TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:30 am

— Tito - respondeu, enquanto arrastava o esquelético corpo daquele que fora um dos dez leprosos curados pelo Cristo num vale de povoado, no episódio narrado por Lucas.
Decorridas umas duas horas, os litores vieram buscar a jovem para estar diante do Procônsul, no tribunal, que, naquela manhã, estava repleto de curiosos.
Na cidade, não se comentava outra coisa: a prisão de Tecla, que se declarara cristã, e o confisco dos bens de Mésimo.
A própria fuga de Paulo e Barnabé, que, de Icónio, se haviam dirigido a Listra, já estava praticamente esquecida.
Acorrentada, no momento em que a mártir surgiu no Pretório, a multidão que se apinhava, mesclada de piedade e de mera curiosidade ante o desenrolar dos acontecimentos, emitiu confuso murmúrio.
Perpassando olhar sobre os homens e as mulheres que ali estavam, muitos que a conheciam desde criança, Tecla, em vez de revolta, experimentou uma grande compaixão pelo povo vivente preso à ignorância que judeus e romanos sabiam explorar.
O Procônsul, já de taça de vinho na mão, porém agora de olhos maliciosos sobre ela, perguntou-lhe:
— Então, a noite passada no cárcere fez com que você mudasse de ideia ou ainda persiste enfeitiçada?...
— Não, Procônsul - respondeu sem hesitar -, de acordo com o que já lhe disse anteriormente, devo afirmar-lhe que o cárcere serviu para que a minha convicção ainda mais se fortalecesse!...
Eu não posso abandonar um Deus que não me abandonou!...
A multidão presente manifestou-se admirada, provocando a ira do potentado romano, que, diante da firmeza daquela menina, se sentia desafiado em sua autoridade.
— Aviso-lhe que, dentro de instantes, será tarde demais! - gritou ele, a insistir em dobrar a coragem de Tecla.
Quando as labaredas começarem a lhe devorar o corpo, será inútil implorar por clemência...
Esse seu Deus não virá apagar as chamas da fogueira!
Porventura, o seu Cristo foi libertado do madeiro em que expirou, pregado entre malfeitores?!
Ora, quanta ingenuidade! - exclamou, arrancando sorrisos escarninhos de alguns daqueles que se reuniam no Pretório.
Chamando um de seus subordinados, algo cochichou em seus ouvidos e, num átimo, o homem voltava com uma estátua de Júpiter nas mãos, fundida em bronze.
— Volta a reverenciar os nossos deuses e esqueceremos tudo! - fez uma derradeira tentativa, porque, afinal de contas, a notícia de seu embate com aquela jovem, possivelmente, chegaria aos ouvidos de seus amigos senadores, e não ficaria bem para ele, caso viessem a saber que sequer estava conseguindo dobrar a coragem de uma menina.
Reverencia a Júpiter Capitolino para que, assim, ele aplaque a ira que a blasfémia dos seguidores do "Caminho" vem provocando noutros deuses!...
— Tenho a convicção de que todos os deuses, dos romanos, dos gregos e dos judeus devem obediência a Jesus Cristo!
— Para a fogueira! - bradou o Procônsul, erguendo-se da cadeira de punhos cerrados.
E, solenemente, proclamou:
— Tecla, filho de Mésimo, por abandonar o culto de nossos deuses, aderindo à superstição cristã, é condenada a morrer na fogueira!
Que esta sentença se cumpra de imediato!...
O exemplo da jovem mártir, que, até poucos dias atrás, por sua beleza e condição social, se fazia uma das mais admiradas de Icónio, valia por eloquente pregação em torno da mensagem da Boa Nova.
Não foram poucos os que, naquele momento, passaram a se interessar pelo Cristo, o profeta Nazareno que doava forças aos seus seguidores para enfrentarem a própria morte com um sorriso nos lábios.
É que, em tempo algum, a violência conseguiu impor silêncio à voz da Verdade que ecoasse através de uma verdadeira criança!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:30 am

As mulheres presentes ao julgamento, que, praticamente, viviam em estado de quase plena submissão aos homens, se projectaram em Tecla, que, dali para a frente, haveria de ser para elas um ponto de referência na defesa de seus direitos, no que tange às suas convicções religiosas.
Enquanto era escoltada para fora do tribunal, se, da parte de alguns, a mártir ouvia apupos e zombarias, da parte de outros era acompanhada com profunda simpatia, que ela sentia que não podia decepcionar.
Por este motivo, orava em silêncio, para que o Senhor e o anjo que lhe aparecera em sonho na noite anterior não a deixassem fraquejar.
Ao som de trombetas militares, amarrada a um poste em meio à ampla praça, em frente ao pórtico do tribunal, lançaram resina nas achas de lenha que a rodeavam, tendo, ainda, o seu próprio corpo coberto de idêntica substância inflamável.
A um gesto do Procônsul, o carrasco se aproximou e ateou fogo ao pinho ressequido, fazendo que espessa fumaça começasse a se levantar.
Tecla, embora tendo as vestes sujas de sangue, que o Procônsul interpretara com equivocada ironia, sugerindo que, à noite, ela tivesse sido molestada pelos soldados, mantinha-se serena, com uma mitra riquíssima a lhe prender os sedosos cabelos que lhe caíam nas espáduas.
Os soldados, praticamente, não tiveram trabalho algum em atá-la ao poste de seu sacrifício e tinha sido sem a ajuda de ninguém que a jovem subira ao tablado com elevação suficiente para que todos, por mais distantes estivessem, pudessem apreciar o desenrolar dos acontecimentos.
Depressa, as chamas começaram a se erguer, dando a impressão de que, em poucos minutos, tudo estaria consumado e aquele episódio esquecido.
Todavia, as labaredas que o vento daquela manhã atiçava ainda mais não avançavam para o corpo de Tecla, que, de cabeça erguida ao Alto, caíra em estado de transe.
As lascas de pinho estalavam e o fogaréu, inclusive, fazia com que os soldados se afastassem, receosos, mas o corpo da jovem permanecia intocado pelas chamas!
Percebendo o ocorrido, o Procônsul gritava para que os carrascos lançassem mais resina à fogueira:
— Alimente o fogo, corja inútil!... Vamos!
Tudo em vão.
Como se o vento estivesse obedecendo a ordem de natureza superior, mantinha as chamas afastadas de Tecla e mais, fazia com que elas investissem sobre a multidão, constituída por pagãos e judeus, os quais, horrorizados, se retraíam!
Todavia, com inesperado e agradabilíssimo prodígio somente explicável pela intervenção de presença soberana e omnipotente, teve a imensa multidão a glória de contemplar, maravilhada, o semblante sereno e bonito da virtuosa jovem, injusta e cruelmente condenada pela equivocada prepotência humana!
Tomado de louco pavor, o Procônsul, qual se, naquele momento, fosse possuído por forças espirituais ignoradas, desce de seu palanque e foge, dizendo impropérios, por uma das portas laterais do tribunal, enquanto a multidão em desvario disparava a correr sem direcção!
Quando as chamas se apagaram, Tecla, sem que sequer tivesse as próprias vestes chamuscadas, ao voltar daquele entorpecimento provocado por acção de Abigail e de outros espíritos que a protegiam, estava sendo desamarrada pelos soldados romanos, os quais, de novo, a conduziram ao cárcere.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:31 am

11 - Testemunhos de Fé
Diante do ocorrido, o Procônsul, homem autoritariamente supersticioso, delibera mandar Tecla para a Frigia, cuja capital era Antioquia.
— Trata-se de uma feiticeira - justificara-se - de uma maga como Locusta...
Na verdade, ela é um demónio!
Que seja fortemente escoltada até a Antioquia, onde se estão celebrando os jogos...
O Prefeito há de ficar satisfeito com este presente para o anfiteatro!
Eu lavo minhas mãos...
A Frigia era a terra das festas e da degradação, degenerando sua natural origem consagrada a Cibele, Mãe dos doze deuses do Olimpo.
As suas ruas, por assim dizer, eram uma reedição de Sodoma e Gomorra, as cidades que, pelos seus desregramentos morais, haviam sido calcinadas pelo fogo que caíra do céu...
Atravessando as ruas de Antioquia, onde, aliás, Paulo e Barnabé já haviam pregado, Tecla, caminhando sob a escolta de cinco soldados, despertou a atenção dos rapazes e moças que, entre sorrisos e as faces purpurinadas, se divertiam em plena luz do dia, abraçando-se e beijando-se com descontraída lascívia.
O Prefeito recebeu com certo descaso a prisioneira, pois, para ele, aquela jovem nada significava. Escutando as explicações do comandante do pequeno destacamento, o detentor da autoridade local, por simples obrigação que o cargo lhe impunha, perguntou a Tecla:
— Isso não é nada...
Talvez, você esteja apenas enfeitiçada pela seita que, nos dias correntes, perturba toda a Judeia.
Se você cooperar, resolveremos a questão agora. Renegue essa tolice e junte-se aos jovens de sua idade, que são a perene alegria de nossa cidade.
Tão bela e...
— Infelizmente, eu não posso renegar a minha fé - testemunhou a pré-mártir com o estoicismo de sempre.
Eu não conseguiria trair minha consciência e continuar vivendo...
Eu testemunho que Jesus Cristo é o Messias!
Ele é superior aos nossos deuses e muito mais real do que eles, que foram criados pela imaginação humana!...
— Continua a blasfemar! - retrucou o Prefeito.
Vejo que, de facto, o Procônsul teve razão em enviar você para cá...
Temos métodos muito mais eficientes que os dele de lidarmos com possessos!
Nossas feras, aliás, estão famintas...
— Seja feita a vontade de Deus! - exclamou Tecla, para espanto do Prefeito e de quantos lhe ouviam o rápido interrogatório.
— Sei que nada acontece sem a permissão Dele, que, caso não concordasse, nem o senhor estaria na posição em que se encontra...
— Além de tudo, insolente! - tornou o interlocutor.
Compare-se com os nossos jovens que, ao passar, você deve ter visto nas ruas, usufruindo das alegrias naturais da idade...
— O meu Deus também me faz alegre! - redarguiu ela serenamente.
Sinto indizível paz no coração...
A minha alegria não é motivada pelos excessos de toda ordem, que, ao passar, pude ver sendo cometidos nas ruas de Antioquia!
Aqueles rapazes e moças agem assim porque eles ainda não conhecem a Jesus, meu Salvador!
Eles buscam, inutilmente, na bebida e nos desregramentos, o que lhes consiga preencher o vazio interior...
O senhor mesmo, Prefeito, acende incensos sem ter muita convicção nos deuses, não é verdade?!
Naquele instante, o rude homem experimenta um choque, pois, afinal, como é que aquela jovem poderia saber disso?!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:31 am

Os olhares dos circunstantes haviam se voltado para ele, à espera de sua reacção, diante das palavras que, de certa maneira, o punham a descoberto.
Tentando parecer complacente, para desviar a atenção das pessoas em torno, ele esbravejou:
— Não continue a blasfemar!...
Insurgir-se contra os deuses chega a ser maior crime que insurgir-se contra o Imperador!
Volta a adorar os deuses e, de bom grado, farei com que você volte sã e salva para sua casa, não sem antes desfrutar de nossa hospitalidade...
— Somente reverencio a Jesus Cristo!
— Tola! - gritou o Prefeito.
Em Icónio, não se sabe acender fogueiras, todavia, aqui, em Antioquia, somos especialistas nisto...
Mas... nossas feras, afinal, estão famintas!
Amanhã mesmo, você lhes servirá de repasto, pois, por certo, se agradarão de sua carne nova, macia!... - sentenciou, sarcasticamente.
Durante os jogos, naqueles dez dias, o povo se divertia a valer, sem se importar com as explorações a que era submetido.
O Prefeito, copiando o que acontecia em Roma, mandava que lhes fossem prodigalizados alimentos e divertimentos; daí, o clamor plebeu exasperado na legenda latina "Panem et circenses!" - pão e circo!
E que os soldados não molestassem nenhum bêbado ou devasso, embora, em plena rua, este último estivesse se excedendo em intimidades com alguém.
No anfiteatro, os gladiadores lutavam até à morte, uns contra os outros ou contra os leões, ante a plateia que aplaudia com frenesi, principalmente, quando o sangue jorrava sobre a areia, tingindo-a de mortal vermelho.
Enquanto os sentenciados à morte se estraçalhavam, apostas eram feitas e o descaso pela vida humana se mostrava sem precedentes.
As almas nobres de Antioquia, tocadas por mais elevado sentimento de reverência pela Vida, viviam quase reclusas em casa, lamentando tal estado de coisas que, naqueles tempos, era uma espécie de loucura colectiva!
Fora assim que os romanos encontraram meios de entreter os judeus, povo inconformado com a sua conquista territorial e que sempre vivia se insurgindo contra o poderio de Roma, qual se desabou, no ano 70, com a destruição romana e a dispersão mundial do povo judeu - a Diáspora.
A Judeia, do ponto de vista de suas próprias riquezas, não valia a pena para o tesouro do Império, não obstante, para sua política expansionista, fosse considerada região estratégica.
A verdade, porém, é que a palestímica Judeia, em termos administrativos, custava muito mais a Roma que a própria Grécia ou a Gália.
Como se não bastassem as inúmeras revoltas que os romanos, com o endosso do Sinédrio, periodicamente, tinham que sufocar, segundo eles, havia surgido a nova seita dos cristãos, fundada por um anónimo carpinteiro, que, infelizmente, a própria Roma guindara à condição de herói popular.
Naquela tarde, o anfiteatro regurgitava, porque, em Antioquia, já se havia espalhado a notícia do que, em Icónio, sucedera a Tecla, a qual, misteriosamente, fora rejeitada pelas chamas da fogueira!
O fanatismo do povo fazia com que a expectativa em torno do tipo de morte que lhe estaria reservada aumentasse.
Seria, novamente, levada à fogueira?!
Atirada aos leões?!
Pisoteada pelos touros bravios que investiam até mesmo contra um rato que, porventura, atravessasse a arena?!...
No intuito de promover suspense e solenizar o sacrifício daquela jovem enfeitiçada, o Prefeito ordenara que ela fosse o último espectáculo da tarde.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:31 am

Quando, então, Tecla adentrou a arena, aos urros e apupos da furiosa multidão, todo o chão estava tinto de sangue, porque vários gladiadores já haviam lutado entre si, morrendo, e muitos escravos haviam perdido a vida nos dentes das feras, que, de propósito, ficavam dias sem se alimentarem, e nos pontiagudos chifres dos touros enfurecidos.
Sem dúvida, caminhando sobre aquele estranho charco, evitando pedaços de membros humanos, braços, pernas e vísceras com os quais se deparava aqui e ali, a figura lirial de Tecla dava a impressão de um anjo que, de repente, se tivesse materializado aos olhos de todos.
Ao lado do Prefeito, alguém anunciou, com voz possante a reboar no anfiteatro:
— Essa jovem, de nome Tecla, natural de Icónio, foi condenada à morte por ser adepta da seita dos seguidores do "Caminho"...
Praza, pois, que sua execução sirva de exemplo para todos quantos menoscabam a crença em nossos deuses!...
Era a décima-quinta hora, ou seja, a hora nona, ou três horas da tarde, pois o dia começava à meia-noite (vigília), indo até às seis horas da manhã, quando seria o chamado dia até à meia-noite, e o Sol se mostrava escaldante.
Tem razão os poucos historiadores que, logrando algo registrar a respeito da vida de Tecla, escreveram que ela, praticamente, não tinha em quem se inspirar naquele momento do testemunho, porque, afinal, em tais precárias condições, ela pode ser considerada a Primeira Mártir do Cristianismo.
Com mulher, nunca a perseguição contra os cristãos chegara a tais extremos!
É certo que, em Jerusalém, algumas prisões de mulheres denunciadas como cristãs já vinham sendo efectuadas, e que, após a morte de Estêvão, se cogitava de condenar à morte outros homens cristãos.
Tiago, irmão de João, sendo decapitado a mando de Herodes Agripa, também já pagara com a vida a ousadia de seguir a revolucionária doutrina do Nazareno.
Com justiça, pode-se dizer que Tecla foi escolhida para inspirar o martírio a muitas outras mulheres cristãs que chegariam a padecer maiores ultrajes que os próprios homens, posto que muitas delas, antes de serem mortas, na solidão dos cárceres, eram molestadas pelos soldados.
A turba, enfastiada dos espectáculos comuns daquela tarde, havia, então, começado a gritar, promovendo grande tumulto:
— A cristã! Queremos a cristã!...
— A cristã! - ordenou o Prefeito, fazendo coro com a multidão desvairada.
E foi assim que, com um manto púrpuro às costas, para ainda mais provocar as feras, Tecla adentrara a arena, que, também em Antioquia, durante quase trezentos anos, seria palco de tantas dores e lágrimas para os adeptos da Boa Nova!
Vendo aquela jovem indefesa caminhar de passo resoluto para o centro da arena, alguns poucos homens e mulheres que não haviam exagerado no vinho naquele dia, não deixaram de sentir certa compaixão, embora, posteriormente, até mesmo as crianças, filhos de cristãos, viessem a ser condenados à morte nas mesmas circunstâncias.
Em Roma, logo após o incêndio que se crê provocado por Nero, de uma só vez, cerca de vinte crianças, entre meninos e meninas, de oito a doze de idade, foram devoradas pelos leões africanos à vista de seus pais!
É que, em geral, os cristãos haviam passado a ser considerados simples "pedaços de carne", os quais, para alimentarem as feras, custavam menos ao Estado que os cordeiros, pois precisavam ser comprados.
Ao chegar ao centro da arena, Tecla ajoelhou-se e, inspiradamente, persignou-se fazendo o sinal da cruz, o que, sobremaneira, intrigou a plateia, a qual, de início, imaginou tratar-se de sortilégio qualquer.
— Que é que ela está fazendo?! - muitos perguntaram entre si.
E, logo, a explicação fornecida por alguém se espalhou pelo anfiteatro com velocidade:
— Dizem que é o sinal dos cristãos!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:31 am

O chefe da seita deles morreu numa cruz, foi crucificado; desde então, eles adoptaram tal gesto para se identificarem uns com os outros.
— Mas ouvi dizer - contestou rico comerciante de tecidos - que, em maioria, por serem pescadores, o símbolo que adoptaram foi o de um peixe, riscado com duas linhas onduladas e cruzadas...
Eles se denominam "pescadores de homens"!
— Sim - retrucou um interlocutor -, todavia, ao que está parecendo, o símbolo da cruz prevaleceu!
Com esse sinal é que eles se preparam para morrer, como quem os liderava morreu - pregado no madeiro!...
— Que coisa estranha! - exclamou o comerciante, ao mesmo tempo que experimentava repetir os movimentos que Tecla fizera com a mão direita.
— Deixe-se disso, Nabuco! - recebeu a repreensão.
Você pode ficar enfeitiçado como ela ficou...
E, depois, os soldados podem interpretar mal o seu gesto e... lançá-lo às feras - sorriu o amigo, com deboche.
Entrementes, um escravo provocava enorme leão da Líbia com o seu chuço, para que, faminto e irado, quando a porta de sua jaula se abrisse ele saísse com toda a fúria e colocasse fim ao espectáculo da tarde, que, por conta daquela programação extra, estava se alongando em excesso.
Alguns leões da Líbia, várias vezes, já haviam conseguido o prodígio de saltar da arena sobre a plateia e, antes que fossem mortos por lanceiros, dilaceraram muitos corpos, em incidentes que, em certas ocasiões, tinham chegado a esvaziar o circo e valera a deposição do Prefeito anterior.
Com fome e sede, a pobre condenada permanecia de joelhos, completamente submissa à vontade de Deus, orando para que as forças não lhe faltassem naquele momento.
Predestinada ao testemunho, por seu espírito, dava a impressão de que mesmo ansiava pelo sacrifício em favor da causa do Evangelho.
O feroz animal, ao se ver solto da jaula, soltou forte rugido, mostrou os grandes dentes afiados e sacudiu os fulvos pelos da juba, que brilharam ao Sol. Contrariando os que esperavam que, de imediato, ele corresse em direcção à vítima, escavou o chão com uma pata, lambeu a areia suja de sangue, aguçou as narinas e, lentamente, pôs-se a caminhar.
Todo o anfiteatro se mantinha em silêncio, e o próprio Prefeito, acompanhado de vários cortesões bajuladores do poder, estranhou a atitude da fera, a qual, andando em círculos, se aproximava do centro da arena, em comportamento nunca visto em leão diante de vítima completamente indefesa!
— Esse bicho comeu antes?! - perguntou rispidamente a um de seus auxiliares que, a um só gesto dele, se aproximara.
— Ele foi alimentado?!...
— Não, absolutamente! - respondeu, trémulo, o subalterno.
— Ele está há bem uma semana sem comer...
Excepto água, nada mais ingeriu!
O senhor pode observar o apetite dos outros leões que estavam com ele...
Envolvida pelo espírito de Abigail, a vítima permanecia imóvel, a todos revelando-se alheia ao perigo que se aproximava.
De olhos fixos num ponto do Infinito, a atitude resignada de Tecla começara a modificar os sentimentos de dezenas de espectadores que haviam parado de gritar e, inexplicavelmente, passaram a torcer para que o animal a poupasse.
Finalmente, emitindo mais alto rugido, a fera dispara, mas, em vez de saltar sobre a sua presa, estaca rente a ela, e, para espanto geral, se lhe põe a lamber as mãos e os pés, qual domesticado felino a brincar com uma criança!
Pousando-lhe a delicada destra sobre a cabeça, Tecla acaricia o leão, o qual, em seguida, se deita aos seus pés, em fenómeno nunca presenciado em nenhuma arena dentre as muitas que se espalhavam por toda parte, para diversão demagógica do povo!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:31 am

— Trata-se, sem dúvida, de uma bruxa! - gritou o Prefeito, ordenando que, a valerem-se de chuços, os escravos procurassem enfurecer a fera, que, em vez de se enraivecer contra Tecla, rugia contra eles, como se quisesse protegê-la do mal que aqueles homens lhe pretendiam fazer!...
Dentre a multidão, houve quem se prostrasse de joelhos, nas arquibancadas precárias do anfiteatro, com receio de que o Deus daquela jovem, que se mostrava poderoso, pudesse querer se vingar das blasfémias proferidas contra ele.
— Deve ser o Deus dela que a protege!
Misericórdia! - escutava-se, aqui e ali, alguém a cochichar com quem estivesse mais próximo.
Estamos diante de uma força demoníaca ou, então, de uma força divina, que, de facto, o Nazareno veio nos revelar...
Deve ser verdade que ele venceu a morte, pois seus discípulos afirmam que, ao terceiro dia de sua crucificação, seu túmulo foi encontrado vazio...
— Soltem outra fera! - gritou, entre áulicos também perplexos no palanque prefeitoral, tendo o alto magistrado os olhos tomados de espanto.
Soltem outra fera!...
Outra gaiola foi aberta, e uma leoa, rugindo de modo apavorante, escavou a terra com as patas e, após encolher-se, partiu com rapidez em direcção à presa, a disputá-la com a primeira fera, a qual, ao vê-la aproximar-se em característica corrida de ataque, se levantou e, soltando tremendo rugido, barrou-lhe a trajectória.
O povo, tomado de admiração e espanto, embora a grande curiosidade pelo desfecho do episódio, causando imenso tumulto, começou a abandonar o anfiteatro, inclusive com uns pisoteando outros e quase todos se perdendo de seus acompanhantes. Na dispersão precipitada, um deles despenca da altura, cai dentro da arena; então, a leoa, faminta desde muitos dias, o abocanha e passa a desmembrá-lo!
— Socorro! - clamavam muitos.
Arrependo-me!
O deus dos cristãos é verdadeiro!...
Outros, no entanto, insistiam nas acusações:
— É uma maga infernal!
Não é o deus dos cristãos que a protege:
são deuses nossos, com os quais ela deve ter feito pacto...
Ela precisa ser morta, mas... como?!...
— Atirem o bestiário às feras! - ordenou o Prefeito.
A culpa é dele, que não esfomeou os animais o suficiente...
Às feras com ele! - vociferou, enquanto o pobre homem era lançado por dois musculosos soldados dentro da arena, no centro da qual Tecla permanecia em oração.
Mal o bestiário fora lançado à arena, a feroz leoa, largando os despojos ensanguentados de sua primeira vítima, se atirou sobre a segunda e, em questão de segundos, estraçalhou-a!
Em meio à balbúrdia que tomou conta do anfiteatro, outro animal bravio, uma pantera da Síria, soltou-se e, mansamente, se foi deitar nas proximidades da moça, sobre a qual o leão da Líbia continuava mantendo guarda, não consentindo que nenhuma das duas feras lhe viesse a constituir ameaça.
— Soltem-na! - centenas de vozes, partindo dos pontos mais altos das arquibancadas, começaram a gritar. — Soltem-na!
Essa jovem está inocente... Não merece morrer!...
Enquanto os judeus insistiam em que Tecla deveria ser morta, tendo o convencional gesto do latino Police verso ("com o polegar para baixo") a significar golpe mortal aos vencidos, os pagãos, que ali estavam em maior número, passaram a advogar-lhe a causa, continuando a pedir, bradando em coro:
— Libertem-na!... Libertem-na!...
Acuado, o Prefeito, momentaneamente, não viu outra solução, senão ordenar que a jovem mártir, que ainda muito deveria padecer em seus testemunhos de fé, fosse libertada!
Os soldados, em número de vinte, protegidos por escudos e levando redes às mãos, com a finalidade de lançá-las sobre as feras, caso, porventura, fossem atacados, aproximaram-se de Tecla e, com rapidez, a retiraram da arena, na qual a leoa e a pantera devoravam suas vítimas.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:32 am

12 - Primeira Mulher a Pregar o Evangelho
Em Antioquia, naquele dia, as conversões foram inúmeras.
Através de Tecla, o Mundo Espiritual conseguira despertar muitas consciências adormecidas e, durante semanas, não se comentava senão o episódio das feras que, como por encanto, haviam sido domesticadas pela jovem.
As autoridades judaicas e romanas começavam a se sentir impotentes para enfrentar a força da nova fé e já lamentavam terem deixado sobreviver os Apóstolos, arrependendo-se de, igualmente, não os terem condenado à morte com seu Mestre.
Foi por esse tempo que, sendo perseguido por Herodes, o qual já havia mandado matar a Tiago, Simão Pedro é encerrado na prisão, com o intuito de, após a Páscoa, apresentá-lo ao povo e condená-lo à morte.
Segundo os registos de Lucas, em "Atos dos Apóstolos", no capítulo 12, "Pedro, pois, estava guardado no cárcere; mas havia oração incessante a Deus por parte da igreja a favor dele.
Quando Herodes estava para apresentá-lo, naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, acorrentado com duas cadeias, e sentinelas à porta guardavam o cárcere.
Eis, porém, que sobreveio um anjo do Senhor, e uma luz iluminou a prisão; e, tocando ele o lado de Pedro, o despertou, dizendo:
Levanta-te depressa.
Então as cadeias caíram-lhe das mãos.
Disse-lhe o anjo:
Cinge-te e calça tuas sandálias.
E ele assim o fez.
Disse-lhe mais:
Põe tua capa e segue-me.
Então, saindo, o seguia, não sabendo que era real o que se fazia por meio do anjo; parecia-lhe antes uma visão".
Sentindo a necessidade de efectuarem registros sobre a doutrina que o Cristo lhes havia ensinado, os Apóstolos começaram a cogitar de escrever os seus relatos, mas, de início, somente Mateus tomara semelhante iniciativa.
Foi quando começou a surgir a "Didaquê", pequeno livro constituído por dezasseis capítulos, contendo os ensinos dos Doze.
Os historiadores afirmam que a referida obra teria surgido por volta do ano 60 d.C., mas a verdade é que os seus rudimentos surgiram bem antes, e os seus capítulos, qual ocorreu com os Evangelhos, foram escritos gradativamente.
Dentre os apontamentos da "Didaquê", vale ressaltar:
"E todo profeta que ensina a verdade, se as coisas que ensinar ele não fizer, é falso profeta".
E, ainda:
"Vigiai pela vossa vida, as lâmpadas vossas não estejam apagadas e os lombos vossos não se cansem, mas tornai-vos preparados, pois não sabeis a hora em que o Senhor vosso vem".
É evidente que, diante dos exploradores da fé pública, muitos dizendo estarem possuídos pelo Espírito Santo, a preocupação central dos Apóstolos era a de fornecer elementos para que "o joio fosse separado do trigo".
Qual acontece com toda Verdade quando surge, revelando-se aos homens na Terra, os espíritos adversários de sua luz tratam de obscurecer-lhe a claridade.
Isto aconteceu com o Cristianismo nascente, quanto, igualmente, vem ocorrendo com o Espiritismo, na tarefa da revivescência cristã.
Vendo-se livre da prisão, Tecla, em Antioquia, refugiasse na casa de uma viúva e, naquela mesma noite, diante de reduzida assembleia, dá início à sua pregação da Boa Nova, sobre a qual, a rigor, ela ainda pouco sabia.
Expressando-se com facilidade e eloquência, depressa retemperada no testemunho, a jovem, sempre inspirada por Abigail, se transformou na primeira mulher a pregar o Evangelho.
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Ave sem Ninho

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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:32 am

Semelhante facto, por si, de uma mulher com dotes de oradora, não apenas parecia estranho a judeus e romanos, como também aos próprios Apóstolos, que logo ficaram sabendo do ocorrido em Icónio e Antioquia.
Nas assembleias cristãs, de modo geral, a palavra às mulheres era vedada, sendo que o próprio Paulo chegou a recomendar em sua Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 14, versículos 34 e 35:
"... conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina.
Se, porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seus próprios maridos; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja".
A posição conservadora de Paulo, em relação ao papel da mulher na igreja, seria, mais tarde, contestada por Tecla como talvez recalque misógino sobrevindo do repúdio feito pela noiva Abigail, que, várias vezes, tendo oportunidade de avistar-se com ele, e de se fazer admirada pelo inesquecível Apóstolo dos Gentios, com ele discutira o assunto, levando-o a arrepender-se do que escrevera à comunidade cristã de Corinto.
Não obstante, a verdade é que a influência de tal postura até hoje cerceia a liberdade da mulher na participação dos cultos religiosos dentro da Igreja Católica, com grande prejuízo espiritual para toda a Humanidade.
Maria de Magdala, que, por muitos, é considerada na condição de Décimo-Terceiro Apóstolo, o que, pelo menos, de maneira simbólica, não deixa de corresponder à realidade, não era chamada a fazer uso da palavra sequer para descrever, por si mesma, a visão e o diálogo que tivera do Cristo Redivivo, quando, naquele inesquecível domingo de Páscoa, fora ao sepulcro onde o corpo do Senhor havia sido sepultado e o encontrara vazio!
Somente entre os leprosos, no vale a que se recolheu, disporia ela de plena liberdade para anunciar o Evangelho.
Séculos mais tarde, porém, reencarnando como a canonizada Teresa de Ávila, seria considerada Doutora da Igreja.
Na casa de Eleutéria, já um tanto refeita de tantas e tão graves e perigosas vicissitudes morais, depois de ter-se alimentado e descansado, à luz mortiça de uma candeia, Tecla, na presença de pouco mais de quinze pessoas, a maioria mulheres, agora, mais bem-disposta e segura, pregara:
— Irmãos e irmãs, Jesus Cristo, em verdade, é o Messias!
Hoje, através desta sua mísera serva, vocês puderam constatar isto com os seus próprios olhos...
Quando foi que uma frágil mulher, sem ter ninguém que lhe advogasse a causa, poderia sair incólume da arena - inicialmente, da prisão, onde, aliás, pela graça de Deus, ninguém ousou me tocar?!
Permaneço imaculada, para, desta maneira, servir ao meu Senhor pelo resto de meus dias, que suponho não venham a ser muitos.
Tive oportunidade de estar na presença de Paulo e Barnabé, em Icónio, e pude ouvi-los a respeito do Cristo.
Naquela oportunidade, presenciei feitos extraordinários, como a cura de uma criança praticamente morta e o eficaz diálogo de Paulo com um endemoninhado, que lhe fez terríveis mas falazes ameaças.
Desde muito, eu vinha estudando com meu professor, Zizo, sobre a doutrina de Sócrates e Platão - nada desconheço, inclusive, da crença nos deuses, a que muitos ainda se devotam!
Jesus, no entanto, é o "Deus Desconhecido", a que os gregos que, pelos próprios romanos, se fizeram admirados pela sua sabedoria, sempre se referiram, chegando a lhe consagrar um nicho no Areópago, em Atenas.
O "Deus Desconhecido", que os gregos mencionam, não é outro senão o Messias de que os nossos mais eminentes Profetas sempre anunciaram o advento.
João Batista, reconhecendo-se na presença Dele, não hesitou em ordenar que os seus seguidores passassem a segui-lo, porque se fazia necessário que Ele crescesse e que João, a Voz Clamante do Deserto, diminuísse!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 26, 2018 9:32 am

A plateia, atenta, envolvida pelas vibrações do Mundo Espiritual, experimentava indizível consolo, com todos os presentes dando-se as mãos uns aos outros.
Tecla, completamente transfigurada - positivamente, ela não era mais a filha que Mésimo e Teóclia haviam conhecido!
-, continuava a falar num misto de ternura e paz:
— O Cristo não é um deus do Olimpo
Ele é o maior dos profetas que Deus já enviou ao mundo!
Sua existência é real...
Passo a passo, cumpriu todas as predições das Escrituras a seu respeito - até mesmo a de ser imolado como um cordeiro, sem que, no entanto, um único osso de seu corpo fosse partido!
Infelizmente, o seu roteiro missionário não incluiu a Galácia e outras regiões, todavia a sua Doutrina é universal!
Segundo Paulo, Ele veio para os filhos desgarrados da casa de Israel, que somos todos nós!
Devemos, docilmente, fazer parte de seu aprisco...
O mundo actual passa por grandes e inevitáveis transformações.
Não nos iludamos, porque sempre haverá de ser assim; não obstante, o Cristo, possuidor das Palavras de Vida Eterna, há de permanecer para sempre no recesso de nossos corações...
Ouvi dizer - acentuou - que Ele quebrou todos os paradigmas nos quais as religiões antigas se estruturam, notadamente o Judaísmo - e Ele era judeu, pertencente à menor das tribos de seu povo!
A sua pregação não se efectuava nas sinagogas, sob o beneplácito dos doutores, mas nas ruas e nos montes, no meio do povo, de que os próprios judeus escarneciam, rotulando-o de "pobres de espírito"...
Por esse motivo é que Ele foi traído e crucificado: por não concordar com a hipocrisia dos que dizem amar a Deus e não amam o próximo!
Jesus é o Caminho!
Seguindo-O, não mais nos sentiremos perdidos neste mundo, à mercê dos mais fortes, que nos usurpam os bens materiais e espirituais...
Seus seguidores, até agora, têm sido chamados de os adeptos do "Caminho", mas aqui mesmo, em Antioquia, eles já têm sido denominados "cristãos"...
Eu sou cristã! - disse a inspirada expositora com profunda emoção na voz.
O Cristo representa tudo que sempre esperei e desejei para a minha pobre vida! Infelizmente, meus pais não me puderam entender o anseio de liberdade espiritual que experimentava, e queriam obrigar-me a uma união matrimonial sem sentido para mim, porque, na verdade, eu nunca pude amar homem algum.
Durante quase uma hora, a notável pregadora do Evangelho discorreu sobre o que sabia do Cristo e de sua Doutrina, esclarecendo e emocionando os presentes, alguns dos quais, ainda que tímida e temerosamente, lhe confiaram dúvidas,
equívocos e apreensões.
No outro dia, a residência de Eleutéria se mostrava de dimensões muito acanhadas para acolher as mais de cinquenta pessoas que ali compareceram para escutar a palavra de Tecla, a qual, sentindo que carecia de maiores instruções, começara a planear ir ao encontro de Paulo e Barnabé, que ainda se encontravam em Listra.
No terceiro dia, da casa de Eleutéria, a reunião teve que se transferir para espaçosa gruta existente nas cercanias.
Era mais seguro reunirem-se lá, porque, afinal, o frustrado Prefeito não desistira do intento e necessidade política de matar a jovem pregadora.
Então, para sua surpresa, estando prestes a iniciar sua alocução da noite, percebeu a presença de Onesíforo no recinto.
Informado dos últimos acontecimentos, o amigo de Paulo e Barnabé, bem como irmão de Loide, em cuja casa os dois amigos, na companhia de seu filho Alexandre, se hospedavam em Listra, viera conhecer Tecla, inclusive em seu propósito de escrever a Simão Pedro, em Jerusalém.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:42 am

— Onesíforo! - exclamou a jovem ao vê-lo.
Que alegria recebê-lo entre nós!...
— Vim constatar - disse o ex-escravo - se é verdade tudo quanto estão dizendo a seu respeito!
Sinceramente, eu não pude acreditar, mesmo porque - confesso - você me parecia um tanto perturbada...
— Sem o Cristo, quem é que não se perturba, meu amigo! - contestou-o ela de pronto.
Graças a ele, no entanto, estou recuperando minha pobre sanidade...
— Paulo e Barnabé, com Alexandre, meu filho, estão em Listra, na casa de minha irmã Loide.
Na próxima semana, pretendo ir encontrá-los e, antes de estar com eles, considerei de bom alvitre saber se as notícias que a seu respeito têm chegado a Icónio realmente procedem.
— O Senhor, por obra de sua Infinita Misericórdia, não buscou a Paulo no deserto de Damasco?!
Por que, por obra de sua Misericórdia Infinita, não poderia buscar-me Ele dentro de minha casa?!...
Onesíforo percebeu que, de facto, aquela não era mais a mesma jovem, que, muitas vezes, vira em companhia de outras meninas, em Icónio.
Argumentando com inteligência, ela o impressionava pela bondade mesclada de autoridade que em sua voz se expressava.
Aquele espírito, sem dúvida, havia sido talhado para cumprir a difícil tarefa que lhe fora designada no início do Cristianismo, porque o Evangelho, numa cultura patriarcal, também viera para colocar em nível de igualdade o homem e a mulher.
— Concordo inteiramente com você! - redarguiu Onesíforo.
— Sócrates e Platão ensinavam que o espírito não se define pela condição sexual do corpo que ocupa...
Você acredita na transmigração das almas?! - perguntou Tecla.
— Ainda não pude reflectir sobre o assunto da ressurreição...
— Não, não se trata de ressurreição, mas, sim, de palingenesia! - esclareceu a pregadora.
— Sim, sim, compreendo, mas ainda, conforme disse, não pude meditar mais a respeito.
Paulo e Barnabé nada me falaram, especificamente, sobre o assunto.
— Contudo - retrucou a moça -, as Escrituras Sagradas estão repletas de referências em torno dele...
Este é um dos problemas sobre o qual, quando possível, pretendo conversar com Paulo.
Ele, ao que sei, foi instruído por Gamaliel, um dos mais sábios doutores do Sinédrio.
Impossível que o Rabino não tenha mencionado o assunto em seus diálogos com Paulo...
— Eu sei que Nicodemos interrogou Jesus a respeito - observou Onesíforo, que, estando em Jerusalém, se demorara em conversas com João, ouvindo os preciosos relatos que, somente mais tarde, o "Discípulo Amado" registraria.
— Que é que você sabe disso?! - inquiriu Tecla vivamente interessada.
— João me disse que o Senhor respondeu a Nicodemos que, sem nascer de novo, ninguém entrará no Reino do Céu e ficou admirado de o doutor da lei não conhecer o assunto mais a fundo.
Mas alguns cristãos andam interpretando que o Cristo se referia a um nascimento de ordem moral, através do baptismo e da conversão, e não do renascimento a que você está se referindo.
— Este equívoco, no futuro, nos será extremamente prejudicial - lamentou Tecla, que, pedindo permissão a Onesíforo, se dirigira para um dos lados da cripta, onde, subindo a uma das pedras mais altas, principiou a dizer à pequena multidão que ali se aglomerava, com o fito de ouvi-la:
— Irmãos e irmãs, a paz de Jesus seja connosco!
Quanto mais sei a respeito do Cristo, mais se ampliam os horizontes da esperança em meu coração.
Ainda agora, em conversa com nosso irmão Onesíforo, que nos visita, pude saber que o Mestre se referia à necessidade de nascermos de novo, a fim de podermos entrar no Reino de Deus, que, creio, seja o objectivo de todos os que acreditam na existência do Criador.
O Cristo é o nosso Salvador, no entanto, aqui cabe uma pergunta:
Como se salvariam aqueles que, vivendo antes, não tiveram oportunidade de conhecê-Lo?!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:43 am

De que maneira, nossos antepassados, que tanto sofreram, aguardando a presença do Messias na Terra, e que morreram sem que pudessem vê-Lo e ouvi-Lo, poderiam se salvar?!
Como haveriam de estar prontos no Dia do Juízo a que os judeus mais ortodoxos se referem!...
Ante a surpresa de Onesíforo com seu raciocínio, prosseguiu:
— Que pensarmos, por exemplo, de uma semente que se frustra em seu anseio de ser árvore?!
Ou mesmo de uma árvore que não chega a crescer e produzir frutos, como tantas outras?!
Por que a uma semente é dado germinar, florescer e frutificar, mas a outra, não?!
Em meus estudos, acredito, piamente, que a ressurreição tenha um significado de ordem mais transcendente, justificando a existência de um Deus justo, que a toda sua Criação concede as mesmas oportunidades de realização!
Sócrates e Platão, bem como Pitágoras e, antes deles até Tales de Mileto, pregavam que a essência imortal, que somos nós, tem oportunidade de voltar à Terra muitas vezes...
Superior a todos eles, em Amor e Sabedoria, eu não acredito que o Cristo tenha sido omisso nesta questão de tanta relevância para o homem.
O diálogo que, segundo Onesíforo, Ele entreteve com Nicodemos, por certo, deve ter tido desdobramentos que ainda não surgiram à baila.
Não nos esqueçamos de que a nossa cultura greco-judaico-romana é milenar...
Ideias arraigadas não se modificam da noite para o dia.
Também por curar no sábado, o Cristo foi crucificado!
Por defender uma mulher de ser apedrejada em praça pública, passou a ser perseguido por aqueles que a acusavam...
Nunca furtou nada de quem quer que fosse, mas destinaram-lhe a cruz dos malfeitores!...
Embora maravilhado com as palavras de Tecla, Onesíforo ficou a recear por ela ante os próprios Apóstolos, que, de certa maneira, se consideravam os senhores da Doutrina do Cristo - o mesmo acontecendo com Paulo de Tarso, cuja palavra, muitas vezes, julgava definitiva em torno de determinados assuntos.
Sem dúvida, a jovem pregadora do Evangelho haveria de enfrentar oposição entre os próprios cristãos da primeira hora, que - diga-se -, propositadamente, deixaram de registar, para a História, maiores detalhes sobre sua magnífica vida, a qual, em muitos lances, chegou a superar a de muitos dentre os mais fieis seguidores de Jesus.
Quase inacreditável que em "Atos dos Apóstolos" e,
muitos lustros mais tarde, na "História Eclesiástica", de Eusébio de Cesareia, que se propôs efectuar um registro histórico dos primeiros quatro séculos da Igreja Cristã, praticamente, nada se encontre dos feitos de Tecla, que chegou a viver quase noventa anos!
Quando terminou a sua pregação, Tecla desceu da improvisada tribuna e pôs-se a caminhar entre os presentes, muitos deles portando enfermidades, a impor-lhes as mãos sobre a fronte, pensando-lhes as feridas.
Quase todos, então, embora ela ainda fosse muito jovem, passariam a chamá-la de "mãezinha", porque seu instinto maternal se extravasava no carinho e no afecto que distribuía a eles.
Contudo, certa vez, quando alguém, em Antioquia, propôs que os seus seguidores se denominassem "teclaianos", com veemência, ela rebateu tal idolatria, lançando-se, embora judaicamente, numa poça de lama, da qual se levantou, dizendo-lhes:
— Vejam! Eu não sou mais do que isto: lama!
Ninguém é de Pedro, de João, de Paulo, de Barnabé, muito menos de Tecla!...
Todos somos unicamente de Jesus Cristo!...
Eis que, na outra semana, em companhia de Onesíforo, Tecla deixa a casa de Eleutéria e ruma para Listra, a fim de avistar-se com Paulo e Barnabé.
Não faltaram, no entanto, uma vez mais, insinuações maledicentes daqueles que comentavam ter-se a jovem apaixonado pelo converso da Estrada de Damasco.
Maledicência que, até certo ponto, faria com que Paulo se retraísse da presença de Tecla, talvez, quem sabe, pressentindo nela a presença espiritual de Abigail, a desiludida noiva inesquecível.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:43 am

13 - Com Paulo e Barnabé
Vencendo a distância entre Antioquia e Listra, Tecla e Onesíforo chegaram à casa de Loide e Eunice, quando o Sol estava quase a se esconder e as primeiras estrelas reluziam no firmamento.
A viagem transcorrera sem maiores incidentes.
Onesíforo havia recebido duas mulas, por serviços prestados a certo homem de posses, e, assim, na companhia de Tecla, ele não teve que viajar a pé.
Logo à chegada, Alexandre, que sempre se fazia acompanhar por Timóteo, veio saudar o pai, que, descendo da montaria, o estreitou nos carinhosos braços, osculando-lhe a fronte em nome das bênçãos que a mãe lhe enviara.
— Como vai, meu filho?! - perguntou Onesíforo ao menino.
— Estou bem, papai! - disse feliz.
Este aqui é Timóteo, meu amigo.
Juntos, temos pregado o Evangelho de Jesus para os meninos de Listra.
Timóteo é um bom orador, mas sempre faz questão de que eu também fale um pouquinho...
Admirado dos progressos do filho, que, inclusive, aos seus olhos, parecia bem mais crescido, Onesíforo olhou para Timóteo, intuindo que aquele quase adolescente viria a ser um dos maiores baluartes do Cristianismo Nascente.
— Esta aqui é Tecla - apresentou a jovem que, com ele, viera de Antioquia.
Ela, como nós, se fez cristã!
As chamas da fogueira não quiseram calciná-la e os leões não quiseram devorá-la...
— Quê?! - exclamou Alexandre, enquanto, de dentro da casa, Loide e Eunice, Paulo e Barnabé, escutando a conversa dos meninos lá fora, saíam para verem do que se tratava.
Quando perceberam que se tratava de Onesíforo, os dois Apóstolos abriram largo sorriso e abraçaram o amigo com efusão.
— A paz do Senhor seja contigo! - disse-lhe Paulo, olhando com certa desconfiança para Tecla, a quem igualmente saudou sem maior intimidade - ao contrário de Barnabé, que fez questão de abraçar a jovem e abençoá-la, para, em seguida, apresentá-la às duas senhoras que os hospedavam.
— Quando pregamos em Antioquia, Tecla fez questão de ouvir-nos na palavra do Senhor e, até onde sabemos, tornou-se nossa irmã de fé!
Não é isto, minha filha?!
— Sim - respondeu a jovem, que, devido à reacção de Paulo, experimentava certo constrangimento.
— Mas - disse Eunice -, vocês devem estar cansados da viagem...
Deixem os animais com Timóteo, que lhes dará água e alimento.
Vamos entrar, pois esta casa agora também pertence a Jesus!
Vocês devem estar com fome!
Em nossa mesa, há lugar para todos!...
— Que a paz do Cristo esteja nesta casa! - falou Tecla ao pisar na soleira da porta daquele abençoado lar.
As palavras da jovem não deixaram de impressionar a Paulo, que, sempre desconfiado, aos poucos, terminaria por ser vencido em sua resistência.
Lavaram as mãos, sentaram-se à mesa e fizeram breve oração, enquanto Loide e Eunice se desdobravam em gentilezas para servi-los.
— Onesíforo, meu irmão - perguntou a anfitriã -, como está Ester?!
Tudo bem com ela e o nosso caçula?...
— Sem dúvida - elucidou.
Ela e Ruben, o nosso menor, estão muito bem...
Graças a Deus, não nos tem faltado trabalho para o pão de cada dia.
O único problema, que, para nós, não deixa de ser uma bênção, são as reacções que a nossa condição de cristãos vem despertando nas pessoas - reacções, por vezes, de hostilidade.
Não raro, certamente, a mando de seus pais, crianças nos apedrejam a casa, e os adultos mais exaltados, quando passam defronte à nossa residência, não deixam de nos dirigir palavras rancorosas.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:43 am

— Vocês precisam ter cuidado - advertiu Loide com natural preocupação.
— Todavia - interviu Paulo - nossa preocupação maior, por enquanto, não chega a ser com os gregos e nem mesmo com os romanos, mas, sim, com os próprios judeus, que parecem ver em Jesus Cristo a encarnação de alguém que lhes constitui a mais grave ameaça dentre todas as que já sofreram...
Tecla, até àquele momento, permanecia calada, sem a mínima manifestação verbal.
Foi quando Loide, com o propósito de deixá-la mais à vontade, lhe indagou:
— E você, minha filha, que nos conta?!
Em rápidas palavras, a jovem sumariou os últimos acontecimentos que lhe tinham sobrevindo após a passagem de Paulo e Barnabé por Listra.
— Minha mãe, Teóclia, não resistiu ao desgosto de me ver cristã, e o meu pai, que, com o aval de meu ex-noivo, me levou ao tribunal, teve os seus bens confiscados.
Actualmente, nada sei de seu paradeiro...
Ao ver as consequências de sua atitude, que tinha esperança de que o Prefeito me fizesse recuar, meu pobre pai se arrependeu, mas, então, era tarde.
Fui levada para a prisão, onde passei a noite, para, em seguida, ser imolada no anfiteatro.
Sinceramente, não sei como consegui escapar às chamas e à sujeição às feras...
— Certamente - observou a dona da casa -, o Senhor a protegeu!...
Timóteo e Alexandre, que já tinham cuidado dos animais, haviam entrado e, acomodando-se num canto da pequena cozinha, se puseram, em silêncio, a escutar a conversa que, sobremodo, os interessava.
Alexandre, falando baixinho ao ouvido de Timóteo, disse o que ninguém pôde escutar:
— Ah!, um dia, eu também quero morrer por Jesus Cristo!...
— Eu também! - devolveu o neto de Loide ao amigo a que se unira por laços de transcendente amor fraternal.
— Ainda estou sendo perseguida - esclareceu Tecla.
Não sei quando poderei voltar a Antioquia e mesmo a Icónio, mas sou infinitamente grata à palavra de Paulo que me converteu - graças a ele e a Barnabé é que pude conhecer o meu Salvador!...
Logo após breve pausa, Tecla prosseguiu:
— Contudo, não estou aqui para fugir ao testemunho que me espera...
Quando Onesíforo me disse que empreenderia viagem a Listra, para visitá-los, informando que Paulo e Barnabé aqui estavam hospedados, solicitei que ele me permitisse viajar em sua companhia, porque, em verdade, tenho grande sede de mais saber a respeito do Sublime Senhor...
Eu quero divulgar a sua Mensagem, falar Dele em toda a parte!...
— Falar Dele?! - inquiriu Paulo com estranheza.
Não creio que isto seja pertinente a uma mulher...
Com certeza, você poderá vir a servi-lo de outra maneira!
A Palavra de Deus no mundo, desde tempos imemoriais, sempre esteve a cargo dos homens...
Como é que uma mulher, de constituição naturalmente frágil, poderá viajar por estes caminhos tão hostis, ficando à mercê de quem possa atacá-la e desonrá-la?!
E, uma vez desonrada, como ela poderá continuar anunciando o Reino de Deus?!...
— Paulo - tentou argumentar Barnabé -, não é bem assim...
— Como não é bem assim?!
Ao que sei, o Senhor não convidou a nenhuma mulher para o seu Apostolado!
— Todavia - insistiu Barnabé -, elas sempre estiveram presentes ao lado Dele...
Não se esqueça de que, no momento da Cruz, à excepção de João, todos os seus amigos homens o deixaram!
Judas o traiu, o próprio Simão o negou e os demais não foram capazes de defendê-lo!
— Sei disso, José! - disse Paulo, que, por vezes, chamava a Barnabé pelo seu nome de origem.
Sei que as mulheres não estão fora do Evangelho...
Aliás, a mensagem do Senhor tem encontrado maior receptividade na alma feminina que na alma masculina!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:43 am

— Pois então! - ponderava o companheiro de viagem.
— Quando você se dirigiu ao Oásis de Dan, não foi na casa de Áquila e Prisca que conseguiu asilo?!
Estando doente, não era Prisca quem cuidava de sua febre e lhe dava alimento na boca?!
Onde estamos agora, senão na casa de duas senhoras viúvas que nos acolhem?!
De quantos nos ouviram a palavra em Icónio, quantos tiveram coragem de romper com todas as convenções sociais e, expondo-se a inúmeros perigos, se animaram a nos procurar para saber mais do Cristo, como esta jovem, que, de certa maneira, ao ser abandonada pelos pais, está tendo destino igual ao seu?!
A argumentação de Barnabé era forte demais, para que Paulo pudesse contestá-la.
Habituado a conviver com os Doutores do Sinédrio, estudando as Escrituras de modo literal, o grande Apóstolo dos Gentios não conseguia perceber o papel que a mulher desempenhava e ainda mais haveria de desempenhar na consolidação da mensagem cristã entre os homens.
Calculadamente, a fim de desarmar o amigo de suas objecções preconceituosas, remanescentes do Judaísmo, Barnabé arrematou:
— O Senhor, conforme sabemos e acreditamos no seu testemunho, foi buscá-lo no deserto, mas não se esqueça de que o instrumento de sua conversão ao Evangelho foi uma mulher - Abigail!
Naquele momento, tocado nas fibras mais íntimas de seu sentimento, Paulo fez pender a nobre fronte, como a ocultá-la, e não conseguiu evitar copiosas lágrimas de profunda tristeza, no que, de imediato, foi confortado por Loide e Eunice.
— Perdoe-me, Tecla! - disse, quando pôde falar.
Ainda não pude alijar de mim, completamente, o homem velho...
Estou sempre em grande luta comigo mesmo!...
— Quem não estará em grande luta consigo mesmo, meu amigo?! - ponderou Tecla, tocando-lhe, de leve, a destra.
— Porventura, você acha que não me sinto indirectamente culpada pelo que aconteceu à minha mãe e ao meu pai?!
Por vezes, passa pela minha cabeça a ideia de que fui uma filha desobediente e ingrata...
Não obstante, por amor ao Cristo, não precisamos nos esforçar para amar a nós mesmos cada vez menos?!
Desde que me converti, tenho experimentado constantes açoites por fora e por dentro, e as injúrias que me lançam à face não me doem mais que aquelas que eu mesma me tenho feito, ao pensar que, talvez, eu tenha sido responsável pela infelicidade que se abateu sobre a minha família...
— Sobre a Terra, minha jovem - consolou-a Barnabé -, para sobrepor-se à ignorância dos homens, a Verdade carece muito mais das lágrimas de quem se dispõe a testemunhá-la do que da palavra de quem se propõe a divulgá-la!
Interrompeu-se por momentos e contou:
— Eu vivia em Chipre, com minha família - esposa e dois filhos!
Desfrutava de invejável condição financeira, porque sempre procurei ser previdente.
Fazia, como de praxe, as minhas oferendas aos deuses, imaginando que, assim, estivesse cumprindo com os deveres espirituais.
Cheguei a ter muitos escravos em nossa casa, que, felizmente, nunca deixei de tratar com humanidade.
Todavia, certa vez, um de meus filhos saindo de barco para o mar, naufragou em meio a grande tempestade.
A esposa, enlouquecida, fugiu à minha vigilância e; numa noite, atirou-se de um penhasco, encontrando a morte.
Sobramos eu e o meu filho mais jovem, quando, em determinado dia, chega à Ilha um desconhecido que, observando a minha tristeza, entrou a falar do Crucificado...
Aquele homem era natural de Cesareia e tinha conhecido Jesus.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:43 am

Fez rápida pausa e continuou com as suas reminiscências:
— Diante da insensibilidade dos deuses de pedra, tornei-me cristão e encontrei grande conforto para o meu coração.
Libertei todos os meus escravos.
Depois de seis meses que a esposa se jogara de grande altura, o filho mais jovem contraiu inexplicável febre e, no anseio de curá-lo, entreguei quase tudo quanto tinha aos médicos, que não hesitaram em se aproveitar da minha situação.
Inútil, porém.
Dentro de pouco mais de ano e meio, eu havia perdido tudo que eu mais queria!
Parti para Jerusalém, onde tive oportunidade de entrar em contacto com Simão Pedro, chorando, inúmeras vezes, sobre os seus ombros a minha desdita.
Com certeza, o Senhor me queria sozinho - o Senhor me queria aqui, neste momento, com vocês!
Se nada tivesse acontecido comigo, até hoje, eu estaria acendendo incenso aos deuses, porque eu não tinha motivos para me interessar pela doutrina de um tal Homem crucificado como malfeitor...
Escutando a história de Barnabé, instintivamente, Alexandre e Timóteo se levantaram e foram se acomodar em seu seio.
Aquele homem que perdera os seus dois únicos filhos ali estava sendo consolado por duas crianças que, compreendendo a sua dor, a ele se aconchegaram com imenso carinho.
Quase todos estavam chorando, porque a verdade é que, desde que se tornara cristão, à excepção de Pedro, poucos haviam se interessado pela saga daquele homem alquebrado pelas muitas provações.
— Nada de tristeza! - reagiu e conclamou.
O Evangelho é alegria!
Acredito, sinceramente, que o Cristo conta muito mais com a nossa capacidade de amar do que com as nossas possibilidades intelectuais - disse ele, endereçando a Paulo significativo olhar.
— Anseio tanto por mais bem conhecer a Jesus! - exclamou Tecla.
— Necessito de subsídios para minha palavra...
Conheço a doutrina de Sócrates e Platão, como não sou alheia ao conteúdo de nossas Escrituras!
Através do professor que, desde pequena, meu pai contratou para me instruir, tive acesso até ao que os egípcios pensam em torno da Vida e da Morte...
Todavia - falou com certa entonação de tristeza - do Cristo, a não ser que nunca existiu alguém como ele, eu quase nada sei!
— Temos connosco - disse Paulo -, cópia de algumas anotações efectuadas por Levi...
Se você dispuser de tempo para ficar durante alguns dias connosco, escreverei um exemplar para você!
No momento, é tudo de que dispomos, mas as informações são altamente confiáveis, pois Levi, também chamado Mateus, foi um dos Doze!
— Seria, no entanto - observou Barnabé -, de bom alvitre, assim que possível você ir a Jerusalém, pois lá, principalmente com Simão e João, poderia conversar, obtendo testemunhos e esclarecimentos mais amplos.
Os dois foram dos mais próximos seguidores de Jesus e dispõem de informações precisas a respeito Dele, tanto de Seus ensinos quanto de Seus feitos.
— Farei isto - concordou Tecla.
— Infelizmente, não poderemos acompanhá-la, pois, de Listra, pretendemos ir a Derbe e, se possível, um pouco mais distante.
Estamos informados de que muitos caravaneiros cruzam essas paragens; então, aproveitaremos para falar a eles a respeito do Cristo.
O vazio espiritual que, na actualidade, as pessoas, em geral, vêm apresentando é muito grande, e a hora é propícia para a boa semeadura.
A própria vinda do Cristo é prenúncio do que estamos dizendo - não devemos nos atrasar na divulgação da Boa Nova!
Todo e qualquer serviço pertinente ao Bem não deve ser deixado para depois...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:44 am

— Contudo, se não fosse pedir-lhes muito, gostaria de ouvi-los falar sobre Jesus!
Tudo quanto vocês me puderem dizer - tenham certeza disto - não se perderá em meu coração...
Não apenas aprendi a ler como também a escrever correctamente, e o meu professor me submetia a constantes exercícios de memorização.
Portanto, do que me puderem dizer, efectuarei os meus próprios apontamentos...
— Talvez isso não lhe convenha - aparteou Paulo, preocupado.
— Por que não?! - redarguiu Barnabé.
Acredito que, quanto mais pudermos escrever em torno do que Jesus fez e ensinou, mais cooperaremos para a propagação de suas ideias.
Se Ele nada escreveu, é porque isto compete a nós outros, e, talvez, Paulo, pelo preparo que tem, você seja um dos mais indicados para tanto, não acha?!
Aonde nossas pernas não puderem nos levar, as palavras escritas poderão chegar...
E, sem pestanejar, Barnabé e Paulo, alternando-se na palavra, começaram a contar, ante o vivo interesse de Tecla e de todos os outros, inclusive de Alexandre e Timóteo.
— O Senhor - principiou Paulo - segundo pude ouvir de Simão, antes que viesse a chamá-los um a um, conhecia a todos os Doze pelos seus nomes...
Contou-me João que, ao convidar Filipe, que era de Betsaida, para segui-lo, este, estando com Natanael, que, depois, passou a ser conhecido como Bartolomeu, disse-lhe:
"Achamos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e a quem se referiram os Profetas:
Jesus, o Nazareno, filho de José.
Perguntou-lhe Natanael:
De Nazaré pode sair alguma coisa boa?
Respondeu-lhe Filipe:
Vem e vê.
Jesus viu a Natanael aproximar-se e disse a seu respeito:
Eis um verdadeiro israelita em quem não há dolo!
Perguntou-lhe Natanael:
Donde me conheces?
Respondeu-lhe Jesus:
Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira"!
— Marcos, que é meu sobrinho - explanou Barnabé - contou-me que, em certa ocasião, quando Jesus, de novo, havia saído para junto do mar, ao pregar para enorme multidão que sempre o acompanhava, "quando ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na colectoria, e disse-lhe:
Segue-me! Ele se levantou e o seguiu", de maneira incontinenti.
Não houve ninguém que lhe dissesse "não", à excepção de Judas, que era de Iscariotes, por cuja resposta, pacientemente, esperou durante três dias.
— Nicodemos - tocou Paulo em assunto que, dentre outros, motivara Tecla ir ao seu encontro em Listra - que conheci, posto que sempre foi amigo de meu Mestre, Gamaliel, entrevistou-se pessoalmente com ele e ficou impressionado com a sua sabedoria...
— Marcos - prosseguiu Barnabé - que, a exemplo do que tem feito Levi, pretende escrever sobre os feitos do Mestre Nazareno, disse-me que ele tinha o poder de acalmar as tempestades, sendo que, ordenando ao vento e ao mar, ele evitou que, em determinado dia, já tarde, o barco virasse, quando alguns dos Apóstolos haviam saído para pescar...
A noite avançava, mas Tecla, Loide, Eunice, Onesíforo, Alexandre e Timóteo não se cansavam de ouvir aquelas cativantes narrativas de Paulo e Barnabé, que se esmeravam em ser absolutamente fiéis ao que sabiam a respeito do Cristo.
Antes, porém, que se recolhessem naquela noite inesquecível, Tecla, que já se identificara pela sua independência de pensamento e as suas preocupações de ordem filosófica, perguntou a Paulo:
— Teria sido somente no encontro com Nicodemos, o doutor da lei, que o Mestre fez referência à necessidade de o homem "nascer de novo"?!
E por que motivo, quando tive oportunidade de ouvi-lo em Icónio, você não mencionou o assunto, que, entre os gregos e mesmo entre alguns romanos que se dedicaram a estudar os ensinos dos druidas, quando da conquista das Gálias, nos anos 50, sempre foi de grande transcendência?!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:44 am

14 - "Casa do Pão"
Não, Tecla - respondeu Paulo, que, aos poucos, ia se conformando inevitavelmente à inteligência da jovem estudiosa - ao que sei, não foi somente no encontro com Nicodemos que o Cristo se referiu à necessidade do "nascer de novo"... Todavia, as lições Dele sempre se centraram na necessidade de o homem renovar-se intimamente, porque o renascimento - como você disse -, cuja doutrina também é apregoada pelos gregos, é fenómeno de natureza periférica.
Sim, porque o Cristo insistia em que, em essência, o renascimento deve acontecer no mundo interior da criatura.
— Compreendo - replicou a interlocutora - e, neste sentido, concordo, porque, em verdade, o renascer no corpo físico, através das múltiplas existências, apenas surtirá efeito, se cuidarmos de nosso renascimento espiritual...
— Daí, em nossa palavra, darmos ênfase ao renascer espiritual da criatura, sem o qual, evidentemente, o renascimento físico não passará de operação quase nula em seus efeitos de ordem moral.
Finalmente, diante das explicações de Paulo, ela estava compreendendo a aparente omissão dos cristãos primitivos no que tange à Lei da Reencarnação, quer em seus escritos ou em sua palavra verbalizada.
Porém, a admirável servidora do Evangelho não era de dar-se por vencida com facilidade e, assim, voltou a argumentar:
— Apenas me preocupa outro ponto - falou com a sua profunda acuidade intelectual.
O conhecimento da doutrina do "nascer de novo", vinculada às consequências da menor acção que o homem possa vir a praticar contra si ou contra o próximo, o tornaria mais responsável pelo próprio destino...
Temo que a nossa omissão, neste sentido, venha a incutir, na mente humana, a redenção obtida através da suposta comodidade da lei do menor esforço.
— Como assim?! - interrogou Paulo, impressionado com a percepção de Tecla.
— É simples - elucidou ela.
Se a crença da unicidade da existência se disseminar, como, aliás, imagino que acabará ocorrendo, concorreremos para que se espalhe lamentável equívoco de interpretação no campo da evolução do espírito.
Incorreremos no erro do Judaísmo, cuja doutrina se alicerça na ressurreição da carne, no dia do Juízo Final!
— Não, absolutamente - contestou Paulo.
O Cristo não falou em ressurreição da carne...
Tenho procurado esclarecer o ensino "semeia-se corpo animal e colhe-se corpo espiritual"!.
Ele mesmo, o Senhor, não esperou pelo dia do Juízo Final para ressurgir da morte...
Tive oportunidade de vê-lo, com os meus próprios olhos, completamente redivivo, quando; por mercê de sua misericórdia, deliberou buscar-me no deserto de meus desenganos!
Eu não creio que connosco, os adeptos de sua Mensagem, isso venha a ocorrer...
— Contudo, o risco é grande - advertiu Tecla.
O homem precisa tomar consciência de que é o artífice de seu próprio futuro e que, inevitavelmente, responderá por todas as suas atitudes.
Entre os hindus, os egípcios e os gregos, este importantíssimo facto é inconteste.
— Aqueles povos são pagãos! - contra-argumentou Paulo.
— Tão pagãos quanto ainda são os romanos e quanto nós o éramos, até ontem...
Antes da crença no Deus único, que Abraão nos ensinou, igualmente, éramos um povo idólatra!
E você se engana num aspecto - frisou a jovem, cujos dotes de inteligência se faziam cada vez mais admirados por todos.
Sócrates e Platão não eram pagãos...
Porque não concordava com o politeísmo é que Sócrates foi levado a julgamento e condenado à morte pela cicuta!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:44 am

— Os gauleses, citados por você - prosseguiu Paulo - eram povos bárbaros...
A crença no "nascer de novo", entre eles, não teve maiores consequências de ordem moral para a sua civilização.
— Não podemos generalizar...
Segundo alguns informes produzidos em Roma e, especialmente, pelo próprio Júlio César, autor da conquista das Gálias, em seu "De Bello Galico", iniciados gauleses, denominados "druidas", enfrentavam, naturalmente, oposições de carácter doutrinário - oposições semelhantes às que a doutrina do Cristo vem enfrentando agora!
Portanto, embora respeite profundamente a sua opinião - ponderou Tecla - acredito que seja de fundamental importância disseminar-se a doutrina do "nascer de novo", para que o homem não continue vivendo na ilusão de que, após a morte, ele se deparará com uma situação definitiva para o seu espírito...
A noite já tinha avançado pela madrugada, quando, deliberando colocar ponto final no diálogo para o qual não mais lhe sobravam argumentos, Paulo, também observando o cansaço de Loide e Eunice, concluiu que, logo à próxima oportunidade, eles poderiam continuar com a discussão.
Alexandre, filho de Onesíforo - que, mais tarde, reencarnaria como Orígenes, valoroso exegeta e teólogo grego (185-254) que proclamou o restabelecimento da Lei Natural da Reencarnação negada pelos fundamentos judaicos predominantes -, comentou com Timóteo:
— Tecla tem razão, você não acha?!
Compreendi perfeitamente as explicações dela...
— Não sei - respondeu Timóteo.
Sem dúvida que, em tudo isto, existe muita lógica, mas voltar a nascer neste mundo?!
De minha parte, eu não gostaria...
Preferiria que não fosse assim!...
— Preferir por preferir, eu também preferiria que não fosse! - disse Alexandre, deitando-se, ao lado de Timóteo, numa esteira estendida no chão.
No outro dia, antes de o Sol raiar completamente, Loide e Eunice estavam já preparando o desjejum, assando alguns pães em forno de pedra, cujo agradável aroma se espalhou por toda a casa.
Mal haviam todos se levantado, batendo à porta da casa, quatro mendigos, sendo três homens e uma mulher, esmolavam algo para comer.
— Há dois dias, nada temos para saciar a fome - adiantou-se a mulher, dizendo:
Não temos lugar certo de morada...
Não conseguimos pagar os impostos, e os nossos bens nos foram confiscados.
Por caridade, um pedaço de pão!...
Condoída com a situação do grupo, a dona da casa, abrindo a porta de pequeno cómodo anexo à residência, convidou-os a que entrassem e procurassem descansar um pouco.
Logo, ela haveria de alimentá-los.
Eunice, sempre pronta a colaborar com a mãe, impressionada com o aspecto sofrido dos quatro recém-chegados, serviu-lhes água pura, não sem antes dizer:
— Esta água foi, ontem à noite, abençoada em nosso momento de oração familiar...
Ela também é remédio!...
Inteirados a respeito do assunto, Paulo e Barnabé, que não perdiam oportunidade de pregar o Evangelho, esperaram que o grupo se alimentasse para, em seguida, distribuir entre os quatro pedintes o alimento espiritual de sua fé.
— Que Deus os recompense! - agradecia a mulher, emocionada.
Estamos de viagem...
Tenho um irmão que mora em Perge.
Ele é possuidor de extensa gleba de terra e, com o meu esposo e meus dois cunhados, espero encontrar trabalho.
Agora, esta é a nossa derradeira esperança neste mundo...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 27, 2018 9:44 am

— Não! - exclamou Paulo.
A nossa única esperança neste mundo é Jesus Cristo!...
E entrou a anunciar-lhes o Evangelho.
— Então - inquiriu o esposo da pobre senhora -, o Messias já veio?!
Meu cunhado, em Perge, não está sabendo disso!
Vocês já passaram por lá?!...
— Sim - respondeu Paulo -, mas não pudemos nos demorar muito.
Havia sido em Perge que João Marcos, filho de Maria Marcos, irmã de Barnabé, tomara a decisão de não continuar seguindo viagem com eles.
O imprevisto fizera com que Paulo, aborrecido com o episódio, quase altercando com Barnabé, tomasse a decisão de seguir adiante, na direcção de Antioquia.
— Pois temos aí um excelente pretexto para estarmos com meu irmão Ibraim - alegou a pobre senhora.
Da última vez em que estivemos juntos, chegamos a conversar a respeito do assunto, e ele me falou da vinda iminente do Messias...
— Pois Jesus Cristo já veio - endossou Barnabé - e, infelizmente, não pôde demorar-se muito connosco...
Para nossa grande desdita, nós o rejeitamos!...
— Como ele foi morto?! - inquiriu aquela senhora, para quem Loide estava preparando pequena sacola de provisões.
— Crucificado! - respondeu Paulo.
Ele deu cabal cumprimento a tudo o que as Escrituras falavam a respeito do seu advento.
Porém nenhum osso lhe foi partido...
Antes que anoitecesse, ele expirou, e, por intercessão de um amigo, de nome José de Arimateia, seu corpo foi liberado para que recebesse sepultura digna.
Conforme dissera a seus discípulos, eis que ressurgiu no terceiro dia - por testemunho disso, seu túmulo permanece vazio!
— Seu corpo não teria sido roubado?! - indagou um dos homens do grupo.
— Não! - tornou Paulo com veemência.
Esta foi a falsa notícia que os escribas e os fariseus andaram espalhando, mas a verdade é que, para que não se deteriorasse, ninguém sabe o que Ele mesmo fez com seu próprio corpo...
Alimentando-se e levando consigo as sementes da Boa Nova, o grupo partiu em direcção a Perge, não sem antes oscular as mãos de seus benfeitores.
Tecla, que tudo acompanhara com imensa alegria, se viu tomada de nova admiração por Paulo, que, de facto, se mostrava incansável semeador das verdades do Evangelho - era como se ele, num átimo, quisesse fazer chegar a todos os homens, notadamente aos considerados gentios (estrangeiros e não-profitentes da Fé Cristã), a Mensagem do Cristo!
E notou que, justamente por ter sido ele, o ex-rabino, ferrenho opositor da Boa Nova, laborava como se desejasse correr atrás de si mesmo, no propósito de, se possível, fazer recuar o tempo até ao dia fatídico em que condenara o jovem cristão Estêvão à morte por apedrejamento.
Paulo e Barnabé precisavam ir para o trabalho de confecção de tapetes, e, sendo assim, despediram-se de todos, apenas levando Timóteo em sua companhia, que, embora a pouca idade, o patrão admitira como aprendiz em sua fábrica.
Eis quando a jovem de Icónio, enquanto Onesíforo entrara em conversação com o filho amado, Alexandre, pôde permanecer mais a sós com Loide e Eunice, suas devotadas anfitriãs.
— Loide - começou ela a dizer -, eu creio que tudo devemos fazer para que a Mensagem do Senhor alcance os corações...
Pelo pouco que já pude ouvir a respeito, ele também sempre andava preocupado com as necessidades materiais do povo - alimentando famintos, curando doentes...
Jesus, ao contrário de muitos sábios cuja vida pude estudar, não foi simplesmente um teórico de suas ideias!
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:22 am

O Cristo era um homem de acção - ao mesmo tempo em que se defrontava com os doutores da lei e expulsava os vendilhões do templo, ele se mostrava extremamente compassivo para com os sofredores...
Em várias ocasiões, Ele os alimentou e confortou!...
— É verdade - concordou a anfitriã, que, atenta, seguia o raciocínio de Tecla.
— Por que - prosseguiu a jovem - ao lado da instituição fraterna que Paulo e Barnabé fundaram em sua casa, vocês não instituírem pequeno serviço de assistência aos desvalidos, semelhante ao que Simão estabeleceu em Jerusalém?!
No Sermão da Montanha, o pão que o Senhor multiplicou para a multidão, para essa mesma multidão se fez o veículo da luz, através das palavras das Bem-Aventuranças!
Hoje, pela manhã, chegaram à casa de vocês quatro mendigos - foram convidados a entrar, a descansar e, depois, de convenientemente alimentados, ouviram de Paulo a mensagem da Boa Nova!
— Quanto ficamos felizes com isso! - exclamou Eunice, sempre ao lado da mãe.
— Sou de opinião que núcleos como o da "Casa do Caminho", em Jerusalém, carecem de multiplicar-se por toda parte...
Mais que na Verdade, é no Amor que a Palavra do Cristo se vitaliza!
O Cristianismo, surgindo com uma diferente proposta filosófica para a Humanidade, carece de ser uma filosofia de diferente aplicação. Vocês não acham?!
— Perfeitamente! - responderam em uníssono.
— E, para tanto, nossa casa está às ordens - fez questão de frisar Loide.
— Portanto, eis a minha sugestão:
Seja aqui um posto de permanente socorro a andarilhos...
E eles são tantos por estes caminhos!
Quem, porventura, vier bater-lhes à porta, em vez de "pão e circo", terão "pão e Evangelho"!...
— Excelente ideia! - concordou Loide de imediato.
Nós, que podemos fazer tão pouco pela Causa, poderemos, então, fazer alguma coisa...
— E Timóteo - emendou Eunice, com justo orgulho do filho - no campo da palavra, poderá fazer as nossas vezes, porque eu e mamãe não fomos agraciadas com este dom...
— Não obstante, vocês foram agraciadas com um dom mais importante: o dom do coração!
Acreditem: amar é tudo!
Ah! - lamentou-se a jovem Tecla -, como eu gostaria de que o meu chamamento para servir a Jesus não me requisitasse tanto no campo da inteligência!
Percebo, contudo, que o Senhor não me possibilitou tantos anos de estudo, com o privilégio de meu pai poder contratar um professor particular para me instruir, para que os conhecimentos adquiridos de nada me valessem a fim de colocá-los a serviço Dele!
Confesso-lhes, no entanto, que, de certa maneira, isto me dói no espírito, porque as lições do Cristo não são para serem debatidas, mas, sim, para serem vivenciadas!
— Minha filha - falou a bondosa viúva, com inspiração -, o Evangelho precisa de você como você é...
Quando que uma mulher poderia levantar-se numa das sinagogas dos judeus e fazer livre uso da palavra?
Os nossos serviços sempre foram requisitados para servir os homens - na cozinha, na limpeza da casa e na tarefa de ser mãe dos filhos que pretendessem gerar!
Nunca sequer fomos ouvidas em nossa vontade de querermos ser ou não ser mães!
Não interprete mal o que eu estou lhe dizendo...
— A senhora está com a razão! - replicou Tecla.
Por testemunhar de perto, em minha progenitora, a vida que uma mulher levava em nossa sociedade, é que eu, desde pequena, ansiava por uma vida diferente, numa religião que não nos fosse tão opressora!
Se, através da palavra de Paulo, em Icónio, eu não tivesse encontrado esse "Deus Desconhecido", a que Sócrates também se referia, eu não sei o que teria sido de mim!...
Com todo o sofrimento que me possa esperar nos testemunhos que hão de vir, como, aliás, já vieram para mim, com certeza, eu estaria sofrendo muito mais!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:22 am

— Onesíforo - disse-lhe Loide -, contou-me, rapidamente, o que você suportou em Icónio e; depois, em Antioquia, sob o despotismo fanático do Procônsul e do Prefeito...
Erguendo as mangas do manto que trajava, Tecla mostrou a ambas as marcas roxas que as amarras lhe haviam deixado nos braços, quando fora atada ao poste, a fim de ser queimada viva.
— Todavia - explicou-lhes -, isto não foi o pior, porque o Prefeito de Antioquia, percebendo a fragilidade de meu pai, não hesitou em, diante dele, se me insinuar com lascívia, prometendo tudo esquecer, se eu cedesse aos seus intentos de homem vulgar.
A atitude dele reforçou em mim o que penso do propósito da maioria dos homens com as mulheres...
E gracejou:
— O que Paulo pensa a respeito das mulheres é quase o que eu penso a respeito dos homens!
E, neste campo, pressinto que as nossas opiniões sejam inconciliáveis...
Loide e Eunice sorriram.
Envolvendo-se nas fainas da casa, o dia passara depressa para as três irmãs, cujos laços afins eram anteriores aos laços de amizade que tinham passado a uni-las naquela existência, nos compromissos assumidos em plena Vida Espiritual,
no sentido de cooperar com a implantação do Evangelho na Terra.
À noite, todos estavam novamente reunidos, e, então, antes da pregação de Paulo e Barnabé aos que tinham sido convidados para ouvi-los falar, Loide e Eunice comunicaram o seu intento de transformar o próprio lar num pouso de paz para os peregrinos.
— Não dispomos - explicou a viúva - de tantos recursos assim, mas confiamos no Senhor.
Ele, que transformou água em vinho e multiplicou alguns pães e peixes para uma grande multidão, nos auxiliará a socorrer os mais carentes - quem sabe, até mesmo alguns irmãos que, por aqui passando, espalhando a Boa Nova, necessitem refazer energias para a continuidade do trabalho.
E, de fato, assim foi.
Enquanto viveram, as duas senhoras converteram a própria casa num dos principais pontos de referência do Cristianismo Nascente.
Timóteo, não obstante as viagens que fazia na pregação da Mensagem Cristã, inclusive indo a Éfeso, onde Paulo, igualmente, fundara uma entidade cristã, não lhes abandonou a companhia.
Conta-se que, certa vez, um centurião romano, que por ali passava com parte de seu destacamento, travou conhecimento com as duas senhoras e tanto se tomou de simpatia por elas, que, fazendo-se cristão, as colocou sob a sua protecção, periodicamente, lhes encaminhando, inclusive, recursos financeiros para a tarefa de assistência!
Este oficial era Abenadar, árabe de nascimento, que havia, com seus comandados, montado guarda no Calvário, quando da crucificação de Jesus.
Seu oficial subalterno, que também se fez cristão, era Cassius, que passaria à História com o nome de Longinus.
O certo é que, em Listra, a casa de Loide e Eunice, à semelhança da "Casa do Caminho", em Jerusalém, passou a ser conhecida como "Beth-Lehem", "Belém", que significa "Casa do Pão", pois todos os famintos do pão material e espiritual ali recebiam farto alimento para atenderem à sua fome.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:22 am

15 - Rumo a Jerusalém
Despedindo-se de Loide e Eunice, Alexandre e Timóteo, Paulo e Barnabé, Tecla, em companhia de Onesíforo, retorna a Icónio, com a intenção de seguir viagem a Jerusalém.
Naqueles tempos, para uma mulher, viajar sozinha representava extremo perigo, porque os caminhos estavam repletos de homens que viviam à margem da lei e que não hesitariam em não apenas assaltar, principalmente, uma jovem que estivesse viajando sem companhia.
Noutras oportunidades, a Primeira Mártir do Cristianismo voltaria a se encontrar com Paulo, que, a pouco e pouco, vinha aprendendo a admirar-lhe o amor à Causa do Evangelho.
Vencendo a distância existente entre Listra e Icónio, logo que chegou, Tecla, aproveitando-se de que anoitecia, dirigiu-se à sua antiga residência, a qual encontrou completamente depredada.
Com o sucedido, ante o confisco dos bens de Mésimo, seu pai, a casa fora invadida por vândalos que pilharam todas as obras de arte e haviam tentado incendiar a biblioteca.
Onesíforo, ao se despedir, colocou-se à sua disposição.
Ele precisava voltar para casa e retomar o trabalho.
Alexandre ficara em Listra, na casa de Loide, empreendendo valioso estágio espiritual que viria a transformá-lo num dos principais nomes do Cristianismo dos tempos primitivos.
A sua dedicação ao Cristo era tamanha, que o próprio Timóteo, carinhosamente, passara a chamá-lo de Alexandre de Jesus.
Demorando-se na biblioteca, que, desde menina, frequentara, entre as cinzas e os pergaminhos que se haviam queimado pela metade, Tecla abaixou-se e apanhou no chão alguns fragmentos prodigiosamente escapados ao incêndio.
Eram valiosíssimos para ela, pois fora neles que tivera oportunidade de estudar o pensamento de Sócrates, notadamente alusivo à Reencarnação.
Com lágrimas nos olhos, pôde ler num desses documentos:
"Não são as almas dos bons; são, porém, as dos maus que se vêem forçadas a vagar por esses lugares, onde arrastam consigo a pena da primeira vida que tiveram e onde continuam a vagar, até que os apetites inerentes à forma material de que se revestiram as reconduzam a um corpo"...
Ela ainda não conseguia entender, tanto no Judaísmo quanto no Cristianismo, o porquê da omissão em relação à crença nas vidas sucessivas ou, pelo menos, o motivo de tal crença não ser difundida com maior clareza.
Se Jesus, ao dialogar com Nicodemos, afirmara a necessidade de se "nascer de novo", afora as afirmações que fez aos Discípulos quanto a Elias em João Batista e quanto ao cego de nascença - ambos os episódios constantes de Malaquias, 4.5,6; Mateus, 11.14; Mateus, 17.10-13; Marcos, 9.11-13; Lucas, 1.17; e João, 9.1-3.
Súbito, enquanto pensava, a luz da inspiração veio clarear-lhe a sombra da dúvida que, desde que conversara com Paulo a respeito, lhe perpassava o espírito intelectualmente inquieto, sempre ávido de novos conhecimentos.
Naquele instante, foi como se uma voz inarticulada lhe soasse na acústica do ser, dizendo:
— Tecla, a crença nas vidas sucessivas não tem sido tão aceita entre os judeus, porque, tendo sido feitos escravos no Egipto, eles jamais poderiam admitir, por exemplo, que um judeu renascesse na condição de um egípcio ou que um egípcio reencarnasse na condição de um judeu...
Assim, num átimo, ela tudo compreendeu.
Os judeus, do ponto de vista racial, eram exclusivistas demais, para aceitar a mais universalista de todas as crenças - a Reencarnação!
A questão, pois, não era tão simples quanto ela imaginava, porquanto os judeus, espíritos exilados de Capela, eram os que, lá, mais se haviam comprometido no campo da fé religiosa, responsabilizando-se pelos desvios que induziram grande parte dos capelinos à incredulidade.
Daí, ao longo da História, a luta incessante do povo judeu pela crença no Deus único e, neste sentido, o seu excessivo conservadorismo, que, inclusive, impediu, até os dias atuais, de aceitarem o Cristo completamente.
— Paulo tem razão - monologou Tecla.
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:23 am

Precisamos dar ênfase à moral que o Messias nos ensinou, porque esta é a necessidade imediata das criaturas...
Discussões de natureza filosófica apenas fariam que nos desviássemos do foco pertinente à nossa indispensável renovação íntima.
No momento certo, a verdade da Reencarnação será trazida à evidência...
E, então, talvez um tanto mais libertos de seus preconceitos de toda ordem, os homens se predisporão a aceitá-la sem tanta resistência.
Enquanto assim reflectia, Tecla escuta passos de alguém que caminhava pelos cómodos de sua antiga residência.
Quem seria?! Um salteador que vasculhasse a casa em busca de algum remanescente objecto de valor?
Alguém que, com a chegada da noite, procurasse um lugar onde pudesse dormir?!
Permaneceu em silêncio e, caso viesse a se sentir ameaçada, disposta a empreender fuga por uma das portas laterais da construção.
Contudo, em meio às sombras, pôde divisar o vulto de uma mulher que, vagarosamente, deslizava...
Reconheceu-a de imediato.
Era Acácia, a escrava que, durante anos, servira Teóclia, sua mãe, e que sempre a tratara com maior ternura que a própria progenitora.
— Acácia! - exclamou Tecla, ao vê-la.
— Tecla! - assustou-se a pobre senhora, supondo que, a essa altura, a jovem já estivesse morta.
Estarei tendo uma visão?!...
— Não, sou eu mesma, minha boa Acácia!
Você não está me reconhecendo?!
Ainda não foi da vontade do Senhor que eu deixasse esta vida...
— Menina! Por onde você andou?!
Como foi que conseguiu escapar da prisão?!
Não deveria ter voltado a Icónio...
— Estou de passagem para Jerusalém...
— Então, é verdade?!
Você tornou-se mesmo cristã?!
— Sim, Acácia, pela graça de Deus, eu sou cristã!...
— Pois eu também sou, Tecla!
O Cristo parece ter vindo ao mundo para todos os que vivem oprimidos e sem esperança...
Ele é tudo quanto resta àqueles que nada têm!...
— ...e que, com Ele, tudo passam a ter! - emendou a jovem com alegria.
— Você não pode permanecer na cidade - alegou a antiga serviçal de sua casa.
Não faltaria quem fosse denunciada ao Procônsul.
Não convém que sequer pernoite em Icónio.
— Após a morte de minha mãe, que aconteceu a você?!
Conte-me!
— Ah, Tecla!
Não pude encontrar emprego em parte alguma.
O povo, em geral, considera que sua família foi vítima de uma maldição e, consequentemente, os que trabalhávamos com ela...
— Ninguém quis empregá-la?!
— Não! - respondeu.
Tenho esmolado o pão pelas ruas...
Muitas vezes, apenas consigo algo para comer revirando o lixo que os mendigos disputam com os cães e as aves de rapina.
— Venha comigo a Jerusalém! - convidou-a Tecla.
Onesíforo não me pode acompanhar até lá e temo seguir viagem sozinha.
Planeio conhecer os que estiveram mais próximos do Senhor...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 28, 2018 10:23 am

Alguns deles, como Simão Pedro e João, ainda vivem.
Em Listra, estive com Paulo e Barnabé...
— Paulo e Barnabé?!
Aqueles dois que aqui estiveram e que foram acusados pelos seus pais de terem sido os causadores de seu infortúnio?!
A cabeça deles está a prémio na cidade...
— Disso eu não sabia!
— O Procônsul estabeleceu uma recompensa para quem consiga prendê-los!
São acusados de feitiçaria e de alta traição ao Império!
Ouvi dizer que, inclusive, com o intuito de lhes dar o mesmo destino do Cristo, o Procônsul mandou preparar duas cruzes destinadas à sua morte...
— Venha comigo, Acácia - insistiu Tecla.
Você e eu estamos sozinhas neste mundo - a não ser a Jesus Cristo, a mais ninguém temos!
Eu preciso de alguém que me acompanhe em minhas peregrinações, porque não ficaria bem que eu sempre viajasse na companhia de um homem.
Não sei quanto mais tempo de vida eu ainda terei, mas pretendo utilizá-lo, falando de Jesus, especialmente para as nossas irmãs.
— Conte comigo, Tecla! - respondeu sem vacilar a abnegada senhora.
Para mim, será uma honra continuar a servi-la...
— Não a mim, minha irmã! - replicou a jovem, que, aos olhos de Acácia, parecia ter-se subitamente tornado adulta.
— Ambas somos e seremos servas de Jesus!
Em Listra, Paulo disse, em uma de suas pregações, que Jesus, chamando-nos a si, afirmava que "seu jugo é leve e suave é o seu fardo"...
Após este rápido entendimento, as duas convertidas, caminhando de braços dados, abandonaram a casa na qual, um dia, supuseram ser a morada da felicidade, mas que agora estava quase reduzida a escombros.
Entre Icónio e Jerusalém, a distância a ser percorrida era enorme, mas, para a constituição física de duas mulheres, poderia ser considerada ainda maior.
Tecla e Acácia levaram cerca de quatro meses para percorrê-la e, extenuadas, chegaram à Cidade dos Profetas.
Ao adentrarem o vasto lugar repleto de transeuntes, puderam ouvir que o assunto que prevalecia entre as pessoas que passavam por elas era a respeito dos cristãos.
— O Sinédrio - dizia um homem exaltado - precisa tomar providências enérgicas, porque, dia após dia, esses cristãos aumentam em número e estão ameaçando nossa economia...
Estou quase arruinado em meus negócios, porque, pregando o desapego, a minha loja de quinquilharias logo irá à falência.
— Concordo com você - respondia o interlocutor.
Dizem que as sinagogas estão se esvaziando...
As doações diminuíram sensivelmente.
Sou fornecedor de uma delas e vai para mais de três meses que não recebo o que me devem.
O tal homem que morreu na cruz parece nos ter lançado uma maldição terrível!
Dizem que, antes de morrer, ele nos amaldiçoou...
Blasfemava tanto, que, para que se calasse, tiveram que lhe desfechar um golpe de lança no flanco!...
Num grupo de pessoas, que conversavam numa esquina, gesticulando, enraivecidas, Tecla e Acácia puderam escutar:
— O que essa "Casa" dos cristãos tem atraído de forasteiros a Jerusalém é impressionante - a cidade anda enfestada de ladrões e de gente em estado deplorável!
Os assaltos aumentaram e as confusões se multiplicam.
A ordem parece estar fora de controlo! Não podemos permitir que essa heresia continue a fazer seguidores!...
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Re: TECLA, A Primeira Mártir do Cristianismo - Irmão José /Carlos A. Baccelli

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