Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:43 pm

Separar por classes do bem e do mal é mera questão didáctica e figurativa.
Ainda que estejamos dispostos a enfileirar nas trincheiras do bem, temos um passado sombrio e ignorado em nossa intimidade, que apela para as mais profundas e lentas operações de regeneração.
A prova disso é que o nosso bem ainda é condicional.
Basta que se firam as fibras mentais do interesse pessoal, e logo se revela o velho homem espiritual com suas mágoas, aversões, revolta e ódio.
Quantos não são aqueles que começaram o plantio das sementes vigorosas de sua reeducação e, por bagatelas, arrojaram-se, irreflectidamente, na acomodação, na fuga ou mesmo regressaram aos torvelinhos da maldade intencional?
O transporte da árvore evangélica será revelado ao movimento sagrado dos homens em torno das ideias espíritas.
Possivelmente, extensa maioria irá se deliciar com a notícia, supondo-se campeões de virtudes e missionários investidos de delegações divinas.
A ilusão do orgulho poderá incensar vertigens de grandeza espiritual, tão somente em razão do conhecimento e das boas novas que serão reveladas ao mundo pela mediunidade, nesses próximos setenta anos do século XX.
Sentir-se-ão, de facto, donos da verdade.
— Com tendências tão acentuadas de se apropriar da verdade, como eles se portarão na comunidade espírita?
Teremos novos religiosos de fachada?
Causa-me estranheza pensar nesse quadro da vida comportamental.
— Não falemos deles, dona Modesta. Falemos de nós, porque também pertencemos a esse género de aprendizado.
O traço mais marcante da vida mental que assinala nossa caminhada espiritual é o egoísmo.
Falar de egoísmo, no entanto, sem permear seus reflexos na actividade de cada dia poderá nos deixar vazios de conceitos claros sobre essa doença da alma.
A arrogância é a manifestação mais evidente do egocentrismo humano.
Arrogância à luz dos princípios espirituais pode ser definida como manifestação sombria do ego humano, a parte inferior do egoísmo que, na escala evolutiva, é um legítimo princípio de ascensão que assegura a funcionalidade do instinto de conservação.
O egoísmo é uma semente divina colocada no homem para o bem.
O Livro dos Espíritos deixa isso claro na questão 907.
O excesso, ou seja, a paixão exclusiva por si mesmo, é a arrogância, uma forma híbrida e adoecida do ego.
Doença milenar, o egoísmo é de difícil diagnose, sendo uma de suas propriedades a hipnose que cria para investigá-lo na intimidade de cada um de nós.
As condutas mais prováveis de ser experimentadas nesse vasto espectro da vida moral são o preconceito, a inveja e a vaidade.
O preconceito patrocina a intolerância, a ausência de alteridade, a incapacidade de prezar a diversidade humana.
A inveja alimenta o subtil espírito de disputa que insufla o desprezo, a intriga e a animosidade.
A vaidade, como filha predilecta do orgulho, incensa o poder que abre espaços no sentimento humano para as extravagâncias da rigidez e da destruição do afecto por meio da exclusão silenciosa e envernizada.
Tais condutas constituem as expressões mais evidentes dos subtis sentimentos de orgulho que, segundo a análise lúcida de Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, item 228, é a imperfeição que menos confessamos a nós mesmos.
Muitas serão as máscaras socialmente aceitas para fugirmos de olhar com integridade para nossos comportamentos.
Somente desenvolvendo uma ampla habilidade de honestidade emocional poderemos superar as motivações que sustentam essa hipnose do egoísmo.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:43 pm

A ausência de uma identidade psicológica sólida e afinada com a parcela divina que existe em cada um de nós responde por uma das mais cristalizadas experiências motivadoras desse egoísmo: a conivência grupai.
Trabalhar por essas falanges tem também outro carácter histórico nesse momento de implantação das Verdades Divinas no orbe.
O missionário da mediunidade nas terras mineiras é portador de um direccionamento para a mensagem do Consolador.
Seu nome, repito, é Francisco Cândido Xavier, que inicia seus passos nesta década na pequena cidade de Pedro Leopoldo.
Ele, mais que um fenómeno mediúnico, é a confirmação da imortalidade para o mundo físico.
Tarefa essa que contraria o que os dragões mais querem esconder da humanidade.
Socorrer essas falanges da maldade organizada significa cooperar decisivamente com essa obra grandiosa do Cristo, aliviando as pressões sobre o mandato mediúnico de Chico Xavier, como é conhecido entre os amigos e de todos que se alistarão no desafiante percurso de implantação do bem entre os homens.
Será tão cristalina a realidade que esse missionário vai trazer, que os próprios seguidores do Espiritismo haverão, por longa data, de se debater na descrença pessoal.
Ele será um missionário do livro mediúnico e da conduta cristã.
Sua obra, no entanto, será alvo de ataques infindáveis e, mesmo aqueles que aderirem ao valoroso caldo cultural de sua literatura mediúnica, o farão mais pela razão que pelo coração, insuflando dogmas, sectarismo e elitismo que reflectem as velhas tendências desse grupo que reencarnará sob a directriz dos roteiros espíritas.
A hora avançava pela madrugada quando Clarisse solicitou que fosse feita uma última pergunta.
Chegava o instante de regressar ao corpo.
Um dos integrantes do grupo manifestou.
— Assim como houve um exílio em outro planeta, aqui também haverá deportação? - perguntou um dirigente no grupo.
— Possivelmente! - respondeu Isabel com lamento.
— Quem vai ser deportado da Terra?
Nós, espíritas, podemos estar incluídos nesse grupo?
— Meu irmão, permita-me reformular a questão com expressões mais cristãs -respondeu Isabel com afecto.
Façamos uma reflexão por outro prisma, ou seja, quais são os critérios para se continuar na Terra.
Somente as almas decididas a explorar seus potenciais divinos latentes encontrarão condições mentais possíveis à continuidade nos destinos superiores do planeta Terra rumo à regeneração.
Semelhante conquista só será atingida com a seguinte receita moral:
relação harmoniosa com a consciência, equilíbrio nos interesses pessoais, caridade nas relações e disposição de servir.
Superar ilusões, ser solidário, conviver fraternalmente e desenvolver atitudes de amor, respectivamente.
O mecanismo evolutivo do estágio terreno foi pautado até agora pelo foco na terapia da dor.
O maior obstáculo espiritual, o egoísmo, somente é tratado com medicações dolorosas.
Toda história de ódio e perversidade iniciou-se com a perda de algum interesse pessoal.
São as perdas necessárias que operam na alma a remição consciencial.
Entretanto, quase sempre a nossa reacção diante do testemunho da insatisfação foi de agressividade e revolta.
Chega o instante de um percurso diverso pelas sendas do trabalho e do aprendizado efectivo nos roteiros do sentimento educado.
Somente abandonando as expressões mínimas do mal em nós mesmos nos candidatamos a permanecer no planeta.

25 Langerton Neves da Cunha - Nasceu no dia 8 de janeiro de 1929, na cidade de Jubaí, localizada no Triangulo Mineiro, estado de Minas Gerais.
Aos sete anos, teve manifestas as faculdades mediúnicas de tal modo que aos oito anos começou os deveres espirituais dentro da Doutrina Espírita.
26 Nota da editora -consulte o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, do autor espiritual Irmão X, psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:44 pm

Capítulo 6 - Aspectos Psicológicos e Emocionais dos Dragões
"O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências"

-O Céu e o Inferno -artigo 16" -capítulo 7.

As actividades daquela noite abençoada encerraram-se.
Antes de regressar ao corpo, roguei ao senhor Eurípedes dispensasse carinho e atenção ao caso de Matias, dispondo-me, igualmente, para quaisquer contribuições que pudessem auxiliá-lo na recuperação.
Despertei na matéria com a mente repleta de recordações e sentimentos.
Matias não saía de minha tela mental.
Uma saudade inexplicável carcomia meu coração.
Vezes sem conta, naquele dia, brotavam imagens mentais da França.
Outras cenas assustadoras de regiões espirituais estampavam em minha retina psíquica como se fossem lembranças de locais conhecidos.
Ao retomar minhas actividades diárias no sanatório, logo cedo fui interrogada por Inácio, que sempre se mostrava curioso pelas questões da alma.
— Alguma novidade durante a noite, Modesta?
— Lembro-me de Eurípedes, doutor Bezerra e Isabel de Aragão em um amplo salão que reuniu vários trabalhadores espíritas.
— Isabel de Aragão?
— Foi uma rainha portuguesa no século treze.
Devota dos pobres.
Chegou a ser canonizada.
Conhecida como a Rainha Santa de Portugal.
— E qual foi o objectivo do encontro?
— Chamar a nossa atenção para o momento em que vivemos relativamente aos destinos do Espiritismo no Brasil e nos convocar a serviços socorristas em favor do submundo astral.
Após fazer uma súmula do conclave, expressei o que sentia.
— Tenho comigo que teremos um longo desafio pela frente.
Será preciso muita discrição e, nesse sentido, gostaria que fizéssemos um acordo, Inácio.
— Quanto vai me custar? - debochou com sua típica índole, enfiando a mão no bolso.
— Vai custar muita cautela e reserva.
Uma relação honesta e transparente entre nós pelo bem da causa.
Como não temos ainda muitos companheiros dispostos e comprometidos, haveremos de manter cuidados para que a superficialidade de alguns e o desejo de domínio de outros não destruam nossas chances de trabalhar pelo Cristo.
— Seja mais clara, Modesta!
— Temos aqui no sanatório uma obra que resultou do amor sincero e da liberdade.
Nada fizemos para destaque pessoal.
Amamos os doentes e não nos sentimos especiais pelo que fazemos.
O futuro, porém, nos trará testes no intuito de ruir esses pilares morais.
Pelo que depreendi dessa noite de vivência fora do corpo, nossa comunidade espírita corre sérios riscos de perder a simplicidade do trabalho e da fraternidade e se embrenhar por velhas condutas religiosistas.
Teremos um Espiritismo do Cristo, livre, inovador e voltado para a consciência.
E teremos um Espiritismo dos homens, cativo de mordomias e focado na formalidade elitista.
— Ficaremos com o primeiro.
— Sem dúvida.
Esse é o nosso desafio:
respeitar a todos e continuar nosso caminho particular.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:44 pm

Surgirão normas e rigidez, manteremos o livre pensar e o livre agir.
— Modesta, haverá o risco de um novo Catolicismo no seio do Espiritismo?
Um estado político-religioso?
— Não sei se chegará a tanto, mas é possível.
Nosso acordo é não seguir a direcção das massas.
Temos um compromisso particular com Jesus.
Pelas explicações obtidas, a comunidade espírita está recebendo um grupo de almas com severos compromissos morais com o personalismo, extremamente envolvidas com a história religiosa do cristianismo e do judaísmo.
— Já não me dava bem com os padres de fora da doutrina e eis que agora eles virão para dentro do Centro Espírita em novos corpos.
Era o que faltava!
— Como disse Isabel, é um transporte de esperança, e nisso firmaremos nossa visão.
— E como está Matias?
— Desacordado e com fortes contracções e dores.
— Teremos novas notícias?
— Creio que nosso caminho está entrelaçado com o dele, como disse Eurípedes ontem à noite, por intermédio da fala mediúnica.
Lembra?
— Sim, eu me lembro.
— Creio mesmo que os dragões serão nossos novos educadores.
Mesmo não conseguindo precisar com detalhes, as informações agora obtidas me fazem senti-los como filhos que ficaram no tempo.
Sinto laços pelo coração com esses seres.
— Filhos que, certamente, serão cobradores implacáveis em razão da opção que fizemos pelo bem.
— Mantemos o acordo? -e estendi a mão a Inácio.
— Enquanto durarmos na carne, e além se nos permitir o Senhor respondeu Inácio, sem titubear.
Assim que terminei o diálogo, dirigi-me à minha sala para providências rotineiras.
Fechei a porta e, quando me assentei, a porta foi aberta por uma mulher mulata, forte, com um vestido de chita surrado de cor vermelha e lenço branco na cabeça.
— Pois não, o que a senhora deseja? -perguntei supondo que fosse uma interna novata no sanatório.
— Venha! -falou estendendo o braço e me chamando para segui-la.
Instintivamente levantei, como se estive em transe hipnótico e sem nada questionar.
Ela deslizava no ar a alguns centímetros do chão, dirigindo-se para a porta de entrada do sanatório.
Tive de segui-la com rapidez.
Ao chegar ao saguão de entrada, ela parou e apontou com o indicador para o outro lado da rua.
Quando cheguei bem perto e estava prestes a perguntar o que ela queria, simplesmente desapareceu.
Fiquei olhando para onde ela apontou e vi um homem bem trajado, com o chapéu na mão, estático, como se estivesse indeciso.
Olhando com cuidado, vi que era alguém conhecido e busquei na memória.
Antes, porém, ele se aproximou e me cumprimentou.
— Dona Modesta, como vai vossa mercê?
— Bem, e o senhor?
— Estou precisando de ajuda -falou com os olhos marejados.
A senhora se lembra de mim?
— Leandro Serra? -ao recordar quem era, tomei-me de curiosidade e o pensamento voou longe...
— Eu mesmo.
— Que boa surpresa!
Vamos, entre -levei-o até minha sala.
— Tenho passado maus bocados, dona Modesta.
Desde que Matias faleceu, acontecimentos nefastos caíram sobre minha existência.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:44 pm

Parece que a punição por minha falta com a serviçal Conceição abateu-se sobre toda a minha família.
Mesmo pedindo sua ajuda para cuidar de meu filho bastardo, creio que não fiz o bastante.
Creio merecer o que estou passando.
A fala inicial de Leandro me fez buscar em um segundo a história de abandono narrada por ele próprio alguns anos antes, quando cuidei de Matias no Ponto Bezerra de Menezes.
— O que tem acontecido, senhor Leandro?
— Fenómenos estranhos.
Minha lavoura incendiou-se inúmeras vezes, espontaneamente.
Em princípio, os capatazes supunham a existência de um vizinho inimigo.
Depois passamos a ver o fogo entrar em combustão a olhos nus, sem nenhum artefacto que o provocasse.
Algumas vezes chegamos a ouvir gritos e uivos.
Corre agora a fama de que a fazenda está amaldiçoada.
Minha esposa tem crises nervosas e não dorme com medo de o fogo chegar na casa.
Tenho sonhos com Conceição e Matias vindo em minha direcção com tochas acesas.
— O senhor pode me descrever Conceição?
— É uma mulher mulata, alta.
Estava sempre de lenço branco na cabeça.
Era sua cor preferida.
— Ela costumava usar vestidos de chita?
— Isso mesmo! Sempre usava um vestido vermelho com pequenos frisos de cor azul no tórax.
— O que ela faz em seus sonhos?
— Ela chega com tochas, mas não lhe sinto ódio.
É como se desejasse conversar.
— E Matias?
— Matias, em meus sonhos, é um inimigo cruel que deseja me queimar vivo e devagar.
— Creio que poderemos ajudá-lo.
— Preciso de muita ajuda, dona Modesta.
Não sei o que fazer para aplacar minha culpa.
Estava aí fora, na porta do sanatório, e fiquei estático só de pensar em entrar para conversar, mesmo carecendo de paz e orientação.
Já estava a ponto de ir embora quando a senhora apareceu à porta.
— Façamos um momento de silêncio.
Orei rogando a doutor Bezerra a protecção e estendi as mãos sobre a cabeça de Leandro Serra, conforme havia aprendido com Eurípedes.
Logo o assistido começou a chorar incontidamente.
Dei-lhe um copo com água.
E após respirar de forma ofegante por várias vezes, disse:
— Estou aliviado, dona Modesta. Obrigado.
Um homem como eu chorando... Só faltava isso!
— Qual de nós nesta Terra não tem motivos de sobra para chorar, meu irmão?
O choro dignifica a alma que sofre.
Abandone esse preconceito.
Antes de ser um homem, o senhor é um espírito na busca de sua redenção.
— Tem razão, dona Modesta!
— Senhor Leandro, Conceição esteve aqui.
— Ela está aqui agora? -expressou curioso.
— Não, ela já esteve.
Quando apareci na porta do sanatório, fui guiada por ela.
— Pois vou confessar uma coisa.
Se a senhora não aparecesse ali naquele momento, estava prestes a desistir de tudo.
Não sei o que faria!
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:44 pm

— Por quê?
— Fiquei em dúvida se a onerava com meus reclames pessoais.
A senhora já é uma mulher tão atarefada e...
— Senhor Leandro, tire isso da cabeça.
O princípio moral fundamental do Espiritismo é o bem.
De tal forma, minha vida consiste em fazer o que posso nesse sentido.
— A senhora acredita que Conceição me perdoou?
— Não só o perdoou como ainda quer ajudá-lo, pelo que depreendo.
— Eu lhe confesso que isso só aumenta minha culpa, dona Modesta -e deixou rolar novas lágrimas.
— Tenha calma, meu irmão.
A vida o está chamando para novos destinos.
Veja como tudo acontece:
Conceição o trouxe aqui e o senhor não vai acreditar, mas ainda ontem, na nossa reunião mediúnica, socorremos Matias, depois de tantos anos.
— Matias?
— Sim.
— A senhora teve contacto com ele também?
Como ele está?
— Em recuperação.
E tenho para mim que essa assistência deverá colocar cada coisa em seu lugar.
Certamente, os Bons Espíritos estão trabalhando pelo bem de todos vocês.
— A senhora acredita que seja Matias quem tem feito mal à minha família?
— Não só ele.
As iniciativas do mal na vida espiritual raramente são acções isoladas.
Matias está consorciado a espíritos infelizes.
— Terei de acertar minhas contas não é, dona Modesta?
— Qual de nós não tem contas para acertar, senhor Leandro?
— O que me recomenda fazer?
— Como se chama sua esposa?
— Laurinda.
— Venha com Laurinda aos nossos serviços de assistência nocturna aqui no sanatório.
O senhor ainda reside em Araguari?
— Sim. Temos residência fixa.
— Estarei aguardando na próxima semana.
— Agradeço sua cordialidade, dona Modesta.
— Agradeçamos aos amigos espirituais que tanto têm feito por nós sem que saibamos.
— Tem razão.
Farei isso em minhas orações.
A visita de Leandro Serra dava continuidade às inúmeras e sucessivas ocasiões que começaram a se desenrolar naquela semana inesquecível do ano bom de 1936.
A semana correu célere.
Chegada novamente a noite das actividades de intercâmbio, Clarisse, com sua típica ternura, tornou-se perceptível à minha vidência.
— Dona Modesta, paz em sua alma.
Estamos com Matias aqui.
Precisamos muito de seu amor por ele.
Peça a, doutor Inácio, para ter muito carinho no diálogo.
Com automatismo ímpar, o comunicante apoderou-se de minha fala, sem nem sequer me permitir dizer algo a Inácio, que dirigia a sessão.
— O senhor outra vez, doutor Inácio?
— Matias?
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:44 pm

— Eu mesmo. Não me reconhece?
Por que veio me visitar, doutor?
Acaso acha que estou mais louco?
— Eu não fui visitá-lo.
Você foi quem veio novamente à mesma reunião.
Como está desta vez?
Matias se mostrava muito confuso.
Com febre alta.
— Seu hospital não presta.
Estou pior que ontem -ele havia perdido a noção de tempo, supondo ter conversado connosco um dia antes, quando já tinha se passado uma semana.
— O que sente, Matias?
— Eu quero me levantar e andar.
Estou pesado.
Seus remédios me pioraram doutor.
Que tipo de médico é você?
Quero sair deste hospital. Vou pedir vingança.
— Vou lhe aplicar um recurso. Fique quieto!
Inácio usou nossa técnica de espalmar as mãos, que ainda, a esse tempo, não era totalmente conhecida como passe, mas tinha outras nomenclaturas.
— Sente-se melhor?
— Com sono e muito cansado.
— Você gostaria de nos dizer algo sobre seu sofrimento?
— Está querendo minha confissão, doutor?
— Confissão, Matias!
Acaso me confunde com algum padre?
— Então o que quer ouvir?
Ruína? Mentira?
Quer saber como é o inferno?
— Adoraria ouvir algo que me ajudasse a compreender como chegou a esse ponto.
— Pois bem! Eu vou falar de minhas desgraças.
Está disposto a ouvir doutor?
— De coração aberto.
— Fala-se muito por aqui em anjos e espíritos elevados.
Eu nunca vi nenhum.
Quem me estendeu a mão foram aqueles que moram nas profundezas.
Fui alvo de uma cruel traição, que me tirou a vida.
Vida, aliás, que já não era nada fácil.
— Conheço sua história recente, Matias.
— Um pai covarde.
Uma mãe que se foi cedo.
Viver para quê?
Qual a razão de estar na carne com uma vida tão miserável?
Sei que não presto.
Aqui, porém, sou reconhecido.
Tenho bom tratamento.
Tinha, melhor dizendo!
Porque agora nem sequer sei a razão de me encontrar em seu hospital tão desprezível.
Do lugar de onde vim não queria sair.
Lá, não tinha um corpo.
O corpo nos obriga a ter uma nova identidade e a enxergar o que não gostaríamos. Matias!
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:45 pm

Quem é Matias?
Para que existiu Matias?
Para chorar a morte de uma mãe?
Para ter ódio de um pai omisso?
— A reencarnação é uma bênção, Matias!
— O senhor se equivoca.
Reencarnar é pagar conta.
— É alívio para almas como nós.
— De que adianta esse alívio?
O inferno tem recursos para aliviar também.
Para que ir ao corpo e perder as lembranças que nos interessam?
No corpo a gente perde o controle.
Fica bobo. Aceita até a religião.
Para mim, ser religioso é o mesmo que passar a vida como imbecil.
Olha quanta gente se castrou aí para chegar aqui e se enrolar em problemas sérios que não resolveu.
Aqui posso controlar.
No corpo manda Deus.
— Você está controlando actualmente, Matias?
— Estou.
— Como você pode afirmar isso no estado em que se encontra?
Não consegue respirar com serenidade.
As informações que temos é que você não consegue sequer levantar dessa maca.
— Não posso negar.
Tenho comigo que logo isso passa e vou para o lugar que me pertence.
— Então por que esse inferno e seus representantes não te buscam?
Por que te agrediram dias atrás e o deixaram semi-morto na porta de nossa casa hospitalar?
— Vão vir ainda.
— Creio que não, Matias.
Você está mudando e não sabe.
A dor da desilusão te cegou até mesmo para as vitórias que você empreendeu em seu favor, na intimidade.
— Vitórias! Sou um fracassado de longa data-
— Tenho a certeza de que não é assim que o Cristo pensa a seu respeito!
— E o senhor ainda me fala que não é padre!
Acaso sabe ler o pensamento de Jesus?
— Não sei. Deduzo, porém, que se você chegou até este hospital, que é uma das casas erguidas em nome de Jesus, Ele está te protegendo.
— Jesus! Esse nunca aparece.
Deve estar longe tomando conta de algo importante.
Creio que Jesus deve ter a consciência em paz por ter criado o inferno para nós.
— Agora é você quem quer adivinhar o que sente o Cristo!
— Eu não ligo para o Cristo.
Se Ele tivesse interesse em mim, teria me dado uma reencarnação melhor.
O corpo não me interessa mais, nunca mais...
— Nas furnas não há esforço para saber quem somos verdadeiramente.
— Acaso não é melhor assim, doutor?
O que temos para nos vangloriar?
— Nisso eu concordo, Matias.
De nós mesmos muito pouco temos a vangloriar.
Entretanto, as furnas são antros de acomodação e fuga.
— Pelo menos lá temos um pouco de paz.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:45 pm

— Não é paz, Matias.
É ilusão.
— O senhor sabe alguma coisa sobre o que se sente nessas plagas?
— Sei um pouco.
Eu também acredito piamente ter vindo de lá.
Informações que a médium Maria Modesta tem recebido nos deixam cada vez mais esclarecidos sobre os nossos laços com os abismos.
— Têm faltado motivos na Terra para a alegria, doutor!
Imagine nesse quadro de quase desistência de viver, se não tivéssemos o dinheiro, o prazer, a diversão e as motivações que prendem o homem ao corpo...
Esse foi o meu caso.
— Concordo com você, Matias.
Ainda assim, a reencarnação é uma bênção.
A pergunta que faço é: por que Eurípedes Barsanulfo tem tanto interesse em protegê-lo no Hospital Esperança?
Não será isso sinal de uma grande melhora que nem você mesmo vê?
Acaso não vê com que carinho tem sido tratado por Clarisse?
— Do jeito como estou, o senhor ainda insiste em falar de melhora?
Veja com seus próprios olhos, doutor Inácio!
Veja meu estado! O que eu sou?
Um bicho? Um réptil?
Um escravo? Quem vai consertar isso?
— Você é um filho de Deus.
— Não! Eu sou escravo fracassado.
Nem para servo do demónio eu sirvo mais doutor!
Acho que o senhor tem razão.
Até mesmo o inferno desistiu de mim!
— Ou será você quem desistiu do inferno?
Matias, a essa altura do diálogo, demonstrou cansaço extremo.
Parou de falar e adormeceu.
Perdia os sentidos com rara facilidade em desmaios súbitos e intermitentes.
Durante a comunicação fiquei igualmente exausta.
Retornei ao corpo com certa dificuldade.
O peito arfava de angústia.
Foi uma incorporação de alívio para Matias.
Muito dele ficou em mim.
Como os reflexos eram intensos, orei em voz alta pedindo ajuda e, durante a oração, Clarisse assumiu minha organização física.
— Esperança na alma, meus irmãos -manifestou com sua ternura.
— Clarisse? -indagou Inácio para se certificar.
— Sim, doutor Inácio.
Estou recompondo a médium.
— Podemos conversar?
— Claro! Vim para isso e também para a recomposição da médium.
— Clarisse, quanto tempo gasta um espírito como Matias para se desiludir?
— A desilusão pode levar até milénios.
Antes disso, a criatura tem de se entregar ao arrependimento sincero, assumir sua fragilidade.
Matias começou seus passos nessa direcção nos últimos quinhentos anos.
Seu grupo espiritual, juntamente com a família Valois, na França, teve o aval de um nobre coração ligado ao Cristo, João, o apóstolo do amor.
Quando na pele de Francisco de Assis, João, o apóstolo amado do Cristo, reencontrou com esse grupo de almas culpadas.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 22, 2018 7:45 pm

Muitas delas na condição de familiares de Francisco.
O processo da desilusão é uma operação do pensamento, todavia, as raízes da vertigem moral se encontram no sentimento.
São as personalidades afectivas.
A ciência do futuro as chamará de complexos afectivos.
Sabemos que não somos especiais, todavia, não sentimos assim.
Falamos de nossa insignificância ainda nos sentindo importantes.
O pensamento sob o comando de velhas estruturas cristalizadas da afectividade processa a ilusão.
— Matias voltará ao corpo?
— Dentro de alguns anos será necessário.
Não sem antes prepará-lo melhor para a empreitada.
Suas queixas desta hora não deixam de ter algum sentido.
Ele necessita assumir com mais lucidez o comando de sua própria existência.
É um espírito com elevado teor de baixa auto-estima.
Esse, aliás, é um dos efeitos mais habituais de quem serve às furnas.
Perde sua identidade, é enganado.
É levado a crer ser o que não é.
Matias terá um enorme trabalho para recuperar sua identidade psicológica.
O objectivo central de seu reingresso na matéria deverá girar em torno dessa questão.
— Um espírito com essa natureza psicológica, como se porta na reencarnação?
— Com dores emocionais intensas e graves.
— Quais dores?
— Principalmente o medo.
— Isso não seria o piso mental das doenças psiquiátricas?
— De alguma forma, sim.
Tais dores podem desestruturar um psiquismo.
Necessário lembrar que as dores em si são resultados, e não causas dessa possível desarmonia mental.
— Pode clarear o assunto?
— As dores são sintomas de doença já existente.
Matias colhe os frutos de sua própria plantação.
O espírito, quando chega a esse patamar, certamente já vem adoptando condutas milenares que constituem no tempo a causa real de semelhante efeito.
Em seu inconsciente está o mapa de provas e vivências que a ele compete seguir.
A culpa é a raiz da doença, o remorso é a zona mental de estacionamento na doença e o arrependimento é o único caminho viável de recuperação sem, contudo, eximir o ser espiritual de experimentar as dores que resultam de suas loucuras de outrora.
O ponto de equilíbrio da mente em estado de arrependimento é o trabalho de reparação que lhe trará alívio e tonificará as engrenagens subtis no corpo mental para irradiar a luz da fé, esse alimento essencial sem o qual ele não teria como se sustentar na caminhada da sanidade e na conquista da lucidez.
— Que faz um espírito para isso?
— Arrogância, doutor Inácio!
Orgulho! Egoísmo! As velhas doenças morais de todos nós.
Fechado em si mesmo pelo egocentrismo milenar, pensando acima de tudo e antes de tudo em si próprio, o espírito termina por instalar na intimidade um profundo desamor a si mesmo.
Isso porque a Lei Divina inderrogável é o amor, a forma mais correta de pensar e agir em nosso próprio favor.
O egoísmo é prisão.
O amor é libertação.
O egoísmo é circuito energético endógeno.
O amor é força centrífuga de expansão.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:56 pm

Esse fechamento vibratório cria correntes pesadas de energia capazes de prender o ser em padecimentos íntimos dolorosos.
— Matias estaria interessado em alguma mudança?
— Matias está arrependido.
Cansado de si mesmo.
Esse cansaço da alma é o estopim de retorno do Filho Pródigo.
Quando ocorre, queremos algo novo.
Desejamos sinceramente novos caminhos.
— Pelo menos, a meu ver, ele não demonstra isso.
— Quando queremos mudar verdadeiramente, no princípio, nem nós próprios sabemos o que ocorre.
Há uma fase mais ou menos longa de tristeza dilacerante e confusão nas intenções.
Não queremos mais ser quem éramos, contudo, não sabemos quem queremos ser ou como vamos ser quem queremos.
Matias está no clímax dessa situação depois de cinco séculos seguidos de arrependimento vazio.
— Arrependimento vazio?
— Aquele em que nada se faz para ir adiante e refazer os caminhos.
Puro remorso.
Por isso, um preparo sólido antes do retorno ao corpo será necessário.
Uma missão aguarda Matias.
O trabalho de reparação será sua fonte de saúde.
— Missão? -expressou Inácio, com espontânea ironia típica de sua personalidade.
— Não se surpreenda, doutor Inácio, com as realidades da vida imortal.
Julgar é algo desafiante para qualquer um de nós em nossa faixa evolutiva.
— Clarisse, perdoe-me a descrença.
Não consigo acreditar nisso.
Como pode?
— Respeito seu sentimento.
Contudo, pense comigo no que o senhor mesmo disse a Matias:
por que será que Eurípedes lhe reservou tanto?
— Podem ser revelados tais motivos, Clarisse?
— Oportunamente, doutor Inácio.
Por agora gostaria, por caridade, que lesse o artigo 16°, do capítulo 7, de O Céu e o Inferno.
— Vamos lá!
Inácio pegou o exemplar e leu - "O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação."
"Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.
O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa.
Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação."
— Matias se arrependeu do mal.
Entretanto, ainda não fez o suficiente para reparar suas faltas.
Encontra-se na expiação da culpa e dos demais efeitos de suas acções na própria intimidade.
Nesse passo, torna-se indispensável a reencarnação.
— Um novo corpo.
— Uma nova identidade.
A chance de ter atenuada a acção expiatória das lembranças dolorosas que lhe assaltam a memória.
Reencarnar é aliviar, livrar-se do ónus contínuo da recordação aprisionante.
— Mas ele não esquecerá tudo.
Ainda terá algumas lembranças.
— Suas lembranças no corpo serão em forma de sentimentos que vai experimentar.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:56 pm

É o que o que o livro O Céu e o Inferno chama de expiação.
Cada recordação que se fixa na tela mental, tem no seu bojo um quantum energético de afectividade.
— Que sentimentos ele vai vivenciar?
— O aspecto emocional fundamental dos espíritos que se assumem psicologicamente como dragões é o sentimento de inferioridade, abandono e falibilidade, que são o piso para os estados emocionais de indignidade e fragilidade.
Aqueles que conseguem camuflar tais expressões do afecto pela força mental mantêm-se na condição de tiranos da instabilidade alheia.
Ninguém consegue, todavia, destruir tais condições íntimas inerentes ao ser espiritual.
Um dia esse quantum afectivo exterioriza-se, espraia-se e cria um colapso na vida mental.
Matias vai experimentar seus medos, estado crónico de culpa e baixa auto-estima, reflexos inevitáveis dos milénios na arrogância.
Sua dor interior mais cruel será a necessidade de aprovação alheia.
Os dragões são submetidos a hipnoses que lhes subtraem o poder da vontade.
Ele terá enormes obstáculos para reconhecer suas verdadeiras intenções e desejos, permitindo-se ser guiado, até certa fase da vida, conquanto tenha vasta sede de conquistas novas e objectivos pessoais.
Uma neurótica necessidade de aprovação social o perseguirá até que tenha a coragem de assumir a gerência do próprio mundo íntimo.
Por incapacidade de gerir sua vida interior, estará sempre em busca de apoio e orientação.
Isso lhe custará certamente muitas decepções e desastres na vida interpessoal, devido a exacerbadas expectativas que irá criar em relação ao mundo que o cerca.
Pais, amigos, tutores e quaisquer relacionamentos serão carregados de conflitos em razão da sua indefinição pessoal.
A isso denominamos expiação interior, algo inevitável e intransferível.
Além disso, Matias travará uma dor profunda no reconhecimento de sua fragilidade.
Isso lhe trará uma sensação de abandono e solidão, com efeitos no estado de humor que, quase sempre, será um traço de tristeza e irritação, ingredientes da insatisfação crónica.
Espíritos que assim reencarnam guardam forte tendência a negar o próprio corpo e os cuidados com a vida material, decorrente de uma rejeição inconsciente às suas reencarnações.
Toma-lhes uma apatia em relação a quaisquer ideais de melhora.
Essa tendência costuma manifestar-se em forma de conflitos perturbadores com assuntos da vida na matéria, como dinheiro, estética física, diversão social, sexualidade e administração das posses pessoais.
Além disso, muitos condicionamentos religiosos de clausura e puritanismo com relação à vida social vão assolar seu caminho desde a juventude até a madureza.
— E qual a chance de reverter esse quadro?
Parece-me, por sua descrição um episódio psiquiátrico grave.
— Na verdade, doutor Inácio, Matias, desde seu arrependimento, iniciado na tragédia de 24 de agosto de 1572, a Noite de São Bartolomeu, passou por várias fases de doença mental severa.
Actualmente, ele se encontra em seu momento mais lúcido dos últimos quinhentos anos, quiçá o momento mais lúcido desde que foi criado...
— Meu Deus! E ainda está desse jeito! Nem quero imaginar o que passou...
— Sem um ajuste intenso em seu campo mental, qualquer reencarnação nas condições em que ele se apresentou esta noite seria apenas com intuito expiatório, sem nenhuma possibilidade de regeneração.
Não é o caso em foco.
Tais reencarnações já foram demasiadamente experimentadas pelo nosso irmão.
Chega o instante da libertação, da remição consciencial pela reparação.
Isso não o impedirá de sofrer os ditames das algemas afectivas instaladas em seu coração.
Quando o espírito já desenvolveu certos valores em sua intimidade, apresenta probabilidades de transformar a expiação em libertação.
— E como isso é possível?
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:57 pm

— Consultemos O Livro dos Espíritos, questão 1.000.
Leia para nós, doutor Inácio.
Após a leitura completa, Clarisse destacou.
— Veja essa frase:
"Só por meio do bem se repara o mal, e a reparação nenhum mérito apresenta se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais".
Para que a expiação alcance o patamar de factor educativo da alma é imperioso que a dor seja mãe de habilidades, caminho para virtudes futuras.
Sofrer por sofrer não basta.
Matias tem muitas conquistas adormecidas que poderão servir de saltos evolutivos para sua caminhada e para a de muitas outras pessoas.
— Perdoe-me a curiosidade.
Modesta me contou a palestra a que assistiu alguns dias atrás no Hospital Esperança.
Porventura, será Matias um exilado?
— Qual sua opinião, doutor?
— Clarisse... Se tivesse uma, não lhe perguntaria!
— Doutor, creio que o senhor deveria manter uma cópia da mensagem do senhor Eurípedes em sua mesa para leitura diária.
— Eu a tenho aqui no armário.
— Leia, por gentileza, o 12° e 13° parágrafos.
Como sempre fazíamos nossas actividades com a luz acessa, Inácio deslocou-se e pegou a mensagem para a leitura.
— "A chegada de Matias a essa casa é o início de um trabalho que vai durar pelo menos dois séculos de intenso labor pelo bem.
O destino desse grupo é resgate e educação, em face das responsabilidades assumidas outrora.
O Sanatório Espírita de Uberaba é o embrião de uma quitação da insana Noite de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572, em Paris.
Nossa equipe trabalhará pelo erguimento de nossas próprias consciências à luz do Evangelho.
Matias é um espírito retirado dos charcos mais miseráveis do submundo debaixo de um lampejo de arrependimento.
Reencarna quase louco na família Valois, que foi o eixo sob o qual toda a trama de perversidade tomou conta de Paris naquela noite.
Ensandecidos com o poder, promoveram a referida tragédia religiosa em fins da Idade Média.
De lá para cá, o mesmo grupo de vínculos vem tecendo sua fieira espiritual para o recomeço."
— Entendeu, doutor?
— Creio que agora tenho mais perguntas ainda, Clarisse.
— Isso é bom.
— Estou ficando muito curioso acerca dessa noite de loucuras na França dos Médicis.
Será que todos, então, somos exilados? E a qual tronco pertencemos?
Casa de Israel ou Arianos?
Poderíamos dizer que os espíritas são arianos ou...
— Doutor! Deixemos o tema para uma ocasião oportuna!
Seu espírito de pesquisa nos será muito útil para as gerações futuras.
— Falemos, então, de Matias -expressou Inácio a contragosto.
— Concordo.
— Então o que você chama de reparação será a missão de Matias?
— Sem dúvida.
A única maneira de reparar é o labor incessante.
Matias renascerá com uma carta de esperança do Mais Alto, endossada pelo apóstolo do amor cristão, João evangelista.
— Quanto mais em trevas, mais atenção de Deus!
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:57 pm

— Eu diria, doutor Inácio: quanto mais em trevas, mais necessidade de Deus!
— Fale-me do novo corpo de Matias.
Renascerá com deformações?
— O corpo é o campo que retracta com fidelidade os reflexos de nossa intimidade profunda.
Sem ele não nos lançaríamos ao mundo das oposições, permanecendo estacionados nas experiências ilusórias da ansiedade e da acomodação, elegendo o menor esforço como sinónimo de sossego e paz interior.
Espíritos arrependidos como Matias não retiram tanto proveito de malformações físicas.
Do que mais necessitam é da luta com as malformações psíquicas.
Para isso, nada melhor que o retorno acrescido de uma condição que lhes permita trânsito livre pelas várias camadas da vida mental, sem que isso os desequilibre.
— E como isso é possível?
— Dando-lhe um escafandro com o qual possa mergulhar nas partes mais sombrias de si mesmo sem se perturbar.
Esse escafandro é a mediunidade, a mais cristalina fonte de autoconhecimento e auto-revelação.
Ela funciona como um espelho cravado no solo da vida mental, obrigando seu portador a se olhar ininterruptamente.
Os médiuns, comumente, são almas que não olham para dentro, de si mesmos há milénios.
A mediunidade é uma força de atracção para dentro estimulando o processamento íntimo de tudo aquilo que o médium percebe, com amplitude do lado de fora.
É uma legítima antena "puxando" de fora para dentro e integrando o médium, de forma educativa, na larga capacidade de percepção da vida que lhe permite a sua faculdade espiritual.
Ele terá também a bênção da Doutrina Espírita para guiar seus roteiros de reparação e crescimento íntimo.
Em plena juventude conhecerá bons grupos e, certamente, despertará uma clara necessidade de investir nas questões da alma.
— Matias é um dragão, certo, Clarisse? -exclamou Inácio apenas para confirmar o que já estava informado.
— Ele é um espírito na caminhada para Deus como nós.
Serviu ao comando dos dragões.
— Pelos informes, eu imaginava os dragões como seres mais poderosos e não frágeis como Matias!
— Os dragões têm muito poder, doutor.
Poder mental. Mesmo Matias, nestas condições, manifesta tal capacidade.
Do contrário, poderia estar a caminho da ovoidização, a perda da forma perispiritual por completo.
— Posso saber a graduação que ele atingiu?
Pelo que me explicou Modesta, existem os justiceiros, os conselheiros e os legionários.
— Matias já chefiou legiões em tempos idos.
Hoje, exactamente pela mudança paulatina que vem empreendendo em si mesmo, recomeçou seu trajecto como justiceiro, tendo sido deposto do cargo por ter falhado nas inúmeras "missões" a ele delegadas, inclusive o ataque ao sanatório.
Foi muito açoitado e castigado devido a isso, até aquele dia em que tentou colocar fogo em Egídio na enfermaria, quando então tivemos a chance de dar novo rumo à sua penúria.
As falanges que se organizam no mal dispõem de fartos conhecimentos sobre a alma.
Verdadeiras universidades são implementadas para a preparação de seus componentes.
Entre os temas que versam, os legionários desenvolveram recursos tecnológicos para medir a culpa e o arrependimento em nível laboratorial.
Não só por atitudes que denunciam tais sentimentos, os dragões aprenderam a mensurar tais estados psíquicos com escalas complexas e fiéis.
Quando é constatado esse quadro em seus integrantes, seja no plano físico ou astral, tomam providências de "recuperação".
Quando não obtêm êxito, seus correligionários passam a ser tratados com desdém ou, o que é mais comum, são aprisionados para castigos no intuito de reverterem o "insucesso".
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:57 pm

As prisões estão localizadas no Vale do Poder -periferia ampla da Cidade do Poder -nas quais existem calabouços, grotas, lagos de enxofre, lagos de gelo, salas de tortura, cemitérios de gaveta dos vibriões, paredões de penitência, corredores da morte, tribunais de inquisição, pântanos das escórias e tantos outros lugares de horror e crueldade que fizeram Dante Alighieri narrar no Canto XXXII, o Inferno, na Divina Comédia:
"E então eu olhei em volta e vi sob os meus pés um lago gelado.
O chão era tão duro e liso que parecia vidro.
As almas estavam submersas no gelo com apenas o tronco e a cabeça de fora.
Todos mantinham seus rostos voltados para baixo e batiam os queixos de frio".
Matias, assim como muitos adeptos das falanges Jraconárias ou draconianas, como são conhecidas, está perdendo a importância para os planos da maldade.
Graças ao serviço incansável dos intercessores socorristas nos abismos, hostes inteiras têm sido reconduzidas à reencarnação ou aos serviços de reajuste e recuperação aqui mesmo no plano astral.
É assim que se opera lentamente a mudança das paisagens da semi-civilização nas plagas da psicosfera inferior da Terra.
Ninguém sai dos trilhos da maldade de uma hora para outra, quando construiu dentro de si mesmo as muralhas mentais do pensamento cristalizado.
— Não tinha noções da gravidade -expressou Inácio com humildade -, mas gostaria de saber um pouco mais.
Mesmo com as informações trazidas por Modesta, em seus desdobramentos nocturnos, tenho centenas de questões a levantar.
— O que sei não me custa informar, doutor Inácio!
— Será essa a trajectória de todos os médiuns e espíritas?
Viemos, assim como Matias, dessa conjuntura espiritual antes de nosso reencarne?
— Meu irmão, não se impressione em dizer:
raros são os espíritas que escapam desse percurso.
Essa é a razão de estarmos tornando o assunto tão claro quanto possível nesse segundo período de setenta anos do planeamento do Espírito Verdade àqueles que têm ouvidos de ouvir e olhos de ver.
Antecipando as necessidades que surgirão na virada do século, quando então a humanidade será avassalada por severos testemunhos de fé, urge uma campanha para a instauração de uma comunidade espírita consciente da extensão do serviço que aguarda quantos se matricularam na escola bendita do Espiritismo.
O chamamento desse segundo ciclo do Espiritismo objectiva um preparo para ingressarmos com maior consciência no período posterior.
Um preparo para dilatar nossa educação interior em torno do Evangelho.
Sei que dona Modesta, já lhe trouxe informes sobre o assunto doutor.
O transporte da árvore evangélica ainda se processa neste momento.
— Só não entendo porque renascerem no Espiritismo! -falou Inácio.
— Somente na doutrina essas almas sofridas e angustiadas encontrarão o lenitivo e as respostas para muitos de seus dramas.
Além do que, são portadoras de habilidades fundamentais que, se bem direccionadas, serão vitórias pelo bem da causa que nos une.
— Assim como Matias, passam antes por um preparo no plano espiritual?
— Não há como ser diferente.
Esse preparo é fruto do investimento da misericórdia celeste, que os torna depositários de uma fiança somente resgatável com o reerguimento de si mesmos.
— Não se corre o risco de termos novas Cruzadas no Espiritismo?
Espíritos perversos como são, como serão atraídos para o bem?
— Não são perversos, doutor!
Quem se arrepende do mal candidata-se a abandoná-lo.
Essa é a condição dos espíritos que fazem parte da árvore evangélica.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:57 pm

São mais equivocados que maus.
Isso, entretanto, como já foi orientado a dona Modesta, não os isenta dos reflexos pertinentes às tendências que carregam.
Precisarão de tempo e muito amparo para o recomeço.
Renascerão com forte atracção para o religiosismo em razão das velhas artimanhas do orgulho desenfreado e do interesse pessoal.
— O pior de tudo é que, ouvindo suas explicações, encaixo-me em todas elas.
— Qual de nós, doutor, está fora desse padrão moral?!
— Confesso que sinto certa repugnância por me reconhecer assim.
Confesso também que estou tendo alguns sentimentos de rejeição a você, Clarisse -desabafou Inácio com sua natural sinceridade.
— Doutor, felicita-me sua honestidade.
Quanto a rejeitar a mim, nada tenho a reclamar.
Todos experimentam essa sensação para com alguém quando descobrem quem são verdadeiramente.
Em nosso favor, o melhor que podemos fazer será nos voltar para uma reflexão sem temores em nosso mundo íntimo e assumirmos o compromisso do auto-conhecimento à luz dos princípios evangélicos, aprendendo, dia após dia, a amar o nosso próximo, mas também a nós mesmos.
— Estaríamos vivendo alguma espécie de limpeza ou urbanização dessas regiões inferiores neste século XX?
— Exactamente! Chamamos de limpeza da sub-crosta terrena e libertação da semi-civilização que nela reside.
As fileiras opositoras do bem no mundo perceberam que os últimos quinhentos anos da humanidade foram plenos de conquistas para o progresso e a melhoria do planeta.
As sombrias regiões da ignorância e da maldade organizada necessitaram sair de suas furnas para vir ao campo de batalha.
Não bastava mais apenas ordenar.
Até mesmo o inferno está tendo de trabalhar muito com as aceleradas mudanças do conhecimento, da tecnologia e da ciência.
Como asseveram os guardiões do planeta:
o inferno subiu para a crosta.
Os abismos foram tocados pelas luzes que foram lançadas por Jesus aos continentes nestes últimos cinco séculos.
Ao virem para o campo de batalha, saíram da surdina e das armadilhas sorrateiras para experimentarem o contacto social mais impactante.
Os planos físico e espiritual se misturam a ponto de, nós próprios, fora do corpo, algumas vezes, encontrarmos dificuldade em definir onde começa um e acaba o outro.
Assim se tornou mais viável o contacto, a acção.
Se a obsessão e as ciladas são mais prováveis, as chances de salvação e socorro também ampliaram.
No Evangelho conhecemos esse panorama da vida colectiva bem retratado na parábola do joio e do trigo que crescem juntos para que sejam separados no momento exacto, conforme narrativa de Mateus, capítulo 24, versículo 13 e seguintes.
Esse é o ciclo que vivemos na Terra.
Hora de definições.
Impossível alcançar a regeneração sem esse ciclo de ajustes e reajustes, provas e expiações.
O mal precisa ser expurgado para que o bem autêntico ilumine, fortaleça e ganhe resistência.
— Estaria a Terra passando por um expurgo de espíritos como o de Capela?
Creio ser esse o nome do planeta que Modesta me informou.
— É Capela mesmo, doutor!
Este tema será ainda mais esclarecido pela própria literatura mediúnica no futuro.
Nossa casa planetária passa por esse momento igualmente.
— O que pode me informar sobre esse expurgo?
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:57 pm

O que têm os dragões a ver com ele?
— Perdoe-me a discrição, doutor Inácio.
Como lhe disse, sobre esse assunto, por ora, manteremos maior resguardo.
Não pouparemos informações na hora certa.
Guarde apenas um alerta necessário de nossa parte.
O mundo vai experimentar uma catástrofe de proporções inigualáveis dentro de poucos anos.
A década de 40 será decisiva.
Contaremos muito com essa casa de Jesus nesse momento triste da humanidade.
Nesse episódio sangrento, a deportação atingirá o clímax...
É o que posso dizer.
— Você me deixa preocupado com essa fala.
— Os verdadeiros servidores do Cristo devem ter notícias claras sobre a natureza das provas que aguardam esse orbe até os primeiros duzentos anos do terceiro milénio.
Não vemos chances, conforme cálculos dos Nobres Condutores Espirituais da sociedade terrena, de melhores condições de vida sem muitas dores e ranger de dentes nos próximos duzentos anos.
Mantenha a esperança, doutor.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:58 pm

Capítulo 7 - Vampirismo Assistido no Terreiro de Umbanda
"Os Espíritos em expiação, se nos podemos exprimir dessa forma, são exóticos na Terra; já viveram noutros mundos, donde foram excluídos em consequência da sua obstinação no mal e por se haverem constituído, em tais mundos, causa de perturbação para os bons."
-O Evangelho Segundo O Espiritismo -capítulo III — item 14.

— Clarisse, apenas mais uma pergunta -rogou Inácio, desejando aprender mais na sua nova função de dirigente.
— Indague, meu irmão.
— A comunicação de Matias nesta noite trouxe-lhe benefícios?
— Imensos benefícios.
Esse contacto com a matéria, para um Espírito nesse estado, é de extrema importância.
O organismo físico é um depósito inigualável de energia ectoplásmica.
A constituição molecular desse pacote energético é impossível de ser clonada em nosso plano.
É o estágio semi-material das forças mais subtis que gravitam entre o perispírito e o corpo físico.
Ela é gerada e sofre mutações importantes no duplo etérico do médium, em atendimento às necessidades mais prementes dos desencarnados.
Quando o médium se desloca do corpo, há uma natural expansão do duplo, também conhecida por cascão astral e por automatismo, esse pacote de forças é atraído para a constituição perispirítica da entidade comunicante que se lhe adere.
É como se fosse a roupa do médium em outra pessoa.
O duplo passa temporariamente a se acoplar ao espírito comunicante como um cobertor acolhedor.
Evidentemente, em razão da descompensação de forças mentais nas quais se encontra Matias, esse aporte do duplo etérico da médium vai servir como um legítimo balão de oxigénio, suprindo o que lhe falta até o limite em que não prejudique o equilíbrio da médium.
Os sinais mais característicos do momento da separação são sentidos pelo próprio aparelho orgânico do médium, por um desconforto registrado em forma de irritação ou fraqueza.
Nesse momento, quando o médium tem suas faculdades sob controle, ele mesmo, mentalmente, faz a reconstituição dos corpos sem perder o contacto com a entidade que, se necessário, ainda poderá manifestar seus pensamentos.
Esse fenómeno que envolve o duplo etérico é chamado incorporação.
São cedidas, portanto, as chamadas energias vitais da vida material.
O comunicante, ao se retirar, fica com todo o seu corpo espiritual envolvido por uma espécie de pomada branca, ora em estado gasoso, ora gelatinoso.
Os assistentes que orientam o trabalho utilizam-se dessa condição para as mais ricas medidas em favor do desencarnado.
Volto a frisar, esse fenómeno é mais conhecido como incorporação.
Temos também o chamado vampirismo assistido, que é um processo no qual são envolvidos o corpo material, o duplo etérico, o perispírito e o corpo mental.
É algo ainda mais profundo que a incorporação, em que o vínculo deixa de ser puramente mental, chegando a níveis celulares no corpo do médium.
Há, nesse caso, uma intensa transferência de forças vitais e uma interacção entre o corpo mental do médium e da entidade com objectivos de recuperação de formas perispiríticas e sensações perdidas em milénios de padecimento.
O vampirismo assistido é uma técnica de automatismo que não comporta muito controle ou participação consciente do médium.
Por isso mesmo, só deve ser praticada em situações ocasionais e sob intensa supervisão espiritual.
A espontaneidade é fundamental em tal operação.
É necessária uma entrega incondicional do sentimento e do corpo físico do médium.
Mais uma razão para ser praticada por médiuns mais experimentados, que já tenham disciplinado suas forças medianímicas, por possuírem noções mais claras dos limites permitidos nesse género de trabalho.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:58 pm

Por se tratar de transes profundos, nem sempre ele tem como aferir essa necessidade.
Para suprir essa situação, é preciso uma equipe que tenha consciência do que está realizando.
Que haja muito respeito e confiança, considerando que, em várias dessas situações, o médium terá de ser contido fisicamente, exigindo muita integridade moral de todos para essa finalidade.
Não será demais chamar esse contacto mediúnico de uma autêntica "reencarnação relâmpago", na qual a entidade em desalinho, pela intensa ligação com o corpo físico do médium, desperta nas matrizes profundas do seu corpo mental algumas motivações evolutivas que o tempo e a dor lhe subtraíram.
Casos existem nesse capítulo da mediunidade em que o acoplamento celular recompõe instantaneamente formas perispirituais que poderiam levar séculos no trabalho de recuperação em nosso plano de acção.
O corpo físico é uma usina divina de forças capazes de influir decisivamente nos corpos espirituais.
Ficou claro, doutor?
— Agradeço suas preciosas informações, Clarisse.
Por hoje interrompemos nossa lição.
Do contrário eu próprio pedirei internação aqui no sanatório.
— Esperança em seus corações, meus amigos e irmãos.
— Assim seja, amiga querida -falou Inácio com muita sensibilidade.
A nossa tarefa terminou.
Todos os componentes da equipe ficaram em clima de expectativa. Habitualmente, doutor Bezerra se comunicava ao final confortando a todos nós.
Naquela noite, porém, algo diferente ocorreu.
Sentíamos sua presença e nada de manifestações ostensivas.
Clarisse nos deixou com a sensação de uma convocação para novas lições, facto que, de alguma forma, nos surpreendeu.
A mensagem de Eurípedes passou a ser lida e estudada com mais constância por todos nós.
Eu, particularmente, sempre solicitava mais explicações ao benfeitor, dele recebendo outras notícias sobre acontecimentos futuros.
A sabedoria apresentada por Clarisse, naquela noite, deixou-me também muito curiosa acerca de sua identidade e função junto ao Hospital Esperança.
Permaneci fora do corpo durante todo o transe em estado de plena lucidez, acompanhando as informações tão oportunas.
Até isso foi diferente na ocasião, já que tinha me acostumado à inconsciência no transe.
Embevecida com tantos ensinos, passei a adoptar, naturalmente, algumas posturas novas no intercâmbio mediúnico, solicitando a Inácio que passasse a fazer
anotações contínuas de nossas actividades.
Dirigi-me para minha residência sem me desligar mentalmente da tarefa.
Orei exaurida pela incorporação de Matias, conquanto me guardasse no clima superior do dever cumprido.
Assim que recostei a cabeça no travesseiro, emancipei nos braços de doutor Bezerra em direcção ao Hospital Esperança.
Passava das vinte e três horas.
Após a volitação instantânea, chegamos ao Hospital Esperança.
Logo à entrada fui recepcionada por Clarisse e levada ligeiramente ao salão de cirurgias.
Matias estava sendo operado.
Olhando através da vidraça, acompanhei a cena com extrema emoção.
O corpo espiritual de Matias estava envolvido pela substância esbranquiçada do ectoplasma emanado durante a incorporação.
Como havia explicado Clarisse, parecia uma pomada gelatinosa.
Já não senti rejeição como da primeira vez, mesmo porque em tão curto tempo a fisionomia de Matias estava amplamente renovada.
Nos mesmos moldes da cirurgia terrena, havia instrumentais diversos.
Foi iniciada a intervenção.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 23, 2018 7:58 pm

Há quem suponha que o perispírito sendo um corpo plástico, obedeça incontinenti a todos os comandos da vida mental em quaisquer situações, como se bastasse a oração e pronto!
Existem, sim, situações em que apenas comandos de sugestão mental são suficientes para alterar a roupagem fluídica do espírito.
Quem fuma, por exemplo, no corpo físico, durante cinquenta anos, se não tiver a bênção do reencarne imediato, levará tempo similar para erradicar do aparelho respiratório, no corpo espiritual, os efeitos indesejáveis do tabaco, caso tenha méritos para iniciar esse tratamento tão logo desencarne.
O enfisema tem raízes nas células perispirituais, efeitos da destruição lenta, gradativa.
Através de sucedâneos e de moderna tecnologia são feitas incisões nos centros de força laríngeo e cardíaco, que permitem acentuada redução da compulsão de fumar.
Esse corpo plástico obedece também a mutações que resultam de adaptações milenares a temperaturas, flora e fauna microscópicos e, sobretudo, a estados mentais crónicos.
O objectivo da cirurgia de Matias era remodelar a carcaça torácica já mais livre daquela condição animalizada, e retirar alguns chips de hipnose implantados em seu cérebro.
A incorporação da noite, conforme informação de Clarisse, recolheu uma reserva de "matéria" necessária a todas essas medidas de uma só vez.
Algo um tanto raro e que me deixou emotiva ao saber.
Cortes profundos nas camadas semi-materiais do corpo espiritual deixavam fluir borbotões de sangue.
Tudo igual aos quadros cirúrgicos humanos.
A diferença ficava por conta da recomposição mais acelerada dos tecidos e da tecnologia avançadíssima em relação ao mundo terreno.
Algumas incisões eram cicatrizadas na hora, com uso de bisturis de raios luminosos, que mais tarde viria a se saber serem projectores quânticos capazes de alterar a constituição molecular da matéria, organizando-a conforme plantas cromossómicas previamente estudadas por técnicos de genética bioplasmática, programadas para uso dos médicos em suas cirurgias.
Cada paciente com sua planta individual.
O computador, que a esse tempo não havia surgido no mundo físico, já era usado com recursos potentes que antecediam em pelo menos cinquenta anos as descobertas e invenções humanas.
Observava atentamente, enquanto Clarisse, a meu lado, vez por outra, explicava-me alguns detalhes do caso.
Ela estava nitidamente emotiva.
Em certa etapa, já que podia ouvir tudo o que diziam os cirurgiões, um deles, sabendo de minha presença ali, mencionou meu nome e disse:
"Se tivéssemos mais médiuns dispostos a oferecer seu corpo físico a esse mister, certamente teríamos nosso trabalho mais facilitado como o dessa hora e, o mais importante, obteríamos resultados promissores, como o que aqui constatamos.
Dia virá em que os médiuns espíritas reconhecerão o corpo físico como a usina mais poderosa de energia à disposição do ser humano para uso no bem".
Já se passavam cinquenta minutos de minuciosas acções no perispírito de Matias.
Orava contrita pela iniciativa, quando um chamado inesperado convocou Clarisse aos portais de saída de Hospital Esperança.
Convidada a ir junto, não pestanejei.
Deixei a vidraça, pedindo a Deus que abençoasse Matias em sua recuperação.
Chegando aos portais, Clarisse foi esclarecida por Cornélius:
— Recebemos um pedido de urgência dos abismos.
Eurípedes está ferido e houve uma reacção bem organizada dos ciclopes nos paredões de penitência no Vale do Poder.
— Vamos partir imediatamente! -afirmou Clarisse.
Dona Modesta nos acompanhará.
Sem se opor à minha presença, partimos em direcção às furnas do mal.
Clarisse, eu, Cornélius e mais um grupo de defesa do Hospital Esperança.
Chegando ao local, presenciei algo inusitado.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:06 pm

O ciclope da mitologia grega não era pura imaginação. Indaguei de chofre:
— Quem são os ciclopes, Clarisse?
— Espíritos rudes a serviço do mal.
Estamos na região subcrostal chamada Pântano das Escórias, subúrbio enfermiço do Vale do Poder.
Aqui são feitos prisioneiros os servidores da maldade organizada que não obtiveram êxito em seus planos nefandos.
Castigos e sevícias de todo o porte são levados a efeito nestas plagas.
— Por que viemos aqui?
— Venha! Vamos encontrar nossa equipe.
Logo adiante estava Eurípedes com uma equipe de vinte a trinta defensores.
Tinha o braço ferido.
Quem imagina os espíritos isentos dessa contingência, não concebe com exactidão os mecanismos fisiológicos
e anatómicos do corpo espiritual, sujeito, nas proximidades vibratórias da Terra, às mesmas injunções de saúde e doença, dor e prazer.
Um corte de dez centímetros na altura do ombro do benfeitor era cuidado com carinho por uma diligente enfermeira da equipe.
A diferença ficava por conta do domínio mental.
Enquanto era tratado, conversava atentamente com os presentes sem demonstrar uma nesga de sofrimento.
Os ciclopes o feriram com seus chicotes impiedosos.
Tive ensejo, ali mesmo, de manifestar meu carinho ao amigo querido.
Embora minha surpresa, o tempo e a experiência foram me mostrando que tudo era possível ocorrer em tais tarefas socorristas.
Incêndios, tiroteios, ciladas, guerras armadas e outras tantas manifestações de violência já conhecidas da humanidade.
Não cheguei a ver os ciclopes naquela ocasião, mas só a onda de crueldade deixada no ambiente já me apavorava.
Clarisse não regateava esclarecimentos a mim.
— Estamos no inferno de Dante, dona Modesta.
— Parece-me ser até pior do que ele descreveu.
— Sem dúvida.
— O que faremos agora?
— A tarefa por aqui já está cumprida.
As entidades que necessitavam de socorro já foram levadas para onde prosseguirá o trabalho.
— Eram almas arrependidas?
— Não. Eram escravos da perversidade.
Servidores inconscientes das sombras.
Foram necessárias mais de quatro horas de intensas iniciativas para alcançar resultados no amparo.
Ainda assim, veja o estado de nossos companheiros.
Eurípedes ferido, os defensores exaustos e tudo isso apenas para que seis entidades pudessem ter acesso à manifestação mediúnica.
— Vão se comunicar a essa hora da noite?
Que centro abriria suas portas? -expressei sabendo que já passava da meia-noite no relógio terreno.
— Os verdadeiros servidores cristãos só se utilizam do relógio com intuito disciplinar.
Não condicionam o ato de servir aos ponteiros limitantes do tempo.
Visitaremos o Centro Umbandista Pai Guiné, nos arredores de Uberaba.
— O pai-de-santo Ovídio?
— Ele mesmo.
Tive de confessar, em um primeiro momento, meu preconceito.
Guardava respeito pelas demais religiões, entretanto, nunca havia reflectido sobre quem seriam e onde estariam as cartas vivas do Cristo.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:06 pm

Por uma tendência natural asilei o despeito.
Ainda bem que foi algo muito passageiro em meu coração, porque as experiências fora e dentro da vida corporal, cada dia mais, apresentavam-me uma realidade distante das ilusões que adulamos sob o fascínio impiedoso do orgulho na sociedade terrena dos mortais.
Após as despedidas, a equipe de Eurípedes regressou ao hospital.
O pedido de socorro foi uma medida preventiva.
Apesar dos feridos e exaustos, todos guardavam o clima da paz.
Por nossa vez, partimos para o Centro Pai Guiné.
Era um ambiente agradável em ambos os planos.
Ao som dos atabaques, eram cantados os pontos em ritmo vibratório de alta intensidade.
Cada canto era como uma verdadeira queima de fogos de artifício.
Uma bomba energética explodia no ar em multicores.
Em uma das várias dependências astrais da casa havia uma enfermaria com oitenta leitos bem alinhados.
Tudo nesse salão era limpeza e calmaria.
Lá não se ouviam mais os cantos, e a conexão com o plano físico limitava-se ao trânsito de enfermeiros pelos vários portais inter-dimensionais.
Regressamos ao ponto de intersecção vibratória com o plano físico.
Seis macas estavam dispostas no canzuá (terreiro).
Em cada qual havia uma entidade de aspecto horripilante.
Olhos que quase saíam das órbitas oculares, pele murcha, enrugada e suja, garras enormes no lugar das unhas, com dez centímetros, nas mãos e nos pés, todas retorcidas como as de águia.
Magérrimos e nus.
Causavam náuseas pelo odor.
Olhavam para nós deixando claro que nos viam e, literalmente, grunhiam como porcos com a boca semi-aberta.
Alguns deles estavam muitos inquietos nas macas.
Retorciam-se como se estivessem com dor, sem manifestar nenhum som.
Vários hematomas estavam expostos em todos eles, devido aos castigos impostos nos paredões de penitência.
— As garras são colocadas para impedir a fuga.
Não andam nem têm grande habilidade manual - informou Clarisse, com manifesto sentimento de piedade.
— Como serão socorridos?
— Pela incorporação profunda ou vampirismo assistido.
— Nos médiuns umbandistas?
Mal terminei a pergunta e vi uma cena nada convencional.
Um dos enfermeiros da casa pegou uma das entidades no colo e jogou-a no corpo do médium.
Demonstrando câimbras na panturrilha, o médium, incontinenti, absorveu mental e fisicamente o comunicante que se ajeitou no corpo do medianeiro como se deitasse em um colchão, buscando a melhor posição.
Os atabaques aceleraram o ritmo, criando um frenesi de energia no ambiente.
Formavam-se pequenos redemoinhos de cor violeta e prata, que se desfaziam e refaziam em vários cantos do terreiro.
Modulavam conforme a nota musical dos hinos cantados.
O médium estrebuchou no chão.
Convulsões e grunhidos seguidos de gritos de dor.
Ovídio, o pai-de-santo aproximou-se e disse:
— Oxalá proteja seus caminhos, filho de Zambi (Deus).
— Eu sou filho do capeta.
Quem és tu para falar comigo? - redarguiu a entidade, que agora falava com facilidade por intermédio do médium.
— Sou um tarefeiro da luz.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:06 pm

— Eu sou uma escória da sombra.
— Engano, criatura!
— Não vê minhas garras?
Sabe o que isso?
— Conheço essa técnica.
São ferrolhos do mal.
— Vejo que estais acostumados ao mal.
— Vim desses vales da sombra e da morte -falava Ovídio com firmeza na voz.
— Mas andas e és livre.
Estais no corpo, enquanto eu...
Eu sou um verme roedor...
Ou quem sabe uma águia que não voa...
Nem sequer consigo andar graças a essa maldição que colocaram em meus pés...
Nem comer mais...
Veja minhas mãos...
Eu tenho fome e sede.
— Em que te posso ser útil irmão? -indagou Ovídio debaixo de uma forte vibração.
— Quero bebida e comida.
Quero que cortem minhas garras.
— Laroyê! Laroyê27 -gritou Ovídio já incorporado por um de seus guias que entoava o canto:
"Eu sou Marabá28, rei da mandinga.
Eu sou Marabô, exu de nosso Senho. Laroyê!"
Uma energia colossal movimentou-se com a chegada do Exu Marabô.
Os filhos-de-santo o saudavam com palmas rítmicas e pontos próprios da entidade.
Muitos deles iam até Marabô, baixavam a cabeça em sinal de reverência à sua frente e batiam três palmas rítmicas na altura do abdómen do médium.
— Que tu quer, homem esfarrapado.
Bebida pra mode se arrebenta mais?
— Não, senhor Marabô.
Não é isso não.
— Não mente pra Marabô.
Marabô sabe ler os ói (olhos).
Nos ói tá a visão, mas tá também a verdade e a mentira.
— Eu não minto, senhor.
Quero liberdade.
— Pra fazer o que dá na cabeça?
Home tu preso é um perigo, livre é um desastre.
— O que o senhor vai fazer por mim?
Não pedi a ninguém pra sair daquela joça de lugar fedorento.
Por que me trouxe aqui?
— Não fui eu quem trouxe home.
O veio Bezerra da luz é teu protector.
Sirvo a ele na graça de Oxalá, Pai de poder e misericórdia.
— Que queres comigo?
— Está feliz na matéria do cavalo (médium)?
— Sei que não é minha.
Quero uma só pra mim.
— Esta gostando do contacto?
— Só farto bebida e comida.
— Olha suas garras.
— Não pode ser!
O que aconteceu?
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:06 pm

— O cavalo tá dissolvendo suas algemas.
— Pra sempre?
— Pra sempre!
— Quanto vai me custar?
— Nada. É serviço de Pai Oxalá. É de graça.
Pedido do veio Bezerra de Menezes.
Se voltar pro inferno, elas crescem de novo.
Se subir com Bezerra da luz, vai ser cuidado no hospital da sabedoria, onde reina os filhos de Gandhi.
— Filhos de Gandhi?
Por que se interessaria por escórias como nós.
Veja lá nas macas os amigos estropiados -e apontou para a sala ao lado.
— Nada retira do ser humano a condição de Filho do Altíssimo.
Dita essa frase, o espírito comunicante silenciou, enquanto o Exu Marabô fazia alguns rituais em cima do corpo do médium.
Instantaneamente, o médium convulsionou-se.
Quatro auxiliares no plano físico continham o medianeiro a duras penas.
Não sendo o suficiente, mais três se aproximaram.
Olhando de cá, não se sabia mais quem era o médium e quem era o desencarnado.
Uma gosma saía pelas narinas e pela boca.
Espasmos e taquicardia intensa eram aferidos por médicos atentos que monitoravam o médium e a entidade.
O fenómeno era totalmente supervisionado.
As unhas da mão e dos pés do comunicante sangravam.
As garras foram arrancadas até a raiz.
Dores intensas e muita confusão mental assinalavam seu estado geral.
Sedativos potentes foram aplicados no corpo espiritual do médium, diluindo no corpo do assistido.
Repentinamente uma calmaria.
Cessaram as convulsões.
Na medida em que o médium recobrava os sentidos, a entidade os perdia.
Ajudado por integrantes do Centro Umbandista, o médium levantou-se vagarosamente e foi colocado em um pequeno colchão para refazimento.
Em nosso plano, padioleiros disciplinados repetiram o procedimento com todos os outros cinco doentes de uma só vez em cinco médiuns distintos que, ao mesmo tempo, receberam os demais prisioneiros dos vales sombrios.
Após os serviços de higiene e primeiros socorros, ainda na enfermaria do Centro Umbandista, Clarisse convidou-me para o primeiro contacto com aquela criatura.
Cornélius que se encontrava entre nós durante todo o trajecto, desde a saída do hospital, foi o responsável pelo diálogo.
— Como está agora meu filho?
Agora já consegue falar como um humano, filho do Pai.
— Filho? -mesmo sedada a entidade dava mostras de inteligência.
-Não sou seu filho.
Sou um carrasco.
— Ainda assim, filho de Deus e nosso irmão.
— Que ladainha é essa?
Quem é você?
— Sou Cornélius, não se lembra?
— O mergulhador do lago de enxofre?
— Isso mesmo.
— Então foi você quem nos tirou daquela lama fétida!
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 24, 2018 8:06 pm

— Em nome de Jesus Cristo e doutor Bezerra.
— Agora veio cobrar o preço pelo trabalho que não paguei.
Quanto o tal Bezerra quer?
— De jeito algum.
Trabalhamos por amor.
— E quer que eu acredite nisso!
— Não! De você só quero uma coisa.
— Sabia que viria algo em troca.
Nada nesse mundo é de graça!
— Quero que fique bem e restaure sua paz.
— Acredita mesmo que um dia vou conseguir isso?
O Exu lá na matéria falou de um hospital.
É a casa do Barsanulfo?
— Sim, é lá mesmo.
— Muitos amigos da lama querem se tratar lá.
Não sabemos como chegar.
Você, por acaso, vai me dar o endereço?
— Vamos te levar lá, apenas isso!
Nosso intuito é te livrar dessa escravatura e, igualmente, àqueles que você, sem querer, prejudica.
— A quem prejudicamos?
— Em especial, nosso irmão H.
— Ah! Então é isso!
A preocupação de vocês é com o doutor H., aquele magnata do Espiritismo!
— Com ele, mas com você também.
— Acha mesmo que os mandantes vão parar?
A gente sai e eles arrumam novos capatazes.
O doutor H. é um devedor.
Fez parte das fileiras...
— Nosso irmão, como qualquer um de nós é um batalhador em busca de remição.
A perseguição a ele infligida ocasionou consequências mentais e emocionais graves.
— Ele merece.
É um orgulhoso de carteirinha.
E, de mais a mais você sabe de onde ele veio.
— Qual de nós, meu filho, não tem histórias e dramas com o inferno?
— Creio que o melhor é aceitarmos que a Terra é do demónio.
Assim todos serão felizes.
— Assim todos serão iludidos até se atolarem na maldade como meio de justiça.
— Pois é... E como ser diferente?
Quem olha por quem, não é mesmo?!
Tudo é interesse. Egoísmo.
— Nós estamos aqui olhando por você.
Nosso interesse é você, seu bem-estar.
— E logo vão me apresentar uma farta conta, não é mesmo?
Só de injecção devo ter tomado umas dez!
Qual será o preço disso?
— Não queremos nada.
O tempo e a sua recuperação serão as melhores respostas para sua ironia em nos intimidar.
Por agora quero que descanse.
Amanhã você já acordará no Hospital Esperança.
—Acha mesmo que mereço ir a esse paraíso?
— Lá não é um paraíso, meu filho.
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