Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:06 pm

Ao contrário, é lugar de almas arrependidas.
Um purgatório de culpas e dores acerbas.
Não fossem as expressões do amor que lá vigoram, seria algo muito similar ao lugar de onde você veio.
— Amor? E você ainda acredita nessa mentira?
Amor é uma velha estratégia de poder.
Diga-se de passagem, cada dia mais fraca e sem alcance.
O tal Eurípedes e Jesus podem desistir desse método de convencimento.
A Terra está perdida!
A entidade ainda fez uma fisionomia de deboche, mas não conseguiu reagir aos sedativos.
Adormeceu. Ouviam-se ainda os cantos no Centro Umbandista.
Desta vez dirigidos a Oxumaré e Oxalá para acalmar o ambiente.
Passavam de duas horas da madrugada.
Impressionou-me o vigor dos médiuns umbandistas.
Ao voltar para seus lares, brincavam como crianças sem nenhuma menção ao labor ora realizado.
Desprendidos da doação e com extremo bom humor.
Ovídio e sua esposa levavam em seu automóvel as senhoras mais idosas.
Os mais jovens seguiam a pé pelos matagais em direcção às zonas rurais de Uberaba.
Todos assistidos por nobres entidades do amor e do bem em nome de Bezerra de Menezes.
Heróis anónimos de um tempo de coragem e pura espontaneidade.
Por nossa vez, seguíamos para o hospital, pois a actividade ainda era intensa.
Já se aproximando a manhã, foi a própria Clarisse que me procurou e disse:
— Imagino que esteja curiosa sobre muitas das ocorrências desta noite, dona Modesta.
— Clarisse, sinto-me como se estivesse em um país distante e, ao mesmo tempo, tão próximo.
Não sei o idioma, não conheço ninguém, enfim, estou mentalmente sem referência, embora tudo me seja muito familiar.
— É assim mesmo!
Quando nos está reservada uma missão, inicialmente, ficamos atordoados e inquietos sem entender claramente os motivos.
Tudo o que a senhora tem presenciado será o alicerce de uma grande tarefa, que reunirá velhos compromissos da caminhada.
— Ciclopes, escórias, lago de enxofre, irmão H., feridas em Eurípedes, a maldade calculada...
— São muitas novidades, não é, dona Modesta?
— Parece-me outro mundo, mas ao mesmo tempo a sensação é a mesma que sinto quando no corpo físico.
Por várias vezes manifestei tais impressões ao meu marido e familiares.
Concluí que somente eu as sinto.
Isso é a mediunidade, Clarisse?
— Sem dúvida.
Somente com essa faculdade da alma ampliada somos capazes, mesmo estando no escafandro do corpo físico, de registar a realidade da psicosfera que cerca a humanidade.
De facto, o ambiente espiritual da Terra avança para lamentáveis e decisivos episódios que determinarão mudanças inadiáveis no planeta.
O joio, mais que nunca, surgirá nas benfazejas plantações de trigo, confundindo os incautos, desafiando os inteligentes e convocando os que amam aos mais duros testemunhos em favor do futuro regenerativo da humanidade.
Esse é o motivo de trabalharmos com desvelo por tais carentes da alma.
— Pensei, ao conhecer o Espiritismo, que teria sossego; que a tormenta mental viesse a cessar por completo.
— Dona Modesta, nas linhas de serviço do Cristo é justo que o trabalhador devotado colha o fruto íntimo do sossego interior, em face dos esforços de ascensão moral.
Todavia, nossa condição espiritual é muito grave para sonhar com facilidades e conforto.
Em nosso ciclo de lutas evolutivas, raramente escapamos de interpretar sossego como satisfação pessoal garantida, interesse particularista.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:07 pm

Quem segue Jesus deve ter como lema fundamental o ato de servir e aprender, educar e trabalhar.
Quem foge desse movimento divino de ascensão, carregando na alma tão severos compromissos conscienciais, como nós, certamente se renderá ao fascínio da obsessão, confundindo felicidade com facilidade.
— Preciso me acostumar a esse conceito.
— Ele está em sua alma.
É uma questão de tempo para que a crisálida se rompa e permita o voejar das nobres conquistas de seu coração.
Sugiro que, antes de regressar ao corpo, a senhora desonere a mente das perguntas que a torturam.
— Farei algumas para aliviar minha inquietação.
Elas são muitas.
Os ciclopes e aquele lugar infeliz são obras dos dragões?
— Existe amor nos pântanos, dona Modesta.
Muitas são as Moradas do Pai.
Ali se encontram os diamantes no lodo.
Quaisquer denominações que usemos para classificá-los não passam de mera contingência didáctica.
São filhos do mesmo Pai que tutela nossa caminhada ao progresso.
O Sol não escolhe onde reflectir seus raios luminosos.
Abençoa a gleba, mas igualmente irradia sobre os lamaçais nos abismos.
Existe amor nos abismos.
Os locais visitados esta noite são criações suburbanas da Cidade do Poder.
O Vale do Poder é um resíduo social, um efeito inevitável de uma estrutura comunitária rebelde às leis divinas.
É a estrada marginal aos principais acontecimentos históricos nessas localidades em milhares de anos.
Os ciclopes e todos os componentes dessa organização são metamorfoses mentais a que se submetem quantos se rendem às sugestões do mal.
Tudo que surge nesses pátios tem algo a ver com os dragões.
São eles, por assim dizer, os gestores dessas ilusões de poder e domínio.
Os ciclopes são muito violentos.
— E se tem a ver com eles, tem algo com a doutrina!
— Exactamente.
— Por isso a perseguição ao doutor H., nosso irmão no Rio de Janeiro?
— Sim, dona Modesta.
— Nutro por ele elevado reconhecimento pelos serviços que desenvolve.
Temos nos correspondido ocasionalmente.

27 Nota da editora -saudação típica aos exus, espíritos que actuam como policiais ou guardiões no mundo espiritual.
28 Nota da editora -uma linha de exu.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:07 pm

Capítulo 8 - O Transporte da Árvore Evangélica e o Movimento de Unificado
"Pensas que Deus recusa meios de salvação aos culpados?
Ao contrário, multiplica-os no caminho que eles percorrem; põe-nos nas mãos deles.
Cabe-lhes aproveitá-los.
Judas, o traidor, não fez milagres e não curou doentes como apóstolo?
Deus permitiu que ele tivesse esse dom, para mais odiosa tornar aos seus próprios olhos a traição que praticou."

-O Livro dos Médiuns capítulo XX -item 226 -pergunta 2.

— Sobre os ombros de nosso irmão assenta-se uma das mais duras missões do Espiritismo cristão.
Ele será o tutor e incentivador do livro mediúnico na comunidade espírita.
— E os adversários do bem já sabem disso?
— Sabem! A maior tormenta das organizações da maldade, desde o desencarne de Allan Kardec, era saber se ele retornaria como havia prometido.
Depois de um tempo, correu a notícia de sua reencarnação.
O desespero tomou conta das camadas mais organizadas da maldade nas furnas.
Procuram por ele até hoje como se fosse um bandido perigoso.
Há até recompensa por sua captura.
Concentraram esforços na França.
O Mais Alto, porém, não dispensa a prudência e tomou as medidas apropriadas.
— Ele retornou?
— Sim.
— Meu Deus! É...
— Nem pronuncie o nome, dona Modesta!
— Nosso irmão H. reúne, no momento, todas as condições para ser o consolidador de um dos pilares da continuidade da obra do codificador, que desdobrará os ensinos trazidos pelo Espírito Verdade com foco na ética e na moral, mais que na ciência.
— Essa é a razão da assistência desta noite?
— Se fosse só isso, seria uma bênção.
Nosso irmão é credor de amparo incondicional ante seus graves desafios espirituais e comunitários.
Infelizmente, como qualquer um de nós, a despeito de seus valores e visão ampliada, sintonizou com projectos de domínio insuflados pelos dragões, fazendo uso dos mecanismos explicados na palestra de Isabel de Aragão e Cornélius.
— A elitização!
— A formação de castas institucionais.
Irmão H. integra uma organização que tem honrosamente alicerçado valores pelo bem da causa espírita.
Organização que é composta de homens comuns, e não missionários da virtude.
O ideal unificador é uma chama acesa no coração de nosso irmão.
Mas, como outrora, em nome da paz e do amor, elegemos a guerra e o ódio.
Pela conquista do bem, convencionou-se exterminar ou excluir os maus.
A Lei Divina, porém, é de inclusão, resgate da dignidade e fraternidade.
Cercado por mentes despóticas que lhe são vínculos de outros tempos no Catolicismo, almas escravizadas pelas hostes dos dragões, ele vem cedendo a ímpetos de hegemonia sem precedentes na história do Espiritismo.
Começam a surgir, ainda que embrionariamente, planos estruturais para unificação que reflectem velhas tendências de centralização em nome da unidade doutrinária.
Inicia-se, nesta década de 30, uma noção confusa e perigosa de união pela uniformização de visão e pareceres.
Uma reminiscência subtil da organização católica que incendiou corpos vivos em nome da verdade.
Percebe-se claramente, nos dias atuais, a impossibilidade de gerir mentes com a mesma destreza dos tempos da Idade Média.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:08 pm

Ainda assim, processa-se, lamentavelmente, entre irmãos idealistas da unificação, a possibilidade de que a instituição organizada possa ser a guardiã dos princípios espíritas, a zeladora com mandato divino para administrar a obra de Allan Kardec.
— E isso é verdadeiro ou não existe esse mandato?
Não seria bom para o Espiritismo que alguém zelasse por seus princípios?
— Claro que sim, dona Modesta.
A doutrina não depende dos homens para sua existência, mas carece do apoio humano para sua expansão.
Nesse foco, o trabalho organizativo será imprescindível, constituindo mesmo uma missão historicamente conferida ao movimento unificador.
— Então por que houve essa sintonia de irmão H. com planos de domínio?
— O facto de alguém ou alguma instituição estar investido de missão não confere superioridade ou direitos, mas sim deveres e desafios.
O ponto de sintonia é o orgulho humano.
Por meio dele mantemos nossos vínculos com a retaguarda.
Nem mesmo Jesus, em Sua missão incomparável, viu-se livre da acção planeada dos emissários do mal.
Esteve no deserto, frente a frente, por quarenta dias e noites, com Lúcifer, o génio criador do mal na Terra, e foi atacado durante todo o Seu roteiro messiânico.
— A questão da Casa de Israel?!
— Lembra-se do que disse Isabel de Aragão em sua explanação?
— É a classe mais orgulhosa! Irmão H. então...
— Irmão H., assim como todos nós, amantes das ideias espíritas, reúne largas possibilidades morais, ao mesmo tempo que tem vasto histórico na composição do tronco judaico-cristão.
Líder consagrado do povo judeu por várias reencarnações, exterminou milhares de vidas e, mais tarde, como político romano, após a vinda do Cristo retomou a mesma acção.
Foi também um líder renomado no século XIV.
Membro integrante da exegese.
Excursionou pelas veredas sombrias da ortodoxia e do radicalismo religioso.
Um dos principais responsáveis pela articulação política e religiosa que culminou com a morte de Jan Huss.29
— Estou com uma sensação tão desagradável com tal notícia!
Não sei como definir meus sentimentos.
Talvez porque não imaginasse essa condição espiritual na pessoa ilustre de irmão H.
Enfim, sinto-me um pouco confusa, Clarisse!
— É natural que se sinta assim.
Viciamos nossas relações no corpo físico nos costumes sociais do verniz e da aparência.
Em nossos ambientes doutrinários inicia-se uma contaminação da ostentação.
Todavia, nossos laços reais com a vida e suas leis são determinados pelo que se opera na vida mental de cada um de nós.
Irmão H. tem intenções muito sinceras em relação ao Espiritismo.
É um homem devotado e nutre as mais legítimas aspirações no bem.
Todo esse cabedal moral não é o bastante para suprimir de sua intimidade os velhos impulsos de hegemonia e destaque pessoal.
Raríssimos são aqueles, entre nós, iluminados pelo conhecimento espírita, que já conseguem ter consciência do complexo e subtil mecanismo de acção da vaidade nos sentimentos.
A vida na carne tem também essa função:
amenizar o teor vibratório do pretérito.
Entretanto, quando a ilusão avassala com ritmos encantadores de grandeza e virtude, a clava da justiça acciona defesas de urgência contra novas quedas na tentação.
Algumas criaturas, quando prontas, nesse momento, fazem contacto com a sombra das suas próprias falências no intuito de dimensionar as expressões de necessidade e compromisso.
— As entidades socorridas no Centro Umbandista estavam ligadas a ele?
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:08 pm

— Estavam, sim.
É uma táctica da maldade organizada.
— Se é um homem tão bom como pôde haver essa sintonia?
— Pelo motivo exposto.
— Desejo de hegemonia?
— Nosso irmão vem sendo cercado por sugestões maliciosas de ambos os planos, carnal e espiritual.
De cá são os opositores declarados da doutrina e no plano físico são seus pares na tarefa da unificação que alojam sonhos de grandeza com inúmeros planos de organização do movimento e coordenação do Espiritismo.
Há mesmo quem queira convencê-lo de que são predestinados a ser os "chefes do Espiritismo".
— Desculpe-me por falar assim, Clarisse, mas estou com muita dificuldade de acreditar.
Talvez seja falta de informação de minha parte, pois me concentro no trabalho do sanatório e sei muito pouco sobre as tricas do movimento espírita.
— Somente nós, que temos acesso ao cotidiano de nossos irmãos, podemos testemunhar quais são os projectos e sonhos que acalentam.
Entre eles, quando à vontade para expor ideias e sentimentos, presenciamos manifestações claras que não deixam dúvidas sobre o que pretendem.
Eles arquitectam planos muito corajosos para o bem da doutrina, que carregam uma falha capital.
— Falha capital?!
— Lamentável e velha falha moral!
De facto, nossos irmãos amam o Espiritismo e o defenderão ardentemente.
Pagarão um preço oneroso que custará a essência da própria doutrina.
— E onde está a falha?
— Com o pretexto de amar o Espiritismo, e para defendê-lo, agirão com desamor ao próximo que é o objectivo central da proposta ética da doutrina.
O amor ao próximo continuará sendo um artigo religioso de fachada.
Como nas velhas experiências, dizendo amar o Evangelho e ao Cristo, e para zelar pela pureza dos princípios evangélicos, haverá o desamor aos que não se alinharem ao padrão, àquilo que for formalizado como sendo ou não aceitável como espírita.
Essa é uma noção ameaçadora para o bem da causa no futuro, caso venha a se consolidar.
— Meu Deus! Uma repetição de velhos erros!
Mas você acredita que ainda haverá mortes, assassinatos, fogueiras em pleno século XX, com tanto progresso em desenvolvimento?
— Talvez essa seja a única diferença.
O direito penal e a cultura do ocidente, sob influência da política e da religião organizada, mudaram definitivamente o panorama.
Os excessos da Idade Média serviram para ponderar os limites. Certamente não teremos fogueiras, assassinatos e outras medidas que possam determinar pela lei social alguma sanção, que ponha em risco a vida humana.
Poderá desenvolver-se um fenómeno mais subtil nos bastidores dos grupos institucionais.
Teremos uma nova Inquisição com lances de requinte nas relações.
Tempo de doutrina, cargos e, sobretudo, cultura doutrinária poderão ser os novos ingredientes com os quais muitos corações sinceros, porém ingénuos, venham a semear joio na seara acreditando realizar uma cultura sadia de trigo para o bem do ideal.
As ilusões, nesse sentido, avizinham-se da federação que, mesmo investida de honrosa missão, é composta de homens falíveis em busca de sua própria salvação consciencial.
Nossos irmãos envolvidos em tal acontecimento, junto a irmão H., com raríssimas excepções, são integrantes do transporte da árvore evangélica.
Carregam graves compromissos com a religião.
São os prisioneiros libertados do Vale do Poder e que regressam com novas oportunidades de recomeço.
— Então, aquelas entidades ajudadas são seus vínculos?
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:35 pm

— São seus pares de outro tempo e que foram retirados da mesma prisão pelos comandantes da perversidade que administram tais pátios de dor.
— Com o intuito...
— De fazer força de atracção para trás.
São velhos correligionários da Igreja.
— Colocados ao seu lado, reactivam o passado, seria isso?
— Imantados a irmão H., reavivam lembranças e abrem a porta do coração e da inteligência para as sugestões que anseiam relativamente aos planos de domínio.
— E por que vocês não interferem nisso, impedindo essa ligação, por exemplo?!
— Não foi o que fizemos agora no Centro Umbandista?
— Formularei melhor minha pergunta:
por que não impediram que se ligassem a irmão H.?
Ele não tem uma missão?
Não deveria estar protegido desse assédio?
Não representa a mais importante organização do Espiritismo no país?
— Não, dona Modesta!
Não é assim que funciona a Lei Divina que estabelece colher daquilo que plantamos.
Nosso irmão H. tem milhares de vínculos tombados e escravizados no Vale do Poder, de onde saiu graças ao movimento de socorro e amparo às consciências tombadas diante da mensagem do Evangelho.
A missão a ele confiada não o isenta dos desaires outrora cometidos.
Aquelas seis entidades são apenas algumas de um grupo enorme de almas feridas e gravemente lesadas, sob iniciativas dele.
É justo que o passado retorne em forma de oportunidade de amparo e libertação.
— Quer dizer que os comandantes das regiões inferiores usam essa medida aproveitando-se da própria Lei Divina, que suponho conhecerem.
— E conhecem muito bem! Apenas não a asilam em seu íntimo.
— Isso explica, para mim, uma questão pessoal.
— Qual, dona Modesta?
— A minha história parece não ser diferente.
Estou fazendo o bem no sanatório e, apesar disso, a cada dia mais as provas se apertam, os ataques são mais ferrenhos.
Veja o próprio Matias e seu bando, quantos problemas causaram ao nosso trabalho durante anos!
— Essa é a lei minha irmã!
Quanto mais luz se faz, mais temos o que oferecer.
Portanto, nada mais justo, enquanto trabalhamos por nosso erguimento, fazer algo igualmente por aqueles que despencaram no abismo da falência por conta de nossas atitudes inconsequentes no roteiro das reencarnações.
— Poderia me responder ainda a algumas questões sobre o transporte da árvore evangélica7.
— Seja breve, minha irmã.
São cinco horas no relógio terreno e novas actividades a aguardam.
— Somente no Espiritismo renasceram esses espíritos ligados ao tronco judaico-cristão?
— O transporte dos espíritos compromissados com o Evangelho se deu em várias seitas inspiradas no Evangelho de Jesus.
Daí a figura da árvore com vários galhos, uma fronde de diversidade.
Na comunidade espírita reencarnaram o grupo dos espíritos mais rebeldes, conquistadores e afeiçoados às noções da vida imortal.
— Como se deu o planeamento do Espírito Verdade para esse transporte da árvore evangélica para o Brasil?
E como inserir o Hospital Esperança nesse contexto?
— O hospital surge exactamente nesse segundo período de setenta anos, no qual se opera o maior grupo do transporte.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:37 pm

Com o serviço socorrista das primeiras reuniões mediúnicas no Brasil ergueram-se tendas luminosas que se fizeram enfermarias de urgência extremamente úteis ao labor.
Quando Jesus tomou medidas para mudar o curso dos acontecimentos na Terra, em pleno século XV, depositou sobre o solo virgem do Brasil, ainda não descoberto a esse tempo, a missão de educar espiritualmente os povos.
O transporte da árvore evangélica é o amplexo da misericórdia divina que chama ao trabalho todos aqueles que dele dependem para seu próprio soerguimento consciencial.
São quinhentos anos de preparo.
Medidas tomadas pelo próprio Cristo visando aos tempos de regeneração da humanidade.
Poder-se-ia indagar: por que o Mais Alto não chamou espíritos de larga envergadura moral para essa tarefa?
Vamos recorrer às anotações inspiradas de Allan Kardec, que dizem:
"Todas as faculdades são favores pelos quais deve a criatura render graças a Deus, pois que homens há privados delas.
Poderias igualmente perguntar por que concede Deus vista magnífica a malfeitores, destreza a gatunos, eloquência aos que dela se servem para dizer coisas nocivas.
O mesmo se dá com a mediunidade.
Se há pessoas indignas que a possuem, é que disso precisam mais do que as outras, para se melhorarem.
Pensas que Deus recusa meios de salvação aos culpados?
Ao contrário, multiplica-os no caminho que eles percorrem; põe-nos nas mãos deles.
Cabe-lhes aproveitá-los. Judas, o traidor, não fez milagres e não curou doentes como apóstolo?
Deus permitiu que ele tivesse esse dom, para mais odiosa tornar aos seus próprios olhos a traição que praticou30".
Se o mal se organiza pela força dirigida para a violência, o bem reúne igualmente poder para agir em favor de sua proliferação.
Quanto mais a consciência humana está tombada sob os escombros da culpa e do erro, mais tem de haver misericórdia para que o Espírito encontre dentro de si mesmo uma réstia de energia para descobrir seu destino sublime.
A misericórdia é a expressão excelsa do Amor Paternal de Deus.
Sem ela, como avançar? Para almas adoecidas como nós, que fizemos e fazemos parte dessa história evolutiva do planeta na condição dos "anjos decaídos", foi que os Espíritos Superiores, sob a tutela de João Evangelista, o discípulo do amor cristão, e Agostinho de Hipona, avalizaram o Hospital Esperança.
Para tanto, convocaram Eurípedes Barsanulfo ao mister de fundá-lo e conduzi-lo na missão a que se consagra.
Enquanto corações devotados ao ideal unificador aplainam caminhos em favor da doutrina, o Hospital Esperança tem por missão reconhecer-lhes a extensão das necessidades que carregam e fazer todo o bem possível para que não se desviem de seus desafios de remição consciencial.
— Clarisse, que chances têm nossos irmãos do ideal unificador?
— As mesmas de todos nós.
A senhora também teve sua história, dona Modesta, e optou pelo amor ao semelhante.
— Talvez eu não tenha em projecto reencarnatório essa árdua tarefa de trabalhar pela unificação...
— Esse compromisso, dona Modesta, não é fruto de panejamentos particulares.
É compromisso de todos nós.
O que difere na missão de nossos irmãos é que eles carregam larga habilidade na arte de dirigir.
Possuem dilatada visão de conjunto e farta resistência a críticas e pressões.
Falta-lhes, entretanto, desenvolver o elo sustentador do afecto humano, a criação de relações autênticas, distantes do verniz e da hipocrisia.
Nisso serão exaustivamente testados.
Fique claro:
essa tarefa lhes foi permitida, e não delegada.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:38 pm

Permitida porque a experiência que apresentam nos assuntos institucionais espontaneamente os atrairia.
Suas fichas reencarnatórias previdentes e direccionadas para a educação foram analisadas com critério.
Considerando a afeição por esse género de actividade, receberam, antes do regresso ao corpo, noções acerca da importância do aprendizado para si mesmos.
Foram alertados sobre os percalços e a escala de labores a cumprir.
— Se unificar é compromisso de todos, não consigo entender, por mim mesma, o que posso fazer para somar nesse ideal.
— Acaso acredita que a chegada de Matias a sua vida é apenas um acontecimento fortuito e passageiro?
Lembra-se do que destacou o senhor Eurípedes na mensagem endereçada ao sanatório?
— Recordo-me palavra por palavra.
Ele disse:
"Achegada de Matias a essa casa é o início de um trabalho que vai durar pelo menos dois séculos de intenso labor pelo bem."
— Pois então, dona Modesta?!
Começamos uma fase de serviço e aprendizado que durará séculos, com certeza.
Nossos laços e o de muitos outros que se preparam para o regresso ao corpo físico se intensificarão, promovendo alicerces para tarefas indispensáveis a esse segundo período de setenta anos do Espiritismo.
— Posso ser um pouco mais curiosa?
— Seja!
— Não seria óbvio pensar que a missão conferida ao Brasil seria mais justa se fosse delegada à França?
— Por que a França?
— Afinal, foi onde surgiu o Espiritismo!
— Semelhante tarefa já havia sido outorgada ao Brasil nos tempos de sua descoberta.
A Europa, ao contrário, foi o solo onde se derramou o sangue das tragédias seculares, arquivando carmas históricos pesarosos.
Digamos que a França foi apenas uma incubadora cultural para o Espiritismo.
Caso a semente permanecesse por lá, seria um terreno inóspito para seu crescimento.
O transporte da árvore moldou um fenómeno social que serviu de argamassa para as atuais feições da Doutrina Espírita.
Mesmo em se tratando de princípios universais, o Espiritismo, sob a óptica das práticas, sem dúvida, irá obedecer aos factores culturais e espirituais de seus povos.
— Portanto, seria demais afirmar que o Movimento Espírita Brasileiro é uma síntese histórica da trajectória espiritual de biliões de almas ligadas ao Cristo, em estado consciencial de falência?
— Ao fim do século, teremos alguns milhões de espíritas no Brasil.
Almas que amam a Jesus de longa data, desde tempos imemoriais no bailado cósmico dos mundos, que se solidarizam em busca da perfeição.
— Milhões de espíritas?
Chegaremos a tanto?
— Inevitavelmente, dona Modesta.
— O Espiritismo será a religião do futuro?
— Não. Será o futuro das religiões, como baptizou Leon Denis.
O renascimento em massa iniciou-se tão logo o Espiritismo deu seus primeiros acenos de força social em 1861, com o auto de fé em Barcelona.
Queimar trezentas obras espíritas em praça pública foi excelente mídia para a doutrina.
Já em pleno iniciar do século XX, o transporte da árvore atingiu patamares jamais alcançados.
A Primeira Guerra trouxe a destruição.
Destruição, na óptica evolutiva, é transformação.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:38 pm

O deslocamento de milhões de criaturas só foi possível nas primeiras três décadas, de 1900 a 1930, em razão da força magnética provocada com os movimentos lamentáveis da devastação.
Fazendo uma projecção, ao fim desse segundo período de setenta anos, tais corações atingirão a faixa física dos setenta a noventa anos.
O lastro de experiência desses grupos, oprimidos por severas culpas conscienciais, indubitavelmente estará reflectido na organização da seara.
— Sucumbirão ao formalismo?
— O formalismo, a elitização, a supervalorização do institucional, dona Modesta, são apenas reflexos de uma tragédia que se consuma no íntimo de cada um de nós.
— Tragédia?
— A ausência do amor fraternal.
Raríssimos de nós têm se saído bem nesse aprendizado na escola da religião.
Confirmando-se as referidas projecções, teremos expoentes do Espiritismo que serão reverenciados por suas habilidades seculares em impressionar, causar alarde intelectual ou fenómenos mediúnicos.
Alguns, evidentemente, estarão em tais condições por mérito no desenvolvimento de valores reais na estrada do trabalho e do amor.
Serão raros, porém.
Oradores, médiuns e vultos serão erigidos à condição de modelos.
Poder-se-á chegar ao ponto de tomá-los como referências consagradas, inquestionáveis, ainda que não estejam em plena identidade com as propostas Daquele que, genuinamente, aceitamos como Modelo e Guia, Jesus.
— Meus Deus! Clarisse, como tenho dificuldade em acreditar nisso!
Será mesmo?!
Perdoe-me a dúvida, é que...
Vejo a seara de outra forma.
— Não há o que perdoar, dona Modesta.
Em sua abençoada reencarnação, o contacto ainda que estreito com a comunidade espírita já consolidou conceitos estereotipados em sua mente.
Bastam alguns meses nas fileiras do Espiritismo para que isso aconteça.
A ilusão já se generaliza nesta década, imagine como será ao findar deste século.
Não poderia ser diferente, ela se encontra dentro de nós.
Apenas a projectamos nos actos sociais uns perante os outros e criamos, assim, os ambientes que a sustentam e fortalecem.
Hoje a visão predominante é a de que ser espírita é ser um eleito da divindade para renovar as religiões do planeta.
— De facto, até mesmo perante a mim mesma sinto-me um tanto incomodada ante seus esclarecimentos.
— É natural que seja dessa forma.
Não estranhe.
— Nosso orgulho destruirá novamente a obra do Cristo?
— Creio que não, dona Modesta.
Dessa vez não!
Medidas profilácticas foram e são tomadas a todo instante.
O joio surgirá ao lado do trigo.
— Será difícil saber quem é joio e quem é trigo.
— Esse é um trabalho pessoal, individual.
Se a seara tivesse somente o trigo, por qual razão Deus teria criado uma sementeira tão rica e promissora em um planeta de carências?
Se a seara tivesse somente joio, já estaria por si mesma destruída em seus objectivos divinos.
A cada um segundo suas obras, como assevera o Apocalipse, capítulo 22, versículo 12.
Quem respirar elitismo pagará um ónus por demais severo.
Pesará sobre o psiquismo desses espíritas reencarnados uma cruz:
a teia vibratória do tronco judaico-cristão, que estará, a rigor, farejando psiquicamente em cada seguidor da doutrina as aspirações íntimas que carregam em forma de angústia.
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Ave sem Ninho

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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:38 pm

Convém-nos, porém, frisar que o mais importante nesta análise daqui para o mundo físico não é esse carácter histórico, e sim a condição íntima desse grupo.
— Qual condição?
— Somos todos espíritos arrependidos.
Já não desejamos o mal.
Ainda assim, não sabemos como construir todo o bem que gostaríamos de colocar em prática em nossa vida.
Isso já é um grande avanço em nossa caminhada de tropeços e quedas.
Todavia, é também um traço psíquico de enfermidade moral e tristeza.
Não somos mais quem éramos, entretanto, ainda não conseguimos ser quem gostaríamos.
Vivemos um momento de "ausência de identidade psicológica".
Por essa razão, uma aluvião de correntes mentais similares será atraída para todo aquele que ocupar o escafandro de carne na condição de espírita com legítimas aspirações de melhora espiritual.
Estar reencarnado neste século na condição de depositários da luz do Espiritismo cristão significa transportar em si mesmo uma responsabilidade dilatada, referentemente aos destinos dos tempos novos da humanidade terrena.
O corpo físico se impregna de substâncias rarefeitas produzidas pelo estado mental do espirito, criando o campo áurico que pode ser chamado de "identidade vibratória".
O arrependimento, se por uma análise é a manifestação psicológica da alma em busca de novos caminhos, por outro ângulo é também o estado psíquico de atracção colocando a mente em sintonia com todo o conjunto de vivências enfermiças típicas de quem busca o resgate de si mesmo.
Somente com base no arrependimento foi possível esse transporte colectivo de almas afinizados com o Evangelho do Cristo.
O que mais apresentamos para o serviço divino senão o arrependimento sincero?
Somente a ilusão pode nos enfeitiçar com as cantigas de grandeza espiritual.
Se assim nos virmos, conseguiremos noções muito justas e motivadoras para a caminhada.
Encontraremos nessa percepção condições para superar as mentiras do auto-engano acerca de valores e virtudes que ainda não desenvolvemos.
Quem amar mais o Espiritismo que o seu próximo se enredará nas subtilezas das armadilhas emocionais das relações humanas.
Equivocados com suas supostas missões, muitos corações serão difusores devotados dos ensinos, campeões da caridade social, estetas da palavra, mas quase sempre arrogantes na convivência.
A pretexto de suas encantadoras tarefas pela causa, podem se descuidar por meio da acção fascinadora de velhos processos afectivos, sob orientação do egoísmo, tais como:
a indiferença para com os diferentes, a calúnia polida contra os esforços alheios, a inveja atordoante quando sentirem ameaça aos seus cargos e títulos, o apego a obras e realizações e, ainda, a intolerância para com as necessidades morais colectivas.
Esse cenário emotivo é capaz de lançar qualquer pessoa, mais cedo ou mais tarde, aos vales sombrios da desmotivação, da frustração, da ansiedade, do desgosto, do abandono e da mágoa.
E, para depois da morte física, ainda poderá expiar a angústia, a aflição e o arrependimento tardio.
A união será um dístico do movimento espírita que será cantado e repetido, todavia, sentiremos quão grave desafio nos espera nesse sentido.
Em princípio, essa união será chamada unificação.
Posteriormente, quando os homens espíritas descobrirem que essa é uma expressão por demais desgastada em seus significados, será eleita como meta de nossa vida a fraternidade.
E fraternidade é força activa, promocional que se consolida no relacionamento.
Ninguém é fraterno somente por sentir.
Fraternidade é atitude.
As pessoas fraternas deixam espraiar de seus olhos a cordialidade sincera, o acolhimento.
As pessoas fraternas envolvem sem desejo de convencimento.
A fraternidade extermina o medo ameaçador da perda, porque nos faz perceber que somente tem o que perder quem se julga dono ou proprietário de algo.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:38 pm

Somente sob o jugo da prepotência, podemos acreditar que o contacto fraterno com as diferenças e com os diferentes pode ter um sentido de conivência e omissão com os ideais que esposamos.
Todos temos o direito de escolher nossa forma de pensar e agir na seara do Cristo, mas a nenhum de nós cabe o direito, e muito menos o dever, de excluir, denegrir e diminuir no intuito de defender a doutrina.
Ainda assim, esteja certa, dona Modesta, dias sombrios aguardam a seara espírita nesse terreno.
O Espiritismo será um espelho no qual teremos que nos mirar e reconhecer a extensão de nossa pobreza afectiva.
— Mas, Clarisse, haverá tanto rigor assim?
E o trabalho pela causa?
Surtirá efeito nessa conjuntura?
— Qual é a nossa causa, dona Modesta?
— O Evangelho.
— O Evangelho ou o que propõe o Evangelho?
— Nossa causa é o amor.
Você tem razão!
— Se essa é a causa, tudo mais à sua volta não passarão de caminhos, atalhos ou, quem sabe, desvios.
Ainda assim, mesmo com atalhos e desvios chegaremos à meta um dia.
— Não haverá nenhuma melhora mesmo fazendo esse percurso?
— Haverá muita rigidez nesses próximos setenta anos.
Depois, os expoentes da inflexibilidade envelhecerão e, novamente, tomarão contacto fiel com o estado íntimo que os animou no iniciar da caminhada: o arrependimento.
— Já velhos, se arrependerão?
— Alguns sim, outros se manterão na crisálida do orgulho, nutrindo as mais sinceras intenções de amar e ser úteis, mesmo repetindo uma das mais falidas lições da história religiosa da Terra: o desamor ao próximo.
— Nisso reside o problema.
— Nisso reside o desafio.
— A vivência da discriminação, do preconceito e de todas as doentias emoções do separatismo que patrocinam a cizânia é esperada em face do contingente de compromissos espirituais que mancharam nossa trajectória nas vidas sucessivas.
Junto a isso, nenhum de nós poderá se queixar de escassez de recursos intelectuais e mesmo sociais para vencer a prova.
— Clarisse, confesso estar um tanto decepcionada, entristecida.
Não sei se comigo ou com nossos irmãos.
Quando penso na tarefa desta noite em favor de irmão H., fico com um contraste no campo mental.
Um homem tão distinto.
Parece-me ser uma pessoa leal, boa.
Tão devotado!
Sua fala, minha irmã e suas previsões despertaram-me um estado de preocupação, um peso.
— Irmão H. é tudo isso que a senhora diz.
Um homem de valor realmente.
As projecções que lhe apresentei não devem direccionar nossa mente para a descaridade.
Reconhecer o futuro do movimento espírita que será conduzido por almas frágeis e com severos compromissos espirituais representa trabalho de apoio, extensão de solidariedade e muita acção fraternal de nosso plano.
Ser indulgente, porém, não significa ser tolo, ingénuo, imprevidente.
Por sabermos que os expoentes do Espiritismo apresentam um passivo de débitos tão oneroso é que nos desdobramos em servir e estender cada vez mais mãos acolhedoras.
Trabalharemos muito nesse segundo período de setenta anos com objectivos bem definidos. Compete-nos amparar e arar o terreno com medidas preventivas para a ingente tarefa da desilusão.
Irmão H. é um homem distinto e todos os que assumirão o papel de condutores da doutrina neste século são corações dispostos ao bem.
Mas recorde sempre disso em sua jornada:
nada mais apresentam de útil, assim como nós, para o serviço da expansão da obra cristã, que a condição íntima de espíritos arrependidos.
Somos os trabalhadores da última hora.


29 Jan Hus -(Husinec, Boémia do Sul, 1369 - Constança, 6 de Julho de 1415) foi um pensador e reformador religioso.
Ele iniciou um movimento religioso baseado nas ideias de John Wycliffe.
A igreja católica não perdoou tais rebeliões e ele foi excomungado em 1410.
Condenado pelo Concílio de Constança, foi queimado vivo.
30 O Livro dos Médiuns, capítulo XX, item 226, pergunta 2.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:39 pm

Capítulo 9 - Organização do Clero Espírita nas Comunidades Draconianas [/b]
[b]"O Espiritismo não cria a renovação social; a madureza da humanidade é que fará dessa renovação uma necessidade.
Pelo seu poder moralizador, por suas tendências progressistas, pela amplitude de suas vistas, pela generalidade das questões que abrange, o Espiritismo é mais apto, do que qualquer outra doutrina, a secundar o movimento de regeneração; por isso, é ele contemporâneo desse movimento."

- A Génese, capítulo XVIII, item 25.

— Clarisse, apenas para que fique bastante claro para mim: se você tivesse de resumir o que de mais grave carregamos em nós na condição de almas falidas, qual dessas opções você destacaria:
crimes, culpas, traições, poder, devassidão ou ambição?
— Nenhuma delas, porque todas são fruto de uma doença ainda mais severa que conduz todas estas.
— Que doença é essa?
— A ilusão.
— Ilusão acerca da grandeza da doutrina?
— Não, dona Modesta!
Ilusão acerca de nós mesmos; da suposta importância que julgamos possuir.
Sentirmo-nos mais importantes do que realmente somos.
Com base nessa importância pessoal ilusória gestamos a indiferença, o preconceito, a descortesia, a calúnia, a inveja e todos os monstros morais que avassalam e atormentam as relações humanas, tornando-as palco de discórdias e conflitos intermináveis.
É no relacionamento humano que nos revelamos.
Se não temos uma percepção real de nós mesmos, projectamos na convivência o conjunto dos hábitos, atitudes e sentimentos de conformidade com aquilo que imaginamos que somos.
A ilusão, nesse sentido, é uma operação do pensamento alimentada pelo sentimento.
Podemos estar esclarecidos que somos necessitados, entretanto, podemos sentir exactamente o contrário.
— Qual é o porquê disso?
— Defesa contra o sentimento de inferioridade.
— E por qual razão nos sentimos inferiores?
— Todo espírito arrependido tem como traço psicológico a sensação de incapacidade, vazio interior.
— Pensando assim, então toda a humanidade deve estar arrependida, pois ao que me parece aqui é um lugar de almas arrependidas.
— Dona Modesta, acredite: existe muito arrependimento de fachada.
Arrependimento intelectual, fabricado pelo pensamento e distante do sentimento.
— Como você definiria arrependimento?
— É o cansaço da alma em errar.
É íntimo e pessoal.
— Qual é o motivo desse orgulho, meu Deus!
O que acontece connosco?
Confesso-te que, mesmo acreditando sinceramente na sua palavra, não consigo me ver nessa condição.
Será que sou tão orgulhosa que não percebo?
— Não, minha irmã querida, não se inquiete!
Se lhes apresentamos esse cenário moral das almas atraídas para o Espiritismo cristão, é porque seu coração bondoso ainda não se contaminou com o orgulho pessoal na actual existência carnal.
O Sanatório Espírita de Uberaba é sua defesa, sua prevenção.
Enquanto cuida da loucura humana, da dor do semelhante, aplica em si mesma os antídotos contra a doença pertinaz da vaidade.
Aliás, quando Allan Kardec estudou a vida mental dos espíritos arrependidos em "O Céu e o Inferno", capítulo 7, artigo 10° deixou claro que três etapas definem o ciclo da melhoria:
arrependimento, expiação e reparação.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:39 pm

Arrependidos estamos; a expiação é a reunião das dores psicológicas inerentes ao crescimento moral e a reparação é o trabalho de reerguimento consciencial por intermédio da benevolência aplicada em favor do próximo.
A senhora, assim como muitos espiritistas, entregaram-se afectivamente ao serviço redentor da acção beneficente.
O contacto com a dor humana é o preventivo mais apropriado para a educação de nossos sentimentos à luz do Evangelho.
O orgulho não resiste à força da convivência fraterna, espontânea.
Só mesmo quem deseja impressionar, manter status de valor pessoal, fazer pose de missionário ou ainda ostentar atributos de destaque é que recorre ao expediente da frieza afectiva que sustenta a formalidade, a conveniência pelo personalismo recheado de ilusões de realce.
— Então, se é que assim posso me expressar, o Brasil tem uma importante missão perante o mundo e essa missão foi entregue a almas falidas!
— Foi entregue às almas que têm condição para o mister, mas que estão se julgando mais importantes que realmente são e necessitam ser em si mesmas os exemplos vivos de amor a que se destina nossa humanidade.
— Daremos conta, Clarisse?
— O tempo responderá, dona Modesta.
Estamos trabalhando com esse objectivo.
Conclamamos, nesse momento, servidores animosos em favor da formação de extensos poios de fraternidade legítima.
Imprescindível que os Centros Espíritas se resguardem na condição de Casas do Caminho da actualidade, cultivando o espírito da simplicidade e do afecto cristão.
Sem isso, o tempo se encarregará de promover a elitização mascarada, que vai sujeitar a seara aos descaminhos do conflito improdutivo e da competição insensata.
A cúria romana da Igreja de outrora regurgita sobre o solo psíquico do Brasil, no qual encontra a renovação de sua fé e de seus conhecimentos, graças à virgindade vibratória do país, que ainda conserva em sua psicosfera o archote da esperança no bem.
Necessário frisar que continuam católicos, religiosistas e querem hegemonia.
Entram nos Centros Espíritas e anseiam colocar seus pontos de vista estabelecendo uma miscelânea dos velhos sacramentos com os ideais novos da Doutrina Espírita.
São exclusivistas e acreditam que o Espiritismo poderá colocar a Igreja em melhores condições para cumprir sua missão gloriosa na face da Terra:
tornar toda a humanidade católica.
Admitem a imortalidade porque dela têm consciência; sabem que reencarnarão e esperam por isso aflitivamente; comunicam-se mediunicamente e adoram o passe.
Uma elite espírita-católica pretende assenhorear em definitivo do movimento espírita.
A senhora já presenciou a actuação dos padres em Uberaba.
Doutor Inácio articula-se para a réplica.
Há quem imagine os clérigos em posição de declarada oposição, entretanto, o quadro é mais complexo.
Existe competição por Centros Espíritas e, sem que percebam, inúmeras associações dessa ordem que começam a se multiplicar desde o início do século XX, são exploradas pelos dragões, que arquitectam uma nova prisão, dessa vez por meio do trabalho esclavagista.
São usados sem saber para gerar confusão, alimentar o dogmatismo e insuflar a concorrência.
Já chegamos a ponto, bem recentemente, em pleno iniciar deste segundo período do Espiritismo, de presenciar solenidades doutrinárias nas quais eles se assentaram à mesa de cerimónias das organizações espíritas completamente engalanados com paramentos e pompa.
Na plateia do referido evento misturavam-se encarnados e desencarnados em simbiose.
São casos de obsessões colectivas que, se não trabalharmos muito, poderão contagiar todo o movimento com costumes e atitudes aceitos de comum acordo entre ambas as esferas.
No psiquismo da comunidade espírita revelam-se os ideais sinceros de avanço provenientes do arrependimento, mas, concomitantemente, como não poderia ser diferente, ressuma um caldo cultural e mental que orientou milhões de almas em suas escaladas delirantes nos roteiros religiosos de todos os tempos.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:39 pm

Extrema lucidez intelectual desprovida de afectividade espontânea talhará personalidades portadoras de um "estranho amor".
Um amor pela causa que desama o seu próximo.
Um amor pelo ideal que repele quem pensa diversamente.
Um amor suspeito que acolhe os iguais e denigre os diferentes.
Peçamos a Deus que nos dias vindouros possamos cooperar com os rumos novos a que o Mais Alto nos conclama.
— Clarisse, não preciso repetir que estou perplexa com todas as novidades!
Minha mente é um remoinho.
Creio que preciso voltar logo para o corpo e me desligar um pouco daqui.
— De facto, dona Modesta.
Se ficar por aqui mais algum tempo, seu psiquismo se desarmonizará.
É a lei do equilíbrio.
Foi para isso que a senhora voltou ao corpo. Abafar.
Tomar contacto com a luz da verdade, paulatinamente.
Assim como o homem reencarnado não pode ficar integralmente na matéria, e dela se desprende pelo sono, também não se pode exagerar no tempo fora do corpo diante da realidade da vida imortal.
— Só preciso lhe fazer mais uma pergunta, sem a qual acredito que não terei sossego.
— Faça-a.
— Esse grupo de espíritos católicos estava também preso no Vale do Poder, certo?
— Sim, estava.
— Como chegou até aqui?
Foi libertado e espera a reencarnação?
— Não, dona Modesta.
A situação desse grupo, que já se conta em milhares e chegará aos milhões até o findar do século XX, veio para cá pelos caminhos que fizeram aquelas seis entidades hoje socorridas no Centro Umbandista.
— São escravos?
— Foram libertados com a condição de assumirem o Espiritismo.
São assalariados dos dragões.
Os chefes da maldade organizada são muito inteligentes e têm uma visão social muito ampliada.
Perceberam que seria mais económico e menos arriscado para seus integrantes um ataque indirecto.
Quando detectaram o afrouxamento nos tenebrosos catres do Vale do Poder, com inúmeras baixas nos postos de sua organização, recuaram em seus planos de atacar o progresso da ciência e da indústria31, que floresceu no virar do século e centraram todos os esforços na vigília sobre o Vale do Poder.
Milhões de almas ainda aprisionadas traziam em comum processos conscienciais de culpa e remorso destruidor.
Milhões de adeptos da mensagem cristã.
Quando perceberam que o destino daqueles que eram de lá libertados era a reencarnação no seio do Espiritismo, começaram a estudar com detalhes a nova táctica do bem, conforme eles próprios denominam.
Vieram por meio de denúncias compreender o mecanismo colectivo do transporte da árvore evangélica.
Foi quando começou a se espalhar a notícia de que Allan Kardec estaria reencarnando por volta do início do século XX.
Um alvoroço estabeleceu-se na Cidade do Poder.
As reuniões ordinárias foram canceladas.
Os planos suspensos.
As negociações paralisadas.
Diversos conciliábulos, assembleias dos graduados da organização, foram levados a efeito visando a fortalecer as medidas.
Ficou claro nessas reuniões históricas, e com farto material de arquivo aqui no Hospital Esperança, que o Espiritismo se fortalecia no Brasil.
Algo estava errado na concepção das legiões draconianas.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 25, 2018 8:39 pm

Se a doutrina feneceu na França sob os golpes da ciência, porque haveria de se propagar em outro local?
As equipes responsáveis por sufocar as primeiras sementes de amor plantadas por Bezerra de Menezes, Augusto Elias da Silva, Telles de Menezes e tantos outros idealistas foram chamadas a prestar contas.
Fizeram relatórios minuciosos sobre as ideias que proliferavam entre os espíritas que redundaram em excelentes resultados, gerando confusão e discórdia.
Insuflaram o separatismo pelos rótulos de místicos e científicos.
A desunião grassava, e na avaliação desse grupo não havia a menor expectativa de que o Espiritismo passasse da primeira década do século em solo brasileiro.
Razão pela qual a ideia da volta do codificador apavorou tanto essas comunidades.
Gastaram aproximadamente duas décadas para dimensionar o que acontecia.
Por volta da Primeira Guerra, quando novamente o psiquismo da Europa foi abalado por novos caminhos políticos e espirituais, detectaram a movimentação das esferas mais elevadas na acção de reconduzir o tronco judaico-cristão no fortalecimento do ideário espírita.
Esclarecidos sobre as medidas do transporte da árvore evangélica, planearam o inevitável.
Sabiam que não pode existir tormenta maior para almas fracassadas que colocá-las juntas respirando o clima da insatisfação e da angústia.
Por uma questão de afinidade de necessidades, e mesmo de interesses, a ideia foi oferecer "liberdade" para que ajudassem uma causa nova.
Poderiam se infiltrar à vontade nas casas doutrinárias e "colaborar" com os espíritas no futuro de uma ideia moderna para o Catolicismo e a mensagem do Evangelho.
Às primeiras casas espíritas fundadas no início do século chegavam turbas que lotavam o ambiente espiritual.
Um clima muito complexo era criado.
Vinham acompanhadas por dragões aspirantes e vigiadas o tempo todo.
Acreditavam que tal medida exterminaria imediatamente os primeiros grupamentos espíritas, mas uma reacção em cadeia, inesperada, tomou conta da história do Espiritismo no país.
A discórdia patrocinou a divisão em novas células e, não obstante o clima de anti fraternidade, o facto de aumentar o número de casas igualmente diluía a proporção das acções, isto é, também os dragões tiveram mais trabalho a cada dia, agilizando a "libertação" de novos prisioneiros com o intuito de não perderem o suposto controle que julgavam cada dia mais alcançar.
O movimento espírita passou a contar com uma sombra permanente em sua psicosfera, um psiquismo crescente e de difícil extirpação, cujo núcleo é a remição da culpa.
Não somente nas reuniões mediúnicas era notória a presença do clero.
Os ambientes, os conceitos e as práticas da seara passaram a reflectir a presença do prelado, que nesses dias do ano bom de 1936 chega a ponto de propor uma organização específica de católicos espíritas aqui em nosso plano.
O facto ocorreu em recente conclave nas cercanias da cidade do Rio de Janeiro.
O objectivo é tornar os espíritas um segmento moderno do Catolicismo na tarefa de arrebanhar adeptos.
Para esse grupo que centuplica a cada semana, eles cumprem uma "missão" outorgada pela falange de poder dos dragões.
A missão consiste em mostrar aos espíritas como conduzir o Espiritismo para ser a religião do futuro.
Dotados de extrema arrogância e dispostos a reconhecer os princípios da doutrina, adentram os centros na condição de proprietários, escolhendo seus "sucessores".
Nos dias que passam, não temos alternativas a não ser uma convivência minimamente pacífica com eles, caso queiramos evitar conflitos de maiores proporções.
Irmão H. está cercado por velhos laços dessa ordem, na condição de importante clérigo que foi alguns séculos atrás.
— Aquelas entidades assistidas hoje são apenas contactos esporádicos?!
— São reforços dos dragões para atiçar-lhe o estado de culpa e garantir postura de indignidade relativamente aos livros mediúnicos abençoados que, sob sua direcção e supervisão, começam a ser produzidos no movimento espírita sob a égide da federação.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:35 pm

O primeiro ato social do Espiritismo no mundo foi alicerçar a Era do Espírito.
A codificação e o trabalho de Kardec cumpriram esse mister.
O segundo ato social, em pleno desenvolvimento, é o saneamento psíquico do Velho Mundo -a emigração de almas falidas no Evangelho.
O mérito indiscutível do Espiritismo, sem quaisquer reducionismos, não foi somente o de reafirmar a imortalidade, um princípio já consagrado em várias culturas, mas sim o de dissecar esse tema, esquadrinhando a anatomia da morte, conferindo-lhe carácter lógico e ético.
A lógica adveio da experimentação e a ética sobressaiu como sendo a alma das ideias espíritas.
A lógica ilumina a razão para a conquista de uma fé racional, e a ética impulsiona o ser para a adopção dos caminhos libertadores, rumo à consciência divina de nós mesmos.
Conceber o Espiritismo como mero movimento ou uma doutrina é uma forma de institucionalização.
O Espiritismo não cria a renovação social nem a espiritualidade do povo, a Terra avança paulatinamente para a maioridade na busca da noção abrangente de civilização.
Essa maioridade humana é que requer uma doutrina tão clara quanto o Espiritismo.
As pessoas se espiritualizam com ou sem o Espiritismo.
O mérito indeclinável do Espiritismo é impregnar a Era do Espírito com carácter ético ascensional, para que a visão imortalista não constitua apenas mais um dogma religioso a enfeitar de belos raciocínios o palavreado metafísico nos instantes de lazer.
Dona Modesta, somos nós as personalidades que alteramos a pureza da mensagem cristã.
Daí a razão de tanta inclinação nesta década de 30 para a pureza cristalina da filosofia espírita.
Mais por dramas conscienciais que por amor à causa, queremos preservá-la dos supostos erros de interpretação.
Aceitamos regressar como espíritas para tentar corrigir esse erro.
Todavia, pruridos venenosos consumam-se nos bastidores das organizações.
Eis a nossa tarefa: semear o trigo.
Tentar ceifar o joio a tempo.
— E caso não consigamos?
— Teremos, ao findar do século um Espiritismo elitizado e recheado das tradicionais acções separatistas.
Teremos novos proprietários da verdade a difamar e a caluniar quantos não se alinhem aos padrões aceitáveis para o exercício da prática espírita.
Assim, o homem distraído de seus deveres maiores ante a consciência amará a doutrina e desamará o seu próximo, repetindo condutas infelizes, relegando a atitude de amar independentemente dos pontos de vista.
— Clarisse, angustia-me tais notícias!
— Vamos trabalhar, dona Modesta!
Que alternativa nos resta senão essa e a confiança em Nosso Pai de Bondade?
— Como ajudarei?
— Queremos seu aval para o socorro a essa semi-civilização escravizada nos vales da sombra.
Temos uma infinidade de corações necessitando dos serviços complexos de incorporação e reconstituição perispiritual.
Espíritos no sono da inconsciência procuram as reuniões mediúnicas para ser socorridos.
Preferem dormir e dormir eternamente.
Queremos despertá-los.
Acolhê-los no afecto que há muito não experimentam.
Eles necessitam do contacto com a substância salina do sangue humano.
Como se encontram, não existe ventre materno que os suporte.
O processo biológico da reencarnação seria afectado sobejamente.
Alguns já foram abortados naturalmente em mais de dezoito tentativas reencarnatórias.
O choque anímico ser-lhe-á benfazeja medicação regeneradora.
— Quando começaremos, Clarisse?
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:35 pm

— Imediatamente.
Na próxima noite a traremos para que presencie o serviço de socorro desde seu início, sob orientação de doutor Bezerra.
Será muito importante que a senhora vislumbre que o fenómeno socio-espiritual do transporte da árvore evangélica não é um acontecimento isolado no contexto da humanidade.
A par dos factos que ora averiguamos, inúmeros movimentos colectivos se operam em todos os rincões da Terra, entre as mais diversas etnias de variadas esferas de vida no corpo e fora dele.
Além disso, será uma óptima ocasião para conhecer a tarefa de Cornélius, que lhe inspirará os roteiros de aprendizado junto a essa casa de amor.
— Não vejo a hora de cooperar!
— Antes que a senhora regresse ao corpo, quero lhe deixar uma mensagem.
Registo em seu coração e em seu pensamento a imagem de Matias.
— Não consigo me desligar.
— Pergunte o que quer saber.
— Ele vai...
— Reencarnar?
— Sim.
— Vai, dona Modesta!
Não será por agora!
Precisamos de suas habilidades por aqui algum tempo.
Matias necessita de maior dose de esclarecimento, sem o qual sua volta ao corpo poderá ser uma arriscada incursão em vivências religiosas.
Seu estado mental está aos frangalhos.
Mantenha-se sossegada, ele está bem e as perspectivas são óptimas.
— Aflige-me sentir tanto amor por alguém como ele.
Respeitarei o tempo apropriado, mas não vejo o instante de ter noções mais claras sobre nossos laços.
— Regresse agora, dona Modesta.
Integre-se no seu corpo guardando esse sentimento elevado que une nossas almas no ideal de servir.
Mesmo com a borrasca prometida, alimente o clima da esperança e do optimismo na luz que vem de nosso Pai.
Recordo-me até hoje dessa noite abençoada.
Retornei ao corpo em tão amplo bem-estar e com lembranças tão nítidas daquele desdobramento, que o tempo não conseguiu apagar da memória as lições edificantes que me guiam até hoje nos serviços de Jesus.

31 Nota da editora -a revolução industrial consistiu em um conjunto de mudanças com profundos impactos em níveis económico e social.
Iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII, expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:35 pm

Capítulo 10 - O Compromisso Espiritual de Minas Gerais com o Evangelho
"A Terra, conseguintemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas revelando todos, como carácter comum, o servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à lei de Deus.
Esses Espíritos têm aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência.
É assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo redunde em proveito do progresso do Espírito."

Santo Agostinho (Paris, 1862.) - O Evangelho Segundo o Espiritismo -capítulo III -item 15.

Como de costume, cada dia da minha vida tornou-se uma reprise daquilo que, durante a noite, povoava meus momentos de serviço e aprendizado.
Inácio já se preparava a cada manhã para ouvir as boas novas que iria trazer aos nossos divertidos diálogos nos escassos instantes de refazimento, no Sanatório Espírita de Uberaba.
No regresso ao corpo físico, guardei lembranças fiéis sobre a actividade de que participaria na noite seguinte.
Pensava como seria o contacto com doutor Bezerra fora da matéria.
Seria muito diferente da vidência?
Passou rápido o meu dia.
E logo estava mais uma vez a varar os espaços em aprendizado.
Amigos queridos ciceronearam minha saída do corpo.
Levaram-me de modo seguro e confortável pela volitação até os portais de saída do Hospital Esperança, onde se preparavam as equipes socorristas.
Grupos saíam e chegavam a todo instante.
O ambiente assemelhava-se ao um pronto-socorro lotado.
Quem vivia os sossegados dias da década de 30 no plano físico não podia imaginar a agitação em que já se encontrava a humanidade desencarnada àquele tempo.
Espíritos com caracteres europeus, muito feridos, alguns mutilados chegavam inconscientes em macas sob assistência em regime de urgência.
Juntei-me a um grupo de aprendizes cuja tarefa naquela noite seria acompanhar o médico dos pobres, doutor Bezerra, em uma missão de amparo.
Não demorou e chegaram Clarisse e doutor Bezerra, acompanhados por vários companheiros das equipes de defesa.
Cangaceiros, policiais e cooperadores de postos socorristas mais próximos ao planeta compunham o grupo.
Clarisse reuniu-nos em uma sala para o preparo, doutor Bezerra permanecia em estado de profundo transe, com os olhos fechados, a dizer:
— "Amigos, peçamos a Jesus, nosso Tutor, que inspire as iniciativas desta madrugada.
O ódio toma conta de agrupamentos enlouquecidos nos campos europeus.
Adensa-se uma pesada nuvem sobre o solo da Alemanha e do Japão.
Países vizinhos e distantes conectam-se às enfermiças emanações desse ambiente sombrio.
Planos de hegemonia e racismo enceguecem multidões sob a chancela do progresso, decantada por líderes subjugados por elites das falanges draconianas.
Pedidos de socorro são expedidos de todas as latitudes nos postos de amparo e acolhimento mais próximos à psicosfera terrena.
Nos últimos anos, desde a Primeira Guerra mundial, essa loucura colectiva que arrasou cidades e ceifou milhões de vidas, a humanidade respira sob efeito de uma venenosa poeira de ódio, que se agiganta a cada dia.
O interesse egoístico das nações ludibriadas com o velho deslumbramento pelo poder está arando o solo das mentes para uma carnificina sem precedentes.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:35 pm

Forma-se, neste momento, o eixo, uma elite dos dragões que comanda operações colectivas no intuito de arruinar de vez a sociedade e tomar conta da Terra.
Ideias envernizadas para o bem da continuidade ideal da raça escondem planos de extermínio e hegemonia.
Estamos no instante exacto em que será deflagrado o clímax da transição planetária nos próximos cem anos.
Se dos infernos sobem as chamas mais ardentes da maldade organizada, de Mais Alto são movimentadas as mais enérgicas medidas de intercessão visando a abreviar a dor humana.
Ainda assim, assistiremos a uma hecatombe no plano físico ante o desenrolar das últimas iniciativas levadas a efeito no Japão e na Alemanha.
Um terrível clima de insegurança ronda as colectividades.
Nossa tarefa consiste em agir preventivamente para não agravar ainda mais os efeitos infelizes da insensatez e da maldade.
Penetraremos os fundos poços da escravização e visitaremos um coração enfermo.
Vocês estão vendo as condições em que chegam os corpos espirituais nas macas.
A guerra desse lado já começou ou, melhor dizendo, não cessou desde o iniciar deste século.
Mister que esse ódio inflamável seja vomitado e provoque um choque.
Consultemos, assim, a palavra dos Sábios Orientadores da Verdade.
Bastante grande é a perversidade do homem.
Não parece que, pelo menos do ponto de vista moral, ele, em vez de avançar, caminha aos recuos?
Enganas-te.
Observa bem o conjunto e verás que o homem se adianta, pois que melhor compreende o que é mal, e vai dia a dia reprimindo os abusos.
Faz-se mister que o mal chegue ao excesso, para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas.
-O Livro dos Espíritos questão 784.
O mal será colocado em praça pública como em nenhuma época da história.
A dor e a maldade se encontrarão face a face, como nunca nesse orbe.
Disso resultará o progresso e a liberdade.
Das cinzas e dos escombros, o homem aprenderá que o bem tem mais força.
Façamos o possível para minorar a tristeza que tomará conta da humanidade na próxima década.
Que Deus seja louvado no bem de todos."
Terminada a fala do benfeitor, fizemos os últimos preparativos e rumamos em serena volitação até a psicosfera da Alemanha, mais especificamente sobre os céus de Nuremberga.
Doutor Bezerra trazia os olhos marejados e mantinha-se em comunhão mental estreita com esferas superiores, sob amparo directo de Maria de Nazaré.
Uma névoa pardacenta cobria a cidade, recordando as características climáticas de locais secos e com escassa umidade no ar.
Uma aridez que incomodava não só porque causava a sensação de desconforto, mas também o sentimento de medo.
Já no solo, oramos e caminhamos a pé, como cidadãos comuns.
A cidade estava tomada pelas forças do partido nazista em ambas as esferas.
Não éramos percebidos.
Congressos de propaganda eram desenvolvidos nessa cidade objectivando a ascensão do partido e a exaltação da figura do führer.
Diversas equipes, que já nos aguardavam, juntaram-se ao grupo e chegamos a uma igreja localizada no plano físico de Nuremberga.
Em verdade, o templo tornou-se circunstancialmente um posto de assistência das regiões subcrostais entrelaçadas com aquele país.
Para minha surpresa, Cornélius saiu de uma porta no posto.
Estava com as vestes empapadas por substâncias de péssimo odor.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:35 pm

Acabara de realizar uma cirurgia delicada em um soldado.
Após os cumprimentos, Clarisse assumiu a direcção das tarefas.
Oramos de mãos dadas e nos transportamos juntos para a sub-crosta, por meio de uma desmaterialização seguida de uma condensação do quantum energético de nossos corpos espirituais.
Adensamos nossos perispíritos para nos adaptar ao regime de vida das regiões dentro do magma terreno.
Automaticamente nossas fisionomias se alteraram.
Todos mais magros e mais velhos, irreconhecíveis.
A própria vestimenta que usávamos obedeceu aos mesmos princípios.
Ficaram desgastadas.
Cornélius distribuiu para cada um de nós uma flâmula da suástica que media dez centímetros quadrados.
Sugeriu que a dobrássemos e a guardássemos no bolso como uma identidade para aquele local, caso tivéssemos alguma ocorrência inesperada.
O ambiente era escuro, solitário, húmido.
Andamos uns cem metros.
A temperatura subia vertiginosamente.
Gritos eram ouvidos a distância e uma luz adiante indicava uma clareira.
Parecia que algo muito amplo, qual fosse a iluminação de uma cidade vista ao longe, existia logo adiante.
Pedras pontiagudas de um metro e meio compunham um muro natural com estreitas passagens entre uma e outra.
Paramos atrás de uma delas e vimos os vigias do lugar com armas e fardas idênticas às usadas pelos exércitos alemães.
Alguns jogavam cartas, outros mantinham a segurança.
Estávamos ao lado de um lago de enxofre, região de águas paradas, algumas geladas, outras escaldantes, como aquela em questão, nas quais viviam muitas almas em regime de remorso e doença.
O lago espalhava aquele um cheiro forte que recordava alguns ácidos da farmacopeia humana.
Odor tolerável, mas acentuadamente hipnotizante.
Fiquei com muita sede e com uma leve vertigem.
Um de nossos componentes carregava uma pequena bilha com medicação sedativa.
Aqueles que sentiam mais intensamente os efeitos do ambiente tomavam um gole.
Senti-me bem melhor e mais ambientada.
Cornélius pediu-nos silêncio absoluto.
Fechou os olhos e se transformou quase por completo.
Sua face, agora clara, recordava os povos nórdicos, germânicos.
Balançou a cabeça e saímos todos juntos em direcção ao lago.
— Alto lá! -manifestou com energia o vigia logo que nos viu.
— Somos amigos -asseverou Cornélius.
— Qual o nome?
— Johann -falou nosso orientador em alemão fluente.
— Partido?!
— Sou socialista cristão.
— Venera o...?
— O führer está em meu coração.
Sem nosso apoio, que será do futuro?
— Mostre a insígnia.
— Se é tão importante para você, ei-la.
Fique de presente - Cornélius tirou a bandeirola do bolso, entregando-a ao vigia, que manifestou agrado.
— Quer alguém do lago?
— Sim. Estou acompanhado desses brasileiros que se interessam em levar alguém para outro lugar.
— Eu conheço esse velho de barbas.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:36 pm

— Sou Bezerra de Menezes.
— Mudou só o nome.
— Nada para meu filho. Nada para.
— Digam logo o que querem e se retirem.
Hoje é dia agitado com a presença da elite.
Mal terminou de falar, e um grupo integralmente paramentado passou por nós em marcha.
Usavam os uniformes da SS, força especial de combate de Hitler.
Nem sequer olharam para o lago.
Marchavam com a mente dirigida ao campo Zepelim, local de pompa naquele dia de congresso em Nuremberga.
Os soldados ficaram vidrados com a cena, e fizeram pose de reverência.
Fiquei tensa com a energia emanada.
Doutor Bezerra olhou-me com carinho e sua irradiação revitalizou-me.
— Não disse? Logo virá outro batalhão.
— Trabalharei rápido, soldado! -exclamou Cornélius.
Logo em seguida, Cornélius e mais seis técnicos pularam.
Literalmente mergulharam como em uma piscina e desapareceram.
Ficamos doutor Bezerra, Clarisse, mais alguns aprendizes e eu.
Foi então que presenciei uma cena horripilante.
Mãos cobertas com aquele líquido gordurento começaram a surgir de dentro do poço em direcção ao local onde pularam nossos trabalhadores.
Sons agudos que recordavam lobos uivando me faziam arrepiar da cabeça aos pés.
O lago ficou agitado.
Em minha mente passava a ideia de que nossa equipe estaria sendo sufocada.
Foi então que comecei a ver as primeiras cabeças surgindo de dentro para perto do solo.
Ficavam deitados com meio corpo para fora do líquido no solo, bem perto de nós.
Olhei nos olhos de doutor Bezerra, que se mantinha sereno, correndo a visão por todo o ambiente como se fora um radar.
De sua mente partia um fio ténue em direcção ao alto.
Aproximei-me um pouco mais do lago.
O soldado fez um gesto de que iria me impedir e olhou para doutor Bezerra, que balançou a cabeça com uma autorização.
Passei já trémula e lívida com tudo o que via.
Sentia uma perda energética intensa.
Não me contive e ajoelhei perto daquela criatura totalmente estranha.
Para meu espanto, ele, deitado, olhou para meus pés à frente dele, ergueu com dificuldade a cabeça e pronunciou:
— Você, mamãe?
Quase não segurei a emoção de tanta dor.
Um adulto com uma voz tão infantil procurando sua mãe.
Em uma fracção de segundo procurei algo para dizer, mas não consegui.
Meus olhos soltaram lágrimas que me queimavam a face de dor.
E novamente ele repetiu:
— Você, mamãe?
Tomada por forças que vinham do coração generoso de doutor Bezerra, não segurei mais meus sentimentos, ajoelhei-me e disse:
— Sim, sou mamãe.
— Mamãe, ajuda eu... arrepend... arre... - ele não conseguia terminar em razão dos espasmos que o faziam se contorcer involuntariamente.
— Arrependeu; meu filho?
— Arrependeu, arrependeu, arrependeu... - ele começou a repetir incontroladamente a palavra.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:36 pm

Doutor Bezerra chorava e levava um lenço aos olhos.
Clarisse aproximou-se, agachou a meu lado e orientou:
— Dona Modesta, tome esta toalha.
Enxugue a cabeça dele, toque com a mão direita no coronário e mantenha-se vigilante.
Fiz o que Clarisse pediu e ele se acalmou.
Não sabia se havia adormecido ou algo assim.
E fui colhida de surpresa, pois à nossa frente emergiram três seres bizarros que gritavam connosco.
Assustei-me e me ergui por impulso, indo em direcção a doutor Bezerra.
Eles pegaram o pé daquele ser adormecido e o puxaram sem nenhum escrúpulo para dentro do lago.
Antes, porém, um deles deitou sobre o dorso de nosso irmão, acoplando-se por completo à sua forma, como se deitasse sobre um colchão.
Estava pálida e com dificuldade para respirar.
Fui assistida e levada para mais distante do lago.
Assim que saí, o soldado alemão chamou mais três auxiliares e vedaram a aproximação do lago.
Um pouco refeita, olhei novamente para o açude e ouvia agora gritos estridentes e palavrões da época.
Cenas como a que acabara de presenciar repetiram-se algumas vezes, quando alguns espíritos procuravam o solo firme.
Da mesma forma, eram arrastados de volta por aquelas criaturas estranhas.
Alguns dos vigias nazistas intimidavam quem tentasse fugir com uma lanterna muito potente, cuja luz de cor roxa era dirigida aos olhos das entidades adoecidas e as queimavam.
Em alguns minutos, ressurgiu nossa equipe.
Cada qual trazia consigo um coração socorrido.
Saíam do lago andando com nítida dificuldade respiratória.
Estavam enlameados por aquela substância idêntica à gordura, emanando o cheiro de enxofre remexido, que queimava as mucosas de minhas narinas.
Apareceram todos de uma só vez.
Colocaram aquelas pessoas no que vou chamar de praia do lago.
Todos estavam desacordados, inertes.
— Estes são os que eu preciso - falou Cornélius na língua dos guardas.
O guarda abaixou-se e, com um lenço, limpou o rosto semicoberto pela sujeira do doente e disse:
— Esta não pode levar. É judia.
— Tenho ordens expressas para levar todos.
— Tem carta de exílio para eles?
— Não se trata de exílio.
Serão forças activas para o futuro.
Vamos recompô-los para servir.
— Acaso pertence a algum campo novo, johann?
— Em terras brasileiras uma nova sementeira se organiza?
— O führer tem conhecimento disso?
— Todos os que devem saber sobre o que aqui estamos fazendo já foram informados.
— Mas a ordem que tenho é libertar somente com carta de exílio.
— Nesse caso terei de recorrer à patente?
— Senhor, qual é a sua patente?
— Veja! -Cornélius mostrou a patente do reichsführ, algo similar a um marechal de campo nas milícias de Hitler.
— Senhor! -manifestou o soldado, em máxima reverência.
De nada fomos avisados. Hay Hitler!
— Mantenha-se no posto, soldado.
Cuide a contento dessas criaturas.
Ainda viremos aqui inúmeras vezes.
Seu trabalho é facilitar e vigiar para que ninguém crie novos padecimentos.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:36 pm

Compreendeu? - externou com firmeza o nosso benfeitor.
— Sim senhor! Hay Hitler!
Armamos as macas dobráveis e saímos carregando os nossos socorridos em direcção à crosta.
Foi tudo muito rápido e sem empecilhos a considerar.
O regresso se fazia mais difícil.
A psicosfera do ambiente ficava mais difícil de suportar a cada minuto.
Espantei-me quando passamos por um local muito frio.
Formas similares a rostos humanos observavam-nos escondidas atrás das rochas.
Alguns estendiam a mão, como se dessem adeus, outros como se pedissem ajuda.
Choros sofridos eram ouvidos durante todo o trajecto.
Meu nível de percepção no regresso estava muito mais acentuado.
A certa altura da caminhada, fomos abrigados a parar.
Três criaturas desfiguradas subiram em uma das rochas e nos apontaram suas armas.
Eram pequenos e, mesmo com toda a compleição humana, andavam de quatro usando seus longos braços.
Magros, sem cabelos e muito amarelados, pareciam feitos de cera.
Não usavam nenhum tipo de roupa e não possuíam genitália.
Na enorme órbita de seus olhos podia-se observar uma peça de vidro que recordava uma lente roxa.
Seu rosto aproximava-se de um crânio sem musculatura, magérrimo e com boca muito saliente, única parte na qual se notava um pouco de musculatura.
Saltaram de trás das rochas com habilidade, e com a mesma destreza sacaram revólveres usados na Segunda Guerra.
Não falavam nada compreensível.
Ao moverem os lábios, podia-se ouvir uma palavra em idioma desconhecido.
De seus corpos começou a sair um vapor que vinha em nossa direcção.
Era de coloração amarelo-pardo.
Cornélius, percebendo a movimentação criou com uso de pulsos energéticos, batendo as mãos, um campo similar a um escudo, com alguns metros de diâmetro, no qual aquele vapor batia e se diluía.
Ficamos todos protegidos, mas o benfeitor saiu por uma das pontas do escudo e Clarisse saiu pela outra.
Ambos foram em direcção aos seres, que ampliaram ainda mais a quantidade daquela cortina gasosa.
Como perceberam que em nada éramos atingidos, guardaram suas armas e sumiram na escuridão.
Outra equipe já nos aguardava na igreja.
Logo ao chegar, pudemos ouvir tiros de canhão.
Começava a fala de Hitler no campo Zepelim, incendiando as mentes de ambos os planos para os ataques vindouros.
Sentia-me muito cansada e recostei em uma poltrona para receber vitalização energética, providenciada por doutor Bezerra.
Foram feitos preparativos rápidos nos doentes e, usando alguns veículos de nossa esfera, rumamos com agilidade para o Brasil.
Chegamos à pequena e pacata Pedro Leopoldo.
No Centro Espírita encontravam-se Chico Xavier e outros colaboradores tarde da noite e ainda em tarefa.
Ainda não conhecia o médium a esse tempo, algo que ocorreria mais tarde.
Residíamos muito distantes, e o transporte em nada favorecia nossa proximidade.
Era uma reunião muito íntima.
Chico havia terminado o serviço da escrita mediúnica e relatava ao plano físico a nossa chegada.
Cornélius, que pelo visto já o conhecia muito bem, pediu-lhe que se afastasse da mesa e colocou os sete espíritos socorridos à sua volta.
O médium percebia tudo com clareza e aguardava as orientações.
Observamos que todos os doentes eram magneticamente atraídos para perto do medianeiro.
Parecia um ímã de alta potência.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:36 pm

Um deles começou a se contorcer, e Chico, percebendo a acção, olhou para ele com intensidade e orou.
Nossa equipe movimentava forças sobre o doente.
Repentinamente iniciou-se um processo célere de transformação perispiritual naquele coração que se contorcia.
O enfermo ficou de cor verde.
Parecia coberto de lodo.
Nódulos pequenos, como escamas, começaram a surgir por sobre as pernas, que se juntavam e fundiam-se uma na outra.
Parecia agora uma cauda.
No lugar dos pés, algo que lembrava um chocalho tremia com firmeza e fazia um som estridente.
Os braços entravam nas costelas e a mesma camada de nódulos agora cobria todo o tórax.
A cabeça ficou longa, fina em cima.
Os lábios desapareceram e, no lugar do nariz, apenas dois pequenos orifícios.
Os olhos tomaram uma coloração laranja vibrante.
Inegavelmente era uma enorme serpente à nossa frente.
O benfeitor Cornélius tocou-lhe na cabeça.
A palma de sua mão parecia ter grudado a tal ponto que levantou aquele ser e, literalmente, o empurrou para dentro do corpo do médium.
O médium contorceu-se todo, tombou no chão sem nenhum amparo e emitia silvos que doíam os ouvidos.
As demais entidades, de forma mais lenta, começaram, igualmente, a mutação de algumas partes de seus corpos.
Chico estava totalmente inconsciente.
O espírito agia como um peixe que acabara de ser retirado da água pelo anzol impiedoso.
Remexia-se e expelia líquidos de coloração negra pela boca.
O médium fazia vómitos e salivava intensamente.
A equipe encarnada agora protegia o corpo do médium para evitar algum acidente.
O corpo franzino do médium parecia ser agora um gigante em força e agilidade.
Olhando de nosso plano, a entidade tinha pelo menos duas vezes o tamanho do médium, embora estivesse dentro dele.
Uma enorme serpente dentro de um corpo humano.
Cornélius e a equipe de técnicos aplicavam choques electromagnéticos com aparelhagem própria, na entidade.
Outros cooperadores monitoravam as batidas cardíacas do médium, que processavam uma arritmia acentuada.
Sua pressão caiu a níveis perigosos.
Após três minutos, notamos que por todo o corpo da serpente começou a gotejar sangue.
Substância sanguínea, mas um pouco pastosa.
A entidade parecia exausta.
A pele da serpente rompia-se instantânea e naturalmente.
O médium parou. Estava lívido.
A entidade igualmente.
Médicos especializados se aproximaram ligeiramente com pinças e gazes.
Abriam vários cortes pelo corpo espiritual da entidade e rasgavam em várias tiras, como se fossem folhas de bananeiras.
Por fim, na cabeça foi aberto um corte da nuca até o que seria o queixo em um ser humano.
Como se fosse uma roupagem, dois enfermeiros de um lado e dois de outro puxaram sem cessar.
Lembrava uma vagem sendo aberta formando um "v".
Quando chegou à altura da cauda, nova incisão foi feita e retiraram de vez aquela veste. Lá estava agora, à nossa vista, um ser humano em estado horripilante, pior que antes.
Após a retirada do casulo fluídico, podíamos ver que era uma mulher cadavérica, esquelética, sem cor.
Cooperadores diversos limpavam o ambiente, recolhendo aquelas carcaças de mau odor.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 26, 2018 8:37 pm

Limpavam a mulher.
Tudo durou dez minutos, aproximadamente.
As demais entidades não completaram a mutação e demandavam mais tempo nas incisões.
O médium continuava sendo socorrido no chão.
Cooperadores do grupo molhavam seu rosto para que regressasse à consciência.
Nada a preocupar.
Maria João de Deus32, durante todo o processo, estava com Chico fora da matéria, administrando informações sobre a natureza do trabalho.
O ambiente afável e simples da casa espírita era um oásis a refazer nossas próprias forças.
Cornélius tomava todas as providências para que retornássemos ao Hospital Esperança.
Tínhamos ali mais sete corações da árvore evangélica com possibilidades renovadas para o futuro.
Corações sinceramente arrependidos, no entanto, sem uma gota de força para o recomeço.
A tarefa visava erguê-los.
Resgatá-los dos lamaçais do sofrimento para que encontrassem as mínimas condições de retorno ao seu curso evolutivo, o destino em direcção à perfeição.
Até àquela época, as iniciativas mediúnicas desenvolvidas por Eurípedes Barsanulfo, no iniciar do século XX, foram o alicerce da mediunidade curativa e da incorporação de benfeitores.
Com Chico Xavier, passamos a contar com uma nova referência inspiradora para as actividades socorristas, cujo cerne foi arejar o psiquismo do planeta.
Graças às suas corajosas e despojadas reuniões de amparo desobsessivo, passou a se multiplicar na seara os serviços de incorporação e assistência consoladora a almas em sofrimento e perturbação.
Ele próprio, com poucos anos de exercício, fora chamado a novo género de passividade junto aos intercâmbios com nossa esfera, mas não podemos deixar de registar que sua missão iluminada não se circunscreveu a lapidar a inteligência mediante as informações literárias.
Sua mediunidade abençoada, nesse tempo, foi a fonte inspiradora para muitos médiuns que se lançaram, abnegadamente, ao trabalho do fenómeno mediúnico automático, permitindo as mais belas florações de espontaneidade e amparo aos que peregrinavam sem rumo na erraticidade.
Após a tarefa socorrista, transferimos os doentes para o Hospital Esperança.
Somente Clarisse e eu regressamos juntamente com a equipe de servidores.
Doutor Bezerra e Cornélius juntaram-se a um novo grupo em direcção a Belo Horizonte para outros misteres.
Todos os sete foram acolhidos com a fraternidade exemplar dos tarefeiros na ala de entrada do hospital.
Depois de devidamente alojados, ainda desacordados, aproximei-me daquela mulher socorrida.
Olhei com piedade e emoção incontida.
Aquela mulher estirada no leito fazia minha mente voar.
Teria sido uma mãe bondosa abandonada?
Teria sido uma mulher de fibra que esgotou suas resistências?
Que história carregava aquele ser para chegar a tanta desdita.
Perder temporariamente a forma humana, meu Deus!
Que condição a nossa!
Percebendo-me a tristeza, Clarisse abordou-me como se tivesse lido meus sentimentos.
— Nossa irmã é a prova evidente de que a Lei do Criador se cumpre sempre em nós mesmos.
Por mais que tenhamos sido alvo da ganância e do desrespeito, da violência e da traição, ainda nos resta o direito de perdoar e prosseguir em nosso caminho.
Entretanto, temos optado pela vingança, pela tragédia.
— Clarisse, como ajuizar sobre o drama dessa mulher?
Por que Cornélius e os cooperadores trouxeram esses sete?
Muitos gritavam no poço!
Por que doutor Bezerra demonstrou tanto carinho por ela?
Que futuro espera nossa irmã?
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