O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:11 pm

Mas é provável que ele tenha razão.
Vinham à minha mente alguns exemplos de homens de comportamento passional; eles são extremados.
Layla, agora mais calma, sentia a poeira incomodá-la e começava a pensar em atitudes práticas como um banho, roupas limpas, a necessidades de fazer suas preces e aurir novas forças.
– Irmão, seria abusar de sua hospitalidade pedir-lhe água suficiente para um banho e alguma roupa limpa?
– Jesus! É claro que não.
Perdoa minha distracção.
Tenho tão poucas pessoas com quem conversar que não percebi suas necessidades.
As minhas falaram alto demais, berraram a meus ouvidos.
Perdão. Venha comigo.
Um pequeno cómodo com uma banheira e rústicas toalhas servia como local de higiene.
Layla não pôde deixar de compará-lo, em pensamento, com as salas de banho e as grandes piscinas azulejadas, óleos perfumados e essências que faziam parte da cultura de seu povo e de sua crença.
A higiene não era só factor de saúde física, era também ritual de purificação da alma; era inconcebível dirigir-se sujo ao Criador.
O local ofertado pelo religioso cristão era rústico, mas servia aos propósitos.
– Quanto a roupas… só posso lhe oferecer uma batina igual a que estou vestindo.
Se aceitar usá-la, ficarei honrado.
“Que dia mais cheio de ironias!”, pensou a filha de Al Gassim.
– Eu é que me sentirei honrada, irmão.
Aceito sua generosidade. Obrigada.
Irmão Leon também não podia deixar de perceber e sorrir ante a ironia da situação.
Não podia deixar a jovem suja, tampouco nua em sua casa.
Tinha apenas três batinas, sendo uma usada para cerimónias de baptismo e eucaristia, que não poderia emprestar.
Restava uma. Habitaria com ele uma jovem muçulmana, sem véu, trajando uma batina cristã de homem.
A vida era hilária, brincava com todas as convenções estabelecidas pelos homens e ria-se, prazerosa, ao obrigá-los a perceber as idiotices em que acreditavam e pelas quais alguns faziam correr o sangue do semelhante.
“Por certo verei uma mulher envergando uma batina masculina, que deverá se prostrar ao solo, sem véu, em adoração a Deus, que ela chama de Alá.
E é o mesmo que considero meu Senhor.
Enquanto isso se dá sob meu tecto humilde, em outros lugares deste país cristão e muçulmanos se matam, apegados a fórmulas, vestes, rituais e símbolos.
Conceitos humanos falhos.
Separações por falta de respeito e compreensão de que é natural pensarmos de formas diferentes.
Ah! O mal da humanidade é querer, a ferro e fogo, que todos sejam iguais ao pensamento que uma meia dúzia tem como correto.
Parece que eles não sabem que o que hoje é, amanhã deixa de ser”, reflectia irmão Leon enquanto ia buscar a veste sacerdotal para emprestar à mulher muçulmana raptada.
Ao cair da noite, quando já se via a lua crescente no céu, eis que naquela planície solitária a cena inusitada prevista pelo religioso aconteceu.
Layla, vestida com a batina sacerdotal católica, no pátio, prostrada ao solo, voltada na direcção de Meca, recitava a sura primeira do Alcorão com profunda devoção.
Irmão Leon, segurando o terço ajoelhado em frente ao singelo altar, desfiava suas contas.
E o clima era de paz, leveza, no ambiente rural que os cercava.
Cada qual harmónico com a própria natureza, respeitando, como irmão, o outro.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:11 pm

EM CÓRDOBA
Após uma semana, adentrava a trote lento pelas ruelas do mercado de Córdoba o primo do Califa e um guerreiro com o rosto inchado exibindo alguns hematomas entre as faces e o queixo.
O povo olhava os cavaleiros com curiosidade, perguntando-se:
Donde teriam vindo?
Por que chegavam à luz meridiana do sol com as roupas empoeiradas, cansados e com os cavalos sujos com marcas de terem entrado em banhados e matas?
Será que em nenhum lugar tinham encontrado casas de banho?
Era horrível sentir-se impuro, murmuravam entre si os mercadores e seus fregueses.
Alheio ao burburinho, mas ciente do lamentável espectáculo que proporcionavam, Munir esporeou o cavalo exausto.
Tinha pressa de chegar à sua residência.
Trazia a mente tumultuada, sem descanso.
A todo instante maldizia a rebeldia de Layla.
Odiava-a pela fuga que o colocara no ridículo da incompetência.
– Maldita! Mil vezes maldita!
Haverá de padecer pelo que me fez.
Ingrata! Eu lhe daria boa vida em Córdoba.
Honrada, digna.
Mas a maldita teve que me afrontar – dizia ele para si mesmo e frequentemente repetia a ladainha ao guerreiro que balançava levemente a cabeça, concordando.
A dor que sentia pelos dentes quebrados e o maxilar machucado tirava-lhe o raciocínio, Era mais fácil concordar.
Como a memória pode ser curta!
Especialmente entre homens cujo comportamento ainda é dominado pelo interesse pessoal.
Ela é tão curta.
Altera-se com tanta facilidade para atender ao sabor da interpretação fazendo com que, não raro, o mentiroso creia em sua mentira.
Com munir se dava o fenómeno.
Esquecera-se da elegância com que seu pedido de casamento fora recusado.
Nasser Al Gassim primara pela boa educação e cuidado para o ferir nem magoar.
Apagara da lembrança que Layla não incentivara nenhuma de suas investidas; que falhara em todas as tentativas de cortejá-la.
Aliás, fora indelicado insistindo.
Agora se acreditava um homem apaixonado e humilhado.
Uma vítima injuriada da beleza de uma mulher rebelde.
– Mulheres são criaturas do mal.
É preciso ter muito cuidado.
Aquela maldita é o próprio mal.
Quem iria imaginar a possibilidade de uma jovem, bem-nascida, enfrentar três homens armados.
Uma gata selvagem! Furiosa!
Você lembra os olhos dela?
Nunca vi nada igual, mais negros que um abismo.
Por Deus, ela espumava de brava.
Dissimulada.
Com a fala arrastada, em razão dos machucados na boca, o acompanhante do emir indagou:
– Que seráá dela ag… gora? Es tááá… sozinha. É…
cerrrtoo agir assim com… uma mulher?
Nãão deevemos protegê-las… e… e zelar por sua honra?
A pergunta ecoou na consciência de Munir; mas, com pouco efeito, como uma pedrinha minúscula lançada ao lago.
A repercussão foi inócua.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:11 pm

– Não é o caso daquela maldita gata, furiosa.
Não precisa de nenhum homem para defendê-la.
Nós é que… – e, ao perceber a quase admissão que fazia, calou-se.
Excitou o cavalo exigindo mais velocidade.
Nesse estado de ânimo chegou ao pátio interno da residência, localizada ao lado do palácio do Califa.
No segundo andar da construção, velado pela cortina, um rosto feminino, com a pele morena, de traços suaves, expressão gentil e humilde, distendia-se num sorriso.
AO mesmo tempo, um suspiro de alívio escapava de seu peito.
Seu marido estava bem, regressara ao lar.
Era o fim dos dias e noites de aflição.
Alegre, chamou a criada que a servia e ordenou:– Ximena.
Desça e transmita minhas ordens para que preparem o banho, alimentos e os aposentos do emir que acaba de retornar de viagem.
– Sim, senhora Amirah – respondeu a moça, abandonando a arrumação que fazia nos pertences da senhora para atender ao pedido.
Saía quando ouviu o último pedido, na voz tímida de sua ama, um sussurro quase inaudível:
– Ah! Diga-lhe que estou bem.
Penalizada, a pequena Ximena fez de conta que não ouvira a ordem.
“Não foi uma ordem para ser cumprida”, pensou, transitando pelos corredores e escadaria.
“Que destino cruel vive minha pobre senhora.
É rica, tem tudo e não é nada.
Nem ao menos é amada, também não sei se é amante.
É princesa, tem servos e escravos; ouro, jóias e belos trajes não lhe faltam, mas tudo isso é… nada.
Talvez dê bem pouco valor a tudo; creio que ela trocaria essas coisas, grata e feliz, por algumas outras que, às vezes, mulheres, como eu, desfrutam e nem percebem.
Que Deus tenha piedade!
Sussurrar uma ordem para que o marido saiba dela, que coisa mais triste!
Pobrezinha.
É tão delicada, tão sensível.
Ela sussurrou para não enfrentar a decepção que o descaso do marido lhe traria, para fugir ao embaraço de ver quão pouca atenção ele lhe dá.
É certo que ela queira a presença dele e o chame.
Falando, assim, tão baixinho, a pobre dá-se por satisfeita.
E a culpada sou eu – a criada é que não ouviu.
Tudo fica bem para minha ama princesa.
É uma mentira a ordem, e outra, eu não haver escutado.
Brincamos de faz de conta.
Imagino o quanto ela queira uma migalha de atenção, de carinho.
A necessidade é tanta que teme não suportar, se for negada.
Eu não entendo esses árabes:
por que casar uma mulher como Amirah com um sujeito tão… tão… detestável como é o emir?
Prefiro o que sou, simples criada.
Filha de criados, casada com um criado.
Mas ele eu chamo, eu grito.
Não mandamos recados, temos que resolver, cara a cara, o bom e o ruim da vida.
Bobo é quem vive querendo ter a vida deles, não sabem o que pedem.
Nós é que temos que valorizar a simplicidade de nossas vidas, das nossas casas; de termos que zelar apenas por nós e nossas famílias.
Sem esses compromissos.
Eu não ganho jóias, mas também não imploro carinho.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:12 pm

A alegria de um presente como um punhado de flores colhidas no campo por alguém que me quer bem é algo que ela não conhece.
Que vida triste! Miserável de amor. ”
– Olha por onde anda – esbracejou a mãe de Ximena que carregava uma bandeja e foi atropelada pela filha distraída.
Quase derrubo tudo, por sua culpa.
– Perdão. Eu vinha pensando…
– Hum! Que novidade!
Vive com a cabeça não sei onde.
Atenção no serviço muito pouca.
O emir chegou.
Tome cuidado para não tropeçar nele.
– Eu sei. Dona Amirah me mandou com ordens…
– Então se apresse.
Chega de conversa – ralhou Esperanza, afastando-se a passos largos da filha.
Ela era generosa em tudo, nas formas e no proceder; quando ralhava com alguém, esbanjava xingamentos; quando fazia afagos, era muito doce.
Não havia quem não simpatizasse com a roliça Esperanza, falante e espevitada.
A filha era seu oposto, pequena, delicada, introspectiva, gostos comedidos, calmos; preferia pensar a falar.
Porém, também encantava com sua meiguice, paciência e, em dias de dificuldade, era Ximena quem estruturava e comandava a criadagem.
Por essa característica escondida que Jamal soubera ver, ela era a criada pessoal de Amirah.
Tinha acesso directo e a qualquer hora ao Califa.
A azáfama foi pouco apreciada por Munir; não merecendo de sua parte sequer uma apalavra de gratidão pelo cuidado da esposa e pela solicitude dos criados em o atender.
“Cristo! O homem foi picado por alguma cobra venenosa.
Que mau humor!
Foi óptimo não ter “ouvido” a ordem da princesa.
Mulher alguma merece receber um marido transformado num porco-espinho.
Argh! Tomara que durma muitas horas e acorde outro”, pensava Ximena, observando o comportamento ácido do emir Al Jerrari, que não perguntou pela esposa.
***
Voltando ao dia do rapto nos vales de Cádiz e as buscas por Layla:
– Está morto – constatou Karim ao deparar-se com o cavalo da irmã.
Observando o ferimento na altura do pescoço, completou:
– Foi morto com um golpe certeiro, feito por quem está acostumado a sacrificar animais.
Esparramando o sangue entre os dedos polegar e indicador, examinou a viscosidade e completou:
– Faz horas que o mataram.
Layla saiu ao amanhecer.
– Ainda se via a lua crescente – confirmou o tratador de aves que acompanhava a expedição de busca.
– De nossa casa até aqui é pouco tempo de cavalgada.
Deve fazer horas que esse animal está morto – repetiu Karim, encarando Zafir e o pai, preocupado.
– É muito tempo a favor deles – declarou Zafir –, mas não irrecuperável.
Eu não tenho dúvidas:
Layla foi raptada.
A morte do cavalo é indício suficiente da acção de Al Jerrari.
Esse animal foi morto por um guerreiro.
Estou errado, tio?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:12 pm

– Não, sua ideia é correta.
Aquele bastardo raptou minha menina.
Deve ter sido um de seus homens que sacrificou o animal.
Agiu como se faz em batalhas quando o animal é machucado; furou o pescoço, cortando a veio e a respiração ao mesmo tempo.
Morte rápida – analisou Nasser andando em volta do animal tombado.
Lançando olhares em direcção a dois de seus servidores, determinou:
– Enterrem-no.
– Que faremos, papai?
Questionou Karim ansioso.
– Sua intuição não lhe diz nada, filho? – respondeu Nasser com outra pergunta:
– Você e sua irmã sempre tiveram uma percepção aguda a respeito um do outro, às vezes até sabiam onde era a dor do outro.
Não consegue pressentir nada sobre ela agora?
Zafir acompanhava o diálogo, interessado e pensativo.
Encarava o primo sem esconder o quanto ansiava por alguma informação, qualquer que fosse a origem, a respeito de sua noiva.
– Desde que recebemos a notícia, eu estou dizendo o que sinto.
Ninguém me deu ouvidos.
Eu sinto que Layla não tem nenhum ferimento sério.
Sinto angústia, raiva, medo e que ela tem uma determinação férrea de fugir de onde está.
O lugar me parece distante.
Eis tudo. Ah! E como gostaria que essa nossa “estranha” comunicação hoje fosse capaz de me dizer onde a levaram. Mas não sei.
– Sabemos disso, Karim.
Não se torture.
É o desespero que nos faz pedir o impossível – comentou Zafir.
Bom seria podermos voltar no tempo e ter impedido Layla de sair de casa, ou pelo menos tê-la alertado.
Mas não podemos, e o fato é que estamos todos aflitos pelo destino dela.
Eu sei que ela é uma mulher muito difícil e, sinceramente, na actual circunstância não consigo decidir se isso é bom ou ruim…
– Seguiremos para Córdoba – anunciou Nasser após ouvir, em silêncio, as colocações do filho e do sobrinho.
Acenou chamando o tratador de aves e ordenou-lhe:
– Volte. Avise minhas esposas, especialmente Farah, que seguiremos para Córdoba.
Quero satisfações daquele covarde.
– Meu pai, Layla não está em Córdoba.
Não vamos encontrá-la.
– Al Jerrari a raptou porque a queria para esposa.
É óbvio que a levou para Córdoba. Marchemos depressa.
Zafir tentou ponderar com o tio, advogando, em vão, uma busca mais detalhada no local.
Foi inútil pedir ao emir que atendesse as intuições de Karim.
Resignado, dirigia-se a Deus, silenciosamente, em fervorosa prece rogando protecção a Layla e que os conduzisse ao seu encontro.
Acabaram chegando a Córdoba dois dias antes de Munir.
A surpresa e a decepção na reunião com o Califa foram grandes.
***
Ignorando a esposa, Munir refugiara-se em seus aposentos.
Não se interessava em saber como haviam sido os dias de Amirah, tampouco tinha Ânsia de inteirar-se dos negócios de estado.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:12 pm

Eram problemas de Jamal.
Limpo, alimentado, jogara-se sobre o leito, entregando-se aos cuidados de Morfeu.
Ximena, após comunicar à ama que o marido pedira escusas – mais uma das suas mentiras para evitar dissabores a Amirah – e, alegando cansaço da longa viagem, fora descansar ciente de que a esposa estava bem, encaminhou-se a passos rápidos à residência do Califa.
Jamal ainda trabalhava, debatia com um de seus vizires{3}, quando foi informado por seu secretário de que a serva de sua irmã desejava lhe falar.
– Meu caro Ibrahim, por hoje basta – anunciou o Califa após receber o recado.
Pensarei sobre essas questões.
Assim que tiver tomado uma decisão, mandarei chamá-lo.
– Considere, Califa, que é urgente. Não podemos…
– Urgência não é emergência, vizir – alertou Jamal firme, interrompendo a fala do vizir que insistia em seus argumentos.
– Decisões apressadas costumam trazer remorsos e arrependimentos.
Tenho experiência bastante para saber medir a consequência de minhas decisões.
Vencido, o vizir beijou o solo em frente ao Califa, num gesto de submissão e respeito, despediu-se e se afastou.
– Mande entrar Ximena – ordenou Jamal, sentando-se em sua cadeira.
Ao ver a jovem e delicada serva, não pôde se furtar de apreciar-lhe a beleza.
Era uma flor morena e miúda.
Gostava de seus olhos, sempre luminosos, brilhantes.
Ela possuía a alegria típica das crianças.
Seria linda em um harém, mas preferira continuar a servir Amirah.
“Somente Alá entende as mulheres”, pensou Jamal ao vê-la se aproximar, repetindo o gesto feito pelo vizir no solo à sua frente.
– O que houve, Ximena?
– Vim informar que o emir Al Jerrari regressou à cidade e está descansando – disse a serva sem erguer o olhar ao Califa.
– Ahã… então ele encontrou o caminho de Córdoba.
Sabe por onde ele esteve?
– Não, senhor. Sei que regressou na companhia de um só dos guerreiros.
Mustafá continua desaparecido.
Idris chegou machucado.
Tem o rosto ferido.
Interrogado, é possível que ele informe onde estiveram.
“Inteligente. Esperta.
Com Munir descansando posso descobrir tudo em um piscar de olhos.
Os guerreiros de meu primo nunca primaram pela lealdade.
O mais honesto é Kiéram, ainda assim, é um mercenário”, avaliou Jamal admirando a serva.
– Obrigado por sua lealdade, Ximena. Se…
– Não é preciso, Califa – interrompeu, ousadamente, a serva.
Quando for a hora certa, eu lhe pedirei.
– Considere atendido seja o que for que desejar, Ximena – assegurou Jamal.
Ximena baixou a cabeça aquiescendo e encerrando a entrevista.
Após os cumprimentos, afastou-se ligeira para voltar aos aposentos de sua ama.
Os encontros com o Califa tinham o poder de desconcertá-la.
Necessitava de toda prudência que tinha nesses contactos.
“A felicidade não é feita de ilusões, mas de realidades e possibilidades concretas”, repetia ela em pensamento ao regressar.
Quando se esgueirava pelos portões dos fundos, viu dois guerreiros do Califa acompanhando Idris, que nervoso, gesticulava muito e falava alto:
– Mas o que quer o Califa?
Por que não pode esperar até amanhã? – indagava ele.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:13 pm

– Não sabemos – foi a resposta seca que recebeu do mais forte, fazendo Idris calar-se.
Pelo vão da porta entreaberta, Ximena os viu se afastarem.
Um sorriso de contentamento pairava em seu rosto, esquecida do abalo íntimo de minutos antes.
Na sala do Califa, não foi preciso muito esforço para que Idris contasse em detalhes a experiência vivida em Cádiz.
– Layla – murmurou Jamal sozinho, após haver dispensado seus servidores e determinada a prisão de Idris.
Que mulher estranha!
Tenho nada menos que quatro homens dispostos a pendurar o pescoço por ela.
Suas façanhas narradas por Idris são… inacreditáveis!
Onde estará?
Que direi ao emir Al Gassim?
Enquanto pensava, falando baixinho consigo mesmo, lembrou que o primeiro a lhe falar de Layla e da confusão que se avizinhava fora Kiéram.
Sem perder tempo, sua mente traçou um plano de acção e a execução não se fez esperar.
Sob o manto da noite Kiéram fora chamado e informado pelo Califa das trapalhadas do malogrado rapto.
Jamal o encarregou de dirigir as buscas para localizar a jovem filha do emir de Cádiz e trazê-la em segurança para Córdoba.
Jamal não pôde deixar de notar o brilho de admiração no olhar do cristão ao contar-lhe as façanhas de Layla.
– Conheceu a filha de Al Gassim? – indagou curioso.
– Sim, tive a oportunidade de vê-la caçando.
É uma mulher notável.
Tem grande habilidade com arco e flecha, uma pontaria invejável – declarou Kiéram sorrindo. – Comanda águias com maestria.
– Encontre a moça.
Traga-a sã e salva.
Ninguém deve saber desse incidente.
Estão comigo e pai e o noivo dela; tenho interesse em resolver essa… “história” da melhor forma.
– Farei o melhor ao meu alcance.
A região é grande, mas pouco habitada.
Não há muito lugares onde ela possa estar escondida.
– Espero que não esteja morta.
Kiéram riu e controlou-se para não gargalhar da preocupação de Jamal.
Viera de perto a força da personalidade da jovem de Cádiz.
Ela fora capaz de derrubar com sua astúcia dois guerreiros treinados; saberia sobreviver.
– Considera minha preocupação estapafúrdia, Simsons?
– Não. Fosse qualquer outra mulher, eu teria o mesmo tenor.
Mas… a filha de Al Gassim… não é como as outras.
Ela deve estar bem.
Não me surpreenderia se estivesse de volta a Cádiz.
Seria bom mandar um mensageiro, aliás, farei isso.
Despacharei alguém para lá pelo caminho mais curto, com ordens de nos encontrar no percurso feito pelo emir Al Jerrari.
Jamal franziu as sobrancelhas demonstrando dúvida e espanto ante a afirmação do cristão.
Porém nada disse, limitando-se a ruminar a própria curiosidade.
***
Karim caminhava pelas ruelas da cidade, pensativo.
O pressentimento de que Layla estava distante persistia forte.
Protestara todo caminho, de Cádiz a Córdoba, afirmando andarem em sentido contrário.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:13 pm

Mas, embora consultado, sua opinião não tivera influência sobre a decisão paterna.
Nasser Al Gassim deixara-se tomar pela ira, ficara surdo aos apelos da razão e, alheio, absolutamente alheio, a qualquer questão de fé ou crença.
A fera dominava o homem e impunha-lhe seu reino de sensações.
Sua mente arquitectava revides, planeava, mil vezes, incansavelmente, cada palavra com a qual despejaria sua indignação sobre o emir Al Jerrari e sobre o Califa.
No pensamento de seu filho ainda reverberava a frase repetida à exaustão:
– Quando um homem tem razão, até mesmo os céus se dobram a seus desejos. Isso é justiça.
“Justiça?!”, inquiria-se Karim, chutando um cascalho com o pé.
“Que valor é esse?
O que é mesmo justiça?
Eu tenho uma justiça; o Califa tem outra; meu a vê de uma terceira forma; Zafir a seu modo é diferente de todos.
Parece não haver um consenso do que seja justiça.
Eu penso e, dentro de minhas razões, me parece que sei o que seja justiça e a tenho a meu serviço.
Daí, ouço o Califa e ele me diz:
‘Nunca se apresse; nunca veja apenas um lado’.
Ele tem razão.
Eu posso, seguindo apenas o meu critério, ser injusto, quando pretendia exercer a justiça.
Oh! Deusa ingrata que nasceu da sabedoria parece que se esparrama entre os homens como o pólen das flores no vento da primavera.
Seria tão mais simples ter a quem consultar e que me dissesse o que é justiça.
É terrível esse embate entre intelecto e sentimento.
Meu pai entregou-se à ira; venceram os sentimentos.
Desespero, indignação, raiva, cada um a seu tempo e, às vezes, misturados comandam sua acção.
Já eu não consigo render-me tão facilmente aos sentimentos, creio que não sou tão passional.
Layla é paixão, mas não cega.
E eu, acho que sou razão, mas não insensível.
Alá, ao nos colocar juntos no mundo, deve ter nos dado um dom predominante.
Minha irmã foi raptada, fugiu, desapareceu.
A responsabilidade inicial é de Al Jerrari e justo é que responda por seu ato.
Mas agora as acções de Layla, quer me parecer, estão livres da condução de qualquer outra pessoa, portanto a única, ou ao menos, a maior responsável é ela.
Não acredito que esteja morta – eu saberia se ela estivesse no mundo das almas –, mas, se estivesse, não seria justo culpar Al Jerrari.
Meu pai não vê assim.
O Califa é um homem estranho.
Ponderado, talvez seja o termo.
Ele adia sua definição de justiça nesse caso.
Quer uma averiguação detalhada para dar a meu a merecida compensação.
Começo a pensar como Jamal.
Zafir é fé e filosofia puras.
Entretanto, eu vejo os sinais claros de ansiedade e indignação em seu comportamento.
Ele ama Layla, com devoção, não há dúvida.
Caso contrário não teria assumido prontamente as dores de noivo.
E a indignação dele será justa?
Só se tornou noivo de Layla numa farsa engendrada pelas atitudes de Munir.
Será que, em vez de sentir raiva, ele não deveria pensar em ser grato?
Afinal, não fosse esse tresloucado, não teria descoberto esse amor. ”
Nesse ponto de sua caminhada, o fio de seus pensamentos foi cortado.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:13 pm

Ainda que sem prestar atenção por onde perambulava, registou que estava em frente à residência de Al Jerrari e, instintivamente, seu olhar elevou-se a uma janela, sempre aberta, noite e dia, velada por uma fina cortina branca.
Através dela via um vulto feminino que lhe chamava a atenção.
Parecia uma mulher ainda moça.
Descobrira que ela tinha o hábito ou a necessidade, não sabia, de ficar horas olhando a rua.
Desde que chegara à cidade, ele passava longo tempo caminhando.
O exercício auxiliava a controlar os sentimentos conflituosos.
Durante esses passeios, certa noite, chamara-lhe a atenção a janela aberta e contra a luz do interior o vulto feminino que se revelava por trás da cortina.
A curiosidade não é privilégio exclusivo das mulheres.
Acometido desse mal, tornou-se um observador da referida janela.
Mentalmente construiu histórias e suposições sobre a habitante do aposento.
Descobriu que se tratava da irmã do Califa, a primeira esposa de Al Jerrari.
Penalizou-se, imaginando como ela deveria estar sofrendo com a atitude do marido.
Não era bobo; as mulheres aceitavam a existência de outras esposas na vida do marido, mas isso não era sinónimo de apreciar a situação.
“Por Deus, como a mente humana divaga! ”, constatou Karim, ainda admirando a janela aberta.
Não havia nenhuma silhueta próxima para excitar sua imaginação a construir fábulas.
“Que mundo fantástico esse que existe dentro de nós.
Tem a capacidade de apagar toda a força do concreto e real existente ao nosso redor.
Mas, afinal, já diziam os filósofos que o real não é palpável, e sim o mundo das ideias.
Eis a luta da alma pela supremacia do corpo e o seu direito de governá-lo.
Chega! Preciso voltar – ainda que não consiga dormir – ao palácio do Califa. ”
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:13 pm

NOVOS APRENDIZADOS – DE PRINCESA A ESCRAVA
Layla vivenciava naquela semana um inusitado aprendizado.
Admirava a forma alegre, espontânea e livre com que irmão Leon governava seu pequeno e pobre “reino”.
Descobrira que a rotina era uma trindade: trabalho, prece, diálogo.
Conhecera os outros dois habitantes: Paco e Balboa.
Homens humildes, passavam a maior parte do dia em meio ao rebanho.
A criação de animais e o cultivo de uma horta ofereciam o necessário a uma alimentação simples.
Paco era o homem de quem irmão Leon falara a Mustafá.
Na tarde seguinte à sua chegada o acompanhara no trabalho.
Logo se descobriram falando sem reservas, a respeito de suas vidas e crenças.
Estas últimas constituíam um forte elo de união e fonte inesgotável de extensas conversas.
Engana-se quem confunde forma de expressão com afinidade; e engana-se, ainda mais, se pensar que o prazer de conversar está na semelhança de opiniões.
Ele reside na existência de respeito entre os que dialogam.
Naquele pobre reino o estímulo ao diálogo era a crença em Deus e o amor a tudo que vive.
Manifestavam esses valores de forma diferente, influenciados pela cultura do meio onde nasceram; mas a essência comum era a base do diálogo, e dela decorria o respeito, a maneira de pensar e expressar do próximo.
Eram afins, embora dissimilados culturalmente aos olhos de um observador superficial.
Analisados em profundidade lá estava a afinidade:
amor, fé e uma série de virtudes nascidas desses sentimentos.
Conversavam por horas, incansáveis, sedentos de trocar informações, de entender as culturas a que pertenciam.
Em uma das noites que passou em seu exílio, após suas preces, Layla meditava sobre os eventos do dia e, espantada, percebeu que se sentia feliz, em paz, entre os homens pobres e cristãos.
Integrara-se à minúscula comunidade com perfeição.
Entregando-se à análise, pensou:
“Paco é um bom homem.
É forte. Superar todas as perdas e reveses que teve… não é nada fácil.
É compreensível que tenha vivido um período melancólico, de grande tristeza.
A esposa o abandonou, partindo na companhia de um mercador.
Preferir uma vida como escrava do invasor apenas por conforto material é uma escolha capaz de causar uma dor profunda em quem é rejeitado.
Como ele me disse:
é do sujeito se sentir um incapaz, inútil.
Depois, desatinado, viu seus filhos serem carregados para o lar de outras pessoas, separados, porque ele não conseguia se erguer do golpe sofrido com o abandono.
Quando deu por si, percebendo que a vida continuava, a situação era irremediável.
Viu que já não tinha mais com o que alimentá-los, perdera tudo.
Acabara vendo realizar-se a forma como sentira o desprezo da mulher: tornara-se um incapaz.
Sempre fora pobre e tivera tão só o necessário à custa de muito trabalho, depois ficara sem nada.
Ao constatar o facto, desesperou-se.
Abandonou a casa e gleba de terra que cultivava.
Saiu a caminhar sem destino, mendigando alimento.
Fora assim que depois de meses batera às portas do irmão Leon, escorraçado do vilarejo próximo, onde um morador em tom de deboche lhe ensinara o caminho, dizendo:
– Siga sempre em frente.
Ande em direcção à planície, lá pelo meio tem uma velha igreja, que estava abandonada havia anos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:13 pm

Mudou-se para lá um padre que cuida até de cachorro sarnento.
Vá prá lá”.
Paco adora o irmão Leon, é visível.
Deve a ele a restituição da sanidade, da dignidade e de uma razão para viver.
Deu-lhe um lar, um meio onde foi aceito.
Irmão Leon…
que pessoa fabuloso!
E Balboa não tem uma história muito diferente.
Apenas os factos eram outros.
Era um jovem que fora um menino enjeitado.
Crescera nas ruas de Córdoba, comendo restos, fazendo pequenos serviços, às vezes roubando; outras, pedindo.
Acabara perambulando em feiras e um dia fora largado desmaiado à porta do irmão Leon.
E fiou; aliás, chegou antes de Paco.
Acredito que Balboa seja capaz de qualquer acto para defender irmão Leon.
E eu o acompanharia, devo-lhe muito; eu sei.
Eles são meus compatriotas, irmãos de religião, mas eu sou filha de uma tribo árabe que invadiu e conquistou esta terra.
Ele poderia me odiar só pela raça a qual pertenço, mas… não fez qualquer menção ao assunto.
Além disso, sou muçulmana, e o mundo cristão guerreia connosco.
Tempos absurdos!
Aqui, na Espanha, somos invasores e conquistadores; lá, no Oriente, eles invadem e lutam por conquistar.
Seria tão mais fácil reconhecer que cada povo tem seu lugar, mas parece que todos querem ser Ícaros e voar além de suas possibilidades…”
Vencida pelo cansaço das actividades a que não estava habituada, a jovem adormeceu.
Na cozinha da humilde residência Paco batia a nata em uma tigela alta.
Como era estouvado, batia com a colher de pau contra as paredes do recipiente.
Irmão Leon, ocupado em despejar o leite nas bacias para talhar e elaborar queijos, lançava olhares impacientes ao auxiliar.
Não suportando mais observar o trabalho do outro em silêncio, acabou ralhando:
– Paco, será que não aprenderá a bater manteiga?
Restam três tigelas grandes.
Se quebrar mais uma, logo, logo, terá que fazer maior esforço para preparar a manteiga, pois restará somente as tigelas pequenas que comportam menos nata.
Paco mexia a nata de um lado para o outro, brincando com o creme espesso que se formava sob os golpes rudes de sua mão.
Despreocupado, não prestou muita atenção ao alerta.
Compreendeu, apenas, a parte que todos os dias irmão Leon repetia, pedindo-lhe que procurasse elaborar a manteiga com suavidade e diminuiu a força.
Entre uma tarefa e outra, na preparação dos produtos derivados do leite, irmão Leon sorriu satisfeito e elogiou:
– Melhorou bastante. Continue.
A manteiga preparada com carinho é mais cremosa.
Quando você bate com força e violência, a manteiga fica dura, consistente demais, parece graxa.
Além de, na maioria das vezes, acabar quebrando a tigela. Duplo desperdício.
– O senhor tem cada ideia – respondeu Paco, buscando na memória, inutilmente, a lembrança das manteigas e da forma como as havia preparado.
Como nunca prestava atenção aos alimentos que ingeria, não recordou as manteigas que comeu, tampouco a forma como as tinha batido. – Eu nunca reparei nessas coisas.
– Eu sei.
Mas preste atenção daqui para a frente e verá como tenho razão.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:14 pm

Tudo que fazemos demonstra nosso modo de ser, eu irmão.
Você bate com força porque seu
pensamento voa para lembranças que lhe trazem raiva; acaba espancando a nata e quebrando a tigela.
Duplo, não, triplo desperdício:
do alimento, do material e da sua energia.
A natureza não precisa que usemos força bruta.
A nata se junta e se transforma basta mexermos de um lado para o outro, com leve vigor… para não levar horas e azedar tudo.
Quando cavamos a terra, não é necessário golpear com a pá, basta enterrá-la fazendo um pouco de pressão com o pé.
São ensinamentos para que aprendamos a ser suaves.
É mais inteligente, nos desgastamos menos.
A raiva é útil, senão Deus não a teria posto em nossos seres, mas tem a hora e a maneira certa para ser usada.
Fora disso é prejudicial.
Não cultive lembranças que o atormentem.
Deixe-as ir embora, Paco.
– Eu tento – resmungou Paco e, sem notar, apertou a colher com força golpeando o creme de nata amarelado.
Mas elas voltam.
– Se elas voltam, é sinal de que não foram libertadas de verdade...
Você as afundou em algum canto do seu coração, mas não as libertou; as escondeu.
Deixe-as ir, ocupe-se do que está fazendo agora e valorize-o.
Você nem se lembra de como é a manteiga que prepara; não a saboreia, nem aprecia sua espessura.
É tão bonito transformar a natureza, descobrir as possibilidades que Deus semeou na criação para a inteligência do homem desvendar.
Eu penso em quem terá descoberto que era possível separar a nata do leite; depois, que com certos movimentos dela se separava a água da gordura e… eis a manteiga, essa delícia!
Aliás, deve ter existido uma criatura muito observadora que um dia ficou olhando as vacas amamentado suas crias e descobriu a possibilidade de tira o leite do animal.
– É, mas será que, primeiro, a criatura não tentou mamar nas tetas da vaca?
Como ficou sabendo que o leite era bom? – perguntou Paco, mostrando a visão muito terra a terra que estava tendo das ideias expostas pelo religioso.
– Para você ver como o conhecimento da humanidade necessita ser compartilhado para avançar – e, vencido, pelo argumento canhestro do companheiro, concordou:
Você tem razão; antes de alguém separar a nata do leite, um outro precisou descobrir que a vaca produz leite, que o leite é bom e… acho que alguém… um dia, pode mesmo ter se posto a mamar em uma vaca.
O aprendizado passa por caminhos estranhos para se desenvolver.
Esse último pensamento vinha se repetindo em sua mente, desde a chegada da jovem muçulmana.
A fraternidade aprendida e experimentada sob seu tecto não deixava de ser efectuada em uma situação estranha, quase bizarra.
Em outras partes do mundo, cristãos e muçulmanos faziam correr rios de sangue.
Tudo em nome do amor a Deus e na defesa de objectos e lugares sagrados.
Uma grande ironia, pois não há amor em destruir a obra do Ser Amado e nela não há conceituação entre mais e menos sagrado.
Isso faz pensar na forma como manifestamos nossos amores, se assim posso me expressar.
Que amor é esse que proclamamos?
É aquele capaz de matar; desejoso de impor-se, de dominar.
Um amor ciumento, possessivo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:14 pm

Ou tão idealizado que nunca chegamos a sentir uma única fibra do nosso ser tocada por esse sentimento, tão elevado e distante nos é apresentando.
Sabemos que o amor verdadeiro se desenvolve nesse meio.
No mais abjecto dos seres, na pior expressão da brutalidade humana, mesmo ali jazem as sementes do amor.
Talvez intocadas ou lançadas em meio a terrenos ainda incultos, cheios de vícios e carentes de virtudes, suas sementes germinam apresentando-se de diversas maneiras na conduta humana.
Por isso, nossos amores ainda são muito passionais e quase nada fraternos.
A marca da passionalidade é forte em nosso carácter.
As necessidades gritam; os sentimentos sufocam, clamando migalhas de atenção para serem conhecidos e desenvolvidos.
Eis o quadro que determina o império da paixão e o desgoverno na conduta.
A temperança, a viril virtude do autodomínio, é pouco exercitada.
Ela está um passo além do autoconhecimento.
É preciso conhecer para dominar; e é dominando que nos libertamos das escravidões morais.
Arrogantes criaturas, crentes de que são as donas da verdade, dão-nos o infeliz espectáculo de banhos de sangue e intolerância.
Nunca pensaram, seriamente, em Deus; ainda vivem as faixas de, tão somente, intuir sua existência.
Ele é apenas um nome e, o mais das vezes, um conceito vão, que usam para encobrir grosseiros interesses.
Lastimável que os homens ainda não enxerguem a si mesmos.
Pegaram em arcos e flechas, hoje usam armas mais poderosas, mas continuam demorando milénios para retirar a trave do próprio olho.
São guerreiros cegos.
A fé que é a mãe de tantas virtudes e deverá abrir as portas do amor fraternal ainda habita neles nas mesmas condições que o Criador – como algo que se intui –, sobre o qual não se pensa, não se raciocina, não se tem conceito.
Quando é necessário, chamam a Deus e professam a fé.
Ambas concepções instáveis, cambaleantes e comprometidas, regra geral, com a solução de um momento de dor, de um interessa pessoal e imediato.
Algumas dessas ideias cruzavam a mente do bondoso e incompreendido irmão Leon – o estranho padre, que se dizia irmão.
A Ordem dos Irmãos Menores era ainda marginal dentro da cristandade católica, visto, na maioria dos casos, como seguidores de um jovem italiano excêntrico.
Seguir e amar Jesus ao modo de Francisco não era tarefa fácil.
Compreender tudo que vive e respira como nosso irmão, dar primazia ao domínio do espírito, abandonar a ilusão da matéria e construir no reino invisível das mentes e corações reerguendo, ou melhor, desenvolvendo valores intuitivos soterrados, como a compreensão de Deus, da fé e do amor fraterno, subjugando a passionalidade, tudo isso requeria um missionário ímpar.
E aqueles que o compreenderam – como irmão Leon –
precisaram aceitar a pecha que os “guerreiros cegos” sempre atribuem aos que extirpam a trave do próprio olho e já não lutam, nem querem sangue, sendo chamados de excêntricos, loucos, bruxos, criaturas “meio” estranhas etc.
Suspirando, irmão Leon encarou seu companheiro, que sob o influxo das ideias e sentimento sugeridos na conversa, batia a nata suavemente.
Sorriu ao perceber a transformação e, aproximando-se do companheiro que a vida lhe ofertara, acariciou-lhe os cabelos desgrenhados e maltratados.
– Está fazendo uma linda manteiga.
Amanhã teremos uma refeição deliciosa.
Obrigado, Paco.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:14 pm

As muitas carências impostas a Paco o tornavam uma pessoa para quem alguns sentimentos eram desconfortáveis.
As manifestações de carinho e apreço, das quais tanto necessitava, eram as mais difíceis.
Uma sensação semelhante ao desconforto causado pela ingestão de alimentos sólidos após um prolongado jejum.
Um prazer e um peso, ao mesmo tempo, mesclados com uma ansiedade e uma dose de insegurança; de querer mais e temer um mal-estar, um sentimento, com a rejeição do que tanto prazer lhe trouxe.
Ele remexeu-se, nervoso e inquieto sob as mãos fraternas que o afagavam.
Por fim riu, parecendo um idiota.
Irmão Leon o observava.
Compreendia as reacções que causava e, mansamente, continuou a acariciar-lhe os cabelos.
Pensava no gesto que fazia e nas reacções que provocava.
Notando que a calma invadia seu tutelado, louvou a Deus, em pensamento, e ao cabo de alguns segundos anunciou:
– Vou dormir, Paco.
Você viu que maravilha suas mãos operaram transformando com a amor a natureza, infundindo paz em seu coração e em seus gestos?
Deus o abençoe. Boa noite.
– Boa noite, irmão – respondeu Paco, ouvindo os passos do amigo ao afastar-se.
Mexia, delicadamente, conforme entendia e expressava delicadeza, a manteiga cremosa e amarelada.
Erguia a colher com o produto de seu trabalho e olhava encantado o brilho da chama da vela reflectido.
Estava macia, bonita firme e, tomando uma pequena porção entre os dedos, constatou que ela deslizava facilmente.
Aquele contacto lhe deu prazer, satisfação.
Levou à boca um dos dedos melecados e deliciou-se ao sentir a manteiga derreter em sua língua.
Paco não saberia expressar, se alguém perguntasse, qual o sentimento que vivenciava.
Porém, observando sua fisionomia e o brilho de seu olhar, me atreveria a dizer que era o prazer de viver, de experimentar momentos de paz e satisfação.
Teimamos em buscar nas grandes coisas aquilo que se encontra nas pequenas atitudes, possíveis e, sempre, ao nosso alcance.
A paz e a fraternidade não estão encerradas em salas distantes, cercadas de segurança, tampouco dependem de papéis ou de assinaturas.
Elas estão em nós e precisam ser descobertas nas suas formas simples e acessíveis.
É assim que cada um colaborará para a realização da paz, da fraternidade, em círculos cada vez maiores de influência, usando aquilo que tem à mão, dentro de suas possibilidades.
A vida não pede nada além daquilo que podemos fazer.
***
Em Córdoba Jamal aguardava Zafir por quem desenvolvera simpatia.
Apreciava a cultura e a moderação das atitudes do injuriado visitante.
Não se demorou e ele adentrou na sala, seguindo as formalidades usuais.
– Sente-se ao meu lado, Zafir – convidou o Califa, mostrando-lhe a mesa farta, posta para ambos.
Temos muito a conversar e, acompanhado de algum prazer, ficará ainda melhor. Não concorda?
Zafir sorriu, acomodando-se à mesa como indicado.
– Por favor, não se ofenda se eu não apreciar devidamente as iguarias com que me homenageia.
Mas… tenho vivido dias muito desgastantes.
Estou preocupado com Layla; não tenho estimado, como deveria, sua hospitalidade.
Tomando um cacho de uvas brancas, após comer um grão, Jamal comentou:
– É compreensível.
Sei que lhe peço, talvez, o impossível, mas confie em Kiéram Simsons.
Ele é o melhor que temos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 8:14 pm

E um campeão, sem dúvida.
Se alguém é capaz de encontrar sua noiva, é ele.
Você ama essa jovem, não é mesmo?
Não é um compromisso por mero interesse familiar.
– Confesso que demorei a reconhecer meus sentimentos – disse Zafir rindo.
Seus olhos escuros brilharam, por um momento, escondendo a preocupação que lhe tomava a mente e completou:
– Eram como nossas barbas, entende?
– Bem abaixo de nosso nariz, mas precisamos de um espelho para enxergar – comentou o Califa rindo da comparação.
– Foi preciso a inveja de seu primo servir como espelho para que eu enxergasse meu próprio íntimo.
Estranho, não?
– A vida tem dessas situações.
Diante de uma ameaça reconhecemos sentimentos e factos que em circunstâncias normais não tomariam nossa atenção.
Creio que somos muito desatentos na maior parte de nossas horas.
Percebemos aquilo que é mais grotesco; as subtilezas… essas vivem num recanto qualquer de nossas almas, pouco visitado.
– Eis aí uma declaração inesperada – falou Zafir surpreso.
– O Califa é também um poeta, um pensador, além de um governante.
– É mau o governante não usa da falsafa{4}.
Como diz o povo, “quem não mede as consequências não tem o destino como bom companheiro”{5}.
Medir consequências é reflectir, é pensar.
Faço isso todas, ou quase todas, as horas do dia.
Especialmente, a reconhecer o motivo das atitudes humanas.
Como o meu destino carrega consigo milhares de almas, preciso ponderar muito.
É o que mais gosto de fazer durante a madrugada.
– O silêncio da noite é inspirador.
Também o prezo.
Quais são os motivos que mais aprecia nas acções humanas?
– A sinceridade.
É uma jóia rara; pouco encontrada.
Zafir balançou a cabeça, concordando.
Retribuía a simpatia de que era objecto por parte de Jamal, mas sentia necessidade de conhecer-lhe o carácter com mais profundidade, de saber como pensava e agia, a fim de determinar o grau de confiança que lhe concederia.
– E o que menos aprecia?
– A inveja.
É a mais cruel, lamentável manifestação do ser humano.
Entretanto, é a que mais identifico, em graus e níveis diversos, semeada entre o povo, desde o mais reles serviçal até eu mesmo, o Califa.
– Agora sou eu quem diz que o povo tem razão:
“nenhum corpo vivo está imune à inveja”{6}.
Absurdos são engendrados por esse sentimento.
Creio que ele tem algo de irracional…
– Ou não.
Ao ouvir a calma colocação do Califa, uma sombra de tristeza perpassou o olhar de Zafir e, de imediato, foi registada pelo observador governante de Córdoba.
Julga que disse alguma besteira muito grande e se condói da minha ignorância?
– Por Deus, que pergunta estranha. Aliás, não entendo o propósito de sua indagação.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:40 pm

– Li em seu olhar uma tristeza imensa assim que pronunciei minha discordância ao seu pensamento.
Creio que a causa seja óbvia: julga-me um ignorante pelo que disse.
– Não! Absolutamente – protestou Zafir –, louvo sua perspicácia.
De facto, senti grande tristeza ao ouvir sua colocação, mas não pelo motivo que alega.
A causa é outra.
Trata-se de Layla. Minha prima defende exactamente a mesma ideia.
“De novo essa mulher”, pensou o Califa.
Sentando-se entre as almofadas, apanhou uma taça com um suco adoçado com mel, degustando-o, gole a gole, até o final, enquanto observava Zafir com o olhar distante, perdido na direcção em que Kiéram partira em busca da jovem filha de Nasser Al Gassim.
– Fale-me de sua noiva, Zafir.
Parece-me uma mulher “incomum”.
Zafir sorriu, expressando sentimentos mesclados de ternura e tristeza; sua face modificou-se várias vezes numa pequena fracção de segundo.
Ao responder, predominava a ternura e a resignação com a torturante espera.
– Incomum. O que é alguém incomum?
Não sei se este é o termo adequado.
Por um lado, é; por outro, não. Layla é única.
Eu a definiria como incomparável.
– E o que é incomparável acaso não é também incomum?
– Não sei o que é incomum.
Para definir o incomum eu precisaria saber o que é comum.
Para dizer que Layla é uma mulher incomum, seria necessário definir o que é comum nas mulheres.
Reconheço que existem muitas mulheres com personalidades que diria habituais, vulgares, no sentido de se aproximarem gostos, pendores, sentimentos.
Visto assim, Layla é incomum.
Ela é muito distinta da maioria das mulheres.
Parece viver à grande distância das coisas cotidianas do universo de interesse feminino.
Em contrapartida, é a mais sensível das mulheres que conheço.
A mais delicada, feminina e graciosa.
Parece uma mulher como as demais.
– Entretanto não é – completou Jamal interessado.
Confesso que sinto grande curiosidade em conhecer sua prima.
Veja, ela despertou a admiração de um mercenário por sua habilidade com aves de caça.
Meu primo embrenhou-se nessa insensatez raptando-a; não posso conceber que ele não tenha tido sérios motivos para escolher justo essa moça.
Deve ser, ao menos, muito bonita.
Eu conheço meus parentes.
Interrogo dois guerreiros vencidos por ela, um inclusive, bastante ferido.
Por fim, recebo meus amigos de Cádiz em marcha à procura da jovem e, você, alguém cuja inteligência e cultura tenho apreciado… declara aceitá-la como esposa independentemente do que tenha acontecido a ela nestes dias todos em que está…
à solta, sem a protecção da família.
Deve realmente ser incomparável.
Eu confesso: nunca tinha ouvido…
Não, meu Deus, quanta asneira.
Existiram duas mulheres extraordinárias em nossa dinastia, que inclusive foram sultanas e não usavam véu.
– Layla adora falar nessas histórias de “grande senhora”.
Ela ama analisar a vida de mulheres famosas e poderosas.
Diz encontrar nesses relatos forças e esperança.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:40 pm

Mas, como falávamos antes… minha adorável prima compartilha da opinião de que a inveja não existe no domínio dos irracionais.
Muitas vezes, ela disse que os animais são mais confiáveis que os homens.
– Por serem, em essência, governados pelo instinto.
Zafir limitou-se a balançar a cabeça concordando.
O olhar distante, cravado na parede, como se a atravessasse, ia aonde julgava ser a direcção exacta do paradeiro de Layla.
– As grandes histórias de vidas humanas são mesmo um manancial de força e esperança.
Eu também as aprecio.
São ricas, ensinam a transmitem muito sentimentos.
Cada vez fico mais intrigado com a personalidade de sua noiva.
Que Alá, o Altíssimo, a proteja. Desejo conhecê-la.
Não era preciso viver muito tempo entre as paredes do palácio do Califa para identificar algumas de suas mais evidentes paixões:
as mulheres.
Zafir encarou Jamal, muito sério, imaginando se, por ventura, o importante nobre à sua
frente tinha formado uma opinião a respeito do quanto Layla diferia das mulheres daquela sociedade.
“Minha é alguém que ele nunca viu.
O que amamos nela não é visto em um primeiro olhar.
Apaixonei-me por ela a cada dia da minha vida, desde seu nascimento.
Hoje sei que esse amor transformou-se conforme ela crescia.
Creio que a amarei por todos os dias que o futuro nos reserva.
Convivemos diariamente e nunca, nem um só dia, ela foi uma companhia indesejada, desagradável.
Ela é como o sal e o mel, sabores extremos, que realçam a vida e o prazer dos alimentos.
Há momento doces e momentos salgados ao lado de Layla.
Jamal não terá tempo de apreciar essas nuances.
Ele encanta-se com a beleza das mulheres que o cercam, mas não as ama.
É apenas um querer físico, que não toca a alma.
Suas mulheres não são amadas.
Seus olhos muito raramente se iluminam de ternura.
É um bom homem, culto, inteligente, sensato; mas ninguém é perfeito.
Somente Deus é perfeição e poder.
Fraquezas são contingências da raça humana; barreiras a vencer a fim de que a alma se torne cada vez mais pura.
Jamal vence muitas barreiras, mas tropeça na sensualidade.
Essa busca desenfreada pelo prazer, que percebo nele, talvez seja expressão de uma necessidade profunda, de algo que brota nalguma cratera insondável da alma e desagua nessa fome, nessa ânsia carregada de angústia, que o impulsiona ao encontra das mulheres.
Mas que não o satisfazem. Se Layla tivesse tempo de conhecê-lo, creio que o desprezaria.
Ela ainda é muito dura em seus julgamentos quanto ao carácter alheio.
Fraquezas que geram sofrimento para uma parte e prazer para outra não a agradam”, pensava Zafir enquanto fingia prestar grande atenção à conversa de seu anfitrião.
***
Kiéram seguiu viagem, contrariado.
O dinheiro não recompensa todos os dissabores que um homem precisa enfrentar quando para merecê-lo subverte as próprias noções de moral.
A atitude de Munir raptando a jovem muçulmana feria-o em seus valores.
Não se considerava um cristão praticante, aliás, pouco importância dava à religião.
Olhava os muçulmanos, judeus e os espanhóis católicos e via em todos da mesma forma humana.
A vestimenta era fruto dos gostos; as danças, as comidas, a maneira de viver e as crenças também eram frutos de lugares distintos, de épocas e histórias próprias de cada raça.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:40 pm

Mas, antes e acima de tudo, pensava que desnudando qualquer deles, raspando-lhes barba e cabelos – cujos cortes identificavam nacionalidade e crença –, não haveria diferença.
Mesmo irritado, um sorriso esboçou-se em seu rosto como resposta imediata do que pensava.
Tinha que reconhecer que se fossem do sexo masculino, ainda assim, os judeus circuncidados se diferenciavam.
“Será que eles eram ainda mais intolerantes que os outros?”
Mataram-se entre si por divergência de opiniões quanto ao entendimento das lições comuns.
Perseguiam-se, mutuamente, dentre as várias facções; também perseguiam os cristãos, cujos membros expulsaram, esquecendo belíssimas mensagens de sabedoria que regavam sua milenar história.
A velocidade com que viaja o pensamento humano suplanta todas as formas de locomoção até hoje inventadas.
Kiéram balançava-se sobre a sela no ritmo compassado do trote do cavalo, mas sua mente vasculhava séculos de história e pensamento religioso, sem que ele se desse conta.
Em outras cidades, mais ao norte da Espanha, sob o domínio dos reis católicos, ele via intransigência exacerbada contra os praticantes de outros credos.
“Serão os cristãos intransigentes?”
Lembrou rapidamente o que sabia.
Os cristãos haviam sido, no início, perseguidos.
Os primeiros fiéis, convertidos das mais antigas crenças politeístas ou de outras seitas judaicas, tinham sido mortos pelos romanos, durante nada menos que três séculos após a crucificação de Jesus.
Usavam como símbolo um peixe, agora substituído por uma cruz.
Ele não sabia a razão.
Ao que sabia, haviam sido pacíficos e mártires.
Mas os tempos eram outros, e eles agora erguiam espadas que, ironia do destino, lembram cruzes invertidas, matando e perseguindo muçulmanos no Oriente.
Guerreavam e manchavam de sangue as trilhas por onde andara o rabi da Galileia, pregando a renovação do ser humano e suas novas de leis de amor e fraternidade, numa mensagem de tolerância, compreensão e liberdade.
Alheio a todos os preconceitos, sentava-se com qualquer um que desejasse ouvi-lo e recebê-lo, sem se importar com separações sociais determinadas por crenças, poder, nacionalidade; absolutamente nada, nenhuma dessas convenções sociais, às quais os homens se apegam tanto, o impedia de atender a quem o desejasse ouvir.
Ele não impunha sua presença, não forçava práticas exteriores de adoração, não exigia.
Ia aonde era desejado, mesmo que seus anfitriões fossem malvistos pela sociedade, que vivessem marginalizados ou lhe fossem imputadas práticas criminosas.
Nos dias que passavam, os cristãos impunham sua presença, queriam converter à força praticantes de outras crenças e guerreavam por locais de adoração exterior.
“Por Deus, que tudo está invertido nesse mundo; tão inverto quanto a troca de símbolos; de um organismo vivo que alimenta para construção humana sem vida.
De alguma forma o homem sempre diz a verdade do que pensa, ainda que sem palavras.
Não sei se são cristãos católicos ou judeus os mais intransigentes.
Creio que se igualam.
Ambos têm lindas mensagens em suas culturas e feias práticas.
O que mais estranho é que ambos se dizem povos escolhidos.
Mas os muçulmanos também se acham os escolhidos para devolver ao mundo a moral e a fé corrompidas pelos povos do livro.{7}
É bem provável que, apesar de a fé marcar o corpo e diferenciá-lo, as almas carreguem uma grande igualdade; crêem-se as melhores, as privilegiadas, as escolhidas e daí à intolerância é meio passo.
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Ave sem Ninho

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:40 pm

E cá estou eu à procura de uma muçulmana raptada.
Munir ultrapassou a bestialidade com essa acção.
Vingança. Eis aí, de novo, a intransigência; agora entre irmãos de crença e familiares consanguíneos.
Absurdo dos absurdos.
Ele não foi capaz de pensar, de negociar com seus próprios valores e entender que nem tudo que se quer se pode ter.
Há limites, dentro e fora de nós.
Detesto estupidez, por isso me irrita esta viagem.
Além do mais, é cansativa.”
O soldado que cavalgava a seu lado o arrancou do devaneio, ao chamar-lhe a atenção.
– Veja Kiéram, o vilarejo está próximo. Vamos dar uma busca para ver se encontramos a jovem?
É provável que ela tenha pedido abrigo em alguma casa.
– É claro, Romero.
Uma jovem sozinha, em sobrevivendo, deve, com toda certeza, ter procurado abrigar-se.
Já se passaram mais de sete dias desde o rapto.
Não é muito distante do local da fuga, segundo entendi pelas informações recebidas.
Espero que ela tenha o bom senso de andar pelos caminhos, e não se embrenhando nos campos e bosques; aí será impossível encontrá-la.
– As histórias em torno dessa mulher são inacreditáveis.
Enfrentar dois guerreiros e reagir a um rapto me fazem admirá-la – declarou o soldado sorrindo.
E crer que é inteligente o suficiente para escolher a possibilidade óbvia de sucesso.
Ela não tinha como saber a reacção do pai e da família, não iria aventurar-se a fugir dos caminhos.
Acredito que ela tenha pensado em voltar para casa, assim é lógico que retornasse pelo mesmo percurso.
– Pode ser – concordou Kiéram olhando de soslaio para o soldado.
Compartilhava o sentimento de admiração e respeito por Layla, mas sentiu uma espécie de desconforto íntimo, algo desconhecido, ao constatar as mesmas emoções em seu companheiro.
A vontade de conversar desapareceu; fechou-se num mutismo incomum.
Os pensamentos que antes o entretinham como que sumiram por encanto, deixando espaço apenas para o estranho desconforto, o irritando.
Aproximaram-se do vilarejo.
Indagaram, conversaram inutilmente.
Ninguém vira uma jovem muçulmana naquelas paragens.
Casa por casa, todos os habitantes questionados, nenhum resultado.
Precisavam prosseguir.
– Daqui para a frente é apenas uma enorme planície deserta – anunciou Kiéram aos soldados na saída do vilarejo.
Prestem atenção a qualquer coisa que se mova ou não, que se assemelhe a uma mulher.
Ela pode estar ferida ou mesmo morta.
Não há mais nada, que eu me lembre, nesse trecho do caminho até Cádiz.
– Eu morei em Cádiz, Kiéram – informou Romero.
Conheço a planície; cacei muito naqueles campos.
Havia antigas ruínas de uma igreja.
Acho que seria bom darmos uma busca por lá.
É um abrigo, mesmo que precário, para alguém perdido.
Kiéram ponderou a informação.
Tinha vaga lembrança das ruínas.
Não era uma rota que ele percorresse regularmente.
– Essas ruínas não ficam no caminho principal, não é mesmo?
– Não. Mas são visíveis da estrada.
Ficam entre pequenas colinas.
– Siga na frente, mostre-nos o caminho – ordenou Kiéram.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:40 pm

TEMPESTADES
Ximena cruzou com Karim na antessala do salão onde Jamal despachava.
A pequena morena chamou a atenção do jovem.
Era-lhe familiar, mas não se lembrava de onde; então, num lampejo de memória o fez identificá-la como uma das mulheres da janela do palácio do emir Al Jerrari.
Dominado pela curiosidade tomou-lhe o braço, sem cerimónia, pois reconhecera, por suas vestes a condição social de serva.
– De onde vem? – indagou gentil, surpreendendo Ximena, após ter sido agarrada pelo hóspede desconhecido.
– Sou criada da primeira esposa do emir Al Jerrari, senhor – respondeu Ximena, encarando-o sem qualquer laico de inferioridade.
– Como se chama sua senhora?
– Amirah.
– Amirah, um belo nome.
A princesa das princesas{8}.
É irmã do Califa, não é mesmo?
– Todos sabem, senhor.
Por favor, solte meu braço.
Preciso retornar ao trabalho.
Karim, constrangido, percebeu que ainda segurava a jovem.
Libertou-a, imediatamente, e pediu:
– Apenas me responda uma última pergunta; é sua senhora quem fica na janela do segundo andar do palácio do emir, velada pela cortina?
– Não sei, senhor, do que se passa em todos os aposentos e janelas do palácio Al Jerrari.
Minha senhora é uma mulher discreta e frágil que pouco sai à rua – desconversou Ximena.
Estou dispensada, senhor?
– Claro.
Karim ficou observando o andar rápido e a leveza dos movimentos da criada.
Ela parecia dançar.
A firmeza e a coragem estampada nos olhos castanhos esverdeados o impressionaram.
E, apesar da resposta evasiva, tinha certeza de que a dama que lhe intrigava era a irmã do Califa, Amirah.
Enfim, a mulher atrás da cortina tinha um nome.
Entregue a seus pensamentos, não viu que o Califa se retirara do salão e presenciara parte de seu encontro com Ximena e o olhava irritado.
– Karim Al Gassim – Chamou Jamal, despertando o hóspede de seu devaneio mental.
Por que interroga os criados?
Não conhece a sabedoria que ensina que no lar alheio não devemos ter língua nem ouvidos para relatar o que vemos e escutamos.
– Ah! Califa, desculpe meu gesto imprudente – retrucou Karim após saudar Jamal.
E tenha certeza de que não desejava em momento algum invadir a privacidade de alguém.
Pode confiar em minha discrição.
Mas tem sido longa a espera por uma solução nesse impasse que tanto sofrimento traz à minha família; assim, a fim de espairecer a mente, caminho muito pela cidade, de dia ou à noite.
E chama a tenção a janela, sempre aberta, independentemente do clima ou da hora, no segundo andar do palácio do desgraçado do seu primo.
Como sabe, não tenho nenhuma simpatia por ele, quero que sofra até ranger os dentes pelo que fez a Layla.
Porém, a mulher que vejo, despertou minha simpatia.
Parece tão jovem e como a vejo sempre próxima da janela, mas nunca a encontrei no palácio, a curiosidade desenvolveu hipóteses.
Eu precisava confirmar.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:41 pm

– Pergunte a mim quando desejar saber sobre Amirah – respondeu Jamal satisfeito com a explicação que acalmara outras dúvidas ou sentimento que tivera ao ver o hóspede segurando Ximena.
A criada não lhe dará nenhuma informação, ela obedece às minhas ordens.
Aliás, é bom que fique longe de Ximena.
– Por Deus! – indignou-se Karim.
Acaso me toma por seu primo que desonra as mulheres do lar que o acolhe?
Os Al Gassim são nobres, Califa, não só de descendência, mas de valores morais.
Por quem me toma?
Um bruto qualquer capaz de impor-se a uma criada?
Eu não pertenço à família Al Jerrari, senhor.
– Você é ousado.
Seu primo é muito mais sensato.
Eu sou o Califa de Córdoba, a maior cidade da Europa.
– Eu sei, conheço todos os seus títulos.
Mas sei que, antes e acima de qualquer um deles, você é humano e eu também.
Seu poder não me intimida.
Poderá assustar-me que sua justiça e compreensão sejam tão pequenas a ponto de não entender a profunda infelicidade de viver a incógnita do paradeiro de alguém com que você compartilhou, inclusive, o ventre materno.
Tem o senhor alguma ideia do que estamos – eu e meus familiares – sentindo em razão do rapto e desaparecimento de minha irmã?
– Creia, eu sei o que é amar uma irmã.
Sei também da ânsia que esse afecto traz de proteger, de amparar, de evitar sofrimento.
Mas preciso lhe pedir que seja paciente.
Para que minha justiça e compreensão não sejam pequenas, preciso conhecer toda a extensão das atitudes de meu primo.
Creia, ele será punido com o rigor da sharia{9}.
– É o que desejamos – declarou Karim.
Depois, recordando o real motivo de sua vinda ao encontro do Califa, informou:
– Meu pai adoeceu e seus médicos estão preocupados.
Vim lhe pedir que mande um mensageiro a Cádiz.
Nasser Al Gassim quer a companhia de suas esposas Farah e Adara.
– É um pedido extremo?
Por que não fui avisado antes do estado de saúde do emir?
– Embora, meu caro Califa, haja a insistência de dizer que somos seus hóspedes e de tratar-nos com toda deferência e delicadeza, não esquecemos os motivos que nos trazem esta cidade.
Não viemos em missão pacífica, nem comercial; queremos justiça.
Acaso pensa que nos divertimos com seus banquetes?
Meu pai ansiou e esperou por anos para ter filhos.
Nascemos minha irmã e eu.
Acredite, Layla é a metade ou mais do coração de meu pai; pelo que aconteceu a ela, obra de seu inconsequente primo e aliado, é que ele adoece.
Essa espera é torturante.
Não sei se ele suportará.
Mande vir minha mãe e Adara, se preza em tão grande conta seus deveres – retrucou Karim azedo e sarcástico.
Karim não tolerava mais a espera.
A custo continha o sentimento de tristeza, a sufocação que em alguns momentos lhe invadia o peito.
A única coisa que amenizara essa estada era a curiosidade despertada pela vida que levava a esposa de Al Jerrari.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:41 pm

– Entendo sua situação, Karim.
Porém preciso continuar a pedir-lhe paciência enquanto aguardamos notícias de Kiéram.
Minhas medidas para localizar e recolher sua irmã foram imediatas, isso você deve reconhecer.
Assim será, também, quanto à reparação da honra da jovem.
– A honra de Layla é o que menos nos aflige.
Ela tem família, tem um noivo que a ama e a deseja por esposa pelos valores que minha irmã possui como ser humano, como mulher admirável que é.
Dane-se a lei, nenhum de nós irá matá-la.
Mas nada disso retornará, nem a felicidade que antes desfrutávamos em nossa casa, se ela morrer ou ficar gravemente ferida.
Toda sua imensa fortuna é nada e, por certo, não pagará uma só hora de sofrimento que irá nos causar.
Aliás, ela já é pequena para indemnizar a aflição desnecessária que estamos vivendo.
Amenize esse sofrimento e traga, o quanto antes, as esposas de meu pai para Córdoba.
– Considere feito, caro príncipe.
Karim, irritado, dardejava de seus olhos faíscas da mais pura raiva, sobre o luxo e a opulência que cercava Jamal.
Pouco lhe interessava que o Califa de Córdoba fosse quase uma lenda viva, tal o respeito que lhe tinham os demais governantes.
Menos atenção ainda dava ao desenvolvimento da ciência, das artes, da filosofia.
Se a cidade era linda, naqueles dias, sua perturbação emocional não lhe permitia ver.
E, mesmo que lembrasse a aura que cercava Jamal, ainda que reconhecesse o progresso que florescia de seu trabalho, nada disso o impediria de reclamar justiça e exigir atitudes positivas para que Layla voltasse aos braços da família.
Sem dar importância ao protocolo de cumprimentos ao Califa, Karim deu-lhe as costas, sem nenhuma cerimónia, rígido e empertigado, marchou em direcção à saída, deixando o governante de Córdoba a olhá-lo, admirado.
Bateu um pequeno sino de prata e, das sombras da sala, surgiu seu secretário.
– Fátim, envie a Cádiz uma escolta imediatamente.
Que a chefie um dos meus vizires.
Devem trazer, com a maior brevidade, as esposas de Al Gassim: Farah e Adara.
A razão é que ele está doente e pede a presença das mulheres.
– Será executado.
Entendi, perfeitamente – respondeu o secretário e, por onde entrou, saiu.
“Das raízes nascem as árvores, dos pais nascem os filhos” – filosofou Jamal, em pensamento, contemplando uma das tapeçarias que adornavam o salão.
“Conhecer a mãe desse jovem será uma boa forma de ter noções seguras a respeito dela.
Sendo boa a raiz, a árvore também será.
São criaturas muito independentes esses filhos do emir Al Gassim.
O filho será bom governante, não treme, é decidido.
Ah! Não há poderio nem força senão em Deus Altíssimo.
Permita Alá que Kiéram encontre essa jovem e retorne logo, trazendo-a sã e salva. ”
***
Frágeis dedos, delicados e pequenos, teciam, imaginariamente, o desenho que a mente elaborava sobre o fino véu da cortina.
Amirah empregava grande parte das horas a permanecer ao lado da janela, velada aos olhos de curiosos.
Sentia-se como alguém sobrenatural, dotado de uma capacidade de omnisciência em relação ao trecho da rua que sua vista alcançava. Sabia todos os movimentos usuais dos habitantes.
Conhecia-lhes as feições.
Observava como se cumprimentavam ao passarem uns pelos outros.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:41 pm

Sabia, inclusive, daqueles que disfarçavam fingindo não ver ou não reconhecer alguém; sabia, de antemão, o caminho alternativo que faziam para evitar encontros indesejados.
Reconhecia os encontros de amigos, de familiares queridos ou de amantes indiscretos.
A vida passava, desfilava, para além do batente da janela de seu quarto.
Várias vezes surpreendia-se ao notar a infinita gama de relações e sentimentos que se expunham a seus olhos e reflectir sobre ela.
Acostumara-se a ver a vida por de trás da cortina e descobrira encantos que as pessoas, comumente, não enxergavam.
Suas horas, aparentemente vazias e quiçá, para muitos, tediosas, eram, ao contrário, repletas de encantamento das mais envolventes histórias; lembravam-na da leitura do livro As mil e uma noites, no velho manuscrito que pertencera à sua mãe.
Era uma relíquia conservada com carinho; contava de alguns séculos; viera com o enxoval de sua avó das terras longínquas da Pérsia.
Na capa tinha o nome da genitora primorosamente escrito com uma dedicatória feita pela avó – que não conhecera – onde se lia, em persa:
“Ava, aquela que busca a sabedoria jamais experimenta a sede.
Torna-se fonte inesgotável que dessedenta e devolve à vida sua plenitude”.
Ganhara-o ao completar treze anos.
– Leia-o com carinho e atenção, minha filha – dissera-lhe ela.
Aprenda a interpretar as mirabolantes histórias da sábia Sherazade e conhecerá o coração e o pensamento dos homens.
Desvende as lições da inteligente filha do vizir e você também será uma rainha.
Lembre-se de que ganhará seu título e o manterá através do seu esforço constante, da sua sensualidade, mas acima de tudo com sensibilidade de mulher.
Inteligência e sensualidade são património comum a homens e mulheres; sensibilidade com as dores do coração humano é uma aquisição feminina.
Nunca se esqueça disso.
Ava morrera meses depois, quando ela ainda não havia concluído a leitura das lições de Sherazade.
Por isso, cada vez que concluía o livro, retornava ao início.
Tantas vezes o lera, que memorizara muitas histórias.
Agindo assim, sentia-se próxima da mãe; era uma forma pessoal de cultuar-lhe a memória.
Observar a rua, o movimento das pessoas, tinha o mesmo encanto do livro As mil e uma noite.
Sempre acontecia uma cena da qual se desenrolava uma história nova; surgiam novos personagens, desapareciam outros.
Tal como nas histórias da inteligente Sherazade compunham um jogo de espelhos no qual ela fazia reflectir o que enxergava no íntimo torturado do grande rei.
A vida atrás da cortina lhe ofertava, igualmente, a visão de muitos espelhos e o desenrolar de histórias mudas, cuja falas sua imaginação construía e reconstruía infinitas vezes.
Esse exercício de ler as histórias da vida, conforme elas se desenrolavam a seus olhos, aperfeiçoando falas, fazia desabrochar devagar em Amirah uma inteligência brilhante e uma alta capacidade de prever condutas.
Ela, por exemplo, olhava agora o andar altivo e apressado de Ximena e, enquanto seus dedos teciam imaginariamente, um sorriso indulgente pairava sobre seus lábios.
– A quem eles pensam enganar? – murmurava Amirah roçando a face na seda da cortina.
Pobres queridos!
Tão parecidos e tão distantes, embora vivendo, praticamente sob um tecto comum.
Quantas barreiras erguem os homens!
Quase todas como os arabescos que faço neste cortinado – pura imaginação. Fantasias, ilusões, quimeras; mil palavras existem para definir a mesma conduta.
Parecemos crianças com corpos grandes, vivendo nossas histórias de faz de conta, com nossas mentes povoadas de medos e sonhos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:41 pm

Medos de perder; sonhos de ganhar, de ter nossos desejos realizados.
Oscilamos entre esses extremos.
Poucas vezes, enxergamos as barreiras em que construímos nossa felicidade.
Meu miserável e poderoso irmão, tão sábio e inteligente, ainda não descobriu essas coisinhas miúdas, mas tão grandes e importantes, que fazem parte de nós.
O Califa de Córdoba vive para todos, menos para si.
É amado por todos, mas não conhece a satisfação do amor.
Eu também não, mas ao menos enxergo esse facto.
Ele quis tanto me fazer feliz, quis tanto que eu me sentisse como qualquer outra mulher; ele me ama, é verdade, mas não o bastante para aceitar que não sou igual às outras, porém que eu posso ser feliz do jeito que Alá me criou.
Se ele se preocupasse em reconhecer as barreiras imaginárias que o impedem de ser feliz, entenderia que não perde ou ganha de uma outra pessoa.
Mas, sim, apenas de si mesmo.
Nem só os amantes lêem com as pupilas o que as pestanas do ser amado escrevem:
também quem está próximo e atento percebe a ancestral linguagem dos sinais.
Talvez a tenhamos copiado dos animais.
É fácil reconhecer os casais de pombos e a linguagem de gestos, carícias e o próprio canto diferenciado para conquistar um companheiro ou companheira.
Os pavões são lindos dançando em torno das pavoas, pobrezinhas, tão feias se comparadas a eles.
Eles se exibem, querem chamar a atenção.
Mudam o comportamento, sem que disso se apercebam.
É da natureza; é manifestação imediata do sentimento de atracção.
Há como que uma aura brilhosa, pela qual se reconhece um casal enamorado.
Seres humanos não são diferentes.
Deve ser por isso que os poetas e os filósofos relacionam o amor com a beleza.
O enternecimento transforma, subtiliza, enfeita a criatura.
É pena que desperdicem toda essa energia deixando-a chocar-se contra barreiras bobas.
Ximena é cristã, e daí…
Deus não é único?
Que diferença faz o nome e a forma como ela o adora?
Islamismo ou cristianismo são, quanto À essência – que é a crença em Deus –, apenas uma divergência de nomes e formas.
Pela rua vejo passar judeus em direcção à sinagoga; cristão em busca da catedral, muçulmanos a caminho da mesquita, todos seguem confiante, constritos, imbuídos de sentimentos muito parecidos.
Isso se estampa em seus rostos.
Eu não entendo por que brigam.
Mas creio que seja por outras razões, não pode ser sentimento religioso.
Esse os uniria, porque percebo identidade nas suas manifestações em qualquer dos povos.
Há-de ser por outra razão.
Jamal poderia, muito bem, revogar essas práticas absurdas que barram o amor entre criaturas pertencentes a cultos distintos.
É até irónico vê-lo encantado por Ximena, como nunca o foi por nenhuma muçulmana.
Justo ele, o grande líder.
Acho que os homens, além de crianças, são cegos que não querem ver algumas verdades óbvias.
A força da vida não pergunta se ali por onde ela deseja passar estão erguidas essas barreiras do pensamento humano; ela simplesmente devasta; é como uma tempestade que não vê as construções que derruba.
O ranger da dobradiça da pesada porta impôs silêncio ao pensamento e à voz da princesa.
Lentamente, seu olhar dirigiu-se à porta, para constatar no rosto de Ximena a realidade e a confirmação de suas reflexões.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 7:42 pm

O rosto rosado, o olhar e a pele brilhantes, uma incontida alegria e agitação nos gestos da jovem criada revelavam o teor de seus pensamentos, reflectiam a acção de seus sentimentos sobre o corpo.
E fazem ver que, quando alguém diz que se transpira amor, isso é verdade.
Nossos sentimentos lançam em nossos organismos físicos cores, temperaturas, odores, sinais, de facto, inequívocos e ancestrais, frutos da lei da evolução e marcas dos instintos.
Essa linguagem de sinais é tão antiga quanto a vida.
Ninguém é analfabeto nesse idioma; transmitimos e compreendemos instintivamente.
Por ele são ditas verdades que a fala emudece; que a escrita não registra e, mesmo, que ambas renegam.
Porém, esses sinais determinam reacções.
Tomar consciência e perceber essa linguagem nos auxilia a entender e conhecer o que sentimos.
A natureza não mente, porque essa linguagem não pode ser manipulada.
Quando muito, imitada; imitação sempre medíocre, pois não contemplará o conjunto de sinais, o rastro que os sentimentos imprimem no corpo, duradouros ou fugazes.
– Como está meu irmão? – indagou Amirah, calma.
– Agitado – respondeu Ximena, esforçando-se para parecer indiferente.
– Ainda não se resolveu a história da filha do emir de Cádiz?
– Parece que não.
Estão todos muito tensos no palácio do Califa.
O irmão da tal moça interpelou-me no corredor.
São ousados e atrevidos.
– Estão enfurecidos – contradisse Amirah, sem alterar-se.
– E com razão.
Meu ilustre marido com sua pouca inteligência fez uma grande besteira.
Jamal não devia estar se ocupando com uma situação desnecessária.
Já bastam as preocupações com as invasões africanas em nossa costa ou com os reis cristãos.
Aliás, essa intolerável disputa religiosa é desgastante por si só.
Houvesse mais racionalidade, como bem pode nosso sábio amigo Averróis, e tudo seria diferente.
Mas, não, os homens deixam imperar a passionalidade, e o que vemos são atitudes estúpidas.
Pudera! Mal sabem eles distinguir alegria de euforia; dor de tristeza.
São dominados por forças que desconhecemos, mas que são naturais – os próprios sentimentos e emoções que habitam neles mesmos.
É um espectáculo! Lamentável, mas ainda assim, um espectáculo.
– Concordo que o Califa tem dado excessiva importância a esse incidente.
Mas ele deve ter suas razões.
Talvez as invasões africanas sejam uma das causas de tamanha atenção ao rapto e desaparecimento da jovem.
Não deve ser por ela mesma, é óbvio, mas para manter a lealdade do emir Al Gassim.
Cádiz está a beira-mar, senhora – retrucou com sagacidade a serva.
Amirah voltou o olhar, fixando-o directamente na jovem Ximena.
Estavam juntas havia anos.
A serva era inteligente, perspicaz, aprendia com facilidade e raciocinava com frieza e lógica, qualidades raras que ela muito apreciava.
Convivia com poucas pessoas e as escolhia com rigor.
Valorizava seu tempo para perdê-lo ou dividi-lo com estouvados.
Não tinha paciência.
Nesse ambiente criado por Amirah, circulavam as melhores inteligências da cidade, por isso Ximena adquirira vasta cultura.
Porém, sua condição social não lhe permitia explorar esse saber.
– Boa leitura dos factos, Ximena.
Não havia pensado nisso.
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