto, mas o tal de Jesus de Nazaré estava a serviço de Roma, que nos escraviza!
Então, morte aos cristãos!...
Temendo, pois, até tomar informações sobre onde a "Casa do Caminho" se localizava, Tecla e Acácia quase que andaram praticamente a cidade toda, sentindo que a pressão sobre os adeptos do Cristianismo era intensa e que, em Jerusalém, a situação estava quase insustentável.
Porém, quando se aproximaram de um dos bairros mais populosos da cidade, viram grande movimentação de pessoas carentes a ocuparem uma das ruas mais largas.
Tinha-se a impressão de que a escória de Jerusalém e arredores estavam ali concentrados.
Eram aleijados, amputados, cegos, mães com seus filhos esquálidos, moribundos, pessoas que, tomadas por espíritos, falavam sozinhas...
Aquela massa humana em torno da "Casa" se constituía em verdadeira fortaleza, impedindo que os mal-intencionados se aproximassem.
Era ali que o Cristianismo resistia bravamente às arremetidas das Sombras.
Com dificuldade, confundindo-se com a multidão, Tecla e Acácia conseguiram aproximar-se do portão central, do qual, naquele justo momento, presenciaram sair alguns homens e mulheres carregando panelas de pedra e outros improvisados recipientes maiores, de que emanava agradável aroma de suculenta sopa fumegante, feita exclusivamente com base de legumes.
Um jovem simpático de pequena estatura, de olhos meigos semicobertos pelos cabelos encaracolados, empurrava para fora um carrinho com pães recém-saídos do forno.
Este era João Evangelista, o único que, praticamente, perseverara com o Senhor até ao fim, testemunhando, com Maria de Nazaré, o martírio na cruz.
Impossível conter a emoção naquele momento!
Tecla e Acácia, não segurando as lágrimas que, espontaneamente, lhes vinham aos olhos, começaram a chorar de afectuosa admiração.
— Nunca vi nada tão belo assim! - exclamou a jovem de Icónio.
Sei que, de minha parte, parece um contra-senso, mas nunca imaginei que, um dia, fosse presenciar algo que me tocasse tanto!...
Enquanto sussurrava tais palavras a Acácia, Tecla percebeu que, no portão principal da abençoada "Casa", assomara a figura majestosa de um homem, de cabelos um tanto ralos, deixando à mostra parte da calva, e barbas grisalhas que quase lhe batiam no peito.
Era Simão Pedro, a quem, quase em uníssono, os mendigos e doentes mais próximos começaram a chamar de "Pai"!
Outros amigos, quase duas dezenas de homens e mulheres do "Caminho", desdobravam-se para a todos atenderem naquela tarefa quase impossível de mitigar a fome e confortar os corações desesperançados.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:23 am

Cada côdea de pão, que João e seus auxiliares faziam chegar às mãos estendidas dos necessitados, seguia acompanhada das palavras que eram por eles pronunciadas e por todos ouvidas com imenso respeito:
— "Em nome do Senhor"!
Aquela, sem dúvida, era uma luta diferente, mas as duas amigas se sentiam dentro de imenso campo de batalha, no qual os heróis se destacavam pela generosidade para com o próximo.
Continuando, a custo, a abrir caminho em meio à multidão, avançando passo a passo, Tecla se aproxima de Simão, que, estando a distribuir a sopa com o emprego de uma concha, perguntou-lhe:
— Minha filha, onde está a sua vasilha?...
— Eu vim, senhor, trazer as minhas mãos para auxiliá-los - respondeu com humildade.
Eu sou Tecla, de Icónio.
E esta é Acácia, antiga serva da casa de meu pai. Somos cristãs!...
— Tecla?! - inquiriu Simão, erguendo os olhos por instantes, sem que, porém, tivesse tempo para maiores indagações.
— Se vieram em nome do Cristo - acentuou -, há muito trabalho a ser feito...
Sejam bem-vindas!...
E, sem mais delongas, passou uma concha às mãos dela, que, em verdade, pela vez primeira, estava experimentando diferente contacto com a prática indiscriminada da Caridade.
Os doentes, além de comida, disputavam o privilégio de, pelo menos, tocar o manto de Simão, que, a bem dizer, quase era arrastado de um lado para outro.
— Estou curado! - gritou um homem de pernas entrevadas, que, fazia dias, esperava pela oportunidade de tocar ou de ser tocado pelo Apóstolo.
Estou curado! O Deus dos cristãos seja louvado!...
Bastou essa isolada manifestação para que muitos doentes, erguendo as mãos para o alto, começassem a pedir, cada qual formulando seu apelo.
— "Pai", toque também a mim - pedia um.
Expulse do meu corpo esta febre que me consome - clamava outro.
Cure-me de minha cegueira -rogava um terceiro nas sombras de sua expiação.
Por favor, caridade para meu filho que é lunático - solicitava uma mãe tomada de aflição.
— Acalmem-se! - respondia Pedro às palavras que, partindo de todas as direcções, lhe chegavam aos ouvidos em sentido clamor.
Acalmem-se! Comam e agradeçam ao Senhor...
Não sou eu quem cura!
Nem tampouco João ou Filipe, Tiago ou Bartolomeu...
A cura pertence ao Senhor!
Orem a Ele e não a nós, que não passamos de seus falíveis servos!...
Durante quase duas horas, Simão Pedro e os demais se empenharam naquela batalha, que, afinal, era praticamente de todos os dias.
Na medida do possível, os doentes piores eram levados para dentro, e acomodados de acordo com as possibilidades de espaço da "Casa", sendo que, ao irem melhorando, se ofereciam para trabalharem ali como voluntários.
Simão e João, principalmente os dois, que eram os mais requisitados pela multidão, estavam extenuados.
Tecla os observou juntos e, num átimo, teve a impressão de que, sem dúvida, sem que portassem nenhuma arma nas mãos, eram eles dos maiores guerreiros que, talvez, a Humanidade jamais viesse a conhecer.
Novamente, os seus olhos encheram-se de lágrimas - tal a imensa admiração.
Ela e Acácia, igualmente, sentiam-se praticamente sem forças, mesmo porque não haviam comido um único pedaço de pão ou tomado qualquer caneca d'água.
A multidão, alimentada e confortada, por fim, se tranquilizara, sem, contudo, arredar pé das proximidades da abençoada "Casa", a que estava disposta a defender com a própria vida!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:24 am

16 - Tecla e Simão Pedro
Os Apóstolos não dispunham de alimento suficiente para suprirem à fome da grande multidão, todavia, recordando a multiplicação dos pães e dos peixes, efectuada pelo Senhor, a solidariedade entre os próprios necessitados fazia com que os recursos se multiplicassem em benefício de todos.
A tarefa assistencial da "Casa do Caminho" era, sem dúvida, o mais poderoso argumento em favor da causa do Cristianismo, mobilizando a opinião pública que, a cada vez mais, se lhe mostrava simpática.
Cansados da opressão e da violência que, em nome dos deuses, imperavam em quase toda parte, a verdade é que os considerados pagãos respondiam mais prontamente à Mensagem do Evangelho - eram como órfãos do espírito, que, de repente, estivessem sendo adoptados por um Pai extremamente amoroso, que não fazia qualquer distinção entre os filhos.
Quando Roma acordou para o perigo que o Cristianismo representava para as suas instituições, já era tarde, porquanto o desregramento moral que, a partir do Imperador, predominava entre os seus políticos e nas famílias mais abastadas, a fragilizara.
Por outro lado, habituada aos constantes conflitos religiosos entre os judeus, Roma não valorizara as denúncias que os adeptos mais fanáticos do Judaísmo faziam chegar às autoridades que a representavam na Palestina.
Ao término da actividade de socorro à multidão dos necessitados, Simão, gentilmente, convidou Tecla e Acácia para conhecerem a "Casa" por dentro, aproveitando para se refazerem do esforço despendido, em que se revelaram notáveis colaboradoras.
Obviamente, aceitando o convite formulado, Tecla, atravessando a porta de acesso ao interior da abençoada Instituição, perante tudo quanto passou a ver nos doentes que, em leitos improvisados, se acomodavam aqui e ali, não soube definir se se tratava de um hospital ou de um templo de natureza religiosa.
Praticamente, não sobrava o menor espaço para que alguém mais fosse acolhido!
Simão, que havia transpirado às bicas, apresentava seu manto encharcado de suor e todo respingado de sopa, dando a impressão de que, de facto, lá fora, ele travara uma batalha!
João, que, a todo instante, parecia sorrir para ela e para Acácia, se encontrava na mesma situação, contudo, ao contrário de Simão, que ela se habituaria a ver sempre preocupado, extravasava alegria no semblante juvenil, em místico transporte de felicidade.
— Todo dia é assim?! - perguntou Tecla, procurando diálogo.
— Sim, minha filha - respondeu o ex-Pescador de Cafarnaum.
— Ultimamente, porém, os necessitados vêm aumentando em número...
Você sabe, as notícias se propagam com velocidade.
E, depois, estamos atravessando um período que não foi favorável para as colheitas, acrescendo que Roma parece estar perdendo o controlo da situação.
— De facto, a fome tem-se espalhado e, com ela, as doenças se disseminam com maior facilidade...
— Até por isso estamos sendo culpados - lamentou-se Simão.
Agora, de tudo quanto acontece de ruim para a população, os cristãos têm sido culpados...
Não passa uma semana, sem que o Sinédrio nos convoque a explicações.
Recentemente, estivemos presos e quase fomos executados!
Gamaliel, no entanto, tomou nossa defesa, e fomos soltos, não sem antes sermos, em público, açoitados de maneira impiedosa!
Realmente, observando a Simão com mais cuidado, Tecla percebeu que ele trazia nas mãos e no rosto equimoses e hematomas - sinais de espancamento.
João que, naquele momento, a fim de higienizar parte do corpo, se livrara do próprio manto até à cintura, deixara à mostra as marcas de impiedosas vergastas nas costas.
A conversa ainda estava no início, quando surge Tiago, o mais ortodoxo dos Apóstolos e, talvez, por isso mesmo, o mais desconfiado em relação aos estranhos.
— Quem são vocês?! - perguntou com certa rudeza na voz.
— Eu sou Tecla, de Icónio - respondeu a moça -, e esta é Acácia, antiga serva da casa de meu pai.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:24 am

Ambas somos cristãs!
Viemos de Listra, onde estivemos com Paulo e Barnabé.
Voltando-se para Simão, Tiago simplesmente comentou:
— Eu falei com você no que resultaria a intenção de Paulo em pregar aos gentios...
Estamos expostos, porque muitos, fazendo-se passar por cristãos, têm vindo até aqui para nos espionar.
— Todavia - rebateu Tecla com firmeza -, este não é o nosso caso:
não somos espiãs!
Por Jesus Cristo, deixamos tudo para trás!
Paulo e Barnabé poderão dar testemunho de mim, e, por minha vez, dou-lhes testemunho de Acácia.
Como vocês, já estive presa e fui jogada aos leões, que apenas não me devoraram por intercessão das bênçãos do Senhor...
João, aproximando-se, trouxe um pouco mais de docilidade ao diálogo, que Tiago, por sua exasperação, estava tornando desagradável para as duas visitantes.
— Minhas irmãs, venham comigo - convidou-as, tomando a Tecla pela mão, qual se ela lhe fora conhecida de longa data.
Quero lhes mostrar todas as nossas dependências...
Simão precisa descansar para o culto da noite.
Irei ciceronear a vocês duas! Venham!...
— Acompanhem a João - disse Simão a Tecla, esboçando um sorriso.
Não se preocupem com Tiago, pois precisamos dele assim como ele é...
Afinal, nestes tempos difíceis, não podemos ser apenas coração, e Tiago, com seu zelo, foi encarregado pelo Senhor de vigiar por nós.
Porém, se Tiago, filho de Alfeu, às voltas com questões de natureza teológica, sempre se conflituava com Paulo e outros, quando se tratava de Simão Pedro, seu respeito era enorme e, de hábito, ele não lhe contestava a autoridade.
Sendo conduzidas por João mais para o interior da 'Casa", Tecla se impressionava com a situação dos enfermos, principalmente das mulheres e das crianças.
— Infelizmente - explicou João com voz pesarosa - todos os dias, somos obrigados a sepultar alguém...
O número dos internados mais graves subia, facilmente, a mais de cinquenta, e faltavam braços para o serviço de enfermagem a todos eles.
— Não dispomos de medicamentos para todos eles - prosseguia o Apóstolo.
Contudo, duas vezes por dia, pensamos-lhes as feridas e oferecemos-lhes água, sobre a qual oramos, pedindo ao Senhor que se compadeça de suas dores!
O mesmo costumamos fazer lá fora com a multidão que você pôde ver.
Ah! - lamentou-se João -, quando o tempo está chuvoso, como sofrem os nossos irmãos e irmãs que não têm onde se abrigar de maneira conveniente!...
Nossa "Casa" não comporta mais ninguém!
Simão e eu já cedemos os nossos leitos e, para dormirmos, nos ajeitamos em qualquer canto...
— Vejo, então, - disse Tecla -, que não poderemos nos hospedar com vocês...
Vim a Jerusalém para saber mais a respeito de Jesus Cristo!
Infelizmente, não tive o privilégio que vocês tiveram...
— Irmãzinha, não se trata de privilégio - respondeu João, com ternura -, mas, sim, de imensa responsabilidade - responsabilidade que, por vezes, nos esmaga o coração.
Por causa disso, muitas vezes, eu tenho surpreendido Simão a chorar...
Aliás, todos nós choramos - o próprio Tiago, por mais procure disfarçar as lágrimas, muito tem chorado, sentindo a incapacidade de corresponder às expectativas que o Senhor depositou em nós.
Ah, como somos miseráveis!...
O Senhor se foi tão cedo!
Afinal, que poderemos fazer...?
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:24 am

João não completou a frase, porque Tecla, tomando-lhe as mãos entre as suas, lhe falou:
— Já está sendo feito!
Vocês não possuem ideia do que o trabalho que vêm desenvolvendo nesta "Casa" representa...
Daqui, deste pequeno ponto em Jerusalém, tem partido a luz, que, intensificando-se a cada dia, resplandece em todas as direcções e continuará a resplandecer, a cada vez com maior intensidade.
Então, entrou a narrar os feitos de Paulo e Barnabé, que, por onde passavam, estavam deixando a funcionar novos núcleos do Cristianismo - Chipre, Antioquia, Icónio, Listra, Derbe...
— Incontáveis são os que têm aderido à Mensagem Cristã!
Esta "Casa" tem que resistir quanto puder!...
— Vocês duas - comentou João - poderão, sim, permanecer connosco pelo tempo que desejarem.
Tenho certeza de que Simão não irá se opor, e pertence a ele a palavra final.
E, claro, precisamos considerar que vocês não têm para onde ir!
Carecemos de quem, junto aos doentes, nos auxilie no serviço de enfermagem.
Filipe e as duas filhas são companheiros valorosos, todavia, em sonho, o Senhor apareceu a ele, e o chamou a pregar a Boa Nova em terras distantes.
Com certeza, breve, Filipe partirá.
Bartolomeu, igualmente, vem sendo inspirado a fazer com que a Mensagem chegue a outros povos...
Fez rápida pausa e contou:
— Após a crucificação, um tanto desalentados, estávamos os onze reunidos, quando a presença do Senhor se manifestou entre nós e nos falou:
"Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.
Quem crer e for baptizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.
Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem:
em meu nome, expelirão demónios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados"!
— Esta aparição se deu logo após a crucificação?! - interrogou Tecla.
— Sim, porque estávamos tristes, não acreditando nas notícias que nos haviam chegado, dando conta de sua ressurreição...
Então, Ele nos repreendeu pela nossa incredulidade e pela dureza de nossos corações!
Alguns de nós tínhamos duvidado de Maria Madalena, que, no terceiro dia do triste episódio do Calvário, logo pela manhã, se dirigira ao túmulo onde o corpo do Mestre havia sido encerrado.
E emendou:
— Irmãzinha, como nós somos frágeis!
Convivemos com Ele durante três anos, testemunhando as maiores maravilhas que ao homem, em toda a Terra, jamais havia sido dado presenciar, e, na hora do testemunho da fé, falhamos clamorosamente...
Se todas as "coisas que Jesus fez fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos"!
— Por favor, João-solicitou Tecla - conte-nos mais!
Fale-nos mais a respeito Dele!
A minha sede Dele é insaciável!...
— Não agora - respondeu o Apóstolo.
Vocês também precisam alimentar-se de algo...
Reparei que, desde quando chegaram, vocês nada comeram!
Devem estar cansadas e famintas.
Venham comer alguma coisa e, depois, procurem se ajeitar em algum canto...
Desculpem-nos não termos acomodações adequadas para oferecermos a vocês duas!
Descansem, pois, um pouco mais tarde, Simão nos irá dirigir a palavra.
Assim dizendo, João conduziu Tecla à cozinha da "Casa" e pediu que duas senhoras a prosseguirem na lida servissem dois pratos de sopa, com algumas fatias de pão às duas novas hóspedes.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:05 am

— Nada sobrou, João! - respondeu uma delas.
A não ser uma sopa rala, que, com certeza, mal dará para encher diminuta tigela...
— Para nós duas - aparteou-a Tecla -, será mais que suficiente, porque a verdade é que, desde que aqui chegamos, estamos sendo regiamente alimentadas, não é, Acácia?!
— Sim - respondeu a companheira.
Eu nunca participei de tão lauto banquete!...
As duas dividiram a pequena tigela de sopa que havia sobrado dos latões, comeram uma fatia de pão e, exaustas da viagem, com o corpo alquebrado pela sua intensa actividade espiritual, recostaram-se ali mesmo, rente à cozinha, e adormeceram.
Não demorou a que a valorosa cristã se visse novamente fora do corpo, em notável faculdade de desdobramento que lhe era frequente.
Outra vez, viu-se em verdejante campina, repleta de flores miúdas, percebendo que, ao seu encontro, como que emergindo de um túnel iluminado, caminhava Abigail, o espírito que a protegia.
— Tecla, minha irmã - disse-lhe a irmã de Estêvão -, aproveite para se fortalecer, porque, doravante, maiores lutas a esperam...
A fim de que venha a florescer e produzir frutos sazonados, a sementeira do Evangelho há de ser regada com as lágrimas vertidas nos testemunhos inevitáveis.
Somente a partir de nossas dores suportadas com resignação é que o mundo acreditará no incomensurável amor de Jesus!
Nada tema, porque reafirmamos que sempre estaremos ao seu lado, encorajando-a nas provações.
Como se lhe fosse uma visão recorrente, Tecla olhou para o lado, e, novamente, viu que um jovem extremamente belo, caminhando à frente de um grupo de espíritos recém-libertos da carne, os liderava em sua chegada às Dimensões além da Crosta.
Todos eles, à excepção de qualquer, estavam assinalados por múltiplas cicatrizes, que, em seus corpos, eram os sinais que lhes conferiam livre acesso àquelas Paragens.
Todavia, entre eles, não havia quem mais resplandecesse senão aquele jovem, cuja luz chegava a ofuscar a luz que se desprendia do corpo espiritual de Abigail.
— Aquele - apontou Abigail, com um sorriso de felicidade - é o meu irmão Jeziel, chamado Estêvão!
Foi ele o primeiro a tombar por amor ao Evangelho do Cristo!...
Aquele gladiador diferente, que, nas arenas do mundo, caíra em defesa da fé, exibia em seu peito desnudo, e em sua fronte, estrelas de vários tamanhos, cada uma delas correspondendo às pedradas que recebera em sua própria lapidação.
Pela vez primeira, Tecla notou que, embora sem se aproximar, Estêvão sorriu para ela; então, ela pôde sentir que o mártir não lhe era de todo desconhecido...
Foi num transporte de alegria, de semblante quase iluminado, que a jovem despertou com Acácia ao seu lado, sempre a velar pela sua tranquilidade.
— Descansou, minha menina?! - perguntou, alisando-Ihe os cabelos castanho-claros.
Pelo jeito, você teve um sonho bom...
— Sim - respondeu - e quisera eu que fosse muito mais que um sonho!
Não puderam dar continuidade à conversa, porque, naquele instante, Simão Pedro, como sempre fazia, dava início à sua pregação, da qual, por vezes, ainda que às ocultas, alguns anónimos benfeitores da "Casa" vinham participar.
— Irmãos e irmãs, que a paz do Senhor esteja connosco - iniciou o Apóstolo, com a voz carregada de emoção. — Eu também neguei a Jesus...
Por este motivo, compreendo aqueles que ainda não puderam aceitá-Lo na condição de Messias!
Se eu que, durante três anos, estava sempre a seu lado, presenciando-lhe os feitos extraordinários e sua sabedoria incontestável, o neguei, não posso esperar que aqueles que sequer o conheceram acreditem que Ele seja quem foi e para sempre será!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:05 am

Ele me havia advertido, dizendo:
"Simão! Simão! eis que Satanás te reclamou para te peneirar como trigo.
Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quanto te converteres, fortalece teus irmãos"!
O Senhor conhecia as minhas fraquezas e sabia que, em essência, eu ainda não me havia convertido...
Estava sempre com Ele e me sentia disposto a lutar e morrer por Ele, mas, no momento crucial, eu o neguei!...
Cheguei a lhe dizer:
"Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte".
Conhecendo-me, porém, melhor do que eu mesmo pudesse ou possa me conhecer, Ele me respondeu:
"Afirmo-te, Pedro, que, hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante".
"Antes que o gale cante"! - frisou o Apóstolo, com triste entonação.
Vocês sabem o significado destas palavras?!
Não acreditem que o cantar do galo tenha denunciado minhas fragilidades pessoais...
Não, absolutamente.
Se assim fosse, o galo jamais haveria de fechar o bico, porque tenho consciência de que as minhas fraquezas, em relação ao que o Senhor espera de mim, ainda persistem quase as mesmas.
O que Ele, recorrendo à imagem do cantar do galo, quis dizer é que eu, cedo, o trairia, como, de facto, cedo, o traí...
Mal Ele havia sido preso e introduzido na casa do sumo sacerdote, uma simples criada, me reconhecendo, disse a outros:
"Este também estava com ele"!
Sem pestanejar - e isto é o que mais me dói no coração! - eu lhe respondi:
"Mulher, não o conheço"!
Sendo seu amigo, neguei conhecê-Lo!
Por três vezes, eu neguei que O conhecia!...
Digo-lhes, no entanto, que, depois da negação, tal remorso se instalou dentro de mim, que, hoje, no dizer de Paulo, a minha fraqueza tem sido a minha força...
O arrependimento que me possuiu o espírito e com o qual, todos os dias, eu sou obrigado a conviver, é que me tem servido de alerta para que, outra vez, eu não venha a ser traído pelas próprias fragilidades.
Ontem, eu apenas dizia que estava disposto a morrer por Ele, mas, hoje, eu sei que quero morrer por Ele e, de certa maneira, anseio por isto!
Porque, para mim, a vida sem Jesus Cristo deixou de fazer o menor sentido!...
Promoveu pequeno intervalo e continuou:
— Irmãos e irmãs, a proposta do Senhor é revolucionária...
Sua Mensagem tem se espalhado, como o vento que carrega o perfume das flores para longas distâncias!
Nada a deterá!...
Ele dizia que tinha vindo trazer fogo à Terra e que tinha pressa de que esse fogo se alastrasse.
Pois bem! O fogo simbólico, que é o clarão da Verdade, está se alastrando com maior rapidez que as chamas se alastram no campo ressequido...
Temo, no entanto, que a oposição física que agora enfrentamos não seja nosso maior adversário na difusão da Mensagem Cristã - a morte, em defesa da fé que abraçamos, não é nosso maior inimigo, mesmo porque o Senhor, com sua ressurreição, nos provou que a morte não existe!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:06 am

17 - A Mulher e o Evangelho
Quando Simão terminou sua alocução, como era de praxe, ele franqueou a palavra a outro companheiro que desejasse discorrer sobre a mensagem da Boa Nova.
Além dele, comumente a tribuna da "Casa do Caminho" era ocupada por João ou por Tiago, como outrora havia sido ocupada por Estêvão.
Como, naquela oportunidade, ninguém se manifestasse, Tecla, que, maravilhada, acompanhara a inspirada palavra do Apóstolo de Cafarnaum ao lado de Acácia e de João, tomada pelo espírito de Abigail, que a envolvia, experimentou incontido desejo de levantar-se e dar ali o seu testemunho.
Ao perceber que a cristã de Icónio, ante o silêncio da plateia, se preparava para fazer uso da palavra, Tiago tocou com discrição o braço de Simão, sussurrando algo ao seu ouvido.
Olhando firmemente para o companheiro, como a repreendê-lo, Simão, com um gesto, aprovou a intenção de Tecla, a qual, perante a expectativa de todos, começou a falar:
— Meus irmãos e irmãs, em primeiro lugar, peço que me perdoem a ousadia de dirigir-lhes a palavra, após termos escutado a prelecção de Simão, que, ao mesmo tempo, nos emocionou e fez reflectir.
Sei que, em nossa antiga cultura religiosa, não é hábito franquear a palavra a uma mulher... No entanto, gostaria de recordar a vocês, que, até onde sei, o Cristo veio ao mundo para quebrar paradigmas e, justamente, em várias ocasiões,
por tomar a defesa da mulher publicamente, Ele também acirrou o ódio dos escribas e dos fariseus contra Si mesmo.
Simão Pedro, discretamente, tornou a olhar para Tiago, o qual, de semblante contrariado, parecia não querer ouvir o que a pretendente a expositora dizia.
— Todavia, aqui não estou para lançar desafios a quem seja nem para contrariar a autoridade moral dos que, todos os dias, arriscando a própria vida, permanecem à frente das actividades desta "Casa", que, de súbito, aprendi a amar e reverenciar.
Reconheço que, sem dúvida, a minha palavra deveria ser aqui a última a ser ouvida, mas não posso resistir à força que me impulsiona para falar a vocês de minha conversão.
E, procurando ser breve, narrou o que lhe aconteceu ao ouvir a pregação de Paulo, em Icónio.
— Desde criança, eu vivi na expectativa de encontrar um real sentido para a minha própria vida, porque a verdade é que a crença em nossos deuses não mais satisfazia os anseios de meu espírito - tampouco o que nossos Profetas nos ensinaram não mais logravam pacificar-me interiormente, de vez que, em meu coração, persistia um grande vazio existencial!
Confesso a vocês que somente no pensamento de Sócrates, grande sábio grego, eu ainda conseguia encontrar algum conforto de ordem espiritual. Sócrates, à semelhante do Mestre Nazareno, também terminou por encontrar a morte sumária, justamente por discordar das doutrinas sofísticas dos que se auto-intitulavam sábios, os vendilhões que ele igualmente expulsara do templo...
0 Cristo, no entanto, é o maior dentre todos os Profetas e dentre os mestres de todas as filosofias que pude estudar - porque sua Mensagem não é dirigida tão-somente ao pensamento, mas também ao coração!
Ele, o Senhor de nossas vidas, nos ensinou que todos somos irmãos -judeus e gentios, gregos e romanos - e que Deus não nos distingue uns dos outros sequer pela nossa condição sexual, de sermos homens ou mulheres!
Neste trecho da pregação de Tecla, foi a custo que Simão conseguiu manter Tiago acomodado a seu lado, porque, a cada palavra da recém-conversa, ele parecia perturbar-se.
— Deus, que é Deus de toda a Natureza, não poderia ser menos Pai das mulheres que dos homens!...
Então, passou a dirigir-se especialmente às mulheres, que, mesmo na comunidade dos cristãos primitivos, permaneciam em condição subalterna.
— Não somos chamadas a testemunhar o amor a Jesus Cristo apenas para morrermos nos circos de martírio! Temos, sim, outro papel a cumprirmos neste mundo, semelhante ao que aos homens está destinado.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:06 am

Precisamos, pois, compenetrar-nos de nossas responsabilidades e, quanto possível, ir além de nossas atribuições femininas!
Carecemos de organizar-nos e, ao lado de nossos irmãos, ir à luta para que o Reino de Deus sobre a Terra seja realidade!
Eu não me casei nem pretendo casar-me.
Não desejo ter a vida de subserviência que teve minha pobre mãe!
Ao contrário do que se apregoa, não fomos criadas apenas para perpetuarmos a espécie...
Na mulher que revela vocação, a maternidade, sem dúvida, é sublime missão, mas nem toda mulher foi criada para entregar a castidade ao homem.
Agora, através de sua palavra, Tecla dava ênfase ao que, praticamente, a vida inteira, ela haveria de defender, ou seja:
o recato sexual das mulheres, as quais deveriam procurar em Jesus Cristo o transcendente amor de suas vidas!
Ela foi a primeira a pregar que a mulher deveria manter-se intocada, doando-se de corpo e alma ao Senhor - sob sua inspiração, e de outras notáveis mulheres do Evangelho, é que começariam a surgir as comunidades das Irmãs de Caridade, que se consagrariam à Enfermagem e à Educação.
Tecla, verdade seja dita, a vida inteira, mesmo quando mais idosa, lutaria para manter-se intocada do ponto de vista sexual, porque muitos homens, passando a considerá-la uma ameaça a sua hegemonia no campo social da Vida, chegariam a pagar a outros homens para que a desonrassem, o que, felizmente, nunca haveriam de conseguir!
Devido ao adiantado da hora, Tecla sentiu que precisava encerrar, mesmo porque não desejava que sua palavra continuasse a ser tomada por Tiago e por demais que ali, porventura, pensassem como ele, como uma afronta, pois, fosse como fosse, aqueles eram tempos extremamente difíceis para as mulheres.
— Quanto aos gregos - encerrava a eloquente oradora - as mulheres sempre tiveram posição mais eminente entre os homens que no Judaísmo - o mesmo, inclusive, pode-se dizer em relação à sociedade dos romanos!
Os egípcios, que, durante séculos, nos escravizaram, chegaram a ter uma ilustrada mulher como faraó - Hatshepsut!
O Cristo, evidentemente, a fim de ainda mais não agredir nossos costumes, não poderia ter dado à mulher maior posição de destaque, mas todos devem saber que, em momento algum, Ele deixou de prestigiá-la, sendo que, de minha parte, começo a temer em torno dos registros que se farão deste facto histórico.
E Tecla tinha razão, porque os Evangelistas, sob a forte influência reinante do Judaísmo, praticamente haveriam de omitir a actuação da mulher no Evangelho, à qual destinariam, quando muito, papel de simples coadjuvante...
Conforme dissemos, Eusébio de Cesareia, em sua obra, registando os primeiros quatro séculos da Igreja Cristã, em relação a Tecla, por exemplo, a ela faria menção uma única vez, como se o movimento pertencesse exclusivamente aos homens!
Quando a corajosa jovem terminou de falar, Tiago, levantando-se, dela se aproximou e disse com rude franqueza:
— Você exagerou!
Seu discurso, para mim, chega quase a ser um convite à rebeldia, à sedição...
— Perdoe-me! Não tive essa intenção - defendeu-se ela.
— Contudo, pude observar, aqui dentro e lá fora, várias mães misérrimas com os filhos, a mendigarem por eles um pedaço de pão...
Poucas mulheres, no entanto, estavam acompanhadas pelos maridos!
Onde será que eles estão?!...
Ante a resposta obtida, Tiago, sem mais nada acrescentar, retirou-se, sumamente contrariado.
— Tecla, minha filha - ponderou Simão -, eu compreendo sua posição e não posso deixar de lhe dar parcela de razão...
Acredito, no entanto, que você, por causa dela, enfrentará o ódio encarniçado de muita gente!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:06 am

— Posso entender esse ódio nos judeus ortodoxos, mas não consigo entendê-lo nos cristãos! - redarguiu com firmeza.
— O Cristo não discriminava...
— Não! - tornou Simão sem vacilar.
Jamais! O Senhor não discriminava...
Certa vez, chegando a pensar que viera somente para nós, os pobres e oprimidos, o recriminamos por Ele ter-se convidado a comer na casa de Zaqueu, que, além da riqueza, considerávamos homem de má vida...
Ele nos respondeu que o amor que coloca limites a si mesmo não é verdadeiro amor!
Sentimo-nos envergonhados e não tivemos alternativa a não ser acompanhá-Lo!.
Entrementes, João se aproxima e, como se, permanentemente, trouxesse o coração à flor dos lábios, lhe falou:
— A sua palavra, minha irmãzinha, foi a palavra pela qual eu ansiava ouvir...
No momento da Cruz, sinceramente, não sei onde pude encontrar forças para lá estar - eu não pude deixar de amparar nossa Mãe - Maria de Nazaré!
Foi ela que me levou ao Gólgota e não eu que a conduzisse!
Porque, digo-lhe, eu também estava apavorado...
Contudo, naquela hora crucial, apenas quatro mulheres ousaram desafiar o perigo:
Maria, Sua Mãe; a irmã dela; Maria, mulher de Cleopas; e Maria Madalena!...
— É verdade - confirmou Pedro, entristecido.
Naquele justo momento, eu O estava negando...
— Ele, antes de expirar - prosseguiu João -, vendo que a Mãe, desfeita em lágrimas, se apoiava em meu braço, disse-nos:
"Mulher, eis aí teu filho.
Filho, eis aí tua mãe"!
E, desde aquela hora, senti que deveria tomar nossa Mãe sobre meus cuidados directos.
— Então, ela reside aqui, com você?! - inquiriu Tecla com o coração aos saltos.
— Ela não está aqui connosco - esclareceu o discípulo amado.
Seria extremamente perigoso, porque, de maneira constante, estamos na mira do Sinédrio, e já correu notícia de que o Sinédrio, igualmente, cogitou de pedir a condenação dela à morte por apedrejamento.
— Sob que alegação?! - interrogou a jovem.
— De que o ventre que gerou a um embusteiro pode gerar outros mais!
Por este motivo, sob os meus cuidados, ela permanece em local isolado, fora de Jerusalém!...
— Ah, como eu gostaria de conhecê-la! - exclamou Tecla.
— Ajoelhar-me diante dela, beijar os seus pés e pedir que me abençoe!...
— Talvez - observou João -, você ainda tenha esta oportunidade - de conhecer a ela e a meu filho!...
— Você tem um filho?! - perguntou a interlocutora com admiração.
É casado?!...
— Não, não sou casado - respondeu o Apóstolo, apressando-se a esclarecer-, sou apenas pai!
Ele se chama Inácio e é natural de Antioquia!
Certa vez, o Senhor o tomou em seu colo...
Estávamos preocupados com várias crianças que brincavam nas proximidades e com os ruídos que faziam enquanto Ele nos ensinava.
Então, Inácio, que ainda não tinha dez de idade, ludibriando nossa vigilância, aproximou-se Dele.
Tentamos afastá-lo, mas, ao perceber nossa intenção, o Senhor, chamando-o para perto de si, nos repreendeu dizendo:
"Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no Reino dos Céus.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:06 am

Aquele, portanto, que se humilhar e se tornar pequeno como esta criança será o maior no Reino dos Céus e aquele que recebe em meu nome a uma criança, tal como acabo de dizer, é a mim mesmo que recebe"!
João, após silenciar por momentos, prosseguiu:
— Inácio é uma criança órfã e portadora de pequeno defeito na perna, que o faz mancar...
Os outros meninos, principalmente os maiores, por vezes, troçavam dele, chamando-o de "coxo"!
Então, tomando para mim as palavras que o Mestre nos dissera, eu o adoptei...
Agora, ele é um belo rapaz e, em sua convivência com nossa Mãe, muito tem aprendido sobre a vida de Jesus!...
— Simão! Simão! - chamou uma senhora de semblante aflito, interrompendo o diálogo entre Tecla e os dois Apóstolos.
— Por caridade!
Meu marido está agonizando!...
Venha à minha casa!
Residimos numa ruela próxima, mas eu não tenho forças para trazê-lo aqui!
Somos apenas nós dois...
Por caridade!
Em nome do Senhor, eu lhe peço!
Ele está morrendo!...
— Minha irmã - tentou argumentar o Apóstolo, que, naquela hora, ainda tinha muito trabalho pela frente.
A multidão lá fora, outra vez, precisava ser alimentada, e muitos dos presentes à sua prelecção desejavam que ele os ouvisse em particular.
— Simão! - disse-lhe João, com imenso respeito.
Vá com ela!...
Entre todos nós, o dom de curar, Simão, está principalmente com você!
Vá com ela! Afinal, não é assim que o Senhor agiria?!
Ele nunca se negou a ninguém...
À evocação do nome do Cristo, enchendo os olhos de lágrimas, Simão solicitou que lhe consentissem ausentar-se do serviço da "Casa" por alguns minutos, sendo que, então, Tecla, com grande humildade, pediu permissão para que o Apóstolo lhe consentisse acompanhá-lo no atendimento ao agonizante.
Levando Acácia consigo, que sequer por um instante a deixava, Tecla e Pedro, guiados pela aflita senhora, dobraram esquinas abaixo, chegando a uma casa extremamente pobre, localizada não muito distante dali.
De facto, aquele homem idoso tremia de febre e tinha os olhos esgazeados, como se estivesse a fitar um espectro que o apavorasse.
Agitava-se em seu grabato e pronunciava palavras desconexas.
— Há dias que ele se encontra assim e nada come! - explicou a esposa.
Já tentei todos os paliativos e dei todo o dinheiro que tínhamos por uma beberagem inútil que me ofereceram.
Aproximando-se do doente, Simão, sem articular palavra, orou em silêncio por instantes, impondo-lhe a destra sobre a fronte suarenta.
Bastou este gesto para que, ganhando força descomunal, aquele homem começasse a se contorcer no leito, sem, no entanto, conseguir levantar-se, como se força invisível o contivesse em seus ímpetos de violência.
— Ele está possesso, subjugado, minha irmã! - esclareceu o ex-Pescador de Cafarnaum.
Convém esclarecer que, àquela época, tanto quanto hoje, era muito grande o número de obsidiados, que viviam em estreita simbiose psíquica com as entidades que os molestavam - mormente naqueles dias, que, de acordo com o que dissemos anteriormente, ante a presença do Cristo, os espíritos se mostravam em grande agitação nos Dois Lados da Vida, sem que se possa saber com precisão quantos, estando nas Trevas, ansiavam pela sua Luz e quantos desejavam fazê-la eclipsar-se!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:06 am

— Quem é você, meu irmão?! - perguntou Simão, planeando estender o benefício àquela entidade sofredora que, ao ouvi-lo assim questionar, soltou irónica gargalhada.
— Eu?! Ah - ah - ah!
Para que a pergunta, se você já me conhece?!
Eu faço parte da "Legião"! Lembra-se?!
Seu Mestre nos expulsou de um corpo, mas temos muitos outros a nossa disposição...
Vencemos! Ele foi pregado na cruz!...
Desafios como este, na vida dos Apóstolos, lançados a eles pelo Mundo Espiritual Inferior, eram constantes, porque os considerados endemoninhados chegavam a ser em maior número que os enfermos propriamente ditos.
Os fenómenos mediúnicos de natureza física, provocados por tais espíritos, eram de causar espanto, quase se sucedendo com a mesma naturalidade do que aquele que, no dia de Pentecoste, havia se generalizado.
Os próprios animais, com frequência, eram surrados pelas entidades, que, inclusive, não hesitavam em vampirizá-los, sugando-lhes a energia vital de que os seus densos corpos espirituais careciam nutrir-se.
— Ninguém jamais poderia vencê-lo! - retrucou Pedro sem titubeios.
Aparentemente derrotado, vocês apenas concorreram para transformá-Lo no Herói da Cruz!
Suas palavras estão sendo disseminadas pelo vento...
As próprias crianças já o reverenciam na condição de Messias Prometido!
Portanto, meu irmão, inútil tentar medir forças com o Filho de Deus!
E é em nome Dele, o Cristo, que eu ordeno que você deixe para sempre este pobre homem...
— Se ainda não vencemos, haveremos de vender caro nossa derrota! - blasfemou o espírito, a contorcer-se.
Muitos de vocês morrerão!...
Este mundo nos pertence!
Ele nos veio incomodar...
E, esbravejando, repetiu o que Evangelista Marcos, no capítulo 5, versículo 7, de suas anotações, anotou das palavras do possesso de Gadara, que "andava sempre, de noite e de dia, clamando por entre os sepulcros e pelos montes, ferindo-se com pedras":
"Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?
Conjuro-te por Deus que não me atormentes"!....
— Como pode conjurar-me em nome de Deus, se em Deus você não acredita?!
Que incoerência é essa, a de sua palavra, que, embora reconhecendo em Jesus o Filho do Deus Altíssimo, a Ele continua resistindo?! - tornou Simão, ante o espírito que, ao sair, deixou o homem como que completamente desfalecido.
Tecla estava impressionada, porque, uma vez mais, compreendia a extensão da luta que o Cristianismo estava sendo chamado a travar para que a Humanidade, um dia, viesse a libertar-se dos grilhões das Trevas.
Referindo-se à luta, foi que Paulo, ao escrever aos Efésios, grafou no capítulo 6, versículo 12:
".. porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do Mal, nas regiões celestes"!...
Dizendo à pobre senhora que faria chegar até a sua casa pequeno farnel de alimentos, recomendou que, todos os dias, ao lado do esposo, ela orasse, suplicando a intercessão do Senhor, porque, afinal, aquele espírito ou ainda outro com maior poder que ele, poderia voltar a atormentá-los.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:06 am

18 - Novas Lutas
Enquanto retornavam à "Casa do Caminho", Tecla, ansiosa por maiores conhecimentos, perguntou ao Apostolo, o qual, na noite penumbrosa, caminhava, pensando na extensão das dificuldades:
— Simão - perdoe-me interromper suas reflexões -, mas, diante do que agora vi e mesmo do que presenciei em Icónio, na presença de Paulo e Barnabé, por que disse que aquele demónio - que os manuscritos gregos por mim estudados dizem ser a alma dos próprios homens - poderia voltar a perturbar o pobre casal ou vir mesmo outro com maior poder que o primeiro?!...
— Foi o que nos ensinou o Senhor - respondeu o líder espiritual da comunidade dos cristãos.
Certa ocasião, após se defrontar com uma entidade semelhante à com que, ainda há pouco, nos defrontamos - certa entidade que assediava uma das mulheres a viverem do comércio de seu próprio corpo.
Ele nos disse que, "quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso, porém não encontra.
Por isso diz:
Voltarei para minha casa donde saí.
E, tendo voltado, a encontra vazia, varrida e ornamentada.
Então vai e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro.
Assim também acontecerá a esta geração perversa"...
— Cada vez mais admiro e amo a Jesus Cristo! - exclamou Tecla.
Quanta sabedoria!
Vejo que, para Ele, o intercâmbio entre os vivos e os mortos não tinha segredos...
— Se, para Ele, até os nossos corações não tinham segredos, minha filha! - replicou o Apóstolo.
Nada havia que o Senhor não pudesse saber; no entanto, ao conversar connosco, compreendendo nossas limitações, mesmo a nós, não raro, Ele falava por parábolas - em muitas ocasiões, tivemos de pedir que o Mestre nos explicasse o sentido de suas palavras!
Não havíamos entendido, por exemplo, a Parábola do Joio do Campo...
— Ele deixou entrever que esta geração, a que chamou "perversa", estava possuída por vários espíritos...
— Infelizmente, é verdade - concordou Pedro.
De longe, tive oportunidade de assistir ao seu julgamento...
A multidão, quando pediu que, em vez Dele, fosse concedida liberdade a Barrabás, estava sob o domínio dos representantes das Trevas, que, praticamente, através dos lábios de homens e mulheres de todas as idades, gritavam em delírio colectivo:
— Soltem-nos Barrabás!
Barrabás! Barrabás!...
O antigo pescador efectuou pequeno intervalo e prosseguiu, sem que lhe passasse despercebido que quatro homens estranhos os seguiam de perto:
— Os judeus, em geral, não aceitam esta realidade, pois não admitem que, deixando o corpo, os espíritos dos homens continuem convivendo connosco, mantendo-nos debaixo de sua influência salutar ou nociva.
Mal terminara de pronunciar as últimas palavras, um dos homens que os seguiam ordenou aos demais:
— Morte a este seguidor do Carpinteiro!
Morte a este feiticeiro, desrespeitador de nossas tradições religiosas!...
Abaixando-se, apanharam pedras no chão e começaram a atirá-las com força na direcção de Pedro, Tecla e Acácia, que, inicialmente, se sentiram sem acção, mesmo porque uma das maiores pedras atiradas alcançara a Tecla de cheio no peito,
fazendo com que ela fosse ao chão.
Temendo pelo pior, enquanto Acácia socorria sua benfeitora, Simão ofereceu o próprio corpo de anteparo às duas, sendo, igualmente, atingido no rosto, que logo se tingiu de sangue, por um dos pontiagudos calhaus que lhes eram lançados com fúria.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:07 am

Contudo, por estarem próximos à "Casa do Caminho", os gritos de Acácia foram ouvidos e, quase de imediato, as pessoas carentes que sempre estavam nas proximidades, vieram ver o que estava acontecendo.
Quando perceberam que Simão sangrava e que Tecla jazia estirada ao chão, os mendigos, igualmente, apanharam pedras e, em número maior, começaram a revidar o ataque desfechado contra seu protector.
Os quatro homens, não esperando pela reacção do povo, desistiram do ataque e fugiram dentro da noite, gritando impropérios.
Tecla, com o auxílio dos assistidos pela benemérita Instituição, foi carregada, inconsciente, para dentro e colocada sobre um leito, enquanto, junto com Acácia, algumas senhoras, ficando a sós com ela, passaram a examinar a gravidade da ferida.
Uma costela fora partida e o tecido do tórax, macerado, começara a ficar arroxeado.
A pancada fora tão forte, que, por pouco, não lhe teria causado a morte, já que a pedra a atingira à altura do coração.
Durante quase três dias, Tecla permaneceria inconsciente, mergulhada em profundo estado febril-letárgico, que passara a preocupar a todos.
Um médico, mandado chamar por Simão, apresentou-se e, após examinar a jovem detidamente, concluiu que, para se recuperar, ela necessitaria de muitas semanas acamada.
— Houve um afundamento no tórax - disse.
Uma costela partiu-se, e vamos precisar enfaixá-la.
Sei que vocês são cristãos e têm muita fé no seu Mestre...
Orem, pois, para que a ferida não seja contaminada por uma infecção.
Ao preparar-se para sair, Simão, chamando-o em particular, perguntou quanto lhe devia pela consulta à jovem mártir.
Falando de modo a que somente o Apóstolo pudesse escutar, o médico respondeu:
— Absolutamente nada!
Eu também - confessou - tenho simpatia pela doutrina do Carpinteiro...
Estou cansado da hipocrisia dos homens do Sinédrio!
Todavia, minha esposa, que é mãe de meus três filhos, é irmã de um dos sacerdotes do Templo...
Preciso e devo conservar-me calado.
Pelo que tenho ouvido constantemente, em conversas de minha esposa com o irmão dela, a vida de vocês corre perigo.
Seria interessante que pensassem em sair o mais rápido possível de Jerusalém!
— Não podemos - respondeu Simão, admirando o gesto de simpatia do médico.
Já falhamos com o Senhor outras vezes...
Agradeço pelo alerta, estamos conscientes do perigo que, todos os dias, corremos, mas não podemos...
— Se voltarem a precisar de mim - retrucou o médico, cobrindo as feições com um capuz - mande me avisar com a máxima discrição; de preferência, à noite, quando costumo sair para ver alguns doentes mais graves, passarei por aqui...
— Que o Senhor o abençoe! - despediu-se o Apóstolo do médico que passara a contar como amigo.
Durante a noite, Acácia e João se revezaram ao lado de Tecla, que teve sono agitado.
O médico recomendara que, nas primeiras horas, além de um pouco d'água, evitassem dar-lhe qualquer alimento, porque, talvez, isto viesse a provocar-lhe vómitos.
Além do que já havia sofrido em Antioquia, na prisão e, depois, no anfiteatro, àquela cicatriz no tórax, ao longo de sua existência a serviço da Causa do Senhor, viriam se somar outras cicatrizes, de modo que, quando, por fim, deixasse a Terra, o corpo de Tecla estaria repleto de marcas dos futuros martírios que lhe seriam impostos.
Todavia, aquele pequeno afundamento no tórax, em consequência da pedrada recebida, seria o que mais a incomodaria com constantes dores.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 29, 2018 11:07 am

Tempos depois, aos amigos mais chegados ela diria:
— Não tive méritos para morrer na Cruz como o Senhor, mas, pelo menos, as suas marcas não me foram negadas, e isto, para mim, é um consolo!...
Depois de quase três dias inconsciente, começou a acordar e, então, ainda sem maior noção de si mesma, perguntou a Acácia onde é que elas estavam, porque seu enfraquecimento físico era notório.
— Estamos na casa de Simão Pedro, em Jerusalém! - respondeu a companheira que passara a dela cuidar com carinho de mãe.
— Lembra-se?!...
— Ah, sim! - sussurrou, porque o ato de falar lhe provocava grande desconforto.
Imaginei que não mais estivesse neste mundo...
Certamente, o Senhor ainda não me julgou digna de dar a vida por Ele!...
O pequeno esforço provoca-lhe uma crise de tosse, o que lhe deu a sensação de que trazia agudo punhal cravado no peito.
— Tecla, não se esforce muito!
O médico nos disse que sua recuperação será lenta...
Entrementes, João se aproxima, impõe a mão sobre o tórax da paciente, o que, de imediato, lhe proporciona pequeno alívio, fazendo com que a tosse cessasse.
— Onde está Simão?! - perguntou ela.
Recordo-me de que ele se colocara como escudo entre nós e os agressores...
Ele também foi ferido?!...
— Que nada! - exclamou o ex-Pescador de Cafarnaum, que se aproximara.
Apenas fui atingido de leve no rosto, o que me rendeu esta diminuta cicatriz - apontou para a própria face que havia sido atingida - e gracejou.
Deixarei crescer um pouco mais a minha barba.
Pronto!, ninguém a perceberá!
O Senhor recomendou-nos que a mão direita não visse o que a outra fizesse...
Tomando tal providência, assim uma cicatriz não saberá da existência da outra!...
João sorriu, porque os Apóstolos não somente viviam a chorar, pois tinham eles, igualmente, seus momentos de descontracção, próprios da natureza humana.
O Senhor, certa vez, fazendo-os sorrir, chegara a comparar Herodes a uma raposa...
A caminho de Jerusalém, estava Ele a pregar, quando fora interceptado por alguns fariseus que lhe disseram:
"Retira-te e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te".
Ao que o Senhor respondeu:
"Ide dizer a essa raposa que hoje e amanhã expulso demónios e curo enfermos e no terceiro dia terminarei'!.
Tecla que, igualmente, se havia esforçado para sorrir, em seguida, quis saber como as actividades da "Casa" estavam caminhando.
— Não se preocupe, minha filha!
Está tudo bem...
Amanhã, no entanto, João, Tiago e eu teremos que, outra vez, comparecer a fim de darmos explicações no Sinédrio.
É a terceira vez que somos convocados.
A primeira deu-se pouco tempo depois da partida do Senhor.
Incomodados com que o aconteceu na festa de Pentecoste, eles queriam nos condenar à morte.
Ficamos devendo às nossas vidas a Gamaliel, que nos defendeu!...
— Gamaliel, o preceptor de Paulo?! - inquiriu a jovem.
— Ele mesmo!
O respeito que o Sinédrio sempre teve por esse notável Mestre da Lei sempre foi muito grande...
Com habilidade, ele nos tomou a defesa e evitou que fôssemos presos e mortos!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:19 am

Felizmente, fomos somente espancados, o que, a bem dizer, nos suscitou grande alegria, porque, afinal, o Senhor nos considerou dignos de sofrer afrontas por Ele!...
— Vejamos o que eles haverão querer de nós desta vez! - exclamou João.
— Já fui informado a respeito do assunto, João - explicou-se Pedro.
Eles estão nos culpando pela situação, segundo pensam, insalubre, com tantos pobres à nossa porta...
Acusam-nos de culpados pelo aumento do número de ratos na cidade e, consequentemente, das doenças que estão se espalhando.
Já nos acusaram de tudo...
Agora, estão querendo nos culpar pela iminência de uma peste, que sequer ainda deu qualquer sinal de existência.
Alguns mais exaltados estão querendo a demolição de nossa "Casa"...
— Quê?! - inquiriu Tecla com visível preocupação.
— Acalme-se - recomendou Simão.
Temos argumentos que eles não poderão contestar, porque, se deixarmos de alimentar os pobres que nos procuram, com certeza, a violência nas ruas irá aumentar consideravelmente e ninguém estará seguro.
Hoje, praticamente, a metade de Jerusalém está passando fome...
Após a Crucificação do Senhor, sobreveio um período de grande seca, e as ovelhas chegaram a morrer nos campos, e nenhuma semente medrava.
Aliás, esta fome havia sido prevista por Ágabo, que, envolvido pelo Espírito, alertou-nos a partir de Antioquia.
Assim dizendo, antes de saírem, Simão e João recomendaram que Acácia continuasse a desvelar-se pela enferma, que, sentindo a gravidade da situação, se afligia por se erguer da cama.
— Acácia, eu estou com fome - disse ela.
— Que bom sinal! - exclamou a benfeitora.
Providenciarei um caldo quente para você!
Todavia, não tenha pressa em se levantar...
O médico disse que a consolidação da fractura será lenta.
Precisamos evitar uma recaída...
Pedro e João, desta vez sem Tiago, rumaram para o Sinédrio.
Contudo, quando os mendigos souberam que eles estavam correndo o risco de ser presos e, novamente, espancados, deliberaram segui-los a certa distância.
Pelas ruas centrais da cidade, que levavam ao Sinédrio, viu-se então aquela estranha procissão de aleijados que caminhavam com o auxílio de muletas, outros que eram levados em pequenos carrinhos-de-mão, mães em companhia de seus filhos pequenos, idosos maltrapilhos que, desnutridos, deixavam os ossos praticamente à mostra...
Seriam eles, os miseráveis, os advogados dos dois Apóstolos.
Na ocasião, Gamaliel já havia renunciado às suas atribuições no Tribunal dos Judeus e, portanto, não mais poderia interceder por eles, como fizera anteriormente.
Invocando a protecção do Cristo, Simão e João, assim que chegaram à porta central do Sinédrio foram revistados por soldados sem o menor escrúpulo, empurrados para dentro e recebidos pela hostilidade dos olhares de quase setenta juízes.
Balon, um saduceu, havia, à época, sucedido a Caifás, que, acometido por estranha perturbação, tivera que ser afastado de suas funções, inclusive pelas visões de moedas de fogo que, constantemente, lhe queimavam as mãos.
Caifás e o sogro Anás, que presidiram o julgamento de Jesus, condenando-o à morte, tiveram morte trágica.
Caifás enlouqueceu, e Anás, enquanto dormia, fora picado por uma serpente venenosa.
Balon, ainda mais inclemente que os dois juízes predecessores, ao ver-se diante de Simão e João, não contendo sua grande ira, levantou-se da cadeira e foi, ele mesmo, esbofeteá-los repetidas vezes no rosto, intrigado com o fato de tanto um quanto o outro, ao serem espancados numa das faces, lhe oferecerem a outra...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:19 am

— De joelhos! - gritou após. — De joelhos!...
Tomando uma toalha, pôs-se a enxugar o sangue que, com os seus bofetes, arrancara à boca dos dois Apóstolos, os quais nenhuma palavra disseram.
— Vocês têm ideia do que estão fazendo?!
Quando nos libertarão desta loucura?!
Temos sido objecto de maior escárnio da parte dos romanos, que nos acusam de não podermos lidar com nossos próprios problemas...
Vou condená-los à degola!
Não são vocês os cabeças das sandices do Carpinteiro, morto entre ladrões?!...
Neste instante, porém, um dos guardiões do Sinédrio, pedindo permissão, aproxima-se, anunciando que, lá fora, concentrava-se significativa multidão de mendigos, que exigiam a libertação de Simão e João.
Balon, então, foi à loucura.
Disse impropérios, rasgou as vestes, completamente transtornado.
Num átimo, tirou da cintura uma afiada adaga e correu em direcção dos Apóstolos, que, naquele momento, esperavam ser imolados ali mesmo.
Contudo, dois dos juízes mais velhos do Tribunal, Acabe e Noaz, o interceptam com rigor.
— Não faça isto, Balon!
Jerusalém não suportaria mais dois mártires...
Teremos uma revolta sem precedentes, e, com certeza, nenhum de nós sairá daqui vivo.
Cerca de quinhentas pessoas estão lá fora!...
Possuído pelos espíritos que o influenciavam, Balon, aos poucos, foi-se controlando nas atitudes, sem, contudo, lograr pacificar-se interiormente.
Doente e obeso, a respiração começou a lhe faltar e tombou ali mesmo, vitimado pela cólera de que se deixara possuir.
Houve, então, tumulto dentro do Tribunal, com a maioria interpretando o fato como poderosa maldição da parte dos Apóstolos, que se conservavam imóveis.
Muitos dos juízes, temendo que algo semelhante lhes sucedesse, saíram pelas portas dos fundos, enquanto Acabe e Noaz, os mais sensatos, liberaram a Simão e João, que, quando saíram, foram saudados com efusão por aqueles "filhos do Calvário".
Dois dos mendigos, porém, começaram a incitar a multidão, dizendo que o Sinédrio deveria ser invadido, porque lá dentro existia muito ouro!...
— Não! - disse Pedro, erguendo a mão.
"Quem com ferro fere, com ferro será ferido" - repetiu as célebres palavras que o Senhor lhe dissera, quando, impensadamente, no intuito de evitar que Ele fosse preso, desembainhara a espada e ferira a orelha do soldado Malco.
"Misericórdia quero e não holocaustos"! - repetiu as palavras do Senhor, que, ao dizê-las, se reportara a Oséias.
Voltemos para casa - ordenou.
Um dos mendigos, no entanto, espírito ocioso e com tendências de inflamar a multidão, resistindo à ordem de Simão, ainda tentou influenciar pequeno grupo rebelde.
— Aproveitemos a oportunidade! - insistia.
O Sinédrio está repleto de ouro, conseguido à custa de nossa miséria...
Vamos invadi-lo!...
— Espírito! - bradou Simão com a mesma autoridade com que lidara com Ananias e Safira, que haviam mentido para o Espírito Santo.
Em nome de Deus, não conspire contra Jesus Cristo!...
No mesmo instante, o agitador, acometido por uma síncope, desfalece, fazendo que o grupo prestes a se rebelar se dispersasse.
Seguidos, então, pela multidão dos verdadeiros carentes, os dois Apóstolos, ainda com os lábios sangrando, retornam à "Casa do Caminho", aos prenúncios de maiores dores.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:19 am

19 - Tecla e Maria de Nazaré
Foi por essa época que Simão Pedro, embora não dispondo de muito tempo para escrever, começou a registar alguns apontamentos, que, mais tarde, haveriam de se transformar em Epístola endereçada a todos os cristãos.
Infelizmente, o que dela se conhece no "Novo Testamento" representa ínfima parte de seus registos.
Exactamente nesse dia, após ter sido, pela terceira vez, chamado ao Sinédrio para explicações, recebendo pública humilhação da parte do Sumo-Sacerdote Balon, é que, com muitas lágrimas nos olhos, ele redigiu o que consta de sua formosa Carta, no capítulo 2, versículos 18 a 25:
"Servos, sede submissos, com todo o temor, aos vossos senhores, não somente aos bons e cordatos, mas também aos perversos; porque isto é grato, que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua consciência para com Deus.
Pois, que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência?
Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus.
Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também o Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca, pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga rectamente, carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos aos pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas fostes sarados.
Porque estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo das vossas almas"
As notícias que, de toda parte, chegavam a Jerusalém, davam conta de que os cristãos sofriam as mais terríveis perseguições e que, em Roma, depois de presos, eles já começavam a ser oferecidos nos circos em espectáculos sangrentos!
Com tudo isso, no entanto, o interesse pelo Cristianismo aumentava prodigiosamente, porque a verdade é que os cristãos encarnados não estavam empenhando-se sozinhos nessa luta - através de diversos medianeiros, as Profecias, ou seja, as comunicações do Mundo Espiritual para a Terra continuavam a verter-se de maneira ininterrupta, e os fenómenos de cura, que tanto intrigavam os judeus e falavam da autenticidade da Boa Nova, se multiplicavam, bem assim, de maneira assustadora, os templos pagãos e as sinagogas perdiam frequentadores.
Depois de várias semanas, Tecla se mostrava quase inteiramente recuperada.
A fractura da costela se consolidara, mas lhe deixara pequena saliência à altura do coração, que, troçando consigo, ela passara a chamar de "meu espinho", dizendo:
"Não é só Paulo que traz um espinho na carne...
Eu também trago um, e bem visível!...".
Com a perseguição aumentando, as doações à "Casa do Caminho" haviam diminuído sensivelmente e já não era mais possível socorrer a tão grande multidão de necessitados.
Com isso, o grupo de pessoas ali sempre presente se havia reduzido à metade, mas, mesmo assim, os carentes continuavam sendo em número superior ao que os Apóstolos pudessem cuidar, sendo que, nesta fase, eles tiveram de passar a se alimentar uma única vez ao dia.
Paulo, Barnabé e outros prosseguiam enviando recursos às obras assistenciais mantidas em Jerusalém; não fosse por isso, talvez o trabalho não pudesse sustentar-se.
Pedro, com o intuito de angariar recursos, havia pensado em voltar à pesca, mas, em sonho, o Senhor lhe aparecera, ordenando-lhe que não arredasse pé da obra.
— "Pedro - falara-lhe - você se recorda de que, em Cafarnaum, com o intuito de efectuarmos o pagamento das duas dracmas, eu lhe disse que fosse ao mar, lançasse o anzol, e, do primeiro peixe que fisgasse, lhe tirasse da boca um está ter?!..."
Como Simão poderia ter-se esquecido do que se arrependera por ter considerado um delírio de seu inolvidável Mestre?!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:20 am

Porque, em realidade, obedecera ele ao Senhor, como se, uma vez mais, simplesmente, desejasse colocar à prova o seu poder...
E, novamente, amargara terrível arrependimento, feito criança ingénua que não sabe o que dizer diante do que não pode compreender.
Tiago, em que pese a sua postura um tanto rígida, dando, por vezes, a impressão de sua frieza de espírito, havia disposto de todos os seus mantos e sandálias e chegara a vender a própria manta com que se cobria do frio, inteiramente feita com lã de ovelhas, a fim de conseguir dinheiro para que o serviço de assistência aos pobres não se interrompesse.
Não foi sem lágrimas nos olhos, que Simão recebera a pequena quantia que Tiago lhe passará às mãos, depositando-lhe fraterno ósculo no rosto.
Não poderia ser outra a postura daquele que, mais tarde, escreveria em sua Epístola:
"Assim também a fé, se não tiver obras, por si só estará morta".
Durante muito tempo, o referido Apóstolo, embora, não raro, altercasse com Pedro e Paulo, de quem chegou a discordar frontalmente em seu propósito de anunciar o Evangelho aos gentios, contemporizou relações entre o Sinédrio e a "Casa do Caminho", na inútil tentativa de fazer com que o Judaísmo se aproximasse do Cristianismo e, se possível, se fundissem em uma só crença, como, aliás, desejava!...
Sua postura política, ao longo da História, haveria de lhe render injustas incompreensões, porque a verdade é que Tiago jamais deixou ser fiel a Jesus!
Na companhia de Acácia e de um jovem por nome Ananias, Tecla, por recomendação de Simão, partiu na direcção do Hebrom, cidade que ficava localizada cerca de 32 milhas de Jerusalém.
No trajecto, ela teria condições de conhecer a Belém de Judá, a pequena localidade em que o Senhor viera ao mundo.
Além do desejo de estar com Maria de Nazaré, que lá se encontrava hospedada e protegida na casa de uma tia de João, Tecla aproveitaria para, longe dos conflitos de Jerusalém - conflitos que eram de todos os dias -, restabelecer-se por completo.
A distância entre Jerusalém e Belém não era mais que 7 milhas, contudo, o esforço foi o suficiente para que Tecla, viajando por aquelas estradas irregulares, sentisse muitas dores.
Quando chegaram àquele inesquecível burgo da Judeia, com discrição - porque os inimigos estavam em toda parte -, procuraram saber de um menino se ele conhecia a gruta em que o chamado "Rei dos Judeus" havia nascido.
O garoto, demasiado esperto para seus doze anos, olhando de um lado para outro, respondeu que sim e se ofereceu para guiá-los até lá, recomendando, no entanto, que Tecla e Acácia descessem de suas montarias e, para dar a impressão de que apenas procuravam dar descanso às mulas, as conduzissem pelas rédeas.
— Existem espiões por aqui - informou o pequeno guia.
— E, depois, esta caverna tem sido considerada maldita por muitos judeus, que, com frequência, estão em Jerusalém.
Diversas vezes, eles têm vindo até aqui, e, sem coragem de se aproximarem, lançam pedras sobre ela e proferem esconjuras...
Uma emoção diferente tomou conta de Tecla, que, caminhando com certa dificuldade, porque, a cada passo, a vértebra mal consolidada lhe doía enormemente, chorava baixinho, repetindo:
— "O berço de meu Senhor! Foi aqui que o meu Salvador veio ao mundo!..."
E, instintivamente, recordou-se das palavras de Miqueias, um dos últimos Profetas, que, com exactidão, havia previsto o lugar do nascimento do Messias:
"E tu, Belém Efrata, pequena demais para figurar entre milhares de Judá, de ti me sairá aquele que há de reinar em Israel e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade"!
À entrada da caverna, numa tarde fria e pardacenta, Tecla ajoelhou-se e, levando as mãos ao rosto, chorou convulsivamente, dando livre curso às lágrimas que trazia represadas no coração.
Acácia e Ananias, igualmente, caíram de joelhos, enquanto uma chuva despencava, fazendo os três se esconderem na caverna, que, por sua singular conformação, desde muito também era utilizada por estrebaria.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:20 am

O garoto havia se despedido e corrido de volta para casa, mas os três viajantes, cujo destino era Hebron, não tiveram alternativa senão decidirem-se por pernoitar ali mesmo, seguindo viagem no outro dia, antes que o Sol raiasse.
Acomodada sobre as palhas que se estendiam no chão, Tecla, após singela refeição trazida, não teve dificuldade em adormecer, experimentando indizível paz. Sua noite foi povoada de sonhos bons, sentindo-se flutuar fora do corpo, como quem volitasse sobre aqueles sítios que o Senhor abençoara com sua presença.
De madrugada, a chuva havia parado e, no outro dia, antes que o Sol despontasse no horizonte, colorindo o firmamento com riscas douradas, a contrastarem com um lindo azul, os três amigos retomaram a viagem empreendida.
Somente aí, quando deixaram a abençoada gruta que albergara o Senhor na noite em que ele viera ao mundo, é que Tecla percebeu que não mais sentia nenhuma dor no peito!
— Vejam! - exclamou para Acácia e Ananias.
As minhas dores desapareceram por completo!
Fui curada pelo meu Mestre!
Eu não estou sentindo mais desconforto algum!...
E, sorrindo, acrescentou:
— Ele somente me deixou o "espinho", mas extraiu dele todo o veneno! Louvado seja meu Senhor e Mestre!...
Tecla estava radiante, e, de fato, seu semblante, ao se despojar daquele estado de melancolia, parecia estar envolto numa aura de luz.
O resto do percurso até Hebron, embora levando todo o dia, foi feito de uma só vez, sem que a Mártir de Icónio voltasse a experimentar o mais leve sintoma de dor.
Hebron havia sido uma cidade diversas vezes invadida por inimigos, que, então, a saqueavam e a deixavam semidestruída.
A tia de João, em cuja casa Maria de Nazaré se hospedava, não morava propriamente na cidade, mas a menos de 3 milhas dela, no sopé de um monte.
Com certeza, ali seria um dos últimos lugares onde a Mãe de Jesus seria procurada.
Antes que, com João e o aconselhamento de Pedro, ela tivesse tomado a decisão de procurar asilo, chegaram a pensar na casa de Marta e Maria, irmãs de Lázaro, em Betânia, ou mesmo em Nazaré, mas as notícias envolvendo estas duas cidades não eram nada animadoras.
Mesmo da parte dos adversários do Cristo, havia enorme respeito em torno da venerável figura de Maria, todavia, de maneira concomitante, tramava-se contra sua vida, acreditando-se que, ao lado de Simão, ela se tornara um dos símbolos do Cristianismo, o qual, a qualquer custo, precisava desaparecer.
Em que pesem as orientações fornecidas por João a Ananias, não foi sem dificuldade que o trio conseguiu chegar até a uma singela construção que, localizada entre as casas espalhadas da cidade, servia de abrigo para a Senhora, que, somente mais tarde, em companhia de João, se transferiria para Éfeso, cidade da Jónia, na Ásia Menor, actualmente em ruínas.
Recebidos à porta com natural desconfiança, Ananias se apresentou a Sara, tia de João, e a seu esposo, Joel.
— Estamos vindo de Jerusalém e da parte de João, de quem trouxemos uma carta.
A aparência inofensiva dos três tranquilizou a Sara e Joel, que, então, recebendo-lhes o documento, passaram a ler o que nele estava escrito.
Em rápidas palavras, o autor fazia a apresentação de Tecla, Acácia e Ananias, na condição de seus amigos e fiéis adeptos do "Caminho".
— Contudo - disse-lhe Joel, temendo que a referida carta de apresentação, por exemplo, pudesse ter sido furtada de seu verdadeiro portador -, falta-nos o sinal...
Ananias que, na plenitude de sua juventude, praticamente fizera todo o percurso a pé, tomou de um graveto que encontrou no chão e esboçou, com duas ondulações, o desenho de um peixe na areia...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:20 am

Este era o sinal através do qual os cristãos se identificavam entre si - na condição de "pescadores de homens", conforme o Cristo havia convidado a Pedro a seu apostolado, quando o encontrara às margens do Lago de Genesaré:
"Não temas: doravante, serás pescador de homens"!
Somente assim é que, em Sara e Joel, os sorrisos se abriram e, com fraternidade, Tecla e Acácia foram convidadas a apear de suas montarias, adentrando o recinto daquele lar, no interior do qual foram encontrar Maria de Nazaré, a cujos pés, num incontido impulso de veneração, Tecla se prostrou, dizendo: — Minha Mãe!...
— Levante-se, minha filha! - solicitou Maria com doçura, estendendo-lhe as mãos e apontando um banquinho próximo para que ela se acomodasse.
A Mãe do Senhor e Mestre, de cabelos precocemente encanecidos, na singeleza com que se trajava, era como se fosse um anjo do Céu que se demorava materializado na Terra!
Dir-se-ia que dos verdadeiros anjos que haviam acompanhado a Jesus em sua descida ao Orbe, sendo de todos eles o maior, era ela um dos poucos remanescentes!
Não obstante, a fim de que não encontrasse o mesmo destino do Filho Amado, deixando, assim, os cristãos completamente órfãos da tutela encarnada de um ser angelical, desde o dia fatídico do Calvário, precisou viver escondida...
— Sentem-se aqui comigo! - pediu com um sorriso de bondade.
Joel e Sara servirão a vocês um chá de romã...
Vocês devem estar cansados da viagem, não?!
— Minha Senhora - explicou-se Tecla, com reverência - viemos de Jerusalém para vê-la!
Já que não pude conhecer meu Salvador, desejava, pelo menos, conhecer aquela que lhe possibilitou a vinda a este mundo...
— Ah!, vieram de tão longe para conhecer alguém tão comum quanto sou?! - perguntou com graça e modéstia.
Em mim, nada há de especial.
Procurei tão-somente cumprir com meu papel de mãe...
Todavia, somente agora, reconheço que jamais estive à altura Dele, o Filho de Deus, de quem, afinal, somos todos irmãos!...
Enquanto os três saboreavam o agradável chá de romã que lhes era servido com pão, Maria continuou:
— Em verdade, eu e José nunca pudemos entendê-Lo, pois, desde muito pequeno, Ele se revelou completamente diferente.
Preferia viver isolado, na contemplação da Natureza.
Por vezes, altas horas da noite, íamos encontrá-lo observando o céu estrelado da Judeia - então, apontando para cima, dizia-nos:
— A casa de meu Pai!...
Era comum que o surpreendêssemos conversando com os animais!
Os pássaros, praticamente, vinham pousar na palma de suas mãos...
José, naturalmente, se preocupava, porque, afinal, imaginava que Ele sofresse de algum distúrbio mental.
E prosseguia em sua sublime evocação:
— Antes dos dez de idade, quis trabalhar com o pai na carpintaria e, verdade seja dita, revelou-se muito mais hábil que José.
Eu não sei quem ensinava a quem! - sorriu.
Com Ele, a nossa casa era o reduto da felicidade...
Certa vez, vimos que algumas sementes de trigo que Ele apanhara no chão começaram, como por encanto, a germinar na sua mão!...
Era comum que visitasse as crianças doentes, filhos de nossos vizinhos, e lhes impusesse as mãos sobre a fronte, curando-as.
Com doze anos de idade, fomos encontrá-Lo no Templo, explicando algumas passagens das Escrituras a Doutores da Lei...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:20 am

Temeroso, José o repreendeu, porque percebemos que, se muitos deles lhe admiraram a vivacidade, outros não gostaram que um menino lhes falasse a respeito do que não conseguiam compreender.
Ele, então nos respondeu:
"Não sabíeis que, desde cedo, me cumpria estar na casa de meu Pai?".
Quando estava para completar treze anos, Ele nos chamou e, conversando connosco como um adulto, nos comunicou que iria permanecer na comunidade dos essénios, mas que sempre poderíamos nos ver.
Ele nos falava de tal modo, que não ousávamos contestá-Lo, mesmo porque eu e José sabíamos que Ele havia vindo ao mundo da parte de Deus.
Depois que o meu Filho nasceu, chegamos, confesso, a duvidar da visão do anjo que nos apareceu, prevendo a sua chegada...
Mas, talvez - disse-lhes a Senhora -, eu os esteja cansando com as minhas narrativas...
A questão é que, hoje em dia, é de tais reminiscências que eu me alimento.
Desde que José e Ele deixaram este mundo, nada mais me restou que uma imensa saudade!...
— Não! Não! - exclamou Tecla.
Por favor, continue!
A não ser que a estejamos aborrecendo!
— Absolutamente! - prosseguiu a Senhora.
Como eu lhes ia dizendo, creio até que para proteger-nos, Ele preferiu ir morar com os essénios, na mesma comunidade à qual seu primo, João Batista, pertencia.
Quase todas as noites, eles se reuniam e, então, Jesus lhes transmitia diversos ensinamentos, como se estivesse a prepará-los para importante missão futura entre os homens.
— A Senhora podia vê-Lo com frequência?!
— Ah, sim! - respondeu.
Quando menos esperávamos, Ele aparecia em nossa casa, sendo que, para os essénios, durante todo o tempo em que lá permaneceu, Ele não tenha se ausentado da comunidade sequer um dia...
Durante os quase dezoito anos em que com eles esteve, numa das comunidades de Qumram, nas cercanias do Mar Morto, nós nos víamos com bastante frequência.
Durante a enfermidade de José, meu esposo, que adoecera em consequência de uma queda, Ele, praticamente, esteve todo o tempo connosco - quase dois meses!
Um dia, observando o sofrimento de José, perguntei ao Filho o motivo de ele, que possuía o dom de curar, não curar o próprio pai.
Respondeu-me:
— Mãe, esta é a hora de meu pai da Terra, e não devo interferir na vontade de meu Pai do Céu!
Nem que eu quisesse, como queria muito, nada poderia fazer!...
Houve pequeno intervalo; Maria de Nazaré enxugou discretas lágrimas e continuou:
— Quando meu Filho começou seu Ministério, compreendi que, se José estivesse entre nós, possivelmente, ele haveria de encontrar a morte de maneira violenta, porque, vendo a Jesus tão perseguido, não conseguiria conter-se em seus zelos de pai.
Não raro, para defender nosso Filho, José se indispunha com os vizinhos, os quais, como se estivessem possessos, sem qualquer motivo, implicavam com Ele!
Algo que não sei definir nunca deixou de perseguir a Jesus, desde quando Ele nasceu; por isso, tivemos que empreender fuga para o Egipto...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:21 am

20 - Diálogo Inesquecível
Naquela humilde casa situada num dos vales do Hebron, Tecla e Maria de Nazaré prosseguiam dialogando, com a Mártir de Icónio colhendo preciosas informações a respeito da vida do Divino Mestre - informações que, depois, ela mesma haveria de registar, o que, talvez, pudesse vir a se transformar no único Evangelho escrito por uma mulher.
Não obstante, as palavras escritas por Tecla, muito semelhantes às anotadas por Lucas, não lograriam chegar aos dias atuais, tantos foram os impedimentos que, por sua condição de mulher, ela enfrentou da parte dos próprios seguidores do Cristo, que, logo após sua morte, trataram de incinerá-las.
A verdade, porém, é que o Evangelho de Tecla chegou a esboçar-se e, em raras cópias, circulou entre alguns que se lhe fizeram admiradores.
— As perseguições contra o meu Filho - continuou a Senhora - sempre foram muito acirradas, e, durante todo o tempo em que Ele esteve no cumprimento de sua missão, não conheceu trégua em um só dia...
Desde as Bodas de Caná da Galileia, quando transformou água em vinho, seus inimigos se mostraram, e, então, na condição de mãe, sempre vivi temendo pela sua vida, chegando mesmo a ser um milagre o facto de Ele ter sobrevivido durante os três anos em que se dedicou à pregação da Boa Nova.
Agora mesmo - explicou -, por orientação do Anjo, estarei de partida para a Bataneia, porque, em Jerusalém, já suspeitam que eu esteja aqui, no Hebron.
Dias atrás, enquanto orávamos, Sara caiu em transe, e, então, da parte de meu Filho, Gabriel, o mesmo que me anunciou seu Nascimento, solicitou que ultimássemos preparativos para deixarmos este lugar, que, para mim, não é mais tão seguro.
— Teriam eles, Senhora, a coragem de prendê-la?! - perguntou Tecla com pesar.
— Como não?!
A intenção é a de se apagarem todos os vestígios que possam recordar a presença de meu Filho!...
Lázaro, o irmão de Marta e Maria, que, um dia, esteve praticamente morto e foi ressuscitado por Ele, não se há de ver que foi também, sob a alegação de que compactuava com as suas mistificações para enganar o povo, assassinado por ordem do Sinédrio!
Numa noite, quando voltava a Betânia - ele havia ido a Jericó -, segundo testemunhas, foi surpreendido por dois homens que o apunhalaram...
— Ouvi contar sobre Lázaro - observou tristemente a jovem.
— Nossas famílias eram muito amigas.
José, meu esposo, efectuava serviços de carpintaria para Natanael, pai de Lázaro e de suas irmãs.
Tínhamos estreito contacto, e, quando trabalhava com José, em diversas ocasiões, Jesus esteve com eles em Betânia, nascendo assim uma grande amizade entre os quatro.
Em muitas ocasiões, em suas andanças na pregação do Evangelho, meu Filho se hospedava com eles, para cuja casa costumava acorrer grande número de pessoas para ouvi-lo pregar.
— Lázaro, então, foi assassinado?! - lamentou-se Tecla, observando a extensão do ódio que, um dia, sob a acção das Trevas, os homens haviam votado ao Cristo, ao ponto de tentar eliminar de sobre a face da Terra tudo quanto pudesse recordar sua divina passagem entre nós.
— Não apenas Lázaro foi assassinado! - prosseguiu a Senhora.
Um pobre paralítico, que vivia a mendigar nos arredores do tanque de Betesda e que, por ele mesmo, não conseguia lançar-se em suas águas, que adquiriam propriedades curativas, quando um anjo as agitava, também foi morto de maneira impiedosa!
— Mas por quê?!
— Unicamente porque, apiedando-se dele, que ficara paralítico ainda muito jovem, estando de passagem por Jerusalém, Jesus o curou num dia de sábado - Ele apenas perguntou se o paralítico queria ser curado e, ante a resposta afirmativa, ordenou-lhe:
"Levanta-te, toma teu leito e anda"!
Ora, aquele homem sofria com a paralisia havia trinta e oito anos...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:21 am

Ao ser curado, ele passou a ser um atestado vivo do poder que emanava das palavras de meu Filho!
E, por ironia, mataram-no e lançaram seu corpo nas águas do tanque de Betesda!...
A noite avançava, com a Senhora dando sinais de cansaço, precisando repousar; por este motivo, a discreto aceno de Sara, Tecla se absteve de outras indagações.
— Antes que eu me recolha, minha filha - fez questão de concluir Maria de Nazaré -, deixe-me, em rápidas palavras, contar a você o que aconteceu em Caná, quando, praticamente, meu Filho deu início ao ministério que Deus lhe confiou.
Como que a evocar saudosas reminiscências, silenciou por instantes e narrou:
— Estávamos num casamento de parentes, em Caná da Galileia, cidade próxima de Nazaré.
À época, os primeiros discípulos já estavam em sua companhia - Simão e André, João e Tiago, Filipe e Bartolomeu...
A mãe da noiva, que era minha prima, veio me dizer que o vinho da festa havia acabado, porque o número de convidados havia excedido o esperado.
Ela estava muito triste e chegou a me dizer que aquilo era um mau agouro, em relação à felicidade do casal.
Comentei o facto com Jesus, que, olhando-me fixamente nos olhos, me falou:
"Mãe, que posso fazer em relação a isso?
Ainda não é chegada a minha hora..."
Ele, no entanto, que nunca me negara absolutamente nada, logo em seguida, pediu ao esposo de minha prima que enchesse seis talhas de pedra com água...
Ele apenas olhou para a água de que as talhas passaram a transbordar.
Não disse nenhuma palavra que nos fosse audível e, tampouco, fez qualquer gesto que revelasse sua intenção.
Simplesmente, ordenou que fosse retirado um pouco d'água numa caneca e levada ao mestre-sala, o qual, ao prová-la, passando a elogiar o noivo, afirmou de público que nunca havia provado vinho tão bom!...
— Diante do fenómeno da transubstanciação da água em vinho, não houve tumulto?! - indagou Tecla com espontaneidade.
— Não, porque, isso se deu reservadamente, somente na minha presença e na de seus discípulos, além, claro, da presença de meus primos e dos servos da casa, que ficaram sem entender o ocorrido...
E, depois, quando a água que havia se transformado em vinho começou a ser servida, Ele deu-se pressa em sair e fomos para Cafarnaum.
Naquela noite, como era de se esperar, Tecla não conseguiu conciliar o sono.
Acácia, que se acomodara a seu lado em esteira estendida no chão, cansada da viagem, adormecera logo, mas ela, pensando em tudo o que ouvira dos próprios lábios da Senhora, tinha a noite povoada de visões que se alternavam - visões da glória do Cristo e, por outro lado, do grande sofrimento reservado a seus seguidores.
Somente quase amanhecendo é que, vencida pelo cansaço, a jovem adormeceu e, então, pôde ver a si mesma sendo escorraçada pelos inimigos do Evangelho.
Via-se padecendo sob açoites, sendo apedrejada, tendo o corpo retalhado por espinhos numa fuga e, sobretudo, via-se perseguida por homens inescrupulosos que pretendiam dela abusar.
Foi Acácia que, preocupada com seus gemidos, a despertou de leve, trazendo-a de volta do pesadelo, que, praticamente em todos os lances, haveria de confirmar-se para ela.
Por incrível que pareça, desonrar Tecla, que, no Cristianismo, permaneceria como símbolo da mulher intocada, com o propósito de consagrar-se de corpo e alma, inteiramente, ao Senhor, passaria a ser um desafio para os inimigos da Mensagem Cristã.
Quando ela se levantou, enxugando o suor que lhe escorria no rosto, Sara já havia preparado o dejejum da manhã.
Ananias fora ajudar a Joel no campo, e Maria de Nazaré estava trabalhando na confecção de um tapete com que pretendia presentear o casal que a hospedava no Hebron.
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Ave sem Ninho

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 30, 2018 10:21 am

— Como vai, minha filha?! - perguntou a Senhora, ao notá-la de semblante um tanto abatido.
Dormiu bem?!...
— Infelizmente - disse -, a minha noite se dividiu entre bons sonhos e estranhos pesadelos...
— Os bons sonhos - respondeu a Senhora -, quase sempre, estão relacionados ao futuro, porém, não raro, os pesadelos dizem respeito ao presente - Deus nos concede a esperança por tempero da realidade, que, sobre este mundo, costuma ser muito dura!
Mas, não se preocupe - disse.
— Esta noite, eu também sonhei e pude ver que você fará muito pela Causa que nos é comum!...
Tecla alegrou-se, mas procurou conter o ímpeto de saber maiores detalhes.
— Isto é tudo o que mais desejo - falou -:
servir a Deus, servindo ao seu Amado Filho!
Ore por mim, minha Mãe, para que não faltem as forças necessárias, pois eu me sinto tão frágil!...
— Engano seu, minha filha!
Você é muito forte, porque poucas jovens teriam feito a difícil opção que você fez!
E, enquanto elas se alimentavam frugalmente, Maria pediu a Tecla que falasse um pouco de si.
— Minha história é um tanto triste - buscou sintetizar.
— Se eu não tivesse confiança em Jesus, poderia dizer que Ele, praticamente, destruiu minha família, porque tudo aquilo que os homens imaginam ser felicidade, eu possuía - um lar abastado, pais zelosos, um noivo que dizia amar-me...
Nunca conheci a necessidade material, pois, em nossa casa, o pão jamais faltou, e meu pai possuía muitos servos.
Em Icónio, éramos respeitados por todos.
De repente, no entanto, depois que pude ouvir a Paulo em pregação, creio que me fiz
instrumento de dor para aqueles que me amavam...
— Não diga isso, minha filha! - exclamou a Senhora, tomando-lhe a destra entre as suas mãos abençoadas.
Poderia eu imaginar que, em meu ventre, eu tenha gerado o causador de tanto sofrimento para tanta gente, inclusive para mim, que, desde então, no mundo exterior, conheci pouquíssimos instantes de paz?!
Desde que Ele nasceu, nossa aparente tranquilidade se foi...
Não obstante, como Ele próprio nos dizia, é pelos frutos que se conhece a árvore!
O que, com certeza, muitos poderão interpretar por maldição, eu interpreto como imerecida bênção!
Até hoje, aos meus ouvidos ressoam as palavras do Anjo que me anunciou o seu Nascimento:
"Salve, agraciada!
O Senhor é contigo.
Bendita és tu entre as mulheres."
E acrescentou:
"Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus"!
E disse:
— Sobre este mundo, minha filha, onde o mal ainda impera, o Bem não conseguirá impor-se, sem gerar aflições para os que nele passam a acreditar!
Sem que, perante o mundo, nossa vida se desarranje, não conseguiremos nos arranjar diante de Deus! O meu Filho nos dizia:
"Julgais que eu tenha vindo trazer paz à Terra?
Não, eu vos afirmo; ao contrário, vim trazer a divisão; pois, doravante, se se acharem numa casa cinco pessoas, estarão elas divididas umas contra as outras:
três contra duas e duas contra três.
O pai estará em divisão com o filho e o filho com o pai, a mãe com a filha e a filha com a mãe, a sogra com a nora e a nora com a sogra".
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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