TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 23, 2018 10:00 am

A sua perversidade era tamanha, que, percebendo que iria morrer, "chegou a Jericó, onde, tomado de desespero e mal contendo a ameaça de suicídio, realizou um ato supremo do mais nefando carácter.
Juntou os homens ilustres de cada vila de toda a Judeia e mandou encerrá-los no chamado Hipódromo.
Então, fez chamar Salomé, sua irmã, e o marido dela, Alexandre.
'Sei', disse ele, que os judeus se alegrarão com a minha morte; mas posso ser lamentado por outros e ter esplêndidos ritos fúnebres, se vos dispuserdes a obedecer as minhas ordens.
Logo que eu tiver expirado, cerquem esses homens que agora estão sob guarda de soldados, o mais rápido possível, e matem-nos, para que toda a Judeia e cada casa, ainda que contra a vontade, sejam compelidas a chorar a minha morte'".
— Que horror! - exclamou Tecla, levando as delicadas mãos ao rosto.
— Pôncio Pilatos - prosseguiu Zizo -, que era governador quando o Messias foi morto, qual aconteceu a Herodes, também terminou os seus dias cometendo suicídio!
Em seguida, no reinado de Cláudio, que sucedeu a Caio na soberania do Império, sobreveio grande fome, que assolou toda a Judeia.
De facto, em "Actos dos Apóstolos", capítulo 11, versículos 27 a 30, Lucas registou o que Eusébio de Cesareia registou na sua "História Eclesiástica":
"Naqueles dias desceram alguns profetas de Jerusalém para Antioquia e, apresentando-se um deles, chamado Ágabo, dava a entender, pelo Espírito, que estava para vir grande fome por todo o mundo, a qual sobreveio nos dias de Cláudio.
Os Discípulos, cada um conforme as suas posses, resolveram enviar socorro aos irmãos que moravam na Judeia; o que eles, com efeito, fizeram, enviando-o aos presbíteros por intermédio de Barnabé e de Saulo".
As previsões mediúnicas de Ágabo, notável médium do Cristianismo nascente, se confirmaram, e tão grande fome assolou a Judeia, que, em breve, não havia mais nenhum cão andando nas ruas das cidades, porque eram capturados e mortos!
Tudo aquilo, sucedendo logo após a crucificação do Cristo, induzia muitos espíritos à reflexão, levando-os a considerar que haviam agido de maneira equivocada, erro do qual, pelos séculos afora, se arrependeriam amargamente.
Ao chegar a casa, Mésimo, perguntando à esposa pelo paradeiro da filha, dirigiu-se à biblioteca, que sabia ser o refúgio preferencial de Tecla.
Com passos decididos, dirigiu-se à sala repleta de livros e manuscritos bem conservados.
Aproximando-se dela, depositou-lhe na fronte um beijo paternal, comentando, agastado:
— Vocês não hão de ver que acabaram de chegar à Icónio dois forasteiros - na verdade, dois maltrapilhos, que se dizem seguidores daquele homem morto na cruz!
Eles já chegaram, provocando uma verdadeira arruaça, porque dezenas e dezenas de pessoas os estão seguindo, ouvindo as mentiras que se especializaram em contar.
Não sei o que acontece com as nossas autoridades, que não os metem na cadeia!...
Amanhã mesmo, a perdurar este estado de coisas, irei falar com o Governador da cidade!...
— Mas, papai, que foi que eles fizeram ou estão fazendo?!
- perguntou Tecla, ansiosa por maiores detalhes.
— Dizem que, logo ao chegarem, impuseram as mãos sobre Ruben, aquele paralítico que vive se arrastando a mendigar, e ele, de pronto, se levantou...
Isso é bruxaria!
Não podemos consentir algo que venha a contrariar os nossos preceitos religiosos!
É por isso que Jeová está nos castigando com pestes e fome...
"Não terás outros deuses diante de mim", é o que consta do Decálogo!...
— No entanto - redarguiu Tecla -, curar um paralítico como Ruben, que mendiga para ele e para a mãe doente que tem em casa, será pecado?!
— Sim, porque o povo está se perguntando que Deus é esse, o desses homens, que parecem tomados por um espírito maligno, já que não pronunciam meia-dúzia de palavras, sem que falem no nome daquele embusteiro morto entre ladrões!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 23, 2018 10:01 am

Daqui a pouco, os nossos templos estarão completamente vazios...
Zizo, conhecendo o temperamento do patrão, permanecia em silêncio, sem coragem de se pronunciar.
Mas, desejoso de ouvir-lhe a opinião, Mésimo perguntou de chofre:
— Que tem você a dizer, Zizo, desses maltrapilhos que andam tomando conta das estradas de toda a Judeia, anunciando a vinda do Reino de Deus?!
O mestre deles parece lhes ter ensinado toda a espécie de sortilégios, porque abrem a boca e hipnotizam a multidão...
Ainda agora, ao fazerem com que Ruben caminhasse, foram aplaudidos freneticamente.
— Senhor - respondeu com receio o professor -, eu não conheço a doutrina que eles pregam...
Sei apenas que os seguidores do Nazareno, embora extremamente pobres, são considerados homens de bem.
Quer dizer, até onde sei, nunca fizeram mal a quem seja!
Ao contrário, eles têm sido enxotados de muitas cidades, apedrejados alguns, escorraçados outros...
— Não me diga que você nutre alguma simpatia pelas baboseiras que andam espalhando entre a plebe!
Estaria eu confiando a educação de minha filha a quem não seja de minha inteira confiança?...
— Absolutamente, senhor! - respondeu Zizo, com voz trémula.
Posso não ser assíduo frequentador da sinagoga, mas o Deus de minha fé é o mesmo Deus em que o senhor acredita!
E depois - emendou com subserviência que contrariou a Tecla -, esse homem nazareno pode ter feito o que dizem que fez, mas jamais, em tempo algum, se igualaria a Moisés, que abriu as águas do Mar Vermelho para que o povo judeu escravizado pudesse escapar, e, para que o povo não perecesse de sede, em Mara, ele transformou as águas amargas em águas doces...
— Finalmente, Zizo, eu ouço de seus lábios palavras sensatas.
Você deveria contender com esses falsos profetas, porque, em Icónio, não há quem possa contestá-los, ainda mais àquele Saulo, traidor do Sinédrio, e que por isso foi renegado pelo seu próprio pai.
— Todavia, senhor, eu não sou dado a contendas, porque, devido a minha idade, por vezes, as ideias me fogem, e, ao invés de derrotá-los, acabaria sendo humilhado por eles publicamente, ficando pior para o que pretendemos.
Saindo em defesa de seu mestre, Tecla endossou-lhe as palavras, com discreta piscadela:
— Papai, tranquilize-se!
Zizo tem razão, porque, às vezes, ele se esquece hoje do que me disse ontem...
Não vamos expô-lo a um vexame!
Deixemos que as nossas autoridades cuidem do caso.
Quem sabe, eles não se demorem entre nós!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 23, 2018 10:01 am

6 - A Conversão
Certa noite, aproveitando-se de ter o pai viajado e de que a mãe, Teóclia, se deitara mais cedo, Tecla, em companhia das duas servas tessálias de sua casa, saiu com a intenção de ouvir uma das pregações de Paulo.
Misturando-se à multidão, adentrou o recinto repleto de gente de toda espécie, inclusive de familiares conduzindo os seus doentes, atraídos pela fama que os dois apóstolos possuíam de curar enfermidades e de expelir demónios.
Vale ressaltar que, àquela época, desde que Jesus dera início à sua missão pública, os espíritos sofredores, praticamente, infestavam as cidades, e, entre homens e mulheres, até mesmo adolescentes, eram inúmeros os que eles molestavam.
Dir-se-ia que, atraídos pela luz do Senhor, aquelas entidades que viviam nas Sombras, praticamente, nos subterrâneos da Crosta, abandonavam os seus escuros habitats, na esperança de renovação.
O mesmo conflito que a simples presença do Cristo causara entre os homens, na face do Orbe, registava-se em suas imediações, entre os espíritos dos considerados mortos.
Enquanto os escribas e fariseus, representando os adversários encarnados de sua Mensagem Libertadora, pelejavam para detê-Lo, imensas falanges espirituais, dominadas pelos asseclas do Mal, que as lideravam na vida de Além-Túmulo, se movimentavam para impedir os espíritos que subjugavam de virem se emancipar.
É que, desde muito, a Terra, dominada pela ignorância, era território reivindicado pelos espíritos opositores do Amor e da Verdade, dela fazendo uma de suas trincheiras na luta que os representantes das Sombras continuam travando contra as Leis Soberanas do Universo.
Esse fato, conforme se sabe, ficou patente quando Herodes, um de seus membros encarnados, indirectamente avisado pelos Reis do Oriente acerca do nascimento do Rei dos Judeus, no intuito de eliminá-Lo, mandou que todas as crianças de Belém e arredores, contando dois anos para baixo, fossem mortas!
O propósito, evidentemente, era já o de eliminar o Excelso Senhor, ainda no berço, impedindo que ele cumprisse a Missão para a qual fora designado por Deus.
Uma das razões de o Cristo ter permanecido no anonimato, dos doze aos trinta anos de idade, aguardando o momento de dar início à pregação da Boa Nova, é que, caso se tivesse exposto antes, com certeza, seria morto, porque, nos seus três anos de vida pública, Ele, praticamente, viveu sendo perseguido pelos agentes das Trevas que pretendiam inviabilizar a Obra do Evangelho.
Durante, pois, todo o tempo, Ele pregou em fuga, até que, no Getsémani, ao ser preso, admitiu que aquele fosse o instante de seu supremo testemunho:
"Diariamente, estando eu convosco no templo, não pusestes as mãos sobre mim.
Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas"!
Sem dúvida, o episódio da prisão do Senhor nos leva a pensar que, dificilmente, alguém que se disponha a verdadeiramente servir aos propósitos divinos entre os homens, se isentará do testemunho no campo de seus ideais.
De uma maneira senão outra, ele sempre terminará alvejado pelos que intentam ridicularizá-lo.
Não obstante, permanecendo fiel à consciência, no recto cumprimento de seus deveres, embora possa ser sucessivamente ferido, ele não se verá mortalmente atingido pelos projécteis do Mal.
Em meio àquele grande número de pessoas, ninguém identificou Tecla, que, envolvida por uma capa com capuz, cobria o rosto, o mesmo fazendo as servas que a acompanhavam.
Chegando a hora da pregação, Onesíforo solicitou silêncio geral, para que Paulo e Barnabé começassem a falar.
Inicialmente, apenas com a intenção de apresentar o orador, o companheiro tomou a palavra, tendo o ex-Doutor de Tarso ao seu lado:
— Meus irmãos - disse - ouviremos o testemunho vivo de quem o próprio Senhor foi buscar entre os seus mais ferrenhos opositores...
O Doutor Saulo de Tarso, hoje simplesmente Paulo, teve no deserto siríaco a visão do Cristo redivivo!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 23, 2018 10:01 am

Ele mesmo é a maior prova do poder transformador de quem nos é o Caminho, a Verdade e a Vida!
O Cristo é o nosso libertador!
Ele não veio para nos liderar numa guerra contra Roma, mas, sim, contra o império do Mal em nós mesmos!
Busquemos, pois, escutá-lo com atenção!...
A figura imponente de Paulo, que Tecla estava vendo pela primeira vez, impressionava-a profundamente.
Não era ele um homem possuidor de atractivos de natureza física, porém a sua presença irradiava tal magnetismo, que não havia quem não conseguisse olhá-lo.
Um tanto calvo, de estatura meã, mas de compleição robusta, lembrando o tronco de uma árvore sem galhos, fortemente enraizada no solo, Paulo possuía olhos penetrantes que, quando pousados sobre alguém, parecia lhe vasculhar a alma.
Então, quando abria a boca e começava a falar, a impressão que se tinha era de que "línguas de fogo", qual acontecera na festa de Pentecoste, pairavam, todas juntas, sobre a sua cabeça!
— Meus irmãos - repetia a saudação de Barnabé - ninguém aqui ignora que, ainda há pouco, eu era Doutor no Sinédrio...
E, de maneira eloquente, contava a história de sua conversão, penitenciando-se pelos seus erros.
Os seus conhecimentos das Escrituras eram tamanhos, que não havia ninguém, por mais erudito, capaz de contestá-lo, quando, praticamente em todos os lugares onde pregava, fazia questão de frisar o que Lucas registrou em "Atos dos Apóstolos":
"Irmãos, descendência de Abraão e vós outros os que temeis a Deus, a nós nos foi enviada a palavra desta salvação.
Pois os que habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo a Jesus nem os ensinos dos Profetas que se lêem todos os sábados, quando o condenaram, cumpriram as profecias; e, embora não achassem nenhuma causa para morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto.
Depois de cumprirem tudo que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, depuseram-no em um túmulo.
Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos; e foi visto, muitos dias, pelos que com ele subiram da Galileia para Jerusalém, os quais são agora as suas testemunhas perante o povo.
Nós vos anunciamos o Evangelho da promessa feita a nossos pais".
E prosseguia, praticamente sem pausa, citando o esperançoso anúncio da vinda do Sublime Redentor, centenas de anos, em magnífica precedência do Profeta Isaías:
— Que provas maiores podemos pedir da identidade do verdadeiro Messias, que há séculos e séculos esperamos?!
A sua vida foi o cumprimento de todas as profecias a respeito de seu advento!
"Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.
Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro, foi levado ao matadouro; e, como ovelha, muda perante seus tosquiadores, ele não abriu a boca.
Por juízo opressor foi arrebatado, e de sua linhagem quem dela cogitou?
Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi ferido.
Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve em sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca"...
Sua obra, passado já algum tempo da crucificação, está cada vez mais viva em Jerusalém, e, entre homens e mulheres, multiplicam-se os seus seguidores.
Ele, o Cristo, é o representante de Deus na Terra!
A propósito disto, João, que foi seu Discípulo Directo, disse-me que, em diversas ocasiões, o ouviu dizer:
"Eu e o Pai somos um"!
Evidentemente, Ele não era Deus, o que seria uma blasfémia, mas, se Deus não estivesse com Ele, aunado Ele com Deus, não poderia ter feito o que fez e continuar fazendo o que faz...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 23, 2018 10:01 am

Transformou a água em vinho, curou leprosos, fez andar paralíticos, devolveu a visão a cegos, expeliu demónios, ressuscitou mortos, andou sobre águas, acalmou tempestade, multiplicou pães e peixes para imensa multidão, sendo que, não obstante condenado injustamente e crucificado, ressuscitou dentre os mortos no terceiro dia...
O Cristo é o Deus Desconhecido!...
Nessa altura de sua pregação, quando Paulo se referiu ao Cristo como sendo o "Deus Desconhecido", Tecla sentiu forte emoção e, sem que conseguisse conter-se, começou a chorar com discrição.
Aliás, poucos ali, naquele templo que se improvisara em amplo salão, não derramavam lágrimas de esperança, sentindo grande conforto no coração, porque, afinal, o povo judeu vivia sem qualquer perspectiva em relação ao futuro - muito lhes custaram as fugas do Egipto e da Babilónia, para agora se verem sob o domínio de Roma!
Além do mais, os judeus ortodoxos formavam uma casta exploradora que vivia a expensas do próprio povo sofrido, espoliados por rigorosos impostos devidos a César e por doações forçadas às sinagogas.
Não foi por outro motivo que Jesus, severamente, os repreendera:
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazeis longas orações; por isso sofrereis juízo muito mais severo!"
— Sei - continuou Paulo, com veemência - que muitos estão aqui apenas esperando serem agraciados pelos favores do Céu - isso é tão-somente o que vieram buscar, indiferentes à palavra do Evangelho!
Poucos são aqueles que se preocupam com a salvação da alma!
A maioria deseja a cura de seus males físicos, para dar sequência à vida desregrada, pouco se importando de que, assim, haverão de perder a alma...
Não se esqueçam, porém, de que muitos daqueles que o Senhor curou já voltaram a enfermar e muitos já morreram! Devemos buscar viver para a Eternidade e não para o momento que passa!
— "Se alguém quiser vir nas minhas pegadas, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me; porquanto, aquele que se quiser salvar a si mesmo, perder-se-á; e aquele que se perder por amor de mim e do Evangelho, se salvará.
Com efeito, de que serviria a um homem ganhar o mundo todo e perder-se a si mesmo?".
A prelecção se desdobrou por mais alguns minutos, e Tecla, naquele instante, sentia que, por fim, a sua vida começava a fazer sentido.
Nunca mais voltaria a ser a mesma pessoa!
Depois de tudo quanto ouvira, não haveria retrocesso para ela!
As suas angústias e incertezas, como por encanto, se desfizeram, mas, por outro lado, passara a pressentir que, doravante, grandes lutas a esperavam, muito semelhantes àquelas que Paulo, em síntese, descrevera decorrentes de sua conversão, que, em verdade, ainda repercutia entre os judeus.
Assim reflectia quando ouviu dois homens conversando ao seu lado:
— Nada poderemos fazer agora, Saul! - dizia um deles ao outro.
É muita gente...
Convém esperarmos melhor oportunidade.
— Mas fomos pagos para isto, Agripino! - retrucava de maneira quase inaudível o homem que escondia um punhal sob a túnica.
Provocaremos um tumulto e...
— Não, convém esperarmos - redarguiu o primeiro.
Poderemos ser trucidados pela multidão...
O Sinédrio quer este homem morto, fomos pagos para isto, mas haveremos de esperá-lo quando ele deixar Icónio.
O velho não nos será empecilho.
Aqui, repito, seremos massacrados...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:53 am

Neste ínterim, descendo do púlpito improvisado, feito por três peças de madeira sobre dois tocos da mesma altura, Paulo, em companhia de Barnabé e Onesíforo, começou a abençoar um a um os doentes que ali estavam.
Os dois homens, chamados Saul e Agripino, o viram passar bem próximo e chegaram a tremer, quando Paulo, como que a suspeitar de algo, lhes dirigiu o olhar demoradamente, sem, no entanto, trocar com eles uma única palavra.
Tecla, que tudo ouvira, pensara em avisá-lo, mas, para tanto, ela teria que sair do anonimato, o que considerou não ser conveniente, mesmo porque, segundo pudera escutar, os dois homens haviam adiado a intenção de assassinar o Apóstolo.
Não lhe faltaria, mais tarde, ocasião de contar a ele a conversa que pudera testemunhar.
— Abram caminho, por caridade! - gritou uma senhora, que não conseguira espaço dentro do salão.
Por caridade, deixem-me passar com o meu filho, que está morrendo!...
Instintivamente, o povo que se aglomerava à porta recuou; então, auxiliada por uma jovem e um rapaz, aquela aflita mãe conseguiu, a custo, adentrar o recinto, transportando desfalecido menino envolto num lençol.
— Por caridade, senhor!
Por caridade! - tornou a apelar, entre lágrimas.
Cure o meu filho, que, hoje, de manhã, depois de cair numa cisterna, ficou assim, desacordado...
Ele estava brincando com os amigos, quando, perdendo o equilíbrio, tombou dentro do poço.
O médico diz que ele partiu alguma coisa à altura do pescoço...
Ele é o meu único filho - falou, caindo de joelhos aos pés de Paulo.
— Sem a permissão do Senhor, nada podemos - respondeu ele, ante a expectativa que se criara -, mas, pela vontade Dele, tudo pode ser feito!...
Pediu que o corpo do menino fosse deposto ao chão, ajoelhou-se ao lado da criança, que não teria mais que dez de idade, impôs-lhe a mão sobre a fronte e elevou os olhos ao Alto, assim permanecendo por alguns minutos.
O silêncio que se fez no recinto foi enorme, porque, em verdade, se tratava quase de ressuscitar um morto, porquanto a criança sequer conseguia mover as pálpebras e a respiração era imperceptível.
Quase todos os olhares dos presentes, acompanhando o olhar de Paulo, se fixaram num ponto qualquer da altura, de modo que, à excepção da infeliz senhora, ninguém mais prestava atenção ao corpo inanimado do garoto, praticamente morto.
Foi quando, decorrido algum tempo, um choro gemido de criança se fez ouvir no recinto.
Então, extremamente assustados, todos voltaram a olhar para o pequeno corpo estendido sobre o lençol...
O menino, que o médico desenganara, passou a choramingar e, abrindo os olhos com dificuldade, chamou pela mãe.
Foi preciso que Onesíforo, que era um homem muito forte, e outros amigos seus, impedissem que a multidão avançasse sobre Paulo, imaginando que estivesse à frente de um deus encarnado!
Tecla tornou a ouvir os dois homens conversando um com o outro:
- Eu não lhe falei, Saul?!
Agirmos aqui será suicídio.
Nós é que seremos mortos!... Saiamos!
Depressa, saiamos, antes que sejamos descobertos!
Esse homem parece ter parte com forças demoníacas...
Ao passar rente a nós, lançou-me terrível olhar!...
A mãe do menino, o qual, aos poucos, ia recobrando os movimentos, tomou as mãos de Paulo e se pôs a beijá-las, ao que o próprio Apóstolo, avesso a qualquer tipo de endeusamento, procurou rechaçar.
— Não, minha irmã! - disse-lhe com voz enérgica.
Não sou eu, não fui eu...
A cura veio do Senhor!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:53 am

Louvores a Ele e não a mim, que não passo de pobre pecador!...
Enquanto este episódio se desdobrava, valendo-se da porta desguarnecida, um homem, completamente enfurecido, adentrou o salão e, possuído por espíritos que dele faziam instrumento, passou a proferir impropérios contra Paulo e Barnabé.
— Enganadores do povo! - gritava o possuído pelos génios das Sombras.
Tudo isto é mentira! Mentira!
Andam, de cidade em cidade, colectando dinheiro para os seus bolsos...
Vocês não escaparão!
Se Ele não escapou, que pretensão é essa de vocês - dois homens feitos de barro?!...
Ante o silêncio dos Apóstolos, que, momentaneamente, ficaram sem acção, acrescentava aos berros:
— Isso não passa de encenação!...
Em todo lugar, é a mesma coisa!
Falam mentiras e, em seguida, recorrem a mais sortilégios para impressionarem o povo...
Não acreditem neles, não acreditem!
Apedrejem-nos e expulsem-nos da cidade!
Fascinadores.
De temperamento algo ainda impulsivo, Paulo, tomado de indignação com a sistemática agressão que o mundo invisível lhes movia desde Antioquia, como sempre, especificamente, haveria de mover contra ele, o Evangelizador dos Gentios, ergueu a destra e bastou esse seu gesto, seguido de duras palavras, para que o possuído se detivesse:
— Cale-se!
Eis o que lhe ordeno, em nome de Jesus Cristo!
Com os seus companheiros, retorne para o lugar de onde você saiu, porque a hora de vocês também já vem chegada!
Respeite o nome do Senhor!
Curve-se a Ele, que, mesmo aparentemente derrotado na Cruz, triunfou da morte em gloriosa ressurreição!
Dobre-se! - ordenou. - Ajoelhe-se!
Não diante de mim, que, como você disse, sou feito de lama, mas diante Daquele que é a Luz do Mundo!...
E insistiu, transfigurado:
— Em nome de Jesus Cristo, dobre-se!
E deixe esse homem, que não é a sua morada!...
O próprio Barnabé, que, aos poucos, ia conhecendo novas facetas do espírito indomável de Paulo, desejou conter o amigo, o qual não lhe atendeu as ponderações para que se acalmasse.
Como que magnetizado pelas palavras do Missionário, o corpo do homem escolhido para instrumento daquela perturbação dobrou-se, vencido por irresistível força coercitiva.
Muitos dos presentes, alarmados diante do ocorrido, afastaram-se do recinto de reuniões, enquanto, gradativamente, Paulo, amparado por Barnabé e Onesíforo, ia retornando à serenidade.
Quem não soubesse quem ali estava, talvez viesse a supor que o endemoninhado fosse ele e não aquele pobre homem que desfalecera.
Tecla, que tudo acompanhara, a cada vez mais impressionada com a figura espiritual de Paulo, que passara a defender o Cristo com a mesma determinação com que defendera Moisés e os Profetas, não percebeu que, no tumulto que se estabeleceu, o capuz lhe deixara o rosto descoberto.
— Vejam - disse um dos conhecidos de seu pai, apontando-a para algumas pessoas -, aquela é Tecla, filha de Mésimo!
Ter-se-á tornado cristã?!
Duvido que o seu pai saiba que ela está aqui!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:54 am

7 - Tecla Cristã
No outro dia, a tarde, logo que Mésimo chegou da curta viagem empreendida, não faltou quem, já na entrada de Icónio, o abordasse, contando o rebuliço que as pregações de Paulo vinham causando.
— E Tecla, meu amigo - disse-lhe o intrigante interlocutor -, com as duas escravas de sua casa, estava lá!
Eu a reconheci perfeitamente.
Você sabe como os jovens são curiosos, mas notei que, enquanto aquele homem falava, ela até chorou...
Estou lhe contando isto, porque nós, os pais, precisamos estar atentos contra as superstições que a doutrina do Nazareno anda espalhando, principalmente entre os jovens!
De espírito envenenado, Mésimo foi directo para casa, mal tendo cumprimentado Teóclia, que o esperava com ansiedade.
— Mésimo, que houve?!
Você me parece tão irritado?! - perguntou ela ao marido, o qual se dirigiu para a biblioteca, o recinto preferido da sua filha que ali passava horas e horas na leitura de manuscritos.
— Tecla! Tecla! - bradava, encolerizado. — Onde está você?!...
Percebendo o alterado estado de espírito do pai, a jovem pressentiu que ele já havia sido informado de tudo!
Então, naquele momento, decidiu que não mais esconderia suas convicções.
— Estou aqui, papai! - respondeu resoluta.
Na biblioteca! Estou aqui!...
— Diga-me, minha filha - inquiriu, sacudindo-a pelos ombros -, diga-me se é verdade o que acabei de saber:
você compareceu à pregação daquele embusteiro do "Caminho"?
Esperou que eu viajasse para me trair e me colocar em dificuldades diante dos amigos, que, a esta altura, devem estar me ironizando em toda a cidade?!
— Papai - tentou ponderar Tecla, com serenidade -, sim, eu estive em uma de suas pregações, e confesso ao senhor que não presenciei nada reprovável...
Aliás, pude presenciar cenas que muito me comoveram, como a cura de uma criança que havia caído numa cisterna...
O menino estava praticamente morto e...
— Ilusionismo!
Como você pode sertão ingénua assim?!
Aquele homem, que tem sido expulso de todas as cidades por onde passa, é extremamente perigoso!
Dizem, ainda, que ele seduz mulheres...
— Tal não me pareceu - redarguiu a jovem sem hesitar.
— Ele e seu amigo, de nome Barnabé, um senhor de respeitável aparência, não me parecem fazer jus às acusações de seus inimigos...
Paulo, mostrando profundo conhecimento da Lei, falou de Jesus Cristo, crucificado injustamente pelos invejosos.
— Ele coloca esse Cristo acima de Moisés!
Isso é um absurdo!
Tal homem precisa estar preso!...
Ele é uma farsa! Toda a gente sabe que foi ele mesmo quem denunciou os adeptos do "Caminho" e mandou matar por apedrejamento o irmão de sua noiva...
Agora, fique sabendo que você está proibida de sair de casa!
Enquanto o dito homem estiver na cidade, você estará proibida de ausentar-se destas quatro paredes!...
— Não, o senhor está enganado, pois ele não falou mal de Moisés...
Ao contrário, ele demonstra grande reverência pela Lei e admiração pelos nossos patriarcas e profetas!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:54 am

O que enfatiza em sua pregação é que o Cristo é o Messias, que o próprio João Batista reconheceu...
— Vejo que você, infelizmente, já foi contaminada por essa epidemia, que se alastra por toda a parte, sem que as nossas autoridades consigam detê-la.
Não vá me dizer que você também se tornou adepta do Carpinteiro - a loucura deste século!
Um Messias morto numa cruz, entre dois ladrões!...
— Ele também falou a respeito disso, explicando que "certamente a palavra da Cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus"!
Papai, que charlatão viveria entre os mais pobres, consolando os que têm sido socialmente escorraçados?...
Mésimo, caminhando de um lado para outro, notou que a filha dispunha de argumentos sólidos - argumentos que, por não ser um homem dado à leitura e à reflexão, ele não possuía.
— Tecla - apelou o genitor -, você está prometida a Tamíride...
Dentro de pouco tempo, oficiaremos o seu noivado, e a família dele está preparando em Listra uma grande recepção.
Não nos envergonhe, a mim e à sua mãe!
Você quer que nos transformemos em motivo de chacota?!
Quer?! Não basta ter me contrariado e comparecido à pregação daquele sedutor?!...
— Eu jamais lhe desobedeceria, meu pai!
O senhor sabe quanto o amo e respeito, mas se esqueceu de que a sua pequena Tecla cresceu, e, com base nos próprios livros que o senhor me manda estudar, formou outros pensamentos sobre a Vida!
— A culpa, então, é de Zizo! - exclamou Mésimo.
Mandarei que o açoitem e o despedirei, para que morra de fome.
— Não, a culpa não é dele!
Aliás, não existe culpa em ninguém, nem no senhor, na mamãe, em Zizo ou em mim mesma!
São tempos novos, meu pai!
O Cristo é o legítimo continuador da doutrina de nossos ancestrais.
Ele é o nosso Salvador!
O que Ele fez e o que disse jamais foi feito e dito por nenhum sábio da Terra!
Acredito mesmo que Ele seja superior a Sócrates...
A isto, com um gesto ríspido, Mésimo derrubou todos os manuscritos que estavam em cima de um balcão, sobre o qual se empilhavam!
Resolvida, de uma vez por todas, a colocar um basta naquela situação de seu futuro noivado, situação que muito a afligia, a jovem, encarando o pai de frente, elucidou:
— Quanto à Tamíride, meu pai, eu comunico ao senhor que me entenderei com ele, pois, agora, quando encontrei o que procurava para a minha vida, não pretendo me casar!
— Quê?! - indagou Mésimo, basbaque.
Como se não lhe bastasse me envergonhar uma vez durante toda a Icónio, fazendo-me passar por homem fraco junto à própria família, pretende impor-me uma segunda humilhação?!
Positivamente, as palavras de tal pregador a enlouqueceram!
Que súbita mudança é essa?!
Explique-se, Tecla! - gritou tão alto, que, até então se contendo, Teóclia veio em socorro da filha.
— Acalme-se, Mésimo! - ousou pedir a esposa, segurando Tecla pelo braço.
— Acalmar-me, eu?!
Então vocês duas me desferem terrível golpe à traição, arrasam a minha vida, e você, Teóclia, ainda tem coragem de me pedir calma?!
Que querem vocês de mim?!
Que eu me transforme num mendigo?!
Desprestigiado socialmente, os meus negócios irão à bancarrota!
Abrirei os meus pulsos e...
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Ave sem Ninho

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:54 am

— Não, meu pai, não há necessidade de que o senhor faça isso - interveio Tecla, amparada pela mãe.
Sairei de casa...
— Nunca! - vociferou Mésimo.
Você terá que se explicar a Tamíride...
Dou-lhe prazo até amanhã para que mude de ideia.
Você está fascinada, quiçá apaixonada por aquele homem, que deve ter idade para ser seu pai!...
— Estou, sim, apaixonada pelo Cristo e não por Paulo, que, como o senhor disse, tem idade para ser meu pai.
Mas o meu pai é o senhor e é ao senhor que eu amo como tal!
— Se você me ama, que estranha forma de amor é essa a quem, até aqui, tem-lhe dado tudo?!
Que amor é esse que não inclui o respeito e a consideração?!
Isso não é amor: é, sim, ingratidão!
E ainda tem a coragem de me dizer que está apaixonada por um homem morto, condenado à cruz dos escravos?!...
— O senhor não seria capaz de entender os meus sentimentos - disse Tecla, enxugando lágrimas no rosto.
O sono não me fará alterar o que sinto...
E não foram apenas, meu pai, as palavras de Paulo que me fizeram mudar, pois, desde muito, estranha amargura me possui o espírito - a verdade é que sempre vivi insatisfeita comigo mesma!
Não vim a este mundo para me casar e ter filhos...
— Se preciso - ameaçou Mésimo -, eu a levarei à presença do Procônsul!
Mas aviso-lhe:
caso não me obedeça, prepare-se para deixar esta casa...
— Isso não! - exclamou Teóclia.
Sem a presença de minha filha, eu morrerei!
Isso não, Mésimo, por caridade!...
— Você está vendo como o maldito Cristo está destruindo a nossa família?...
— Meu pai, o Apóstolo disse que Ele ensinava que aquele que houver deixado, pelo seu nome, "sua casa, ou seus irmãos, ou suas irmãs, ou seu pai, ou sua mãe, ou sua mulher, ou seus filhos, ou suas terras, receberá o cêntuplo de tudo isso e terá por herança a vida eterna"!
— Isto é uma conspiração contra a família!
Onde é que você tem a cabeça, Tecla!
Você foi enfeitiçada...
E saiba que não falarei mais com você! - sentenciou o progenitor, com mil planos obscuros na cabeça, evidentemente, incluindo o plano de mandar matar a Paulo!
— Amanhã, cedo, conversaremos.
Caso você persista nessas ideias abomináveis, iremos ao Procônsul.
Eu mesmo a denunciarei como traidora de nossa fé!...
— Mésimo! - algo tentou dizer Teóclia.
— Quanto a você - retrucou o esposo com rispidez - por considerá-la cúmplice de nossa filha nesta situação, de hoje em diante, dormirá no quarto das escravas!
Comerá e dormirá com elas, até que tudo isto se resolva conforme espero.
Assim dizendo, rodopiou nos calcanhares e saiu, proferindo blasfémias, disposto a cometer qualquer insanidade em defesa do que considerava como sendo sua honra.
Naquela noite, Tecla não conseguiu conciliar o sono.
Permanecera ali mesmo, na biblioteca, pensando nas dificuldades que, certamente, enfrentaria no testemunho de sua nova convicção.
Todavia, por mais reflectisse, a jovem não podia imaginar que ela havia sido escolhida para ser uma das primeiras mártires do Evangelho nascente!
Dali por diante, a sua trajectória de vida serviria de inspiração a milhares de outras jovens que tomariam a decisão de seguir o Cristo.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:54 am

Era alta madrugada, quando, cochilando rapidamente sobre os manuscritos que, antes, o pai lançara ao chão, sonhou com uma estrela, que, tomando a forma de anjo, parecia pairar no espaço e roçar, de leve, as asas sobre sua cabeça, dizendo-lhe:
— Prepare-se, minha irmã, pois o seu Calvário está apenas começando!
Mas nós não a deixaremos sozinha!
Não apenas os homens serão chamados a construir na Terra o Reino de Deus!...
Tecla, evidentemente, não pôde identificar naquela a voz de Abigail, irmã de Estêvão e ex-noiva de Saulo, que, em nome do Cristo, se abalava das Altas Esferas e vinha ao seu encontro, para dar-lhe força e coragem no testemunho.
No outro dia, quando o Sol já se encontrava à meia-altura no firmamento, todos foram surpreendidos com a presença de Tamíride, que, necessitando vir à Icónio para tratar dos negócios de seu pai, praticamente amanhecera na casa da noiva.
— Tamíride - disse Mésimo, o qual se levantara mais tarde que o habitual - venha cá...
Você precisa conversar com Tecla.
Apareceu um autêntico bandido na cidade, por nome Paulo, acompanhado por um ancião, que transtornou a cabeça dela...
Tecla não está bem!
Ontem, à noite, discutimos feio.
Ela está falando, inclusive, em retirar a palavra empenhada com você!
Por favor, antes que eu seja obrigado a tomar medidas mais drásticas, converse com ela...
Dirigindo-se à biblioteca, onde a moça passara a noite, Tamíride que, em verdade, mais lhe admirava a beleza física que o espírito, osculou-lhe rapidamente a fronte e principiou a falar:
— Estive com o seu pai, tendo ele...
— ...disse-lhe a verdade - completou a jovem, sem titubeios.
— Doravante, serei cristã!
E tirando da túnica o camafeu de marfim, que simbolizava seu comprometimento afectivo com Tamíride, estendeu-o a ele.
— Mas... que é isso, Tecla?!
Afinal, de que se trata?!...
— Abandonei a crença nos deuses!
Eis que Jesus Cristo é o "Deus Desconhecido" e maior que todos os deuses que já cheguei a venerar.
— Maior do que o soberano Zeus, de quem você sempre foi devota?!
- isso, sem falar, claro, de nossas convicções judaicas!
Que deus é esse que, de hora para outra, faz você renegar, de uma só vez, a Zeus e a Jeová?!
Tolerável a sua admiração pela cultura grega, que os próprios romanos adoptaram, mas como admitir que também se oponha ao Deus de nossos ancestrais?...
— Tamíride, o Cristo é o Messias!
Sócrates e Platão, a meu ver, foram, na Grécia, os precursores de sua sagrada doutrina.
Os profetas, ao longo dos séculos, prepararam-Lhe o advento!
Paulo disse que João Batista, o qual muitos acreditavam ter sido a personificação do profeta Elias, O consagrou, em baptismo público, no Rio Jordão...
— Tecla, você delira!
Seu pai tem razão: você perdeu todo o senso!
Que sortilégio é esse que lançaram sobre você?!
O tal Paulo é um bruxo, homem extremamente perigoso, que precisa ser preso ou, então... morto!
— Como ousa falar assim de quem você não conhece?!
Tamíride, eu nunca fui tão feliz quanto sou agora, acredite!...
— Mas o preço de sua felicidade é a minha infelicidade - a minha e, particularmente, a de seu pai, que é um homem de bem, mas que, a partir de agora, será ridicularizado em Icónio, Listra, Derbe...
Volte para mim, Tecla! - insistiu o rapaz, tentando abraçá-la.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:55 am

— Não! - evitou-o Tecla com veemência.
Você encontrará alguém que o faça feliz...
Deixe-me, Tamíride!
Sempre fomos amigos, desde a nossa infância, e o que existe entre nós é uma amizade que, de minha parte, não gostaria que fosse desfeita.
— Não é possível!...
Seu pai tem razão:
iremos ao Procônsul.
Quem sabe, escutando-lhe a autoridade, você muda de ideia.
A epidemia "cristã" está se alastrando, pior do que a doença que acomete os imundos!
Alguém precisa fazer alguma coisa para impedir que toda a Judeia enlouqueça e que esse mal se alastre por toda a Galácia...
— Numa sociedade como a nossa, na qual a mulher não possui quase direito algum, claro que serei forçada pelo meu pai a comparecer perante o Procônsul, mas, ainda que ele me lance à prisão, ninguém poderá interferir em minhas convicções!
Mais importante que a realização da minha felicidade afectiva, quase sempre uma manifestação do egoísmo do homem e da mulher, é a minha realização espiritual!...
— Primeiro, você enfrenta a autoridade de seu pai e, agora, você enfrenta a mim?!
Eu não posso acreditar nisso!
Que direito você poderia pretender mais que o amor de um homem? - perguntou com ironia.
— 0 direito de amar a Deus, sem que ninguém venha dizer-me como devo amá-Lo ou ser amada por Ele! - rebateu Tecla com lógica insofismável.
Enquanto Tamíride se refazia da crescente surpresa que ia tomando conta de seu espírito, a jovem argumentou:
— Com todo o respeito aos nossos antepassados - sim, porque tanto eu quanto você temos o sangue de Abraão correndo nas veias! -, em todo o Livro Santo, praticamente, não temos a inclusão dos feitos de uma mulher, que, segundo penso, devem ter sido propositadamente delas afastados.
Todavia, para seu conhecimento, devo dizer-lhe que Rute, casando-se com Boaz, teve a Obede por filho, que foi o progenitor de Jessé, pai de Davi, nosso Rei.
Sobre Rute, que, igualmente, era profetisa, os registros nas Escrituras não excedem mais que algumas poucas páginas, e nós, mulheres, devemos considerar mesmo um milagre que não tenham sido completamente destruídas pelos homens!
— Você blasfema! - redarguiu Tamíride, retrocedendo.
— Aquele homem, Paulo, de fato, enfeitiçou-a, e você bem sabe o que se destina a quem é acusado de bruxaria...
— A fogueira?! Pois saiba que, depois que o Messias foi crucificado, ninguém que se disponha a lhe seguir os passos deve esperar melhor sorte!...
Sem dizer mais uma única palavra, Tamíride, atirando o camafeu de marfim a um dos cantos da biblioteca, foi ter com Mésimo, que não pudera deixar de ouvir todo o exaltado diálogo entre a sua filha e o ex-noivo.
— Eu não lhe disse, Tamíride?!
Tecla parece ter enlouquecido - procurou justificar-se.
Marcarei audiência com o Procônsul e, enquanto isto, ela ficará presa dentro de casa.
Não permitirei que entre em contacto com ninguém, nem mesmo com Teóclia!
Durante todo o tempo em que Tecla permaneceu reclusa, apenas as duas servas tessálias, que também, em segredo, haviam se convertido ao Cristianismo, mantinham contacto com ela e a punham a par dos acontecimentos envolvendo Paulo e Barnabé.
Foram elas que a ensinaram a fazer o sinal da cruz, com que, então, os cristãos começavam a enfrentar os seus mais rudes testemunhos, os quais, dali para frente, haveriam de lhes custar supremas humilhações, quando não a própria vida.
Enquanto a futura mártir de Icónio, na solidão de seu cárcere doméstico, aprendia a se entregar à oração, Paulo, estando na casa de Onesíforo, fora preso e, na prisão, submetido aos trinta e nove açoites.
Durante os cinco dias em que esteve detido, ele passou por toda espécie de privação, e todas as tentativas dos amigos em libertá-lo haviam sido infrutíferas.
As acusações que pesavam sobre ele eram inúmeras:
sedutor, desagregador da família, revolucionário e feiticeiro, entre tantas outras, e, para qualquer hora, esperava-se que, condenado à morte, fosse apedrejado em praça pública.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:55 am

8 - Paulo em Listra
Diante das dificuldades surgidas em Icónio, Paulo, ao deixar a prisão, tendo as mãos inchadas e o rosto marcado pelos maus-tratos recebidos - a sentença dos trinta e nove açoites objectivava curar o homem de suas consideradas trinta e nove doenças, devolvendo-lhe, inclusive, a integridade psíquica - em conversa com Barnabé e Onesíforo, chegou à conclusão que na cidade não havia mais clima para eles.
— Precisamos partir - considerou o Apóstolo, um tanto entristecido com os acontecimentos.
Todavia, não recuaremos.
A igreja está fundada em casa de Onesíforo, e, de certa maneira, a nossa tarefa está cumprida em Icónio.
— Que farão?! - indagou Onesíforo.
Voltarão para Antioquia?!...
— Não! - respondeu Paulo.
Já visitamos Antioquia.
Se Barnabé concordar, seguiremos adiante...
Ainda não estamos de todo exauridos.
Estou pensando em irmos para Licaónia.
— Bem pensado! - concordou Onesíforo de pronto.
Em Listra, tenho uma irmã viúva, Loide, que mora com a sua filha Eunice, além de Timóteo, meu sobrinho.
Tenho absoluta certeza de que vocês serão muito bem recebidos e, durante algum tempo, terão onde ficar.
A cidade é muito pobre, mas Loide, que era casada com um grego abastado, dispõe de recursos para recebê-los.
Posso lhes dar uma carta de recomendação.
E, se me fizerem um favor, gostaria de que Alexandre, meu filho, conhecesse o primo Timóteo.
— Então, está decidido - deliberou Paulo.
Amanhã mesmo, partiremos para Listra.
— Vocês poderiam, pelo menos, descansar por mais um dia ou dois...
— Melhor não! - redarguiu o incansável Apóstolo.
Já lhe causamos aborrecimentos demais!
Depois, não sabemos como a cidade reagirá, porque os boatos que se estão espalhando a nosso respeito...
— Você tem razão - concordou Onesíforo.
Nossos adversários gratuitos estão dizendo que você enfeitiçou a filha de Mésimo e Teóclia, uma bela jovem de nome Tecla.
— Sinceramente, sequer a conheço.
— Sim, mas, às escondidas do pai, ela compareceu a uma de suas pregações e, ouvindo-o, tornou-se cristã. Trata-se de uma jovem inteligente e culta, com a qual, certa vez, tive oportunidade de conversar rapidamente.
Ela é muito instruída nos ensinos dos filósofos gregos, admirando profundamente o pensamento de Sócrates e Platão.
— Um dia - tornou Paulo - ainda pretendo ir à Grécia!
— Mas não agora! - aparteou-o Barnabé.
Você está muito desgastado e, numa viagem como essa, por mais que eu quisesse, não disporia de saúde para acompanhá-lo.
Partindo em companhia de Alexandre, o filho de Onesíforo, espírito extremamente maduro para a sua pouca idade, Paulo e Barnabé empreenderam viagem, logo de manhã.
Quando a cidade acordasse, eles não mais estariam lá, e, assim, os ânimos, que contra eles haviam sido acirrados, se acalmariam.
A determinada altura da viagem de pouco mais de trinta quilómetros, realizada por terreno árido e acidentado, sem um único poço d'água onde pudessem lavar o rosto empoeirado, ambos os viandantes se depararam com os cadáveres de dois homens sendo devorados por aves de rapina e por três cães.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:55 am

Aproximando-se, embora estivesse de rosto quase completamente desfigurado, Paulo comentou:
— Não me parecem estranhos...
Tenho a impressão de que já os vi!...
Eram Saul e Agripino, os dois homens que haviam sido contratados para matá-los!
— Certamente - falou Barnabé -, foram pegos pelos salteadores que vivem atacando a quem passa por estes caminhos...
Eles estão despidos - devem ter-lhes roubado as vestes e, possivelmente, dinheiro.
E abaixando-se, apanhou uma moeda que quase desaparecera em meio ao pó da estrada.
— Veja! Devem ter deixado cair esta...
— Que faremos?! - perguntou Paulo.
Não podemos deixá-los insepultos.
Pelo menos, cavemos uma vala rasa, para que não fiquem assim expostos, pois, afinal, sejam quem forem são nossos irmãos em Cristo!
Auxiliados pelo pequeno Alexandre, Paulo e Barnabé começaram a cavar com as próprias mãos, praticamente removendo a grande quantidade de areia que o vento trazia de lugares ainda mais áridos para sobre a estrada.
Numa única vala, os dois cadáveres foram acomodados.
Após dar-lhes sepultura digna, Barnabé pronunciou breve oração, pedindo a Deus que lhes amparasse os espíritos, que, com certeza, estariam a vagar nas imediações.
— Quem sabe qual seria a intenção destes dois, não?! - inquiriu Paulo, enquanto retomavam a jornada.
Talvez até pudessem estar à nossa espera...
Listra, que era praticamente uma aldeia, ficava numa saliência no vale que se formara entre duas montanhas maiores.
Ainda faltavam uns quinze quilómetros de percurso, e, tendo o intuito de alcançá-la antes que escurecesse, os dois Apóstolos, sempre seguidos por Alexandre, imprimiram um pouco mais de rapidez à caminhada.
Admirado da resistência do menino, Paulo perguntou-lhe:
— Você não se cansa, bravo garoto?!...
— As minhas pernas doem um pouco, mas meu pai recomendou que eu não os atrapalhasse - respondeu com vivacidade.
— Sou novo e ainda tenho muito que caminhar neste mundo afora!...
Impressionado com a decidida resposta, Paulo, que, até então, não conversara com Alexandre, resolveu cumprir o resto da viagem dialogando com ele.
— O que você acha do Cristo?! - inquiriu o Apóstolo, agora interessado na palavra do garoto.
— Ele é nosso Redentor! - disse com voz firme.
As histórias que o papai nos conta a respeito Dele são maravilhosas!
Se não fosse um homem de Deus, Ele não teria feito o que fez e, mesmo depois de morto, continua fazendo!...
— Você vai gostar muito de Timóteo, seu primo - ponderou Barnabé.
Ele é só um pouco mais velho que você...
Pelas minhas contas, deve estar com pouco mais de treze de idade.
Mas você, Alexandre, embora mais novo, talvez tenha a mesma altura dele.
— Tenho certeza de que sim - respondeu o menino, sem dúvida, um daqueles espíritos que tinham nascido para secundarem a tarefa da implantação do Evangelho na Terra.
— Quando eu era menor, a tia Loide esteve em nossa casa, e me falou de Timóteo.
Desde então, fiquei com muita vontade de conhecê-lo.
— Você costuma brincar com os seus amigos em Icónio?! - indagou Paulo.
— Às vezes - disse.
Mas, desde que papai se tornou cristão, os pais dos outros meninos não gostam de que eles brinquem comigo.
O papai me disse que, um dia, eles entenderão a Mensagem do Cristo, que, sobretudo, é de amor aos semelhantes.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 24, 2018 8:55 am

Por este motivo, eu não me aborreci com eles...
Paulo trocou significativo olhar com Barnabé e, avistando as primeiras casas de Listra, exclamou:
— Estamos chegando!
Não tiveram eles que andar muito mais para chegarem à moradia de Loide e Eunice, pois, pedindo informações a um homem que conduzia pequeno rebanho de cabras, souberam que a residência delas ficava bem no centro da aldeia, cercada por pequeno pomar de figos e romãs, tendo algumas roseiras plantadas à frente.
Loide estava justamente terminando de regar algumas roseiras, quando avistou os dois homens que se aproximavam com o menino, a quem, de pronto, reconheceu.
— Alexandre, filho de Onesíforo!
E você mesmo?! - perguntou a venerável senhora, aproximando-se com alegria.
Que foi que houve?!
Onesíforo está bem?!
Sua mãe está bem de saúde?!...
Sem que Alexandre tivesse tempo de responder, Loide o abraçou demoradamente, depositando diversos ósculos nos cabelos negros e encaracolados do menino.
— Quem são os seus dois senhores companheiros de viagem?! - inquiriu em seguida.
— Paulo e Barnabé, amigos do papai - esclareceu.
Eles estavam connosco em nossa casa.
O papai escreveu à senhora uma carta de recomendação.
— Se são amigos de seu pai, não precisam de recomendação escrita.
Vamos, entrem! Eunice está preparando o jantar, e o seu primo Timóteo está com ela.
Vocês devem estar com fome, não?!
— Com fome e sede, senhora! - atalhou-a Barnabé.
— A água do poço de Listra é muito boa! - E gracejou:
— Pelo menos isto a nossa aldeia possui: água pura e cristalina!
Venham, venham! Vamos entrar!
Ainda ontem, enquanto orávamos, Eunice e eu pensamos na família de meu irmão, em Icónio.
Parecia que pressentíamos a chegada de vocês...
Conduzindo os hóspedes para dentro da agradável vivenda, que herdara do esposo, a anfitriã fez com que se acomodassem nos bancos de madeira espalhados na sala e na cozinha, que, praticamente, se comunicavam.
— Eunice e Timóteo - disse ela, apontando para Alexandre -, adivinhem quem é este garoto?!
Você o reconhece, minha filha?!
Ele é o filho mais velho de seus tios - filho de Onesíforo e Ester!
Timóteo, este é o seu primo Alexandre.
Abrace-o!...
Diante da felicidade de todos, os dois meninos, futuros Apóstolos do Evangelho, se abraçaram com enternecimento, como se, mais que primos, fossem o que verdadeiramente eram:
espíritos afins que tinham reencarnado com o mesmo propósito de servir a Jesus!
Após terem lavado o rosto e as mãos, bem como saciado a sede, os três, agora em volta de pequena mesa, foram servidos com o jantar.
— Não reparem - solicitou Eunice -, pois aqui não temos o hábito de comer carne...
Timóteo não deixa que compremos carne de nenhum animal!
A nossa alimentação é muito simples...
Às vezes, mamãe e eu, sem ele perceber, comemos algum peixe que compramos de comerciantes que percorrem muitas milhas para pescá-los.
— Eu também - respondeu Paulo - desde que conheci a Jesus Cristo, não quis mais ingerir qualquer tipo de carne, nem mesmo peixe!
Portanto, Eunice, não se preocupe.
E, depois, a sua mesa está farta:
figos, romãs, mel, pão, azeite, sopa de repolho...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:54 am

Para que mais?!
Isto é um verdadeiro banquete!
Timóteo, extremamente educado, fez questão de servir o primo, ao lado quem se sentara em dois bancos colocados próximos à porta de entrada de casa.
Lá fora, as estrelas já tremeluziam no firmamento, e, enquanto os adultos conversavam à mesa, eles se entendiam em sua linguagem adolescente.
— Alexandre - dizia-lhe Timóteo -, que bom você ter vindo me visitar, pois eu quase não tenho amigos!
Aqui, em Listra, os meninos da minha idade costumam se divertir atirando pedras em pássaros, correndo atrás de lagartos para pisá-los ou pregando peças nas pessoas mais idosas...
— Eu também quase não tenho amigos - retrucou o filho de Onesíforo.
Desde que papai se tornou cristão...
— Cristão?! Que significa isto?!
Que é ser cristão?! - perguntou Timóteo, interessado.
— Paulo e Barnabé também são cristãos!
Creio que, depois do jantar, eles falarão a respeito de Jesus Cristo para nós...
— Jesus Cristo?!
— Então, primo, você não sabe que nosso Messias já veio?!
A doutrina Dele está se espalhando por toda parte, mas todos os que tomam a decisão de segui-la têm sido perseguidos...
Paulo e Barnabé tiveram que fugir de Icónio, porquanto queriam matá-los!
— Jesus!... Jesus!... - exclamara ainda Timóteo.
Este nome não me soa estranho ao espírito...
Engraçado, não?!
Quando você o pronunciou, senti uma alegria diferente em meu coração...
— Timóteo! Alexandre!
Venham, meus filhos! - chamara Loide os dois futuros Apóstolos do Evangelho nascente.
Vamos orar!...
Naquela casa, todas as noites, logo após o jantar, tinha-se o hábito de tomar as anotações em torno das Leis de Moisés e os ensinamentos dos Profetas, para lê-los e meditá-los.
Era o culto da fé, praticado na intimidade das famílias, desde quando, durante quatro décadas, o povo judeu peregrinara no deserto.
Loide e Eunice, com o intuito de incentivar Timóteo à leitura e ao respeito aos textos sagrados, sempre pediam que fosse ele a ler o pequeno trecho escolhido para a noite.
Certamente, por intercessão do Alto, justamente naquela primeira noite em que eles estavam orando todos juntos, Timóteo leu significativas anotações extraídas dos Salmos:
"Cães me cercam; uma súcia de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés.
Posso contar todos os meus ossos; eles me estão olhando e encarando em mim.
Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes"!
Paulo e Barnabé se entreolharam, quando, como era de praxe, ao receberem visitas que participavam da oração, a anfitriã convidou os hóspedes, amigos de Onesíforo, a lhes comentarem as palavras lidas naquela noite de bênçãos, em que o firmamento estrelado parecia ter jogado seu luminoso manto sobre aquela casa.
— Esses três salmos - começou Paulo a sua primeira pregação em Listra - resumem, de maneira surpreendente, o que aconteceu ao Cristo, o enviado de Deus aos homens - o Messias que, ansiosamente, esperamos por séculos!
E, passando a falar, detidamente, sobre as profecias que anunciavam o advento de Jesus entre os homens, até à vinda de João Batista, o Precursor, considerou:
— Ele foi traído, vendido por algumas moedas, preso de maneira sumária e julgado sem direito a defesa alguma.
Durante três anos, o Sinédrio tramou a sua perda, e Ele, praticamente sozinho, continuava acendendo luz na escuridão...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:54 am

Recomendou que déssemos a César o que é de César, mas que, por igual, entregássemos a Deus o que a Deus pertence.
Por apenas ter feito o bem, fui perseguido como jamais nenhum malfeitor contumaz o houvera sido...
O povo, sob escusa coordenação dos doutores da lei, que sempre viveram de benesses ilícitas, foi utilizado como instrumento de sua condenação - sobre Ele, nem mesmo Pôncio Pilatos encontrou qualquer culpa!
Moisés nos libertou do jugo da escravidão que, durante mais de quatrocentos anos amargamos no Egipto, mas o Cristo veio para libertar o homem de milenária escravidão em si mesmo!...
Loide, Eunice e Timóteo, magnetizados pela palavra fácil de Paulo, tudo compreenderam num átimo, porque a verdade é que a gleba de seus espíritos estava lavrada para a semeadura.
Assim, a primeira assembleia cristã em Listra foi fundada.
Ao término de suas considerações, a dona da casa informou aos dois companheiros que a cidade não possuía sinagoga, mas que seria interessante que, durante algum tempo, eles ali permanecessem.
— Vocês poderão pregar na praça do mercado - considerou.
Improvisaremos uma tribuna, da qual poderão falar ao povo, que é de todas as procedências.
Temos poucas famílias judias aqui, mas, infelizmente, convivemos com todo tipo de superstição, com muitos oferecendo sacrifícios sangrentos aos deuses.
— Vivemos - informou Eunice - em meio a intenso primitivismo, inclusive no que tange aos costumes sociais.
Isto tudo vem entravando o crescimento da cidade, porque várias famílias têm-se afastado de Listra.
Nós mesmas já consideramos a possibilidade de nos mudarmos para Icónio, a fim de, na companhia de Timóteo, ficarmos mais próximas de meu tio.
— Compreendo - respondeu Paulo - mas agora percebo que o Senhor as manteve aqui para esta hora, porque o Seu Evangelho não pertence apenas aos descendentes de Abraão.
— Vocês não se preocupem connosco - informou Barnabé.
— Trabalharemos, para não lhes sermos pesados.
Por onde passamos, é assim que procedemos, mesmo porque precisamos enviar recursos a Jerusalém, onde nossos irmãos vivem sobrecarregados no socorro a dezenas de desvalidos.
— Em absoluto, vocês não nos serão pesados! - exclamou Loide.
Temos alimento suficiente para nós...
— Eu trabalharei na horta com Timóteo - disse Alexandre, comovendo a todos.
E poderemos ir ao mercado para vendermos o que a horta produz!
Você concorda, Timóteo?! - perguntou o garoto, que se revelava portador de sentimentos tão nobres quanto aqueles que, em Timóteo, impressionara Paulo.
— Sim - respondeu o filho de Eunice - e também poderemos falar de Jesus aos meninos que já perderam todo o respeito aos deuses de seus pais.
Assim, em Listra, naquela casa abençoada, fora fundada a primeira assembleia cristã, que, ao longo do tempo, seria valioso ponto de referência para a Boa Nova.
No outro dia, de manhã, Paulo e Barnabé, por diminuto salário, conseguiram se empregar numa das tendas da cidade, revitalizando a sua confecção de tapetes, pois ambos eram exímios tecelões.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:54 am

9 - Diante do Procônsul
Enquanto os Apóstolos lutavam em Jerusalém, Paulo e Barnabé, em Listra, Tecla, em Icónio, dava início ao seu calvário.
Mésimo, com receio de que fosse denunciado ao Procônsul como adepto da doutrina do Nazareno, não hesitou em fazer com que a própria filha comparecesse diante dele, no que foi acompanhado por Tamíride, que se sentira humilhado com o rompimento do noivado.
Tudo isso fez com que Teóclia, vítima de mal súbito, se recolhesse ao leito, do qual não mais se levantaria.
Acometida por um problema cerebral, a pobre senhora, durante alguns meses, permaneceria hemiplégica e sem poder falar, para, em seguida, deixar o corpo.
Os adversários do Cristo, embora ainda não se sentissem acobertados pela lei, que, mais tarde, passaria a considerar o facto de ser cristão como crime, entre as matronas e autoridades das cidades, mobilizavam influências que, quase em toda parte, provocavam focos de perseguição contra os seguidores do "Caminho".
Depois da passagem de Paulo e Barnabé por Icónio, a cidade nunca mais voltaria a ser mesma, de vez que, em quase todas as rodas, não se conversava outra coisa, e o interesse pela Boa Nova havia sido definitivamente despertado.
Os judeus, notadamente os mais ortodoxos, que, por sinal, eram os mais situados socialmente, não concordavam, em absoluto, com aquele Homem que ousara desafiá-los como sendo o Messias - aquele Homem que, inclusive, chegara a pregar o amor aos próprios inimigos e não perdera ocasião de combatê-los em seu fanatismo dogmático.
Comparecendo diante do Procônsul, praticamente escoltada por Mésimo e Tamíride, como se fosse uma prisioneira, Tecla, intimamente, orava, pedindo forças para não fraquejar no interrogatório a que seria submetida.
— Senhor - explicou-se Mésimo, diante da autoridade -, nas últimas semanas, depois de terem sido enxotados de Antioquia, chegaram a Icónio dois forasteiros que, com os seus estranhos sortilégios, passaram a insuflar o povo contra a relativa paz em que vivíamos...
Infelizmente, eles enfeitiçaram esta minha filha, que, praticamente de casamento marcado com Tamíride, honrado filho de nobre família, rompeu com o compromisso e, infelizmente, agora está se dizendo seguidora daquele malfeitor condenado à morte na cruz.
Fez uma pausa e, diante do Procônsul, que, com uma taça de vinho na mão, parecia insensível àquela questão, prosseguiu:
— Trouxe-a aqui, na esperança de que o senhor nos auxilie a reverter esta desagradável situação, pela qual a minha pobre esposa, Teóclia, já começou a sofrer, pois, diante dos conflitos inesperados, ela caiu enferma de uma hora para outra, dando-nos a impressão de que não se recuperará.
Sinceramente, eu não sei por que motivo os romanos nos deixaram sozinhos com tal aproveitador, cuja doutrina, através de uma cadeia de mentiras, vem se propagando.
Senhor Procônsul, imagine que estão a dizer haver ele chegado a ressuscitar pessoas mortas e, como se isso não bastasse, que, ao terceiro dia de sua crucificação, ele próprio se levantou do túmulo e anda aparecendo às pessoas!
O homem que enfeitiçou minha filha, por nome Paulo de Tarso, tem espalhado a notícia de que ele mesmo viu a Jesus, o qual, segundo informações, era filho de um carpinteiro de Nazaré...
— Não se estenda em demasia - ordenou o Procônsul, esvaziando a sua taça de vinho.
Que é que você, Mésimo, deseja que eu faça?!
Talvez a sua filha nunca tenha amado este jovem - disse, apontando para Tamíride.
Dificilmente, uma mulher leva em consideração o sentimento de um homem...
É possível que ela se tenha apaixonado por outro!
Quem sabe até mesmo por aquele homem, que, com certeza, deve ser muito mais velho do que ela...
Foi quando Tecla, que, até então, tudo ouvia em silêncio, levantou a fronte e disse com coragem:
— Não, Senhor Procônsul, eu não me apaixonei por outro homem!
Muito menos por Paulo de Tarso, que, de facto, tem idade para ser meu pai.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:55 am

Isso não é verdade!
Trata-se de um boato que espalharam para justificar a perseguição gratuita que, em Icónio, foi movida contra ele e seu amigo, vindos de Antioquia para nos ensinarem o caminho de nossa redenção espiritual!
— Ora, ora! - replicou o Procônsul, com ironia.
Que jovem voluntariosa!
Quem lhe deu permissão para falar nesta assembleia, minha menina?!
Porventura, a doutrina do Nazareno colocou em seu corpo de mulher o espírito de um homem?!...
Percebendo que Tecla, em sinal de respeito à sua autoridade, voltara a inclinar a fronte, o Procônsul redarguiu:
— Agora, você tem permissão para me responder...
Diga-me:
é verdade que você se tornou adepta de tal seita, aliás, uma das inúmeras que os judeus têm sido pródigos em suscitar?!
Parece-me que eles não se ocupam de outra coisa, a não ser com esse Deus que, em verdade, ao que sei, nunca fez nada por nenhum deles...
Não fosse por Roma, todos estariam a morrer de fome!...
— Com todo o respeito, Senhor Procônsul - atalhou Mésimo -, somando-se a todos os absurdos que contam a respeito desse tal Cristo, dizem que ele multiplicou pães e peixes...
— Delírio! Ignorância! - retrucou o servidor de Roma, com um gesto de fastio.
Quem é que pode acreditar numa coisas dessas:
multiplicar pães e peixes!
Chego à conclusão de que os judeus e todos os demais seguidores desse embusteiro, que, a bom tempo, Pôncio Pilatos condenou, estão tendo o que merecem!
Deixaram que ele fosse longe demais...
Todavia - insistiu -, responda-me, menina!
Você abandonou os deuses por certo mendigo que vivia se banqueteando de casa em casa, sem nunca se preocupar em ganhar o sustento com o suor do próprio rosto?!
— É verdade, senhor! - respondeu Tecla com voz firme.
— Como Sócrates e Platão, eu também admito a existência de um único Deus!
O Cristo no-Lo apresentou como Pai, mas não foi o primeiro a falar a respeito Dele!
Antes que admitíssemos a existência do Olimpo, nós próprios não começamos a adorar como deuses aos próprios animais?!
— Sim, mas isso...
— Com sua permissão, senhor - atalhou a jovem -, os próprios judeus, antes de adorarem um único deus, aceitavam a existência de vários outros...
Em todas as culturas, sempre foi assim - no Egipto e na índia!
Tudo, porém, evolui...
Se as nossas leis e costumes evoluem, por que não haveriam de evoluir as nossas crenças?!...
— Mésimo - repreendeu o Procônsul -, eu acabo de descobrir o seu mal: você deu livros demais à sua filha!
Pelo que vejo, o culpado foi você mesmo, que permitiu o espírito se envenenar com essas tolices...
As mulheres não foram criadas para a literatura - elas foram postas por Júpiter neste mundo, com a finalidade de servirem ao homem!...
— Todavia, entre os próprios deuses do Olimpo, há lugar para a mulher - replicou Tecla.
Hera, Atena, Deméter, Artemis, Afrodite, Vesta...
— E entre os seguidores da filosofia do Nazareno?!
Qual seria o papel da mulher?! - inquiriu o Procônsul interessado.
— É o mesmo papel que cabe ao homem! - respondeu Tecla.
Ele tomou, publicamente, a defesa de uma considerada adúltera, que estava pronta para ser apedrejada!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:55 am

Para protegê-la, não hesitou uma vez mais em se confrontar com os escribas e fariseus...
— Ao que vejo, a doutrina desse homem representa um grande perigo para o Estado!
Farei com que esta nossa entrevista chegue ao Imperador, em Roma.
No entanto, levando em consideração a sua pouca idade, eu, que também sou pai, darei a você a oportunidade de abjurar...
Abjure, diante de mim e de seu pai!
Volte para o seu noivo!
Então, esqueceremos tudo!...
— Eu não posso, senhor, porque teria que conviver com o remorso pelo resto da minha vida!
Com todo o respeito a meu pai e com todo o amor que devoto à minha mãe, a abjurar, eu prefiro a morte, porque cada um de nós vive com a sua própria consciência, e, caso traísse a minha fé, eu não mais conseguiria viver!
— Temo, então, que seja o que você virá a encontrar! - exclamou o Procônsul.
A sua influência pode se espalhar...
Você é perigosa!
De facto, aquele homem chamado Paulo a hipnotizou!
Talvez, alguns dias na prisão...
— Paulo se diz prisioneiro de Cristo, e, semelhante a ele, eu me encontro de coração algemado ao meu Salvador!
— Salvador?!... - tornou a ironizar o servo de Roma.
Um salvador que não conseguiu salvar a si mesmo?!
Estou perdendo o meu tempo...
Nem eu mesmo acredito que esteja aqui a ouvir uma criança falando bobagens que parecem não ter fim!
Emana de você certo poder maligno que envolve a gente...
Eu estou sentindo isso!...
— É o mesmo poder - atestou Mésimo - que deve emanar daquele filho ingrato de Tarso, que expôs os pais ao ridículo!
Com todo o respeito, senhor, isso é uma espécie de doença contagiosa...
Eu não estou mais reconhecendo nela a minha filha!...
— E nem eu, a minha noiva! - endossou Tamíride que, de repente, se viu tomado por grande aversão em relação a Tecla.
Peço-lhe permissão para me retirar porque, agora, sou eu que nunca mais quero ouvir falar nesta jovem que, um dia, imaginei pudesse vir a ser boa mãe para a minha prole.
— Permissão concedida! - disse o Procônsul agastado.
Justo considerarmos que, naquela hora de seu primeiro testemunho de fé, Tecla não estava sozinha, pois que o espírito de Abigail a sustentava.
Não obstante, por outro lado, as falanges das sombras não se encontravam inoperantes e lhes era extremamente fácil influenciar os opositores encarnados da Boa Nova.
Não podendo deter o Cristo em sua trajectória de luz, logo após o episódio do Calvário, os elementos das sombras se reorganizaram e, então, passaram a exercer tremenda pressão psíquica sobre os que lhes poderiam servir de instrumento no combate às ideias que o Senhor espalhara entre os homens, ideias que, semelhantes a prodigiosas sementes, insistiam em continuar germinando e produzindo frutos sazonados.
Na grande maioria das vezes, pois, quase todos os opositores do Cristianismo nascente, mormente aqueles que recorriam à violência para eliminar os seus adeptos, agiam como médiuns das forças do mal, as quais, sem eles perceberem, lhes possuíam o espírito.
Àquela época, sem exagero, podemos afirmar que, em geral, os espíritos viviam como comensais dos homens encarnados, em estreita simbiose que chegava a lhes garantir a vitalidade física.
O Cristo viera promover definitiva cisão entre os psiquismos, fazendo com que o Mundo Espiritual inferior se destacasse do Mundo Material.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:55 am

Tanto foi assim que, apenas ao lhe pressentir a Divina Presença, os próprios espíritos se revelavam por si mesmos, como no célebre episódio do possesso de Gadara.
Quando Tamíride se retirou, lançando um olhar de desprezo na direcção de Tecla, o Procônsul voltou ao diálogo prestes a se encerrar.
— Desconhece você, minha jovem, o seu dever em me obedecer as determinações?!
No intuito de manter a ordem nesta desprezível cidade, erguida nestes confins da Terra, que me dá a impressão de ter sido assolada por algum demónio, possuo autoridade a mim concedida para fazer e desfazer...
Obedecer-me-á?!
— Eu não poderia desobedecer a Deus para obedecer a um homem! - respondeu a jovem que, recém-convertida, já era atirada às feras humanas.
— Além do cárcere, onde você será encerrada, convém que não se esqueça do suplício das rodas e da fogueira...
Se, diante desses tormentos, sem contar que ficará à mercê dos carcereiros que, cá entre nós, não são nada generosos com donzelas - e sorriu ele com extremado deboche de homem vulgar...
Se diante desses tormentos - repetiu -, quase todos os homens, por mais fortes e corajosos, capitulam, quanto mais você, frágil e teimosa menina!
Nem mesmo os espíritos malignos que a possuem se animarão a continuar lhe possuindo o corpo...
Neste instante, como se estivesse a despertar de um pesadelo, Mésirno, ante a iminência de tudo perder, a esposa e a única filha, quis voltar atrás, rogando clemência para Tecla, mas o Procônsul lhe disse:
— Tarde demais!...
— Senhor, mas não era o que eu pretendia...
Afinal, ela é a minha única filha, e a mãe dela, a minha pobre Teóclia, se encontra à beira da morte!
Por piedade, não a envie ao cárcere!
Sou um homem de posses e... - insinuou que poderia presentear aquele que, indicado por Roma, ali exercia as funções de autoridade suprema.
O Procônsul gargalhou, mostrando os dentes escurecidos pelo excesso de vinho.
— Eu confiscarei tudo o que você tem!
Você, Mésimo, é um traidor do Estado!...
E, assim dizendo, ordenou:
— Guardas, prendam esta possessa e coloquem este homem para fora!...
— Meu pai! - exclamou Tecla, tentando confortar o progenitor, que, agindo por impulso e por certo ódio que lhe fora inoculado contra o Cristo pelos espíritos das Sombras, praticamente destruíra sua família.
Não demorou Teóclia a sucumbir ao insulto cerebral que a acometera; quanto a Mésimo, sentindo-se irremediavelmente envergonhado de sua situação de penúria, tomando rumo ignorado, fugiu de Icónio.
À ordem do Procônsul, os litores, avançando, conduziram Tecla para aquele verdadeiro sepulcro que era o cárcere de Icónio.
Os soldados, habitualmente desumanos, diante daquela jovem de porte altivo, moralmente intocada, não se animaram a lhe dirigir um gracejo ofensivo que fosse.
Olhavam-na como se estivessem a escoltar um anjo para o recinto fétido da prisão, onde alguns homens e mulheres apodreciam vivos!
Muitos deles exibiam feridas nas pernas, cheias de vermes, e dormiam em meio aos próprios dejectos naquele chão húmido, no recinto estreito das celas escuras.
De quando em quando, um deles deixava escapar um lamento em tonalidade lúgubre que Tecla jamais tivera oportunidade de escutar escapar da boca de um ser humano!
Um daqueles prisioneiros, observando a movimentação próxima, aproximou-se das grades e implorou de joelhos a um dos soldados:
— Por piedade, vare-me com sua espada!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:55 am

Por piedade, ponha fim ao meu sofrimento!
A morte, por mais dolorosa, não pode ser pior do que isto aqui...
Vare-me com sua espada, e bendirei seu nome aos deuses!...
Uma mulher, que tivera as mãos queimadas, arrastando-se naquele chão imundo, falou com dificuldade:
— Por ter roubado um pão, estou aqui há mais de ano...
Ah, como os deuses são implacáveis!
Nem mesmo água temos para beber aqui...
Por caridade, água!
Um pouco d'água! - implorava.
Eu, que já morria de fome, não quero vir a morrer de sede...
Pelo respeito que, naturalmente, o espírito da jovem Tecla lhes impunha, os soldados, sempre tão implacáveis com os prisioneiros, nada responderam.
Abriram uma daquelas celas subterrâneas e, deixando-a na companhia de magérrimo ancião, estirado sobre um monte de palhas, entregaram-lhe uma cuia com água e um pedaço de pão escuro.
Pela constante falta de luminosidade, o ancião não conseguiu divisar o vulto de Tecla e, com voz enfraquecida, perguntou:
— Quem é o infeliz que veio se juntar a mim?!
Seja quem for, perca as esperanças de, um dia, abandonar este "Hades"...
Sem, inicialmente, dizer palavra, a jovem se aproximou e se penalizou do estado deplorável daquele homem, que, praticamente, era só pele e osso.
— Meu senhor - falou, depois de intervalo silencioso, mais ou menos longo - eu sou Tecla...
Estou aqui por ser cristã!
Se eu não abjurar, o Procônsul decidirá condenar-me à morte!
— Cristã?! Você, então, é seguidora do Nazareno?!
Ah, eu o conheci! - disse, começando a chorar.
Eu fui um dos leprosos que ele limpou...
Éramos dez e a todos ele nos curou!
Infelizmente, ao que sei, muitos de nós, depois de nos mostrarmos ao sacerdote, sequer nos lembramos de voltar para agradecer a ele...
Livre da doença, eu voltei à minha antiga vida de desregramentos.
Ah, como me arrependo!...
— Então, o senhor o conheceu?! - perguntou Tecla, abaixando-se.
— Sim, mas só estive com ele uma única vez!
Soube que o crucificaram...
Isso é o que mais pesa em minha consciência, pois não fui capaz de me apresentar para defendê-lo das acusações que o condenaram.
Eu estava morto e, apenas com um toque, ele me ressuscitou - de repente, todas aquelas chagas pustulentas desapareceram de meu corpo...
Então, pensei:
Quero aproveitar da vida tudo que eu ainda não aproveitei!
Saí pelas tabernas a beber e - desculpe-me - a me divertir, em uma única noite, com quantas mulheres um pudesse...
— O senhor pode me dizer como ele era?! - indagou a jovem com compreensível curiosidade.
— Uma figura incomum entre os judeus - respondeu.
— Olhos penetrantes e um tanto melancólicos, como se se penalizasse da condição humana.
Suas mãos pareciam feitas de veludo, e delas pareciam emanar eflúvios semelhantes aos raios do Sol.
Quando ele me tocou, senti que o sangue se acelerou em minhas veias...
Nunca senti tamanho bem-estar!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:55 am

10 - Condenada à Fogueira
O ancião prisioneiro começou a tossir, vertendo sangue pela boca.
Sem qualquer escrúpulo, Tecla, rasgou um pedaço do próprio vestido, com que passou a limpá-lo.
— Você deve ser um anjo...
Não é possível!
Um anjo que, talvez, ele mesmo, penalizado de minha alma, me tenha mandado para me ajudar a morrer!
— Tome um gole d'água - disse a jovem, auxiliando-o a erguer a cabeça.
Beba, pois há de fazer bem ao senhor!
— Há dias que eu nada como ou bebo, pois não mais tenho forças para me levantar...
Eles me isolaram aqui porque sabem que vou morrer e não querem que eu contamine os outros: eles devem morrer aos poucos!
De quando em quando, vêm buscar os mais fortes para os seus sangrentos espectáculos públicos, sendo que alguns são enviados para morrer em Roma, nos circos.
Apenas, não sei o motivo de a terem colocado na minha cela!
— Talvez seja - redarguiu Tecla -, porque eu vá morrer amanhã...
Todavia isto não importa!
Conte-me mais sobre a figura do Cristo...
— Ah!, infelizmente, eu pouco notei nele, pois, assim que, diante de meus olhos, aquelas horríveis chagas desapareceram, rodopiei nos calcanhares e nem sequer lhe beijei as mãos de benfeitor...
Conforme lhe disse, voltei para a minha vida de devassidão.
Sei apenas que ele me olhou como se, estando a me curar por fora, não pudesse me curar por dentro!
Compreendo hoje que, ante as doenças da alma, muitas vezes, a cura do corpo nada significa!
Voltara o ancião a tossir e a expelir grande quantidade de sangue pela boca.
Com bondade, Tecla ajeitou-se na laje ao seu lado, recostando-lhe a cabeça sobre o seu colo, manchando todo o vestido com a seiva da vida a extinguir-se.
— O senhor sabia que ele é a Luz do Mundo?! - perguntou-lhe a jovem, dando início, no cárcere, à sua primeira pregação sobre o Evangelho, que ela ainda mal conhecia.
O Cristo é a luz do Mundo!
Pude ouvir, dias atrás, dois de seus seguidores, Paulo e Barnabé, e me convenci de que ele é o Messias - um deus encarnado, maior que todos os deuses dos judeus e dos romanos!
— Eu creio! Eu creio! - exclamou o velho, que ardia em febre.
Como me arrependo de minha ingratidão!...
Eu era um imundo, que vivia sendo, inclusive, apedrejado pelas crianças!
Em meu corpo chagado, sequer restou uma cicatriz das feridas abertas pela lepra...
Fui abandonado pela minha família e pelos meus amigos!
Ele, porém, não teve asco de mim...
Aproximei-me, sequer me perguntou pelo nome e me impôs as mãos sobre a cabeça, pronunciando palavras que consegui entender.
Alguns de seus seguidores, como se, mais uma vez, quisessem pô-lo à prova, a tudo assistiam...
Nova golfada de sangue, sufocando o prisioneiro, cujas faces, a todo instante, Tecla limpava com pedaços que ia rasgando de seu vestido.
— Não fale mais! - solicitou ela.
Descanse...
— Não! Não! - retrucou com extrema ansiedade.
Eu preciso falar, eu preciso falar a respeito Dele...
Você tem razão, boa menina!
Homem algum pode fazer aquilo que ele fez comigo e homem algum poderia ter feito com ele o que eu fiz!
Que ele me perdoe!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:56 am

Você, que é um anjo, ore por mim, porque tenho receio de que esta febre seja para mim o prenúncio do Inferno...
Nada mais o leproso que fora curado por Jesus conseguiu dizer, pois, expelindo maior quantidade de sangue pela boca, acabou por se sufocar na própria coagulação, e cerrou os olhos em definitivo para as ilusões da vida física...
— Senhor - orou Tecla, deixando escapar uma lágrima -, tenha compaixão de nossas misérias e receba em Seu Reino este pobre irmão, cujo nome eu sequer pude saber, mas, com certeza, o Senhor bem sabe de quem se trata...
Sem a menor vontade de alimentar-se, a jovem não tocou no pão que era o único alimento fornecido aos encarcerados, em maioria, ali sentenciados à morte.
Os prisioneiros das celas mais próximas, tendo ouvido parte da conversa de Tecla com o ancião, tocados pela coragem e generosidade daquela menina, pediram-lhe:
— Fale-nos desse seu Cristo...
Quem é ou foi ele?!
Ouvimos falar de um crucificado entre dois ladrões; temos notícias do que está acontecendo em Jerusalém, todavia nada mais sabemos a respeito dele...
Levantando-se com o vestido manchado de sangue, a passos leves, a jovem se aproximou das grades da cela e, ali, às vésperas de seu suplício na fogueira, começou sob a inspiração do espírito de Abigail, a pregar.
— Eu ainda não tive tempo de estudar sua doutrina, mas já ouvi o suficiente para saber que ele é a única esperança que nos resta neste mundo!
Paulo, que pôde vê-lo redivivo no deserto, aonde vai, tem falado a respeito de seus feitos extraordinários.
O próprio antigo Saulo, antes orgulhoso doutor da lei, se converteu à sua Mensagem e, não sei como, adquiriu parte do seu poder, pois, em Icónio, eu mesmo o vi ressuscitar uma criança que estava praticamente morta nos braços de sua mãe.
Ainda pude testemunhar o seu poder ao expelir demónios...
— Paulo enfrentou os demónios?! - inquiriu um dos prisioneiros.
— Sim, e, pronunciando o nome de Jesus Cristo, eles se lhe submeteram!
Os próprios demónios reconhecem a admitem a autoridade do Cristo.
Assim, se os homens o têm ignorado, os espíritos das Sombras sabem perfeitamente quem ele é!
— Então, é verdade que ele ressuscitou?! - perguntou uma mulher que, igualmente, estava condenada ao cárcere.
— Sim - respondeu Tecla com alegria.
E não somente Paulo pôde vê-lo...
O Pregador de Tarso nos contou que uma mulher, de nome Maria Madalena, também o viu e que, em seguida, conforme havia prometido, no terceiro dia de seu sepultamento, ele apareceu aos Apóstolos, na Galileia...
Em Jerusalém, as entranhas da Terra devem ter sido abertas, porque, em toda parte, os mortos têm se mostrado aos vivos...
Ao que compreendo, o Cristo está liderando uma revolução espiritual sem precedentes na história da Humanidade.
Nem Sócrates ou outro filósofo grego e nem mesmo um profeta judeu fez tanto quanto ele fez!...
— É verdade que, antes de morrer na cruz, ele perdoou aos seus algozes?! - inquiriu um prisioneiro mais jovem, com o corpo coberto de cicatrizes dos tormentos sofridos.
— Sim, é verdade - explanou Tecla.
Paulo disse que ele pediu a Deus perdoasse aos seus algozes, porque eles não sabiam o que estavam fazendo!
No coração dele, não havia lugar para ódio...
Paulo atestou que ele mesmo é a prova viva de sua infinita misericórdia, porque o referido rabino o estava perseguindo, quando ele lhe abriu os braços e acolheu o seu espírito prestes a se perder...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 25, 2018 9:56 am

— Ele dava de comer aos famintos?! - quis saber outro prisioneiro.
— Dava de comer e dava de beber, pensava-lhes as feridas e os tratava com imenso carinho.
Ao simplesmente ouvir o seu nome, vocês não sabem a felicidade que passei a experimentar em meu coração...
Por isso eu não sinto temor da fogueira, amanhã!...
— Você será condenada à fogueira?! - tornou o homem que falara por último.
— Ao que presumo, sim, pois, se o preço de minha liberdade for a de renunciar à minha fé no Cristo, não hesitarei em morrer!
O homem ou a mulher que não morre pelos seus ideais não tem motivos para continuar vivendo, pois a verdade é que, sem verdadeira fé em Deus, nossa vida carece de sentido!...
Um dos próprios carcereiros, o mais velho deles, ouvindo Tecla falar, havia se aproximado para mais bem escutar suas palavras.
Aquele homem alto e forte, com muitas marcas nos braços e uma grande cicatriz de corte no rosto, estava cansado da vida que levava.
Aposentara-se como gladiador, ganhara a liberdade, mas, não tendo para onde ir, aceitara o ofício de carcereiro, que cumpria a contragosto.
Ao vê-lo tão próximo, encostado a uma das paredes lúgubres da prisão, Tecla lançava o seu terno olhar para ele, que, cabisbaixo, permanecia imóvel e atento.
Naquela noite, ali, praticamente, ninguém dormira, pois a jovem condenada não se cansava de falar em Jesus àqueles corações tão sofridos - arrependidos uns, injustiçados outros.
Somente de madrugada, antes de o Sol despontar no horizonte, é que, vencida pelo cansaço, Tecla deitou-se próximo ao cadáver do ancião que expirara numa poça de sangue e adormeceu, vendo-se, então, fora do corpo.
Ao seu encontro, caminhavam juntas Estela, a menina grávida que ela socorrera, e Abigail, que ainda não se lhe identificara.
Envolvidas ambas num halo de intensa luz, foi Estela quem lhe dirigiu a palavra:
— Tecla, minha irmã, nada tema - disse , pegando-a pela mão.
Esta que está ao meu lado é Abigail, a protectora das mulheres mártires do Evangelho que o Cristo veio trazer ao mundo!
Abigail é um anjo de luz, Tecla, e, doravante, sempre que necessário, ela haverá de se entender directamente com você.
Dizendo isto, Estela desapareceu, e, aos olhos de Tecla, o espírito de Abigail ainda mais resplandeceu.
— Minha irmã - falou-lhe a inolvidável irmã de Estêvão - você foi uma das escolhidas para que a Fé no Cristo se manifeste e desperte almas adormecidas.
Você há de se transformar num símbolo para todas as mulheres que, por amor ao Evangelho, a tudo renunciam!
Prepare-se, porquanto rudes testemunhos a esperam...
O seu calvário - repetiu - está apenas começando, e a subida para os Cimos é extremamente escarpada e perigosa!
Velaremos para auxiliá-la a não recuar...
Assim dizendo, a visão se lhe desfez, e, quando ela despertou, o carcereiro que a escutara durante a pregação da noite, retirava de sua cela o cadáver do ancião morto.
— Apronte-se, minha jovem - informou -, porque o Procônsul logo irá recebê-la!
Saiba, porém, que suas palavras foram um refrigério para mim...
Estou cansado e, desde muito, me considero um morto-vivo.
Se eu pudesse...
Sem deixar que concluísse o seu pensamento, Tecla observou:
— Nós nada podemos, mas o Senhor tudo pode!
— Conte com a minha amizade e a minha gratidão - balbuciou, para que ninguém o ouvisse.
— Qual é o seu nome?! - perguntou Tecla àquele homem que era mais velho que o seu pai.
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Ave sem Ninho

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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