Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 21, 2018 8:45 pm

Esse é um dos motivos que estamos permitindo a permanência da entidade junto dela para que, nos esforços da futura maternidade dolorosa, ela consiga redimir-se perante ele também.
Com o aborto, criaram-se laços de espinho que, agora, estamos lutando para converter em laços de carinho, ajudando o espírito abortado a perdoá-la e a esperar a nova oportunidade de voltar ao mundo pela mesma via que o repeliu uma vez.
Quando Valquíria adoptou essa atitude mental de verdadeiro arrependimento, ainda estava envolvida em uma névoa de dor e ódio contra o antigo namorado.
Pedro ainda pesava em sua consciência.
Para abreviar a descrição, Bezerra estendeu a tela cinematográfica sobre o leito e disse:
Vejamos como tudo aconteceu.
Foi então que ganhou vida à frente do grupo uma cena encantadora.
Via-se Valquíria rezando, agarrada a uma medalhinha de Maria na qual depositava não apenas as confissões sobre sua perversidade, mas, também, o arrependimento por suas atitudes, pedindo ajuda:
“Mãezinha dos infelizes, onde estiver no Céu neste instante, olhai para esta miserável que sou.
Veja meu coração enegrecido e minha consciência aos farrapos.
Talvez mereça a morte prematura pela covardia de matar quem precisava viver, mas, mesmo que meu corpo pereça, continuarei sendo a malfeitora comum que carregará para onde for as marcas do próprio crime.
Mãe, só um coração como o seu pode escutar o desabafo de uma mulher indigna como eu.
Não bastou, entretanto, que matasse meu filho indefeso.
Mãe, eu ainda odeio aquele homem que me usou.
Como é possível que um amor tão longamente guardado no sigilo de meu coração se pudesse converter em tamanho ódio?
Ajude-me, mãezinha querida. Você viu trucidarem seu filho e teve forças para não odiar seus matadores.
Pelo amor de Deus, mãe, preciso me perdoar e perdoar Pedro”.
A esta altura da rogativa silenciosa, as lágrimas escorriam de seus olhos com a mesma intensidade com eu também caíam dos olhares dos Espíritos que testemunhavam aquela confissão, que prosseguia mais pungente:
“Mãe, eu nada mereço, mas ouso pedir-lhe não que me salve, mas que me ajude a não odiar.
Salve-me de mim mesma, mãezinha...”.
Neste momento, a tela iluminou-se com um brilho indescritível, por começar a registrar a presença de luminosa entidade que comparecia à cabeceira da infeliz mulher.
Tratava-se da própria Mãe de Jesus, que se fazia presente naquele cenário e que viera atestar-lhe a confiança no futuro e a aceitação de seu pedido.
Sob a comoção de todos os que assistiam àquele filme da vida real, Maria inclinou-se na direcção da doente e, com o carinho próprio das que amam acima dos crimes praticados pelo ser amado, afagou-lhe o cabelo empapado pelo suor produzido no esforço da emoção e, coma outra mão luminosa, tocou o coração de Valquíria, dizendo:
“Sim, minha filha, somente o perdão verdadeiro é saúde para sempre.
Abençoemos Pedro com nossas preces também”!
Sem ouvir o pedido com os ouvidos, mas extremamente emocionada pelo envolvimento superior de que era objecto, na mesma hora Valquíria atendeu à solicitação daquela Alma Rutilante cujo Amor Maternal ainda não foi conhecido por nenhuma mulher humana.
Envolta pelas lágrimas de gratidão, a moça, por primeira vez, orou por Pedro, rogando a Deus que os perdoasse pelo mal que ambos haviam produzido.
Como não se inserir nas condenações, quando ela também cooperara para que a gravidez acontecesse?
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Ave sem Ninho

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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 21, 2018 8:45 pm

Além do mais, a escolha do aborto partira dela mesma.
Injusto acusar o rapaz.
Elevou ao Criador, então, um sentimento tão verdadeiro e nobre, que todo o hospital, repentinamente, se viu iluminado pelo perdão sincero de seu coração, somado ao Amor Celeste de Maria, que a visitava.
Na vibração de todos os quartos se sentiu a emissão dessa química divina, perpassando os outros doentes, atingindo entidades perturbadoras que fugiram assustadas, atraindo a multidão dos trabalhadores espirituais, que acorreram até aquele lugar para participarem do divino banquete de esperanças.
A cena era por demais emocionante para que os que a observavam não se entregassem às lágrimas copiosas, sobretudo ao divisarem com os próprios olhares tão sublime Espírito.
Igualmente emocionado, Bezerra desligou o aparelho que fazia vivo o passado daquela irmã, e disse:
- Desde esse dia, Valquíria reescreveu seus caminhos.
Daniel, o noivo, a visitava todos os dias e, envolvida nessa mesma atmosfera de elevação, ainda ontem, em um supremo momento de auto-superação, confessou sua fraqueza ao coração do rapaz, liberando-o do compromisso que ela não soubera honrar.
Ferido em seu orgulho de homem, Daniel reagiu como um animal atacado.
No entanto, apesar de Valquíria estar rompendo o compromisso de noivado, solicitou-lhe um tempo para meditar na continuidade ou não do relacionamento.
Ele também nos tem merecido a atenção, recebendo a visita e o aconselhamento dos Espíritos amigos que estão reajustando o quadro reencarnatório de Valquíria.
De ontem para hoje, Daniel obteve, durante o sono, a explicação dos porquês de todo este problema que os envolvia, acordando hoje um tanto mais apaziguado.
Sem se lembrar do que vivenciara durante a noite, começou a ver Valquíria não mais como o homem traído, mas como o irmão mais velho que entende as fraquezas do carácter apaixonado que a noivo carregava desde muito tempo.
Certamente que, com aquela dolorosa provação, Valquíria matara para sempre o sentimento que um dia havia nutrido por Pedro.
Agora lutava pela própria vida.
Que tipo de homem seria ele se não fosse capaz de lhe estender a mão na hora difícil?
Como poderia casar-se com ela e ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença se, podendo dar testemunho de seu afecto, fugisse como o fizera o próprio Pedro?
Como se mostraria diferente do outro?
Então, com os pensamentos transformados pelo amor, Daniel regressou aqui há poucas horas para abraçar a noiva e reafirmar o compromisso.
Queria ser seu marido e que as dores desta hora difícil seria o cimento que os uniria ainda mais.
E se fosse o desejo de Valquíria ter como filho o mesmo espírito que abortara, ele a apoiaria e aceitaria ser o pai carinhoso daquela alma infeliz.
Daniel se fizera maior do que a própria Valquíria, na nobreza de sentimentos e na humanidade de atitudes.
A emoção era muito forte no coração de todos.
Bezerra fez breve pausa de refazimento e, emocionado, rematou:
- A moça, que já se conformara com a solidão, recebeu a notícia como se não fosse verdade.
Não acreditava no que ouvia.
Imaginando quanto deveria estar sofrendo o rapaz ao superar tamanha dor moral dizendo-lhe aquelas palavras, somente então é que pôde avaliar o tamanho maiúsculo do amor que ele nutria por ela, Amor que fora capaz de suportar tudo, como a própria Mãe de Jesus a havia aconselhado:
“Sim, minha filha, somente o perdão verdadeiro é saúde para sempre”.
Valquíria foi tomada de uma crise de choro convulsivo, que misturava emoção e arrependimento, culpa e remorso, pequenez e felicidade.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 21, 2018 8:45 pm

Nunca ninguém demonstrara por ela um amor tão verdadeiro, capaz de romper as barreiras de um preconceito tão atroz e primitivo quanto o que Daniel estava superando.
Sentiu-se preenchida por suas palavras como um bálsamo de alegrias a preludiarem a felicidade completa.
Que mais poderia ela desejar da vida?
Seria a esposa mais fiel ao lado daquele tão digno companheiro.
Seria a mãe mais extremada do filho rejeitado pelo medo e pela imaturidade.
Sim... seria tudo o que de melhor Deus poderia esperar dela.
Eis aqui, meus filhos, a prece do coração verdadeiramente arrependido, compromissado com novos rumos num caminho de bênçãos e felicidade para todos.
Certamente que o Amor vencerá neste drama, porquanto resgatou os corações do lodaçal do erro e do crime para as alvissareiras luzes da esperança.
Todos eles terão desafios a vencer, mas, doravante, as fragilidades da culpa, em Valquíria, foram transformadas na força do arrependimento real, potente elixir que, a serviço da harmonia, transformará os centros orgânicos em dínamos geradores de saúde, de equilíbrio e vontade de viver.
Se Daniel não houvesse se conduzido com a nobreza que demonstrou, Valquíria teria muito mais dificuldade de vencer estes momentos duros, porque estaria desabastecida da afectividade que, como vocês sabem, é um poderoso alimento para o espírito.
No entanto, com a companhia do coração amigo e devotado, com a decisão de ser feliz e reparar seus erros perante o futuro marido e o Espírito do futuro filho e, sobretudo, com o olhar doce e generoso da Mãe de todos nós, em breve o casal se unirá para que a criança regresse pelos canais da maternidade abençoada, como um filho especialmente desejado.
E para terminar, perguntou:
- E então, encontramos o que buscávamos?
Enquanto todos secavam as lágrimas, limitaram-se a sorrir e acenar positivamente com a cabeça.
- Se é assim, então, depois de termos nos entendido sobre a questão do Arrependimento, agora é bom começarmos aqui mesmo o estudo das outras condições necessárias aos encarnados para serem admitidos na Regeneração.
Tomou o Evangelho e releu a frase:
“- NÃO MAIS DE ORGULHO QUE FAZ CALAR O CORAÇÃO, DE INVEJA QUE O TORTURA, DE ÓDIO QUE O SUFOCA”.
Falando com seus alunos, completou:
- Vamos procurar, agora, os que estão vencendo o orgulho, a inveja e o ódio.
E aqui será, também, um bom lugar para começarmos a busca.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 21, 2018 8:45 pm

34 - PROCURANDO AGULHA NO PALHEIRO
Dentre todos os desafios do ser humano, as lutas contra o orgulho e o egoísmo são as mais ferozes e as que sempre contaram com o menor número de vitoriosos.
Sendo a matriz de, praticamente, todos os outros defeitos de carácter, estes dois defeitos costumam ser estimulados em uma sociedade que os cultiva desde muitos séculos, transportando-os de geração a geração através dos ensinamentos e exemplos dos mais velhos.
Poder-se-ia dizer que os males da Humanidade são decorrência da existência dessas duas debilidades da personalidade que, na equivocada interpretação de seus defensores, são vistos, o primeiro, como virtude própria de quem é superior e o segundo, como imposição da sobrevivência.
Na sucessão das gerações, os mais antigos transmitem aos mais novos tais conceitos, enraizados desde a convivência da família, passando por todas as áreas do relacionamento humano nas relações sociais, nas competições profissionais, nas realizações do personalismo, na conquista de posições de realce ou bens graças a condutas ególatras que garantam a ascensão do indivíduo no contexto da comunidade, tornando-o falsamente superior e alimentando seu orgulho.
Irmãos siameses, orgulho e egoísmo se ligam um ao outro e ambos lutam para que nada os ameace.
Por isso, o orgulho pede o respeito dos outros, e o egoísmo trabalha para conquistar as coisas materiais, esquecendo o direito e as necessidades dos demais.
O orgulhoso encara a derrocada material como algo inaceitável, tudo fazendo para que mantenha a pose, o realce e a importância diante das pessoas.
Quando o orgulho é atacado ou se vê abatido pelas circunstâncias, o egoísmo entra em campo no esforço de tudo fazer para sustentar e reerguer o “irmão” desconsiderado. Cega o humano invigilante e o transforma numa máquina agressiva, determinada a reconquistar o antigo brilho para, logo a seguir, vingar-se dos que o ridicularizaram, aos quais passa a tomar por inimigos.
Então, em uma sociedade onde tais defeitos são parte da cultura de seus membros, encarados mais como virtudes, a procura por pessoas que os combatesse no dia-a-dia tornaria a tarefa do grupo espiritual liderado por Bezerra ainda mais árdua.
Se era verdade que nos cárceres e nos leitos hospitalares da Terra os Espíritos encontrariam outros Beneditos e Valquírias, no exame do quesito “orgulho inexistente” ou mesmo que fosse apenas, “orgulho domesticado”, a busca seria bastante penosa.
Aproveitando-se da oportunidade, Bezerra abordou o assunto, dizendo:
- Bem, na observação dos encarnados em busca dos que não se renderam à influência do ORGULHO, todos trabalharemos, identificando os irmãos que se encontrem nesse esforço de auto-superação, bastando que sintonizem e observem os encarnados, fixando-os pelos padrões vibratórios da Humanidade.
Transitarão livremente por todo o hospital em busca dos que estejam iluminados na faixa da humanidade, na luminosidade que lhe é própria.
Então, quando isso ocorrer, voltem até aqui e, então, iremos em busca do escolhido.
Terão trinta minutos para realizar essa apuração, ao fim dos quais, com ou sem resultados, deverão voltar aqui.
Esperarei por vocês.
Para que nossa missão não se frustre, consideraremos não só as criaturas que tenham definitivamente vencido o orgulho – raríssimas.
Consideraremos aceitáveis ou satisfatórias às nossas pesquisas aquelas que demonstrem empenho determinado na luta contra tal defeito e a marca distintiva dessa qualidade, como já lhes disse, é observada na faixa espectral da HUMILDADE.
Surpreendidos com a autorização concedida, tomaram seus rumos na observação nos diferentes andares da instituição de saúde.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 21, 2018 8:46 pm

Por outra parte, médicos de plantão trabalhavam ao lado de enfermagem dedicada, além dos funcionários, que executavam o serviço indispensável ao bom funcionamento hospitalar.
Em todos os lugares, no entanto, nada de emanações luminosas da humildade.
Doentes nos leitos pareciam dóceis quando suas dores ou incómodos estavam controlados e atendidos.
Bastava, no entanto, que a dor eclodisse ou que qualquer desconforto os fustigasse, se transformavam em esbracejadores, humilhando os enfermeiros e auxiliares, funcionários e visitantes.
Contrariando nas suas ansiedades, alguns chegavam a ser rudes mesmo com os médicos.
Por sua vez, iludidos pela falsa ideia de serem superiores em decorrência da formação intelectual ou académica, a maioria dos médicos pouco valor atribuía aos que gemiam nos leitos, desvalorizando suas queixas e ignorando os avisos da enfermagem.
Muitos deles mal se dignavam cumprimentar os demais funcionários, acostumados a olhar todos os outros com o orgulho da posição.
Quase sem excepção, sonhavam com as riquezas materiais acumuladas sob a montanha de lágrimas dos sofredores, preferindo atender pacientes que pagavam gordas consultas do que se dedicar aos enfermos remunerados por convénios ou subsidiados pelo próprio governo.
A medicina, há muito tempo, se convertera em negócio, a cada ano mais e mais concorrido, esfriando no idealismo a pulsação do ideal de servir.
Certamente que no meio desses profissionais carreiristas, excepções se levantam indicando uma réstia de esperança, representada pelos profissionais humanos, sacerdotes da saúde em benefício dos desvalidos do mundo.
No entanto, mesmo os que traziam ainda a visão da medicina como elevado ministério de amor, enfrentavam obstáculos no meio médico porquanto, ou eram discriminados pelos demais ou isolados da comunidade académica, ainda que fossem muito queridos dos pacientes e enfermeiros.
Agora, nada garantia que eles, apesar de mais humildes nas tarefas profissionais perante seus pacientes, demonstrassem os mesmos valores em sua vida pessoal não se deixando contaminar pelos ataques enfurecidos do orgulho, disfarçado de mil maneiras.
Fosse pelo agressivo zelo na preservação do próprio nome ou da fama profissional, fosse pelas lutas na defesa das prerrogativas ou privilégios de sua profissão, na competição em busca de pacientes, ou nos certames da inteligência nos conclaves médicos onde se esgrimavam suas reputações, geralmente encontrava-se o ORGULHO demonstrando o seu império avassalador e contaminando o sagrado idealismo que muitos ainda defendiam e tentavam viver.
Já os membros da enfermagem, por sua vez, acostumados a fazer da sua vida uma doação máxima para o alívio dos sofredores, demonstravam maior proximidade em relação aos aflitos.
Seu trabalho pedia renúncia extrema, desde a higienização dos corpos à convivência com os doentes difíceis e temperamentais, fazendo com que desenvolvessem maior tolerância, paciência e devotamento, sem maiores exigências.
No entanto, apesar dadas inúmeras vitórias que conquistavam para si mesmos, inclusive nos maus tratos recebidos dos médicos, não era comum encontrar neles desenvolvida a humildade real, indicadora da inexistência do orgulho.
Atacados por doentes intolerantes, suportavam as agressões sem perdoar-lhes de coração as ofensas.
Guardavam o sentimento ferido, descarregando a dor moral de um orgulho ferido através dos xingamentos feitos à distância do enfermo.
Quando desconsiderados pelos médicos, calavam a indignação enquanto na presença do doutor irónico ou indiferente.
Tão logo dele se afastassem, entretanto, destroçavam-lhe a personalidade nos fuxicos de bastidores, maldizendo-o entre um copo de café e o lanche, envenenando os demais enfermeiros e lançando vibrações de ódio na direcção do arrogante facultativo.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:40 pm

Excelentes enfermeiros, admirados por sua competência profissional e por terem avançado domínio das técnicas, eram víboras venenosas na intimidade de seus sentimentos, contentando-se com a fama de competentes, dando nenhuma importância a qualidades como Bondade, Compaixão e Simpatia.
Entre eles mesmos, as disputas por turnos, a perseguição decorrente das diferentes funções exercidas, as críticas pessoais nascidas do exercício das técnicas no manejo dos pacientes, os conflitos surgidos de pequenos equívocos nos procedimentos marcavam seus corações com placas de ódio mal disfarçados, estabelecendo-se grupinhos contra grupinhos, sempre em prejuízo do real objectivo de suas tarefas.
Eram, em sua maioria, enfermeiros-enfermos, fingindo-se de humildes na presença de seus chefes para, assumindo suas reais figuras, onde o orgulho era a marca dominante.
Por causa das necessidades do salário, os subalternos engoliam as palavras toscas ou duras dos superiores sem, contudo, deixar de odiá-los em segredo.
Guardavam as injustiças sofridas e esperavam, ansiosos, pelo sofrimento dos seus causadores, muitos se deliciando intimamente quando lhes chegava a notícia da enfermidade do seus chefes.
“Bem feito”... “até que enfim, Deus existe”... “tomara que aprenda a ser mais educado”... a Justiça tarda, mas não falta”... era com tais manifestações de orgulho vingado que os falsos humildes manifestavam a satisfação pelo sofrimento de seus algozes.
O tempo passava e ninguém retornava ao ponto de encontro carregando a boa notícia.
Terminado o prazo máximo, eis que se impunha a volta dos Espíritos que haviam saído no garimpo de virtudes pouco comuns.
Nenhum deles conseguira identificar, naquela imensa instituição, traços da humildade no combate ao orgulho.
- Mas não conseguiram divisar nenhuma pessoa em condições de se encaixar em nossa pesquisa? – perguntou Bezerra, sorrindo.
Quase todos acenaram negativamente com a cabeça, com excepção de Cornélia que, apesar de pouco animada, relatou:
- Bem, doutor, eu encontrei um funcionário que me pareceu, a princípio, bem qualificado.
Havia acabado de ser humilhado por um doente que o xingara de todos os nomes por ter derrubado um vasilhame de metal enquanto organizava o quarto, atrapalhando seu repouso nocturno.
Diante das palavras duras, o pobre pediu desculpas, baixou a cabeça e retirou-se sem responder nada ao agressor.
Logo pensei que poderia estar diante de um candidato.
Então, segui-o por todo o trajecto.
Seu coração estava rigido pelas duras palavras, mas em momento algum notei-lhe ódio contra o pobre enfermo a quem desculpava por reconhecer-lhe razão no destempero.
Afinal – falava consigo mesmo – deveria ter tido
mais cuidado ao fazer aquele trabalho naquele horário.
Desejou ajeitar as coisas e foi estouvado.
A culpa, portanto, era dele mesmo e o doente, assustando-se, reagiu daquela maneira pela aflição que lhe tomava o corpo e a alma.
Todas as justificativas mentais indicavam existir uma maturidade espiritual capaz de suportar os embates e os males sem se deixar tocar pelos espinhos alheios.
A descrição atraía a atenção dos colegas que, atentos, queriam ouvir o desfecho do caso.
Depois de pausa rápida, Cornélia prosseguiu:
- Então, depois que terminou seu trabalho aqui, dirigiu-se para o centro dos funcionários da limpeza, onde foi informado que um outro funcionário seu amigo havia recebido uma promoção, com aumento de vencimentos.
Bastou a notícia da melhoria do outro, que o equilíbrio desapareceu da mente do infeliz servidor.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:40 pm

- Como é possível que aquela “besta” seja promovida antes de mim?
Por que não EU?
Quem faz as leis neste lugar? Estou aqui antes dele, oras.
De que adianta a gente se esforçar para fazer as coisas direitos quando chega um imbecil como esse aí e vai passando a perna nos outros?
O que será que está fazendo para subir tão depressa assim?... e daí por diante, meus amigos, o pensamento de indignação, misturando inveja e sentimento de inferioridade transformou o nosso candidato, levando-o, de vencedor do orgulho, a derrotado escravo do insidioso defeito.
Observando-o mais profundamente, pude compreender que seu sonho era subir na hierarquia para, dando vazão às suas frustrações e recalques, sentir-se superior aos demais e pisar nos próprios amigos.
Só então, é que pude ver quem era ele.
Sonhava em ser chefe dos faxineiros daquela ala do hospital para, de cima de tão insignificante posição, humilhar os seus antigos companheiros da vassoura.
Como o contemplado foi outro, o pobre homem está espumando de raiva, pensando em sabotar o trabalho do escolhido para ver se, com isso, consegue prejudicar-lhe a promoção.
Aproveitando a riqueza da exposição da médium, Bezerra ajuntou:
- Observem, meus filhos, que orgulho e humildade não são aparências físicas nem decorrência da riqueza ou pobreza material.
Aqui temos uma boa demonstração disso.
Um faxineiro pode ser considerado humilde porque tem que andar por aí, arrastando vassouras por entre baldes e sacos de lixo.
No entanto, o orgulho arquivado em seu ser ambiciona tornar-se chefe dos seus amigos para neles descontar seus recalques e contrariedades.
Certamente, quem vai sofrer por este estado de coisas serão sua esposa ou seus familiares que, não tendo culpa nenhuma pela promoção do concorrente, pagarão a conta da irritação do preterido e de seu orgulho machucado.
O orgulhoso nunca se importa com os que fere, se isso for necessário para demonstrar sua indignação ou raiva.
Entendendo a lição, Horácio quis saber:
- Mas doutor, isso significa que ele não poderia protestar honestamente contra a injustiça?
Se, de facto, uma injustiça acontece, os prejudicados não podem algo fazer para corrigi-la?
- Claro que podem, Horácio.
Aliás, isso demonstra sabedoria e maturidade de espírito.
No entanto, isso exige do interessado a exposição de seu descontentamento, ainda que de maneira legal e civilizada, através do pedido de explicações aos administradores a fim de que lhe explicassem os critérios usados na escolha para o preenchimento daquele cargo específico.
No entanto, isso também demonstraria o descontentamento do funcionário preterido, a inveja em relação ao sucesso de outrem, entre outras coisas que o marcariam como o indivíduo despido de certos valores aparentes.
Isso fez com que nosso irmão faxineiro escolhesse o silêncio ao invés de protestar pelas vias legais.
Assim, sem demonstrar seus intuitos, se esconde para actuar na clandestinidade, bem disfarçado por uma aparente submissão pela qual dissimula o ódio para, na calada da noite, actuar para criar embaraços ao serviço numa forma primitiva de vingança.
Essa escolha, sem dúvida, não corresponde ao melhor caminho.
Seu comportamento atesta a inferioridade de seu espírito para enfrentar as adversidades de forma equilibrada.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:40 pm

Com medo de se mostrar como é, prefere ser o que é sem eu os outros percebam, usando dessa clandestinidade como vantagem para ferir sem ser identificado.
Se houvesse escolhido os caminhos correctos, quem sabe entenderia que não foi contemplado com a esperada promoção porque se entregou ao comodismo, por não estar cumprindo suas tarefas com vontade, com o capricho esperado e, assim, poderia corrigir-se, esforçando-se para ser eleito na próxima oportunidade.
No entanto, preferiu revoltar-se, prejudicando todo o conjunto.
E este comportamento se reproduz aos milhões num mundo de competição como este que os homens construíram para si mesmos.
Observando os fatos em seus aspectos intrincados, Cornélia, você está com toda a razão ao supor que este irmão não está enquadrado nas exigências.
Depois de terem percebido que seria difícil encontrar os que conseguissem demonstrar humildade suficiente naquele lugar, Bezerra convidou-os a partir para outro ambiente, onde prosseguiriam as lições.
Chegaram à via pública, agitada pelo movimento da madrugada daquele sábado.
As pessoas estavam eufóricas e comemorando a chegada do fim de semana.
Penetraram um barzinho onde pequena multidão se acotovelava, dificultando o trabalho dos garçons no atendimento das solicitações.
- Seu burro, não sabe escrever um pedido certo? – esbravejava um homem, de ânimo visivelmente alterado por causa dos diversos copos de bebida alcoólica já ingeridos.
- Desculpe, senhor... é que tem muita gente hoje e estamos aqui com dois garçons a menos.
- Não quero saber, seu incompetente.
Sou eu quem pago seu salário...
trate de me atender bem porque, senão, falo com o gerente...
- Mais uma vez, desculpe-me, senhor.
Vou corrigir o erro... volto já já.
Afastou-se o garçom atacado que, aos nossos olhares, se mantinha em equilíbrio e serenidade.
Sabia que aquele tipo de cliente se valia do álcool para exteriorizar suas debilidades emocionais nos desabafos comuns a tantos.
Deveria ser um homem mal-amado, sozinho ou abandonado, carente e pouco acostumado a respeitar os outros.
Juvêncio, o garçom, desde muito tempo fizera do seu serviço uma outra sala de aula na escola da vida.
Sem ter tempo para aprender as lições da educação formal, transformara o bar onde trabalhava nos turnos nocturnos em um laboratório para a avaliação das condutas humanas.
Juvêncio era velho conhecido de Bezerra que, como médico espiritual de sua família humilde, fazia o papel de tutor daquele espírito em crescimento.
Sob a influência do médico devotado, o garçom encontrou os ensinamentos espíritas e passou a arquivá-los na memória através da leitura de muitas obras construtivas e esclarecedoras.
Necessitando ganhar a vida em uma cidade de tantas competições, fora encaminhado para o exercício da tarefa que melhor combinava com suas necessidades de transformação moral na presente encarnação.
Seria aquele que serve, aguentando o mau humor, a falta de educação, a arrogância dos outros e, assim, desenvolvendo as marcas da humildade em sua alma.
Passara por estágios diversos ao longo de toda a trajectória desafiadora.
No início, a intemperança lhe rendeu muitos dissabores.
A falta de costume no controle do Orgulho e do Egoísmo faziam de Juvêncio uma bolinha de pingue-pongue, atirada de um lado pelas cacetadas da vida, na base da reacção à provocação.
Sempre que isso ocorria, Juvêncio sofria as decepções por estar do lado mais frágil da relação.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:41 pm

Sua arrogância natural dava as caras nestas horas.
Quanto mais isso acontecia, mais fácil para o rapaz identificar onde viviam escondidos, dentro dele, estes monstros terríveis, verdadeiros polvos de mil tentáculos e mil disfarces, prontos para arrastá-los às profundezas do erro, da agressão e do descontrole.
Com o tempo, contudo, aprofundando o conhecimento de si mesmo e o entendimento das exortações de Jesus contidas em O Evangelho Segundo o Espiritismo, notadamente no capítulo que ensina o AMOR AOS INIMIGOS, o garçom encontrou o caminho da paz.
Graças ao conhecimento espírita, entendera que as criaturas eram o que eram em decorrência de suas debilidades evolutivas, mas, invariavelmente, todos caminhavam para a frente, vencendo-se à custa de muita luta ou sofrimento.
Juvêncio, então, compreendia as limitações e procurava ser sempre o mais prestativo possível.
Ganhava a confiança dos clientes assíduos daquele lugar com o seu sorriso espontâneo e sua solicitude natural.
Enquanto muitos outros trabalhavam pela gorjeta, ele servia os outros em busca do aprendizado da melhor maneira de como superar-se a si próprio, conforme o próprio Jesus ensinara.
“Eu estou no meio de vós como aquele que SERVE” – declara o Cristo, do alto de sua magnitude espiritual.
Tomando esta frase como roteiro diário, Juvêncio lutava contra o velho adversário que, a espreitá-lo, aproveitava-se de todos os momentos de distracção para instigar em sua impulsividade masculina alguma reacção mais agressiva ou descontrolada.
Por isso, decidira vigiar-se, impedindo a si mesmo de reagir, não importava qual fosse a ofensa ou a circunstância dolorosa.
Evitaria o revide e, controlando suas entranhas, acalmaria o impulso de atacar ou responder com violência, buscando, primeiramente, respirar fundo, afastar-se do local da provocação, recorrer à prece sincera e, somente depois de tranquilizado por dentro, meditar em como resolver a questão.
Ao longo dos anos, aprendera que, muitas vezes é melhor resolver o problema com condutas simples, como a de trocar a bebida solicitada pelo freguês, do que se obstinar em ter razão, mostrando que fora o cliente quem pedira errado.
Assim, diminuía controvérsias ao invés de aprofundar os conflitos na defesa de seu ponto de vista.
Naturalmente que se conduzia dessa forma nas questões mais simples do dia-a-dia, reservando a defesa dos princípios para outros momentos quando coisas mais sérias estivessem em jogo.
No entanto, ali, preferia não discutir com um bêbado no esforço de explicar-lhe quem foi que se equivocou.
Já havia perdido as contas da quantidade de ofensas e xingamentos que escutara da boca dos ébrios de plantão, além das atitudes desrespeitosas dos endinheirados no trato, com os serviçais como ele.
Diferentemente de outros profissionais da mesma área, igualmente destrambelhados e agressivos, carregando o chamado “orgulho amordaçado” para não perderem o emprego, Juvêncio agradecia cada vez que alguém o maltratava, porque, assim, poderia avaliar o estado do adversário íntimo que lutava para matar, medindo-o pela intensidade do impulso do revide, usando da mesma agressividade recebida.
Terminado o seu trabalho naquele ambiente, esperava-o rápido descanso em casa dos pais, na qual convivia com os problemas da família complicada pelas doenças de seus integrantes.
A mãe era muito idosa e viúva. Era ela, no entanto, quem ainda administrava uma casa onde dois filhos mais novos do que Juvêncio transitavam pela vida em situação de deficiência física.
Um deles perdera a mobilidade das pernas e o outro era cego.
Ambos viviam o resgate expiatório de terríveis danos promovidos nas existências de seus semelhantes em pregressas existências, mas, ao invés de estarem aproveitando essa oportunidade de refazimento moral e espiritual, enveredaram pela rebeldia e pela insensatez, exigindo de seus parentes sacrifícios ainda mais dolorosos.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:41 pm

Juvêncio precisava ganhar o salário para diminuir as necessidades da família, mas, apesar disso, não contava com o respeito de nenhum dos dois.
O que dependia da cadeira de rodas, votava-lhe raiva injustificada, produzida pela inveja.
Já o cego, taxava-o de aproveitador da vida por ficar fora todas as noites.
Juvêncio os escutava, compreendendo que o sofrimento de ambos era o mal conselheiro de suas almas e, sem qualquer laivo de superioridade, deixava tudo de lado para ajudá-los tanto quanto podia, aliviando o trabalho da mãe idosa.
Banhava o irmão aleijado ao mesmo tempo em que procurava ajudar o cego em tudo o que se fizesse necessário.
No entanto, se o paralítico sentia prazer em fazer-se pesado para Juvêncio, o cego não admitia ajuda do irmão para nada, lutando para
manter-se independente, cultivando o orgulho de não precisar lhe pedir nada.
Mesmo quando tropeçava e caía, recusava o braço do irmão, dizendo em voz alta:
- Quem precisa de sua ajuda é o aleijado.
Eu só sofro da visão.
Não preciso de você.
Pode deixar que me levanto sozinho.
Essa fala, repetida sempre sem qualquer cuidado, representava também uma agressão ao outro enfermo, que as ouvia sem ensaiar qualquer resposta porque, no fundo, exprimia cruel verdade.
Os dois doentes se antagonizavam constantemente.
Luciano, o da cadeira de rodas, odiava a independência e a arrogância de Múcio, o cego, enquanto este, de alma arrogante e altiva, distraía-se em humilhar o outro, não se cansando de mostrar-se superior a todos.
Nenhum dos dois aceitava o facto de Juvêncio não ser deficiente, como se o pobre garçom lhes tivesse roubado a felicidade.
O rapaz era testado nas dores profundas e exercitava, diariamente, as lições da resignação, do amor aos inimigos e de fazer o bem sem desejar receber algo em troca.
Com isso, Juvêncio transformara suas vibrações num campo de cristalina emanação, onde a humildade dava o toque de seu perfume e luminosidade, indicando que era cultivada com o adubo do Amor segundo os verdadeiros critérios do Evangelho de Jesus.
Depois de mostrar os efeitos positivos de tais eflúvios no equilíbrio do corpo e na estrutura do Espírito, Bezerra aplicou passes magnéticos sobre os dois enfermos que se encontravam adormecidos no lar modesto e, abraçando o tutelado como um pai faz com o filho que admira, beijou-o na face cansada, reforçando os laços de carinho que uniam os dois servos dos aflitos, que o transformava, tanto quanto o próprio Bezerra, em outra espécie de Médico dos Pobres.
- Aqui, queridos filhos, encontramos o exemplo rico de muitas das modificações necessárias para aqueles que desejam se salvar.
Com excepção de Juvêncio, que está constando as vitórias indispensáveis ao seu progresso, Luciano espelha a inveja torturante enquanto Múcio corresponde ao expoente do ódio que sufoca.
No aprofundar das coisas, observaremos que tanto a inveja quanto o ódio estão com suas raízes fincadas no orgulho ferido e no egoísmo avassalador.
São incapazes de ver, no irmão trabalhador, o benfeitor de que tanto necessitam e que lhes abastece de comida o próprio prato diário graças ao esforço do trabalho digno.
Para eles, o corpo deficiente representa diminuição de sua valia, apequenando os.
Deveriam estar inclinados ao aproveitamento da lição de vida, desenvolvendo a humildade, coisa que suas almas não estão dispostas a fazer, sobretudo na presença do irmão.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:41 pm

Transportam em seus corações as nódoas dos defeitos profundos das vivências torpes de outrora e que lhes rendeu a limitação das faculdades orgânicas como bendita escola para o aprendizado de novas lições.
Até que curvem a cerviz, que reconheçam a própria necessidade, que aprendam a pedir e a agradecer, permanecerão no mesmo estágio e, assim, são sérios candidatos a se despedirem da Terra, ocupando dois alojamentos da Nau Transportadora.
Juvêncio que, com paciência cristã, os suporta sem desejar-lhes o mal, conquanto também tenha débitos no drama de seus manos, cumpre a parte que lhe cabe com elevados índices de aproveitamento, o que lhe garante a posição de integrante da Nova Humanidade, construindo a regeneração primeiramente no próprio interior para, a seguir, integrar o mundo regenerado.
O entendimento das leis do Universo que a doutrina espírita lhe conferiu facilitou em muito as decisões firmes nesse sentido, porque a fé raciocinada liberta a criatura dos complexos de culpa que a escravizam, dando-lhe a chave para a compreensão dos compromissos evolutivos e demonstrando como fazer para sair vitorioso da refrega humana sem contrair novas débitos.
A lição da noite havia sido longa e reveladora.
No entanto, faltavam alguns aspectos que Bezerra desejava abordar para o complemento de tais ensinos.
Entretanto, devido ao horário, precisavam regressar ao Núcleo Espiritual que haviam deixado horas antes, a fim de que os encarnados pudessem ser recambiados aos seus corpos físicos, para a retomada das tarefas do novo dia.
Marcaram, então, um novo encontro para dias seguintes, quando seriam retirados novamente do ambiente físico através do sono visando o complemento das observações.
Depois de acertados os detalhes, Bezerra e os outros três espíritos amigos retomaram a posição no quadrado fluídico que formavam ao redor dos amigos encarnados para, novamente com o campo favorável, retomarem a volitação em direcção ao centro espírita para as despedidas finais e o posterior encaminhamento aos seus corpos em repouso, nos respectivos leitos.
Antes de acordarem no novo dia, no entanto, Bezerra orientou os trabalhadores invisíveis que os reconduziram de regresso para que aplicassem energias activadoras da memória cerebral a fim de que os aprendizados da noite ficassem indelevelmente gravados na estrutura das lembranças físicas, como um instrutivo sonho que muitos os ajudaria na própria vida pessoal.
O sábado marcava com os primeiros raios da alvorada o céu da cidade quando, um a um, amparados pelos seus protectores e pelos trabalhadores destacados por Ribeiro para acompanhá-los, reabriram os olhos no corpo carnal, deslumbrados com a grande quantidade de lembranças que traziam da experiência onírica da noite, sobretudo da felicidade de se envolverem em trabalho de tão alta envergadura moral, no entendimento dos processos que visavam o reajustamento do Homem Velho aos padrões exigidos pela Nova Humanidade.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:41 pm

35 - O CASO LORENA
Tão logo surgiram os primeiros raios de Sol no horizonte da cidade, Jerónimo, Adelino, acompanhados de Ribeiro, dirigiram-se para a casa de Lorena, uma das médiuns do grupo que não se apresentara na noite anterior para fazer parte da excursão de aprendizado, como seria de se esperar, nem foi ao trabalho nocturno do centro espírita após o adormecimento do corpo físico.
Conhecendo há muito tempo as suas dificuldades, Ribeiro e os outros dois compareceram ao lar para averiguarem os factos que estavam motivando a ausência da trabalhadora.
Lorena, mulher de alma dócil e delicada, possuía muitas virtudes morais dignas de admiração.
No entanto, a falta de coragem para enfrentar certos obstáculos era seu grande inimigo.
Em decorrência dos compromissos com o passado, desposara homem de temperamento forte, às vezes quase violento que, nos tempos de namoro, encantou a alma frágil da moça.
Imaginando-se protegida por um companheiro determinado e forte, deixou-se iludir pelo temperamento do rapaz como se fosse a princesa aprisionada na torre esperando pelo audacioso cavaleiro que a resgatasse com sua coragem e energia.
Concretizada a união do casal, Lorena logo se viu diante de uma realidade nada romântica.
A virilidade do esposo cobrava dela toda uma série de comportamentos e atitudes para os quais a moça ainda não se havia preparado convenientemente.
Acostumada aos levianos relacionamentos sexuais tão comuns às experiências de solteirice.
Rubens desejava que a esposa o satisfizesse da mesma maneira que as prostitutas correspondiam às ansiedades físicas e emocionais.
Viciado na área do prazer, perseguia a esposa com exigências alegando certas “necessidades masculinas”.
Se no início do casamento o marido se demonstrara paciente com a dificuldade da esposa em atender-lhe os interesses de afecto físico, com o passar do tempo, tal tolerância foi dando lugar aos comportamentos grosseiros, maneira pela qual o marido a forçava na submissão aos seus caprichos.
Tendo desenvolvido sua sexualidade na companhia de profissionais experientes nas mais diferentes, esdrúxulas e inusitadas práticas sexuais, o esposo buscava o contacto íntimo ansiando mais do que as tradicionais emoções na rotina das práticas naturais, que já lhe pareciam enfadonhas e sem graça.
Aspirava por emoções renovadas, por carícias ousadas para as quais Lorena não havia sido preparada pela vida.
Ao contrário, dos ensinamentos familiares e do amadurecimento cultural havido no meio em que crescera, a esposa se impregnara de certos preconceitos ou ideias que a faziam considerar determinadas condutas na área da intimidade, verdadeiras agressões beirando à perda da própria dignidade.
Então, ao lado do amor que sentia por Rubens, Lorena viu crescer uma situação conflituosa, que a colocava em uma condição muito delicada.
Observando a volúpia constante do marido, temia não lhe corresponder aos desejos descumprindo os deveres matrimoniais, arriscando-se a perder o esposo ou a vê-lo buscar o alívio de suas expectativas junto de outras mulheres.
Por outro lado, para atender a tais apetites, deveria submeter-se a condutas que, segundo seus princípios pessoais, eram ofensivas à sua condição feminina.
No começo, procurou dialogar com Rubens, explicando-lhe que necessitava de tempo e paciência para que fosse se adaptando melhor à relação íntima, com a finalidade de agradá-lo.
Entretanto, a velocidade com que, ela estava disposta a ir conquistando esse terreno era muito mais lenta do que a que Rubens desejava ver andando o carro do casamento.
Lorena, nesse tempo, não era espírita nem frequentava qualquer instituição religiosa, coisa a que Rubens também era avesso, como a maioria das pessoas carnais, aquelas que estão profundamente escravizadas aos vícios do mundo material.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:42 pm

A pressão das exigências sexuais diárias, a intolerância do companheiro, a submissão para evitar maiores brigas, a anulação de sua responsabilidade para agradar aquele que, depois de correspondido se contentava, abrandando suas pressões e retomando o trato carinhoso, isso ia minando as defesas mentais que Lorena possuía no equilíbrio de suas emoções.
Havia entendido o plano de Rubens.
Se ela aceitasse fazer o que uma prostituta pervertida fazia – segundo os seus conceitos pessoais sobre perversão e a prostituição – seria bem tratada.
Se fosse uma mulher decente – segundo os padrões de decência herdados da criação – sofreria as violências morais e verbais e a dureza de um homem ainda na faixa da animalidade selvagem.
Lorena tentou adaptar-se à primeira hipótese, mas ao fazê-lo, violentara-se física, emocional e mentalmente.
Não entendia o sexo como o marido o via.
Para ela, era a exteriorização do Amor.
Para ele, era saciar uma necessidade física.
Então, a feria a modo grotesco, mal educado e chulo como o marido a usava, vendo-a como um pedaço de carne, sem considerar as suas próprias limitações ou necessidades.
Ainda assim, Lorena escolheu fazer todo o possível para harmonizar-se.
As pressões psicológicas e os dramas da culpa daí decorrentes desaguaram na periclitação de sua razão. Sofrendo uma relação ao invés de desfrutá-la.
Lorena viu o casamento se tornar uma jaula, cobrando o preço da própria dignidade.
O sigilo com que suportava essa situação, somado ao medo e à culpa, fizeram com que o desequilíbrio emocional a derrubasse ao estado do casamento, atingindo, em rápidos meses, a depressão completa.
Se o marido não era sensível às suas necessidades, encontrara refúgio no abatimento e no desencanto.
Ao perceber o estado emocional tão debilitado.
Longe de assumir a cota de responsabilidade na exploração das energias de Lorena, Rubens qualificou o quadro como falta do que fazer ou de um trabalho fora de casa.
No entanto, havia sido ele próprio quem se opusera, no seu machismo, a que a companheira ficasse exposta ao contacto do mundo, com a desculpa de protegê-la.
Os devassos e levianos têm sempre receio de que outros iguais a eles, valendo-se das mesmas técnicas, se aproveitem das respectivas companheiras usando-as como eles o fazem com a mulher alheia.
Rubens era uma criança fazendo de conta que havia crescido.
Agora, vendo o estado depressivo de Lorena, imaginou que se lhe conseguisse um trabalho, apesar dos pesares e riscos, poderia distrair-se um pouco saindo do estado de indiferença total.
Ouvindo-lhe as sugestões, no entanto, a mulher não se animou com a ideia.
Não queria sair de casa.
Por mais que Rubens se agitasse, demonstrasse irritação ou nervosismo, isso em nada mudava o estado da esposa.
A estas alturas, eclodia com maior força a sensibilidade mediúnica da companheira, contagiada pelas vibrações inferiores dos espíritos que acompanhavam o marido, dominando-lhe os centros genésicos.
Actuando sobre ele, fustigando-lhe as emoções carnais, pressionava Lorena a ceder além do seu próprio limite, o que propiciou a ruptura de suas emoções e o refúgio no desânimo de uma quase morta estirada sobre a cama, vítima deles todos, exigindo uma atenção que os ególatras não gostam de despender com ninguém além deles próprios.
Esse era o grande problema de Rubens.
A egolatria, a exacerbação de si mesmo com a desconsideração de qualquer necessidade alheia era a doença grave que o marido carregava na alma, a matriz dos outros problemas, inclusive dos distúrbios sexuais gerados pela necessidade de se sentir o macho dominante.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:44 pm

Entidades vampirizadoras de energia, percebendo a sensibilidade de Lorena, mais do que depressa acoplaram seus tentáculos fluídicos aos seus centros de energia vital, criando uma teia de fios invisíveis através dos quais suas disposições de viver iam sendo solapadas pelo consumo inexplicável de suas forças.
Quanto mais ela dormia, mais desejava dormir.
Isso começou a levar o marido ao desespero.
Mesmo contra a vontade da esposa, comunicou-se com a cunhada, irmã de Lorena,
pedindo ajuda, porque já não sabia mais o que fazer.
Atendendo ao pedido secreto de Rubens, Carla improvisou uma rápida visita, pretextando saudades e o que viu com os próprios olhos foi aterrador.
Lorena estava mais morta do que viva.
Precisava fazer algo urgente para interromper o círculo vicioso no qual a doente se mantinha, desânimo produzindo abatimento e abatimento a gerar desânimo.
Rubens pensava levá-la ao psiquiatra para que o tratamento medicamentoso fosse iniciado, visando tirá-la da crise.
Carla, experiente no assunto, se opôs a essa medida como início do tratamento.
- Sim, Rubens – disse ela -, essa será uma opção adequada na hora certa.
Mas antes de começarmos a entupir Lorena de remédios, gostaria de recorrer a um outro tratamento menos danoso.
Vendo que Carla se dispunha a ajudar e sem contar com qualquer experiência nesse sector, Rubens quis saber do que se trataria.
- Bem, cunhado, no lugar onde eu trabalho, existem várias pessoas que passaram por situações semelhantes e, então, pude observar o desenrolar de diversos problemas emocionais.
Muitas pessoas recorreram ao tratamento medicamentoso como único recurso e, por fim, acabaram dependentes de remédios para dormir, calmantes, estimulantes, e toda a sorte de aventuras químicas.
Já outras pessoas escolheram alguns tratamentos alternativos, menos agressivos e drásticos, cada um indo por um rumo.
Pude comparar-lhes os resultados e constatei que boa parte deles se reajustou sem recorrer a remédios ou sofrer com a dependência de drogas.
- Sim, eu já ouvi falar sobre isso também.
Mas eu não conheço nenhum tipo de tratamento alternativo.
Já ouvi falar em homeopatia, em meditação, em florais mas não sei se isso serve pro caso dela – respondeu Rubens.
- Em alguns casos isso ajuda, complementando o tratamento.
No entanto, estou falando de outra coisa.
Estou me referindo a PASSE MAGNÉTICO.
Já ouviu falar?
Demonstrando ignorar a expressão, logo pensou:
- Tem algo a ver com aquele negócio de colchão com ímã ou pulseiras imantadas que a gente usa na pele para melhorar o estado geral?
Já vi propagandas por aí.
Colchão, pulseira... mas esse negócio de passe magnético nunca vi, não.
Carla sorriu da ignorância do cunhado e esclareceu:
- Não, Rubens.
Estou falando de uma prática de energias positivas e que ajudam na recuperação da pessoa, como aconteceu com várias amigas minhas lá no serviço.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 22, 2018 8:44 pm

- Puxa, se você já viu isso funcionando, quem sabe não pode ajudar Lorena também.
É muito dolorido?
É feito com choque eléctrico?
Será que custa muito caro?
Se a gente precisar, será que parcelam o tratamento no cartão ou atendem no convénio?
Rindo novamente, Carla respondeu:
- Não, meu amigo.
É um tratamento gratuito e sem qualquer prejuízo físico.
Você não está imaginando que eu levaria minha irmã, ainda mais do jeito que está, num lugar que lhe aplicassem choques eléctricos, não é mesmo, cunhado?
- Eh!... Claro que não... né!
Desculpa meu jeito meio bronco pra essas coisas, Carla.
Mas é que eu não sei como isso funciona.
- Então é bom começar a aprender, Rubens, porque para que o tratamento seja mais eficaz, as pessoas que estão próximas ao doente também precisam participar, porque isso faz bem para todos, melhorando a situação do enfermo mais depressa.
- Tudo bem, se precisar fazer esse tratamento pra ajudar Lorena, vou junto.
Não tem problema.
Mas quero que você venha com a gente.
- Está combinado, então.
Vou ver o endereço, marco o horário e pego vocês.
E foi assim que, para surpresa de Rubens, Lorena chegou à casa espírita e nela conseguiu, em algumas semanas de tratamento intensivo e disciplinado, restabelecer o equilíbrio emocional, deixando as influenciações espirituais de lado pela neutralização de suas pressões psíquicas.
Ao mesmo tempo, Rubens também foi ajudado, melhorando o ambiente mental que o escravizava, afastadas inúmeras entidades que se associavam ao seu modo de ser, gerando imagens mentais degeneradas e provocantes com as quais manipulavam seu desejo, projectando-o ladeira abaixo no rumo da perversão e do abuso sexual.
A presença de ambos na casa espírita dirigida por Ribeiro foi o marco transformador de suas vidas, evitando que Lorena fosse conduzida à internação sob a medicação química, ao mesmo tempo em que possibilitou que desenvolvesse a mediunidade com segurança, tão logo venceu o perigo depressivo, reequilibrando-se.
Rubens, por sua vez, começou a receber instruções de Jurandir, nas palestras e conversas que iam elucidando certas dúvidas.
Passou a entender o grau de sua responsabilidade nos eventos que culminaram no desequilíbrio da esposa e, não mais submetido às pressões das entidades infelizes que o exploravam, viu diminuída a ansiedade sexual, reconduzindo suas práticas ao interesse natural e sadio do bom entendimento, nos reflexos do mecanismo hormonal na estrutura biológica.
A volúpia e o descontrole haviam sido modificados, transformados em um comportamento normal, sem o furor da voracidade.
A sua melhora auxiliou a recuperação de Lorena que, fortalecida pelas novas vibrações e pelo carinho recebido de todos os que a atendiam naquela instituição, retomava o equilíbrio e o viço, começando a entender o mecanismo da mediunidade, que desabrochara naturalmente e passaria a fazer parte de suas rotinas.
O marido, porém, apesar de impressionado com a eficácia e seriedade do trabalho magnético, ainda não estava maduro para as transformações mais profundas no seu entendimento materialista do mundo.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:54 pm

Estava consciente de que Lorena não poderia afastar-se das tarefas mediúnicas e do tratamento magnético sem sofrer prejuízos no seu equilíbrio emocional e que ele próprio, recebendo os benefícios de tal terapia, deveria valer-se do passe magnético para manter a harmonia e restaurar as boas vibrações que se desgastavam nas lutas diárias.
A partir do tratamento espiritual, tanto ela quanto Rubens passaram a se entender de forma mais harmoniosa, encontrando um ponto comum para a troca de intimidades que contentasse a ambos sem prejudicar nenhum deles.
Com o afastamento do marido dos antros de permissividade e a sintonia com os amigos espirituais, o quadro da paz familiar se completou, preparando-a para seguir adiante.
Nos anos que se sucederam, Lorena engajou-se nas tarefas da instituição, como médium de incorporação e trabalhadora das actividades da evangelização.
Rubens a acompanhava regularmente, falhando algumas vezes na frequência, mas nunca criando obstáculos para as tarefas da esposa.
Ia levá-la e buscá-la sempre que não a acompanhava.
Fizeram amizades no núcleo de trabalhos e hipotecavam amizade sincera a todos os trabalhadores que, desde o primeiro dia, os haviam acolhido com verdadeira fraternidade, inclusive Jurandir, o dirigente encarnado que lhes servia de professor, confidente e irmão mais velho. Foi graças ao aconselhamento do presidente da instituição que Rubens entendeu serem inadequadas as práticas sexuais que exploravam a prostituição, como fizera nos tempos de solteiro e repetira, mesmo depois de casado, alegando as limitações da esposa.
Explicava-lhes Jurandir que todas as criaturas que recorressem a esse estilo de viver eram dignas da mais sincera compaixão, mas os malefícios energéticos havidos naqueles que se mantinham em contacto com o prostíbulo, em decorrência do tipo de espíritos que o acompanhavam de regresso ao lar, conspurcavam o ambiente familiar com o lixo fluídico trazido de tais lugares, o que se fazia extremamente pernicioso para ele próprio, sobretudo quando, como acontecera depois da maternidade, cuidavam de dois meninos que haviam vindo engalanar a vida do casal.
Além dos filhos, os irmãos do centro espírita eram a sua família.
Acontece que, envolvido nesse clima de amizade, não pareceu estranho a Rubens que, certa manhã, Peixoto o procurasse para falar de coisas estranhas acontecidas lá no centro espírita.
Referindo ao “caso Alceu” sem revelar os verdadeiros detalhes da história e ocultando deliberadamente seu interesse financeiro no caso, Peixoto estava à cata de aliados para produzir uma divisão na casa espírita, naturalmente manipulado pelos amigos infelizes que, de há muito, o assessoravam na intimidade dos pensamentos desregrados.
Aliado a Geralda, Moreira e a Cássio, os outros três que como ele, Peixoto, também se haviam afastado, o velho médium usaria sua longa permanência no centro para, se fazendo de idóneo, sincero e bem intencionado, pintar as coisas de forma a criar o clima de desconfiança, de perigo iminente, de falta de direcção segura da instituição.
Sabendo Peixoto do carácter impressionável de Rubens, que contrastava com a docilidade de Lorena, escolheu lançar a semente de joio no espírito do marido, sobretudo por não possuir com a esposa a mesma liberdade que tinha com ele.
Então, astuto e ardiloso, planeou usar Rubens para denegrir a imagem de Jurandir, lançando-lhe a dúvida para que, como esposo da médium, se tornasse mais um aliado na pressão sobre a tarefeira, fazendo com que ela também deixasse o trabalho.
Por outra parte, Geralda atacaria na outra frente, tentando solapar as resistências de Lorena, insinuando-lhe a desconfiança que, na fatídica noite dos fatos, não comparecera à reunião devido a problemas pessoais.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:54 pm

Não tendo presenciado as ocorrências, não as saberia avaliar com isenção e neutralidade.
Geralda usaria a relação de amizade construída entre elas ao longo dos anos para conseguir a sua adesão aos novos planos do grupo.
Sairiam do centro e abririam um outro grupo mediúnico, sob a direcção do próprio Peixoto.
Não imaginava, porém, que Lorena fosse lavrada em outra madeira que não a de Geralda, leviana e volúvel.
Diferente da dissimulada ex-cooperadora, Lorena nunca fora aberta a comentários inferiores acerca de seus irmãos de tarefa, sobretudo quando feitos pelas suas costas, não sendo do tipo de pessoa que sorria pela frente e conspirava pela retaguarda.
O esforço de Geralda não prosperou no coração da amiga que, apesar de educada, lastimou a maneira falsa daquela que tentava criar um clima de desentendimento no seio da instituição generosa que os havia acolhido.
Porém, o mesmo não aconteceu com Rubens que, confiando nas aparências de respeitabilidade de Peixoto, mordeu a isca da dúvida e passou a ver as coisas de outra forma.
Do dia para a noite, esqueceu-se de tudo quanto lhes havia sido entregue nos trabalhos magnéticos da casa espírita, que abrira suas portas em hora tão difícil de seus destinos.
Parecia nunca ter sentido o carinho dos irmãos compreensivos e pacientes, a devoção das entidades espirituais no atendimento dos próprios perseguidores para libertá-los do mal.
Bastou a simples notícia ardilosamente plantada pela fala mansa e pegajosa do velho Peixoto, para que Rubens, sem profundidade de avaliação, se deixasse ferir pelo veneno da calúnia, considerando que, se um homem tão respeitável como o encanecido médium, com décadas de trabalho espiritual naquele centro havia julgado tão graves os factos ocorridos, fosse melhor Lorena tomar cuidado com as coisas que desconhecia e, por isso, mais prudente também deveria ser afastar-se das tarefas, por precaução.
Foi assim, então, que as mesmas entidades cujo objectivo era a destruição dos luminosos núcleos de trabalho do Bem e que já haviam usado os interesses inferiores de Peixoto, de Cássio, Moreira e Geralda para afastá-los de lá, se ajustavam em busca de novos amotinados, atacando o espírito prático e imediatista do marido imaturo a fim de que, envolvido pela calúnia em suas perturbadoras vibrações, se tornasse aliado e passasse a ser pedra de tropeço no caminho da mulher, prejudicando a paz da instituição espírita cujo único móvel era o de servir com desinteresse a todo tipo de aflições que lhe batiam à porta.
E foi por isso que, desde algumas semanas, Lorena começara a falhar nos trabalhos da Casa Espírita, pressionada pelo esposo, que fazia o jogo das entidades inferiores ao agasalhar a semente caluniosa e fazê-la germinar na planta espinhosa da desavença.
Rubens parecia voltar aos velhos tempos, tentando influenciar a mulher e criando embaraços para a sua ida ao cumprimento de suas responsabilidades.
No início, a conduta do marido foi subtil, usando desculpas para solicitar a companhia da esposa ao seu lado em reuniões festivas na empresa onde ele trabalhava, viagem a passeio, convites para o cinema, sempre nos dias e horários incompatíveis com as tarefas mediúnicas.
Lorena, que sabia de seus compromissos, pretendendo evitar contrariar o marido em todas as solicitações, acedeu a alguns deles de maneira inocente, imaginando que isso fosse uma maneira de Rubens demonstrar o seu carinho, desejando-a mais tempo ao seu lado, fora das rotinas do lar.
Naquele dia, logo pela manhã, aproveitando a ausência dos filhos, que já tinham se dirigido para a escola, o marido tocou no assunto delicado fazendo entender a Lorena que talvez não lhe fosse mais propício continuar a frequentar aquela instituição.
Foi nesse momento específico que Ribeiro, Jerónimo e Adelino chegaram ao lar do casal, compreendendo, de um relance, todo o contexto que envolvia o afastamento da servidora, observando como o médium está sempre envolvido por pressões, por influências de todos os tipos, dependendo muito de si mesmo, de seu equilíbrio e discernimento para que faça as coisas que precisam ser feitas, tome as decisões que tenha que tomar, não importando quem sofra ou reclame.
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Ave sem Ninho

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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:54 pm

A conversa que Rubens iniciava de maneira aparentemente inocente, no entanto, despertou em Lorena a análise de todo o contexto daquela cena.
A presença de Ribeiro infundiu-lhe o equilíbrio mediúnico indispensável para que intuísse, num relance, toda a trama inferior sem as ilusões produzidas pelas palavras melífluas, adocicadas e mornas com as quais a calúnia se traveste para fazer seus adeptos.
Foi somente quando Rubens abordou a questão, que a médium ligou a conduta de Rubens aos telefonemas de Geralda, que a procurara com a mesma abordagem.
Sim... tudo estava bem claro. Havia um complô das trevas usando a invigilância dos homens para tentar prejudicar o serviço do Bem através dos próprios trabalhadores.
Sabendo da importância da disciplina de pensamentos e sentimentos, Lorena refutou as ideias do marido, com uma firmeza que ele próprio jamais havia observado nela.
- Olha, Rubens, eu respeito muito as suas ideias e não me oponho às decisões que você toma acerca do que lhe toca.
No entanto, quero deixar uma coisa muito clara a você:
não brincando com a vida.
Estou na Terra para evoluir e ficarei muito feliz se isso puder acontecer connosco ao mesmo tempo, um ao lado do outro.
Porém, não me venha sugerir condutas que envolvam meu afastamento da mediunidade e das humildes tarefas que executo no centro porque eu não lhe dou esse direito.
Eu decido se vou e quando não vou mais.
E não será pela boca leviana de pessoas como o senhor Peixoto ou da própria Geralda que irei transformar as bênçãos que todos nós recebemos como água cristalina da esperança, em fel de desventura.
Aliás, muito me admira que esse senhor de cabelo branco, bancando o humilde e experiente servidor que diz ser, esteja por aí, de telefone na mão, fazendo um complô em busca de adeptos.
Por que, ao invés disso, não foi à casa espírita pedir que lhe explicassem as coisas estranhas que diz terem nela acontecido.
Quem se serve do telefone para espalhar a notícia, conta com a nossa credulidade para nos manipular, Rubens.
Tenho certeza de que, depois que Peixoto falou com você, a imagem mental de Jurandir já se modificou.
Estou segura de que, agora, imagina o nosso amigo como um fingido, um desregrado que não sabe o que está fazendo, que usa da firmeza para intimidar os outros a fim de poder fazer o que lhe dê na vontade...
Arregalando os olhos, Rubens exclamou:
- Credo, isso é que é ser médium!
Como é que você sabe que estou fazendo exactamente isso?
- Ora, Rubens, é isso que as entidades inferiores estão plantando em sua mente, graças ao espaço que você abriu às palavras levianas de um irresponsável desagrador das paz, esse senhor Peixoto.
Quando um homem se vale do peso de sua idade para usá-lo na tentativa de desajustar um trabalho honesto, ou está muito desequilibrado ou não é um homem decente.
Prefiro considerá-lo no primeiro caso, como um obsedado manipulado por entidades astutas a supô-lo como um ardiloso envenenador ou um homem mal.
No entanto, é preciso estar atento para não cairmos no canto da sereia, meu bem.
E você, que está todo cavalheiro e atencioso comigo, não se engane.
Se pensa que pode, com sua melosidade me afastar do trabalho, esteja certo de que me afasto é de você.
E não pretendendo dar mais espaço para a conversação, terminou:
- Estamos entendidos?
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:54 pm

Meneando a cabeça como quem não tem outra escolha, Rubens disse:
- Tudo bem.
Se é assim que você quer, que assim seja.
Não foi necessário qualquer intervenção directa dos espíritos amigos para que Lorena assumisse sua posição firme, sem qualquer apoio externo, determinando sua vontade na direcção correta em respeito à verdade que havia encontrado, através dos quais Jesus nos advertia o raciocínio:
CONHECE-SE A ÁRVORE PELO SEU FRUTO...
UMA ÁRVORE BOA NÃO DÁ MAU FRUTO...
UMA ÁRVORE MÁ NÃO DÁ BOM FRUTO...
Ribeiro acercou-se da irmã dedicada e, com carinho paternal, beijou-lhe a fronte preenchendo-a de satisfação espiritual.
Logo depois, acercou-se de Rubens e, sobre seu coração imaturo, depositou um jacto de luz a fim de acalmar-lhe as inquietações enquanto sussurrava aos seus ouvidos palavras de carinho e confiança de modo a diminuir-lhe as apreensões.
Depois, então, abençoando aquele ambiente no qual diversas entidades inferiores tinham se aboletado para assistir o desenrolar da trama e participarem com suas pressões, envolveu a todos numa onda balsamizante irresistível de energias, graças às quais, a maioria adormeceu onde estava, sem condições de ausentar-se do local.
Ato contínuo, comunicou-se mentalmente com trabalhadores da instituição, solicitando a vinda de um dos veículos transportadores que trabalhavam no recolhimento de espíritos como aqueles a fim de levá-los ao destino que lhes cabia.
Não tardou para que uma pequena caravana desse entrada no local, incumbindo-se de recolher quarenta e duas entidades inferiores adormecidas no mal, que se surpreenderiam desagradavelmente quando despertassem no estranho ambiente vibratório da Lua, à espera do destino definitivo que aguardava os espíritos banidos da Nova Humanidade.
- Bem, meus filhos, graças à vigilância de uma única irmã, diminuímos o estrago que o mal vinha engendrando, imaginando que a Obra de Deus se resume a uma pobre instituição física onde se tenta viver o Amor de forma menos imperfeita possível. Agora, já não temos mais o que fazer aqui.
Dando por encerrado o pequeno trabalho, Adelino desejou saber:
- Iremos visitar Peixoto agora?
Entendendo a preocupação do espírito amigo, Ribeiro respondeu:
- Não será necessário, meu amigo.
Nosso irmão Peixoto já escolheu o caminho por sua própria conta e encontrará os espinhos de que necessite.
Coloquemos nosso irmão em nossas preces porque ele não nos deseja como seus amigos.
Já escolheu suas verdadeiras companhias e, assim, irá com elas para o destino comum que os aguarda.
Quanto a nós, trabalhemos junto aos que ainda estão procurando um novo caminho.
Vamos... temos muitos a ajudar nesse sentido.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:54 pm

36 - JULGADOS PELO DIA-A-DIA
Nos dias que se seguiram, cada trabalhador da casa espírita prosseguia com suas rotinas naturais entre relacionamentos familiares e os aprendizados específicos decorrentes das lutas pela sobrevivência.
Todos traziam o espírito preparado para a continuidade das lições ao lado de Bezerra.
Entretanto, as aulas seriam diferentes para cada um dos que lá estavam.
Foi com esse fim que Jerónimo e Adelino receberam de Bezerra a incumbência de acompanhar alguns dos trabalhadores efectivos da instituição por um período de vinte e quatro horas a fim de que, das experiências que vivenciassem, se extraíssem os ensinos fundamentais na compreensão dos mecanismos de selecção das criaturas.
A primeira a ser observada foi Meire, a médium que estivera no grupo de investigação dirigido por Bezerra.
Ao chegarem em sua casa, encontraram-na às voltas com a organização das crianças que se dirigiam à escola.
À espera do veículo que os transportaria para o estabelecimento de ensino, o filho mais velho observou a falta de um dos livros escolares.
- Mãe, mãe, onde está o meu livro?
Hoje é dia de prova e vou precisar dele... – agitava-se o garoto, nos seus dez anos incompletos.
- Ora, Luciano, como é que eu vou saber.
Já falei que você tem que tomar conta de suas coisas.
- Eu estava estudando ontem, mãe.
Depois fui dar uma volta enquanto a Maria ia limpar o quarto.
Quando voltei, fui estudar outra coisa pensando que tinha guardado o livro, mas, agora, não estou achando – repetia, nervoso, por não conseguir encontrar o livro dentro de sua mochila escolar.
- Vá lá no seu quarto correndo, Luciano, procure rápido porque a perua deve estar para chegar... – falou a mãe, aflita.
Lá foi o menino, desesperado, atrás do material que faltava, enquanto Meire ficava com o outro filho mais novo, esperando o transporte.
E de lá, escutou o filho, descontrolado, gritando:
- Mãããããããeeeeeee!
Não estou achando... sem esse livro vou tirar zero na prova...
Mãããnnnnnhhhhhêêêêêêêêêêêêêêê!
Meire começava a ficar agitada com a pressão, mas não podia deixar o filho mais novo sozinho.
Entrou com o pequeno, já nervosa.
- Fica aqui, Juninho, e quando a perua chegar, diz que eu já venho! – disse, trancando o portão da casa para que o filho não ficasse em perigo.
Lá se foi a mãe atender ao filho que, quase chorando de nervoso, revirava o seu armário de estudos:
- Foi a burra da Maria... essa mulher não pode ver as coisas fora de lugar que esconde tudo.
A Maria arruma meu quarto de um jeito que só depois de dois dias é que eu encontro minhas coisas... – ia acusando, o menino, imputando à pobre funcionária o desaparecimento de seu livro.
Meire ia piorando a situação com o próprio descontrole.
Virava e revirava as gavetas da escola e nada.
- Luciano, você não deixou o livro em outro lugar qualquer?
Na sala, no quintal, na casa de seu amigo...?
- Não, mãe, tenho certeza, ele estava aqui antes da Maria-furacão entrar no meu quarto.
- Essa Maria, já falei para colocar as coisas no mesmo lugar para que não desapareçam depois da limpeza... – comentou Meire, irritada com a serviçal da família.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:55 pm

Nesse meio tempo, soou a buzina da perua de transporte escolar.
- Ah! Mãe, estou perdido... – falou Luciano.
- Isso é pra você aprender a pôr ordem nas suas coisas, seu menino distraído.
- Mas a culpa não é minha, mãe.
É tudo culpa da Maria, aquela idiota.
Se eu tirar zero – falou Luciano, chorando – a culpa vai ser dela.
Lá debaixo soou a voz do pequeno Júnior:
-Maaaaaaaaaaaaaanhêêêêêêêêêê!!!!!!!
A perua chegoooooooooooooooooou!
Sabendo que o transporte escolar não esperava, Meire disse a Luciano:
- Olha, vai indo com seu irmão que eu vou continuar procurando.
Quando a Maria chegar, certamente ela vai saber onde colocou o seu livro e, então, levo até a sua escola na hora em que for pro meu trabalho... vai logo antes que a perua desista de esperar.
Contrariado com a ocorrência, Luciano saiu correndo e, juntamente com seu irmão, ingressou no veículo com o rosto vermelho de choro.
A empregada da casa ainda não havia chegado.
Meire, contaminada com o desequilíbrio do filho, começara a relembrar os defeitos da infeliz servidora.
Agora, precisando atrasar seus compromissos profissionais para encontrar o livro do filho, a dona da casa relacionava os deslizes que a funcionária já havia tido no serviço do lar.
- Essa Maria é uma avoada mesmo.
Já quebrou dois copos, só neste mês.
Outro dia, foi embora e não varreu a sala. Semana passada deixou um litro de leite fora da geladeira, que o gato derrubou, fazendo a maior sujeira.
Desse jeito não dá.
A gente paga o salário correto, mas esses empregados abusam da nossa paciência.
Meire ia se inflamando com as recordações de pequeninas faltas, aliás muito naturais na vida de qualquer família.
Não se lembrava, por exemplo, que os próprios filhos Luciano e Júnior, tinham quebrado pelo menos cinco copos naquele mês, além de destroçarem o controle remoto da televisão e riscarem os dvds brincando de disco voador.
Nem dava importância ao facto de ela própria ter-se esquecido de preparar o manjar para a recepção da noite na comemoração do aniversário do marido, o que fez com que, lá de seu trabalho, incumbisse Maria de fazer o mencionado doce, assoberbando a funcionária, já comprometida com as obrigações gerais da casa, agora com as tarefas de cozinheira.
Foi essa a raiz do desastre que envolveu o faminto gato que Meire não havia alimentado no dia anterior e que foi defender-se da fome na embalagem de leite que estava disponível sobre a pia.
Na verdade, sem ser má patroa, Meire costumava exigir sempre dos outros e desculpar sempre as próprias faltas.
Quando a pobre Maria se apresentou ao serviço na hora costumeira daquela manhã, encontrou a patroa azeda.
- Bom dia, dona Meire – falou a jovem.
- Antes fosse bom dia, Maria.
A coisa já começou pegando fogo por aqui.
E, sem entender o que havia acontecido, a pobre funcionária perguntou:
- Mas o que aconteceu, “sinhora”?
- Quantas vezes já lhe disse para não mudar as coisas de lugar na hora da arrumação, Maria – disse Meire, ríspida.
Luciano tem prova hoje e não achou o livro que precisava levar.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:55 pm

Saiu desesperado e me deixou aqui, camelando para encontrar.
Só você para nos dizer onde foi que enfiou o livro do menino.
- “Num” peguei livro nenhum não, dona Meire – defendia-se a moça, observando a injusta acusação.
- Ora, Maria, então fui eu que escondi o livro do meu filho para ele tirar zero na escola e, depois, poder dar-lhe uma palmadas merecidas... deve ter sido isso, não é mesmo? – respondeu a patroa, ironizando.
- Olha, dona Meire, eu num sei quem é que foi, mas, “agarantcho” pra sinhora que eu é que num fui.
Num vi nenhum livro onti.
Varri o chão do quarto do Luciano depois que ele saiu, arrumei a cama, “dobrei” as “cuberta”, botei os “trem” dele nos lugar de sempre e só isso.
- Mas o certo é que o livro sumiu, Maria.
E Luciano precisa dele pra prova na escola, hoje.
Fiquei de encontrar e levar até lá.
Você vai ter de procurar.
- óia, dona Meire, “campiá” eu “campio”, mas esse negócio tá me “cherano” as “arte” do coisa ruim...
- Que coisa ruím, Maria – respondeu Meire, sem paciência – tá ficando maluca você também?
- É que aqui oceis num tá custumado a vê as arte do capetinha.
- Que capetinha que nada, aqui na minha casa não essas coisas.
E você não fica se escondendo atrás do capeta para tirar a culpa das suas costas não, Maria.
Vai lá, com capeta ou sem capeta, e trate de achar o livro do Luciano.
- Tá bão, patroa, mas não foi curpa minha não. – tentava se inocentar a funcionária humilde.
Meire, nervosa, tinha que se arrumar para o trabalho enquanto a empregada revirava o quarto do menino, sem encontrar nada.
Levantou o colchão, puxou os móveis, abriu os armários, tudo em vão.
Meia hora depois, pingando suor, Maria volta até a cozinha, onde está a patroa tomando café à beira da pia.
- Óia, dona Meire, se num foi o capeta, isso tá me “cherano” coisa do seu ajudante...
- Ora, Maria, me poupe dessas crendices... – ajudante do capeta – era só o que me faltava...
- É sim, dona Meire... é coisa do Saci-pererê... aquela coisa “muleca” que sai por aí dando sumiço aos “trem das pessoa”.
Eu cacei por “tudos lado”, mas num vi nada de livro do menino.
Só podi sê das arte do saci...
- Maria – disse Meire, irritada com a pobre e ingénua funcionária – já disse pra você parar de ficar pondo a culpa nos outros.
Não quero mais saber de coisas sumindo por aqui.
Para mim, isso foi arte da Maria mesmo e, pelo que estou percebendo, você nem é o capeta nem é o saci.
Por isso, não estou mais com paciência para tolerar suas distrações.
Hoje o que sumiu foi o livro do Luciano.
Já pensou no dia em que o que sumir for o seu emprego?
Arrematando a conversa, diante de Maria, cabisbaixa, Meire saiu dizendo:
- Vou passar na escola e explicar pra professora que você sumiu com o livro do Luciano e ver se ela pode contornar o problema enquanto compro outro.
E vou descontar isso do seu salário...
Triste com a acusação injusta, Maria não conseguiu impedir que os olhos se enchessem de lágrimas, procurando compreender o nervoso da patroa.
Então, antes que ela saísse, respondeu:
- Se isso faz “farta pra sinhora, podi discontá do meu pagamento, mais qui num foi eu, isso é que num foi... foi o saci, isso sim... foi o saci...” – falava Maria, chorando pela injustiça, sem se revoltar com a acusação.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:55 pm

Meire fechou a porta pensando onde foi que conseguira uma funcionária tão incompetente e tão burrinha como aquela.
- Só problema... só problema... logo cedo... pelo jeito, hoje o dia vai ser daqueles... – falava Meire consigo mesmo.
Quando começava a manobrar o carro para tirá-lo da garagem, viu acercar-se uma pessoa da vizinhança.
Era a mãe de Ronaldo, o amigo de Luciano.
- Meire, Meire... espere um pouco... – falava a mulher, acenando para chamar a atenção da motorista.
Abrindo o vidro do carro, Meire tentou mudar a cara de irritação, esforçando-se para sorrir e improvisando um falso “bom dia”.
- Oi, Marisa, bom dia... O que foi?
- Olha, Meire, ontem o Luciano esteve lá em casa estudando com o Ronaldo, mas acho que se esqueceu de levar o livro de volta.
Deixou-o lá.
E como vão ter prova hoje, estou com o livro aqui pra lhe entregar.
Desculpe não ter trazido antes, mas foi só agora que encontrei.
Tinha caído atrás de uma almofada do sofá e ninguém percebeu.
Meire estendeu o braço, aliviada, pegou o livro “desaparecido” e sorriu, agradecida.
- Puxa vida, Marisa, que bom que você encontrou.
Estou desesperada atrás dele desde que amanheceu.
Estava indo até a escola falar com a professora e comprar um exemplar novo.
Graças a Deus! Obrigada, minha amiga.
Vou correndo entregar o livro pro distraído do moleque.
Esses meninos... não perdem a cabeça porque está grudada no pescoço.
Despediram-se e, atrasada para o trabalho, Meire saiu acelerada pela rua, na direcção da escola.
Em sua mente, no entanto, as acusações contra a empregada agora pululavam como uma injusta condenação.
Com dificuldades para assumir a culpa e para dar o braço a torcer, na condição de patroa, Meire considerou:
- Maria é uma distraída mesmo.
Se não foi neste caso, certamente já perdeu muitas coisas e, então, mereceu a reprimenda.
Não vai saber que o livro sumiu por culpa do Luciano.
Vou dizer que comprei outro e pronto.
Sua consciência, entretanto, lhe dizia sobre a necessidade de pedir desculpas à pobre e injustiçada moça.
O orgulho existente nas pessoas e em suas relações pessoais e profissionais, porém, a aconselhava em sentido contrário.
- Desculpa? Eu?
A patroa não pode pedir desculpas porque, senão, a empregada cria asas e, aí então, ninguém mais aguenta a convencida.
Melhor que esqueçamos o acontecido.
Amanhã ninguém vai falar mais no assunto. Depois lhe faço um agradinho qualquer e tudo fica bem.
Chegou à escola, entregou o livro e partiu para o trabalho.
Ao seu lado, Jerónimo e Adelino se entreolhavam, observando como as pessoas ainda estão despreparadas para a modificação verdadeira, para a superação de seus defeitos nas pequenas coisas da convivência.
Meire correu para o trabalho.
Estava atrasada e o chefe, sempre disciplinador, iria cobrar-lhe por isso.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:55 pm

Já pensava em como ensaiar a desculpa.
Inventaria que havia precisado levar o filho ao médico logo pela manhã, antes de ir à escola e que, assim, se atrasara.
Chegando ao escritório, escutou do enérgico e inconveniente chefe o irónico cumprimento:
- Boa tarde, dona Meire.
- Bom dia, seu Carlos.
Desculpe-me o atraso, mas é que meu filho...
E sem esperar que ela completasse a frase, o superior hierárquico respondeu:
- Ficou doente logo cedo e a senhora precisou levá-lo ao médico, antes de ir à escola, não é mesmo?
Colhida de surpresa com a observação, Meire só conseguiu responder:
- Como é que o senhor sabe?
Estava lá no pronto-socorro também?
- Não, dona Meire, é que todos os meses a senhora apresenta certas justificativas para o costumeiro atraso e, observando que neste mês ainda não havia usado o hospital, tinha certeza de que seu filho tinha ficado doente.
Sem graça, Meire se fez de ofendida, procurando contornar o mal-estar com um sorriso amarelo:
- É que o senhor não tem filhos, seu Carlos.
Cada dia é uma surpresa nova.
Ainda mais neste período de frio, vira e mexe a gente precisa levar um ou outro ao pronto-socorro, é inalação, falta de ar, nariz escorrendo, gripe, bronquite... isso sim.
- Está bem... mas esteja certa de que vou descontar isso do seu salário – falou Carlos, rigoroso.
- Mas não é justo, seu Carlos.
Estou sendo verdadeira com o senhor.
Por favor, compreenda meu problema.
Preciso do salário porque temos muitas despesas em casa.
O senhor sabe como são as coisas, dois filhos consomem muitos recursos.
- Se é assim, deveria ter pensado melhor antes de engravidar.
Não pense que será a empresa que vai arcar com gastos aumentados pela vontade de terem filhos.
Trabalho é trabalho, não tem conversa.
Somando seus atrasos deste mês, vou descontar dois dias de serviço de seu salário.
Meire começava a ficar ainda mais irritada com o chefe, mas não podia lhe dizer nada.
- E se não estiver contente com o desconto, pense bem no dia em que descontarmos os 30 dias, no dia em que você não tiver mais o salário.
Por isso, acho que seria prudente que parasse de abusar da nossa paciência, antes que perca o emprego.
As frases de Carlos feriam profundamente o orgulho de Meire que, envenenada na alma, a duras penas continha as lágrimas.
Tais advertências lhe eram feitas diante dos outros funcionários que, sem falarem qualquer palavra na defesa da colega, também temiam perder os próprios empregos.
Meire não podia contar com o apoio de ninguém, a não ser de seu próprio autocontrole.
Respirou fundo, contou até dez e, então, sentou-se em sua mesa para que não demonstrasse o estado de desequilíbrio produzido por seu orgulho ferido e por uma raiva que lhe fazia tremerem as pernas.
Carlos se ausentou da sala.
Os amigos do trabalho entreolharam-se como a querer lhe prestar solidariedade, sem, entretanto, abrirem a boca.
Sabiam que o chefe tinha o hábito de escutar atrás da porta para saber quem criticava sua conduta áspera e inadequada, pelas costas.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 23, 2018 8:55 pm

Por esses critérios, ia escolhendo aqueles sobre os quais exercia maior fiscalização e era mais rigoroso, sempre procurando a eficiência do atendimento ao público no sector que era de sua responsabilidade.
A tarefa de Meire, naquele dia, era a de atender ao balcão, prestando informações ou recolhendo as reclamações dos clientes.
Estava tão nervosa e irritada que, na verdade, sua vontade era a de ofender qualquer cliente que viesse com palavras duras, entre os quais o próprio Carlos, seu chefe.
Sabia, porém, que com ele não poderia extravasar sua raiva, por óbvios motivos.
Tudo o que seu superior lhe havia dito era verdade.
Costumeiramente chegava atrasada no emprego e, como sempre, alinhava desculpas mentirosas.
No entanto, estar ciente disso não lhe bastava para acalmar o orgulho ofendido nem lhe garantia um pouco de equilíbrio e paciência para com o superior exigente.
Pensava ela, dando ouvidos ao insidioso defeito que a dominava naquela hora:
- Ele não tem o direito de me jogar na cara as coisas desse jeito.
Ainda mais na frente dos outros.
Esses pensamentos demonstravam que seu Espírito não houvera assimilado quase nada da excursão nocturna de dias antes, quando acompanharam inúmeros casos de pessoas nas mesmas situações, onde, a eclosão do orgulho machucado tornava as pessoas incapazes de suportar qualquer ataque sem se molestarem ou se melindrarem.
Apesar disso, tinha que atender gente simples, gente do povo, clientes descontentes com os serviços da empresa, reclamando de produtos.
E seria ali que ela colocaria à prova a sua condição de candidata à Nova Humanidade.
Ao invés de recorrer à oração, pedindo forças a Deus para superar-se a si mesma ou apelar para os espíritos amigos, entre os quais estavam Jerónimo e Adelino, ali presentes ao seu lado, Meire se deixou levar pela leviandade do descontrole e, com a cara amarrada, começou o dia de trabalho da pior maneira possível.
Seca, atendia os clientes com má vontade.
- Com um cavalo vestido como esse Carlos na chefia, é melhor que esta empresa feche mesmo.
Assim, ele também perde o emprego.
Que se danem os clientes.
Tomara que não comprem nada – pensava consigo mesma, como se isso fosse correto de sua parte.
Na verdade, sentindo-se injustiçada, procurava se vingar, sem se lembrar da injustiça por ela mesma praticada horas antes, com a pobre Maria, lá em sua casa.
A manhã ia seguindo nesse azedume, captando para si as inúmeras entidades infelizes que chegavam com os vários clientes, achegando-se à mulher graças à sua irritação somada à facilidade de sintonia que a mediunidade oferece aos espíritos.
A cada hora, com cada cliente e em cada atendimento ela via piorar seu estado geral.
Não demorou muito para que a dor de cabeça fizesse latejar seu crânio obrigando-a a recorrer a um comprimido.
Mais uma vez culpava Carlos por sua dor física e votava-lhe pensamentos odientos de contrariedade e repulsa.
Os amigos invisíveis acompanhavam tais rotinas anotando-lhe as reacções e catalogando seus sentimentos e pensamentos mais secretos.
Por três vezes, discutiu com clientes inconvenientes que procuraram o balcão da loja para reclamar de defeitos nos produtos ali adquiridos valendo-se de grosserias e palavras duras, que a funcionária escutava, absorvia e reagia com igual indignidade.
- Você é uma “cumpincha” desse povo ladrão que nos empurra produtos com defeito e, depois, não quer trocar.
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