O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:24 pm

O QUARTO CRESCENTE
ANA CRISTINA VARGAS

Pelo espírito José António

Índice
APRESENTAÇÃO


NASCIDA À NOITE
UM REINO OCULTO
UM INTRUSO
RELACIONAMENTOS EM CONFLITO
DIAS DECISIVOS
AMEAÇAS
A TOCAIA
ALTERANDO DO DESTINO
EM CÓRDOBA
NOVOS APRENDIZADOS – DE PRINCESA A ESCRAVA
TEMPESTADES
O INESPERADO
VIRTUDES VERSUS PAIXÕES – O CALOR DE UMA GUERRA INTERNA
O BRILHO DO OLHAR NASCE NAS PROFUNDEZAS DA ALMA
BATALHAS
A FAVORITA
O PRESENTE
A REPRESENTANTE DE NÉMESIS
NÉMESIS EM ACÇÃO
A RODA DAS TRANSFORMAÇÕES
A SOBERANA
NÚPCIAS
A PIOR LUTA
PERSEGUIÇÕES
UMA NOVA VIDA
VIDA E MORTE
SER LIVRE PARA CRESCER
SETE ANOS DEPOIS…
LILITH, A FACE OCULTA DA LUA


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:25 pm, editado 1 vez(es)
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Ave sem Ninho

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:24 pm

APRESENTAÇÃO
Cada trabalho realizado com o José António possui um sabor especial, um aprendizado novo e o renovado desafio de acompanhar-lhe o pensamento e materializar sua mensagem.
Lembro-me de quando iniciamos o ditado de O Quarto Crescente.
Como os demais, foi em um trabalho mediúnico na Sociedade de Estudos Espíritas Vida.
De repente, vi uma fogueira, depois vi vultos masculinos com trajes árabes; era noite, comecei a ouvir uma música, flauta com percussão e a cadência marcada por batida de palmas; por detrás da fogueira dançava uma mulher jovem, bonita, longos cabelos escuros, profundos e grandes olhos negros, também em trajes orientas.
Enquanto essa cena cativava minha atenção, senti a presença de José António ao meu lado e o ouvi ditar o título do novo romance e algumas orientações de leituras que eu deveria fazer, um breve traçado da história.
A imagem apagou-se e restaram nas minhas mãos as duas páginas com as orientações para o trabalho a iniciar-se no dia seguinte, quando nova surpresa me aguardava.
Ele não veio sozinho.
A moça da visão estava ao seu lado, trajes orientais brancos, um véu muçulmano frouxamente arrumado encobria-lhe os cabelos, sem escondê-los completamente.
Ela foi uma presença atenta, silenciosa, da qual emanava uma calma confiança e força ao longo de todos os meses de ditado, sem jamais interferir.
Conforma as páginas do romance se avolumavam, compreendi que ela acompanhava o ditado da própria experiência vivida sob a personalidade de Layla.
Acostumei-me a ela, às suas energias, àquela companhia agradável e calada.
Conhecendo-a intimamente pela narração de José António, aprendi a respeitá-la e admirá-la, embora houvesse milhares de perguntas em minha mente que receberam dele a resposta:
“Cada coisa a seu tempo.
Espere e compreenderá”.
Senti que ele tinha uma grande afeição por aquele trabalho e por aquele espírito sob a forma feminina que nos acompanhava.
Notei que ele havia escrito aquele romance com cuidado ainda maior que tivera com os demais.
A curiosidade afligiu-me, mas exercitei o auto-domínio, porque simplesmente nada mais me disseram.
Concluída a obra, lá estava retratada uma mulher incomum, admirável, corajosa, ousada, inteligente.
Como se fosse uma pintura, era perceptível o encantamento do autor espiritual com ela, profunda amizade fraterna vibrava nele.
Mas não havia uma só linha falando no passado dela, de outras vidas, como ela tornara-se aquele ser feminino tão forte e profundo.
As lições de espiritualidade contidas na obra são directamente extraídas daquelas experiências vividas há tanto tempo, no entanto, humanos como são, carregavam a marca da temporalidade e pousavam no nosso dia a dia como se houvessem sido vividas, sentidas e aprendidas hoje.
Em 2010, três anos depois, minhas perguntas começaram a ser respondidas com a trilogia Em busca de uma nova vida, Em tempos de liberdade e Encontrando a paz, ditada por José António e Layla.
Entendi que O Quarto Crescente era também a apresentação de um espírito que viria trabalhar connosco, ser conhecido do público.
Na trilogia, fui reencontrando os personagens de O Quarto Crescente, entendo o amor profundo e marcante entre Layla e seu primo e mentor, Zafir, antes Caio/Ciro.
A relação deles ganhou nova dimensão, ali se lia a construção da afinidade, do amor sincero e profundo unindo seres.
O trabalho anónimo da protectora espiritual Safia, iniciado no Em tempos de liberdade, prosseguiu no Encontrado a paz e floresce na personalidade de Layla.
A passional e difícil relação dela com Jessé/Paulus no Em busca de uma nova vida que ainda a acompanhou e amenizou-se na vivência com o mercenário Kiéram.
O reencontro e o trabalho ao lado de Kavi, Em busca de uma nova vida, agora Jamal.
A antiga admiração por Helena, a sacerdotisa do templo de Em Busca de uma nova vida, depois Renenet em cuja companhia Verónica terminou seus dias no Em tempos de liberdade, e que retorna como Adara, uma das esposas do pai de Layla, e a mãe eleita pelo coração da jovem e rebelde filha de Al Gassim.
Querido (a) Leitor (a), você conseguirá ver outras relações além dessa que compartilho.
Desejo que seu aprendizado seja tão bom e intenso quanto foi o meu ao materializar esta obra.

Com carinho,
Ana Cristina Vargas
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:25 pm

NASCIDA À NOITE
O crepitar das labaredas da fogueira que queimava no centro do pátio chegava aos ouvidos de Rashida e com ele o som da música, a conversa dos homens reunidos.
Lançou um olhar, através das altas janelas, às estrelas, naquela noite de espera e agonia, pedindo a Alá e a seus profetas que a amparassem.
Rodeada pelas mulheres, Farah, a preferida do emir, debatia-se nas dores de um parto prolongado.
A jovem mulher sofria.
Em seu rosto nenhum sinal da alegria, sua característica marcante.
Estava vermelha e inchada, tinha o olhar de uma fera irada e abatida.
O espírito rugia, no entanto, o corpo não tinha mais condições de expressar idêntica força.
Havia horas não falava, apenas balbuciava e gemia.
Rashida trocava olhares com a parteira judia.
Leah era seu nome, e desdobrava-se junto à parturiente, agora colocada sobre os tijolos vermelhos, exortando-a:
– Força e fé.
A senhora pode.
A natureza quer. É seu dever!
Lia-se, com grande facilidade, nos olhos cor de mel da nobre Farah o que pensava da exortação feita por Leah.
– Eu quero! – balbuciou ela entre dentes.
Preciso que ela venha ao mundo. Ela virá!
– Assim será! – falou Rashida aproximando-se.
Tomando lugar ao lado da parturiente, estendeu-lhe a mão.
Vamos, aperte minha mão quando a dor vier e… força.
– Força e fé – repetiu a parteira.
– Força e fé.
A mulher não é nada se não tiver força e fé.
Nossa história é a mesma, não muda apesar do sangue, da cor da pele, da raça ou da religião.
A mãe natureza nos fez iguais para os momentos da vida e da morte, para as horas de dor e nas grandes alegrias.
Força e fé!
Rashida surpreendeu-se com o breve discurso de Leah e o sentimento estampou-se em sua face jovem, ainda inexperiente das dores experimentadas por sua cunhada.
– Olhe à sua volta – convidou a judia, dirigindo-se a Rashida.
O que vê? Não somos todas mulheres?
– Sim, mulheres de diferentes raças e crenças.
Nessa hora entendemos que Jeová e Alá são um só e aceitamos sua ajuda misericordiosa sem indagar por qual nome nos oferta seu socorro e misericórdia.
– É – confirmou a judia.
Voltando o olhar a Farah, constatou que empalidecia e, ao presumir fortes dores em sua atendida, tomou-lhe a outra mão dizendo-lhe, como se fosse uma irritante cantilena:
– Força e fé. A natu…
– Eu quero!!! – gritou Farah, reunindo toda a força de que ainda capaz para expulsar a criança de seu ventre.
– Assim seja! – responderam as duas mulheres em uníssono.
Segundos depois, sorridente e aliviada, Leah aparou nas mãos o bebé que vinha à luz.
– Que tenha forma e fé – desejou ela ao bebé, erguendo-o.
Os fortes vagidos enchiam a sala.
– É uma menina.
Rashida mal teve tempo de lançar um olhar à sobrinha que esperneava, pois, quando enxugava a testa suada de Farah, a cunhada voltou a gritar, em desespero, tomada de novas dores.
– Serão dois? – indagou Leah.
– Examine – ordenou Farah, contorcendo-se outras vez.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:25 pm

Rashida observava os procedimentos da parteira e a movimentação no aposento.
Enquanto duas mulheres tomavam conta da recém-nascida, outras três aguardavam ansiosas.
A experiência lhes dizia que a continuidade das contracções com aquela intensidade prenunciava mais um nascimento.
– Gémeos – murmuravam encantadas.
Nem ouviam os ais – Gémeos – murmuravam encantadas.
Nem ouviam os ais de Farah.
– O emir ficará orgulhoso. Que bom se…
– Prepare-se, temos mais um bebé.
Posso tocar a cabecinha, está pronto para nascer. Lembre-se…
– Cale-se! – ordenou Farah.
São meus filhos, e eu quero.
– Calma, Farah – pediu Rashida.
Concentre-se, busque suas forças.
Pense no quanto meu irmão irá honrá-la por dar-lhe o orgulho de ser pai de gémeos.
Lembrando o marido, Farah sorriu e, num sopro de voz, pediu a uma das mulheres:
– Desça e avise o emir Nasser que será pai de gémeos.
Que desejo festa em dobro, como foi a bênção de Alá à nossa união.
Sem demora, a jovem sobre a qual recaía o olhar de Farah afastou-se em direcção à porta e, dali, rumou ao pátio para dar as novas ao emir.
– Serão dois? – indagou incrédulo Nasser.
– Sim – respondeu tímida a jovem.
– Alá seja louvado!
Que redobre a festa – ordenou aos serviçais.
Em honra de minha esposa Farah e meus filhos.
Lágrimas corriam nas faces de Nasser, tostadas pelo sol de Al-Andaluz.
Tornava-se pai, aos quarenta anos, quando a maioria dos homens já tinha uma grande prole e até netos.
Apesar de suas várias esposas, nenhuma ainda lhe dera filhos, e nessa noite nasciam dois.
– Abençoado ventre de Farah, minha mulher! – e emocionado voltou o olhar em direcção ao quarto onde ela dava à luz.
Depois, notando que a jovem aguardava instruções, ordenou-lhe:
– Volte ao seu dever.
Ao regressar aos aposentos de Farah, a moça assustou-se com o sofrimento da esposa do emir.
Mais assustada ficou ao contemplar-lhe os olhos cor de mel, rajados de vermelho, nos quais o orgulho acendia uma força vivaz.
Era uma mulher com têmpera de aço.
O corpo estava debilitado, quase não lhe obedecia, porém, o espírito…
Ah! Esse se manifestava em todo seu esplendor no brilho daqueles olhos estriados de sangue.
Reflectiam orgulho, ira, a consciência de um novo poder, consolidado dia a dia durante a gestação e em cada contracção de seu ventre naquela noite de tão longas horas.
Ao fim de muitas dores, ante o olhar aflito de Leah e Rashida, vinha ao mundo o outro filho do emir Nasser.
Enfim, Farah caía nos braços da cunhada, suada, sem forças, com um brilho estonteante no olhar.
– É um menino – gritou a parteira, erguendo o bebé e aplicando-lhe forte palmada, pois não chorava, mas tinha certeza de que vivia por estar movimentando os braços, e falou imperativa ao recém-nascido:
– Abra os pulmões, respire.
– Um menino, meu filho! – exclamou Farah exausta, feliz, pedindo:
– Tragam-me os bebés. Quero vê-los.
– Espere uns minutos – orientou Leah, entregando o menino a uma das auxiliares.
Irão banhá-los, enquanto cuidamos da senhora.
Farah submeteu-se aos procedimentos necessários, porém seus olhos não desgrudavam das mulheres que tinham seus filhos nas mãos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:25 pm

Assim que foi acomodada no leito, estendeu os braços, pedindo a Rashida que lhe entregasse os bebés, aninhando-os, imediatamente, junto ao peito.
– “Não há outro Deus senão Alá e Muhammad é seu profeta” – recitou Farah, primeiro, suavemente ao encontro do ouvido da primogénita.
Repetindo, depois a profissão de fé junto ao ouvido do filho.
Seu olhar examinava-os atentamente.
– São perfeitos – concluiu e, dirigindo-se à cunhada, solicitou:
– Avise o emir que eu e seus filhos estamos bem.
– Não será melhor que descanse antes de ver meu irmão?
– Faça o que pedi – ordenou Farah com disfarçada doçura, repelindo o conselho da cunhada.
E dispense essas mulheres.
Quero silêncio e privacidade.
Logo Rashida voltava na companhia do irmão.
Encontrou a cunhada apenas sob os cuidados da parteira, que, com a chegada do emir, saiu discretamente por uma porta lateral de acesso dos criados.
Sorrindo, Farah ergueu levemente os braços onde repousavam os gémeos recém-nascidos para apreciação do marido.
Respeitoso, Nasser beijou-lhe a testa e a olhava com devoção.
– Lidos. Você me fez o mais feliz dos homens.
Alá, o Clemente, a proteja sempre.
– Precisamos dar-lhes nomes – lembrou Farah.
– Qual nasceu primeiro?
– A menina. – declarou Farah, erguendo suavemente o braço em que descansava a criança.
Nasser olhou a filha com grande carinho.
Viu-a remexer-se, inquieta, incomodada pelo subtil movimento, e resmungar, manifestando sua contrariedade.
– Ela reclama com facilidade.
Nasceu aos berros; o irmão precisou de uma palmada – comentou Farah.
– Será que tem o génio da mãe?
Perguntou o emir bem-humorado.
Tomando a filha nos braços, recitou baixinho junto ao seu ouvido:
– “Não há outro Deus senão Alá, e Muhammad é seu profeta.”
Vamos chamá-la Layla, a nascida à noite.
Nasser devolveu a menina aos braços da mãe, repetindo os mesmos gestos, recitando a profissão de fé islâmica – que devem ser as primeiras e últimas palavras ouvidas por um muçulmano – com o menino.
– E ao seu irmão chamaremos Karim, o precioso.
***
A infância de Layla e Karim transcorreu calmamente.
Farah, pela maternidade, conquistou definitivamente prestígio e influência junto ao emir.
Sua filha cresceu recebendo, oficialmente, todas as lições que faziam parte da educação de uma mulher árabe muçulmana pertencente a uma nobre família de um dos muitos reinos taifas existentes na Espanha, especificamente no sul, no território conhecido como Al-Andaluz, nos séculos da Baixa Idade Média da era cristã.
Cádiz, cidade reino de seu pai, brilhava como uma jóia incrustada às margens do oceano.
Conviviam, pacificamente, sob a dominação muçulmana, judeus e cristãos.
Os conquistadores árabes tomavam as terras e propriedades caídas em seu poder nas batalhas vencidas, recolhiam impostos, dominavam o comércio, porém respeitavam, no teor mais profundo da palavra, a liberdade de consciência, religião e manifestação cultural dos povos conquistados, cujo direito de expressão não era sufocado.
Essas culturas formaram o carácter dos gémeos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:26 pm

Curiosa, inteligente, sagaz, extremamente rebelde e
independente, Layla desde cedo mostrou ao mundo onde nascera que era uma mulher, mas não sabia ficar calada, nem viveria à sombra.
Sua vida envolve-se, mescla-se com o fascínio da noite, da escuridão profunda ao brilho prateado e terno dos astros, da calmaria ao comando das tempestades, do desprezo à paixão.
Nunca aceitou o não ou o fracasso.
Os reveses da vida, desde os que chamamos contrariedades até aqueles que entendemos com desgraças, ela os via como desafios de diferentes níveis.
A queda era uma oportunidade de analisar o chão, mas nunca de prostrar-se e ficar lastimando nele os factos passados.
As alturas eram para o pensamento.
Enquanto mulher encarnada, mantinha o olhar e o pensamento na terra e no dia presente sobre os quais andava.
Mantinha-os, também, fixos em suas presas, seus objectivos; nenhuma sombra de deslumbre pelo poder a envolvia.
Detinha-o, era sua propriedade e sabia exercê-lo, eis o que a guiou em sua jornada, que vamos retractar.
Da esmerada educação recebida – o povo árabe, diferentemente dos povos europeus, prezava o conhecimento, a cultura, a ciência, e todas as mulheres eram alfabetizadas e instruídas -, porém, o que mais recolheu como aprendizagem foi a arte de seduzir e cativar.
As artimanhas femininas foram a maior herança e lhe valeram em uma época na qual as mulheres, “teoricamente”, não tinham voz, nem vez.
Neste delicado assunto da astúcia feminina não havia caminhos ocultos para Farah, como também não houve na vida de sua bela e rebelde filha.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:26 pm

UM REINO OCULTO
– Você não pode – dizia Karim à irmã.
É uma menina!
– Eu sei.
Não foi o que perguntei.
E sua resposta não justifica coisa alguma – rebateu Layla furiosa e imperativa, aos sete anos de idade, numa ferrenha discussão com o irmão gémeo à vista do emir que se divertia com a disputa.
Amava-os, mas seus olhos brilhavam orgulhosos quando via a filha lutando pelo que desejava.
“É uma guerreira.
Tem o pensamento rápido.
Não treme para decidir.
Ah! Que natureza tão caprichosa e ingrata a fez mulher?
Oxalá Karim tivesse a metade da personalidade da irmã.
Ficaria mais tranquilo quanto ao futuro da nossa tribo quando o comando repousar nas mãos deles”, pensava Nasser e sorria, observando seus filhos.
– Meninas não praticam com armas. Você não pode.
– Posso. Eu tenho braços, pernas e olhos como você.
Sou forte para segurar o arco e esticá-lo.
Onde está o motivo para não poder praticar?
Ah! Sou melhor conduzindo um cavalo que você.
Sou uma amazona perfeita.
– Isso não adianta. Você é menina.
E meninas não podem… – insistia o irado Karim ante a teimosia da irmã.
Como todos, também adorava Layla e, quando alguma dificuldade se interpunha em seu caminho, corria pedindo ajuda à irmã.
– Venham cá, meus filhos – chamou o emir buscando intervir na discussão.
– Por que estão discutindo novamente?
Os dois pararam, lado a lado, em frente ao pai, cabisbaixos, trocando olhares entre si, crendo que não era percebida a disputa muda e acirrada de olhares cheios de acusações.
– Então nenhum dos dois irá explicar? – questionou o pai.
– Vamos ficar aqui até que me digam por que estavam discutindo.
Eu vi. E já conversamos muitos sobre essas brigas; pensei que estariam encerradas, mas vi que me enganei.
– Fui eu quem começou – admitiu Layla, serenamente.
No olhar infantil brilhava confiança, nenhum traço de culpa ou remorso.
Parecia sentir-se vitoriosa e era, conseguira fazer chegar ao conhecimento do pai algo pelo qual se debatia desde o início daquela semana que chegava ao fim.
A mãe horrorizara-se com a ideia da menina e a rechaçara de pronto.
A última esperança era fazer o assunto chegar ao emir:
descumprir uma de suas ordens – não discutir com o irmão – era um caminho.
Sem titubear, prosseguiu:
– Quero aprender a manejar as armas.
Karim disse que não posso e que não irá me ensinar.
Mas ele está enganado, eu posso, sim.
Afinal nós temos o mesmo tamanho.
Escondendo o sorriso ante o argumento usado pela filha, o emir fez-se de sério, severo, ao inquirir:
– Você conhece alguma outra menina que maneje arco e flecha?
– Não, ainda não.
– E você pensou por que nenhuma das outras meninas da sua idade, que vivem aqui no palácio, pratica com armas?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:26 pm

– Ora, elas não gostam.
Nunca quiseram – retrucou a menina.
Ou não as deixaram.
Karim permanecia calado e cabisbaixo, lançando olhares sorrateiros à irmã.
– Já perguntou a alguma das mulheres o que elas pensam dessa ideia?
– Mamãe disse que o senhor é lindo montado sobre o cavalo quando sai para caçar ou para lutar.
Ela sempre nos chama e lá do alto, na janela, mostra o senhor e diz:
“Vejam como seu pai está lindo e forte”.
Junto com ela pedimos a Alá que o abençoe e que o senhor seja bem-sucedido.
– Layla! – repreendeu o emir, a cada segundo com maior dificuldade de aparentar seriedade.
Em seu olhar transpareciam a diversão e o orgulho pela conduta da filha que habilmente desviava o rumo da discussão e o adulava com lisonjas.
“Ela conhece o coração e as fragilidades humanas por intuição.
E é implacável no uso delas”, analisava Nasser intimamente.
– É verdade, papai – insistia a menina.
Não é Karim?
Mamãe não chama sempre para mostrar o papai cavalgando com as armas?
Timidamente, Karim respondeu com um aceno afirmativo de cabeça.
– Não duvido, criança.
Mas não respondeu o que lhe perguntei.
– Ora, mas nem é preciso.
Se elas chamam para nos mostrar e dizem que é lindo, é porque elas gostam e acham lindo.
– Mas nenhuma delas maneja armas – afirmou o emir, surpreendido.
– Eu acho que elas querem…
Por que não pergunta? – e Layla sorria travessa.
Não era preciso muita perspicácia para entender que ela tinha perfeita consciência – embora expressasse ideias infantis – de que o irmão estava com a razão e de que o meio em que vivia a impedia de realizar seus desejos por considerá-los impróprios a uma mulher.
Sabia que o pai, como autoridade máxima da tribo, poderia abrir-lhe excepções, mas, para tanto, era preciso manejar “outras ideias e caminhos” com maior habilidade.
O cândido sorriso, a esperança confiante reflectida no olhar, alguma bajulação, mil atenções, o esmero para que ele se orgulhasse dela socialmente eram algumas das armas que lhe abriam as portas do proibido, que tanto a fascinavam e atraíam.
Nasser contemplava a filha, que parecia ignorar a própria idade. Embora nunca lhe faltasse com o respeito, ela agia como se fosse igual.
“Que ideia!
Perguntar às mulheres o que elas querem?
Do que gostariam? Para quê?” - pensou, mas, ao formular tais ideias, algo incómodo instalou-se em seu íntimo.
Lançou um olhar nublado, estranho, à ala do palácio onde residiam suas esposas.
Deu-se conta de que ele fora ouvido ao tomá-las por esposas, mas elas haviam apenas recebido o comunicado de que se casariam.
A primeira – Fátima –, porque ele estava na idade de constituir família, já falecida;
a segunda – Adara -, porque se encantara com sua beleza trigueira, fora pela primeira vez tomado pela paixão;
a terceira – Salma – fora resultante de uma necessidade política e comercial de fortalecer relações com um reino árabe vizinho;
a quarta – Âmbar – era viúva de seu irmão morto em combate, precisava de protecção;
a quinta – Farah – era a mais jovem, despertara-lhe um desejo insano quando a conhecera em uma comemoração na casa dos sogros e não pudera esquecê-la.
Não havia qualquer razão para fazê-lo, era perfeitamente lícito e normal tomá-la como esposa.
Nessa ocasião o perturbava, terrivelmente, a infertilidade de suas uniões.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:26 pm

A ingénua sugestão da filha o fez, pela primeira vez ao longo daqueles anos, indagar a si do que elas gostariam.
Baixou o olhar aos gémeos.
Layla o encarava confiante, sorridente e travessa.
Karim tinha o olhar entediado, reflectindo o orgulho masculino ao julgar ter razão e, de antemão, saber que a irmã teria seu pedido negado.
Notou que o filho, aos sete anos, não cogitava considerar a vontade feminina.
Ainda incomodado pelas reflexões provocadas, abaixou-se à altura do filho e recomendou:
– Karim, vá ao encontro do instrutor.
Eu conversarei um pouco mais com Layla.
Feliz por escapar da conversa, em seu entender, monótona, Karim afastou-se apressado.
Alguns metros distante do emir, correu em direcção aos pátios de treinamento.
– Venha, filha.
Vamos sentar sob a árvore.
Está muito quente.
Obediente, Layla seguiu o pai em silêncio, acomodando-se a seu lado em um bonito banco de pedra, sob a frondosa árvore.
– Você não gosta das lições de suas mestras e de sua mãe?
– Gosto.
– De qual você mais gosta?
– De dançar, de ler e de religião.
Surpreso com a segura e objectiva resposta, Nasser sorriu.
– Excelente.
Você herdou esse gosto de sua mãe… e deve ter aprendido com Adara também.
– Adara é linda dançando, não é?
– Muito linda. Mas…
– Mamãe também lê bastante, adoro os contos sobre heróis, guerreiros, sultões.
– Sua mãe lê isso para você?
– Eu leio; quando não entendo, pergunto, então ela lê para mim – respondeu com fingida ingenuidade e simplicidade.
Estaca claro que a menina manipulava a mãe.
– Sim, começo a entender…
Mas, voltando ao seu pedido, não lhe parece que você já tem muito a fazer com as ocupações que são adequadas a uma menina?
– Agora não estou fazendo nada – rebateu Layla tranquila.
Sua expressão completava o pensamento:
“portanto, aprender a usar armas não será prejuízo”.
– Mas poderia estar lendo ou dançando ou, se quisesse, ouvindo as orientações de seu primo Zafir.
– Já fiz tudo isso hoje.
Não há nada a ser prejudicado se eu praticar com as mesmas armas de Karim.
E não adianta falar de tamanho, nem de força.
Eu nasci primeiro que Karim, temos o corpo igual.
“Páreo difícil essa minha filha.
´É astuta e perseverante”, analisava o emir, contemplando o rosto de pele morena da menina.
– Para que vai lhe servir aprender a usar armas?
Não poderá participar de torneios, nem de batalhas.
Será inútil, pura perda de tempo.
– Nunca, papai.
Zafir sempre diz que tudo que se aprenda é útil na vida.
Se as mulheres soubessem se defender dos ataques dos espanhóis cristãos, seria muito melhor.
Servirá para minha segurança e de muitas outras mulheres.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:26 pm

Todas deveriam ter, pelo menos, um conhecimento pequeno.
Acho até que os homens ficariam mais aliviados nas batalhas se tivessem a certeza de que suas mulheres são capazes de cuidar da própria vida.
– Filha, você disse que gosta de religião; é mesmo verdade? – indagou Nasser, lançando um olhar ao horizonte que levava consigo um apelo aos céus para ter paciência com a menina.
Ela concordou, balançando a cabeça e sacudindo os pés, displicentemente, com grande tranquilidade.
– Então você já deve saber o que diz o livro sagrado quanto ao destino de homens e mulheres?
– Zafir conversa muito comigo.
Mamãe também, e Adara às vezes perde a paciência, se irrita e me põe de castigo.
Imaginando as razões que tiravam a calma de sua segundo esposa, Nasser sorriu.
Adara era geniosa, mas era de todas as suas esposas, depois de Farah, a mais amorosa com seus filhos.
Via-se que tinha especial predilecção por Karim, cujo temperamento cordato angariava sua incondicional simpatia.
Já a inquieta Layla despertava-lhe fascínio e incómodo.
Aliás, incómodo era um sentimento quase unânime entre todos que conviviam com amenina, excepto Zafir que se deliciava com sua sagacidade e alegria.
– Eles conversam e lhe ensinam as suratas.
Então você já sabe que as mulheres são diferentes dos homens e não podem fazer as mesmas coisas, são inferiores.
Por isso, você não pode aprender a usar armas.
– A mulheres são inferiores em tudo, papai?
– Sim, minha filha, é o que diz o Corão.
– E os homens são superiores em tudo, é assim?
– É Layla. Fico contente que tenha entendido.
– Se é assim, por que os homens têm medo de testar se Deus disse mesmo a verdade ao profeta?
Eu não entendo.
Os olhos de Nasser arregalaram-se; suas faces tornaram-se rubras ante a insolência da criança.
“Alá, dai-me paciência para educar essa alma.
Eu amo a filha que me destes para criar e proteger, mas ela desafia-me a tolerância.
É rebelde, parece não ter medo de nada.”
Respirou fundo e voltou a insistir em seus argumentos religiosos, falando novamente da surata.
– Papai – interrompeu Layla – quem é superior não tem razão para impedir um inferior de fazer qualquer coisa.
O inferior não vai conseguir, não é verdade?
Por que impedir?
Não vejo razão.
– Você está admitindo que, se eu deixá-la praticar com as armas, não vai conseguir aprender a manejá-las?
Não vai ficar com vergonha depois?
– Não. Será apenas a comprovação.
O senhor vai me deixar ter aulas junto com Karim?
– Vou, porque você é teimosa.
E teimosia se dobra demonstrando quem tem razão.
Eu digo que você não terá habilidade para armas.
Mulheres não foram feitas para esse tipo de actividade, mas você é teimosa, eu vou deixá-la passar vergonha.
Depois não venha chorar magoada perto de mim.
Um sorriso de deleite, pura satisfação, estampou-se no rosto moreno de Layla.
Faceira, ergueu-se, depositando um beijo estalado na face paterna.
Tomou-lhe a mão conduzindo-o ao pátio onde se iniciavam as aulas do irmão.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:27 pm

– Eu prometo que não vou chorar – disse ela solene, encarando o emir quando chegaram ao local das instruções.
Mas se eu conseguir…
– Chega, Layla!
Primeiro vamos ver as lições, depois voltamos a falar – decidiu Nasser.
Em poucas palavras ordenou ao instrutor que fossem dadas à filha algumas aulas a fim de “domar-lhe a teimosia pela vergonha”.
Ao término das aulas, Layla desenvolvera exímia pontaria.
Era precisa e certeira.
Uma campeã nada no arco e flecha.
Nasser, ao ver o desempenho da filha, dividia-se entre o orgulho e a incerteza.
Farah condenara o envolvimento da filha com armas.
Adara o advertira de que nunca dizia não à Layla, ainda que fosse um pedido absurdo como aquele.
A menina, percebendo a difícil situação que se criara, carta tarde falou ao pai e à contrariada mãe que os observavam treinar:
– Agora direi a Zafir que estou entendendo melhor a misericórdia de Alá.
A mãe franziu o cenho e olhou severa para a filha.
Não admitia brincadeira em matéria de educação religiosa.
Ia adverti-la quando o marido ergue a mão fazendo-a silenciar.
Abaixando-se à altura da menina, encarou-a e perguntou:
– Por que, minha filha?
– Por que há uma sura que diz que as mulheres devem ter os mesmos direitos exercidos contra elas.
Por exemplo, quando há batalhas, como aquela em que morreu o marido de Âmbar e ela foi machucada, ou seja, um homem exerceu o direito de feri-la com uma arma.
Ela não sabia defender-se, por isso sofreu muito.
Eu pude aprender, porque meu pai entende a palavra de Alá.
Se alguém quiser me agredir, eu terei o direito sagrado de me defender e vou saber como fazer.
Os pais trocaram um olhar de espanto e nada responderam, mandando a menina de volta às lições.
A sagacidade de Layla serviu ao pai, que passou a usar o argumento como resposta aos que questionavam as liberdades que concedia à filha, especialmente no tocante ao manejo de armas.
Ao aproximar-se da adolescência, Layla tinha o frescor de um botão de rosa orvalhado.
Era a promessa de uma beleza oriental – seu cabelo negro e liso caía pesadamente até abaixo do quadril, a testa alta dava ao rosto uma expressão determinada, tinha todos os traços bem desenhados.
Os olhos negros lembravam ónix brilhante harmonizando com a aveludada pele bronzeada pelo calor do sol de Al-Andaluz.
Era jovem, mas não era frágil, tinha o porte de uma guerreira.
Sua expressão corporal falava que era senhora de uma mente clara e objectiva, e que trazia seus sentimentos em vigilância constante, facto incomum, por isso incompreendido pela maioria das pessoas, mesmo as mais próximas.
Sobejamente demonstrada sua habilidade com as armas, especialmente arco e flecha, ela tornou-se companheira do pai em suas caçadas.
Amava as águias e os gaviões que, admiravelmente adestrados por ela, pousavam seres sobre seu ombro, atendendo a seus comandos, obedientes ao servir a jovem.
Porém, ela raramente matava um animal; seu prazer estava em cavalgar, em estar em contacto com as aves, em dirigi-las, e nas disputas ingénuas que fazia com o pai e o irmão, da quais saía vencedora.
Por saberem que ela raramente atirava para matar, ficavam surpresos diante de algumas atitudes e da expressão feroz que tomava conta de seus olhos, tornando-os verdadeiros abismos negros,
Em uma dessas ocasiões observava o pai e o irmão caçando.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:27 pm

Viu que perseguiam uma fêmea e que o animal aflito emitia sons.
Olhando ao redor, percebeu que ela fugia do ninho, na tentativa de proteger o filhote dos caçadores.
O grito de advertência a Karim foi concomitante com a flecha disparada pelo irmão que feriu o animal, mas não o matou de imediato, causando sofrimento.
Irada, Layla sentiu as mãos crisparem-se em torno de suas armas.
Mirou decidida matando a presa, de forma instantânea.
Em ato contínuo, mirou e matou o filhote.
– Bela pontaria – elogiou o pai acenando.
Nunca consegui acertar um alvo de forma tão certeira a essa distância.
– Como você viu o outro animas escondido? – indagou o irmão.
Mande sua águia apanhá-los.
Sem lhes dar resposta, ela assoviou e estendeu o braço direito, determinando à águia que voltasse e pousasse.
Assim que sentiu as garras da ave sobre a pele, esporeou a montaria, partindo a galope de regresso à residência.
Vendo o comportamento da filha, Nasser disse a Karim:
_ Veja, filho, quem entende as mulheres?
Layla quer usar armas, mas quando mata um animal qualquer, fica desse jeito.
O restante do dia ela não falará.
Eles não a compreendiam, pois não transformavam pensamentos em condutas e recusavam-se a exercer o direito de livre interpretação e manifestação do que aprendiam como norma de justiça e religiosidade.
Para ela aquela atitude fora de misericórdia.
A ira não era contra o animal que nada lhe havia feito, nem contra si mesma por ter-lhe tirado a vida, mas contra a falta de atenção do irmão que, ao ferir gravemente, impunha doloroso sofrimento e que, ainda mais, não havia notado que perseguia uma fêmea com filhote.
A conduta de Karim geraria dor e destruição desnecessárias.
A destruição ela não tivera meios de evitar, a fêmea ferida não tinha chance de sobreviver, e o filhote seria presa fácil para outro animal maior.
Decidira movida pelo intuito de aplacar a dor e o sofrimento inúteis.
Irritava-se quando percebia seres humanos dominados, cegos, pelas paixões, pelos instintos, por isso passava o dia calada e distante deles.
Apreciava a convivência com Leah, a mulher judia que ajudara a trazê-la ao mundo.
Havia entre elas amizade e carinho profundos.
Certa tarde, quando Layla aproximava-se dos treze anos, estava no seu quarto de vestir provando trajes novos.
Leah supervisionava a marcação da bainha da túnica à altura do tornozelo.
Layla, envergando a veste alinhavada, punha-se imóvel sobre uma mesa baixa que facilitava o acesso das costureiras.
Tinha o olhar distante, perdido nas paisagens verdes que se descortinavam além das janelas abertas, de par em par, para aliviar o calor.
Estivera, particularmente, calada naquele dia e de supetão indagou:
– Leah, em sua religião também somos consideradas inferiores aos homens?
– Como? Não entendi – perguntou Leah, erguendo-se e fitando o rosto da jovem.
– Você entendeu, sim; é uma mulher inteligente.
Perguntei se em sua religião nós, mulheres, também somo consideradas criaturas inferiores.
– Inferiores… – murmurou Leah, reflectindo em voz alta, enquanto por sua mente passavam rapidamente as lembranças das grandes heroínas de seu povo:
a mulher de Abraão, as esposas de Jacó, as esposas de Davi e sua preferida, a rainha Esther.
Ainda com a história desta mulher especial no pensamento, respondeu:
– Querida, inferioridade e superioridade são conceitos muitos amplos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:27 pm

São comparações que se fazem.
Quando se diz que é superior ou inferior, é sempre em relação a algo ou alguém.
Compararmo-nos aos homens é negarmos a obra divina que nos criou diferentes.
– Quer dizer que não somos nem superiores nem inferiores.
Então somo iguais?
Leah calmamente procurou as palavras necessárias para explicar seu pensamento.
– Não posso dizer isso, Layla.
Nós, judias, assim como as mulheres muçulmanas, estamos submetidas à autoridade masculina, e nossos direitos não são iguais na sociedade humana.
Mas a visão que tenho é aquela passada no Génesis, o livro da criação, segundo nossa fé.
E ele diz que fomos criadas para ser companheiras do homem.
– Esposas submissas à vontade de um homem.
– Ah, minha querida!
Quando você crescer um pouquinho mais, vai entender que submissão à vontade de um homem, assim como inferioridade ou superioridade são assuntos muito amplos e zonas muito nebulosas.
– Depende de quem manda e de quem se submete?
– Também. Mas principalmente de “como manda” e de “como se submete”.
Poder todos temos – homens ou mulheres –, o caso é quem nem todos sabem que o possuem, e muito poucos, dentre os que sabem, o usam com inteligência.
Eu não deveria estar falando estas coisas; pergunte ao senhor Zafir.
– Zafir sabe muitas coisas, mas é um homem…
– E agora sou eu quem pergunta: que diferença faz?
– Eu sou mulher, vivo, ajo, penso e sinto como mulher, e ele deve fazer a mesma coisa como homem, não, Leah?
Assim ela acabava desvendando a real busca por trás do questionamento.
Queria saber como as judias se sentiam, o que lhes era ensinado e como viviam intimamente.
Nascida muçulmana, entre judias e cristãs, desde a infância Layla observava que as três religiões quase nada diferiam no que ensinavam quanto à mulher.
Notava apenas um grande diferencial:
enquanto o islã e o judaísmo pregavam a necessidade de amor e protecção à mulher, os cristãos católicos silenciavam.
Zafir era filho de Âmbar com Ibn Abu, irmão de Nasser.
Quinze anos mais velho que os gémeos, tinha por eles grande carinho.
O nascimento de Karim tirara-lhe de sobre os ombros a responsabilidade para com o povo.
Não almejava nenhum poder.
Não se interessava pelas funções de liderança; sua alma voltava-se, inteira, ao prazer de aprender, descobrir, pensar, vagar pelo universo místico e filosófico, eis o seu encantamento.
Em suma era feliz com sua vida como funcionário da mesquita, dono de um conhecimento invejável da teologia islâmica.
Era o imã{1} preferido do povo, um caso de rara unanimidade.
Apesar do afecto pelo primo, por esmerar-se em desenvolver-lhe a inteligência e a compreensão da religião e do direito, guiá-lo nos conhecimentos necessários ao seu futuro como líder, era, entretanto, a instigante inteligência de Layla que o motivava na tarefa abraçada.
Adoravam-se. Eram iguais.
Poucas experiências são tão prazerosas quanto o convívio entre pessoas afins.
Após a realização de uma das cinco orações diárias, Zafir
recolheu e enrolou o pequeno tapete que carregava consigo para ajoelhar-se e rezar.
Tinha Karim à esquerda e Layla à sua direita; ambos o imitavam recolhendo seus tapetes.
Silenciosamente, retomaram seus lugares em torno da mesa onde vários livros estavam abertos.
– Voltemos ao estudo. Karim, leia para nós o Al-Hadid, a surata revelada ao Profeta em Medina.
Depois eu quero que você a comente.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:27 pm

Dócil, o jovem pôs-se de pé e leu a surata 57ª do Corão, conhecida pelo nome de Al-Hadid.
– “Em nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso ” – e prossegui na leitura dos 29 versículos para depois de uma pausa iniciar o comentário:
– O Al-Hadid nos mostra a face de Alá, é por ele que melhor o conhecemos.
O profeta nos diz que tudo na terra e no céu glorifica Deus.
Seu poder se entende por este vasto reino, onde ele é o criador omnipotente, omnisciente.
E seu reinado abrange tudo que seja visível ou invisível, como ele próprio o é.
O coração do homem é seu reino, e Ele sabe de tudo o que se passa em nossa intimidade.
O profeta nos convida a crer nesse Deus, a fazer a caridade a fim de obtermos grandes recompensas.
Essas recompensas estão na vida futura, depois da morte.
Esta surata foi revelada A Muhammad a fim de que ofertasse luz a todos nós, muçulmanos, fazendo-nos conhecer o que nos reserva o futuro e o caminho que nos conduz a Deus.
Advertindo-nos dos poderes e do conhecimento de Deus sobre o que se passa em nossos corações, ficamos cientes de que nada Lhe escapa à visão e já não tememos.
Promete àqueles que ofertam de boa vontade suas contribuições a retribuição em dobro e nos fala do paraíso onde habitaremos.
Igualmente adverte os hipócritas, os infiéis, os que caíram em tentação e duvidaram, os que se deixaram iludir por seus desejos, do que os espera.
Outros povos receberam profetas e revelações divinas, mas não foram fiéis.
Mantiveram seus corações endurecidos e, em sua maioria, são rebeldes e transgressores.
Por isso devemos ser, acima de tudo, submissos; lembrar a todo instante que Deus é maior e mais importante que qualquer outro interesse.
Crer, obedecer, lembrar os pilares da nossa fé:
“Não há outro Deus senão Alá, e Muhammad é seu profeta”.
Orar, praticar a caridade, o jejum e buscar Meca em peregrinação ao menos uma vez na vida.
– Muito bem, Karim.
Você resumiu elementos importantes no Al-Hadid, mas deve estudá-lo melhor.
Leia-o e reflicta.
Com certeza, seu próximo comentário abordará temas que neste passaram e são também importantes, portanto será mais completo.
Voltando-se para a prima, observou que ela tinha o olhar distante, fixo e cego em um ponto qualquer na parede nua.
Sorriu, conhecia essa expressão vaga, alheia.
Não era – como alguns pensavam – sinónimo de ausência absoluta.
Mas, sim, de um voo profundo da própria mente nos assuntos que discutiam.
Fascinava-o o dom estranho, do qual ela era senhora, que lhe permitia abstrair o pensamento e, ainda assim, ter consciência plena do que se passava à sua volta reagindo de imediato.
Não a chamou, sabia não ser preciso.
Quando ela o fitou, segundos depois, havia questionamentos em seus olhos negros.
– O que são clemência e misericórdia? – perguntou Layla.
Zafir ampliou o sorriso limitando-se a erguer a sobrancelha em um gesto silencioso de incentivo a que expusesse suas dúvidas.
– Não podemos discutir o conteúdo desta surata sem estabelecermos o que é clemência e misericórdia, pois todas as suratas do Corão começam com essa afirmação.
Penso que Muhammad, com isso, queria nos dizer que estes são os dois maiores atributos que nossa fé reverência em Deus.
Se estiver correta em meu modo de ver, o Al-Hadid contém esclarecimentos que desvendam ainda mais as perfeições de Alá, levando-nos a reconhecê-lo como único Deus e nos fazendo muçulmanos, ou seja, fiéis submissos que nos entregamos à sua vontade em todas as áreas da vida por reconhecer-lhe virtudes máximas.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 02, 2018 8:27 pm

– Muito bem, Layla – elogiou Zafir, em verdade contendo-se para não aplaudir a jovem.
Ela captava a mensagem profunda do texto, sem se deixar iludir pelas formas aparentes.
Lia o objectivo e não somente a letra expressa do texto.
– Zafir, o que devo entender por misericórdia?
Por clemência? – insistiu a precoce jovem.
Explique-me. Você julgou o comentário de Karim muito bom, e ele entendeu que Alá é severo e pune com ferocidade, separa.
Eu O entendo como misericordioso e clemente, e você diz:
“Muito bem. Como pensamentos tão diferentes podem estar ambos “muito bem”?
Preciso entender o que é misericórdia e clemência para você.
“Adversária fascinante.
Ainda não tem noivo, mas que Alá lhe destine um marido inteligente que saiba apreciar também a mente e o entendimento feminino”, pensou Zafir, contemplando o rosto sereno e concentrado da prima.
– Dois pensamentos podem diferir sem implicar incorrecção, Layla.
São forma de entender o Misericordioso.
Se você olhar a paisagem além das janelas, teoricamente, e apenas teoricamente, veremos a mesma imagem.
Se eu pedir que você fale do que vê e pedir que Karim faça o mesmo, ouvirei, com toda certeza, duas descrições próximas, porém muito diferentes.
Entretanto, ambos analisaram e descreveram a mesma imagem.
Onde está a diferença?
Na mente, minha doce Layla, e tão somente nela, na mente do homem, estão as diferenças.
Você talvez descreva a beleza dos campos, a alegria e a dor dos animais, o verde dos bosques que tanto ama.
Karim me falará do vento, dos sons, das coisas sussurradas, das folhas secas e tentará desvendar o futuro do que vê.
Algum destes pensamentos está errado ou não atende ao que pedi?
– Não, Zafir – interveio Karim, encarando a irmã.
Nenhum pensamento está errado, eles são expressão do que somos e sentimos.
Não como ser diferente.
Tolerância para com os que pensam de forma diversa da nossa é uma virtude ensinada pelo Alcorão.
– Exacto, Karim.
Nenhuma forma de pensar merece reprovação; necessita então de entendimento, análise e crítica, mas nunca reprovação.
Não somos juízes da mente e do coração de nossos semelhantes.
Só Alá conhece a intimidade do coração humano, e só Ele pode julgá-lo – comentou Zafir, recordando lições já tratadas com os primos.
– Que tipo de julgamento faz alguém misericordioso e clemente? – indagou Layla.
Um julgamento inclinado ao perdão.
Alá, como diz o Al-Hadid, é também opulento.
Ser opulento é ser abundante, cheio de riquezas; essa abundância não é só de coisas materiais, pois dessas ninguém possui mais que Alá.
A Terra e tudo o que ela contém – inclusive nós, seres humanos – pertencem a Alá e, entendendo isso, somos submissos à sua vontade.
O que temos e usamos é mero empréstimo e, por essa razão, precisamos fazer caridade, de algum modo distribuir essa bênção.
Não sermos egoístas, pois Ele é abundância.
Uma de suas maiores abundâncias é a do reino das coisas invisíveis, e a fortuna maior é sua misericórdia e clemência.
Ser misericordioso é ser capaz de entender o outro e sentir-lhe as dores ou as alegrias e, assim, ser naturalmente inclinado ao perdão, liberto de rancores e sempre disposto a confiar.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:46 pm

Clemência é enternecimento com os padecimentos da ignorância Layla.
É assunto para muitas aulas.
– Está certo então pensar que, se o juiz é inclinado ao perdão, nenhum réu é condenado? – rebateu Layla, fitando o primo muito séria.
Não estava mantendo uma contenda verbal por manter, queria de facto ser esclarecida.
Zafir balançou a cabeça, de forma quase imperceptível, numa confirmação tácita ao entendimento da jovem.
Verdade é que ela externava em palavras um dilema que havia muito se debatia na mente do primo.
Compreendia a existência de uma visão superficial, de uma mensagem comum, coabitando no mesmo livro que continha em entendimento profundo e uma mensagem de amor incomum a Deus.
Entendia a dupla lição quem tivesse disposição para ler, interpretar, reflectir, para encontrar a solução dos muitos dilemas e contradições da escritura do profeta.
Segundo o que pensava, seria perceptível para quem buscasse contextualizar a mensagem e o trabalho de Muhammad.
Pessoalmente, considerava o profeta um profundo admirador de Moisés e de Jesus, dois ilustres profetas do provo hebreu, tanto que cita suas profecias ou reproduz-lhes o pensamento inúmeras vezes.
“Sem dúvida, estes dois grandes pensadores monoteístas não são devidamente compreendidos, e, sem dúvida, nosso profeta tinha uma predilecção especial por Moisés.
Talvez porque o meio ao qual Muhammad trouxe o esclarecimento se assemelhava muito ao do maior profeta hebreu.
O povo árabe era dividido.
Não possuía direcção política ou religiosa.
Cultuava vários deuses.
Vivia em disputas internas.
A mensagem de Muhammad – tal qual a de Moisés – demorou a ser compreendida, precisou se revestir de duplo carácter.
Foi necessário orientar a vida social e política do povo, e também a vida moral e religiosa.
Aqueles que separaram essas duas faces da mensagem do Corão sabem que ensinamentos morais devem ser aprofundados”, pensava Zafir esquecida da presença dos jovens alunos.
– Primo Zafir – chamou Layla, inquieta, agitando as mãos em frente aos olhos do primo.
Ei, estou esperando uma resposta!
Tenho ou não razão em pensar que Alá, por ser clemente e misericordioso, não condenará ninguém?
– Deixe de ser insistente, Layla – advertiu Karim olhando-a severo.
Vou dizer a nosso pai que você foi insolente com o primo.
Ele não vai gostar de saber desse comportamento de novo.
Já a repreendeu mais de uma vez…
– Não estou sendo insolente, apenas quero saber – retrucou Layla e, de forma verdadeiramente insolente, completou:
– Não lembro de que isso seja motivo de condenação no Corão.
Por acaso é?
Karim suspirou irritado.
Adorava a irmã, mas não conseguia entendê-la, por que não lhe bastava ouvir os ensinamentos?
Sempre tinha que fazer perguntas.
Isso prolongava as lições religiosas e o cansava.
Seria melhor, simplesmente, ouvir e terminar a lição bem rápido, para envolver-se em outra actividade mais agradável.
Zafir percebia o diferente nível de apreço e entendimento das lições que ministrava.
Abandonou a reflexão a que se entregara e contemporizou a situação, dispensando Karim e retendo Layla.
– Você merece uma resposta, prima.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:46 pm

Seu pensamento está correto, e o íntimo de Deus é um mundo de amor e bondade.
Ele jamais condenaria um de seus filhos.
Entretanto, nem todos conseguem conviver e harmonizar-se consigo, com o próximo e com o próprio Alá, pensando dessa forma.
Acredito que, por enxergar muito nitidamente essa realidade, o anjo Gabriel, ao fazer revelações ao profeta Muhammad, tenha sempre enaltecido as características máximas de Deus e ressaltado suas muitas qualidades.
Porém, a fim de fazer o povo obedecer à mensagem, lhes fez pensar em dar sentido à vida e à busca do comportamento amoroso e correto com Deus, consigo e com o próximo, prometendo-lhes uma vida futura cheia de prazeres; em contrapartida, ameaçou os desobedientes que se deixassem seduzir pelo mundo exterior e material, relegando a Deus, com a punição ou o sofrimento.
– É mais difícil entender Deus como um ser amoroso e benevolente?
Por que será que o profeta Muhammad e os outros não mostraram somente essa face íntima de Deus?
Zafir sorriu encantado com a indagação da jovem.
Admirava-lhe a vivaz inteligência.
Identificava nela o amor ao saber e a coragem de não renunciar à discussão das ideias próprias ou sugeridas.
– É difícil justificar as razões que levaram os profetas a agirem dessa ou daquela maneira.
Aliás, é muito difícil justificar as razões de decidir e agir de outras pessoas.
Muitas vezes nós não temos muito claros nossos próprios motivos e objectivos em determinadas acções.
Não vou lhes responder com a pretensão de estar dizendo por que Muhammad, ou qualquer outro, agiu ensinando algumas coisas de forma velada e outras de forma cristalina.
Até porque talvez isso também esteja nos olhos de quem vê e nos ouvidos de quem ouve.
Veja: seu irmão não questionou o mesmo que você.
É possível que não tenha pensado nem percebido que são expressos conceitos aparentemente contraditórios.
Você viu. Entretanto, do mesmo livro estão satisfeitas ambas as necessidades.
Karim aprende que deve conduzir-se com amor e respeito a Alá e todos os demais; aprende a buscar ser justo e viver correctamente, conforme os ensinamentos de nossa crença, colocando Deus acima de todas as coisas.
Por ora, ele fará isso de maneira ritual e impensada, mas fará disso um hábito; no futuro, terá aprendido a amar um só Deus e começará a ver a vida sob essa luz.
E, a partir daí, reflectir em muitos comportamentos e, como se fosse em um círculo, sua mente viajará muito longe para depois voltar à origem.
Você avança desse círculo, está a vários graus de distância do pensamento de Karim.
Precisamos considerar o meio no qual as revelações se deram e, como lhe demonstrei, era preciso que elas atingissem uma variedade muito grande de entendimentos.
– Quer dizer que nem todos saberiam se conduzir bem se entendessem que Alá é benevolente, não saberiam respeitar e viver com alguém amoroso?
– Necessidades diferentes, querida.
Há muitos seres que não gastam um só minuto do dia para reflectir em si e na vida – obra máxima de Alá – em que podemos estudar mais de perto sobre Ele.
Se não houvesse um freio exterior para suas condutas, acredite-me, seriam criaturas infelizes que infelicitariam muitas outras.
Fazê-las ajoelhar cinco vezes por dia é uma tentativa de desenvolver hábitos de reflexão, de pensar em Deus e conviver com Ele.
É bem provável que na infância, na juventude e na maturidade elas muito pouco pensem no que estão realizando, enxergarão quase nada além do cumprimento de uma obrigação que temem desobedecer.
Mas um dia chegará em que esse hábito se converterá em um momento legítimo e sentido de busca por maior compreensão da vida, de ansiar por um meio de escapar das coisas materiais e uma necessidade de investigar o próprio coração.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:47 pm

Eu vejo com bons olhos essa máscara de ira lançada sobre a face de Alá.
Ela engana apenas aqueles que se recusam a olhar com mais atenção e separar a realidade da fantasia.
Layla aceitou as explicações do primo.
Intimamente formulou seus conceitos nestas como em muitas outras questões.
***
As esposas de Nasser habitavam uma ala do palácio.
Conviviam em relativa paz.
A aparência era de harmonia; na intimidade, nem tudo era aceito.
A disputa imperava especialmente entre Adara e Farah, as duas paixões do emir.
Adara o encantava por sua beleza e sensualidade.
Nenhuma das outras rivalizava com ela nestes quesitos.
Farah, com a maternidade, consolidara poder sobre Nasser que lhe admirava o carácter, a inteligência e a formosura.
A mãe de seus filhos seduzia-o com a mente e a astúcia.
Layla cresceu recebendo grande influência de ambas e da criada judia Leah.
Essas três mulheres, por assim, dizer, amassaram e modelaram a natureza rebelde da personalidade da menina.
Cada uma lhe legou influências nas infância e adolescência que ela carregou por toda a vida.
Adara, no início, preferia a companhia de Karim.
Mas, com o passar dos anos, não conseguiu furtar-se ao encanto da menina morena de olhar cintilante que a observava sem esconder a curiosidade e o desejo de copiar suas maneiras e atitudes.
“Que mulher não desejaria deixar sua herança neste mundo?
Imprimir sua marca?
Ver a própria continuidade de sua vida? ”, pensava ela regozijando-se ao notar que conforme Layla crescia e se aproximava da juventude, mais e mais, se assemelhava a ela no modo de vestir, de portar-se; até a suavidade do andar da moça lembrava o seu.
“É filha do meu marido, é minha herdeira; senão dos meus bens materiais, mas de tudo que sei como mulher”, decidiu ela quando a menina abeirava-se dos onze anos e pedira-lhe que lhe ensinasse a dançar.
– Você é a melhor dançarina de toda Cádiz – dissera Layla numa noite festiva enrodilhada ao lado do emir assistindo Adara dançar.
É o meu pai quem diz e todos concordam.
Então, por que eu, até hoje, tive outras mestras?
Somente voltarei a dançar se você me ensinar.
Nasser limitara-se a erguer as sobrancelhas.
A filha sempre conseguia surpreendê-lo; sua sagacidade o encantava.
Não havia mesmice ou tédio em sua companhia.
Adara sentira-se lisonjeada e, como boba não era, percebida que a filha tinha um lugar especial no coração do marido. Agradar a menina era fazê-lo feliz.
– Nunca pensei que desejasse receber lições minhas, Layla – respondera Adara, encarando a menina.
Se não houver nenhuma objecção, é claro que eu poderei me encarregar de suas lições de dança. Vou gostar muito.
– Está resolvido – dissera Nasser sem consultara Farah.
A partir de amanhã Adara será sua mestra de dança.
Layla sorrira para Adara cheia de confiança e alegria.
Admirava a graciosidade da segunda esposa de seu pai.
Mas Farah não gostou do arranjo; seu rosto se fechou.
Ante o olhar do marido, curvou a cabeça em aceitação tácita; intimamente guardou reservas.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:47 pm

O tempo mostrou que Layla agira com sabedoria ao exigir as lições de dança.
Tornara-se uma jovem que ao fascínio do carácter, da inteligência, da beleza morena, unira uma graça de movimentos e uma sensualidade ímpar, que Adara a ensinara a manejar e ela dominava com a mesma maestria com que empunhava armas e domesticava águias.
– É o ventre que dança, Layla – advertia Adara ao ensinar-lhe a dança da fertilidade ou a dança do ventre.
Entregue-se.
Mova o ventre no ritmo da música.
Seus pés pouco têm a fazer.
Concentre sua atenção nos movimentos do ventre.
Orgulhe-se de ser mulher, exiba-se.
Seu corpo é belo, menina, use-o.
Layla mostrou-se uma aprendiz digna da mestra.
Aos quinze anos dançavam juntas nas festas e ninguém sabia dizer quem ensinara e quem aprendera. Esse laço as tornara amigas.
Graças a ele Adara aprendera a superar a sensação de incómodo que a menina ainda provocava em muitas ocasiões.
Vendo-a mover braços, seios e ventre ao ritmo perfeito da música, ao observar a arte com que ela expressava no olhar um mundo de promessas e fantasias e no corpo uma capacidade sem igual de entrega e paixão, sentia-se orgulhosa.
Aliás, a natureza apaixonada da personalidade de Layla manifestava-se em seu olhar:
quando dançava, adquiria uma força hipnótica; quando enfrentava uma discussão era aberto, cristalino, de vivaz inteligência a ponto de desarmar seus contendores de qualquer inclinação menos justa ou honesta; porém, quando irada, seus olhos tornavam-se gélidos abismos negros.
O fogo e o gelo queimam com igual intensidade.
Naqueles em quem a ira se mostra em sua face fria – sob o domínio da inteligência – o poder de aterrorizar é sensivelmente maior.
Qualquer um que encare alguém enfurecido, se mantiver a razão, é vencedor, pois o domínio da ira muitas vezes rouba espaço da inteligência, e o ser dominado age de forma bestial e, como tal, é abatido; mas quem encarar alguém enfurecido e que mantenha a fria razão, estará diante de um adversário terrível.
Aos dezasseis anos Layla era uma mulher adulta, senhora de si.
Era a paixão e o desafio de todos que a tinham visto nascer e crescer nos domínios de Nasser Al Gassim.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:47 pm

UM INTRUSO
Os campos de Nasser Al Gassim, cultivados com esmerada dedicação, encantavam a comitiva que se deslocava pelas estradas empoeiradas sob o sol de Al-Andaluz.
– Belíssimas plantações – elogiou o jovem chefe militar que acompanhava o emir Munir Al Jerrari.
– Cuidadosos.
Observe a perfeição do plantio – comentava Munir, sacolejando ao andar do garanhão que lhe servia de montaria.
O emir há de nos oferecer bons alimentos.
Espero que nossa visita seja produtiva.
Dizem não ser fácil negociar com ele.
– Comentam que é excêntrico e muito liberal em relação às mulheres.
É o que ouvi.
Desconheço informações quanto às suas características como comerciante.
É um reino abastado.
Pequeno, é verdade, mas pode-se notar que é próspero.
Kiéram Simsons percorria com o olhar as verdejantes plantações e, mais além, sobre um elevado do terreno, erguia-se a pequena aglomeração humana governado pelo emir Nasser.
– Parece bem fortificada.
Munir sorriu, um brilho maroto eliminou os olhos castanhos ao ouvir a constatação de seu chefe militar.
Recebera ao longo dos anos muitas críticas por confiar em um cidadão de segunda classe, um cristão, um soldado cuja habilidade era comprada ao preço de moedas de ouro.
Muitas moedas, diga-se de passagem, tantas que o jovem Kiéram, apesar de sua condição social, desfrutava de uma vida de privilégios.
“Prefiro pagar e ficar tranquilo, a manter-me atento e fazer tudo.
Kiéram jamais descansa.
É fiel a mim e ao meu património.”
– Não pretendo comandar uma invasão – retrucou o árabe.
Essa é uma missão comercial.
Trouxemos alguma escolta por segurança.
Há muitos assaltos e crimes nestas estradas.
– Eu sei, mas… não custa ver todos os ângulos.
Questão de previdência.
Kiéram analisava o terreno, o caminho, as construções.
Ao varrer a região com o olhar, teve sua atenção desviada pelo som das águias de caça.
Acompanhou o mergulho de uma delas e a viu retornar ao braço de alguém bastante jovem, de inegável aptidão no trato com as aves.
Fixou o olhar, mas a distância o impediu de distinguir com clareza o caçador.
Em meio à conversa com o emir continuou observado o caçador no vale.
O aspecto franzino do corpo chamava-lhe a atenção e estava encantado com o comando preciso das aves.
Munir notou a atenção de Kiéram presa em algum ponto do vale.
Com a experiência de anos de convivência foi fácil descobrir o motivo.
Entendeu com um simples olhar o fascínio dele:
o caçador era jovem e franzino demais, ao menos assim sugeria, visto a distância, qualidades incomuns em hábeis adestradores de águias.
– É um talento natural – comentou Kiéram, percebendo que o emir também observava a cena no vale.
Deve ser um adestrador de raro talento.
– Estamos precisando de um.
Lembre-se de falar com Al Gassim sobre o rapaz.
– Sem dúvida ele deve ser conhecido.
Reparei que anda com muita desenvoltura pelo lugar, sabe conduzir o cavalo com perícia.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:47 pm

A conversa entre os dois prosseguiu entrecortada de observações sobre o caçador do vale e a missão comercial que iam desempenhar junto ao emir Al Gassim, bem como sobre as faladas liberalidades do emir aos desejos de suas mulheres, principalmente a filha.
AO jovem Kiéram, de orientação cristã, a referência às diversas esposas soava sempre estranha.
Nascido em Al-Andaluz, numa época multiconfessional, não conseguia entender a estrutura familiar e social do islão.
Contava com inúmeros amigos muçulmanos e convivia em suas residências, porém não compreendia o modo de vida, a estrutura social e religiosa que misturava política, religião e direito num mesmo
caldo.
Verdade seja dita que o mesmo fazia o catolicismo, em nome de Cristo, porém, dada sua estrutura clerical, os fiéis – destinatários finais desse imbróglio – não se apercebiam do facto, habituados, em sua grande maioria, a viver e exteriorizar uma religiosidade formal.
Ele ouvia Munir falar das “mulheres” de seu anfitrião, aí incluídas filhas, esposas e mãe com um leve sorriso irónico.
Não resistiu a uma amistosa provocação:
– Mas não é verdade que também o profeta Muhammad tinha preferência por uma de suas filhas?
Munir riu do questionamento e, balançando a cabeça, concordou.
Fora ele quem em diversas ocasiões falara das tradições e da vida do profeta ao cristão.
– Vai ver todo pai muçulmano tem direito à sua “Fátima” – insistiu Kiéram ainda ironizando.
Nosso anfitrião e futuro parceiro comercial é apenas, digamos, muito conhecido por sua preferência.
– É o resultado de tornar-se pai em idade avançada.
Corre-se o risco de se tornar presa da paixão que os filhos provocam.
Na juventude essa paixão tende a passar, pois disputa primazia com outras até mais fortes.
Isso não aconteceu com Nasser Al Gassim, pai velho.
– Ele não é nenhum ancião decrépito.
Eu o conheci em Córdoba, lembra?
– Não aparenta a idade que tem.
É um felizardo, pois também é famosa a beleza de suas mulheres.
– Ele, ao menos, não deve ansiar pelo paraíso, já vive nele – retrucou Kiéram, novamente alfinetando a crença do superior e amigo, segundo a qual o paraíso é cheio de belas virgens dispostas a servir os homens fiéis.
– Meu caro, meu paraíso é mil vezes melhor do que o seu.
Eu terei lindas virgens enquanto você terá.
Se alcançar tamanha glória, somente a companhia dos santos.
Não. Amigo, fique com a sua fé que não troco a minha.
De mais a mais, você ainda tem que atravessar o purgatório com ranger de dentes, choro e muito sofrimento.
Não, não. Deixe-me com meus jardins, sob os quais corre o rio, cercado de virgens – e ria alto da cara de espanto do outro surpreendido com a comparação.
Munir lançou um olhar ao vale notando que o caçador se dirigia a galope para a propriedade de seu anfitrião.
– Parece que encerrou a caçada – comentou Kiéram, também com o olhar no cavaleiro que abandonava o vale e subia em direcção à residência de Nasser Al Gassim.
***
Acomodado no alojamento destinado aos soldados, o mercenário cristão repousava em relativo conforto.
Incorporara, como de resto todo o povo daquele território, os hábitos de higiene impostos pelo islã.
Os rituais de purificação antes das orações redundavam num aspecto benéfico à saúde pública.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:47 pm

As casas de banho proliferavam e, ao lado de cada mesquita, havia pelo menos uma.
“Se purifica a alma ou não… é uma conversa que não interessa.
Mas que traz um bem-estar ao corpo cansado não tenho dúvidas”, pensava Kiéram sentindo a brisa fresca da noite refrescar sua pele após um longo banho.
Os homens que acompanhavam Al Jerrari estavam adormecidos.
Caracterizavam-se pela disciplina e, em nome dela, aceitavam a liderança de um mercenário.
Reconheciam a capacidade e inteligência do cristão Kiéram, mas não mantinham com ele laços de amizade, por isso levava uma vida solitária.
Como cristão, era membro de segunda classe na sociedade.
Muçulmanos eram tolerantes, respeitavam cristãos e judeus, entretanto tolerância e respeito não são sinónimos de tratamento igualitário.
As distinções eram bastante claras, visíveis e palpáveis.
Assemelhava-se a uma sociedade de castas e, nesse contesto, Kiéram sentia-se um pária completo e absoluto.
Discriminado entre seus iguais por ser rico e seu dinheiro proceder do trabalho como mercenário; entre os muçulmanos e judeus, por ser cristão.
Era alguém cujos amigos se contavam nos dedos de uma mão.
A família restringia-se à mãe e a uma irmã jovem.
Desde os quinze anos era o responsável pelos Simsons – o pai morrera em uma batalha e dele herdara bens, a responsabilidade pelos familiares e a própria profissão.
Tinha seu pequeno exército de mercenários que havia ficado em Córdoba.
Havia oito anos trabalhava para o emir Al Jerrari; conheciam-se desde a infância e era um de seus mais fiéis amigos.
Munir, no relacionamento com ele, ignorava as distinções de classe.
Entretido em suas divagações, de repente, teve sua atenção voltada por um som ritmado e muito conhecido.
Sorrateiramente, ergueu-se do leito.
Andou até a janela aberta que dava para o pátio de treinamento.
Era uma noite cheia de nuvens e, no exacto momento em que foi observar o pátio, o luar foi escurecido.
Enxergou os contornos de um vulto que exercitava a pontaria com o arco.
– Meu Deus! Ele está tomado de fúria – divertiu-se Kiéram ao notar a velocidade dos disparos certeiros.
Curioso, abandonou a estalagem, caminhando lentamente até o impiedoso atirador.
A lua encoberta facilitava sua aproximação.
A pessoa estava tão concentrada que ele acreditou não ser por ela percebido.
– Pare.
A ordem clara vinda de uma melodiosa voz feminina o surpreendeu.
Procurou sua dona com o olhar.
Não encontrou ninguém além dele e do atirador a metros de distância.
Obedeceu por uma pequena fracção de minuto e dava o terceiro passo quando ouviu com mais nitidez.
– Pare.
– Desculpe, senhora, mas… – e calou-se surpreso.
O luar voltava a iluminar o pátio, e Kiéram teve a certeza de que a voz pertencia à furiosa atiradora.
A silhueta feminina era inconfundível, e os longos cabelos soltos não deixavam margem à dúvida.
– Qual é a razão? Por que devo parar?
Sou de paz e, veja, estou desarmado.
O pedido foi ignorado.
Não se voltou para ver o homem que lhe falava.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:48 pm

Sem interromper seu exercício, fria e firme, ordenou-lhe:
– Volte ao seu alojamento.
Odeio ser observada sem permissão.
– Então… permita que lhe peça a devida autorização.
– Volte. Seu pedido foi negado.
“Autoritária. Quem será?
Uma das esposas de Al Gassim, de outra forma não se comportaria assim.
É fácil ver que está irritada, controlada, mas a aspereza transparece na voz.
Soa fria e cortante como gelo”, analisava Kiéram sem arredar pé de onde estava.
– Obedeça para o seu bem – alertou ela, sacando da aljava outra flecha que rapidamente acomodou e distendeu no arco antes de virar-se para encarar seu indesejado acompanhante.
A beleza da jovem atrás do arco encantou Kiéram, especialmente o brilho do olhar profundo e o rosto oval.
A túnica escura que ela trajava escondia os contornos do corpo, deixando à mostra apenas os braços com músculos bem definidos, típicos de um atirador, mas que se moviam com uma suavidade feminina.
– Vá! – insistiu ela.
Ante a imobilidade de Kiéram, ela arremessou a flecha que passou rente ao seu pescoço num aviso muito claro de que poderia atirar para matar.
Impressionado, vencido pela moça atiradora, ele ergueu as mãos reafirmando o desejo de paz e voltou ao alojamento.
Escondido pelas sombras da noite, permitiu-se observar, por mais alguns minutos, o exercício da jovem que, após o breve encontro, parecia ainda mais irada.
Vencido pelo cansaço, abandonou a observação da moça e resolveu utilizar o som das flechadas como música para embalar seu sono.
“Preciso descobrir quem é essa mulher.
Por que estava tão furiosa? ”, foram os últimos pensamentos dele antes de adormecer.
***
Zafir, braços cruzados, no alto de um pequeno lance de escadas, observava o tio Al Gassim andar nervosamente pelo salão.
Contrastando com a agitação do parente, ele tossiu discretamente e falou ao descer:
– Bom dia, caro tio.
Como se encontra após a recepção de ontem?
Nossos visitantes ainda dormem?
Nasser observou a lentidão enervante de Zafir nos degraus.
Nem mesmo Farah, quando grávida dos gémeos, fora tão lenta naquele pequeno lance de escadas.
Lançou-lhe um olhar no qual a tempestade de sua alma era perfeitamente visível.
“Hum, parece um problema sério, faz muito tempo que não vejo tio Nasser transtornado dessa forma”, pensou Zafir, buscando manter-se calmo a fim de ser útil.
Aproximando-se do emir, tocou-lhe o ombro encarando-o com amizade.
– Acreditou que mandou me chamar porque deseja conversar.
Diga-me: qual a razão desse nervosismo que salta aos olhos?
– Meu visitante – resmungou Nasser, incomodado.
– O emir Munir? – surpreendeu-se Zafir.
– Ele mesmo. Imagine… tomou-se de encantos por Layla…
“Ciúme. Medo. Irritação.
Pronto! Está tudo explicado”, deduziu Zafir, mas manteve-se calado.
Esse era um momento esperado e previsível.
Nasser não notava que a filha era uma mulher adulta e logo estaria casada.
Aliás, nenhuma providência tomara nesse sentido, quando era comum jovens da idade dela já serem mães.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:48 pm

O emir continuava resmungando ideias conhecidas do sobrinho.
Repetia que sua filha ainda era muito menina; que teria de escolher para ela um marido especial que a compreendesse, bem como a forma como fora educada.
– Este é um ponto muito importante.
O senhor tem razão em se preocupar.
Layla não é uma jovem comum, e o homem que pretenda tê-la como esposa deve ser vem informado a respeito de quem levará para casa – comentou Zafir sorrindo.
Admiro e a amo com uma irmã muito, muito querida.
Mas sabemos o quanto ela é difícil e como todos cedemos às suas vontades desde menina.
Agora é uma mulher, a mais temperamental que conheço.
– Pensa que não sei? – retrucou Nasser alterado no desabafo emocionado.
Pois eu sei. Há muito me atormentava saber que esse dia chegaria.
Acredite-me Zafir, tive muitos pesadelos, e meu maior padecimento era, justamente, acertar os termos de um contrato de casamento envolvendo Layla.
Que o profeta me perdoe, mas é… impensável tratar do assunto como o fiz quando contratei o casamento com minhas esposas.
Layla é um espírito livre, é senhora de si. Eu não consigo pensar… por ela.
Zafir meneou a cabeça, permanecendo em silêncio alguns minutos, depois sugeriu:
– Ninguém, desde os três anos de Layla, pensou por ela.
É muito inteligente e, verdade seja dita, sempre acabamos pensando conforme as ideias que ela suscita, conforme seus desejos.
Imagino o drama e o dilema que estão dividindo sua alma, tio, porém só posso lhe dar uma sugestão: converse com Layla.
Para quem já conquistou tantas liberdades e mostrou-se digna de todas elas, que mal em ser ouvida nesse assunto?
Al Gassim passou a mão pela barba e cabelo, num gesto apressado, depois a deixou repousar sob o queixo que acariciava com o polegar, cismado.
– Ideia sensata.
Trará paz à minha consciência.
Mas, conhecendo minha filha, tenho quase certeza de que Munir não causou o mesmo efeito.
Talvez bem o contrário.
Eu a vi bastante irritada com as atenções dele.
– Bem… então é praticamente certo que ela recusará qualquer pedido.
Aliás, nosso visitante já formalizou alguma pretensão ou estamos apenas no campo das cogitações?
– Não oficialmente.
Mas sou homem e reconheço um outro tomado de amores e paixão. Já fui jovem.
Ele sugeriu que ampliássemos a visita e pudéssemos tratar de outros assuntos além do comércio.
Não sou bobo.
O assunto é Layla.
– E tia Farah percebeu algo? O que disse?
– Farah é uma mulher perspicaz, ponderada.
Lógico que notou as inclinações de Munir, ponderou prós e contras.
Uma aliança familiar com os Al Jerrari seria comercialmente muito boa, garantiria um estreitamento de relações com o Califa de Córdoba, que é primo de nosso visitante.
Mas ela vê os mesmos problemas que eu.
– Não havia considerado as implicações comerciais e políticas – comentou Zafir, dando-se conta de que, tal como seus tios, não cogitava na possibilidade de envolver Layla em um contrato sem seu consentimento e participação.
Sendo assim, uma negativa pode ser interpretada como uma humilhação…
– Exactamente.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:48 pm

“Uma belíssima residência, não há dúvida”, analisava Munir em pensamento, vagando pelos aposentos que lhe havia designado o anfitrião.
Apreciava a construção impecável, contendo alguns trechos de paredes com tijolos vazados que permitiam melhor circulação de ar e luminosidade no ambiente; a decoração com muitos tapetes, almofadas, móveis com laca e pés torneados, algumas tapeçarias retractando cenas do cotidiano nas plantações e outras, apenas a natureza do lugar.
Aproximou-se de uma que retratava os vinhedos.
Examinou com apreço o detalhe dos cachos de uva matizados.
Sorriu e sussurrou:
– A colheita se aproximava.
Que olhar atento tinha o tapeceiro!
Ouviu uma batida na porta; reconheceu-a como sinal de Kiéram e ordenou que entrasse.
– Bom dia – cumprimentou o mercenário.
– Venha, Kiéram – disse Munir, apontando um recanto próximo de uma porta-janela ampla que dava vista para o vale, para onde se encaminhou e, com as mãos apoiadas na mureta da sacada, encarou seu servidor militar.
– Nossa missão irá estender-se – informou, observando Kiéram erguer as sobrancelhas, incrédulo.
Nossa providência imediata é enviar a Córdoba um mensageiro com esta informação.
– Podemos dispor de qualquer um dos homens que nos acompanham.
Ele deverá procurar seu primo Jamal ou Amirah?
Munir torceu a boca numa careta muito pessoal que fazia quando ponderava antes de tomar uma decisão.
– Jamal. De nada resolverá enviar mensagem à “minha esposa”.
Meu primo irá tranquilizá-la e será melhor que receba a notícia através dele.
Kiéram não tinha por hábito questionar as decisões pessoais do emir.
Ficou intrigado com a súbita mudança de planos, afinal estavam havia pouco mais de vinte e quatro horas sob o tecto de Al Gassim, e os objectivos da visita eram claros.
– A mensagem já está pronta?
– Tenho as ideias organizadas, em pouco minutos eu mesmo a escreverei.
Como Munir ficasse em silêncio, contemplando a paisagem, Kiéram Indagou:
– Algo mais?
Munir disse que não, firmemente, com gesto de cabeça e o soldado completou:
– Irei dar ordens a um de nossos homens e acompanharei os preparativos.
Voltarei quando tudo estiver pronto para a partida, apenas para receber a correspondência e levá-la ao viajante.
– Óptimo.
Entendendo que a entrevista da manhã estava encerrada, Kiéram afastou-se caminhando, a passos largos e rápidos, de volta à estalagem.
Uma hora e meia depois retornou.
Encontrou Munir concentrado na leitura da mensagem.
– Está óptimo – declarou ele.
Não gosto de floreios, digo o necessário.
Uma mensagem curta, clara e directa é o ideal.
– Perdoe-me, se for inconveniente, mas posso saber a razão da mudança de propósitos?
Munir deixou a mensagem aberta, não se importando que Kiéram lesse o teor da missiva.
Conforme lia as frases, a tez morena, pela vida muito ligada ao contacto com o ar livre e o sol, empalidecia.
“… pretendo tomar uma segunda esposa. Informe Amirah.
Demorarei alguns dias além do previsto…”
Essas expressões saltavam aos olhos.
De propósito, Munir usara o espaço entre as palavras, as linhas e os parágrafos, de modo a deixar claro o tema.
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