Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 02, 2018 9:13 pm

Esse facto despertou a atenção e receio pelo que se preparava, inclusive do general Góis Monteiro, o então Ministro da Guerra.
Temendo tratar-se de manobras para a sua continuidade no poder, usando das atribuições que o cargo lhe conferia, colocou as tropas de todo o país em prontidão, e, fazendo do coronel Cordeiro de Farias o seu emissário, depôs o Presidente.
Era o dia 29 de outubro de 1945!
Na madrugada de 30 de outubro, o ministro José Linhares, Presidente do Supremo Tribunal Federal, toma posse como Presidente Interino da República, no gabinete do Ministro da Guerra, e, no dia seguinte, Getúlio Vargas retirou-se para São Borja, sua terra natal.
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 02, 2018 9:13 pm

COMO NÃO PARTICIPAR?
Encerrava-se, com a sua retirada, o Estado Novo!
O cenário mundial estava transformado.
Os países que foram palco de tantas lutas, de acontecimentos tão terríveis, procuravam reconstruir o seu cenário para novas representações, mas esperavam que encenações tão trágicas, nunca mais houvesse...
Procuravam pintá-lo com um novo sol, um céu azul onde os pássaros pudessem voar tranquilos, os rios com águas límpidas e não mais tintas de sangue, os campos verdejantes, porém, não pelo uniforme dos soldados!
Esperavam, com esse novo cenário, a mudança da paisagem interior de cada um, numa união fraterna de liberdade, amor e paz!
Aqui também, nesta imensa Nação Brasileira, fechava-se um período, e novas expectativas renasciam!
O actor principal fora obrigado a deixar o palco, onde representara durante muito tempo, e agora encontrava-se em seu camarim, aguardando novos papéis...
Os espectadores admiravam o actor, mas o papel que ele gostava de representar, tomando todos os espaços do palco, já não os atraía mais!
Esperavam, também, como seus irmãos de outras terras, a mudança de cenário, com novos atores, novas representações, das quais eles também pudessem participar!...
Mas deixemos de alegorias e voltemos ao nosso herói, que, após os acontecimentos que culminaram com a sua deposição, permanecia em sua estância, em São Borja.
Voltado para si mesmo, decepcionado, pretendia ficar afastado dos problemas políticos do País.
O tempo passara, sentia-se mais cansado...
A vida, entretanto, seguia seu curso, e o cargo de chefe da Nação já se achava em mãos de José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal.
Os ministros foram substituídos, e a data para a realização das eleições — 2 de dezembro — fora mantida.
Os interventores estaduais também seriam substituídos.
Getúlio Vargas, todavia, no seu retiro, não ficou tranquilo por muito tempo!
Não conseguiu se isolar da questão eleitoral que dominava o país — as eleições para a Presidência da República — talvez por não gostar de nenhum dos dois candidatos que se apresentavam.
Pretendendo lançar um terceiro nome, não obteve êxito nas suas articulações, e receando a vitória do candidato udenista, resolveu apoiar o General Dutra, aconselhando os seus simpatizantes a que também o fizessem.
Em seguida, ele mesmo candidatou-se à Constituinte, por diversos Estados, como deputado por uns, como senador por outros!
O dia 2 de dezembro chegou, as votações foram efectuadas, e, apurados os votos, o General Dutra foi o vencedor.
Getúlio Vargas, cujo prestígio ainda era grande, não só ajudou a vitória de Dutra, pelo apoio emprestado à sua candidatura, como também foi vitorioso em todos os Estados pelos quais se candidatara, optando pelo mandato de senador pelo seu Estado natal.
O Presidente eleito tomou posse em 31 de janeiro de 1946, e a Assembleia Constituinte foi instalada a 2 de fevereiro. Em setembro do mesmo ano, a Constituição foi promulgada.
O general Dutra, à frente do governo, preocupava-se com a legalidade que fora concedida ao Partido Comunista, e, temeroso de que comprometessem a ordem, muito se empenhou para cancelá-la, alcançando o seu intento em maio de 1947, após muitas discussões.
Para ver o seu trabalho completo, continuou o seu empenho, até conseguir, no início de 1948, a cassação do mandato de todos os representantes desse partido, eleitos em dezembro de 1945, sob a alegação de que não poderia haver representantes de um partido extinto.
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 02, 2018 9:14 pm

Entre muitos, Prestes, eleito senador pelo Rio de Janeiro, teve também o seu mandato cassado.
Nos primeiros meses de 1949, já os partidos começaram a se movimentar, tendo em vista a sucessão presidencial.
Muitos nomes foram lembrados, e, entre eles o de Vargas, como também o do brigadeiro Eduardo Gomes, novamente pela UDN.
O PTB, com desejo de derrotar a UDN, estimula a candidatura de seu presidente — Getúlio Vargas — que, após certa relutância, acede.
Contudo, temendo não sair vitorioso somente com a força do PTB, busca apoio em outro partido, encontrando-o no PSP de Adhemar de Barros, com o compromisso de certas concessões, em caso de vitória.
Essa aliança foi muito bem aceita pelo povo, e a sua candidatura crescia muito.
O PSD foi buscar seu candidato em Minas Gerais, na pessoa de Cristiano Machado, mas, verificando o grande crescimento da candidatura Vargas, resolve apoiá-lo, realizando com ele acordos em favor de seus candidatos locais.
Com o apoio que recebeu, e os acordos realizados, Getúlio Vargas é levado de volta à Presidência da República, porém, dentro das exigências de um regime democrático, com um Congresso e uma nova Constituição — a de 1946 — que, como constituinte, recusara-se a assinar!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 02, 2018 9:14 pm

NOVA OPORTUNIDADE
Uma nova perspectiva se abria ao nosso herói, personagem principal dessa trama na qual se envolveu, esquecido de tudo o que planejara no Mundo Espiritual, o que quase sempre ocorre.
Mas, no seu íntimo, aquela força que trazia em si, o impelira a novamente lutar pelo posto que tanto desejara possuir, com nobres propósitos.
Sofrera bastante, passara por desilusões, tanto com suas amizades como com seus adversários; trabalhara, lutara, conquistara adeptos, fizera inimigos, e o tempo passou.
Voltava mais velho, é certo, mas também mais experiente!
Poderia, agora que a oportunidade lhe retornava às mãos, desenvolver todos os projectos que pretendera.
Aplicar seus esforços no sentido de estender ainda mais os benefícios sociais, tão necessários ao bem-estar de cada um, sobretudo à classe trabalhadora, como já os havia proporcionado.
Ampliar as condições de uma vida mais digna, pela melhor valorização da capacidade humana, através de recursos que lhes garantissem não só a saúde, a educação, mas também o aprimoramento tecnológico e científico, imprescindíveis ao progresso de uma nação.
Tudo voltava às suas mãos!
O seu retorno o separava de sua retirada, apenas um lustro, mas parecia haver decorrido muitos anos!...
Ele, que novamente representava as esperanças de tantos, voltava mais cansado.
Os seus inimigos, aqueles que se sentiram lesados em seus anseios, pela derrota, estavam atentos a todos os seus passos, à menor de suas atitudes.
Acercou-se de um Ministério, ajustado para satisfazer acordos políticos que favoreceram o seu retorno.
Compunha-o elementos do PSD e do PTB, o partido que o levara de volta ao poder.
Após os primeiros anos, esse Ministério foi quase todo substituído, tendo sido trazido para ele, entre outros, seu amigo de longa data — Osvaldo Aranha —, para a Fazenda; Tancredo Neves, para a Justiça; José Américo, governador da Paraíba, para a Viação; Zenobio da Costa, com um passado de glória, por ter feito parte do comando que levou os pracinhas brasileiros à Itália, para a Guerra. Entre
eles apareceu também, um jovem desconhecido nos meios políticos, que desfrutava da amizade privada de Vargas — João Goulart —, colocado no Ministério do Trabalho.
Vargas tinha sido eleito com o apoio quase que total das massas populares, entre as quais gozava de grande admiração.
Por ocasião das eleições, desenvolveu uma campanha de aproximação com o povo.
Viajou pelo Brasil todo, entrando em contacto com populares, despertando-lhes maior simpatia, levando-lhes esperanças.
Levantava, em seus discursos, os problemas que os envolviam directamente, como a inflação, e ninguém melhor do que eles para sofrer-lhes as consequências, prometendo fazê-la voltar ao patamar de seu antigo governo.
O povo, cheio de esperanças, o apoiou e o levou de volta à chefia da Nação.
No entanto, o tempo se escoava e ele estava perdendo o seu prestígio.
Não conseguia conter a inflação, não conseguia satisfazer os anseios do povo sofrido, e contava com os ataques de seus adversários, principalmente da UDN, que se sentira prejudicada.
Era necessário reconquistar a simpatia do povo, de alguma forma que lhe fosse vantajosa.
Para isso, a presença de João Goulart, no Ministério do Trabalho, seria importante.
Nesse sentido, o ministro desenvolvia as suas actividades, actuando junto aos trabalhadores, indirectamente, através da infiltração de elementos do ministério em seus meios.
Forçava o aumento salarial, tendo estabelecido um novo salário mínimo, sem verificar se o País tinha condições de suportá-lo; estimulava greves, fazendo com que suas atitudes despertassem a atenção de grupos reaccionários, principalmente nas Forças Armadas e na UDN, que receavam, entrasse a Nação, novamente, num período de anarquia.
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 02, 2018 9:14 pm

Diante desse clima que começava a se instalar no País, em consequência às medidas tomadas pelo Ministro do Trabalho, os militares forçaram Vargas a demiti-lo.
Havia ainda outros factores em desfavor da política adoptada pelo Presidente, contribuindo para que seus adversários o criticassem cada vez mais.
Quando Vargas foi eleito, as reservas que o governo americano nutria em relação a ele, desde o período da ditadura, retornaram.
Mais tarde, quando Vargas conseguiu do Congresso uma lei, criando a Petrobras, mesmo com toda a oposição dos americanos, o seu prestígio cresceu entre o povo, mas decaiu entre os grupos reaccionários, principalmente a UDN, que desejava se aproveitar da situação, para mais facilmente derrubá-lo do poder.
Os ataques ao governo foram aumentando.
Quando se ataca, também se calunia, e o governo Vargas, em 1954, estava desgastado, caluniado e nenhuma decisão de maior interesse tomava.
A verdade é que lhe era difícil governar com um Congresso e uma Constituição, se sempre fora um ditador!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:15 pm

SOLUÇÃO DEFINITIVA
A situação em torno do Presidente estava se tornando muito difícil.
A incompreensão de seus antagonistas, o desejo de vê-lo terminar logo o seu mandato, era grande!
Por que não apressar esse término?
Por que não encetar campanhas para desmoralizá-lo cada vez mais, tornando impossível a sua permanência no governo?
A UDN, que lhe era antagónica, frustrada por nunca ter conseguido o poder pelo qual tanto ansiara, tudo fazia para que esse anseio se concretizasse.
O clima político no Rio de Janeiro e, em todo o País, andava tenso pela proximidade das eleições para diversos cargos de governadores, prefeitos e para a renovação da Câmara de Deputados e parte do Senado.
Os ânimos estavam acirrados, o ambiente propício a ataques ao Presidente, e a que corrupções fossem trazidas a público, influenciando o povo.
A situação se agravou quando o acusaram de manter um acordo secreto com o Presidente Perón, da Argentina, na época, em divergências com o governo americano.
A imprensa atacava-o desmesuradamente, e, nela, uma figura sobressaía-se pela violência dos ataques:
era o jornalista Carlos Lacerda, director do jornal Tribuna da Imprensa.
Por dissensões pessoais com Samuel Wainer, o director de outro jornal, Última Hora, o referido jornalista estimulou a Câmara a pedir uma Comissão Parlamentar de Inquérito, para averiguar a origem dos recursos utilizados na instalação do seu jornal.
A verdade é que o director de Ultima Hora, tendo ajudado Vargas na campanha eleitoral, instalara o seu jornal, para lhe dar apoio, com recursos do Banco do Brasil, facilitados pelo Presidente, que precisava de um órgão de imprensa a seu favor, uma vez que os outros lhe eram contrários.
Muitos outros factores desfavoráveis ao Presidente iam surgindo, e, todos eles, aproveitados de forma sensacionalista, pelo aludido director do jornal, excedendo, muitas vezes, o limite da veracidade:
o custo de vida subindo, o período pré-eleitoral, a veemência com que os fatos eram narrados pela imprensa, tudo contribuía para crescer o desprestígio do governo.
Tal era a intensidade dos ataques e das pressões exercidas pelo jornalista, que, entre os militares e políticos, muitos já temiam pela sua vida.
Assim foi que um grupo de jovens oficiais da Aeronáutica ofereceu-lhe protecção, através de uma guarda pessoal.
Na madrugada de cinco de agosto, quando Carlos Lacerda voltava à sua casa, em frente ao edifício onde morava, foi atacado, tendo sido ferido a bala.
O jovem major, Rubens Vaz, que lhe dava protecção, foi atingido e morto.
Estava aceso o estopim que faria incendiar os ânimos dos opositores de Vargas, ainda mais quando, por investigações realizadas pela Aeronáutica, que tomou a si desvendar esse crime, foi apurado que, no atentado, havia o envolvimento de elementos da guarda pessoal do Presidente, que obedeceram ordens de seu chefe, Gregório Fortunato.
Convém aqui esclarecer que Gregório Fortunato, chefe da guarda, fora trazido do Rio Grande do Sul, pelo irmão de Vargas, Benjamim; ele não media a extensão de seus actos, desde que fossem para proteger a pessoa do Presidente, a quem se ligara há muitos anos, desde a formação de sua guarda pessoal, quando da invasão ao Palácio Guanabara, pelos integralistas.
Desde aquela ocasião, fizera-se seu fiel protector.
Acompanhara-o pelo Brasil, durante a campanha eleitoral, praticando, muitas vezes, actos de extrema brutalidade e deselegância, no desempenho dessas suas funções.
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:15 pm

Sem pensar nas consequências, movido apenas pelo desejo de lhe proporcionar, o que entendia como tranquilidade, levara-lhe, ao contrário, os momentos mais cruéis de sua vida política.
Carlos Lacerda, refeito, aproveitou-se desse fato, para tirar dele as vantagens que lhe seriam favoráveis.
Quando Vargas tomou conhecimento do envolvimento de sua guarda, no crime, segundo planos formulados à sua revelia, prometeu punir os culpados, ainda mais que não se sentia responsável pela participação que lhe imputavam!
Sentiu-se atraiçoado, desfez a guarda, mas, seu prestígio, que já vinha tão abalado, acabou de cair por terra...
O líder da oposição na Câmara chegou a pedir a sua renúncia, e essa ideia começou a crescer!
A partir do dia vinte de agosto, quando a situação do País estava já num clima insustentável, diversas propostas de renúncia lhe chegaram às mãos, desde a do Vice-Presidente, Café Filho, para uma renúncia conjunta, até a dos oficiais das Forças Armadas — brigadeiros e generais —, por meio de documentos.
Sempre recusou a todas, dizendo que defenderia seu posto até o fim.
Ocupava um cargo para o qual fora eleito dentro de uma Constituição vigente no País, e de nada se sentia culpado — nem dos crimes, nem da corrupção praticada sem a sua anuência.
No dia 23, por volta de meia-noite, o Ministro da Guerra procurou o Presidente, colocando-o a par do que se passava nos meios militares, dizendo da impossibilidade de lhe dar sustentação através de uma defesa armada, caso houvesse uma insurreição.
O problema era muito grave, e o Presidente convocou, para aquela noite mesma, uma reunião com o seu Ministério, tendo sido iniciada às três horas da manhã, à qual compareceram todos os seus ministros, tanto civis quanto militares, e sua filha, Alzira Vargas do Amaral Peixoto.
O general Zenóbio da Costa, Ministro da Guerra, repetiu o que já lhe havia exposto, e os outros dois ministros militares também admitiram que já haviam perdido o controle de suas corporações.
Alzira Vargas e o ministro Tancredo Neves estimulavam-nos à resistência, enquanto José Américo e Osvaldo Aranha, entendendo que a renúncia seria uma solução, não quiseram, entretanto, influir na deliberação do Presidente.
Enquanto essas discussões eram levadas a efeito, uma nova estratégia é apresentada:
o licenciamento do Presidente, até que os ânimos se acalmassem e tudo voltasse à normalidade.
Getúlio Vargas concordou, e o ministro Zenóbio da Costa foi encarregado de levar essa resolução aos militares, que se encontravam em reunião.
A proposição foi aceita, mas a licença seria definitiva...
Estava, assim, deposto o Presidente, como era desejo geral.
Sem ter ainda tomado ciência da imposição dos militares, Getúlio Vargas estava mais tranquilo, achando que uma solução satisfatória havia sido encontrada.
Mas, pela manhã, ainda nos seus aposentos do palácio do Catete, toma conhecimento da resolução, através de seu irmão Benjamim.
Compreendeu que tudo terminara...
Estava deposto!
O que passou por sua mente naquele momento, não se sabe, mas um estampido pôde ser ouvido, logo mais, vindo de seu quarto, e todos acorreram.
O velho Presidente estava estendido em seu leito, com um tiro no coração!
Era o dia 24 de agosto de 1954!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:15 pm

SEGUNDA PARTE

NO MUNDO ESPIRITUAL

"... volto da história para ensinar a vida"


INCONSCIÊNCIA
Quando uma situação envolve um ser, como a que envolveu o nosso herói — todos em torno dele, ou melhor dizendo, de seu corpo inerte, preocupados ainda com o orgulho ferido, os corações magoados, as decepções, a revolta contra tantos — tudo se passa de forma diferente, para aquele que acaba de deixar o corpo que lhe serviu para tantos actos, tantas decisões, tantas atitudes menos dignas e outras sublimes.
Os seus adversários acusavam-no, pedindo-lhe e até exigindo a sua retirada do governo!
Mas seu orgulho — o orgulho daquele que governara o País por mais de uma vez —, era grande, embora percebendo que nada mais poderia fazer, porque as forças contrárias o oprimiam cada vez mais.
Premido de todas as maneiras, sem saber como resolver a situação, sem que seu orgulho de homem fosse ferido, procura para si uma retirada que, para muitos, foi covarde, para outros, altruísta.
Isso era o que os jornais narravam, naquela manhã, em que o nosso herói foi encontrado estendido e imóvel sobre o seu leito.
A notícia logo correu e se espalhou às grandes nações.
Estava terminado um período que já vinha se esvaziando, pela própria ineficiência com que se desenrolava, e pelas teias que o envolveram.
A Nação sentiu-se enlutada, entretanto, muitos sentiram-se alegres:
a alegria do alívio, e do livrarem-se de um Presidente indesejado.
As pompas que requer um homem da sua posição, foram realizadas. Enterradas com ele — diziam muitos — serão todas as más ideias de um governo que já não podia ter suas acções livres, e que, só aparentemente, lutava pelo direito do trabalhador, mas, no seu íntimo, não era essa a sua intenção.
O amor que lhes proclamava — diziam — era a forma demagógica com que pretendia se manter no poder!
Todavia, num último instante que, por alguns foi erroneamente chamado de digno, ele se retira da face da Terra!
Retira-se de junto dos que o amavam, e de junto dos que o oprimiam!
O nosso herói, porém, que deixava tudo pelo qual havia lutado, tendo o seu Espírito retirado do corpo de forma tão brusca, inesperada, não sabia o que sucedeu!...
Não é possível, pela violência do ato, saber, de pronto, o que se passou.
A inconsciência que tomou o corpo deixado por ele, tomou-lhe também o Espírito, e ele não se apercebeu logo o que havia transcorrido.
Seu Espírito transtornado, combalido, mais triste, mais abatido e envolvido por compromissos tão profundos, não sabia que rumo tomar.
O seu sofrimento era muito grande e prolongava-se por um tempo que ele não conseguia precisar quanto.
Mas o amparo espiritual se faz, na medida em que a misericórdia do Pai Maior do Universo permite, e, dia chegou, que um destino foi dado a esse irmão infeliz e atormentado.
Aproximou-se dele uma entidade que lhe falou de forma doce e meiga, mostrando compreensão pelos seus problemas e fazendo-lhe entrever um rumo diferente do que havia tomado até então.
— Irmão, sei que tem estado sofrendo bastante, e, até agora, nem sabe exactamente o que houve.
Sei que tem se perguntado muitas vezes o que aconteceu, onde se encontra, e as suas indagações encontraram eco em nossa agremiação, e aqui estou para ajudá-lo!
Se quiser me acompanhar, ou melhor, se quiser deixar-se levar por nós, estará amparado, protegido e logo terá consciência de todos os factos.
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:16 pm

Naquele instante, seus sentimentos confusos, nada compreendiam.
Sua mente, atormentada por tantos problemas que ainda moravam no seu ser, não lhe dava o descanso que gostaria de sentir.
Mas o irmão infeliz, sem nada responder, apenas com um aceno de cabeça, revelou que concordava.
Partiram em caravana, pequena, mas suficiente para conduzi-lo a lugar seguro, onde passaria por tratamento.
Teria um período de repouso para seu refazimento e, futuramente, condições de verificar o que havia realizado, e o modo como o havia feito.
Esse nosso irmão, do momento em que deixou o corpo, nunca fora abandonado.
Ele viera à Terra com nobres propósitos, e angariara, dentro dos propósitos realizados, a promessa da protecção, que, muitas vezes não permitimos influir em nossos actos, quando aqui estamos encarnados, porque interesses outros impedem que ouçamos aqueles invisíveis que nos acompanham.
Ele nunca deixou de tê-los em sua companhia, e até presenciaram o seu instante final!
Todavia, nem sempre o que desejamos fazer, o podemos, e o nosso irmão necessitava passar por aquele período, difícil, mas benéfico ao seu Espírito.
Sempre fora observado, às vezes mais próximo, às vezes mais à distância, conquanto ele nunca percebesse...
Gravitavam em estágios evolutivos diferentes, e, ainda que a aproximação se fizesse, não era notada.
Porém, no momento em que a misericórdia divina achou oportuno, ele a percebeu, a ouviu, sem entender bem, e pôde ser levado.
Quanto tempo passou desde que deixara a Terra?
Era difícil precisar, mas muitos anos haviam decorrido, até que pôde ser recolhido para o auxílio.
Agora encontrava-se já num leito, sendo tratado, recebendo os primeiros atendimentos naquela Colónia socorrista e, para a sua surpresa, quando tivesse condições, verificaria ser a mesma de onde saíra feliz, preparado para a empreitada que desenvolveria no orbe terrestre.
O amparo directo a nosso irmão, começou assim, a ser efectuado.
Parecia que tudo estaria resolvido para aquele Espírito tão infeliz, tão atormentado e ainda tão inconsciente de seus próprios actos.
A Colónia para onde fora levado, já a conhecia de sobejo, pois nela se preparara para a sua última encarnação, chegado da anterior em que vivera na Terra.
Numa de suas precedentes passagens por este orbe, em que vivera, não no Brasil, mas em outro país, desfrutando de uma posição de destaque, muito errara, fizera sofrer e muitos inimigos ferrenhos granjeara. Como nada, neste grande Universo de muitas galáxias, fica perdido — tudo tem o seu registo nos autos celestes — as acções do nosso irmão, naquela oportunidade, ficaram também registadas.
Seus actos despóticos contra muitos lá estavam, fazendo parte desses grandes registos.
Entretanto, como fomos criados por Deus, não para sermos maus, nem para persistirmos no erro, temos muitas oportunidades de redimir o próprio Espírito.
Só ele é que é eterno, e para ele é que lutamos, sofremos, aprendemos e progredimos, a fim de que, encarnação após encarnação, desfazendo-nos das nossas imperfeições, possamos praticar actos de grande sublimidade e nos aproximarmos mais de Jesus.
Esta é que deve ser a nossa caminhada, estes é que devem ser os nossos intentos, e para isso é que devemos lutar, trabalhar, como Espíritos eternos que somos.
Se praticamos muitos erros numa encarnação, temos a oportunidade que nos é dada por Deus, em outras, para ressarci-los com acções nobres, desfazendo inimizades, conquistando-as para o nosso coração.
Mas nem sempre assim procedemos.
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:17 pm

Um Espírito, na maioria das vezes, se prepara, estuda, toma conhecimento de tudo o que realizou de mal, se arrepende e promete ser diferente nas encarnações vindouras.
Porém, quando tem a ocasião de reencarnar, com nobres propósitos, depois de uma grande preparação, pode cometer, outra vez, os mesmos actos infelizes.
O aprendizado, as boas intenções, muito o ajudarão no resgate de suas faltas, mas, quando aqui chega, nem sempre o que planeou e prometeu se realiza.
A arena humana é cheia de feras e atractivos, e, passar por ela, ileso, é muito difícil, embora alguns o consigam.
Quando aqui estamos, colocados novamente frente a frente com as feras que nós próprios criamos pelos nossos actos de maldade, se não conseguimos o seu perdão, tudo fazem para nos transformarem em feras também.
Parece complicado, mas é muito simples.
Basta compreendermos que, ao retornarmos à arena, nos defrontamos com os desafectos, com as inimizades e com todos aqueles que, em encarnações anteriores, prejudicamos.
Ao encontrá-los, um instinto natural e próprio do Espírito, nos leva a sentir por eles, sem imaginarmos porque, uma certa repulsa, uma malquerença.
Se não soubermos superar esses sentimentos, pelo nosso próprio esforço, vamos novamente fazer reviver muito do que já passamos, ou do que fizemos outros passar, sem nem mesmo entendermos o porquê.
No entanto, se tivermos os ensinamentos de Jesus no coração, e compreendermos melhor o nosso objectivo, aqui como encarnados, como Espíritos eternos à procura de redenção, nós nos trabalharemos, nos esforçaremos, e faremos transformar os desafectos em afectos, as inimizades antigas em amizades sinceras, os actos mal praticados em acções sublimes de amor.
O que dizer, porém, àqueles que não têm a crença em Deus, que não se apegam a uma religião cristã, àqueles que ainda não conhecem nem se importam com os ensinamentos de Cristo?
Esses julgam que vivem apenas uma vez, e que tudo deve ser resolvido aqui.
Se sentem que há desafectos, é em virtude das acções dos outros, que condenam, e com as quais não concordam.
Procuram, de todas as maneiras, atingi-los, fazendo prevalecer a sua vontade, o seu ponto de vista, mesmo que para isso tenham que ofender, magoar ou caluniar.
O nosso irmão passava, agora, graças ao atendimento que lhe era dispensado, por um período de tranquilidade emocional, e de reequilíbrio para o seu Espírito tão combalido.
Os dias transcorriam, e diversas formas de tratamento lhe foram propiciadas: passes terapêuticos de refazimento perispiritual, passes direccionados à mente, e também à quietação, à segurança, com o carinho dos irmãos que o rodeavam. Ele esteve inconsciente por muito tempo.
Uma inconsciência provocada, para que melhor pudesse, não só se refazer, mas captar integralmente, de modo mais directo e preciso, o que lhe era ministrado em forma de socorro.
Passou alguns meses nesse estado, mas percebia-se que seu Espírito melhorava cada vez mais.
O sono inconsciente, provocado, continuava, durante o qual recebia os cuidados necessários, até que pudesse despertar em condições mais satisfatórias à outra parte do tratamento que lhe seria dispensado.
Durante esse sono, foi-lhe feito um isolamento, para que nenhuma lembrança lhe ocorresse.
Era como se trabalhassem com um material que devesse estar parado no tempo, apenas com emoções e factos armazenados, mas que nenhum lhe acudisse à mente, para não interferir no andamento do socorro que lhe era prestado.
Alguns meses mais passaram, até que um dia, ao perceberem que seu Espírito já podia retomar um pouco da consciência, e, ir reconquistando as lembranças de suas próprias acções e de toda a sua vida anterior, começa uma nova fase de tratamento.
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:17 pm

Fizeram-no ir recobrando os sentidos — como diriam os encarnados — e, ainda meio confuso, pôde abrir os olhos.
As névoas foram se tornando mais claras, e conseguiu divisar irmãos abnegados à sua volta.
Sem saber o que havia ocorrido, pensou encontrar-se num hospital terrestre.
Explicado lhe foi que se recuperava de enfermidade.
— O que aconteceu? — perguntou.
Não me lembro de nada!
— Não se preocupe agora, irmão!
Tudo lhe voltará à mente, aos poucos e, quando puder se recordar, estará feliz por ver que se encontra recuperado.
— Não consigo ordenar os meus pensamentos!
Parece que estou renascendo hoje, não tenho memória de nada!
— Pense assim!
Que hoje é um renascer, é uma nova vida que se inicia, e, nesta vida, muitas alegrias se lhe achegarão!
Esse foi o primeiro momento de consciência instantânea que teve, sem, contudo ter a consciência mais remota do passado.
— Agora o irmão vai repousar um pouco, dormir novamente, e poderá até sonhar!
Sonhos bonitos que o ajudarão a acordar bem melhor, e com algumas recordações de si mesmo!
— Vocês são muito bondosos!
Farei o possível para obedecer ao que me prescreverem, e me recuperar em breve espaço de tempo.
Mais algum tempo ele esteve nessa semiconsciência, até que um dia, quando aquele irmão abnegado dele se aproximou, o que tinha em suas mãos o controle da enfermaria, começava um novo período para ele.
— Então, como se sente hoje?
Gostaria de se levantar um pouco e dar um pequeno passeio?
— Eu não tenho condições!
Não suportaria sair daqui por mim próprio!
— Se não puder, nós o levaremos!
Temos meios para isso!
Poderá caminhar alguns passinhos, mesmo que seja aqui, entre nós, sempre é um começo!
Auxiliado por enfermeiros solícitos, ele foi retirado do leito, e ensaiou alguns passos.
A cada dia o exercício foi realizado, sempre um pouco mais, um pouco mais, até que conseguiu chegar à parte externa do prédio, onde pequeno jardim alegrava o ambiente.
— Sinto-me feliz hoje, mas ainda me falta compreender muitas coisas!
Por que eu nunca recebi uma visita de nenhum de meus familiares?
Onde estou?
— Não se preocupe em saber onde está, meu irmão!
Tudo lhe será esclarecido de forma bem tranquila, e compreenderá.
Esse esquecimento era necessário, mas agora mesmo eu vou fazê-lo entender um pouco do que se passou com você.
Lembra-se de seu nome?
— Sim, acordei hoje consciente de que me chamo Getúlio Vargas e de que sou o Presidente deste País — ou eu não estou no Brasil?
— Fico contente de que se lembre quem é!
Como estava, antes da sua enfermidade, o seu trabalho como chefe da Nação?
— Muito difícil!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:17 pm

Faziam-me tantas acusações, das quais não me reconhecia culpado, e andava muito acabrunhado, infeliz e preocupado!
— Muito bem!
Era exactamente o que ocorria!
O que aconteceu depois?
— Não me lembro de mais nada!...
— Não tem importância, já se lembrou o bastante, e isso o levará a outras recordações, as quais, no momento certo, lhe aflorarão à mente.
Por ora, poderemos voltar ao seu leito, pois temos medicamentos que precisam lhe ser ministrados.
— O senhor é muito bondoso!
A sua presença traz-me uma tranquilidade e uma segurança muito grandes, assim como a de todos que cuidam de mim, aqui.
Penso que, se assim estou, devo a vocês, irmão...
Como se chama?
— Meu nome é Fulgêncio!
Cumpro a minha obrigação com muito amor, e a minha alegria é vê-los, todos, felizes e recuperados!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:17 pm

VISITA ESCLARECEDORA
Getúlio, cuja personalidade começava a ser readquirida, embora ainda tempo levasse para tornar à plenitude das lembranças, com toda a sua vida lhe descortinada à frente, voltou ao leito.
O repouso deveria ser feito, os medicamentos ministrados, como também os passes para o fortalecimento espiritual e mental.
Tudo é realizado de forma lenta, nessas oportunidades.
O sofrimento havia sido intenso, os débitos foram grandes!
Após o desenlace do corpo, permaneceu muito tempo confuso, inconsciente, e em grande sofrimento! Sentia-se perdido...
Nessas circunstâncias, o tratamento espiritual, embora dedicado e constante, tem que ser bem dosado para não trazer nenhum choque prejudicial ao Espírito convalescente.
Por isso, o nosso irmão recebia o carinho, as prescrições medicamentosas, os passes direccionados ao perispírito e à mente, e o progresso se efectuava, porém, lento.
Era regulado para que esse refazimento fosse salutar, e não
prejudicial pelas lembranças, todas voltadas de chofre, causando um desequilíbrio difícil de ser sanado.
Dessa forma, ele se encontrava bem melhor, conseguia sair do leito, fazia pequenas caminhadas, e chegava até o pequeno jardim, mais próximo às instalações da enfermaria.
Entretanto, logo mais teria possibilidade de descortinar um grande e belo parque, arborizado e florido, disponível àqueles que suportavam caminhadas mais longas.
Dispenderia algumas horas passeando, encontrando companheiros nas mesmas condições, revigorando o Espírito com fluidos benéficos hauridos da Natureza espiritual, composta de elementos que lhe proporcionariam aquele hálito de energias salutares ao seu restabelecimento e bem-estar, cada vez maiores.
A consciência deveria retornar-lhe!
Fariam tudo para isso, e seria o complemento do que já lhe havia sido dispensado.
Porém, aguardariam ainda um pouco, até que tivesse condições.
O progresso se realizava, auxiliado então, mais de perto por Irmão Fulgêncio, que, a cada dia, fazia-o entrever alguns relances do seu passado.
Ainda era como se estivesse se recuperando de enfermidade prolongada, e nada sabia, nada se recordava dos fatos finais que lhe propiciaram o retorno ao Mundo Espiritual.
Naquela manhã, irmão Fulgêncio se aproximou, levando-lhe uma notícia:
— Hoje, querido irmão, vamos ao pequeno jardim!
Lá, uma surpresa o aguarda!
Outro dia, reclamou que nenhum familiar o havia visitado, e hoje temos um seu familiar muito querido, aqui, em visita!
Ela o aguarda no jardim! Vamos até lá! Penso que deveria arrumar-se bem, para que a visita o veja bem!
Caminhando, não tão vagaroso como o fazia, chega ao jardim e vê uma senhora sentada, de costas, reconhecendo-a.
— Parece-me que é Darci!...
— Sim, vamos até lá!
Muito surpreso com aquela presença, chegou-se até ela que, ao vê-lo, levanta-se e o abraça fortemente.
— Há tempos a esperava!
Estou muito feliz.
A minha recuperação, agora, se fará muito mais rapidamente!
— Hoje, querido, vim visitá-lo, para que compreenda uma situação!
— O que houve?
A que situação se refere?
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:18 pm

— Antes de lhe responder, diga-me, como me vê?
Está feliz com a minha visita?
— Era o que mais eu esperava!
Poder abraçá-la novamente como o fiz!
Por que não veio antes?
— Não me era permitido, mas hoje chegou o dia de você saber o que aconteceu, por isso vim!
— O que aconteceu?
De que está falando?
— Primeiro quero saber como me vê, como se sente, que não me respondeu!
— Sinto-me feliz com a sua presença, e vejo-a mais bonita ainda!
Agora diga-me, o que houve?
— Há tempos, querido, fiquei só, que você me abandonou!...
— Eu nunca a abandonei!
— Você deixou a Terra e partiu!
Eu fiquei só e triste!
— O que quer dizer com isso?
— Ouça-me para poder compreender bem! Você me deixou, deixou os nossos filhos, deixou o seu posto, deixou a Terra...
— Você quer dizer que morri?
— Se é com essa palavra que irá entender, que a utilize, mas responda-me:
— Você sente-se morto?
— Não, Darci, sinto-me vivo, muito vivo, por isso não entendo!...
— Eu vou continuar e você entenderá!
Algum tempo depois que nos deixou, eu também parti da Terra e aqui estou!
Se é preciso dizer que morri, para que entenda, eu direi!
Mas, como você, sinto-me viva, muito viva e feliz por encontrá-lo hoje!
Estamos ambos vivos!
Não sente alegria, por rever-me, meu companheiro de tantos momentos felizes?
— Por tudo o que entendi, está me dizendo que não estamos mais na Terra?
— Sim, meu querido! Deixamos o nosso corpo e vivemos em Espírito!
Continuamos vivos, e viver no Mundo Espiritual, não é maravilhoso?
— Em sua companhia, tudo é maravilhoso!
Sinto-me bem, e não importa se somos só Espíritos!
Estou feliz de nos encontrarmos, mesmo que não mais estejamos na Terra!
Sinto-me vivo, vejo-a viva, estamos juntos, isso é que é importante!...
— Sim, meu querido, você vai poder estar comigo, virei visita-lo sempre, porque gravitamos no mesmo plano!
— Você foi minha companheira dedicada, compreensiva e sempre me fez feliz!
— Pois então!
Essa felicidade pode ser retomada, talvez, quando estiver completamente refeito!
Deus é quem rege os nossos destinos e, quem sabe, ainda estaremos juntos!
Por ora, deve pensar apenas na sua recuperação total!
Há tempos queria vê-lo, mas não tinha a permissão para visitá-lo, até que hoje me foi possível — era o momento de lhe fazer esta revelação!
— Não sei o que dizer, Darci!
Ainda não tenho a totalidade da minha consciência, mas sei que era Presidente!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 03, 2018 8:18 pm

Como está o meu amado País neste momento?
Por que eu voltei tão inesperadamente? Eu não me lembro de que estivesse enfermo!
— Tudo lhe será esclarecido no momento certo!
Cada coisa tem sua hora. Hoje foi um dia muito importante para você e para mim também, pois, além deste encontro, depois de tantos anos afastados, você passa a ter consciência de que não está mais naquele mundo tão atribulado, de tantos problemas — só isso deve deixá-lo feliz!
— Preciso pensar bastante e, quando estiver totalmente reequilibrado, procurarei ter toda a minha existência de lá!
Quero, mentalmente, rever recantos que me foram tão felizes e tranquilos, quero trazer tantas coisas para essa minha vida, agora!
— Não pense em nada disso! Pense apenas em se restabelecer, em ser feliz com o atendimento que lhe estão dispensando!
Pense no amor com que todos aqui o tratam, e que hoje teve a felicidade e a permissão de Deus para nos reencontrarmos.
Nesse momento, Irmão Fulgêncio, que tinha se mantido um tanto à distância, mas observando, achou que era tempo de Getúlio se recolher — já havia tido emoções suficientes para o dia — e se aproximou.
— Irmã Darci, quero lhe agradecer por ter cumprido muito bem tudo o que combinamos, e penso que agora é hora de se retirar!
Getúlio necessita voltar ao leito, e passar por algumas horas de repouso para asserenar a mente e o coração.
— Sim, irmão!
Quero beijar-lhe as mãos por esse momento extraordinário que me proporcionou!
— Não me agradeça!
Agimos de conformidade com as ordens de nosso Mentor maior, e ele determinou que hoje seria esse dia, tanto para a irmã, que muito nos ajudou, como para Getúlio, que agora terá condições de partir para uma reconstituição plena de suas faculdades.
— Devo ir, então, querido, mas sempre que me for permitido, aqui estarei para vê-lo, e ainda teremos oportunidade de conversar bastante!
Fique tranquilo, para o seu próprio bem, e lembre-se de que sabia orar; tem feito isso?
— Sabe que não, Darci!
Não tenho me lembrado de orações!
— Mas deve fazê-lo! Se não se lembrar, peça ajuda ao nosso irmão!
— A irmã sabe, não é preciso que saibamos orar, — explicou o Irmão Fulgêncio — não é preciso nos lembrarmos de palavras decoradas para nos dirigirmos a Deus!
Basta que o façamos com o coração, com muito amor, dizendo aquilo que encontramos em nós próprios, e o nosso apelo chegará mais facilmente ainda, até Ele!
— Sim, irmão!
Graças a tudo o que recebi, sei disso, mas precisava falar assim com Getúlio, para que houvesse um começo.
— Entendo e agradecemos muito!
Agora vamos entrar, e que a sua volta seja amparada por Deus, que vê e auxilia todos os nossos passos!
A partir daquele momento, muitas mudanças ocorreriam na vida do nosso irmão.
Suas convicções, suas esperanças, a sua indefinição mental começariam a modificar-se.
Não entendia como aquela situação pôde ter ocorrido.
Não tinha lembranças de nada!
Mas e a presença de Darci teria sido uma ilusão dos seus sentidos?
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:14 pm

Não, não podia ser!
Falara com ela, abraçaram-se, conversaram, e ela o fizera com a mesma serenidade e doçura de anteriormente, mostrando compreensão e vontade de ajudá-lo!
Ela nunca o enganaria!
O Irmão Fulgêncio lá estivera e tinha falado com ela!
Então era verdade!?...
Só, em seu leito, imaginou tudo novamente, desde o momento em que dele saíra, a convite do Irmão Fulgêncio, até a sua volta.
Estava muito claro e, retinha em si, todas as palavras que haviam sido trocadas.
A verdade era comprovada por aquele hospital estranho, quando nenhuma visita recebera, e nem mesmo sabia em que local estava situado.
Era verdade!
Já deixara a Terra, deixara o seu posto, deixara o seu País amado, deixara os seus familiares e todos os que o rodearam sempre e quiseram auxiliá-lo!
Porém, ali, agora se encontrava!
Deixara também tantos problemas insolúveis, tantas situações complicadas, tantos descontentamentos, pela impotência de tomar atitudes.
Ah! Quanto sofrera!
Quantos desejos de realizações tivera, e quão pouco fizera!
Um enfermeiro aproximou-se-lhe do leito, trazendo um medicamento que o desviou de tantas reflexões, e, logo mais ele dormiu profundamente.
Quando acordou, depois de muitas horas de repouso, alguns auxiliares estavam à sua volta, como também Irmão Fulgêncio, que lhe perguntou:
— Como se sente hoje?
— É muito difícil responder!
Tantas lembranças, a conscientização do que me foi revelado, a visita de minha querida Darci, tudo está muito vivo em minha mente, e esteve também durante o meu sono, e sonhei muito!
Revi muitas situações, revi pessoas...
— Foi muito bom!
Agora irá se recordando, aos poucos, do que vivenciou na Terra!
Gostaria de se levantar para um passeio?
O dia está lindo e, se quiser caminhar, eu o acompanharei!
Quando se sentir cansado, nos sentaremos para conversar!
— Tentarei! A sua solicitude é muito grande, e eu não poderei negar!
Assim desfrutarei da sua companhia, que me traz muito bem-estar! Tentarei!
— Levante-se devagar, e começaremos a caminhar lentamente, deixando, pela primeira vez, o pequeno jardim próximo à enfermaria, o solarium onde os pacientes podem, sem muito desgaste, se refazer, se aquecer com as energias do Sol!
Naquele dia ele poderia caminhar um pouco mais...
Deixaram a enfermaria, passando por uma outra saída, e descortinaram, logo mais adiante, um outro jardim, maior, mais arborizado, aquele mesmo que continuava, mais além, num grande parque.
Andaram um pouco, e logo pararam sob uma árvore para descansar, sentando-se em um banco.
— Agora poderemos conversar!
Sei que tem muitas perguntas a fazer, principalmente em relação à visita que recebeu ontem, não é verdade?
— Vejo que não é necessário externarmos em palavras os nossos desejos, pois vê o nosso íntimo e sabe o que queremos, não é assim?
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:14 pm

— Sim, temos essa possibilidade aqui, e logo também a terá!
Sem o corpo carnal, muitas possibilidades se abrem ao Espírito!
Não precisamos mais dos órgãos sensoriais — os que temos na Terra — para percebermos o que está ao nosso redor.
Todo o nosso ser espiritual se porta como um radar, a captar, com muito mais intensidade, amplitude e precisão, o que lá ainda só percebemos através dos órgãos dos sentidos. Compreende?
— Estou procurando entender!
— Contudo, não era sobre isso que queria falar, não é mesmo?
— Tem razão, mas todas as explicações que me esclarecem, são importantes, e ajudarão a me elucidar nesta minha nova vida!
— Diga, irmão, o que deseja saber?
— Quero lhe contar o que ocorreu ontem, quando voltei ao leito!
De início, eu duvidei de tudo, pensando haver sido alguma alucinação dos meus sentidos, mas depois, procurando analisar melhor, cheguei à conclusão de que é verdade.
Encontro-me no Mundo Espiritual e estou em recuperação, não de enfermidade terrena, mas passo por um período de adaptação a esta nova vida que terei agora.
— Vejo que sua mente já tem capacidade para um raciocínio lógico e isso nos deixa muito felizes.
— Onde está Darci, irmão?
Se nós dois já deixamos a Terra, por que não estamos juntos?
Onde ela está?
— Há muitas verdades que você, aos poucos, compreenderá!
No grande espaço sideral, há muitos locais como este, de atendimento a irmãos desencarnados.
Cada um é levado a um deles, de acordo com muitas situações que agora seria difícil lhe explicar.
Mas é permitido, quando há necessidade, que um saia em visita a outrem!
— Quer dizer que eu também poderei sair daqui e visitar outros locais?
— Sim, mas não ainda!
Para isso é necessário um reequilíbrio perfeito de todas as faculdades espirituais, plena consciência de sua condição, e que seja, após isso, merecedor, através dos actos de amor que praticar em favor dos menos aquinhoados, em favor dos irmãos infelizes, entendeu?
-— Isso quer dizer que Darci já é merecedora?
— Não só isso, como também a sua visita de ontem teve duas finalidades.
O reencontro e, dele, o propósito maior que foi a compreensão de sua situação actual, sem que muitas explicações precisassem lhe ser dadas, sem que o irmão ficasse chocado, porque estava amparado por um ente tão querido, ambos no mesmo plano!
Isso lhe trouxe fácil compreensão, não foi assim?
— A alegria de vê-la foi tanta que, ao me dizer que havíamos deixado a Terra, nada significou para mim!
Estávamos ambos ali, e eu sentia-me vivo!
Aceitei plenamente, embora depois achasse que havia sido uma ilusão.
— Isso prova que a nossa vida na Terra, onde sofremos, lutamos, e somos felizes também, é semelhante à nossa!
A morte não é o fim, mas apenas uma transformação!
Passamos de um plano a outro, muito melhor, mais amplo em possibilidades, mais aberto aos nossos olhos!
A morte, quando em vida praticamos boas acções, quando vivemos pautados pelos princípios ensinados por Jesus, é uma bênção para o Espírito, que se liberta do jugo de tantas aflições.
Mas para que desfrutemos dessas delícias espirituais, temos que ser merecedores, compreende-me?
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:14 pm

— Sim, compreendo muitas coisas agora!
Sei que o sofrimento na Terra é grande, e nem sempre sabemos enfrentá-lo de forma proveitosa ao Espírito.
Sei também que carregamos connosco muitas imperfeições que nos fazem cometer erros e, por isso, tememos a morte.
— Quando se teme a morte, razões há!
Se temos consciência de que a vida continua, mas não a vivemos correctamente, sabemos que não merecemos um bom lugar no Mundo Espiritual.
Se não temos crença, se somos apegados a regalias terrestres, vivendo de forma egoística, visando apenas aos nossos próprios interesses, desfrutando de conforto conseguido à custa de sofrimentos dos outros, temos receio da morte, não pelo que possa nos ocorrer depois, mas sim, por deixarmos o que construímos em bens materiais, pois a morte, para tais pessoas, significa o fim de tudo, o nada!
— Sempre fui crente em Deus, sempre pratiquei minha religião, da forma como a entendia, é certo!
Mas a crença em Deus e na continuidade da vida, eu as tinha, só que não como a encontro aqui!
— Logo mais, quando estiver em condições, levá-lo-ei a visitar toda a nossa Colónia, todos os nossos departamentos, e, tenho a certeza, irá se surpreender com o que verá!
— Como assim, irmão?
— Surpreender-se-á com tudo o que possuímos aqui, e, quando visitar o Departamento Preparatório para Reencarnações na Terra, terá muitas surpresas!
Aguarde e verá!
— E quando me será permitido?
— Ainda demorará algum tempo!
Agora devemos retornar, contudo, todos os dias poderá sair um pouco.
Quando puder, eu o acompanharei, e, a cada dia, estenderemos um pouco mais a caminhada, até chegarmos ao grande parque.
Se não puder, algum outro irmão o fará, até que possa realizá-lo sozinho!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:15 pm

RESTABELECIMENTO
Muitos e muitos dias se passaram.
Getúlio tinha já quase que a plenitude de suas faculdades espirituais.
Realizava passeios sozinho, e pouco permanecia no leito, apenas o tempo suficiente para o repouso!
Caminhava bastante, conversava com outros, também em recuperação, passeava pelo grande parque em caminhadas matinais, haurindo aquele hálito benéfico que exalava dos vegetais, conjugado com a luz solar, e o restabelecimento foi se efectuando, não só para a sua alegria, como também para a de Irmão Fulgêncio, que o auxiliava mais de perto.
Nunca mais Irmã Darci viera visitá-lo.
Era preciso um bom espaço de tempo, a fim de que ele, num esforço próprio, fosse captando a sua existência anterior, e tudo o que a envolveu.
Tinha-a quase toda na mente, e com ela trabalhava bastante.
Algumas das suas realizações deixavam-no feliz, outras deixavam-no triste.
Ainda não podia avaliar a extensão exacta do que havia feito!
Tinha os factos, mas não as consequências, em forma de dissabores e de compromissos assumidos pelo Espírito.
Muitos deles os achava normais e próprios para um chefe da Nação, que precisava conter excessos, ou o que julgava sê-los.
Praticara-os em prejuízo de alguns, para chegar aos fins imediatos que desejava alcançar, nem sempre compatíveis com os objectivos levados do plano espiritual, com nobres intentos.
Irmão Fulgêncio deixava-os irem se achegando, sem nenhuma interferência, e sem aconselhamentos em relação ao que havia feito e aos compromissos que com eles assumira.
Ainda era cedo!
Mas o momento certo chegaria, e aí, então, quando tivesse condições de analisar e avaliar as suas próprias acções, pelos estudos que realizava, através de leituras, e mesmo pelos esclarecimentos de modo geral, ele próprio chegaria às conclusões necessárias, sem que ninguém lhe apontasse o dedo.
O efeito seria muito mais benéfico!
Se erramos, e alguém nos recrimina, nem sempre a advertência serve de modificação e aprimoramento aos nossos actos!
No entanto se nós próprios, através de uma compreensão maior ou uma indução, chegarmos à conclusão de que estamos em falta, aí sim nos será de grande proveito!
Procuraremos não mais cair nos mesmos erros, porque já aprendemos o suficiente para nos vigiar e comandar as nossas acções, direccionando-as adequadamente.
Era o que deveria acontecer com aquele irmão.
Ele passava, assim, por um período de tranquilidade, durante o qual ia compreendendo, aos poucos, a sua vida pregressa e, a par do que lia, ouvia e aprendia, teria condições de fazer a sua análise.
Quando o dia chegasse, teria o aconselhamento necessário a cada conclusão, e seu Espírito, já receptivo, poderia até arrepender-se.
Irmão Fulgêncio, conduzindo um outro irmão necessitado, a um passeio, encontra-o andando, meio cismarento, e pára, a fim de trocar algumas palavras.
— Então, irmão Getúlio, como tem passado?
Ultimamente temos conversado muito pouco! Como está?
— Sinto-me cada vez melhor, mais revigorado, já consigo caminhar por bastante tempo, desfrutando das delícias deste parque encantador!
— E o que faz enquanto caminha, irmão?
— Admiro esta bela Natureza que não vi igual em lugar nenhum do orbe terrestre e, ao mesmo tempo, penso, e tenho pensado muito, muito!...
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:15 pm

Tenho trazido para dentro de mim todas as lembranças, todas as reminiscências vivenciadas na Terra, e...
— ... e, como tem se sentido a cada uma delas? — interrompeu-o, indagando, Irmão Fulgêncio.
— Quanto a isso, gostaria muito de conversar com o senhor, quando puder me atender!
Preciso de algumas explicações!
Ainda há um momento obscuro em minha vida, e preciso da sua ajuda.
— Na ocasião certa, nos falaremos!
Vá fazendo esses exercícios mentais, que só lhe farão bem, mas não se esqueça também de se aplicar à leitura e às orações, como recomendou a nossa Irmã Darci, lembra-se?
— Sim, lembro-me e tenho me esforçado!
Tenho pedido muito a Deus que me ilumine e proteja, a fim de que eu tome um rumo adequado nesta minha vida de agora!
— Vejo que está se esforçando!
Quando chegar a hora, conversaremos, e lhe mostrarei muitas coisas.
— À propósito, por que Darci nunca mais voltou?
Gostaria tanto de vê-la!
Ainda não posso ir encontrá-la?
— Lembre-se do que já lhe expliquei!
Ainda demorará muito, mas, quando lhe for permitido e salutar, ela virá!
Agora pode continuar o seu passeio, que devo acompanhar este nosso irmão!
Getúlio, caminhando devagar, chegou àquele pequeno jardim, próximo à enfermaria, e se assentou um pouco para reflectir, descansar e desfrutar da companhia daqueles que ali estavam, tão necessitados quanto ele, de atenção, de carinho, de amor e de tratamento...
A recuperação do nosso irmão, dentro do previsto e programado, e que lhe era permitido descortinar em lembranças benéficas, estava completa.
Apenas uma parte obscura ficara, mas esta não podia ainda vir-lhe à mente, ser-lhe-ia prejudicial e, portanto, permaneceria bloqueada dentro do armazenamento de suas reminiscências.
Agora, outros passos deveriam ser dados!
Muito ainda teria que saber e reconhecer!
Irmão Fulgêncio era ainda o encarregado desses primeiros passos, enquanto ele permanecesse na enfermaria para a qual fora levado.
Logo mudaria para outro departamento, onde irmãos já recuperados de seus desequilíbrios, e do que haviam trazido da Terra, permaneciam mais libertos, mais activos, mais receptivos.
Entretanto esperemos até que ele possa ter essa possibilidade.
Irmão Fulgêncio, numa límpida manhã, aproximou-se de Getúlio, dizendo-lhe:
— Hoje será um dia muito importante para o irmão!
Levá-lo-ei a visitar toda a nossa Colónia!
Verá alguns departamentos e, quem sabe, ainda mais algumas lembranças lhe acudam à mente!
— Tenho mais ainda para me recordar?
— Sempre temos, sobretudo aqui, quando sabemos que não vivemos, na Terra, apenas uma vez!
— O que quer dizer com isso?
— Não se antecipe e venha comigo!
Daremos hoje um passeio diferente!
Não veremos o jardim, nem o Sol brilhante, mas outros locais que lhe serão interessantes, e de muito conhecimento.
— Estou à sua disposição!
— Pois então vamos!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:15 pm

Saíram da enfermaria, atravessaram o pequeno jardim, e ingressaram em outra parte.
Percorreram um longo corredor, estranho, com muitos compartimentos grandes, e cada um adequado a uma finalidade.
Todas as portas estavam fechadas e nada lhe foi mostrado, nem Irmão Fulgêncio falou sobre eles.
Encontraram muitos irmãos que por ali circulavam, tanto auxiliares, que os olhavam com bondade e um sorriso nos lábios, como outros que vinham para o seu aprendizado e recuperação.
Terminado o corredor, penetraram num outro departamento.
Chegaram a uma grande sala onde Getúlio vislumbrou muitas pessoas!
Algumas lendo, outras estudando, outras, sentadas a uma mesa, entretidas em preparar papéis!...
Muitas actividades eram ali desenvolvidas!
— Já viu algum lugar semelhante? — perguntou-lhe Irmão Fulgêncio.
— Assemelha-se a uma grande repartição, onde cada um desempenha o seu trabalho!
— Sim, tem razão!
— E o que fazem esses irmãos, aí tão aplicados?
— Procure fazer um esforço de memória, que você mesmo irá saber!
— Como fazer um esforço de memória?!
Não posso ter lembranças de um lugar que não conheço!
— Tem certeza de que não o conhece?
— Por que essa pergunta?
Hoje é a primeira vez que aqui venho, o senhor sabe!
— Nesta fase de sua vida é a primeira vez, mas procure lembrar-se; o irmão poderá, já está preparado para isso!
Olhe bem aquela mesa, aquela que permanece vazia, lá no canto, veja!
Vamos até lá! — convidou-o irmão Fulgêncio.
Dirigiram-se ambos até à mesa citada e, diante dela, Irmão Fulgêncio pediu-lhe:
— Sente-se um pouco! Getúlio, obedeceu-lhe.
— Nada lhe veio à mente? — perguntou-lhe novamente Irmão Fulgêncio.
— Parece que agora sim!
Parece que já estive sentado em uma mesa semelhante a esta, e lembro-me de que trabalhava bastante.
— E já se lembrou do que fazia?
— Não consigo!
— Pois irá lembrar-se, esforce-se!
— Sim, de forma um tanto imprecisa, vejo-me aqui, traçando planos, estudando, preparando papéis...
— Sim, é isso mesmo!
E que papéis eram esses?
— Agora me lembro!
Eu já estive aqui, e preparava o plano que desenvolveria na Terra, quando voltasse!
— Muito bem!
Vejo que agora já está capacitado para saber muitas coisas, para recordar-se de outras também.
— Isso quer dizer que eu já estive neste lugar antes dessa minha última ida à Terra?
— Neste departamento, nesta mesa, o irmão traçou o mais belo plano de intenções para a sua encarnação na Terra!
Preparou a sua volta e, com o auxílio de amigos espirituais, seria levado à envergadura de chefe da Nação, para cumprir os propósitos realizados.
— E como me saí?
— Isso, o irmão mesmo irá avaliar!
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Ave sem Ninho

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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:15 pm

Terá acesso a todos os planos que idealizou, que aqui temos tudo arquivado, e, ao seu exame, terá as condições de aquilatar! Compreende-me?
— E quando poderei fazê-lo?
— Logo mais, que hoje estamos apenas em visita!
Quem sabe amanhã mesmo; preciso ainda ter confirmação!
Saiamos agora e continuemos a nossa visita.
Deixaram aquele departamento e continuaram a percorrer as outras seções, que o Irmão Fulgêncio foi lhe mostrando e explicando.
Passaram por uma imensa Biblioteca, contígua a um amplo salão que lhe pareceu deslumbrante!
Muito grande, porém muito simples, iluminado por luzes estranhas, diáfanas e brilhantes.
Num plano mais elevado, à semelhança de palco, havia uma mesa, em volta da
qual estavam colocadas cadeiras de espaldar alto.
Ao fundo, um pouco acima do nível da mesa, havia uma grande tela.
Do lado esquerdo, um instrumento muito semelhante a um piano terrestre, completava o ambiente.
— Neste salão, caro amigo, são realizadas as prelecções para os necessitados, aqueles que têm condições de permanecer um tempo maior, e capazes de entender todos os ensinamentos que são ministrados.
Irmãos maiores aqui comparecem, às vezes, quando há necessidade em relação a alguma empreitada importante que deveremos empreender, e, de outras, sem que venham, podemos vê-los e ouvi-los através da grande tela colocada ao fundo.
De outras feitas, o nosso Mentor mesmo comparece, para reuniões regulares.
— Eu não posso comparecer ainda?
— Quando se mudar de departamento e deixar a enfermaria, poderá sim! Talvez isso ocorra hoje mesmo!
Mas continuemos!
A grande Biblioteca, onde muitos se aplicavam à leitura, impressionou Getúlio.
— De que tratam os livros aqui? — perguntou.
— Temos livros sobre todos os assuntos, porque todos nos são muito importantes!
Mas aos consulentes em tratamento inicial, só são permitidos os que falam dos ensinamentos de Jesus, com aconselhamentos e pequenas histórias demonstrativas de situações evangélicas.
Logo também terá acesso a todos eles, e não mais só àqueles que os irmãos da enfermaria levavam.
— Vejo que há muitas actividades, aqui!
— Sim, trabalhamos muito, e de diversas formas!
O trabalho é quase semelhante ao desenvolvido na Terra, se uma comunidade assim, só direccionada ao bem, lá existisse!
Os que já melhoraram um pouco, passam a desempenhar uma actividade, que pode ser, desde varrer o chão, atender às enfermarias, até às mais altas posições, que são desempenhadas pelos nossos Mentores maiores.
Temos também técnicos, pois aqui trabalhamos muito com aparelhagens, ainda desconhecidas na Terra.
Lembra-se do longo corredor por onde passamos?
— Lembro-me! Todas as portas estavam fechadas!
— Sim, são compartimentos com aparelhagens necessárias ao desenvolvimento de actividades, diante do que se tem em mente.
— Por exemplo o quê?
— Temos aparelhos que permitem a visão da própria existência, toda descortinada à nossa frente!
Temos outros que permitem a visualização de encarnações precedentes, quando é necessário para a compreensão de situações vivenciadas na Terra, e incompreensíveis aos nossos irmãos.
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:15 pm

Temos aparelhamentos que arquivam todos os fichários pertencentes aos internos atuais, ou aos que já o foram.
Outros guardam os planos realizados, como aqueles que o irmão fez!...
— E como esses aparelhos nos mostram esses arquivos, planos ou fichários?
— Mostram-nos através de telas!
Temos tudo na tela, sem necessidade de armazenarmos grandes quantidades de papéis!
— Gostaria de ver um aparelho assim!
— Quando chegar o momento, o irmão verá!
Terá que vê-los!
Tem seus planos todos arquivados num deles!
— E como manejá-los?
— Terá em seu auxílio um técnico que faz esse trabalho!
Só os que já preparamos para isso, lidam com esses aparelhos, só eles sabem como utilizá-los!
Bem, continuemos a nossa visita!
Quero lhe mostrar um outro departamento — a cozinha!
— Há cozinha também aqui?
— Sim, temos pessoas abnegadas que preparam lá a refeição, aos que ainda não podem dispensar esse tipo de alimentação!
— De que são preparadas?
— O irmão mesmo tem se utilizado delas, não é mesmo?
— Sim, levam-me sempre algumas coisas para comer, muito gostosas, embora simples.
Muito leves, mas substanciosas!
— É esse o nosso objectivo!
Refeições leves e substanciosas, até que cada um possa dispensá-las de vez.
Utilizamos os nossos vegetais, as nossas frutas e as compomos de acordo com a necessidade de cada um.
Depois de visitarem a cozinha, deram a volta por um pátio, e foram àquele parque onde Getúlio passeava e já conhecia bem.
— Terminamos por hoje, nossa visita!
Já deu para ter uma noção do que realizamos nesta Colónia!
Agora vou deixá-lo só, e levar ao nosso Mentor, o resultado das suas observações, o que recordou, e obter dele ou não, a aprovação para que mude de local.
Por enquanto está livre para fazer o que quiser, e logo mais voltaremos a conversar.
Quem sabe a sua transferência se faça ainda hoje mesmo!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:16 pm

DEPARTAMENTO DOS RECUPERADOS
Ao deixar Getúlio, só, no parque, Irmão Fulgêncio dirigiu-se à sala do Mentor Maior daquela instituição — Irmão Fabrício.
Localizava-se numa parte da Colónia, por onde não haviam passado, quando da visita.
Era um lugar mais privativo, e passeios, por ali, não eram permitidos.
Ao entrar, Irmão Fabrício, muito solícito, querendo informações, perguntou-lhe:
— Então, como está Getúlio?
Como se saiu em sua visita, hoje?
— Muito bem!
— Atingiu o objectivo primeiro que desejávamos?
— Sim! Ao levá-lo à sala onde programou a sua reencarnação, induzi-o a que fosse se recordando de que lá já estivera e trabalhara no seu plano.
— Isto é óptimo!
Apoiado em suas próprias reminiscências, poderá trabalhar a análise de seus actos e chegar às conclusões necessárias.
— Compreendo o seu objectivo, irmão!
— Sei que o compreende, pois estando connosco há tanto tempo, sabe do que necessitamos!
— É verdade! Se lhe disséssemos, mesmo que visse através da aparelhagem, o plano realizado, não acreditaria ter sido preparado por ele.
Mas, como o fizemos, terá toda a capacidade de se analisar, partindo do que reconhece, elaborado por si próprio! E agora?
Disse-lhe que talvez hoje mesmo pudesse ser transferido. Como faremos?
— Diante do que me revelou, não há mais necessidade de que permaneça na enfermaria!
Pode transferi-lo para o Departamento de Recuperados!
Lá estará mais activo e trabalhará em si mesmo.
— Compreendo!
— Pode ir agora, e levar-lhe a notícia!
Chame o irmão auxiliar daquele departamento para lhe preparar o local, e, em seguida, que ele mesmo vá encontrá-lo e levá-lo!
— Está bem! Havia me afeiçoado a ele, após tanto tempo de convivência, e vou sentir a sua falta.
— É muito natural que isso ocorra, mas aqui não estamos isolados um do outro!
Separam-se os departamentos, mas o irmão pode transitar por todos, e visitá-lo, ou até encontrá-lo no parque, desde que não atrapalhe o seu trabalho, nem a actividade que ele terá que realizar!
— Sei disso... e nada faria para prejudicar o meu trabalho, nem o dele, pois não é para isso que aqui estamos!
— É isto mesmo que eu quero ouvir!
Pode ir e leve-lhe a notícia, porém, ele deve aguardar o irmão que irá buscá-lo!
Irmão Fulgêncio cumpriu as recomendações e, em seguida, foi ao encontro de Getúlio, encontrando-o ainda no parque, caminhando, cabisbaixo, as mãos unidas às costas.
— Que bom vê-lo novamente!
E então? — perguntou-lhe Getúlio.
— Já terminei a entrevista que mantive com Irmão Fabrício, o nosso Mentor, e a sua mudança já está autorizada!
— O senhor continuará comigo?
— Não, a minha actividade continua a ser na enfermaria e o irmão passa para o Departamento dos Recuperados!
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Re: Getúlio Vargas em Dois Mundos - Eça de Queirós/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 04, 2018 8:16 pm

Outro chefe o auxiliará, assim como também os irmãos auxiliares que lá trabalham.
Estará bem amparado, e a orientação necessária lhe será dada agora, por outro dirigente.
—Vou sentir a sua falta!
— Eu também sentirei, que me acostumei à sua presença, mas se permanecer sempre na enfermaria, não fará a recuperação total, como tem que ser agora!
No departamento para onde irá, estão aqueles que se refizeram do muito que trouxeram da Terra, impregnado nos seus perispíritos, para poderem, agora, partir para as actividades necessárias à plenitude do Espírito, compreende?
— Quando lá estiver em actividade, tentarei compreender melhor!
Quando irei?
— Hoje mesmo! Pode voltar ao leito, que um irmão auxiliar daquele departamento, irá buscá-lo!
— E eu não o verei mais?
— Sim, nos veremos quando for permitido, até poderemos nos encontrar fortuitamente no parque!
— Se isso é uma despedida, irmão...
— ...não é uma despedida!
— É uma despedida, sim, pois vou sair da enfermaria e de seus cuidados, embora ainda continuemos aqui!
Quero agradecer tudo o que foi feito por mim, até agora, as palavras de compreensão e carinho que sempre me dispensaram, a par de todo o tratamento que realizaram.
O irmão sabe em que condições cheguei, e ainda nem sei há quanto tempo!
Agora estou recuperado e bem melhor, com a consciência de quem fui, e isso devo a todos da enfermaria, e, principalmente ao senhor!
— Não nos agradeça!
Aqui estamos para realizar o nosso trabalho, aliviando um pouco do sofrimento que os irmãos trazem, mas trabalhamos com amor e com grande dedicação.
É o nosso dever!
Agradeça, sim, e sempre, a Jesus, que permitiu, fosse trazido!
Agradeça ainda pelo que recebeu, pelo seu equilíbrio!
É só a Ele que deve o seu agradecimento!
— Eu o faço em minhas orações, que agora oro sempre, como recomendou-me, Darci! Lembra-se?
— Então o irmão está no caminho certo!
Procure sempre manter a sua ligação mental com Jesus, pois é Ele que nos transmite a força, a coragem, e as possibilidades de que necessitamos!
Pois bem, agora devemos entrar e aguardar o auxiliar que o levará!
— Vamos, então!
Logo após, o irmão auxiliar do departamento para o qual Getúlio seria transferido chegou, e ele foi levado.
No novo departamento, entraram num imenso salão, onde cada interno tinha um compartimento separado, à semelhança de box, reservando-se, assim, a privacidade de cada um, mas, ao mesmo tempo, todos congregados num só ideal — o de completar, de outra forma, o que lhes restava, a fim de que, não só a recuperação espiritual e perispiritual se fizesse, mas também que tivesse consciência para poder avaliar a encarnação passada na Terra.
De nada adianta ao Espírito passar pelo orbe terrestre e retornar, se não analisar a sua existência.
Da análise é que vamos concluir onde erramos, o que fizemos indevidamente, para nos corrigirmos numa próxima oportunidade, ou sentirmo-nos estimulados, quando da realização de actos nobres, para novamente praticá-los, e, até com mais frequência, fazendo deles o objectivo primeiro e único da nossa passagem pela Terra.
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