Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

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Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 04, 2018 8:21 pm

HERDEIROS DO NOVO MUNDO
André Luiz Ruiz

Espírito Lucius

1 - ALERTAS E INFORMAÇÕES
PROFECIA DO PRINCÍPIO DAS DORES

3 E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo:
Diz-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?
4 E Jesus, respondendo; disse-lhes:
Acautelai-vos, que ninguém vos engane;
5 Porque muitos virão em meu nome, dizendo:
Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos.
6 E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.
7 Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares.
8 Mas todas estas coisas são o princípio de dores.
9 Então vos hão-de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.
10 Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão.
11 E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos.
12 E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.
13 Mas aquele que persevar até o fim será salvo.
14 E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim.
Mateus, 24, 3 – 14

A reunião mediúnica prosseguia normalmente com o atendimento de inumeráveis entidades aflitas, carregadas de angústias e dores semeadas por condutas desajustadas na velha fieira dos erros, próprios da imaturidade.
Trabalhadores do Bem se multiplicavam no ambiente, desdobrando-se para o atendimento vibratório, buscando afinizar os necessitados invisíveis aos diferentes médiuns presentes, no afã de facultarem a melhor sintonia com o veículo mediúnico disponível para os trabalhos da noite.
Os minutos corriam, céleres, enquanto as entidades que dirigiam os trabalhos confabulavam, discretas, no sentido de consolidarem as atitudes mais apropriadas para a condução das tarefas variadas que a reunião mediúnica impunha, nos diversos âmbitos que o amparo vibratório exigia.
Com a sua costumeira simpatia, o espírito Bezerra de Menezes observava, sereno:
- Nesta noite, Ribeiro, estamos conseguindo uma melhor integração fluídica a favorecer o amparo de emergência de nossos irmãozinhos infelizes.
As dores têm se multiplicado e, nem sempre, os encarnados se dão conta do seu tamanho e da imensidão do serviço.
Ouvindo-lhe as palavras suaves, Ribeiro, o dirigente espiritual da Instituição e coordenador directo dos trabalhos, respondeu, atencioso:
- É verdade, caro doutor.
Nossos maiores esforços têm sido no amadurecimento dos companheiros encarnados, para que suas vidas pessoais, fora do centro, guardem coerência com que aprendem e vivenciam aqui, possibilitando que as forças luminosas os protejam dos ataques inferiores tanto quanto os abasteçam de equilíbrio, para serem fontes de amparo e luz aos perdidos e infelizes.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 04, 2018 8:21 pm

Por isso, quando o grupo dos encarnados está consciente de que os planos físico e espiritual estão associados um ao outro como uma só expressão da Verdade, passamos a contar com maior equilíbrio de seus membros, e a tarefa de auxílio se torna mais eficaz.
- Realmente, Ribeiro, quando o encarnado deixa de ser apenas o cumpridor do horário, o instrumento mecânico do “receber” espíritos, há uma integração mais profunda com o trabalho do Bem e nossos esforços rendem mais e melhor, a benefício deles próprios.
Mal sabem nossos irmãos que, dentre as mais de quinhentas entidades que estão aqui hoje, para o intercâmbio mediúnico directo ou para serem esclarecidas em grupos comuns, aproximadamente a terça parte está directamente ligada aos próprios trabalhadores ou a seus familiares.
E quando se dispõem ao trabalho devotado e sem artificialismos, quando são sinceros e autênticos consigo mesmos e com os ideais que abraçaram, amplificam os benefícios e se vêem beneficiados, igualmente.
Vendo que as horas se adiantavam, Ribeiro observou, respeitoso:
- Querido doutor, de acordo com o seu plano de trabalho, já envolvemos a mediunidade de Alberto para que suas palavras possam se fazer ouvir aos membros do grupo, segundo seu desejo.
- Obrigado, meu amigo.
Creio que será importante que nossos irmãos escutem “com os ouvidos da carne” alguns alertas importantes para esta hora.
A reunião, como de costume, caminhava para o encerramento, depois que as últimas entidades haviam sido recolhidas pelos abnegados servidores do mundo invisível que lá se empenhavam no trabalho sacrificial e abnegado.
No momento destinado à palavra final de Ribeiro, o mentor dos trabalhos acercou-se do médium escolhido e, tocando-lhe os centros da sensibilidade, recebeu a habitual reacção favorável do medianeiro em serviço que, com facilidade, lhe identificou o tónus vibratório já conhecido.
Assim envolvido pela atmosfera fluídica de Ribeiro, Alberto entregou-se ao transe com a serenidade costumeira, permitindo que o campo de energias do Espírito o envolvesse e, de maneira suave e natural, lhe ocupasse os terminais nervosos numa enxertia positiva de ideias que acabariam actuando sobre a epiglote e transformar-se-iam em palavras claras:
- Boa noite, queridos irmãos – falou, pausadamente, controlando as emoções do médium, que se entregava por completo ao seu impulso mental.
Nossa presença costumeira ao final de cada trabalho tem a finalidade de comentar os feitos da noite e, ao mesmo tempo, abraçá-los com as orientações que são indispensáveis ao trabalho do Senhor.
No entanto, assumo as faculdades de Alberto na condição de simples organizador de seus fluidos, preparando o aparelho mediúnico para que outro irmão lhe possa utilizar as faculdades.
Por isso, solicito de todos que agucem os ouvidos e abram mente e coração para que as orientações de nosso amorável Bezerra possam chegar-lhes ao imo d’alma, com clareza e entendimento nas palavras de alerta e carinho que lhes vai dirigir, tão logo me afaste de nosso irmão Alberto.
Que a bondade de Jesus nos ampare a todos.
Dizendo isso, sem maiores delongas, afastou-se Ribeiro carregando em seu campo de influência o perispírito de Alberto que, embevecido, se deixava vibrar na atmosfera de suavidade encantamento que caracterizava as emanações de Bezerra de Menezes.
Ribeiro permaneceria controlando as forças vitais do corpo físico do médium, criando uma espécie de ambiente elevado para que as ligações espirituais do Médico dos Pobres com o aparelho mediúnico estivessem preservadas e firmes, facilitando a transmissão da mensagem sem as interferências do médium ou nascidas da curiosidade dos ouvintes.
“ – Que a paz esteja em todos os corações, queridos filhos.
Observando o empenho de cada um na obra de todos nós, aqui estamos para congratularmos com vossos esforços uma vez que, graças a eles, a eficiência dos atendimentos espirituais está ganhando em qualidade, o que se fazia necessário há muito tempo.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 04, 2018 8:21 pm

As horas difíceis se multiplicam a cada dia, no horizonte das criaturas que dormem.
Quando aconselhou ao homem convocado ao anúncio do Reino de Deus que deixasse aos mortos que lhe sepultassem o corpo do seu pai falecido, Jesus concitava-nos ao pensamento claro sobre a condição de mortos-vivos apresentada pela imensa maioria dos irmãos que estão ocupando corpos carnais neste momento, na Terra.
Não dispostos a despertar ao som dos clarins generosos que convocam o idealismo ao serviço do Bem, os mortos-vivos estarão sendo chamados à vida, à consciência, à lucidez por meios diversos, mas igualmente dolorosos.
A falta de base firme, de alicerce na rocha, no entanto, fará com que esses imaturos seres, frequentadores de religiões e cerimónias, não saibam como agir diante das agonias que terão de enfrentar.
Por esse motivo, queridos filhos, é que estamos aqui.
É necessário estarmos alertas e vigilantes para que as angústias alheias não sejam assumidas como angústias próprias.
São convocados a servir como enfermeiros junto à chusma dos doentes, lembrando-se de que precisam manter o cuidado para não se contaminarem com a epidemia.
E entre os homens haverá de se alastrar a do medo, a da revolta, a da agressividade à medida que a dor assumir a tarefa de produzir despertamento por atacado.
Não serão, apenas, as crises financeiras que irão toldar com seu manto de preocupações e angústias a alma dos indiferentes.
Multiplicar-se-ão as enfermidades físicas, os acidentes geológicos e atmosféricos, as conflagrações sociais, de forma que a todos estará sendo avaliada a reacção diante dos desafios diversos.
Serão bem-aventurados se guardarem a serenidade nas horas difíceis e, sem desespero nem entorpecimento, empenharem-se na obra da Esperança, sinalizando o caminho aos perdidos da rota.
Suas exemplificações serão tesouro no meio da tempestade e, graças a elas, os que possuam algum entendimento poderão encontrar forças para não desabarem na angústia colectiva nem tresloucarem-se em condutas desesperadas.
Dos dois lados da vida se realiza a grande transformação, já em andamento desde muitos anos, mas que se acelera nestes tempos, porquanto é necessário que todas as coisas sejam concretizadas.
Este aviso se destina a suas vidas pessoais, igualmente, porque em seus lares também repercutirão as mazelas que recairão sobre todos.
Nada de privilégios especiais ou protecções injustificáveis, notadamente para aqueles que já sabem como se proteger.
Não seria lógico que se cuidasse mais do enfermeiro – que já se qualificou pelo aprendizado da enfermagem – do que do doente que nada conhece.
É como enfermeiros que estão habilitados na Escola da Vida todos aqueles que, como vocês, participam dos banquetes da Verdade do Espírito.
Por isso, saberão velar pela dor alheia sem se olvidarem da higiene espiritual que os protegerá, da assepsia de pensamentos e sentimentos, da esterilização das palavras e atitudes para matar todos os germes que os contaminem com o mal.
Quando Noé aceitou construir a arca para salvar do afogamento os que nela quisessem entrar, assumiu para si próprio um imenso e extenuante trabalho.
No entanto, graças ao devotado ancião, conseguiu ele próprio e sua família encontrarem a protecção e a segurança que os demais não quiseram, quando chegou o momento áspero da tormenta fatal.
Assim são os convidados do Senhor.
Os próprios trabalhadores da última hora não estão livres do suor, do cansaço, do desgaste e dos testemunhos da fé.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 04, 2018 8:22 pm

No entanto, chegará o momento da serenidade se tiverem honrado com empenho a Obra de Deus.
Encarnados e desencarnados já estão sendo separados segundo suas vibrações específicas a fim de que a atmosfera humana não fique à mercê dos ataques da vasta horda da ignorância que se opõe aos nobres princípios representados pelo Cordeiro de Deus.
Esforcem-se por entrar pela porta estreita e não descansem até que o consigam.
Do lado de fora, posso lhes afirmar, já há prantos e ranger de dentes.
Que a paz de Jesus vos abasteça em todos os momentos da vida, sobretudo na hora difícil dos testemunhos que são o prenúncio da Alvorada da Esperança.
Boa noite, queridos filhos.”
O silêncio do ambiente era a marca da emoção que penetrava nas mais profundas fibras daquelas almas, uma vez que não só aos encarnados esses alertas eram úteis, mas para todos os desencarnados que lá se congregavam, curiosos e sofredores, aflitos e revoltados.
Ribeiro aconchegou Alberto de regresso ao corpo físico que, com o semblante sereno e emocionado, retornou o controle pleno das faculdades orgânicas, sem esconder o profundo e benéfico impacto que as energias de Bezerra lhe infundiam no próprio ambiente vibratório.
A prece de agradecimento foi conduzida por um dos trabalhadores encarnados e, logo a seguir, restabelecida a luz no ambiente.
Jurandir, o dirigente encarnado da reunião, tomou a palavra e arrematou, ainda sob a inspiração de Ribeiro:
- Fomos beneficiados com avisos sublimes que merecem meditação e recolhimento de nossa parte, para que possam ser devidamente apreciados e aproveitados.
Assim, deixemos os comentários costumeiros para nosso próximo encontro e sigamos para nossos lares rapidamente, sem perdermos as doces vibrações que nos envolvem nem a profundidade dos alertas que nos chegaram, por acréscimo da Misericórdia Divina e pela bondade de tão augusto representante desse Cristo de Deus entre nós.
Na próxima reunião, poderemos comentar com mais liberdade, como de costume.
Servida a água magnetizada, abraçaram-se os companheiros do serviço da noite, com respeito e o carinho já edificados uns pelos outros e, sem alvoroço, carregaram para seus lares as tão preciosas palavras de Bezerra.
Na instituição espírita em que se encontravam, entretanto, não havia espaço para descanso.
Agradecido pela generosa cooperação de Ribeiro, Doutor Bezerra, acompanhado dos espíritos Jerónimo e Adelino, deixou o ambiente em prosseguimento das tarefas assistenciais.
- As pessoas na Terra não têm, em geral, a menor ideia do que está acontecendo ao seu próprio redor.
A maioria resume suas vidas em momentos de abastecimento do corpo carnal, de repouso da estrutura física, de ganho material pelas lutas pelo pão de cada dia e do desfrute de certos prazeres, primitivamente vivenciados sem nenhuma expressão de superioridade.
Assim, meus amigos, não se surpreendam se encontrarem esses mesmos irmãos que acabamos de alertar, em atitudes inadequadas tão logo deixem o ambiente da casa espírita.
A estrada do aprendizado é longa e, tanto quanto nós mesmos, eles são os candidatos ao Bem, mas que, de alguma forma, viciaram seus hábitos ao contacto dos prazeres fáceis que o Mal lhes propicia desde muitos séculos.
Precisarei cuidar de alguns compromissos que me esperam e, por isso, libero-os para uma excursão de aprendizado junto aos nossos queridos amigos e, dentro de alguns dias, nos encontraremos novamente na seara de trabalhos espirituais que acabamos de deixar.
Abraçaram-se fraternalmente e, em breves instantes, Jerónimo e Adelino se viam a sós, com o campo de observações aberto para o enriquecimento de suas experiências.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 04, 2018 8:22 pm

- Puxa, Adelino, nosso querido Bezerra foi bastante incisivo no alerta aos companheiros encarnados, não acha?- Bem, meu amigo, tendo em vista a sua costumeira suavidade nos aconselhamentos, sempre velados pela impessoalidade e generalidade, de que se utiliza como uma ferramenta para melhor orientar, parece que, realmente, nossos irmãos encarnados puderam escutar advertências directas, de maneira que, se tiverem ouvidos de ouvir e olhos de ver, entenderão que o momento é de uma importância crucial em suas vidas.
Diria, mesmo, de uma gravidade decisiva.
- É verdade. Pareceu-me a mesma coisa.
Se temos a oportunidade de entender a alma humana, esperemos que nossos irmãos encarnados também aproveitem as alvissareiras notícias e saibam escolher a porta estreita.
- Tomara, meu amigo... tomara seja assim.
- Que tal começarmos observando Alberto?
Afinal, foi através dele que nosso querido doutor pôde trazer as advertências tão precisas, não é?
- Boa sugestão, Jerónimo.
Acho que será muito proveitosa a nossa investigação junto ao médium que nos facultou o espaço para a mensagem do amigo generoso.
Tomaram o rumo da residência do mencionado trabalhador, junto do qual iniciariam as observações gerais.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 04, 2018 8:22 pm

2 - ALBERTO, O MÉDIUM
Alberto possuía um nível de vida bastante confortável.
Era funcionário categorizado de uma grande empresa, exercendo as funções de chefia da área contábil, o que lhe impunha grandes responsabilidades e intrincados problemas.
Espírita desde alguns anos, desenvolvera a mediunidade seguindo o projecto concebido no mundo espiritual, antes de sua encarnação.
Comprometido com erros do pretérito na área da administração de riquezas que possuíra, esbanjando um património precioso ao invés de fazê-lo circular ou de transformá-lo em oportunidades de crescimento para outros, Alberto compreendera a necessidade de trabalhar arduamente na construção do próprio equilíbrio, não sendo mais o detentor de riquezas ilimitadas, mas, sim, administrador da riqueza alheia, ocasião em que poderia, além de aprender a corrigir suas inclinações à prodigalidade, aprender a viver com menos, à sombra dos excessos dos próprios patrões.
Isso porque, aqueles a quem Alberto devia obediência, eram criaturas inescrupulosas e levianas, abusadoras da sorte, gastadoras inveteradas, às quais ele mesmo, como Gerente Financeiro, tinha de conter a fim de garantir a saúde da empresa.
Obviamente, no início de sua empresa, os donos do negócio tinham uma postura adquirida e uma visão comercial mais ampla, porque lutavam para consolidar seus sonhos e ganhar o dinheiro para realizá-los.
Mas depois e terem conseguido construir o empreendimento e obterem significativo sucesso financeiro, imaturos na sua maioria, passaram ao desejo de desfrutar sem maiores cuidados, contando sempre que a época das vacas gordas nunca terminaria.
Por mais que Alberto os alertasse, viam tais advertências como a postura excessivamente cuidadosa, beirando à inconveniência, por parte do funcionário que, a estas alturas, assumira a infausta e difícil tarefa de defensor do património alheio contra a loucura dos próprios donos e seus familiares, tentando adiar ao máximo a derrocada da empresa.
É que, acostumado aos balanços contábeis frios, observando as oportunidades comerciais, o avanço dos concorrentes, a escassez de clientes, o aumento da crise mundial, a diminuição das margens de ganho, o aumento dos tributos, tudo isso se somava para compor o trágico cenário de funestos eventos.
Ao observar a leviandade dos seus superiores, Alberto se irritava.
Vendo como gastavam com viagens, carros, lanchas, festas, o contador se perguntava por que se mantinha ali, sustentando aquela corja de irresponsáveis com o esforço de sua inteligência, de sua competência nem sempre reconhecida por eles.
É verdade que o seu salário compensava tais sacrifícios e era dali que retirava os benefícios para a própria família.
No entanto, imaginava-se como o “dono da empresa”.
Como seria capaz de fazer aquilo crescer, de corrigir os rumos, de modificar as estratégias, de melhorar o rendimento e a produtividade.
Ele sim, com o talento natural de uma inteligência brilhante e uma vontade disciplinada, deveria ser o dono do empreendimento.
Não poucas vezes, a voz sedutora da tentação soou aos seus ouvidos, aconselhando-o a agir de maneira ilícita e, aos poucos, ir tomando a empresa de seus reais proprietários.
Eram os ecos do passado, quando ele próprio exercera a autoridade sobre vastos patrimónios que, então, malbaratara da mesma maneira que os seus atuais chefes o faziam agora.
Os conflitos emocionais e espirituais surgiam como testes em sua nova jornada reencarnatória, possibilitando-lhe a aferição de seus novos valores.
Diante desses desafios morais, porém, a mediunidade lhe fora possibilitada como um farol de sensibilidade a ajudá-lo na compreensão de suas importantes tarefas, além de se tornar um instrumento de amparo aos inúmeros espíritos sofredores que não o haviam perdoado por terem sido suas vítimas, padecendo fome, privações e vergonhas em decorrência do estilo de vida que ele elegera naquelas passadas experiências reencarnatórias.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 04, 2018 8:23 pm

Exercendo a mediunidade já havia mais de dez anos, lutava entre os problemas do escritório, a insensatez de seus superiores e as realidades espirituais que sentia na própria carne, enfrentando as responsabilidades múltiplas com coragem e devotamento.
Graças a tais condutas, o processo mediúnico foi sendo consolidado em bases mais seguras, tornando-se, com o passar dos anos, um médium digno da confiança dos mentores espirituais que o acompanhavam e dele se serviam como ponte para ajudar a muitos outros, encarnados e desencarnados.
Seu comportamento disciplinado e firme, sem se permitir resvalar para o terreno do fanatismo e da aspereza, conquistara a simpatia de vários espíritos que lhe conheciam as lutas e os compromissos, tanto quanto sabiam dos problemas familiares que tinha de enfrentar.
Sim, isso porque, comprometido com os desajustes do passado na área dos excessos, Alberto retomou a roupagem terrena na vida presente comprometido a ajudar sua antiga companheira, Leda, no reerguimento moral, reconduzindo-a ao caminho da rectidão e do equilíbrio.
Dessa forma, desde a juventude ambos se reencontraram para as experiências da transformação dos vícios e, atraídos pelas antigas inclinações e identidade de gostos, consorciaram-se.
Cheios de planos e desejos de felicidade para o futuro, viram nascer dois filhos, que outros não eram do que dois adversários ligados a eles pelos antigos laços do passado faustoso.
No entanto, em que pesassem as naturais carências e dificuldades do início do relacionamento, Leda nunca deixara de ser a mulher ambiciosa de sempre, agasalhando dentro de sua alma as antigas tendências inferiores cultivadoras dos excessos, ambicionando o luxo e a grandeza a fim de que, tão logo seu marido tivesse melhores condições económicas, voltasse a vivenciá-las como quem volta à antiga terra dos prazeres.
Com o crescimento financeiro do esposo, Leda foi deixando aflorar a tendência para as leviandades outrora já experimentadas, passando a exigir melhores roupas, melhores carros, melhores casas, festas, divertimentos, sempre colocando o marido sob pressão, para que tais caprichos acabassem atendidos.
E quando Alberto conseguia conquistar mais e melhores vantagens, como toda boa “adestradora”, honrava o marido com carícias e elogios que visavam alimentar o ego masculino, indicando-lhe que, quanto mais atendesse aos seus pedidos, mais subiria em seus conceitos e ganharia em carinhos.
Envolto em tantos problemas e sentindo as vantagens que lhe concediam o afecto físico da esposa, deixara-se conduzir por tal jogo de interesses, multiplicando esforços para encantar aquela que, depois de suas conquistas, o homenageava com as trocas sexuais estimuladoras a admiração entusiasmada que tão bem lhe caíam.
Com isso, Alberto cooperava para alimentar na esposa os piores sentimentos, os mais superficiais valores e as mais perigosas raízes, justamente aquelas que haviam se comprometido a combater na actual existência.
Leda, depois da estabilidade financeira, assumira definitivamente a posição que lhe caracterizava o espírito imaturo: gastadeira contumaz.
Já não se preocupava tanto com as necessidades dos esposo, nem se empenhava muito em abastecê-lo com carinho. Preferia o talão de cheques e o passeio pelas lojas.
As conversas fúteis com as amigas de igual padrão, gastando horas no comentários de tolices e fofocas ácidas marcavam, indelevelmente, o vertiginoso caminho que construía na direcção do abismo.
Alberto via-se vitimado pela própria incúria.
Seu trabalho profissional era o penoso esforço para salvar o navio empresarial do naufrágio, e sua casa, que poderia corresponder-lhe ao porto de paz e segurança, era um outro navio que navegava sem rumo.
Os dois filhos, herança de seus desmandos de outra vida, eram duas fontes de problemas incessantes.
Robson possuía a alma comprometida com as facilidades experimentadas no passado, quando viciou a vontade na vida faustosa e aproveitadora.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 04, 2018 8:23 pm

Seu carácter defeituoso fora talhado pelas facilidades do dinheiro com que seu antigo pai, o mesmo de agora, lhe facilitava sem quaisquer responsabilidades.
Tornara-se, assim, exigente e irresponsável, tiranizando as pessoas e comprando-as para que realizassem seus desejos.
Isso se reflectiu na nova oportunidade terrestre, aliando-o ao carácter semelhante de sua mãe.
Por isso, Robson e Leda eram companheiros de aventuras e esbanjações, cada qual na sua esfera de condutas.
Eram muito afinizados e se apoiavam mutuamente, tornando-se verdadeiros cúmplices.
Já o filho mais novo, Romeu, houvera sido, igualmente, antigo membro da mesma família, reencarnado como ovelha perdida e que deveria ser reconduzida ao redil da virtude pelos mesmos que facilitaram a sua queda moral.
Renasceu, portanto, sob a protecção e cuidados dos maiores culpados pelos próprios desvios, Alberto e Leda.
Só que o seu problema era bem diferente do que rondava o carácter de seu irmão.
Romeu havia viciado o centro da sexualidade pelos excessos de seu exercício no passado.
Graças às facilidades financeiras de então, entregara-se a todo tipo de prazer físico que o dinheiro poderia comprar e tornara-se um dependente de sua prática.
Mal gerenciando as emoções, que poderiam lhe possibilitar imensa felicidade se canalizadas para as verdadeiras construções do sentimento, Romeu deixou atrás de si um caminho sulcado de vítimas.
Mulheres abusadas, crianças abandonadas à própria sorte, outras mortas no útero materno, moças abandonadas e entregues à miséria, belos rapazes que lhe serviam também ao saciar das ansiedades físicas, desajustes morais de todos os tipos tinham sido gerados por ele.
Um sem número de algozes invisíveis passaram a persegui-lo antes mesmo que o seu antigo corpo baixasse à sepultura.
Perturbara-se o raciocínio devido às visões desnorteadoras e horríveis, periclitando o equilíbrio e, por fim, precisando ser separado da família e colocado em instituição que, na verdade, isolava o alucinado, sem nada fazer a seu benefício, liberando os parentes do incómodo que sua presença causava.
Leda e Alberto também tinham compromissos profundos com seu espírito que, naturalmente, renasceria com os vincos das antigas mazelas morais, carregando em psiquismo a tendência para a sexualidade exacerbada.
Desde a adolescência, Romeu se transformara em uma fonte de sofrimentos para os pais.
Suas condutas fora de casa os envergonhavam, e seus relacionamentos precisavam ser severamente policiados para que não redundassem em tragédias.
Sem as bases seguras da fé, sem os conceitos claros da espiritualidade, Leda e Alberto, ainda jovens, não imaginavam o tamanho das dores que teriam de enfrentar como efeitos de suas pretéritas escolhas.
Nem Robson nem Romeu haveriam de ser fontes de felicidade para pais que sonham com uma prole equilibrada e harmoniosa.
Assim, nesse panorama de confusões, a sensibilidade de Alberto surgiria, no tempo oportuno, como o farol espiritual que, suportando o peso de seus erros, teria condições de iluminar a todos os seus entes mais queridos:
Leda, como companheira leviana, a solicitar sua paciência e seus esclarecimentos sobre as realidades superiores do espírito; Robson, como filho irresponsável, carecendo de medidas amorosas e disciplinadoras que o conduzissem ao trilho do trabalho, e Romeu, como o mais desditoso de todos, a precisar de maior amor, paciência, energia e amizade, encarado mais como um doente do espírito do que como um sem-vergonha ou devasso.
Assim, não eram pequenos os desafios de Alberto que, se não contasse com a possibilidade do intercâmbio mediúnico e da protecção generosa dos amigos que o cercavam, certamente teria aumentados as próprias dores morais diante de tamanho desafio.
Porque, em verdade, nenhum de seus companheiros de equívocos de ontem estava disposto a modificar seu hoje para preparar seu amanhã.
Apesar de terem organizado o regresso ao corpo carnal para uma reencarnação de desafios e reformas, com excepção de Alberto, todos eles estavam de volta aos velhos vícios, que preferiam, ao invés de escutar as advertências e conselhos do marido e pai.
Era esse, em resumo, o drama que Jerónimo e Adelino iriam conhecer melhor ao adentrarem aquele móvel de excelente aparência, de vastas proporções e, de verdade, um grande e luxuoso vazio.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

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3 - AS DORES MORAIS DE ALBERTO
Quando chegaram à residência do médium, encontraram-no sentado à mesa da cozinha comendo um breve lanche na companhia dos próprios pensamentos.
Ninguém esperava por ele ou compartilhava sua presença.
Leda já havia se deitado, depois de um dia de passeios e gastos.
Robson também não estava em casa, ausência essa justificada pela ida à faculdade que, de verdade, era a desculpa para suas diversões nocturnas, na companhia de amigos doidivanas.
Romeu, o filho mais novo, despreocupado também com a indispensável formação profissional e intelectual, consumia os recursos do pai em aventuras nocturnas repetidas, considerando-se adulto o suficiente para escolher a forma pela qual gastava sua juventude.
Alberto, ainda elevado pelas doces vibrações de Bezerra de Menezes, não contava com ninguém com quem dividir as notícias, os alertas e os ensinamentos recebidos na reunião espiritual da qual acabara de chegar.
- Puxa vida – pensava o solitário -, quantas coisas lindas e importantes para nosso crescimento e, veja só, não há ninguém por aqui com quem dividir tudo isso.
Quem sabe Leda ainda esteja acordada.
Pensando em trocar algumas palavras com a esposa de tanto tempo, deixou a cozinha e dirigiu-se ao quarto, onde a mulher, entediada pelo nada de útil que fazia, perdia-se entre algum programa de televisão, uma ou outra revista de moda e os pensamentos sem rumo elevado.
Ao ouvir o ruído de Alberto que chegava, fingiu estar dormindo para que o marido não se animasse muito em lhe falar sobre assuntos espirituais, como era sempre seu esforço nas noites em que chegava do centro.
Entrou no quarto com cuidado, justamente para não assustar a esposa distraída e observou que a mesma ressonava, sem imaginar que aquilo era puro teatro.
Dirigiu-se ao banheiro, fez a higiene nocturna tomando um banho rápido, vestiu-se para dormir e recostou-se ao lado da esposa indiferente.
Com a sua chegada, Leda ensaiou alguns movimentos como que indicando o seu despertamento.
- Ah, querido... É você?
Peguei no sono enquanto assistia a um filme...
nem percebi você chegar...
- Sim, Leda, sou eu.
Como foi o seu dia? – perguntou Alberto, desejando demonstrar interesse por ela, com a finalidade de puxar assunto.
- Ah! Sem novidades...
Tudo como sempre...
- Sim, querida, então isso significa passeios pelo shopping, compras e encontros com as amigas, não?
- Ora, Alberto, que mal há nisso?
- Nenhum, querida. Nenhum mal.
Todavia, também não há nenhum Bem para você.
O tempo é precioso instrumento em nossas mãos e, através da sua administração, produzirá frutos que atestarão a qualidade dos que o manipulam.
- Lá vem o seu sermão de sempre... – repetiu a esposa, fingindo cansaço.
- Sabe, Leda, cada dia que passa é um dia a menos na vida.
Você já pensou que, para nós, a morte está cada vez mais próxima?
- Querido, está tarde pra gente conversar sobre isso.
Que tal amanhã?
- Não há problema, Leda.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 04, 2018 8:24 pm

Poderemos conversar sobre isso e outras coisas amanhã também.
Todavia, acho que você tem contado muito com o amanhã, e nem sempre ele estará garantido para nós.
A vida significa compromisso de crescimento e não estação de descanso e prazer.
E sua existência tem sido um completo desperdício em relação ao aproveitamento do tempo na construção de algo novo e melhor para sua própria alma.
Acredita você que no mundo espiritual existirão shopping centers?
Porventura crê que lá haverá espaço para o fingimento dessas reuniões de esnobação e mentiras que tanto a atraem?
Sabe qual será a posição que espera pelos que nada constroem para si mesmos no mundo enquanto podem fazer o Bem e não o praticam?
- Alberto, você está muito tétrico para quem se prepara para dormir, querido.
- Nossa vida, Leda, está se tornando um fardo muito pesado sem que você e nossos filhos o percebam.
Temos tido grandes recursos que nos garantem um conforto relativo, mas como o temos administrado?
Nossos dois filhos estão se perdendo sem que você se dê conta e sem que eu consiga ajudá-los de alguma maneira.
Já tentei conversar com ambos, mas, escudados em sua cumplicidade, Robson ri de minhas advertências e Romeu, que as escuta, parece hipnotizado, vitimado por forças terríveis.
Sei que o primeiro finge estudar e consome os valores da faculdade com arruaças e viagens.
Enquanto isso, Romeu, de quem você bem conhece os problemas sexuais que carrega, foge daqui e se desgasta na má companhia.
Nunca vi, no entanto, qualquer palavra sua no sentido de ajudá-lo a sair desse emaranhado.
Vendo-se frontalmente cobrada, Leda empertigou-se e partiu para o ataque.
- Alberto, passando o tempo todo fora como você passa, como é que pode ajuizar sobre minha conduta em relação aos meninos?
Por acaso não aprendeu nessa sua religião que não devemos julgar os outros?
- Não se trata de julgamento, Leda.
Estou falando sobre factos.
Então, diga-me quais são as notas de Robson?
Onde Romeu está neste momento?
Sem saber o que responder, Leda avermelhou-se de contrariedade, mantendo-se calada para não explodir, como era de costume.
- Seu silêncio é um depoimento verdadeiro sobre sua conduta.
- Você também não sabe, Alberto – respondeu, por fim, acusando-o, na falta de outra defesa melhor.
- Sim, Leda, eu reconheço que também não posso responder afirmativamente a estas indagações.
E se as lanço a você neste momento, não é para acusá-la, mas, ao contrário, para reflectirmos juntos sobre nosso estilo de viver.
Eu também venho me perguntando sobre isso e, infelizmente, acuso-me pela omissão em orientar cada um deles.
No entanto, tão grandes têm sido nossos gastos e considerando que sou a única fonte de recursos que nos abastece, não possuo outra forma de fazer as coisas andarem melhor, já que o trabalho me consome por completo.
- É, mas você tem tempo para ir no centro espírita... – comentou a esposa, irónica.
- Minhas tarefas espirituais estão vinculadas aos compromissos que pesam sobre mim e, certamente, sobre nós, já que não é por acaso que estamos juntos e recebemos estes dois espíritos como filhos.
Além do mais, você se esqueceu das inúmeras crises que me acometiam anos antes?
Gritos nocturnos, dores variadas, alucinações...
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:15 pm

- Deus me livre, Alberto, nem fale... cada noite era um filme de terror.
- Então, Leda.
Desde que comecei o tratamento espiritual, tudo se acalmou, não foi?
- É, olhando por esse lado, é verdade.
- Pois então, o centro espírita, no meu caso, é como um pronto-socorro, uma quimioterapia moral de que minha alma necessita para manter-se em serenidade.
E se vou sozinho é porque você mesma nunca desejou me acompanhar.
Sempre a convidei, tanto quanto aos meninos.
- Morro de medo de ir “nesses lugares”.
- Você acha que eu iria levá-la em algum local que não fosse adequado?
Se a convido para ir a uma festa, você não questiona em que lugar ela será.
Se falo para irmos às compras, você não titubeia em aceitar, mesmo sem saber onde é.
Se falo que sairemos em viagem de passeio, você é a primeira a estar arrumada, sem questionamentos sobre o destino.
Então, Leda.
Não haveria de confiar que o seu marido não a levaria em ambientes impróprios?
- É mais uma questão de medo, Alberto.
Tenho muito receio desse negócio de “espíritos”.
- Compreendo, querida.
No entanto, não lhe espanta o facto de eles estarem por aqui, actuando sobre todos nós, não é?
Não lhe espanta o facto de fazerem de cada um de nós um joguete que tangem de um lado para outro, sem que nenhum de nós oponha resistência, não é?
- Como assim? – perguntou a esposa, intrigada.
- Ora, Leda, cada um que está na Terra é um ser que influencia e é influenciado por tudo o que está a sua volta.
Aceitamos as boas ou as más companhias que se afinizam connosco.
E se nossos actos e pensamentos não são elevados nem úteis no Bem, que realizemos, atrairemos somente espíritos ociosos e inferiores para estarem connosco.
A essa altura, Alberto recebia uma tal inspiração do Espírito Jerónimo que, apesar de não estar em transe mediúnico como acontecia no centro espírita, era integralmente controlado pelo pensamento firme do companheiro invisível, para que transmitisse o chamamento à irmã, que lhe fazia o papel de esposa novamente, com a finalidade de que ela, convocada à razão, ao bom senso, de maneira fraterna e sem exigências, saísse da morte e voltasse à vida.
- Os espíritos sabem de tudo, Leda.
Sabem, inclusive, que você se faz de adormecida todas as noites quando chego porque não querem que escute certas notícias do mundo espiritual, como aconteceu hoje.
A mulher teve um sobressalto e sentiu um calafrio percorrer-lhe todo o corpo, tal o impacto das palavras firmes de Alberto/Jerónimo que, ao serem pronunciadas, eram verdadeiros jactos luminosos endereçados aos seus centros de energia.
Ao tocarem esses pontos sensíveis, penetravam fundo em sua estrutura espiritual, queimando miasmas deletérios que se juntavam em excesso nas vibrações dela, produzindo aquela sensação de calafrios generalizados.
- Sabem que, hoje, você saiu com aquela mulher leviana, caluniadora e perigosa a respeito de quem já a alertei.
Sabem que vocês duas estiveram em um salão de beleza cheio de mulheres de igual inclinação, todas muito bem vestidas por fora, mas verdadeiras bruxas espirituais.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:16 pm

Falaram mal da pobre Clotilde, que se afastou do círculo de amizades depois da enfermidade do marido.
Disseram que ela não seria mais aceita no grupo depois que o esposo “passasse desta para pior” porque a consideravam traidora pelo facto de privilegiar o companheiro, agora na fase terminal da doença, em detrimento das reuniões do seu grupinho.
Leda ia arregalando os olhos e se sentando na cama, assustada.
- Você anda me seguindo, Alberto?
Que coisa mais baixa...
- Não, Leda, eu estou trabalhando o dia inteiro para garantir a você a vivência nesse lodaçal moral na companhia dessa infeliz Moira, mulher sem escrúpulos, apesar de ser a mais admirada entre as que se igualam nos círculos de leviandade dos quais você está participando.
Se falo assim, com tal convicção, esteja certa de que é porque Espíritos Amigos sabem por onde você tem andado e o que tem feito.
E se isso não for verdade, proteste, diga que não é assim.
Leda ia dizer alguma coisa, quando ouviu o complemento:
- E se você insistir em negar, o mundo espiritual pode continuar contando com clareza todos os detalhes da conversa ocorrida na sauna do clube.
O assunto masculino, as observações sobre os corpos dos rapazes...
Fulminada pela própria consciência, e reconhecia a precisão de todos aqueles factos, Leda controlou-se e, contrariadíssima, preferiu indignar-se em silêncio.
- Tudo tempo perdido, Leda.
Em nossa reunião de hoje, Dr. Bezerra nos alertou para a hora difícil pela qual estamos todos passando.
Hora de selecção, momento de mudança, de sintonia moral que definirá que rumo tomaremos.
Alertava-nos para as dores que se aproximam, tanto do colectivo quanto do individual a fim de que estivéssemos preparados para suportar os golpes e não mergulhássemos no desespero.
Pensa você que não a quero como antes? Está enganada.
Quero-a como outrora.
No entanto, me entristece ver o seu descaso com as coisas elevadas, consigo mesma, e o dos meninos com seu destino, como se suas vidas estivessem resumidas a aventuras radicais e a orgias da pior espécie.
Não temos mais muito tempo para superar nossas deficiências.
A Terra está em reforma, querida, e os que não se adequarem aos novos padrões sofrerão muito e, provavelmente, não poderão aqui permanecer.
Nada do que dissermos irá impedir que o evento renovador nos colha no caminho.
Melhor, portanto, que nos preparemos para ele.
Já imaginou se perdêssemos tudo? Se nos víssemos doentes?
Se estivéssemos como o marido de Clotilde ou como a própria, sobrecarregada com a dor do esposo e, ainda por cima, ridicularizada por suas falsas amigas?
Quando foi que você ou Moira a visitaram lhe estendendo a mão solidária para saber se ela precisava de alguma coisa?
...
Nunca!
...
Tudo isso demonstra o seu despreparo para entender o que significa a dor alheia e sinaliza para o tamanho da tragédia que ocorrerá quando o sofrimento se fizer dentro de nossas próprias fronteiras familiares.
Afastando-se de Alberto, Jerónimo deu por encerrada a influenciação directa que exercia sobre o médium para que, agora livre dos pensamentos suscitados, pudesse restabelecer nas vibrações cerebrais visando o descanso nocturno.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:16 pm

No entanto, todas as palavras que o médium pronunciava, vinham tingidas pelas emoções de marido infeliz, de pai fracassado e de home atemorizado pelas consequências de suas atitudes.
Ele também se penitenciava por ter escolhido aquele padrão de vida, tentando fazer com que os seus entes queridos não tivessem de enfrentar os dissabores de uma vida de dificuldades e trabalhos.
Ele se reconhecia igualmente culpado pelo novo insucesso de seus tutelados carnais.
No entanto, estava tentando ajudar como podia, alertando os que amava que, em verdade, mais pareciam zumbis que usavam corpos de carne apenas para privarem dos gozos do mundo.
- Leda – disse, ele, finalmente -, desculpe se a molesto com esses assuntos mas, em verdade, o faço considerando que o maior culpado disso tudo sou eu mesmo.
Minha conduta como esposo e como pai, procurando protegê-los das dificuldades, empurrou-os para a ociosidade e a superficialidade onde eu também estava e estaria, não fosse a mediunidade que me convocou para uma outra realidade espiritual.
E se me animo a lhe dizer sobre isso tudo, longe de mim desejar recriminar em você o que vejo abundante em mim mesmo.
Faço-o por amor sincero, uma vez que a sua felicidade, que eu sempre busquei construir, significará a minha própria e eu nunca seria venturoso, ainda que Deus me reservasse um lugar no Paraíso, vendo você e os meninos em aflições atrozes.
O tom de voz de Alberto era tão sincero, e as lágrimas que lhe escorriam do rosto tão emotivas, que Leda também começou a chorar.
Pouca sinceridade havia em suas lágrimas, no entanto.
Chorava por ser mulher e, assim, estar mais acostumada a liberar emoções, impulsionada pela emoção do desabafo do marido.
No entanto, no seu interior, tudo o que Alberto lhe falara era atribuído à lavagem cerebral que ele estaria recebendo lá no centro espírita onde trabalhava.
Deixaria que falasse, mas, no fundo, a vida que mais a agradava era aquela que levava, e a amiga Moira era o modelo que elegera para servir de referência.
Nada modificaria isso dentro dela.
Alberto se acomodara para dormir, sentindo-se uma uva seca e enrugada, infeliz e decepcionado consigo mesmo.
No entanto, agradecia a Deus pela oportunidade de falar à companheira e, quem sabe, plantar em seu coração uma semente que viesse a germinar um dia, ainda que na inclemência da angústia moral, da carência material ou da enfermidade cruel.
No entanto, com os filhos, tudo estava muito mais difícil para ele.
Jerónimo e Adelino estavam emocionados com o testemunho de Alberto, com a humildade de suas palavras ao reconhecer suas próprias faltas, e com o seu entendimento de que, apesar de inadequadas e nocivas, as escolhas de sua esposa e filhos deveriam ser respeitadas.
Envolvido pelas mãos amigas de Adelino, Alberto adormeceu, depois de secar as lágrimas copiosas que molharam o seu rosto naquela noite.
Ao mesmo tempo, Jerónimo impôs sua destra sobre a consciência esfogueada de Leda que, premida por tudo o que ouvira, agora era quem tinha dificuldade em dormir.
No entanto, sob o influxo constante do Espírito amigo, pouco mais tarde Leda se viu fora do corpo para uma nova conversa com a nobre entidade que acompanhava o esforço de Alberto na construção de um novo destino.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:16 pm

4 - O SUSTO DE LEDA
A saída do corpo, da esposa de Alberto, foi muito interessante.
Acostumada a cultivar as leviandades e a perder as oportunidades das horas, Leda havia se acumpliciado a um grande grupo de entidades infelizes que a aguardavam todas as noites para as festinhas sociais, para os encontros inúteis que se reproduziam do outro lado da vida, na continuidade nocturna dos embalos desenvolvidos pelas pessoas em suas rotinas do dia.
Jerónimo, que a assessorava directamente sem que fosse por ela identificado, vislumbrava seu triste estado vibratório, sem nenhum sentido de repulsa ou reprimenda.
Acostumado aos meandros da alma humana, o Amigo Espiritual estava categorizado para retirar do atoleiro as criaturas que para isso se inclinassem usando, como meio de convencimento, a conscientização acerca da malignidade do lodaçal aonde se metiam.
Assim, tão logo Leda deixou o envoltório carnal, foi recebida pelos sócios da insensatez.
- Puxa, madame, pensávamos que fosse gastar mais tempo dando ouvidos a essas tolices que seu marido lhe dizia, desperdiçando uma noitada tão promissora como a que nos aguarda – falou-lhe, sagaz, um espírito galhofeiro da pior espécie, astuto na técnica de conseguir o controle das emoções dos encarnados através da hipnose subtil.
- Eu também estava incomodada com aquela conversa.
Mas o bobão estava tão carente, precisando de atenção, que não quis interrompê-lo.
Mas estou pronta como combinado para nosso compromisso, Filomeno.
- Ainda bem, porque a Baronesa não gosta de esperar e está impaciente com a sua demora.
- Moira estará lá também?
- Ora, como não?
Ela é das primeiras que chegam e das últimas que saem.
- Puxa, que bom... então, vamos logo.
Tomando o rumo do encontro no plano espiritual inferior, Jerónimo a seguiu, deixando Alberto aos cuidados de Adelino, que o encaminharia de volta ao Centro Espírita onde os trabalhos da noite teriam prosseguimento com o atendimento de uma multidão de almas aflitas.
Graças à acção magnética da entidade amiga que os acompanhava invisivelmente, Leda recebera um estímulo vibratório para melhor identificar o ambiente aonde se metia e o tipo de companhia à qual se filiava.
Assim, depois de alguns minutos de trajecto, chegaram a um grande galpão que, aos olhos das entidades inferiores que lá se encontravam, era a expressão do luxo máximo que um péssimo e exagerado gosto por extravagâncias edificaria.
Grupinhos de todos os tipos, com vestes esdrúxulas e ridículas, a destacar-lhes os defeitos morais, podiam ser vistos por todo o salão.
Aquilo era a continuidade das reuniões sociais da casa humana, com a diferença de que, se na vida física as roupas e os perfumes poderiam disfarçar as horrendas aparências da alma, ali as coisas eram bem diferentes.
Aos olhares de qualquer entidade mais evoluída, aquilo era o verdadeiro circo dos horrores, espécie de sanatório onde os doentes viviam seus personagens imaginários, cada qual procurando trajar-se para igualar-se ou imitar os que admiravam ou pensavam ser.
Até àquela data, vitimada pela hipnose das entidades negativas que a controlavam, Leda não havia notado nada de anormal.
Entretanto, na presente excursão nocturna, a lucidez faria toda a diferença.
Ao chegarem, a esposa de Alberto perguntou a Filomeno:
- Mas... meu amigo... que pardieiro é esse em que você me traz hoje?
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:17 pm

- Ora, como assim?
Todas as noites temos vindo para cá e a madame sempre desfrutou até se esgotar?
- Mas é que, pelo que parece, hoje deixaram entrar a ralé...
- Não, madame. Hoje estamos todos os de sempre.
- Não me diga... – falou Leda, horrorizada.
Todas as noites o negócio é desse jeito?
- E por que seria diferente?
Olha... lá está a baronesa...
Não está linda?
Ao falar, Filomeno apontou para o outro lado do salão onde uma entidade avantajada se sobressaía ao olhar dos que a circundavam.
Vamos até lá... – disse o condutor, puxando o braço de Leda.
- Baronesa, baronesa – falou ele -, por fim aquela que está faltando chegou.
- Já não era sem tempo, querida – respondeu Moira, cuja aparência lembrava a das bonecas de porcelana, com assustadora e horrorosa maquiagem, e o corpo se confundindo com o de um espantalho amarrado pela cintura.
Leda não sabia o que dizer.
A acção magnética de Jerónimo sobre sua mente permitia-lhe, agora, vislumbrar o verdadeiro e grotesco espectáculo do qual fazia parte todas as noites, atendendo aos chamamentos dos espíritos com os quais se afinizava.
Lá estavam as amigas das rodinhas sociais, as cultivadoras da moda, as criticadoras da vida alheia, as bonecas e os bonecos do mundo, preocupados com as aparências e as últimas fofocas, cegos para a própria condição.
Ali se contorciam, em coreografia rara, os membros de uma sociedade corrompida pela futilidade e pelos prazeres, as medíocres criaturas que se deixaram arrastar pelos gozos da matéria e que, durante a emancipação da alma, continuavam atraídos pelos mesmos padrões, discutindo as tendências da moda, falando sobre as influências do corpo esbelto e escultural, aproveitando a companhia de outros devassos para se embrenharem no jogo de seduções.
Jerónimo acompanhava Leda que, apavorada, agora não sabia o que fazer.
- Mas, Filomeno... – insistia ela-, deve ter alguma coisa de errada por aqui hoje.
- Claro que não, madame...sempre estamos aqui reunidos.
Por que o espanto?
- É...É que... parece a primeira vez que venho neste lugar – respondeu a mulher, titubeante.
- A senhora está redondamente enganada.
Além disso, sempre apreciou o nosso baile e é reconhecida aqui como uma das mais exímias dançarinas.
Veja quantos estão esperando pela honra de tê-la nos braços.
Viu Leda, então um cortejo de entidades masculinas a sorrirem, desdentadas, caveirosas, repugnantes, fazendo poses másculas com os ossos, exibindo músculos inexistentes, empenhadas em se verem eleitos por aquela que era conhecida como a rainha da noite.
- Eu?
- Ora, madame, não seja modesta... isso não combina com o seu “modelito”... – disse Filomeno dando-lhe uma leve cotovelada.
Esse aí que a senhora está usando, oras.
Como se fazer de modesta com uma roupa que contraria seu discurso de humildade e discrição?
Vocês, mulheres, defuntas ou não defuntas, sempre se fazendo de desentendidas...
Leda nem suspeitava como é que estava vestida.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:17 pm

Filomeno arrastou-a, então, para uma das paredes do ambiente na qual havia pendurado um grande espelho onde pôde mirar-se, assustada.
Sua figura era de impressionar.
A roupa era uma mistura de púrpura veludosa com dourados esfuziantes, mas que, diante da lucidez daqueles momentos, com os próprios olhos mais abertos para verdade, pareciam andrajos de vestes da nobreza.
Ao mesmo tempo, certas áreas do corpo eram desnudadas, facilitando a exteriorização de partes que se insinuavam na atenção dos que a assistiam nos rodopios do baile, provocando a cupidez e a luxúria.
Sua figura, porém, era a de cortesã de séculos passados que bailava qual fantasma, travestida de uma nobreza corroída.
Ao vislumbrar o seu real estado, Leda deu um grito de horror, assustada com a própria forma, interrompendo as conversas do salão e causando surpresa nos próprios amigos de alucinação.
Sem saber o que estava acontecendo, abandonou a companhia de Filomeno e desabou numa correria pelo ambiente à procura da porta de saída, causando furor em todos os que, sem entenderem o que acontecia, tentavam contê-la ou segurá-la de alguma forma.
Leda, agoniada, procurava voltar em desespero ao corpo carnal e o seu acompanhante não tinha como evitar essa fuga.
Jerónimo, que a mantinha sob sua influência directa, envolveu-a com suas forças e retirou-a daquele ambiente, mas sem impedir que as imagens que lhe haviam ferido a retina espiritual fossem desfeitas.
Precisava que Leda se mantivesse horrorizada consigo própria, visando alertá-la para as coisas erradas que estava fazendo, e para a vida desperdiçada que se erguia diante dela como o rompimento dos compromissos assumidos com o Bem e, igualmente, com a repetição do Mal.
Mais alguns minutos e a mulher de Alberto conseguia despertar no leito, envolvida pelos esgares e sufocamentos próprios dos que passam por pesadelos e não conseguem despertar prontamente.
Agitada, permaneceu por alguns instantes sem conseguir articular a voz.
Seu corpo exsudava abundantemente, molhando sua roupa de dormir.
Sua tez esbranquiçada indicava a alteração circulatória em resposta à produção hormonal descontrolada decorrente do imenso susto suportado.
Olhou para Alberto que, virado do outro lado, dormia sem nada perceber.
Não sabia o que fazer.
Tinha medo de acordá-lo e contar o que lhe havia acontecido, porque temia isso fortalecesse as razões do marido acerca de sua conduta irreflectida.
No entanto, não conseguia esquecer a aparência de Moira, aquela cuja figura mais a impressionara e a quem tentava imitar com tanto empenho.
Leda procurou, então, sair do leito devagar, porque o corpo tremia em frémitos incontroláveis.
Foi ao banheiro apoiando-se nas paredes e sentou-se em confortável poltrona para não cair, tratando de acender as luzes do ambiente para que a escuridão não viesse a atormentá-la ainda mais.
Tudo estava confuso em sua mente e a influência de Jerónimo continuava a se fazer sentir, destinada a fazer com que ela, no fundo de si mesma, escutasse o alerta, antes que fosse tarde demais.
Resolveu tomar um banho tépido valendo-se de confortável banheira.
Depois de uns quarenta minutos, estava fisicamente refeita, mas sua consciência desperta lhe dizia que a experiência fora muito intrigante.
- Isso deve ser coisa de Alberto com esses assuntos de Espiritismo antes de dormir.
Claro, fica me assombrando com notícias ruins, temas sofridos, dores e etc., que acaba atraindo essas mesmas coisas pro nosso lado.
E olha só o folgado, dorme como um bebé!
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:17 pm

Ele é que deveria estar suportando tudo isso.
Amanhã vou lhe falar para que não me venha mais produzir pesadelos de encomenda.
Não quero esses assuntos antes de dormir.
Se ele quer ir nesses lugares, ele que não traga pra casa esses fantasmas.
O pensamento de Leda não cedia aos bons conselhos e, ao invés de vestir a carapuça nela própria, procurava um meio de fugir, atribuindo ao marido ou aos espíritos a culpa pelo pesadelo.
Entretanto, em sã consciência, não poderia dizer que não havia auxiliada e ajudada a acordar para as próprias realidades.
O destino saberia surpreendê-la com pesadelos reais, que não lhe deixariam qualquer dúvida nem lhe permitiriam atribuir ao esposo ou aos espíritos as responsabilidades que eram somente dela.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:17 pm

5 - NO CENTRO ESPÍRITA
Acompanhado por Adelino, Alberto regressou à instituição espírita da qual era membro activo, assim que se viu desligado da roupagem carnal.
Quem, pela óptica espiritual, pudesse vislumbrar o prédio onde se realizavam os trabalhos assistenciais à luz da doutrina cristã codificada por Allan Kardec, certamente se sentiria admirado pela intensidade das tarefas ali desenvolvidas.
Se durante o trabalho rotineiro de atendimento das necessidades dos encarnados a instituição era de porte reduzido comparada às igrejas de outras religiões, no plano do mundo invisível era verdadeira colmeia de atendimentos variados.
Núcleo luminoso, que guardava o recurso da Esperança pela vivência e difusão da Boa Nova, era nele que inumeráveis entidades espirituais encontravam o consolo da compreensão de suas novas realidades ao regressarem da vida física ao mundo da Verdade.
A atmosfera de intensa vibração no Bem atraía, qual foco luminoso procurado por seres nocturnos, uma verdadeira romaria de espíritos confundidos, desarvorados, cansados de lutar em uma dimensão tão estranha, para a qual não se haviam preparado.
Carregavam as marcas perispirituais de uma vida dissoluta, de gastos energéticos em atitudes de baixo padrão, de ideias fixas de carácter obsidiante.
Era o triste cortejo dos iludidos da Terra, agora defrontados por uma realidade insofismável, aquela que se estampava não somente aos seus olhos, mas representava o próprio ar que respiravam.
Por outro lado, havia as entidades violentas, que viam a instituição como perigoso enclave no reino das sombras.
Junto aos homens, tais espíritos lutavam para manter e governar, o que lhes rendiam constantes ataques directos ou disfarçados, exigindo dos responsáveis espirituais o zelo vigilante, as atitudes defensivas com as quais garantiam a integralidade vibratória da instituição.
Por se tratar de uma casa religiosa séria, com seus objectivos lastreados no bem desinteressado de todos quantos ali chegassem, havia construído ao longo dos anos uma atmosfera protectora que, qual escudo de forças enobrecidas a envolvia por completo, tanto quanto aos que nela trabalhavam, durante os períodos de actividade que desempenhavam em seu interior.
Assim, muitas entidades perseguidoras deixavam o contacto directo de seus perseguidos por se recusarem a acompanhá-los aos trabalhos benemerentes que, devotados e decididos, realizavam em favor dos aflitos.
Não lhes restava, então, outra opção a não ser a de permanecerem nos limites vibratórios exteriores, no aguardo do regresso de suas vítimas encarnadas.
Além disso, várias caravanas de espíritos enobrecidos no Bem partiam daquele núcleo e se endereçavam a todos os lados, levando socorro a diversos lares e a inumeráveis pessoas cujos pensamentos ou solicitações eram captados, tendo seus casos encaminhados e os tratamentos realizados pelos invisíveis servidores do Bem mais próximos de suas necessidades.
Amplo centro de comunicações interligava a instituição religiosa terrena aos níveis espirituais superiores aos quais se vinculava de tal maneira que, partida da Terra, uma oração sincera que chegasse aos páramos astrais era recebida, avaliada pelo serviço de triagem específico e, muitas vezes, remetida àquele centro espírita para que seus dirigentes atendessem aos reclamos ou às dores de seu emissor, caso ele se localizasse na região que lhe correspondia atender.
Desta forma, o serviço de comunicações espirituais era uma verdadeira usina de trabalho a interligar os planos superiores e inferiores numa rede de mensagens instantâneas, documentos complexos, fichas de serviço e de méritos, ensejando os diversos tipos de atendimento daí decorrentes e, por isso, a formação de equipes variadas para levar os recursos aos muitos que necessitavam de alento.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:17 pm

Isso tudo sem se falar das que, reunindo coragem e devotamento, se embrenhavam além, excursionando pelas regiões mais densas em busca dos aflitos e rebeldes, dos vingadores empedernidos, das entidades que se haviam cristalizado no ódio contra os que lhes haviam sido algozes do passado, tentando levar-lhes gotas de compaixão carinho e amizade para ver se logravam diluir neles o mal ou o ódio arraigado.
Tais caravaneiros eram mensageiros de paz endereçando-se aos campos de conflito, verdadeiros padioleiros que se arrastavam por entre os petardos mentais de ódio para acender um raio de luz ao coração das vítimas e agressores, misturados numa grande pasta de alucinação e crime.
O núcleo central de todas estas tarefas se localizava na instituição física, na qual os trabalhadores encarnados eram a pequena parte visível, como se uma imensa pirâmide invisível colocada de pernas para o ar tivesse apenas o seu vértice principal a tocar a terra materialmente, sustentando as arestas invisíveis que se abriam na direcção do Céu como um gigantesco guarda-chuva invertido.
Pequeno ponto materializado no mundo físico a servir de apoio para toda a imensa estrutura invisível que se erguia no rumo da Vida Verdadeira.
As lições do Evangelho, nos estudos rotineiros ou nas palestras públicas se transformavam em pregações majestosas, nas quais não se ouviam apenas os ensinos que brotavam da boca de algum orador ou expositor de boa vontade.
Junto dele, mentores espirituais dirigiam ensinamentos aos diversos núcleos de trabalho que mantinham ligações específicas para ajudarem, de acordo com as necessidades colectivas mais marcantes, no desempenho de suas tarefas específicas.
De igual sorte, os grupos de apoio à mediunidade construtiva assemelhavam-se a poderosa usina de forças na qual os elementos magnéticos, activados nos corpos físicos e espirituais, favoreceriam a ocorrência de um sem número de fenómenos importantes para o esclarecimento das sofridas entidades, ainda quase tão materializadas no pensamento quanto à época em que ostentavam um corpo carnal.
Grande número de entidades desencarnadas não tinham noção de seu estado nem das condições de seu corpo perispiritual.
Por isso, exigiam de seus tutores e enfermeiros esforços intensos para que recuperassem a lucidez ou compreendessem um pouco das realidades novas, no que eram muito ajudadas pelos processos da mediunidade.
Vários imaginavam ter enlouquecido ou se acreditavam sob algum tipo de alucinação.
Outros negavam a evidência do decesso orgânico, agarrando-se à esperança de ainda pertencerem ao mundo material, falando para si mesmos que se encontravam no meio de um pesadelo do qual acabariam por acordar a qualquer momento, isso sem falar-se dos que se impregnavam de ideias fixas, criando cenários mentais nos quais se encarceravam, revivendo as cenas do pretérito com tal vivacidade que, para eles, tudo continuava como antes.
A presença de tais entidades naquele núcleo de forças avançadas facilitaria sobremaneira o despertamento adequado de suas sensibilidades, graças ao contacto directo com os fluidos vitais, dos próprios encarnados como médiuns no trabalho da psicofonia, da psicografia, da doação de fluidos magnéticos, todos servidores devotados nas diversas modalidades de trabalho ali existentes.
Muitas eram consoladas pela mensagem evangélica que escutavam na palestra.
As que não o conseguiam, eram atendidas nas diversas actividades mediúnicas, ora pela aproximação pessoal junto de algum médium disponível, ora pela participação em grupos identificados pelas necessidades comuns que escutariam a conversação de um de seus membros através de um dos medianeiros, num processo de esclarecimento colectivo.
Outros necessitavam da enfermagem fluídica, valendo-se os trabalhadores do mundo invisível dos eflúvios corporais dos encarnados presentes para a plasmagem de medicações e visualizações adequadas a cada caso.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 05, 2018 9:18 pm

Mentores de diversas hierarquias atendiam nas variadas áreas de necessidades específicas.
Espíritos de variadas religiões também operavam nas frentes de serviço ali congregadas, tanto no auxílio de entidades que comungavam da mesma fé que eles quanto amparando os lares de seus antigos correligionários encarnados, procurando diminuir-lhes as agonias e, quem sabe, encaminhá-los ao descobrimento das leis espirituais, entendidas estas de maneira nobre e elevada.
Uma perfeita união de objectivos se observava entre todas elas, já que se tratava de Espíritos que se irmanavam com base nos princípios universais que regulam todas as manifestações religiosas existentes no mundo dos homens e que, albergados naquele grande hospital, tudo faziam para auxiliar os espíritos que se mantinham arraigados a preconceitos religiosos ou a condutas estáticas e ritualísticas, tentando ajudá-los a que se abrissem para a verdadeira essência das coisas.
Por esse motivo, lá se encontravam trabalhando em harmonia, além das entidades que já haviam abraçado a fé espírita, inúmeros sacerdotes e freiras católicas, variados membros das igrejas reformadas, pastores, diáconos, membros evangélicos transformados pela luz da Verdadeira Fraternidade, monges budistas, xintoístas, membros de diversas correntes esotéricas, todos submetidos à disciplina amorosa do governo espiritual da instituição, à qual se filiavam por desejo sincero deles próprios, depois de terem compreendido a irracionalidade de todo partidarismo em matéria religiosa.
Muitos deles, como espíritos desencarnados, haviam reencontrado a lucidez ali mesmo, ajudados por outros irmãos que os trouxeram da insensatez à compreensão sob aquele tecto.
Equipes de médicos espirituais auscultavam os encarnados e os medicavam eficazmente durante as prelecções evangélicas a que assistiam, muita vez com o descaso dos que se mantinham ali somente com o corpo, dirigindo o pensamento para as torpezas do mundo ou para as competições e disputas materiais nas quais se envolviam.
Enfermeiros medicavam de acordo com as prescrições médicas além de cuidarem dos ferimentos e lesões perispirituais que os encarnados traziam na sua atmosfera magnética, decorrentes dos pensamentos negativos, das obsessões de longo curso ou próprios do afastamento de entidades aflitas, cujos tentáculos energéticos haviam sido cuidadosamente retirados dos centros nervosos e de outros plexos orgânicos.
Espíritos farmacêuticos manipulavam os princípios da natureza em laboratório intrincado, de onde eram retiradas as energias reequilibrantes para serem aplicadas sobre os núcleos físicos visando a resposta rápida do cosmo orgânico, nos tratamentos urgentes.
Cirurgiões especializados atendiam aos diversos problemas específicos com a medicina espiritual que praticavam, baseada no amor e no respeito às necessidades de cada doente, garantindo, sempre que possível, a acção da Misericórdia sobre os imperativos da Justiça.
Técnicos manipuladores de energias subtis transferiam recursos medicamentosos ao líquido cristalino disponível no local para uso dos que o desejassem tanto quanto os espalhavam sobre as inúmeras garrafas de água que ficavam em mesa reservada para esse fim, segundo as necessidades particulares de cada um de seus portadores.
Entidades femininas, doces e generosas quais madonas saídas de quadros clássicos, atendiam carinhosamente os espíritos infantis necessitados de mãezinhas improvisadas, cuidando de suas carências e servindo, temporariamente, de mães amorosas, consolando-os pela falta dos pais ainda retidos nos ambientes terrenos.
E nesse efervescente turbilhão de trabalho amoroso, Alberto e outros médiuns da casa, durante os horários de repouso do corpo, tinham tarefas garantidas, no exercício da mediunidade, servindo como pontes entre as entidades pouco conscientes de seus estados de desequilíbrio e a carinhosa orientação de espíritos amigos, verdadeiros psicólogos da alma, a ajudá-los na descoberta de novos rumos, pela modificação das próprias inclinações inferiores, saindo do triste círculo vicioso que lhes garantia penúrias e angústias incessantes.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 06, 2018 9:05 pm

Alberto servia, dessa forma, tanto de canal de socorro para entidades de pequeníssima lucidez que se justapunham à sua organização perispiritual, como de alto-falante aberto à manifestação enobrecedora de vários mentores espirituais que não seriam ouvidos nem visualizados por grande parte dessas almas a não ser pela utilização de médiuns ali disponíveis, evitando o gasto desnecessário de energias nos trabalhos da condensação ectoplásmica.
Vasta organização hospitalar de emergência se erguia acima do núcleo físico da instituição, com amplíssimos corredores e quartos onde eram socorridas as dores variadas de uma infinidade de entidades resgatadas pelos diversos atendimentos ali realizados.
Organizada em níveis específicos, cada um deles se destinava a um padrão de espíritos sofredores, mantidos nos ambientes que mais se adequassem às suas necessidades.
Alguns precisavam estar em quartos sem muita iluminação, mais semelhantes às cavernas ou tocas de onde haviam sido retirados, não estranhando, assim, a nova hospedagem nem se opondo ao auxílio de que se viam objecto.
No entanto, com tal miríade de responsabilidades, tal instituição era apenas um pequeno pronto-socorro no nível das dores humanas, recolhendo como um gigantesco aspirador de partículas doentes as entidades que assim o desejassem, que o merecessem ou que tivessem sido para lá encaminhadas pelas determinações da Justiça Suprema para receberem só cuidados da enfermagem de emergência e o encaminhamento de cada uma delas aos destinos evolutivos de que careciam.
Não se tratava, pois, de uma pousada definitiva.
Era estalagem na longa estrada da evolução, garantindo a passagem para outros níveis onde continuariam os tratamentos adequados a cada caso.
Por essa circunstância, o centro espírita também era um grande núcleo de transportes, como se fosse um terminal de passageiros a enviar e receber viajantes, garantindo-lhes a serenidade e as melhores condições de acesso para chegarem aos seus destinos específicos.
Assim, imensos veículos espirituais faziam fila em ponto determinado, na actividade de deslocamento de tais necessitados, agrupados segundo suas necessidades e objectivos, num incessante vai-e-vem durante as vinte e quatro horas do dia.
Tais serviços eram tão intensos, que uma área específica da instituição espiritual se organizava para atender a todas as especificidades, considerando que cada doente a ser trasladado era identificado, possuía ficha que lhe definia a posição espiritual, a ligação a determinado núcleo do mundo invisível superior que o tutelava espiritualmente, quem lhe haviam sido os mentores avalistas da última encarnação, que necessidades permanentes apresentavam, qual o destino a que estavam endereçados e a qual grupo ou autoridade espiritual directa deveriam ser entregues para serem custodiados na nova fase da recuperação.
Os veículos de transporte eram de diferentes tipos e tamanhos, operados por técnicos capacitados para manejá-los de forma precisa e por uma tripulação de trabalhadores, especializados nas necessidades de seus passageiros, contanto com os diversos servidores da área médica, bem como com outros tipos de trabalhadores, que se esmeravam para levar a calma e o conforto aos ocupantes.
Para muitos, a vibração elevada do ambiente interno de tais veículos produzia suave torpor, que lhes garantia um transporte sem sobressaltos, sobretudo aos espiritualmente menos preparados, enquanto que os mais lúcidos e serenos poderiam observar todo o processo aprendendo com as novidades que, doravante, testemunhariam.
Em tudo, a disciplina e a ordem davam o tom da tarefa a se realizar, tornando eficiente cada detalhe, e tudo funcionando de acordo com as imprescindíveis determinações superiores, coordenadas pela mão generosa de Bezerra de Menezes que, naquele núcleo como em muitos outros, operava como um supervisor das Vontades do Cristo.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 06, 2018 9:05 pm

Naturalmente que nem todas as instituições espíritas existentes na superfície da Terra haviam conseguido atingir um tal grau de eficiência nas tarefas desenvolvidas.
No entanto, se isso não acontecia, não era por falta de apoio dos espíritos amigos eu tanto se esmeravam para conseguir melhorar as condições do atendimento. Invariavelmente, todas as vezes em que não se logra a eficiência maior dos serviços, isso se deve às deficiências da equipagem encarnada, trabalhadores preguiçosos ou indóceis, imaturos, vaidosos, disputadores e discutidores, atormentados por cargos, orgulhosos e falsos, dificultando a harmonia vibratória do ambiente e, por tais motivos, transformando-se em pedras de tropeço para a melhor eficiência dos atendimentos.
Entidades amigas se esforçam para corrigi-los estendendo o amparo dos conselhos durante o descanso do corpo carnal, com elucidações, orientações e estímulos para superação de complexos, tudo fazendo para que despertem para as volumosas responsabilidades de serviço a que estão se vinculando.
E quando todas estas medidas não são suficientes para modificar o panorama interno da instituição, cuja taxa de conflitos mentais venha a prejudicar a qualidade dos atendimentos espirituais em decorrência da rebeldia ou da invigilância mental de alguns de seus trabalhadores, os espíritos amigos tratam de afastá-los da obra, de maneira subtil e espontânea, de forma que, levando embora seus descontentamentos, dali também retiram a fonte de desequilíbrios, deixando de ser torpedos humanos a serviço de entidades inferiores que visam prejudicar a obra do Cristo que lá se realize.
Somente após o afastamento dos rebeldes, dos insinceros, dos viciosos, perniciosos elementos para o avanço da tarefa é que os dirigentes espirituais podem promover a aceleração das actividades dentro dos rumos previstos.
Enquanto não se logra tal reforma, a instituição patina na mesmice e na falta de idealismo vivo, estagnando-se e não conseguindo ser a ferramenta para a qual se fizera realidade entre os homens.
Essa é, querido(a) leitor(a), a explicação do porquê de inúmeras casas espíritas não conseguirem sair do mesmo patamar em que estão há anos, presas de um imobilismo e de uma falta de riqueza espiritual, envoltas sempre em disputas internas de vaidade e de poder, o que as aproxima muito das organizações políticas terrenais, afastadas do idealismo cristão.
Ali, portanto, os primeiros necessitados e sofredores a que a instituição precisará atender são os seus próprios trabalhadores e dirigentes que, indiferentes às Verdades do Espírito, se comparam aos cegos condutores de cegos.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 06, 2018 9:05 pm

6 - OS TRABALHADORES DA CASA ESPÍRITA
Parábola dos Talentos

Mateus, 25, 14-30
14 Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens.
15 E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe.
16 E, tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou outros cinco talentos.
17 Da mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros dois.
18 Mas o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
19 E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles.
20 Então aproximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo:
Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que granjeei com eles.
21 E o senhor lhe disse:
Bem está, servo bom e fiel.
Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.
22 E, chegando também o que tinha recebido dois talentos, disse:
Senhor, entregaste-me dois talentos; eis que com eles granjeei outros dois talentos.
23 Disse-lhe o seu senhor:
Bem está, bom e fiel servo.
Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.
24 Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste;
25 E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu.
26 Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe:
Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde espalhei?
27 Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com juros.
28 Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos.
29 Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado.
30 Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.

Depois de se apresentar para as tarefas nocturnas que se desenrolavam da instituição, Alberto foi encaminhado para o núcleo que congregava os trabalhadores encarnados que, tanto quanto ele próprio, lá estavam com tarefas definidas.
Iriam escutar as orientações do dirigente espiritual a quem se subordinavam as actividades que lhes eram atribuídas.
Acompanhado por Adelino, o médium, desdobrado durante o sono do corpo, viu-se em pequena sala, cercado de outros oito trabalhadores encarnados que já haviam chegado.
Todos eles traziam a ligação fluídica prateada eu os mantinha conectados ao arcabouço físico.
Eram eles: Jurandir, o dirigente encarnado da Instituição, Dalva, Meire e Lorena, médiuns psicofónicos como Alberto, além de Horácio e Plínio, cooperadores do diálogo e do trabalho de passes magnéticos, e de Alfredo, o prestativo zelador da instituição, que nela residia para garantir sua segurança material.
Dirigindo-se a Jurandir, Alberto exclamou:
- Puxa, seu Jurandir, novamente tão poucos nos encontramos aqui para as tarefas tão intensas que nos esperam...!
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 06, 2018 9:06 pm

- É, meu amigo – respondeu o interpelado, com um sorriso de tristeza -, nem todos os nossos irmãos estão disponíveis como seria de se esperar.
Dos sessenta e dois trabalhadores, somente oito têm-se mostrado compenetrados e dispostos às disciplinas mentais e emocionais adequadas para o serviço contínuo da mediunidade.
Outros dezasseis estão atendendo a deveres diversos aqui em nossos outros núcleos de trabalho.
No entanto, com excepção destes vinte e quatro, os outros trinta e oito estão adormecidos para as experiências construtivas do Espírito durante o repouso do corpo.
- Eles, por acaso, não estariam ignorando nossas tarefas? – perguntou, humilde, a Sra. Dalva, médium de grande bondade.
- Infelizmente não, querida irmã. Todos nós recebemos os alertas durante nossas tarefas físicas aqui no Centro e, além disso, somos amparados no retorno aos nossos lares e conduzidos ao sono físico.
No entanto, tão logo a maioria se vê fora da carne, parece se esquecer dos alertas e compromissos, e cada qual sai em busca das emoções e interesses que reflectem os seus sentimentos ou as suas necessidades.
Observando o diálogo construtivo entre os presentes, e para torná-lo ainda mais interessante e rico, Ribeiro, o espírito que estivera ao lado de Bezerra na noite anterior quando das advertências proferidas através do médium Alberto, assumiu o diálogo com a autoridade de quem conhece e ama profundamente cada um dos seus tutelados, naquela casa de serviço no Bem.
- É verdade, queridos filhos.
Cada um deles recebe de nós, seus irmãos sinceros, o acompanhamento e a protecção para o momento do sono e do imediato despertamento no plano invisível da vida.
No entanto, o pensamento gera os caminhos e não é sem razão que o Divino Mestre nos ensinara a lição de que, onde estiver o nosso tesouro, aí também estaria o nosso coração.
Então, assim que se projectam do outro lado da vida, escolhem o rumo que mais lhes agrade, pouco ou nada escutando das nossas palavras carinhosas que os convocam aos trabalhos da instituição.
Peixoto, com graves compromissos financeiros, saiu do corpo em busca de solução para suas dívidas, procurando encontrar-se com banqueiros ou amigos endinheirados a fim de conseguir tocar-lhes o coração para que seja favorecido no empréstimo que pretende lhes solicitar em breve.
Cornélia, preocupada com a saúde do filho distante, tão logo se viu leve no corpo espiritual, impulsionada pelo pensamento, tomou o rumo da casa do rapaz, premida pela angústia exagerada tão comum às mães sem equilíbrio, esquecendo-se do entendimento das leis espirituais que são inflexíveis e justas, tanto quanto fazendo vistas grossas aos desmandos de Marcelo que, entre drogas, aventuras e excessos, vem consumindo as próprias forças do gosto.
Cássio deixou o corpo no leito e, indisciplinado para o dever, aceitou o convite das entidades levianas que o esperavam para agitada festa nos ambientes inferiores, esquecendo-se de que, como médium, sua sensibilidade se verá abalada por vibrações agressivas do local onde passará a noite, quando regressar ao corpo carnal.
Chegara aqui, no dia seguinte, queixando-se de dores de cabeça, indisposição e abatimentos, cobrando a ajuda dos espíritos para solucionar suas desarmonias.
Geralda não consegue sair do corpo de maneira serena porque é perseguida por cobradores que a acusam de atitudes inferiores na presente existência na área da afectividade.
Ao ver-se descoberta pelos agressivos algozes, antes de recorrer à prece sincera com a qual se protegeria com serenidade e firmeza, foge de volta à carne, imaginando ser o esqueleto, a única fortaleza que a salva.
Moreira, pobre filho, dominado pelas sensações do sexo, não se satisfaz com a convivência íntima que a esposa lhe propicia.
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Re: Série Lúcius - HERDEIROS DO NOVO MUNDO / André Luiz Ruiz

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 06, 2018 9:06 pm

Com a mente impregnada de imagens erotizantes, atrai para dentro de sua própria alcova a companhia de perigosas e astutas entidades, que se alimentam de suas energias sexuais exacerbadas pela fixação mental, hipnotizando-o mais e mais com quadros excitantes, para que mantenha acesa e intensa a chama do desejo, impedindo ou dificultando que o pobre homem se desconecte dessa faixa de ideias para sintonizar connosco.
E isso se torna ainda mais grave porque, fora do lar, nosso amigo mantém encontros clandestinos com prostitutas que o envolvem em emoções inferiores, viciando as suas sensibilidades espirituais e tornando-o imprestável para os mais simples serviços em nossa instituição.
Pensa ele que, graças à sua discrição, ninguém lhe conhece a vida dupla que leva.
E assim, os outros trinta e três trabalhadores que aqui seriam esperados para nos ajudar na vastíssima tarefa do Bem, dotados de talentos para serem agentes da Esperança na vida alheia, alegam outras preocupações como tesouros que lhes cobram a presença imediata e um elevado preço pelo tempo perdido.
Para todos, tais fixações mentais parecem justificar-se como preocupações importantes e emergentes.
Entretanto, à vista das verdadeiras razões, observando essas questões a partir do enfoque da Vida Real, não passam todas elas de puerilidade de criança, desejos voluntariosos, imaturidades emocionais que, mais cedo ou mais tarde, acabarão sendo superadas pelas decepções que delas decorrem, naturalmente.
Assustados com o detalhamento casuístico dos problemas de cada um, Lorena exclamou, surpresa:
- Mas, irmão Ribeiro, o senhor conhece assim tão bem as vidas de todos os que aqui trabalham?
Sorrindo em razão da entonação usada por Lorena para a pergunta, Ribeiro tratou de acalmá-la:
- Bem, Lorena, a consciência tranquila pode ser um lago transparente e generoso onde as estrelas do céu nocturno vêm bailar sem qualquer problema.
Por isso, entre os filhos que guardam responsabilidade e sinceridade com o ideal, é muito fácil transitarmos e observarmos seus verdadeiros esforços na transformação, o que nos garante um entrosamento directo e fraterno, onde não temos segredos, não nos enganamos nem pretendemos nos iludir mutuamente.
Quanto aos outros, os que carregam a consciência enodoada pelas condutas íntimas não adequadas, imaginando-se bem escondidos pelo véu da invisibilidade, também dispomos de suas fichas individuais, não a título de bisbilhotice, mas, sim, como forma de supervisionarmos os seus passos, buscando evitar quedas mais graves ou comprometedoras, como também entender os motivos que os prendem a tais tragédias morais ou necessidades específicas.
Não nos alegraria descobrir este ou aquele em situação difícil que poderia ter sido evitada antes, mas que acabou sucedendo por ter-lhes faltado o nosso concurso.
Assim, por muito amá-los, temos o cuidado de observar com discrição suas condutas que, aliás, vêm estampadas na própria atmosfera vibratória que possuímos e que nos denuncia com as imagens coloridas de nossos pensamentos e sentimentos, muito bem plasmados à nossa volta.
No entanto, nossa tarefa está longe de ser invasiva ou de ter o intuito de esquadrinhar os mínimos detalhes de tudo o que façam.
Quando acompanhamos um irmão que se dirige aos bordéis espirituais, sabemos o que ele procura e, então, não necessitamos segui-lo nas orgias em que se envolverá.
Quanto seguimos um irmão que procura negociatas inferiores, temos a exacta medida de suas intenções reais e, assim, não precisamos nos deter nos detalhes de seus contractos indiscretos ou perniciosos.
Não pensem vocês que ignoramos os momentos de intimidades, as necessidades de prazer físico a que os seus corpos estão, ainda, submetidos, nem que isso seja considerado por nós como algo inadequado.
Sabemos em que mundo estamos vivendo, e nós próprios já tivemos de enfrentar todas estas formas de viver assim como também precisaremos, mais cedo ou mais tarde, retomar o corpo físico para o prosseguimento de nossa jornada evolutiva.
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