Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 29, 2018 8:33 pm

Quadro típico de quem está lutando para sair de uma fixação mental.
— Por que se sente estranho, Atílio? -voltei à pergunta.
— É como se tivesse esquecido tudo.
Alguma coisa muito grave aconteceu e eu não consigo me lembrar. Parece que estou sem rumo.
Onde está Candinha?
— Em minha casa.
— O que ela faz lá?
— Ela o trouxe aqui.
— Por quê?
— Não se lembra?
— Não.
— Você teve um momento difícil, Atílio.
Uma crise de nervos. Só isso.
Inegavelmente, o paciente estava perturbado.
Preferimos mantê-lo recluso, sem visitas, até nossa próxima reunião mediúnica.
Passaram-se três dias.
Somente depois de trabalhos complexos conseguimos desenvencilhá-lo das malhas vibratórias da falange dos dragões.
Depois de Anaz, ainda se aproximaram dezenas de outras entidades enfermas.
Foi uma reunião inteira dedicada ao seu caso.
No dia posterior à reunião conseguimos um progresso em seu quadro mental.
Novamente visitando Atílio no pátio, sempre acompanhando Inácio, em suas visitas matinais, assim expressou o paciente com um novo tom emocional:
— Até quando pretendem me manter trancado aqui?
— Vejo que teve melhoras -disse Inácio.
— Hoje me sinto muito bem, quero ver Candinha e ir embora.
Agora me recordo de minhas obrigações lá fora.
— E o que tem a dizer sobre esse momento difícil pelo qual passou, Atílio? -foi minha vez de indagar.
— Só quero esquecer este instante, dona Modesta.
Talvez um pouco de cansaço e nada mais.
Voltarei com toda força para minhas actividades.
Tenho muitos planos novos para a federação.
— Podemos saber quais são os referidos planos?
— Passamos um momento de alterações nas tarefas em São Paulo.
Agora vejo claramente que terei de tomar algumas atitudes drásticas.
Estava sendo muito pacífico.
— Ao que consta, já existe muito tumulto.
Atitudes drásticas neste instante não será factor agravante?
— Dona Modesta, não se ocupe com esses problemas.
Vocês aqui no sanatório não têm ideia do que seja um movimento espírita como o de São Paulo.
Portanto, deixe comigo.
— O senhor está equivocado.
Temos mais informações do que supõe sobre as manobras do orgulho humano em tais ambientes.
Mesmo distantes fisicamente, nossas actividades espirituais nos últimos anos têm sido um polo de operações em favor da nossa seara.
Sua vinda para cá é apenas o início de uma longa e árdua peregrinação de milhões de almas que se aportaram em condições espirituais paupérrimas no seio do movimento espírita no plano físico, e de milhões de outras tantas que ainda não regressaram ao corpo.
Ficamos pelo menos duas horas no pátio conversando com Atílio, explicando-lhe detalhes do transporte da árvore evangélica.
Atílio ficou extremamente surpreso e sensibilizado.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 29, 2018 8:33 pm

Quando estávamos prontos a encerrar a conversa, percebi a aproximação espiritual de um jovem muito bem-posto, que pediu para transmitir uma mensagem a nosso companheiro.
— Vejo um jovem caminhando em nossa direcção.
Ele diz conhecê-lo, Atílio.
— Quem é, dona Modesta?
— Ele diz se chamar João Castardelli41.
O senhor o conheceu? indaguei para confirmar.
— Sei muito bem quem é -respondeu Atílio, com os olhos marejados e a voz embargada.
— "Irmão Atílio, sou eu mesmo que regresso.
Tenho acompanhado tuas lutas recentes.
Sob a tutela amorosa de Eurípedes Barsanulfo consegui essa intercessão abençoada para chegares até aqui.
Perdoe-me pela forma, mas foi o que me restou fazer no deserto árido das provas a que te submetes.
Tenho ouvido teus apelos sentidos nos momentos de dor aguda.
Penetrei inúmeras vezes teu aposento no lar e ouvi tuas preces sofridas pelo bem do ideal.
Não existe desamparo, irmão querido.
Especialmente aos que trazem na alma as intenções nobres de servir e aprender.
A casa de Jesus na capital paulista está sendo atacada pelas velhas armadilhas das sombras que se iniciam, invariavelmente, em nós mesmos.
Os nossos costumes ancestrais de poder e vaidade atropelam novamente a ordem da mensagem evangélica.
O meu pai, José, que o irmão conhece bem, está desenvolvendo uma obra no bem e precisa de homens dispostos e seguros para o mister.
Procure-o sem pestanejar.
Uma farta obra de amor desabrochará e precisará de ti, meu irmão.
Atende ao nosso apelo, irmão querido!
A cada qual segundo suas obras.
A vida te entrega uma semeadura de oportunidades que se encontram afinadas com teus méritos e necessidades.
No momento, a semente fértil do Evangelho carece mais de braços operosos que de administradores para ditar direcções.
Conquanto essa seja a preferência da maioria dos homens, acostumados ao destaque, Jesus o chama, meu irmão, ao serviço de erguimento do Seu reinado nas frentes de caridade activa e santificadora.
Os honrosos compromissos da federação serão assistidos por Eurípedes Barsanulfo e sua equipe, e fazem parte de um complexo de iniciativas do mundo espiritual em favor do transporte da árvore sagrada do Evangelho vivido e aplicado.
Não se iluda quanto a soluções imediatas nesse terreno.
Décadas de muito descuido e invigilância ainda vão coroar as acções humanas em torno do Espiritismo organizado.
Siga teu curso.
Eu te abençoo os passos em nome de Jesus Cristo.
Fique com Deus!
João Castardelli."
Após a mensagem, Atílio não conseguiu pronunciar uma palavra sequer por vários minutos.
Inácio, que sempre trazia um lenço em cada bolso, diante de tantas lágrimas que ali mesmo secamos, estendeu-lhe a peça de linho em apoio.
O ambiente espiritual do trabalhador renovou-se completamente.
Candinha e ele ainda permaneceram em Uberaba mais duas semanas a nosso pedido, para prestarmos juntos o socorro a Anaz, que foi recolhido ao Hospital Esperança.
Atílio passou de paciente a cooperador nos passes e em outras tarefas no sanatório durante aquele curto período, embora ainda internado e sob cuidados médicos.
No último dia de sua internação, depois que lhe demos alta médica, marcamos um café em meu lar.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 29, 2018 8:33 pm

A conversa estava hospitaleira e radiante.
A fisionomia de Atílio era outra. Candinha estava efusiva.
Há muito não via o marido daquela forma.
— Sinto-me tão leve! -exclamou Atílio com alegria.
Desde a mensagem de João Castardelli, tenho a sensação de que me livrei de algo que não devia carregar.
Renovei, sobretudo, meus planos para o futuro nas tarefas.
Os ambientes estéreis do conflito improdutivo já não me motivam como antes.
Além do que não possuo temperamento suficientemente burilado para ser útil em tais organizações.
É muito desgaste!
— Alguém tem de fazer essa tarefa árdua.
Não faltará quem a deseje -completei.
— Creio que, se não passasse por essa internação dolorosa, esqueceria definitivamente minhas reais necessidades.
Em contacto com a dor avaliamos melhor a extensão de nossas limitações e enfermidades espirituais.
— A dor educa e revela nossa intimidade profunda.
— É verdade, dona Modesta.
É verdade!
Além disso, confesso que não sentia esse clima de simplicidade e amor autêntico há muito tempo.
O ambiente do sanatório tocou minha sensibilidade.
Uma aura de paz indefinível tomou conta de mim, levando-me a ter muita saudade dos meus primeiros dias na doutrina.
Nessa época, meu coração batia forte com a tarefa.
A caridade, a amizade, o apoio fraterno constituíam nossas motivações básicas no grupo espírita.
Que saudade!
— Caro irmão, devido ao nosso passado repleto de interesses particularistas, desviamos facilmente da tarefa essencial.
A fraternidade real pode ser substituída por velhas ilusões de projecção pessoal quando deixamos de escutar os chamados da consciência.
— Fico me perguntando, dona Modesta, diante dos informes obtidos nestas semanas de convivência com vocês, por qual razão o mundo espiritual coloca tantos enfermos em um mesmo lugar.
Refiro-me ao movimento espírita de modo geral, nele me incluindo, evidentemente.
Tomando por base as lutas atuais do movimento espírita, que apenas engatinha em nosso país, fico imaginando o que será daqui a algumas décadas, quando contar com milhões de adeptos.
Não seria mais prudente, ou mesmo útil, preservar certa distância ou a ausência de contacto?
Por que reunir tantas almas falidas em uma só estrada?
Não retornariam às mesmas acções?
— Por afinidade de necessidades, busca comum de interesses e, acima de tudo, identidade com os princípios que fundamentam a nossa doutrina.
Creio que se resuma a isso, meu caro Atílio, os motivos desses reencontros.
— Se minha avaliação for sensata, situações anti-fraternais como as que vêm ocorrendo actualmente na capital paulista, não decorreriam da impulsiva necessidade de retomar o poder, como no tempo da Igreja?
Até onde os dragões estão agindo em tais ocorrências?
Ou não estão?
Que caminho tomará nossa doutrina?
Não sei se a senhora sabe, mas até mesmo o senhor Francisco Cândido Xavier têm sido alvo de reprimendas.
Alguns estudiosos do Espiritismo asseveram que a obra Nosso Lar jamais deveria ter sido publicada e, com isso, avançam em suas críticas também sobre a digna Federação Espírita Brasileira.
Alguns chegam a dizer que em Pedro Leopoldo não há futuro para o médium e que seu trabalho não será reconhecido, caso não venha para São Paulo.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 29, 2018 8:33 pm

O que nos espera, dona Modesta?
Porventura, estou sendo descortês ou sensato?
— Atílio, seu coração bondoso apenas se espanta com tanto descuido.
Não há descortesia em sua análise.
Muito ao contrário, sua percepção é rica de juízo e equilíbrio.
Pelo que sabemos, entretanto, tudo isso era esperado em nossa comunidade.
É o efeito natural do estágio de enfermidades que ainda nos consomem.
— Será boa para o futuro de nossa causa essa preocupação, que cada dia mais ganha destaque e adesões, pela divulgação correta do Espiritismo?
Terá tanto valor assim pelo bem de nossa causa divulgá-la e nos guiar pelo desamor uns aos outros em nossas casas?
O que é mais importante: a casa enquanto instituição difusora da causa ou a própria causa aplicada a nós outros na convivência?
Divulgar algo que ainda não vivemos não seria insensatez?
Ate onde a causa necessita realmente desse arrimo de nossa parte?
Não seria melhor priorizar a qualidade em detrimento da quantidade?
— Suas indagações são muito sóbrias, irmão querido.
As orientações que nos têm sido encaminhadas pelos amigos espirituais deixam claro que nossa causa maior é o amor.
Entretanto, neste segundo período de setenta anos do planeamento para o progresso do Espiritismo, no qual nos encontramos, a difusão dos princípios deverão ser, ao lado da caridade, os pilares desse projecto.
Se continuarmos insistindo em excesso por essa fidelidade aos fundamentos da doutrina, priorizando-os em detrimento das relações sadias e fraternas, podemos penetrar novamente nos velhos descuidos da intolerância e do sectarismo.
A divulgação é fundamental, conquanto as interpretações possam variar ao sabor da riqueza contida no próprio corpo da doutrina.
Teremos problemas se houver muita rigidez nesse particular.
— Já não estará havendo rigidez?
Pureza doutrinária foi o ponto crucial de meu desequilíbrio na federação?
— Não confunda as coisas, Atílio.
Seu momento infeliz foi causado por desafios íntimos que você mesmo ainda terá de vencer.
— Sim, concordo.
Todavia, brotou dentro de mim a partir das lutas intestinas na federação!
— Ainda assim são suas lutas, antes de tudo.
— A senhora acha, então, que essa expressão pureza doutrinária é útil?
— A doutrina necessita de coerência, fidelidade e limites filosóficos para que seu corpo doutrinário preserve uma identidade cristalina, embasada no bom senso, na lógica e na razão.
Todavia, se isso nos custar o retorno aos velhos hábitos da prepotência institucional, na qual uma só organização ou um só homem assuma a chancela de avalista da Verdade, tombaremos automaticamente nas malhas da obsessão colectiva, que nos conduzirá a tormentos fatigantes nos ambientes doutrinários.
Não temos papa, nem chefes e muito menos entidades que comandam no Espiritismo.
A proposta original do Evangelho, que também é a da doutrina, é que existam servidores, servos do Evangelho e do amor. Essa palavra merece toda a atenção de nossa parte.
Organizações que sirvam sem querer dominar.
Homens que sirvam sem querer comandar.
Servir, servir, servir e passar, recordando sempre que a obra não nos pertence.
— Seria melhor para nossa causa não existir esse esquema federativo de unificação?
— De forma alguma, Atílio.
— O problema não é o esquema, mas o abuso dos homens! - entrou Inácio na conversa.
A organização da doutrina e a coerência doutrinária sem intolerância são bem-vindas.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 29, 2018 8:33 pm

— Compreendo! Tem razão, doutor Inácio.
Resta-me apenas uma dúvida.
Vocês já leram a obra psicografada por Francisco Cândido Xavier, Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho!
— Sim. Inácio e vários companheiros de nossa casa teceram várias discussões em torno dos ensinos do referido livro - respondi enquanto Inácio acenava positivamente balançando a cabeça.
— Estão sabendo das polémicas que surgiram em torno dele?
— Sim, sabemos.
— Por que o próprio plano espiritual apoia essa proposta de unificação?
Por que deram tanto aval ao pacto.7
Não há uma ênfase exagerada do autor espiritual, Humberto de Campos, em colocar os órgãos unificadores como uma organização cuja missão é cuidar dos destinos da causa?
— Não creio.
O que talvez nos falta é compreender que unificar é uma tarefa de todos nós.
Não se restringe a uma organização.
Perguntei ao doutor Bezerra sobre o assunto, e o benfeitor nos trouxe a recomendação de solidariedade aos caminhos da FEB, ressaltando que quem assume compromissos dessa envergadura deverá ser o exemplo vivo de união, e que nossos irmãos serão severamente cobrados nas responsabilidades a eles entregues.
Portanto, cuidar dos destinos da causa na óptica evangélica significa muito mais que zelar por pureza doutrinária.
A tarefa de nossos irmãos, extensiva a todos nós, é zelar pela pureza de nossa convivência.
Sem união legítima de homens não teremos unificação no ideal.
Unidade de sentimentos e diversidade de opiniões.
União, meu caro Atílio, à luz da mensagem evangélica, é a capacidade de amar a diversidade de nossa raça humana.
Se repetirmos os velhos desvios da história, nos quais abdicamos dessa atitude de amor incondicional, formaremos novamente as comunidades de interesses pessoais cujo centro de atracção foi a organização religiosa.
Nesse processo histórico de união tivemos erros clamorosos que nos afastaram das leis naturais ou divinas.
Tais equívocos surgiram desse costume de massificar o pensamento das sociedades com objectivos hegemónicos.
Uma comunidade que se ergue em nome de Jesus é reconhecida pelo interesse cósmico, e seu centro de atracção é a consciência.
O homem impediu a si mesmo de se conectar com a consciência.
Mais ênfase foi dada à religião que aos fenómenos interiores da consciência -ponto elementar da ligação do ser humano com a Verdade, essência divina da vida.
A eleição de uma instituição que tenha uma postura de rigidez hierárquica no seio da comunidade, para ditar o que é ou não concebível em nome do Espiritismo, terá como consequência mais nociva à causa a formação de um movimento de massa, afastando o ser humano nela inserido do uso de sua capacidade individual de pensar e criticar.
Isso seria extremamente lamentável em se tratando de uma doutrina cuja origem foi a postura iluminada de Allan Kardec na qual devemos nos espelhar, onde a razão é seguida pela tolerância e fraternidade.
— A senhora acredita na possibilidade de isso ocorrer?
— Deus queira que não, mas tenho todos os motivos actualmente para pensar que sim.
— De minha parte, depois de tudo que passei em São Paulo, quase não tenho mais dúvidas sobre esse infeliz descuido do movimento.
Lamento muito pelos acontecimentos, mas tenho certeza de que essas instituições responderão no plano espiritual por esse desvio.
— Não só as instituições, Atílio!
— Os obsessores também. É claro!
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:42 pm

— Não só os obsessores, Atílio!
— Quem mais responderia?
— Atílio, à luz das leis divinas, quem aceita ser guiado não deixará de responder por si próprio.
Quem aceita ser massificado abdica do direito divino de escolher, reflectir e crescer, e, por efeito, prejudica seu desenvolvimento pessoal.
— Realmente, eu mesmo sinto-me assim em relação a mim mesmo.
Atentei contra minha própria consciência e, quando tive coragem para me expor e dizer o que penso, sofri um descaridoso processo de discriminação.
A liberdade de pensar, nesses ambientes, é inaceitável.
Por outro lado, começo a pensar na minha responsabilidade pessoal.
Sentia-me como se fizesse parte de um grupo selecto e especial.
Quando nos ambientes institucionais invadia-me uma sensação de grandeza e importância.
Quando no lar... Ah!...
Quando no lar era assaltado por um sentimento de pequenez.
Graças à companheira querida, minha Candinha, creio que estou enxergando melhor minhas reais necessidades.
— É quase sempre assim, Atílio.
Há milénios estamos encontrando na organização religiosa a capa perfeita para encobrir necessidades profundas na vida pessoal, esperando ganhar o céu por meio de genuflexão e ofícios sacramentados, quando Jesus nos convocou a uma peregrinação muito mais desafiante, que está bem delineada no Evangelho de Mateus, capítulo 10, A Missão dos Doze.
Nessa passagem encontramos tudo de que necessitamos para cumprir nossa missão na condição de cristãos autênticos.
— Por que aceitamos fazer parte de processos massificadores, dona Modesta?
— Medo.
— Medo de quê?
— Medo de enfrentar nossa realidade pessoal.
No nosso estágio evolutivo, com raríssimas excepções, as estruturas de grupo são atractivas para o nosso egoísmo.
Os racistas, os religiosos, os militares, enfim, todo conjunto de pessoas que têm uma forma de pensar definida encontram nos grupos a força de que necessitam para sustentar suas acções.
Em grupo são mais fortes.
De alguma forma, com isso, também atendem ao imperativo natural da Lei de Sociedade.
No que tange à proposta espírita-cristã, temos um grave desafio na construção de nossos grupos de serviços: colocar a consciência como núcleo central de nossas necessidades e aspirações.
Como já disse, hoje começa um movimento de massa na comunidade espírita que, ao contrário, da proposta da doutrina, conduz os adeptos a ter como referências as organizações institucionais que são falíveis, mesmo com seus muitos valores.
Daqui a pouco teremos médiuns-referências, grupos-referências, oradores-referência, e vai adiante essa iniciativa.
Será um grave equívoco para nossa causa.
Grupos, pessoas, médiuns, oradores, enfim, todos os tarefeiros deverão ser credores de respeito, carinho, mas jamais de idolatria ou autoridade para chancelar a verdade.
Quando há massificação existe idolatria, ainda que neguemos.
Nossa única e mais confiável referência é Jesus, nosso Guia e Modelo.
Nosso problema, porém, meu caro Atílio, é mais pessoal que de comunidade.
Traímos a consciência para atender a soluções e propostas da maioria.
Não sabemos ainda como falar do mal-estar que sentimos diante de certas decisões e rumos nos agrupamentos.
E, por isso mesmo, agimos em desacordo com nossa aspiração mais profunda no campo íntimo.
O mais grave disso tudo é que a tarefa ganha em proporção por fora utilizando as forças grupais, enquanto a tarefa intransferível do campo particular raramente é atendida a contento.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:43 pm

A tarefa em grupo, nesse prisma, causa a sensação de realização, crescimento.
Muitas vezes isso não passa de uma vertigem de nosso orgulho.
Muito mais fácil assim do que ter de se olhar, ser contra, saber discordar sem amar menos, contrariar os rumos sem o medo de perder cargos e passar pelo que você passou.
É incrível dizer isto, mas acredito que tem muita gente trabalhando pela doutrina sem estar fazendo nada por si mesmo!
No fundo, muitos grupos doutrinários nesses dias já caminham para uma autêntica hipnose colectiva.
Não sei o que será da comunidade, caso optem por essa sequência infeliz de acções.
Doutor Bezerra, a quem sempre indagamos sobre o assunto, nos disse que para essa primeira leva do transporte da árvore evangélica, espíritas de primeira vez, não há muita chance de escapar dessa ocorrência.
Já no raiar do terceiro ciclo de setenta anos, que coincidirá com o amanhecer do terceiro milénio, teremos espíritas de segunda e terceira vezes na sua volta ao corpo.
Mais maduros, depois de sofrerem alguns efeitos indesejáveis de sua recente desencarnação como espíritas, regressarão com intuitos novos, mais voltados ao campo pessoal.
Os grupos, nessa ocasião, não serão a soma de muitas cabeças que pensam igual, mas de uma diversidade que aprende a convergir para um único ideal.
— E qual opinião a senhora e doutor Inácio têm sobre essas casas que crescem e ficam enormes?
Já notei que, quanto maior, menos simplicidade.
Quanto maior, mais problemas.
Na medida em que crescem, desaparece a fraternidade.
Essa motivação para divulgar a doutrina tem levado alguns companheiros à preocupação com números.
Números de atendidos, farnéis distribuídos, passes e até mesmo quantos frequentaram as sessões públicas.
— Atílio, meu caro irmão, Inácio e eu, por vezes, temos discutido esse assunto e cogitado que Jesus, em Sua augusta obra, convoca servidores para todos os géneros de tarefa.
Primeiro chamou doze apóstolos42, depois convocou os setenta43, e mais adiante, na Galileia, reuniu os quinhentos44, deixando claro que existem espécies diferentes de actividades e compromissos particulares.
Tenho para mim, entretanto, que é o tamanho da tarefa que proporciona ou não os valores morais que devem norteá-la.
Há casas pequenas com problemas severos de relacionamento.
— Então, como vocês enfocam o assunto?
— Pensamos, Atílio -interveio Inácio -, que quanto maior a tarefa, maior deverá ser a capacidade de conduzi-la.
Portanto, quanto maior, mais responsabilidade.
Tamanho, medido em números, não é uma referência que indique necessariamente a presença do espírito cristão nos ambientes de serviço da doutrina.
Apesar disso, como destacou Modesta, há tarefas de todos os tamanhos, e o maior problema dentro delas continua sendo nós mesmos.
— Mas vocês hão de convir que, quanto maior, mais problemas.
Não é?
— Quanto maior, mais desafios, mais cobrança -retornei à conversa.
— Uma obra como o sanatório que vocês dirigem já não é grande demais?
— Sem dúvida!
Mas Inácio e eu temos aplicado uma fórmula que parece estar sendo abençoada pelo Mais Alto.
— Que fórmula é essa?
Indique-me, por caridade!
— Jesus chamou doze, depois setenta e mais tarde os quinhentos, mas deixou claro que onde se reunissem dois ou três em Seu nome, Ele aí estaria.
Portanto, acreditamos piamente que podemos ter muitos na tarefa, todavia, o que importa mesmo é estar reunidos em Seu nome.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:43 pm

Se forem doze, setenta ou quinhentos, o importante é que seja em Seu nome.
Por experiências que já vivemos nos ambientes da doutrina, temos adoptado a proposta do Cristo de ter dois para dirigir e um terceiro quando for necessário desempatar.
Assim, ficamos Inácio e eu na condução, cada qual com seu parecer.
Quando não concordamos, colocamos uma pessoa de nossa afinidade para desempatar.
Como muitos de nossos companheiros não têm o comprometimento com a tarefa, pegamos o Manoel Roberto aqui dentro mesmo e resolvemos tudo.
Assim as coisas andam e não emperram.
— Pobre de mim, se quiser aplicar isso na federação!
— Lá, como na maioria das casas doutrinárias, não existem condições para esse tipo de direcção, Atílio.
— Não?
— Claro que não!
— E por quê?
— Eu e Modesta contamos com uma questão básica a nosso favor intercedeu Inácio.
— E o que é, doutor?
— Dirigir um sanatório de loucos significa enfrentar problema atrás de problema.
— Por isso não!
Na federação temos problemas atrás de problemas.
— Há uma diferença -falou Inácio e pegou seu cigarrinho num gesto típico de quem tinha resposta na ponta da língua.
— Que diferença?
— Dirigir loucos não conduz a nenhum destaque... -falou e deu uma baforada, deixando no ar aquele cheiro incómodo que tivemos de suportar.
— Entendi! -expressou Atílio.
Nisso o senhor tem razão.
Eu mesmo adorava os problemas, porque depois vinham as compensações do destaque.
E, para temperar a situação, creio que meu orgulho ainda me iludia com ideias fantasiosas de carma, como se os sofrimentos passados nesses testes decorressem de acções pretéritas.
— "O reino de Deus não vem com aparência exterior", afirmou Jesus, em Lucas, capítulo 17, versículo 20.
Devemos, pois, nos cuidar com os desvios.
Eurípedes Barsanulfo tem nos alertado com frequência sobre este aspecto de nosso aprendizado.
Os impulsos para obrarmos para fora de nós são muito intensos.
O benfeitor assevera sempre que espíritos como nós, com essa carreira milenar de fascínio pela grandeza, com a qual buscamos dilatar a importância pessoal, facilmente podem se entregar aos braços da ilusão, fugindo dos verdadeiros compromissos conscienciais.
Por essa razão, a tarefa espírita deve ser analisada por nós como oportunidade.
No início de nossa adesão ao Espiritismo, seguiremos as recomendações de participar e colaborar em qualquer campo de serviço.
Com o tempo, todavia, compete-nos descobrir em qual quadro de actividades podemos ser mais úteis, tomando por base as próprias necessidades de aprimoramento.
Até esse momento de maior maturidade, busquemos servir e aprender sem condições.
Posteriormente, mantenhamos a mesma linha educativa de auxiliar incondicionalmente, mas, dotados de mais dilatado discernimento, igualmente vamos aferir se o serviço está sendo útil também para nosso crescimento.
É muito fácil nos envolvermos com a obra de fora e protelarmos a obra interna de libertação pessoal.
Fácil encartarmos com quantidade e descuidarmos da qualidade.
Muitas vezes o que chamamos de trabalho não passa de movimento.
Reflictamos na pergunta do Mestre em Mateus, capítulo 16, versículo 23:
"Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?"
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:43 pm

Os benfeitores de nossa casa têm lembrado com assiduidade a questão 1.000 de O Livro dos Espíritos, que diz:
"Só por meio do bem se repara o mal, e a reparação nenhum mérito apresenta se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais".
Será que aos edificarmos uma obra de tamanha grandeza, como o sanatório, Inácio e eu estamos reparando?
Como temos tratado nosso interesse pessoal na Obra do Cristo?
Você, Atílio, já se perguntou qual o motivo básico de sua presença nos trabalhos da federação?
Qual sua intenção em ser um director?
Já avaliou se está mais senhor de seu próprio orgulho?
Já o consegue identificar com mais discernimento?
Além disso, se o identifica, o que tem feito para redireccioná-lo?
Depois do auto-conhecimento vem a etapa mais desafiadora: a renovação das atitudes.
Nessa etapa, alguns parâmetros são convenientes a nossa auto-avaliação, tais como:
mantemos o espírito de desapego da obra que não nos pertence?
Acolhemos com alegria aqueles que se aproximam para integrar o quadro de colaboradores?
Estendemos a outros a chance que tivemos de conduzir as responsabilidades?
Conseguimos ampliar o sentimento de humildade em reconhecer que precisamos mais da tarefa que ela de nós?
Estamos dando ouvidos fraternos às opiniões que nos chegam acerca dos destinos do trabalho?
Conduzimos a tarefa tendo como objectivo nos tornarmos dispensáveis a ela, caso seja necessário?
— Suas reflexões calam fundo em minha alma, dona Modesta.
Elas me fazem pensar e repensar meus caminhos espirituais.
Diante de sua inspirada fala, a senhora acha que tem havido uma tendência para a movimentação exterior sem trabalho efectivo no campo íntimo?
— Este é o traço principal de nossa rota evolutiva, meu caro irmão.
Muito discurso, pouca ou nenhuma prática.
— E por que nós costumamos ver as tarefas como missão?
Dentro da federação, inúmeras vezes, a tarefa é destacada como uma missão grandiosa e urgente.
Estamos em missão?
As obras de grande porte são missões?
Seus condutores são missionários?
— Creio que tem havido um equívoco no conceito de missão.
Todos temos uma missão, a princípio, connosco mesmo. Isso é facto.
Nesse passo, a missão é a libertação de nossa consciência do jugo da ilusão.
Na medida em que amaduremos nessa tarefa essencial, tornamo-nos candidatos naturais a serviços mais amplos, de conformidade com as habilidades e os pendores amealhados ao longo do percurso das reencarnações.
Entretanto, em nosso estágio de evolução, tem havido um factor que antecede a todas essas fases do crescimento:
a reparação consciencial.
Já submetemos aos amigos espirituais essa questão, e eles nos orientaram a respeito, doutor Bezerra, oportunamente, disse que raríssimos são os espíritos que reencarnam na Terra com missões colectivas que não sejam para reparar o passado. Portanto, diante deste cenário, acredito que, independentemente do tamanho da obra, a rigor, estamos fazendo o bem mais por motivos que atendem aos reclames de nossos registos de culpa que propriamente por amor legítimo.
Os Sábios Guias, na questão 893 de O Livro dos Espíritos, asseveram:
"A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal, pelo bem do próximo, sem pensamento oculto.
A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade"
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:44 pm

Doutor Bezerra tem nos contado muitos casos de religiosos, incluindo espíritas, que chegam ao Hospital Esperança em situações íntimas clamorosas e que se supunham, quando encarnados, verdadeiros campeões da caridade cristã.
— Por conta do interesse pessoal?
— Isso que os Orientadores da Codificação chamam de 'pensamento oculto" é o campo da vida mental que desconhecemos, e que muitos sequer desejam conhecer.
Aí reside o interesse pessoal, que se disfarça dos modos mais subtis.
— É tão difícil se anular em favor da obra, meu Deus!
— Não creio que a questão seja se anular.
O interesse pessoal faz parte da caminhada de ascensão.
O problema é não saber radiografar suas formas subliminares de expressão.
A desatenção total às suas armadilhas contínuas é que constitui o problema.
Se anularmos o interesse, poderemos tombar no desânimo e na inconsequência em relação às responsabilidades a nós conferidas.
Tudo tem de se situar na linha do equilíbrio.
Hoje, infelizmente, para muitos de nós, uma realidade é patente:
nem sequer admitimos que exista o interesse pessoal de nossa parte nas tarefas em que cooperamos.
Isso, por si só, já é uma grave questão.
— Só sei, dona Modesta, que serei eternamente grato aos abençoados serviços do sanatório e a vocês, que me ampararam com tanto desvelo neste instante de testemunhos.
Regresso a São Paulo com novas esperanças em meu coração.
Se algo puder fazer pelo movimento, estarei sempre aberto, mas essa internação aqui me levou a perceber que, antes de tudo, preciso cuidar de minhas próprias necessidades, pelas quais nada ou quase nada tenho feito.
Que alívio perceber isso a tempo!
Muito obrigado a todos, especialmente à senhora e ao doutor Inácio.
— A alegria é nossa em cooperar, Atílio.
Os méritos, porém, são dos amigos espirituais que aqui te trouxeram para uma pausa.
Particularmente o nosso querido João Castardelli.
Atílio integrou-se em definitivamente às frentes de serviço das Casas André Luiz na capital paulista, vindo a se tornar um de seus mais ardorosos colaboradores.
Candinha, sempre ao seu lado, assumiu o trabalho com as crianças.
O fim da década de 40 e o raiar dos anos 50 foram decisivos no processo de alicerçar as bases para o movimento espírita.
De 1945 a 1955, vários acontecimentos definiram rumos institucionais que talharam caminhos irreversíveis.
Por várias vezes, Inácio e eu, relemos as orientações que recebemos por volta de 1936, quando doutor Bezerra, Isabel de Aragão e Eurípedes Barsanulfo concitaram-nos vigilância em relação aos serviços junto à causa, pedindo-nos oração, trabalho e convivência fraterna.
Nessa mesma década, em inúmeras ocasiões, foram realizados trabalhos específicos nas sessões de desobsessão e durante a noite fora do corpo em favor de irmão H. e diversos outros tarefeiros dos desafiantes serviços da unificação na seara.
Com o tempo, ficou mais claro que a característica básica do tronco judaico-cristão que reencarnava no seio do movimento era de um grupo pouco afeito ao senso crítico.
Foram milénios de exploração hipnótica colectiva em nossa mente.
O orgulho era a causa de tal paralisia mental.
Um processo de alienação em razão da fuga do mundo íntimo.
Portanto, a estrutura mais marcante de nossa personalidade constituía-se em um grupo com pouca experiência espiritual em pensar rumos pessoais e descobrir as respostas para os conflitos interiores.
Enquanto Maria de Nazaré e sua falange intercediam pelas sombras do Vale do Poder, Isabel de Aragão, atendendo ao pedido de Jesus, passou a ser a tutora compassiva e sábia da seara espírita, organizando e preparando equipes socorristas pelo bem dos Centros Espíritas.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:44 pm

O pedido do Senhor foi por amparo incondicional às agremiações espíritas, para que o segundo ciclo de setenta anos não se consumasse em um quadro irremediável na obra da doutrina, assim como ocorreu com o cristianismo nascente.
O interesse dos adversários, a esse tempo, era exterminar a simplicidade, fincar novamente os alicerces do formalismo religioso e fechar os postos de amparo e esclarecimento na erraticidade.
Para o mundo espiritual era claro um aspecto:
espíritos como nós não poderiam fazer algo de melhor além do que estávamos dando conta de fazer!
O que de melhor apresentamos em nossa alma é o desejo sincero de largar o mal intencional.
Por essa razão, os tutores espirituais da mensagem evangélica na Terra, mesmo conscientes das mais infantis distracções no seio da comunidade espírita, em tempo algum deixaram de estimular e endossar as realizações em torno da unificação e da caridade cristã, ainda que muitas delas nada mais fossem que expressões de personalismo individual ou institucional.
Para almas gravemente enfermas como nós, que outra condição nos permitiria a vida a não ser trabalhar e trabalhar para reparar nossos dramas conscienciais?
Somente assim -e disso sabiam os nossos benfeitores -, não apenas largaríamos o mal em definitivamente, mas igualmente, pouco a pouco, aprenderíamos como edificar o bem legítimo fora e dentro de nós mesmos.
Apesar da nossa ilusão com virtudes que ainda não possuímos, nossos tutores jamais nos abandonaram nos roteiros do trabalho espírita.
Eles sempre tiveram plena consciência da nossa condição espiritual infantil.
Por essa razão, abonaram nosso descuido na obra e mantiveram-se pacientes e acolhedores ante os nossos ensaios no bem.
Quais pais diante de seus filhos inexperientes, eles nos socorreram e socorrem na certeza de que mais adiante seremos cooperadores mais conscientes.
Os Bons Espíritos nos enxergam como diamantes no lodaçal e agem com base na proposta do amor:
o diamante no lodo não deixa de ser diamante.
Por esse motivo, o exemplo de amor de João Castardelli e sua equipe vem intercedendo há décadas em favor de melhores dias, espalhando a misericórdia e a bondade na semeadura da seara bendita do Espiritismo.

39 Hospital Américo Bairral -Fundado em 1937, o Instituto Bairral de Psiquiatria figura entre os primeiros hospitais psiquiátricos filantrópicos instalados em nosso país.
Seu idealizador foi o líder espírita Américo Bairral, que infelizmente veio a falecer antes do início da obra, sendo esta levada a efeito por seus confrades e continuadores itapirenses.
40 Jaime Monteiro de Barros -desencarnou em 10/11/1996, tendo nascido em São Paulo aos 25/10/1913.
Tornou-se espírita ainda jovem, dedicando-se com muito ardor ao estudo e à divulgação da doutrina.
Participou da fundação da Federação Espírita do Estado de São Paulo juntamente com seu irmão Luiz Monteiro de Barros.
41 João Castardelli -filho de José Castardelli que, após o desencarne prematuro de seu filho, homenageou sua memória com uma profícua obra social que deu origem à actual Casas André Luiz, em São Paulo.
42 Mateus, 10:1
43 Lucas, 10:1
44 I, Coríntios, 15:9
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:44 pm

Capítulo 13 - Uma Estranha Sociedade "Espírita" nos Abismos
"Em que consistem os sofrimentos dos Espíritos inferiores?"
"São tão variados como as causas que os determinam, e proporcionados ao grau de inferioridade, como os gozos o são ao de superioridade.
Podem resumir-se assim: invejarem o que lhes falta para ser felizes e não obterem; verem a felicidade e não na poderem alcançar; pesar, ciúme, raiva, desespero, motivados pelo que os impede de ser ditosos; remorsos, ansiedade moral indefinível.
Desejam todos os gozos e não podem satisfazer: eis o que os tortura."

-O Livro dos Espíritos — questão 970.

Entramos na década de 50 com desdobramentos nos conflitos anti-fraternais que se espalharam pelo país como um odor insalubre e indigesto.
Enquanto isso, ao lado do joio, o trigo vicejante multiplicava suas expressões de bondade e misericórdia.
Por várias vezes nesse decénio, Chico Xavier esteve em Uberaba a serviço.
Nas ocasiões abençoadas, sempre que podia visitava nossa casa de orações e minha família.
Em uma dessas oportunidades inesquecíveis, o médium participou de uma actividade voltada para os Centros Espíritas da região.
A tarefa começou tarde, porque Chico tinha inúmeros compromissos profissionais.
Dessa feita, acompanhado pelo seu chefe, Rómulo Joviano45, iniciamos a sessão com intuitos bem definidos segundo orientação de Eurípedes Barsanulfo.
Após oração e leitura, Chico começou a se remexer inquietantemente na cadeira.
Logo a seguir, com a voz completamente alterada, em transe de incorporação, expressou:
— Essa terra nos pertence.
Uberaba é nossa e jamais abriremos mão do desafio!
Nosso templo já está erguido nas duas faces da vida.
Muito antes dessa casa amaldiçoada de insanos, nós já tomávamos conta desse lugar, desde o início do século.
Portanto, retirem-se ou vão experimentar a dor da impiedade ou... -fez uma pausa e continuou com ironia -vocês podem se render aos nossos propósitos, quem sabe?!
Mantive-me em oração e atenta.
Pela visão percebia que, além da entidade comunicante, mais seis espíritos rodeavam o médium.
Estavam com roupas de abades dominicanos na cor vermelha e traziam uma cruz de caravaca estampada no tórax. Inácio iniciou o diálogo.
—A quem me dirijo?
—Sou Torquemada, chefe supremo dos domini canis, os cães do senhor.
Servimos a verdade absoluta.
— Tomás de Torquemada?!
— Surpreso, doutor?
— Não poderia deixar de estar, conquanto sempre sentisse sua presença entre nós.
— Somos da mesma laia.
— Desculpe decepcioná-lo, mas não me sinto mais assim.
— Mas traz por dentro o desejo incontido de cometer novas loucuras ou vai negar essa verdade?
— De jeito algum! Estou na condição de alguém que cuida de loucos para curar a minha própria loucura.
— Isso é uma balela, doutor.
Somente os novos abades podem optar pelo caminho certo.
— Novos abades?!
— Fundamos uma nova casta.
Os abades espíritas dominicanos.
A revelação dada a Kardec foi fruto de uma traição política em nossa esfera de vida.
Nós, os dominicanos, e somente nós, possuímos autorização para revelar os assuntos do Espiritismo.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:45 pm

— Pode clarear sua tese? - falou Inácio como um investigador, postura que sempre adoptava nas conversas com os espíritos.
— Está mesmo interessado em nos ajudar? -falou a entidade de forma matreira.
— Fale e vou pensar -disse Inácio com certa sagacidade na palavra e demonstrando indisfarçável curiosidade.
— Desde séculos e séculos há uma guerra pela bandeira da verdade.
Querem nos tomar o poder delegado pelo Cristo de Deus para espalhar o Evangelho.
Diversas facções criminosas prepararam Kardec em surdina.
Creio que tivemos uma infiltração em nossas hostes, até hoje não descoberta, que revelou ao inimigo todos os fundamentos do Espiritismo dominicano, que veio para conduzir o mundo aos seus destinos.
Uma facção de padres católicos e protestantes vai pagar caro pelo que fez.
Somos os verdadeiros espíritas.
Abades espíritas dominicanos.
Inácio não se continha de interesse no assunto.
— Abade espírita dominicano?!
— O senhor não conhece esse título, como é natural. Estar na matéria tem essa desvantagem.
— Você fundou uma religião espírita, Torque-mada?
— Foi um desígnio de Deus.
Minha tarefa pelo Evangelho ainda não foi concluída.
Enquanto o próprio Cristo não aparece, sigo as ordens sagradas de meus maiorais.
Eles estão em permanente contacto com Jesus.
Logo, eu também me sentarei ao lado do senhor.
— Torquemada, não posso deixar de manifestar meu interesse de pesquisa em seu tema -falou Inácio, olhando para mim, pedindo um aval para a continuidade da entrevista.
— Estou aqui para isso, doutor.
O senhor precisa mesmo ser bem esclarecido sobre o que vem ocorrendo para mudar seus rumos.
— Se vou mudar meu rumo não sei, mas diga-me:
como esses maiorais fazem contacto com o Cristo?
— Jesus mora longe, doutor.
Somente por meio de viagens interplanetárias se pode chegar lá.
— E você acredita mesmo nisso?
— O senhor ainda tem dúvidas?
Um dos nossos princípios não é a pluralidade dos mundos habitados?
O que o senhor sabe sobre o degredo?
Como acha que a raça adâmica chegou ao planeta?
Quem o senhor acha que está trazendo o progresso para essa terra de expurgo?
Nossa equipe é a mentora do Espiritismo, doutor.
Fomos traídos e pagarão caro por isso.
— Então você se considera um espírita, Tomás?
— Claro que sim.
Quem são os verdadeiros espíritas senão os abades domini canis7.
Por fim, ingressei também no diálogo.
— Boa noite, Tomás!
— Boa noite, Catarina, meus respeitos ao seu nobre séquito!
— Você sabe que não sou mais quem diz que sou.
— Catarina está mais viva em sua alma que nunca.
— Isso é passado, Tomás.
— O passado nos reuniu, rainha.
— Por pouco tempo, Tomás!
Por pouco tempo!
— O tempo não passa para almas como nós, mulher.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:45 pm

Fui e quero continuar sendo seu tutor.
Nas suas angústias de infância, eu te amparei daqui da vida imortal.
Nos seus desafios de rainha, eu te protegi.
Sua família me fez juras eternas que vão se cumprir agora.
Os Valois são sangue de meu sangue, alma de minha alma.
— O passado ninguém muda, é bem verdade.
Nosso modo de olhar para ele, porém, é uma questão de escolha.
— Eu tenho orgulho do meu!
— Nisso reside a causa de nossos equívocos, Tomás.
— Eu não me sinto em equívoco.
— Por enquanto, irmão querido!
Por enquanto!
Infelizmente, nossa condição é tão caótica sob o enfoque espiritual que nem sequer temos coragem para admitir nossa fragilidade.
Admiti-la significa iniciar um ciclo de muita dor.
— jamais admitirei a derrota.
— Admitir-se fraco não significa derrota, Tomás.
Ao contrário, para almas falidas como nós, é indício de melhora e coragem.
— Cada dia mais nos fortalecemos e temos mais adeptos na nova seara. Kardec foi preso rainha e agora está do nosso lado. Os acordos estão prontos.
— Preso?
— Sim. Esta foi nossa última vitória.
Agora fica tudo mais fácil.
— Kardec está com vocês?
— Se duvidar, podemos trazê-lo aqui.
Seus méritos me permitem essa medida.
Você não é médium, rainha?
Então o verá.
— De que acordo você fala?
— Ele mesmo já está convencido de que foi um erro propagar a doutrina sob orientação dos vilões de ideias.
Corsários iludidos que dizem trabalhar por Jesus tiraram de nossa mesa os planos para evangelização espiritual do mundo.
Todavia, agora temos acordos bilaterais.
As facções estão em paz.
O Espiritismo de Kardec passará também a ser o nosso Espiritismo.
Pureza doutrinária integral.
— Fidelidade máxima sem subterfúgios.
Uma nova cruzada pela doutrina pura e santificada.
Kardec renunciará ao título de embaixador de Mais Alto e conferirá a nós, os dominicanos, a santa honra dos ensinos novos no mundo.
Teremos de volta o que nos é de direito.
Mais que nunca continua valendo a bula "Licet ad capiendos"46:
"Onde quer que os ocorra pregar estais facultados, se os pecadores persistem em defender a heresia, apesar das advertências, a privá-los para sempre de seus benefícios espirituais e proceder contra eles e todos os outros, sem apelação, solicitando em caso necessário a ajuda das autoridades seculares e vencendo sua oposição, se isto for necessário, por
meio de censuras eclesiásticas inapeláveis".
Novas fogueiras serão acesas, minha cara rainha-mãe.
— Foram vocês que criaram essa ideia de pureza?
— Baseados no santo Evangelho: bem-aventurada a pureza...
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 30, 2018 8:45 pm

— Lá diz os "puros de coração".
— A pureza de coração só é possível quando formos fiéis.
Nosso coração serve ao Cristo.
Quem tem maior coragem que nós de enfrentar tantos obstáculos para que o Cristo impere nesse mundo?
Se necessário, para que o amor tenha lugar, é preciso a força nesse mundo de degredo.
— Você está cego de fanatismo como outrora, Torquemada retomou Inácio, claramente irritado com a entidade.
— Cego, doutor?
A qual cegueira se refere?
Aquela que o senhor possui em relação ao que se passa aqui em Uberaba?
Garanto que lhe passo informações em primeira mão, não é mesmo?
Na medida em que a entidade falava, fomos percebendo a sua estratégia inteligente de desviar o assunto com informações que, àquele tempo, ainda desconhecíamos.
Em alguns momentos da comunicação, Chico penetrava em tão profundo transe que o comunicante se manifestava em espanhol límpido.
— Preciso ter a humildade de me render aos seus informes, Torquemada.
Estou na matéria e, de facto, pouco sei do que se passa no ambiente extra-físico de Uberaba.
Porém, não expressam a Verdade.
Suas informações são fruto da insanidade que te acometeu.
— Uberaba é nossa casa.
Foi escolhida por nós para ser a nossa catedral.
No plano físico, sabes de nosso movimento.
— É verdade. Os primeiros dominicanos do Brasil47 chegaram à nossa terra, mas nada guardam dos vestígios de crueldade de sua proposta.
— Temos planos que desconheces.
A seara espírita no corpo perceberá a tempo que a religião da verdade é a abadia espírita que aqui estamos construindo.
Abadia de ideias que será a solução para o futuro.
Peça à sua médium para olhar em volta.
Veja quanta majestade possui nossa diocese.
É a maior de todo o planeta.
Somos unidos, e não és capaz de conceber a extensão de nossas fileiras.
Os cães do senhor são a fatia nobre dos dragões!
— E você acha mesmo que os dragões servem a Jesus?
— Que pergunta infantil, meu caro doutor!
Tens dúvidas?
— Você delira, Torquemada.
— O que é o delírio, doutor, senão a capacidade de enxergar mais profunda e originalmente as coisas?
O clima espiritual da reunião pesava. Os médiuns sentiam diversas reacções desconfortáveis.
Pedimos uma oração conjunta, enquanto a entidade permaneceu em absoluto silêncio.
Terminada a prece, ele continuou:
— O Espiritismo é o último estágio das revelações.
Somos seus condutores.
Ninguém poderia trazer para a Terra essa novidade a não ser os servidores do Evangelho autorizados pelo senhor da vinha.
O plano está se consumando, e nós aqui viemos para recrutar mais servidores.
Os dragões agora somos nós, que nos unimos para uma causa comum:
tirar do caminho todos os que se opõem à pureza dos princípios.
Precisamos desfazer o equívoco histórico e colocar os factos nos trilhos da verdade, como eles são.
Nós somos os legítimos autores das ideias espíritas.
Ninguém mais tem o direito de expô-las.
Somos os embaixadores do Cristo para tal mister.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:53 pm

— Jesus não confere exclusividade, Tomás.
— Só almas ingénuas podem pensar assim.
Por que teria Ele escolhido doze para continuar?
Por que teria Ele colocado nos ombros de Pedro a missão gloriosa de nossa casa católica?
Estamos com representantes na grande maioria das casas espíritas.
Até o fim do século se consumará uma organização sólida capaz de erguer o tabernáculo eterno.
O espaço, pouco a pouco, vai sendo resgatado.
Queremos apenas o que nos pertence.
A pureza dos princípios, o rigor à tábua da verdade contida nas obras básicas.
O Evangelho renovado agora é o Espiritismo.
O Pentateuco de Kardec é a nova esfinge do poder e da glória.
A reencarnação e a mediunidade são nossos esteios.
Nossos padres estão por todos os lugares.
Temos a fórmula perfeita para que amanhã todos os homens se rendam aos princípios espíritas.
Uma religião única.
Abades dominicanos espíritas, eis o nosso sonho.
Homens de cultura no corpo físico e aqui no país da morte querem dominar por intermédio da ciência.
O que será dos místicos de Deus, se a ciência pretensiosa quiser o seu lugar?
Combateremos com todas as nossas virtudes quem se opuser aos destinos novos.
A missão a mim entregue, de longa data, alcançará seu fim.
As novas casas cristãs que se erguerem em nome do Espiritismo serão células operantes dos cristãos viris e com autoridade para determinar os caminhos do Evangelho.
Seremos os místicos.
Protegeremos a santa doutrina dos cientistas maculosos.
Faremos renascer na matéria milhares de nossos missionários.
Serão pitons dos tempos modernos.
Presidirão nossas casas de evangelização. Os velhos segredos que não podíamos revelar, agora serão descortinados a todos os povos.
Varreremos o mundo com as concepções espíritas, a religião do futuro.
Criaremos o Catolicismo espírita, que atenderá todas as necessidades de Deus nessa Terra de degredo.
Quero convidá-los a conhecer nossa Catedral Espírita Domingos de Gusmão para que avaliem melhor sobre o tamanho de nossa tarefa.
Espero-os ainda esta noite em nossa esfera.
Nessa altura do diálogo, percebi a presença de Clarisse, Matias, Cornélius e doutor Bezerra unindo as mãos em oração.
Chico teve um sobressalto na cadeira e Tomás, como fosse uma bala atirada de uma arma, partiu em alta velocidade a destinos por mim ignorados.
Demos um copo de água ao Chico, que se mostrava sereno, embora com uma expressão de sofrimento no rosto devido ao desgaste da comunicação.
Logo ele se recompôs.
A reunião estava prestes a se encerrar, quando o médium, percebendo a presença do benfeitor Emmanuel, entregou-se passivamente à psicofonia.
— "Um modesto esforço da história faz entrever os laços eternos que ligam todas as gerações nos surtos evolutivos do planeta.
Muitas vezes, o palco das civilizações foi modificado, sofrendo profundas renovações nos seus cenários, mas os actores são os mesmos, caminhando, nas lutas purificadoras, para a perfeição Daquele que é a Luz do princípio.
Nos primórdios da humanidade, o homem terrestre foi naturalmente conduzido às actividades exteriores, desbravando o caminho da natureza para a solução do problema vital, mas houve um tempo em que a sua maioridade espiritual foi proclamada pela sabedoria da Grécia e pelas organizações romanas.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:53 pm

Nessa época, a vinda do Cristo ao planeta assinalaria o maior acontecimento para o mundo, de vez que o Evangelho seria a eterna mensagem do Céu, ligando a Terra ao reino luminoso de Jesus, na hipótese da assimilação do homem espiritual, com respeito aos ensinamentos divinos.
Mas a pureza do Cristianismo não conseguiu se manter intacta, tão logo regressaram ao plano invisível os auxiliares do Senhor, reencarnados no globo terrestre para a glorificação dos tempos apostólicos.
O assédio das trevas avassalou o coração das criaturas.
Decorridos três séculos da lição santificante de Jesus, surgiram a falsidade e a má-fé adaptando-se às conveniências dos poderes políticos do mundo, desvirtuando-se-lhe todos os princípios, por favorecer doutrinas de violência oficializada.
Debalde enviou o Divino Mestre seus emissários e discípulos mais queridos ao ambiente das lutas planetárias.
Quando não foram trucidados pelas multidões delinquentes ou pelos verdugos das consciências, foram obrigados a capitular diante da ignorância, esperando o juízo longínquo da posteridade.
Desde essa época, em que a mensagem evangélica dilatava a esfera da liberdade humana, em virtude da sua maturidade para o entendimento das grandes e consoladoras verdades da existência, estacionou o homem espiritual em seus surtos de progresso, impossibilitado de acompanhar o homem físico na sua marcha pelas estradas do conhecimento.
É por esse motivo que, ao lado dos aviões poderosos e da radiotelefonia, que ligam todos os continentes e países da actualidade, indicando os imperativos das leis da solidariedade humana, vemos o conceito de civilização insultado por todas as doutrinas de isolamento, enquanto os povos se preparam para o extermínio e para a destruição.
É ainda por isso que, em nome do Evangelho, se perpetram todos os absurdos nos países ditos cristãos.
A realidade é que a civilização ocidental não chegou a se cristianizar.
Na França temos a guilhotina, a forca na Inglaterra, o machado na Alemanha e a cadeira eléctrica na própria América da fraternidade e da concórdia, isto para nos referirmos tão somente às nações superdesenvolvidas do planeta.
A Itália não realizou sua agressão à Abissínia em nome da civilização cristã do Ocidente?
Não foi em nome do Evangelho que os padres italianos abençoaram os canhões e as metralhadoras da conquista?
Em nome do Cristo espalharam-se, nestes vinte séculos, todas as discórdias e todas as amarguras do mundo.
Mas é chegado o tempo de um reajustamento de todos os valores humanos.
Se as dolorosas expiações colectivas preludiam a época dos últimos 'ais' do Apocalipse, a espiritualidade tem de penetrar as realizações do homem físico, conduzindo-as para o bem de toda a humanidade.
O Espiritismo, na sua missão de Consolador, é o amparo do mundo neste século de declives da sua história; só ele pode, na sua feição de Cristianismo redivivo, salvar as religiões que se apagam entre os choques da força e da ambição, do egoísmo e do domínio, apontando ao homem os seus verdadeiros caminhos.
No seu manancial de esclarecimentos, poder-se-á beber a linfa cristalina das verdades consoladoras do Céu, preparando-se as almas para a nova era.
São chegados os tempos em que as forças do mal serão compelidas a abandonar as suas derradeiras posições de domínio nos ambientes terrestres, e os seus últimos triunfos são o penhor de uma reacção temerária e infeliz, apressando a realização dos vaticínios sombrios que pesam sobre o seu império perecível.
Ditadores, exércitos, hegemonias económicas, massas versáteis e inconscientes, guerras inglórias, organizações seculares, passarão com a vertigem de um pesadelo.
A vitória da força é uma claridade de fogos de artifício.
Toda a realidade é a do Espírito e toda a paz é a do entendimento do reino de Deus e de sua justiça.
O século que passa efectuará a divisão das ovelhas do imenso rebanho.
O cajado do pastor conduzirá o sofrimento na tarefa penosa da escolha e a dor se incumbirá do trabalho que os homens não aceitaram por amor.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:53 pm

Uma tempestade de amarguras varrerá toda a Terra.
Os filhos da Jerusalém de todos os séculos devem chorar, contemplando essas chuvas de lágrimas e de sangue que rebentarão das nuvens pesadas de suas consciências enegrecidas.
Condenada pelas sentenças irrevogáveis de seus erros sociais e políticos, a superioridade europeia desaparecerá para sempre, como o Império Romano, entregando à América o fruto das suas experiências, com vistas à civilização do porvir.
Vive-se agora, na Terra, um crepúsculo, ao qual sucederá profunda noite; e ao século XX compete a missão do desfecho desses acontecimentos espantosos.
Todavia, operários humildes do Cristo, ouçamos a sua voz no âmago de nossa alma:
'Bem-aventurados os pobres, porque o reino de Deus lhes pertencei.
Bem-aventurados os que têm fome de justiça, porque serão saciados!
Bem-aventurados os aflitos, porque chegará o dia da consolação!
Bem-aventurados os pacíficos, porque irão a Deus!'
Sim, porque depois da treva surgirá uma nova aurora. Luzes consoladoras envolverão todo o orbe regenerado no baptismo do sofrimento.
O homem espiritual estará unido ao homem físico para a sua marcha gloriosa no Ilimitado, e o Espiritismo terá retirado dos seus escombros materiais a alma divina das religiões, que os homens perverteram, ligando-as no abraço acolhedor do cristianismo restaurado.
Trabalhemos por Jesus, ainda que a nossa oficina esteja localizada no deserto das consciências.
Todos somos chamados ao grande labor, e o nosso mais sublime dever é responder aos apelos do Escolhido.
Revendo os quadros da história do mundo, sentimos um frio cortante neste crepúsculo doloroso da civilização ocidental.
Lembremos a misericórdia do Pai e façamos as nossas preces.
A noite não tarda e, no bojo de suas sombras compactas, não nos esqueçamos de Jesus, cuja misericórdia infinita, como sempre, será a claridade imortal da alvorada futura, feita de paz, de fraternidade e de redenção.
Emmanuel"1
Encerrada a actividade, fomos tomar um café com leite, predilecção de Chico.
Durante o repasto, o medianeiro chamou o grupo para uma conversa e vaticinou:
— Dona Modesta, doutor Inácio e demais amigos, essa foi uma noite de bênçãos.
As raízes espirituais do Sanatório Espírita de Uberaba estão nas noites sangrentas da Inquisição e no recesso sombrio das celas frias dos palácios de impiedade na França.
Homens e mulheres enlouquecidos em ambos os planos de vida regressam clamando contas e débitos.
Raros são os espíritas que passam por outro género de provas e lições.
Nossa comunidade é comparável a valorosa enfermaria na qual buscamos recuperação e paz na alma.
Estamos cansados e oprimidos em busca do Cristo que dizemos amar.
Pesa sobre os celeiros espíritas uma nuvem escura de severos compromissos.
Iludidos por nosso orgulho, haveremos de nos supor especiais.
O tempo e o amadurecimento, todavia, deixarão expostas as chagas de nossas doenças espirituais e perceberemos que especial é somente a doutrina.
A auto-suficiência e a prepotência envernizada serão focos destrutivos dos mais caros sonhos de conciliação.
Discórdias e intolerância ao lado de oportunidade e esclarecimento. Joio e trigo.
Urge o trabalho bendito de reeducação nos mais profundos fossos de dor, nos quais se alongam na vida extrafísica essas raízes enfermiças de nossas desditas.
Trabalhemos pelo asseio desses ambientes onde jazem corações estreitamente ligados aos nossos.
Cornélius, que me inspira nesta hora, diz que os levará a conhecer um dos mais recentes pátios de loucura colectiva edificado na erraticidade.
Sirvamos com desvelo por eles.
São nossa fonte de redenção consciencial.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:54 pm

Eu quero agradecer pela visita desta noite. Somente aqui pude entender as razões de muitas ocorrências de nossa seara.
— A gratidão é nossa, Chico -falei emocionada.
Jesus nos tem sido muito compassivo com a extensão de nossos compromissos.
Será que você poderia nos responder a uma pergunta?
— Se estiver ao meu alcance, dona Modesta!
— Torquemada é um dragão?
— Foi. Ele tem vínculos com os dragões, assim como muitos servidores das sombras que, mesmo não participando da organização, guardam interesses comuns.
— Ele já pertenceu a essa organização?
— Foi expulso.
Actualmente formou seu próprio séquito, mas, como acontece com os mais fortes poderes constituídos na Terra, o sombrio Vale do Poder tem seus tentáculos estendidos por inúmeras ordens de interesses.
Com isso, de alguma forma, a nova ordem por ele criada rende preito aos maiorais no Vale do Poder em identidade de propósitos por meio de parcerias de politicagem e invigilância.
— Chico -indagou Manoel Roberto -, como entender essa ligação entre dominicanos e espíritas feita por nosso irmão?
— Meu caro Manoel, nossa colectividade espírita tem uma história antropológica, cujo nascedouro se perde na esteira dos tempos.
Fazemos parte do tronco judaico-cristão.
Desde as revelações de Moisés, depois com a Boa Nova do Cristo e agora com o Consolador, temos um longo percurso de quedas e aprendizado que estrutura o alicerce moral do movimento espírita brasileiro.
judeus, cristãos, espíritas, católicos ou dominicanos, independentemente da designação religiosa, somos almas aflitas à procura de Jesus, milénios a fora, na caminhada da evolução.
Antecedendo a obra da organização do Espiritismo em terras brasileiras, forças do Mais Alto se movimentaram em favor de melhores dias para a massa de almas adoecidas, como nós, nos roteiros da religião e da política.
Entretanto, como é natural, ao lado desse movimento de libertação e ascese, as furnas do mal, percebendo a intensidade da repercussão de tais acções pelo bem, uniram-se, entre os mais poderosos, para destruir a expansão das ideias espíritas, das quais se sentiam proprietários.
Uma das reacções mais marcantes do surgimento da doutrina no mundo foi exactamente o ódio dos condutores da maldade ao saberem que a imortalidade estava sendo consagrada novamente na Terra sem sua permissão.
Com o Espiritismo, a humanidade disporia de uma ideia poderosa para abandonar os braços do materialismo estéril.
Por outro lado, a obra inspirada de Jesus no Brasil não estava sendo erguida por almas missionárias, mas por corações doentes e necessitados do Médico Celeste.
Diante de tanta fragilidade, como nos manter de pé sem a misericórdia do Mais Alto?
Este o trabalho desta noite.
Na medida em que se desarticulam equipes como a de Tomás, centenas de casas espíritas e milhares de companheiros encontrarão forças para continuar na luta contra seus próprios compromissos e tendências.
Ao contrário, quantos se imantarem às forças da intolerância ou, simplesmente, conectarem seu estado mental ao destaque das faltas alheias, manterão laços sombrios com tais comunidades que, de alguma forma, são extensões espirituais da comunidade espírita.
Somos uma família.
No seio da comunidade espírita encontra-se no corpo físico somente a parcela de almas que já estão internadas e recebendo medicação e tratamento adequado às suas necessidades.
Entretanto, as células mais adoecidas da comunidade espírita, capazes de degenerar todo um sistema de ideias, ainda se encontram na erraticidade.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:54 pm

Nossos laços mais enfermos ainda estão no atoleiro da perversidade declarada.
Renasceram somente quantos apresentaram as mínimas possibilidades de êxito no refazimento de caminhos.
Doutor Bezerra está me dizendo que vocês já sabem a que grupo pertencemos no tronco judaico-cristão.
Somos os mentores das piores tragédias do cristianismo nos últimos 2000 anos.
Os mineiros têm compromissos graves com o Evangelho do Cristo.
Não há como caminhar sem carregarmos o peso dessa enorme família que somos.
Sob a hipnose da matéria, facilmente podemos nos equivocar novamente e julgarmos especiais pelo que fazemos.
Quando devolvermos o corpo ao celeiro da natureza, a vida nos revelará claramente a extensão deste grupo.
Por que, então, aguardar a morte para o serviço inadiável de remição de nossas faltas?
Por que aguardar a morte para sofrermos o choque nefasto da desilusão tardia?
A hora é de trabalho e acção no bem.
Sigamos avante com confiança e esperança em nossas almas.
Deus nos guarde os caminhos.
Agora preciso regressar aos meus compromissos mediúnicos da escrita.
Permitam que eu me retire.
— Não esqueceremos esta noite, Chico.
— Nem eu, dona Modesta! Nem eu!
Todos nos dirigimos aos nossos lares.
A noite avançava.
Estava exausta pelas lutas daquele dia, todavia, feliz por receber, por intermédio do Chico, a confirmação clara de tudo que nossas práticas estavam nos instruindo.
Cornélius retirou-me do corpo com facilidade.
Afastamo-nos alguns quilómetros de Uberaba em volitação.
Em uma mata virgem encontramos Inácio e os demais companheiros de ambos os planos que sempre estavam presentes nos labores nocturnos.
Começamos a "descer".
Fomos até o umbral.
Paramos. Fizemos uma prece e "descemos" ainda mais.
Chegamos às fronteiras do abismo.
Vimos, então, uma enorme igreja.
Ficamos a distância, sem ser percebidos, mas era possível, de longe, ler o nome:
Ordem dos Abades Espíritas Domingos de Gusmão.
Era, de fato, uma enorme catedral em estilo neogótico.
Uma multidão de centenas de pessoas se aglomeravam à frente da igreja.
Uns encarnados, outros não.
Em um tablado improvisado nas portas de entrada podiam-se ver a pompa dos tronos bem talhados e Tomás assentado ao meio.
Alguém tocou um sino.
Houve silêncio e Torquemada, agora de pé, assumiu a palavra.
— Amados! Amados! -expressou em tom de arrogância.
Meus servos queridos! Luz para todos!
A multidão manifestou alegria em ouvi-lo com gritos e palmas.
Havia, pelo menos, 4.000 pessoas ali reunidas naquela noite.
— Eu agradeço a saudação e os consagro com minha bênção.
Todos se ajoelharam, fizeram o sinal da cruz e se levantaram novamente.
— Meus súbditos fiéis e cristãos verdadeiros, tenho notícias que vão alegrar a todos.
Nossas fileiras, esta noite, têm motivos especiais para se alegrar.
Duas novidades extasiantes.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:54 pm

A primeira delas é que meus maiorais me informaram que receberemos em breve a visita tão esperada do súbdito redimido Allan Kardec.
A multidão enlouqueceu com a notícia.
Pulavam como crianças felizes.
Batiam palmas para o alto.
Outros ajoelhavam como se agradecessem a Deus.
— Silêncio! Silêncio!
Ainda não acabou!
A novidade que mais alegrou aconteceu há poucas horas.
Estamos prestes a recrutar Chico Xavier e os dirigentes do Sanatório Espírita de Uberaba para nossas hostes.
O povo perdeu o controle de tantas manifestações.
E nós ficamos quietos e nos entreolhando.
Somente Cornélius mantinha seus olhos atentos à cena, sem se mexer.
— Estivemos na casa deles e fui muito bem recebido.
As coisas vão indo bem.
Como podem ver, esta catedral -e apontou para as torres imponentes da igreja -será o futuro desta humanidade sofrida e carente.
Leis menos severas para renascer no corpo serão implantadas.
Vocês querem o corpo?
Terão bons corpos. Eu prometo!
Mas que adianta a matéria para purgar culpas?
Renascer para Deus.
Somente a Ordem dos Abades Espíritas pode cumprir essa promessa.
Hoje quero presenteá-los!
Além de boas notícias que devem ser espalhadas, quero lhes dar mais.
Aqui está! -entraram diversos súbditos com carrinhos trazendo pilhas e mais pilhas de livros.
Eis o verdadeiro O Livro dos Espíritos revisado pelo próprio Kardec.
Evangelho e Espiritismo. Jesus e Kardec, fora dessa bandeira não há salvação.
Peguem, leiam e se deliciem com as novidades.
Faremos cursos completos sobre a verdade. Terão alimento farto.
Atenderemos às suas saudades da matéria enquanto não renascerem.
Faremos audiência para seus interesses de justiça e, se necessário, a vingança.
Temos tecnologia cedida pelo Vale do Poder que nos coloca meio século à frente do mundo físico.
Aqui somos deuses, assim como seremos no mundo.
Repitam bem alto comigo:
somos deuses e temos a verdade!
Todos, aos gritos, repetiam o mantra hipnótico.
— Nada é verdade neste mundo sem a Igreja Católica.
Somos os únicos cristãos reconhecidos por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Vocês amam a bíblia?
— Sim, sim, amamos muito!
— Amarão, então, este livro também.
Ele é o segredo pelo qual lutamos há séculos.
Vamos colonizar os Centros Espíritas e fazer as adaptações necessárias.
Nada de destruir.
O plano é amoldar.
Assim ganharemos tempo no alcance de nossos objectivos.
Queremos o controle absoluto sobre todo intercâmbio.
Nada de mediunidade sem autorização prévia.
Quem mais, além de nós, pode avaliar o que pode ser dito aos homens na matéria física?
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:54 pm

Queremos controle para ninguém mais tomar posse daquilo que somente os embaixadores do Senhor podem expressar ao mundo.
O cristianismo dominicano redivivo, custe o que nos custar, haverá de vicejar em todas as nações.
Quem lutar contra esse propósito será banido.
Teremos trabalho para todos.
Já são alguns milhares de casas para cristianizar.
Nada de caridade e socorro.
Quem nasceu para pagar, merece a prova que tem.
Cada Centro Espírita conquistado aos nossos propósitos significa uma promoção imediata.
E, por cada ano de manutenção desta conquista, mais fatia de poder em nossa catedral.
Façam como meus conselheiros, que foram todos agraciados pela sagacidade e inteligência.
E, então, Tomás, de pé, espalmou a mão à frente dos que se assentavam ao seu lado.
Neste instante, mesmo guardando distância, olhei com mais atenção os conselheiros e reconheci entre eles Anaz, o perseguidor de Atílio, que havia sido recém-recrutado por esta casta de espíritos.
E o palestrante continuou sua palestra de forma imponente:
— Entrem nas dependências do centro como carentes.
Questionem os frequentadores, sondem a mente dos palestrantes, participem das reuniões de directorias e criem o falatório.
Quanto mais dúvidas, mais insegurança.
Quanto mais insegurança, mais fácil a penetração.
Nossos melhores servidores já ingressaram nas fileiras dos comandantes do Espiritismo nas frentes de unificação.
Homens notáveis nas fileiras de liderança já sentiram nossa presença, e começam a despertar para a importância do que estamos realizando.
Aqui mesmo, entre vocês, encontram-se muitos que estão no corpo.
Eu quero parabenizá-los pela capacidade de reagirem aos menos avisados.
Vocês serão muito úteis a nossos propósitos.
Nossos cursos os orientarão com sabedoria.
Considerem este templo não só uma catedral, mas uma universidade preparatória.
Teologia, psicologia, psicotrópica.
Faremos cursos para que sejam os mentores intelectuais do Espiritismo verdadeiro.
Levarão ao mundo a bandeira:
fora de Kardec não há salvação!
Vocês sabem o que é um computador?2
já viram algum?
É uma máquina impressionante usada pelos dragoneses.
Teremos cursos completos que nos ensinarão a esquadrinhar os campos energéticos dos encarnados usando essas máquinas dotadas de esplêndida tecnologia.
Porém, dia virá em que alcançarão os recursos de nossa tropa de elite - e novamente espalmou a mão àqueles que o ladeavam.
Serão capazes, pela força de Jesus, de sondar o que está no íntimo de cada um usando apenas a força da vida mental.
Amados! Amados!
Somos escolhidos para uma missão gloriosa.
Eu vos pergunto:
algum de vocês teve a vida melhorada depois que ingressou nesta catedral? Respondam!
— Sim! Sim! -o alarido era geral.
— E se sentem mal?
— Não! Não!
— E quem está comigo? -expressava aos berros o explanador.
— Eu! Eu! Todos nós!
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:54 pm

Após a gritaria colectiva, Tomás, retomou estrategicamente, com a voz cândida e falando baixinho:
— Vocês estão comigo, eu estou com o Cristo!
— Viva o Cristo! Aleluia!
Viva Jesus! -a multidão delirou de tanto gritar.
O ambiente virou uma anarquia por alguns segundos.
— Levaremos aos grupos espíritas a luz de nossa organização.
Somos hoje mais de 10.000 sócios.
Temos condições de colocar aproximadamente três de nós em cada Centro Espírita desse país.
Naqueles locais onde houver resistência, cerraremos fileiras.
Criaremos novas casas espíritas.
Nas casas maiores e mais velhas, mais opulência.
Nosso objectivo é o sitiar totalmente.
Somente os católicos têm a concepção correta das verdades espíritas.
Ninguém mais!
Negar a Santa Madre é cometer pecado mortal!
Punição espera quem resistir!
Se necessário -e deu ênfase à palavra -, a guerra!
Se assim me manifesto, amados, é porque há traidores ferrenhos que querem continuar protegendo os espíritas no corpo físico como se fossem especiais.
Uma velha guarda que traiu a Santa Igreja.
Homens inteligentes, mas sagazes, corruptos, audaciosos.
Quem são esses espíritas?
Vieram da mesma prisão de onde saíram vocês.
São pessoas como vocês!
Com uma diferença.
Eles são traidores!
Foram soltos sem permissão. Vocês não!
Vocês tiveram acordos claros e escritos que estão aqui em minha mão, sob minha guarda.
Eles são prisioneiros envolvidos com a traição ao Cristo.
Vocês são prisioneiros libertos para a glória. Eles servem a Mamon.
Vocês servem ao Cristo.
Por isso, a guerra, se preciso for.
Nenhum outro livro deverá surgir na Terra em nome da verdade.
Somente O Livro dos Espíritos a contém.
Ele será proclamado como a nova bíblia dos cristãos.
Com a verdade do Espiritismo conquistaremos o mundo.
Tudo tem seu preço!
Estamos em combate activo.
Será longa essa luta contra os opositores.
Teremos estudos minuciosos sobre como tirar os espíritas das garras desses vilões da religião e convertê-los ao santo credo.
Amanhã mesmo começaremos com nossas iniciativas santas.
Quero vos consagrar com minha bênção até o dia da vitória final.
Glória a Jesus, amados!
Salve os novos abades espíritas dominicanos!
— Glória! Glória!
Tomás se retirou para dentro da catedral imponente.
Eu me sentia mal. Sem ar e desvitalizada.
Outros membros da equipe apresentavam os mesmos sintomas.
Sob orientação de Cornélius, nos afastamos rapidamente do local onde estávamos.
Logo chegamos a um posto socorrista, nas imediações de Uberaba.
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:55 pm

Matias, eu e outros servidores tomamos passes refazedores, enquanto Cornélius e Clarisse planeavam as tarefas da madrugada, antes de regressarmos ao Hospital Esperança.
Subitamente, após uma rápida melhora, Matias teve uma severa convulsão e tombou no chão.
Enfermeiros diligentes prestaram-lhe socorro imediato.
Cornélius foi chamado às pressas em sala próxima.
Matias espumava pela boca e se contorcia violentamente.
Cornélius chegou, colocou a mão direita sobre a testa do enfermo, e disse:
— Regressão mnemónica!
Tragam-me sedativos e vitalizadores energéticos injectáveis.
Aplicada uma dose de calmantes, Matias relaxou, embora permanecesse com os olhos fora de órbita e as mãos em garra.
Sua pulsação foi a zero.
As batidas cardíacas quase cessaram.
Seus lábios estavam cianóticos e muito inchados.
Passaram-se trinta minutos.
Somente então ele relaxou em profundo sono.
— São recordações passadas.
Ele terá de ficar em repouso absoluto por, pelo menos, dois dias.
Pode ser que só venha a sair desse estado em vinte quatro horas.
Sugiro que o coloquem em soro revitalizante.
Voltará à consciência com muita fraqueza.
— O que houve com ele, Cornélius? -perguntei preocupada.
— O discurso de Tomás é dotado de alto poder hipnótico, dona Modesta.
Ouvir uma palestra desse teor é o mesmo que se envolver com faixas mentais de longo alcance, próprias dessa região onde se localiza a catedral.
São forças vampirizantes.
Além disso, os laços que unem os Valois a Torquemada se estendem nas reencarnações.
— Eu tive muita piedade durante o discurso.
— Matias, por sua vez, sentia raiva e ódio.
— Por quê?
— Lembrou-se de cenas cruéis provocadas pela falange dominicana envolvendo sua mãe biológica, Conceição.
— Foram eles que lhe provocaram a morte?
— Pura vingança por fazer renascer o filho, Matias.
— Meu Deus!
Quanta crueldade!
— Conceição ressarciu compromissos de outrora.
Foi membro influente da impiedosa Inquisição medieval.
— Matias não recebeu preparo para essa hora?
— Ao contrário, dona Modesta.
Ele tem sido muito aplicado em nossas frentes de serviço e preparação.
Contudo, não existe preparo suficiente que nos exima de colher os frutos de nossa própria sementeira.
Episódios como esse são previsíveis em nossas acções no bem.
— Ele se lembrará de tudo?
— Acordará com recordações mais nítidas de seu passado e seus vínculos com tudo o que lhe acontece nos dias que se passam.
— Temo por sua loucura, diante de tanta verdade de uma só vez.
— Matias caminha para seus últimos anos por aqui, dona Modesta.
A reencarnação será uma bênção incomparável ao seu progresso.
— Graças a Deus!
Regressaremos aqui para buscá-lo?
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Re: Os Dragões - Maria Modesto Cravo / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 31, 2018 8:55 pm

— Temos aqui um servidor leal e que já esperava o momento de conhecer Matias e a senhora.
— A mim?
— Os vínculos que retornam na pessoa de Tomás trazem juntos também os amores.
— De quem se trata?
— Venha, vou lhe apresentar o amigo querido.
Alguns trabalhadores de nossa equipe permaneceram junto ao leito de Matias, enquanto eu e Cornelius percorremos alguns pequenos corredores até uma sala similar a um posto de enfermagem.
— Dona Modesta, esse é o professor Cícero Pereira3, responsável por este posto.
— Como vai o senhor? -expressei com certa timidez, mas ao mesmo tempo tocada por uma indefinível vibração ao ver aquele homem.
— Vou bem, dona Modesta, graças a Jesus.
Satisfação fraterna nos traz sua presença.
— A alegria é minha, senhor Cícero.
— Chame-me de professor Cícero, é como todos me conhecem.
— O professor, dona Modesta, tem se empenhado sobremaneira no auxílio aos locais que acabamos de visitar -expressou Cornelius.
— Nossa equipe passou por algumas dificuldades por lá! - exclamei naturalmente.
— É um trabalho que exige muito amor e preparo.
A falange de Tomás tem uma história sanguinária e cruel.
Lidamos com almas muito sagazes e de raro poder mental -expressou com simplicidade o professor.
Percebendo meu estado íntimo diante de sua fala, asseverou Cícero Pereira:
— Nossos laços com Torquemada são muito intensos.
— Nossos?
— Por que acha que está se sentindo dessa forma, dona Modesta?
Bastou que o professor fizesse a pergunta para eu não conter mais a emoção que a custo continha.
E colocando as mãos no rosto, como uma criança envergonhada, desabafei:
— Perdoe-me a emoção, professor!
Sinceramente não sei o que está acontecendo comigo, eu...
Estou sem nenhum controle...
Eu sinto que o conheço...
Que saudades, professor... -não aguentei o impulso e, como uma menina travessa, abracei-o em choro convulsivo.
O professor me retribuiu o abraço com carinho paternal.
E, pegando minhas mãos, falou fixamente olhando-me com sentido amor:
— De fato, a vida nos reúne novamente, dona Modesta. Se Torquemada "inspirou-lhe" destinos infelizes na condição de Catarina, a rainha-mãe, Deus não a desamparou de companhias mais cristãs.
Tive a felicidade de compor o grupo daqueles que zelaram por sua família.
Pouco antes de seu retorno à vida física, tive uma experiência que até hoje considero a porta que se abriu para a minha redenção espiritual na condição de Gonzalo Jimenez de Cisneros ou, como fiquei mais conhecido, cardeal Cisneros4.
Naquela ocasião, sob meu aval na erraticidade, reencarnou seu filho Carlos IX, que hoje é o nosso Matias, que a vida me devolve novamente aos cuidados.
Todos, na verdade, lutamos por nossa redenção.
Para ser sincero, Cornélius sempre me notifica sobre suas actividades e, desde esta noite, quando Tomás fez sua primeira aparição por intermédio de Chico Xavier, depois de séculos na penumbra da imortalidade, ali me encontrava na reunião orando para que este nosso instante de reencontro pudesse ocorrer conforme a misericórdia do Altíssimo.
Vejo que Deus tem pressa em relação a nós -e deu um sereno sorriso que jamais esqueci.
A perseguição de Torquemada à comunidade espírita data do início do século.
Ele tentou de todas as formas abafar os ideais de Bezerra de Menezes e do Espiritismo nascente.
Pode-se dizer, sem exageros, que ele e sua falange se tornaram um grave desafio a ser superado pelo bem da causa.
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