Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:30 pm

O dirigente recobrou sua lucidez e mostrou-se desfasado em razão da experiência.
Refeito, depois de instantes, ele indagou:
— Sou o pai de um daqueles oito?
— Sim, Marcondes.
Seus laços com Eulália ultrapassam a fronteira do tempo presente.
Sua história transcende o mero encontro extra-conjugal da recém-finda vida corporal.
— Deus! Tem piedade de nós!
Novo pranto tomou conta de Marcondes, emocionando, igualmente, Selena e a nós.
— Acalme-se, amigo!
Sua experiência com Eulália, conquanto o adultério infeliz, não significa falência e queda.
Seu caso é de negligência e adiamento que, descuidadamente, muitos companheiros de lide doutrinária têm se entregado.
— Não consigo mensurar a extensão de minha falta, professor!
—Agradeça a Deus, meu filho, por estar nesta casa de bênçãos.
Não queira saber o que acontece com irmãos da doutrina que fazem o mesmo trajecto, acrescido da leviandade no coração...
Aqui você terá tempo e ocasião para realizar o serviço de reerguimento que lhe aguarda.
Por isso, abdique, enquanto é tempo, da prepotência que vem tomando conta de muitos corações sinceros de nossa seara em função do orgulho do saber.
— Tudo me parece muito trágico e sublime ao mesmo tempo!
Que diferença há entre um ato de negligência e leviandade?
Não teremos sido levianos, Eulália e eu?
— O bem e o mal se confundem.
Que é o mal senão o desejo do bem interpretado sob fascínio do egoísmo?
Os negligentes são aqueles que poderiam, mas não quiseram, vencer o mal em si mesmo.
São mais descuidados que irresponsáveis.
Os levianos são aqueles
que sequer desejaram tentar a melhora, optaram pelo caminho do erro, apesar de conhecerem a Verdade.
Imagina onde estariam você e Eulália, se estivessem entregues aos despenhadeiros da leviandade incontida nesta hora?
— Mas e nossa atitude? Não devíamos!...
Eu aceitava com tanta lealdade as minhas tendências nessa área...
Esforcei-me com sinceridade para não tomar esse caminho, a despeito dos impulsos enfermos que carregava...
Não sei explicar como cheguei nesse ponto...
— Não basta aceitar as imperfeições.
É mister senti-las a fim de reeducá-las a contento.
Há muitos companheiros de ideal repetindo frases chavões acerca de si mesmo, sem internalizá-las realmente nas fibras do sentimento.
Quando sentimos o dever, somos impulsionados aos mais amplos voos de elevação.
— Que consequências existem para um negligente, professor?
São menores que para um leviano?
— As consequências são claras:
culpa, morte, doença, remorso tardio...
O preço está sendo pago.
Contudo não é da Lei que o homem seja punido, e sim que tenha chances de remissão, quando apresente as mínimas possibilidades para esse mister.
É o seu caso e de Eulália.
Quanto aos levianos, chegará o momento em que você poderá comprovar por si mesmo os efeitos de suas acções.
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Ave sem Ninho

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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:30 pm

Nesta casa, temos milhares deles!...
Futuramente, em visitações fraternas, verá com seus próprios olhos.
— Como está Eulália hoje?
— Bem melhor. Trabalha activamente na câmara dos ovóides nesta casa e se tornou, por seus méritos, a responsável por alimentá-los e realizar tarefas somente afeitas a técnicos muito experientes.
— Não poderia vê-la agora?
— Para o seu próprio bem, esse reencontro se dará na hora oportuna. Espere um pouco mais.
— E quanto a mim?
O que farei pela minha paz?
— Um futuro de esperanças o aguarda.
Acredite em Doutor Inácio, na sua experiência, e confie-lhe o seu coração.
— Farei isso.
— A propósito, Marcondes - interferiu Selena que acompanhava tudo atentamente - dentro de alguns dias visitarei o meu grupo espírita em companhia de Doutor Inácio e Dona Maria Modesto.
— Aquela senhora no vídeo da cirurgia? - indagou Marcondes.
— Ela mesma.
Estou exultante com a oportunidade!
— Fico feliz por você, Selena.
Pelo visto, seus caminhos como espírita não foram tão infelizes quanto aos meus!
— Tive minhas lutas, mas encontro-me em paz.
— Fico pensando, se tivesse a coragem de confessar meus segredos...
— Pegando um gancho nessa fala de Marcondes, professor, esses segredos estão sendo muito comuns entre os amigos espíritas? - interferiu Selena.
—Fale por você, querida amiga!
—De minha parte, creio ter sido sempre muito transparente.
—Nem sempre isso vem ocorrendo. Infelizmente, o movimento espírita está tomado por uma crise epidémica.
—Crise epidémica?! - mostrou-se curiosa a dirigente.
— A mesma que atacou Marcondes.
— Que epidemia é essa? - manifestou Marcondes.

23 Apocalipse, 20:12
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:31 pm

11 - Visão ampliada
"Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis"
Tiago, 5:16

— Você foi vítima da epidemia de sigilo - destacou o professor.
— Epidemia de sigilo?...
— É a atitude de conveniência que sustenta uma espécie de acordo de omissão colectiva.
Fenómeno subtil da vida interpessoal.
Uma vez assumidas as responsabilidades doutrinárias, seja em que nível for, muitos companheiros têm confundido quantidade de tarefas com elevação espiritual.
Assumem cargos, varam os anos em experiências e sentem-se enormes, grandes em espiritualidade, reflectindo velhas tendências religiosistas dos prelados de outros tempos.
Evidentemente, quem aparenta grandeza espiritual tem que mantê-la, por isso evitam tratar a qualquer tempo sobre as lutas interiores que, segundo imaginam, os diminuiriam no conceito colectivo da seara - grave ilusão!
Não dispondo de franqueza suficiente para tratar de seus conflitos íntimos com naturalidade, emudecem quaisquer referências às tormentas pessoais e deixam de ser sinceros consigo e com os outros.
Passam a vida mantendo aparências de iluminação e deixam de cuidar de assuntos essenciais para seu equilíbrio e sua felicidade, nutrindo infundado receio de perderem a autoridade que supõem possuir.
O dirigente ruborizou-se ante a fala do professor.
Seu ímpeto foi utilizar a rispidez ante o incómodo na intimidade.
Apesar do impulso, recobrou a lucidez e resolveu indagar:
— Estamos evitando dialogar sobre nossas necessidades profundas?
É isso?
— Exactamente.
Fala-se muito sobre o que se deve fazer nos ambientes doutrinários, mas não tem havido o espaço desejável para tratar e sanar os conflitos pessoais, as angústias ocultas.
A vergonha e a culpa têm afastado muitos corações bem intencionados da atitude de lealdade consigo próprios.
Escasseia a honestidade emocional, a transparência nas relações.
Pense por você mesmo e reflicta se não deixou de tratar temas que lhe oneravam as emoções, no terreno secreto de sua mente aflita e sobrecarregada!...
Bastou que o abnegado servidor mencionasse semelhante questão, e a mente de Marcondes enveredou por vastos assuntos que não teve coragem de dividir com ninguém, enquanto no corpo.
Agora, inevitavelmente, teria que olhá-los de frente, acrescido do prejuízo de ter perdido o tesouro do tempo para solucioná-los na vida física.
E, como se o professor ouvisse as mentalizações do interlocutor, arrematou:
— Dificilmente o homem na Terra assume a tarefa sacrifícial de sua transformação definitiva para melhor.
Os aprendizes espíritas não escapam dessa situação.
Avançam lentamente no escaldante terreno da melhoria espiritual.
O cerne da proposta da doutrina é o desafio, por vezes doloroso, de resgatarem-se através da realização do auto-encontro.
Nesse circuito fechado de sigilo, acerca de questões essenciais do auto-aprimoramento, estabelece-se um exagerado dimensionamento dos problemas e passam a imaginar consigo mesmos:
"Se as pessoas soubessem o peso de minhas provas!..."
Assim, julgam-se sob severos carmas e penetram nos escaninhos da autopiedade, carcomidos pelo cansaço, cedendo à pressão de condutas de fuga e desvario em lamentável desculpismo.
Através de mecanismo defensivo, desenvolvem a crença de atenuamento dos débitos, ante a proporção imaginária que acalentam sobre a extensão de suas expiações.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:31 pm

E terminam por encontrar, nas tarefas doutrinárias, a sua penitência de remissão no alívio das culpas.
Por fim, assumem "dupla personalidade", em crescente incoerência com os princípios renovadores da doutrina.
No silêncio que se mantém junto a seu grupo doutrinário, encontramos o que podemos nomear como solidão em equipe, uma verdadeira prova voluntária e perniciosa ao crescimento de todos.
—Poderíamos chamar essa postura de hipocrisia? - intercedeu Selena com curiosidade.
—Em alguns casos, encontramos a mentira intencional.
No entanto, esse processo tem se tornado uma questão cultural.
Um remanescente do religiosismo que impera nas mentes.
Assumem-se valores exteriores como sinónimos de santidade na alma.
São os velhos costumes hierárquicos enraizados no psiquismo humano.
—Isso estaria ocorrendo também nos campos da administração do movimento espírita? - indagou Selena, que guardava muitas mágoas no assunto.
—É um mal da comunidade doutrinária que tem atingido larga fatia dos seareiros.
Precisa ser debatido e extirpado.
É esperado que as células do Cristianismo Restaurado imitem a Casa do Caminho no cultivo da franqueza edificante.
As actividades sagradas do movimento espírita têm sofrido com intensidade dessa epidemia.
O sentimento tem sido uma moeda de pouco ou nenhum valor nas iniciativas administrativas, quase sempre recheadas de formalismo e cerimoniais, calando enriquecedoras ideias que vertem do Mais Alto que seriam temperos de revitalização do afecto, da solidariedade e da concórdia.
— Além da ausência de sinceridade, haveria outro efeito nocivo dessa atitude de omissivo silêncio sobre nossas mazelas? - continuou a dirigente com sua perspicácia.
— O prejuízo mais nocivo dessa postura colectiva se verifica no campo íntimo daqueles que se acostumam com tais convenções, porque se adaptam a um processo doentio de negação dos sentimentos, em contraposição aos alvitres claros da consciência.
Semelhante quadro da vida mental, embora seja muito comum entre os homens, opera desagradáveis desarmonias no campo psíquico e torna-se um pasto fértil para a obsessão pacífica e subtil, como você terá oportunidade de verificar em suas futuras actividades de visitação fraterna neste Hospital.
Para os espíritas, iluminados com o clarão das verdades imortais, o desafio é ainda maior, considerando a extensão dos apelos expedidos pela consciência.
— De minha parte, só posso defender-me, porque não tive em quem confiar! - afirmou Marcondes com profundo tom de lamento.
— Confiança, amigo querido, é virtude que se constrói.
— Bem que ansiei por alguém para me ouvir, confessar!
Porém, como confiar segredos e perder a autoridade perante os companheiros?
— Que autoridade, Marcondes?!
— A autoridade da experiência.
— Amigo, existem dois tipos de homens.
O homem experiente, aquele que edifica habilidades no esforço nobre e perseverante em favor de seu crescimento.
Existe também o homem sábio, aquele que aprendeu a fazer uso da sua experiência pelo bem da maioria.
Muitos de nós apegamo-nos ao histórico de serviços prestados na seara, enredamo-nos em desprezível atitude de omnipotência.
— Estará afirmando, professor, que devemos negar o que já aprendemos?
Igualar-se a quem sabe menos?
Isso é falsidade em meu entendimento.
— Desapego da folha de serviço não implica negar a bagagem.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:31 pm

O que importa é não transformá-la em troféu de presunção.
Ninguém e nenhum grupo, a pretexto de abafar o individualismo, deverão proceder em campanha ao descrédito ou indiferença dos mais vividos.
De quem mais tem mais se espera.
Espera-se apenas mais comprometimento, humildade e melhor uso do tempo...
Essas são algumas expressões de autêntica grandeza moral, quase sempre esquecida.
— Mas como ficam os baluartes consagrados da colectividade espírita nesse enfoque?
— Um dos traços mais claudicantes para os alicerces da regeneração espiritual da Terra é a consagração irrestrita de expoentes da cultura, médiuns ou organizações espíritas históricas.
Observa-se um pernicioso e subtil costume em nossa seara, de conferir regalias aos mais experientes por parte dos que os amam e a nociva atitude de líderes em se julgarem credores de tais oblações.
Poucos são os que desenvolvem a criatividade que lhes enseje abdicar das imagens idólatras sem ferir a admiração alheia.
Ninguém necessita negar ou repudiar o reconhecimento e a consideração alheia.
A questão é dos excessos decorrentes do hábito humano de entronizar "pequenos deuses" em seu caminho com os quais anseia contar para fugir ou abrandar o volume de suas próprias lutas.
A conversa fluía espontânea quando Selena, que absorvia os ensinamentos do professor, resolveu participar novamente:
— Este Hospital atende a alguma especialidade no tratamento dessa epidemia de sigilo?
— Temos desenvolvido técnicas terapêuticas com esse fim.
Oportunamente, vocês participarão desses encontros salutares com Dona Maria Modesto na "tribuna da humildade".
Uma ocasião de tratar abertamente sobre suas lutas mais íntimas.
Um confessionário público...
—E no seu aspecto mais abrangente, qual o objectivo dessa casa?
- replicou a companheira, ampliando os horizontes da conversa.
—Problemas da mente e do ser, as dores da alma.
Tratamos as diversas alienações nas quais, comumente, envolvemo-nos em desafios da vida corporal.
— Se este nosocómio atende a problemas com alienação, posso inferir que estou enquadrado como um doente mental conforme já me disse o humorado Doutor Inácio?- indagou Marcondes.
—A doença mental, para os planos espirituais, tem dimensão infinitamente versátil.
Seu quadro pode ser considerado como um transtorno mental não classificado nas fileiras humanas da ciência.
Chamamo-lo de auto-suficiência espiritual.
São delírios de supremacia evolutiva que nos levam acreditarmos ser quem não somos, conduzindo a uma recusa crónica do afecto espontâneo.
Essa acção mental gera um desastre de proporções incalculáveis no sistema da afectividade no qual se encontram as autênticas matrizes daquilo que somos.
Um enquistamento prolongado no personalismo, seguido de bloqueios do afecto.
Tudo começa no orgulho -doença mental original - atingindo o sistema afectivo da criatura, deixando-o aos frangalhos em razão da rejeição infligida aos impulsos do coração.
O orgulho é o sentimento de superioridade pessoal reflectido no estado mental em forma de ilusões.
É a maneira desenvolvida pelo nosso egoísmo para camuflar a realidade do que somos, a fim de vivermos a fantasia do que gostaríamos de ser.
Em palavras singelas, é o uso do cérebro com negação dos sentimentos.
— Terei negado a minha própria realidade durante a reencarnação, é isso?
— Tomou contacto superficial e insuficiente com sua verdade pessoal.
— Pelo simples facto de negar sentimentos?
— Não é tão simples assim!
— Por quê?
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:31 pm

— A maioria dos habitantes no corpo vive suas relações dessa forma.
— Posso concluir, então, que todos que conhecem a doutrina passarão por dramas como o meu?
— Formou-se no mundo físico, a cultura de que certos sentimentos são traços de fraqueza, sendo rejeitados a pretexto de manter uma imagem, um padrão, uma fachada.
Porém, se não pulsarem para fora, haverão de pulsarem para dentro, ocasionando lesões afectivas profundas.
Enquanto no corpo, semelhantes lesões podem ser percebidas através de manifestações subtis e perfeitamente controláveis no campo mental.
São os súbitos remorsos que brotam na tela mental.
Raramente, admitimos aferi-los com lealdade, desconsiderando-os com total repúdio.
Assim, de negação em negação, o equilíbrio do campo afectivo é perturbado, reduzindo a sensibilidade para o exterior, entronizando em seu espaço a personalidade institucional, ou seja, um amante de formalidades evoluindo para o perfeccionismo.
Depois da morte, semelhantes "pulsões" não são mais controláveis, vindo a eclodir-se nos mais variados quadros, dependendo da gravidade alcançada nos recessos da consciência.
Daí surge o monoideísmo, as fixações mnemónicas, o sono prolongado, o coma mental, o estado confusional da ideação, a ausência de controle sobre o pensar; os remorsos depressivos, o escoamento da matéria afectiva bloqueada e muitas outras formas de manifestações íntimas cuja melhor definição é a auto-obsessão em nível severo, exigindo cuidados e terapêuticas muito especificas.
— Em meu caso, qual desses quadros reflecte com mais exactidão o que passei?
— O arrependimento tardio, isto é, o remorso.
Sua dificuldade em desligar-se de certas lembranças que o incomodam, são situações conflituantes adquiridas na Terra e das quais não se livrou até agora pelo auto perdão.
Tais lembranças, em verdade, são núcleos catalisadores de velhas pendências não resolvidas em remotas existências carnais.
— Então, se entendi correctamente, ao recusarmos sentir o que sentimos, provocamos lesões?
— Tudo depende de como se trabalha internamente com esses sentimentos e de suas origens nas pregressas experiências corporais.
A negação sistemática dos impulsos de amor ao próximo, tido muitas vezes como romantismo dispensável, quase sempre significa estacionamento da inteligência afectiva e doença para a alma.
É o mesmo que deixar de olhar para si mesmo, porque o sentimento é o espelho da consciência no templo do Espírito.
Algumas vezes, essa negação é milenar, razão pela qual alcança níveis de enfermidade grave.
— Temos então uma inteligência afectiva?
— Temos várias inteligências, e o homem do futuro vai descobri-las através dos caminhos científicos.
Nas academias científicas do mundo, alguns experimentos estudam as múltiplas inteligências do ser, podendo ser mais bem exploradas para a felicidade e a paz interior nos rumos do progresso.
Apesar dessas conquistas, o homem apenas arranha semelhante tema.
— E meu arrependimento durante a doença no corpo não valeu de nada?
—Teve enorme valor.
Mas não foi arrependimento, e sim remorso.
— Que diferença existe?
— Remorso é tortura, arrependimento é libertação.
A culpa e o desejo de melhora são os termómetros do remorso.
O arrependimento completo tem três ingredientes:
o desejo de melhora, o sentimento de culpa e o esforço de renovação.
— E o que me falta nessas etapas?
— Falta-lhe agora aprender a se perdoar para que seu remorso na carne seja um caminho de paz para sua vida interior.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:31 pm

Allan Kardec, estudando a comunicação de um criminoso arrependido, teve o ensejo de destacar:
"O Espírito só compreende a gravidade dos seus malefícios depois que se arrepende."24
— Poderei conseguir esse estágio neste plano de vida?
— Conseguirá em larga escala.
Um dia, entretanto, pedirá o retorno ao corpo para consumar suas conquistas.
— Esta doença de auto-suficiênda espiritual tem atingido muitos espíritas? - indagou o dirigente como quem ainda não tinha perdido o costume de transferir a curiosidade para os problemas alheios.
— Os espíritas falam bastante nos lugares exteriores para depois da morte.
Colónias e umbrais são descritos com minúcias.
No entanto, o estudo das repercussões íntimas e a relação com a consciência deveriam ser mais estudados e mensurados para dilatar as concepções humanas em torno da morte.
A morte nos devolve a nós mesmos longe das ilusões impostas pela matéria.
E justo nos despojemos primeiro dos pesos inúteis que carregamos para, somente depois, promovermos a ascensão pessoal com maior leveza mental -respondeu o professor levando o aprendiz a voltar a atenção a si próprio.
— E como ficam meus esforços?
Embora não tivesse o hábito de uma análise minuciosa, julgava sinceramente estar pronto para a morte em razão da missão a mim confiada!
— Os amigos espíritas precisam vigiar com muita cautela o fascínio que têm votado a suas folhas de serviços.
Bastas vezes confundem quantidade de tarefas e realizações com ascensão evolutiva, como se fizessem carreira na espiritualização.
Muitos corações de ideal, em todas as actividades doutrinárias têm passado pelas tarefas sem se educarem através delas.
E quanto mais expressivas e colectivas são elas, mais aumentam os riscos de vaidade e tropeço.
Temos, nessa casa de recuperação, vastos pavilhões de médiuns, divulgadores, escritores, evangelizadores da juventude, presidentes de centros espíritas, dispensadores da caridade pública.
Todos abençoados com as luzes da Doutrina Espírita, entretanto não conquistaram sua luz própria.
Engrandeceram-se no orgulho com a cultura e a experiência das práticas e negligenciaram o engrandecimento moral de si mesmos, através da reeducação dos hábitos e da aquisição de virtudes eternas.
É um engano milenar da ilusão humana ainda afeiçoada a vantagens exteriores, sem a consolidação dos ensinos Cristãos no próprio coração.
Como disse o Senhor:
"O Reino de Deus não vem com aparência exterior."25
— Sinto-me como se meu esforço fosse em vão!
Quanta renúncia, quanta devoção! Para que tanto trabalho no plano físico?
— Não existe esforço sem valor.
Convenhamos, no entanto, o trabalho doutrinário, para boa parcela de nossos companheiros de ideal no plano físico, tem sido apenas medida defensiva contra o tempo mal usado, evitando maiores deslizes ou problemas desnecessários...
— Experimento diante de suas colocações, uma enorme sensação de perda de tempo!
— Quando você tiver acesso às suas vidas pregressas, terá como dimensionar com melhor juízo os passos vitoriosos de sua existência recém-finda.
O facto de não ter realizado tanto quanto podia, não lhe tira os méritos que são múltiplos e valorosos.
Todavia não posso deixar de lhe advertir que raríssimos são os corações que chegam por aqui sem essa sensação de tempo perdido...
A vida física impõe-nos muitas miragens sobre nossos mais profundos anseios.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:32 pm

Nossas pretensões pessoais são muito subtis algumas vezes.
Ainda teremos uma senda muita longa de educação com os reflexos do personalismo na esfera do coração.
— E porventura terei algum julgamento aqui neste Hospital acerca de minhas falhas?
— Absolutamente! Tudo é misericórdia, trabalho, recomeço e preparação.
Chegamos, muitas vezes, a discutir as fichas reencarnatórias dos pacientes sempre com o propósito de amparar-lhes, da melhor forma possível, os objectivos de crescimento e paz definitiva.
— E qual será o tratamento para a minha enfermidade aqui na vida espiritual?
— Comece com a humildade em aceitar suas falhas com plena disposição de repará-las o quanto antes.
Muitas almas vinculadas ao Espiritismo revoltam-se com os resultados de sua vida física, ou continuam mantendo-se iludidas sobre suas falhas.
Isso lhes adia em muito a recuperação; algumas vezes, chegam a reencarnar quase da mesma forma que desencarnaram.
Toda revolta será injusta nesse passo.
Precisamos convir, só colhemos o que plantamos conforme nossas obras.
Marcondes renovava com rapidez o seu estado espiritual.
A curiosidade tomava o lugar da prepotência e da pseudo-sabedoria.
Sua visão, depois de décadas de cultura espírita no cérebro, dilatava-se sob impulso do afecto, do desejo sincero e despretensioso de aprender.
Sua alma abria-se para a vida, sua sede de saber voltava-se para o autoconhecimento, tão desprezado ao longo de sua reencarnação.
Novos dias de luz o aguardavam na nova caminhada.
Pouco mais de trinta dias no Hospital Esperança havia lhe valido anos a fio na absorção íntima do sentimento de imortalidade.
A nova dimensão permitia-lhe devassar um mundo novo de leis e acontecimentos.
Mais sensível e introspectivo em relação à Verdade, o experiente dirigente era espontaneamente convocado, igualmente, a um mundo novo de sensações e emoções.
Nem sempre, chegar a locais de refazimento e educação na erraticidade é indício de sossego interior.
Marcondes, na medida em que alargava a visão, desenvolvia a angústia pertinente à esmagadora maioria dos que deixam o corpo perecível. Uma aflição tomava o lugar da arrogância.
Assaltado pelas horas vazias, logo lhe foi indicado o trabalho como medicação inadiável em favor de sua paz.
Seguindo orientações bem encadeadas, passou a integrar as equipes de colaboradores operosos do nosocómio.

24 Lucas, 17:20.
25 O Céu e o Inferno, 2a. parte, capítulo VI.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:32 pm

12 - Nossas Obras
"Será por influência de algum Espírito que, fatalmente, a realização dos nossos projectos parece encontrar obstáculos?
Algumas vezes, é isso efeito da acção dos Espíritos; muito mais vezes, porém, é que andais errados na elaboração e na execução dos vossos projectos.
Muito influem nesses casos aposição e o carácter do indivíduo.
Se vos obstinais em ir por um caminho que não deveis seguir, os Espíritos nenhuma culpa têm dos vossos insucessos.
Pós mesmos vos constituis em vossos maus génios"

O Livro dos Espíritos, questão 534.

Selena, por sua vez, aguardava com ansiedade o momento de sua visita ao centro espírita que dirigiu na cidade mineira.
Sua visita à reunião de transferência da directoria seria sua primeira excursão ao plano terreno.
Ali a vida a esperava com preciosas lições...
Antes de partirem, Dona Modesta sentenciou-lhe:
— Filha, como te sentes ante a perspectiva da visita?
— Apreensiva.
Estranha-me a minha reacção, pois, até então, outra coisa não desejava senão fazer essa visita.
Agora, parece-me que o peito carrega uma dor, uma angústia.
Muito estranho!...
— Seus sonhos, como têm sido?
— Tenho sonhado muito com Angélica, minha substituta.
Nela encontro minha esperança da continuidade das obras deixadas na Terra.
Orientei-a com farta dose de conhecimento e experiência para essa hora.
Por outro lado, meus sonhos dão-me a impressão que ela está atrás de uma grade e não consegue chegar até mim.
Isso me aflige, e quando acordo, tenho a nítida sensação de separação, de impossibilidade de chegarmos uma à outra.
— Compreendo...
— Creio que seja saudade, apenas isso!
— Talvez, Selena! Talvez! - exclamou Dona Modesta que sabia com detalhes o que acontecia.
Possuindo a bondade e a consciência pacificada, Selena não apresentou nenhuma dificuldade na volitação.
Acompanhada por Doutor Inácio, Dona Modesta e uma equipe de defensores chefiada por Irmão Ferreira - servidor incansável de nossa casa de amor - seguimos para a capital mineira.
O coração de Selena encontrava-se quase incontrolável com a oportunidade.
Nas imediações do bairro singelo onde se localizava a organização doutrinária, todo o grupo passou automaticamente por um processo de adensamento vibratório.
Era como se andássemos no solo terreno e respirássemos o oxigénio.
As criaturas nas ruas faziam seu percurso alheio à nossa presença.
— Paremos por aqui - orientou Dona Modesta a algumas quadras do local.
Como está a situação, Ferreira?
— Vossa mercê se cuide, minha patroinha.
Nada tá fácil por estas bandas! - respondeu irmão Ferreira com seu típico palavreado e sotaque nordestino.
— Mantiveram o cerco?
— Os cabra se arrupiaram de vez e montaram guarda.
Não tem quem entre lá!
Selena, atenta ao diálogo, mostrou-se preocupada.
Sem entender o ocorrido, seguimos a pé depois de orarmos em conjunto.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 11, 2018 8:32 pm

Dona Modesta, a par de tudo, preveniu:
— Selena, procure manter toda tranquilidade em seu íntimo.
O êxito depende de sua atitude.
— Temos algum problema?
— Temos.
Ao chegarem à construção - uma casa bem cuidada e pequena - vislumbraram uma cena dantesca.
O centro estava totalmente rendido na mão de astuta falange da maldade.
Alguns seres estranhos que mais lembravam anões gordos e totalmente esbranquiçados estavam no portão de entrada.
Tinham a pele gordurenta.
À distância, pareciam pedras que exalavam desagradável odor.
Vigias por todos os lados, armados como bandidos prontos a atacar.
Uma cerca, feita de peças estranhas retorcidas como metal, continha um símbolo da suástica em cada mourão.
Dela partia uma irradiação pestilencial.
Notava-se que uma luz partia de dentro da casa espírita em direcção ao alto, entretanto, não esparramava-se pelas paredes, verticalizava-se como se fosse soprada por forte vento para cima.
A oração feita pela directoria mantinha uma conexão com outras esferas.
A luz não era percebida pelos capangas.
Ampliando o poder mental, pudemos entrever Angélica, possível continuadora das iniciativas de Selena, conduzindo a reunião.
— Dona Modesta a senhora vai deixar esse grupo infeliz aqui?
- externou a ex-dirigente.
— Pouco posso fazer, minha filha.
— Certamente querem prejudicar a transferência da directoria.
— Não tenha dúvida, Selena!
Observe e mantenha-se em prece.
Vou entrar sem que me percebam.
— Vamos.
— Não, Selena!
Você não poderá.
— Não poderei?...
— Se passar daqui, eles terão conhecimento da nossa presença e então teremos um prejuízo real para a tarefa em curso.
— E como vou acompanhar a reunião?
— Você ouvirá tudo. Espere aqui.
Dona Modesta entrou sem dificuldades, sorrateiramente.
Dotada de largo poder mental, furou o bloqueio vibratório sem alarde.
Dentro da casa espírita, instalou pequeno componente condutor na mesa, e Selena, lá fora, passou a acompanhar através de um aparelho semelhante ao fone de ouvido.
Após a prece, Angélica pronunciou:
— Irmãos! Hoje temos árdua tarefa pela frente.
Um novo momento para esta casa de Jesus.
Selena, nossa devotada seareira, foi colher seus frutos no além.
Nossa reunião visa a analisar sua substituição e os novos planos para as tarefas.
Selena exultou com a referência e por ouvir a voz de Angélica.
— Todos sabem que nossa companheira abrilhantou os serviços deste celeiro de bênçãos - prosseguiu Angélica.
Ninguém, porém, desconhece os efeitos de seu temperamento controlador, em razão de algumas decisões excessivamente fortes, com as quais nenhum de nós nunca concordou.
Nessa altura Dona Modesta tomou o pequeno microfone e orientou a ex-dirigente que mantivesse calma.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:45 pm

— Creio, a menos que esteja equivocada, que Selena foi respeitada e obteve o tributo da amizade de todos nós, mesmo com tais discordâncias.
Sua rigidez, entretanto, não ensejou que pensássemos livremente no serviço do Cristo e sim em pontos de vista pessoais.
Ainda que nessa condição, realizamos abundantemente.
Contudo, proponho, nessa hora, uma decisão de coragem e fidelidade a Jesus, a quem realmente muito devemos.
Proponho duas medidas básicas e desafiadoras que constituirão os alicerces de muitos outros caminhos.
Primeiro, a administração em grupo e, segundo, a reactivação do serviço de intercâmbio, extinto por Selena, em razão de sua visão sobre mediunidade.
Selena se mostrava apática com o que ouvia, ímpetos agressivos nasceram em seu coração.
Doutor Inácio postou-se ao seu lado, segurando-lhe o braço no intuito de evitar o pior.
Angélica, apesar da firmeza, falava com ternura e autenticidade.
Sua fala ponderada, entretanto, ofendia sofregamente a ex-presidente que não resistiu ao teste, manifestando:
— Falsa! Sua falsa! - dirigindo-se a Angélica.
— Sossegue, Selena!
Sossegue, ou pode estragar tudo - alertou Doutor Inácio.
— Estragar! Mais que ela está estragando.
Que vontade de arrumar um médium nessa hora e lhe mandar um recado.
Que raiva, meu Deus!
Eu não acredito no que ouço!
Tomada de ira, ela gritou aos brados, descontroladamente:
— Que espécie de pessoa é você Angélica?
Pode me ouvir, sua...?
Isso é hipocrisia!
Que adiantou tanto amor a essa casa para ter sua traição?
Falsa! Falsa!...
A reacção não podia ser pior.
Os vigias escutaram a fala já amarga de Selena e armaram-se para lutar.
— Procurem! Procurem!
Temos intrusos...
Escutei algo nas redondezas...
Sinto cheiro de anjos no pedaço...
Avisem os demais que estão no trecho...
Chamem reforços!
Uma algazarra se estabeleceu.
Selena, já sem controle, entrou em crise mental de revolta e medo, similar aos efeitos da síndrome do pânico.
Mãos suarentas, batimento cardíaco acelerado, tremores...
Foi retirada às pressas para o Hospital com baixíssima pulsação energética a ponto de desfalecer.
Irmão Ferreira, como se já previsse o incidente, tomou as providências para proteger o andamento da reunião.
Os capangas reforçaram a guarda, mas não vendo ninguém, aquietaram-se.
Já no Hospital, acomodada em leito apropriado, na mesma ala restrita que Marcondes ficou alguns dias antes, encontrava-se adormecida e ainda muito agitada.
As mãos fechadas esmurravam a cama, requerendo correias de contenção.
Rosângela, a enfermeira da ala, Dona Modesta e Doutor Inácio acompanhavam o desenrolar do quadro.
Trinta minutos se passaram sem respostas desejáveis.
A paciente entrou em regressão espontânea.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:45 pm

Depois das mãos contidas, foi a vez dos pés que também foram presos com amarras.
Babava e respirava a longos haustos.
Sessenta minutos e, em uma espécie de transe profundo, Selena começou a balbuciar algumas palavras em diferente língua...
Era um francês fluente e claro.
Dona Modesta, dotada de xenoglossia no tempo, traduzia com facilidade.
— Qual seu nome? - interrogou Dona Modesta.
— Condessa...
Condessa Pyrré...
— Em que ano estamos?
— 1573.
Um ano depois da matança assassina...
— Matança?...
— ... São Bartolomeu.
— Em que país?
— França. Estou na Paris dos católicos.
O "Reinado" do Papa Gregório XIII.
— Por que dos católicos?
— Deus está connosco.
— O que acontece com você neste momento?
— Estou no calabouço a mando dos Médicis.
São traidores e interesseiros.
Sou das últimas vítimas de Carlos IX, o mais vil e fraco dos reis franceses...
Minha própria filha traiu-me...
— Quem?
— Elise... Elise Pyrré...
Tentei poupá-la das atrocidades da corte... Em vão...
Ela traiu-me para se ver livre de mim, do meu controle...
Não sabe em que mãos vai acabar...
Pobre Elise!
— Por que foi presa?
— Catarina, a rainha-mãe, detesta-me.
— O que você fez a ela?
— Roubei-lhe o marido.
E o faria novamente. Amava-o.
Odeio Catarina.
Odeio a religião protestante.
Gosto do povo.
Detesto os rituais, são falsos...
São falsos... São falsos!... São falsos!...
Selena entrou em "convulsão monoideísta" e não cessava de repetir a expressão.
Doutor Inácio propôs a sedação.
Não se podia fazer muito por agora.
A fixação em recordações estava na periferia dos factos.
Necessário que o quadro mental apresentasse uma melhora.
Não basta regredir ao passado, quando se tem objectivos terapêuticos.
O importante é detectar emoções essenciais, vivências interiores que servem de grilhões e, o principal, desatar os "nós afectivos"...
Sob observação continua, foi levada ao posto próximo.
Permaneceria sob vigilância redobrada.
Seria submetida a uma regressão mediúnica induzida quando passadas vinte e quatro horas.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:45 pm

Dona Modesta "receber-lhe-ia" o inconsciente profundo, o corpo mental de Selena, para tratar-lhe as raízes de seu drama.
Medicada a contento, ela adormeceu.
Saindo dos aposentos, já com a hora avançada, Doutor Inácio e Dona Modesta travaram um diálogo descontraído sobre o assunto.
Estavam exaustos, mas não perdiam o bom ânimo.
— Inácio, que dia abençoado! - exclamou Dona Maria já um tanto desfasada das lutas do dia.
— Eu diria endiabrado!
Os homens na Terra não imaginam o que seja uma rotina dessas...
— Dar sem receber, dar por amor de realizar!
Quantos não terão extensas lutas com esta lição nesse outro lado da vida!
— Inclusive os espíritas!
— Inclusive os espíritas!
É verdade!
— Estamos há exactas quinze horas em tarefa contínua.
Só hoje visitei, por três vezes, a Terra.
Não reclamo de nada, mas se tivesse meu cigarrinho de volta, acho que trabalharia mais quinze horas sem mau humor...
— Inácio! Inácio! Essa é a luta da qual estamos falando.
Despojar-se dos costumes humanos!
—E ainda tem espírita achando que somos espíritos superiores!
— Se Deus nos perdoou por isso, há-de perdoá-los também - brincou Dona Modesta.
— Deus, sim! Eu..., nem tanto...
Ainda hoje, realizei consulta em meu gabinete a um desses dirigentes que mais gostam de uma mesa que de gente, velho companheiro das adjacências de Uberaba, e imagine o que o ele queria!...
— O quê, Inácio?
— Que eu ficasse lhe fazendo sala.
Batendo papo como fazem os mentores, disse ele...
Disse também que estava muito feliz em estar onde estou, porque isso é sinal de superioridade e, como estava muito cansado da reencarnação, adoraria descansar alguns dias ao meu lado.
— E você... naturalmente...
— Naturalmente, dispensei-o como faço com qualquer pessoa iludida o bastante para ter essa miopia moral.
— Inácio, Inácio!
O que disse a ele?
— O de sempre...
Descansar depois da morte é coisa de carola e velho...
Os dois riram incontidamente.
— Realmente há muita ilusão!
— Houve outro, um desses "enciclopedistas espíritas" que leram tudo sobre a doutrina, que ainda zombou de mim um dia desses.
Passava por um corredor já cansado, com mau humor pior que o habitual, depois de quase vinte horas de trabalho, e sabe o que ele me disse?
— O quê?
— Doutor Inácio, que cara é esta?
Até parece que o senhor está cansado?!
Espírito superior não cansa, ouviu?!
Aprenda a usar sua mente!
— E você...
— Eu lhe dei o troco merecido.
Disse a ele que não estava cansado, estava arrependido de ter morrido.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:45 pm

Devia ter ficado na Terra uns mil anos para não encontrar mais com religiosos.
No sanatório espírita de Uberaba, pelo menos, essa segurança eu tinha.
Não era obrigado a lidar com as tricas e futricas do movimento doutrinário!
— E ele?...
— Ele ainda me perguntou se tinha algo me incomodando.
— E você, naturalmente... - debochou Dona Modesta.
— Naturalmente, eu me calei, porque, se falasse naquela hora, seria um desastre!
— Se contarmos nos livros, realmente nossos irmãos terão dificuldade em acreditar sobre a realidade desse momento.
Veja só o estado de meus cabelos, coisa horrível, meu Deus!
Olhe a cor de meu guarda-pó! - e passou as mãos sobre os dejectos secos expelidos por Selena e vários outros atendimentos naquele dia.
Quem imagina que também cansamos e precisamos do sono e dos aparelhos de recomposição energética?
A grande maioria imagina-nos dotados de superlativo poder mental, capaz de tudo providenciar num passe de mágica.
Usar a mente!
Pensam que, ao morrer, tudo se resolve com a mente como se ela se soltasse do cérebro e...
— Passássemos a ter asas na cabeça - completou Doutor Inácio.
— É por aí, Inácio...
Ao imaginar uma vida espiritual angelical, o homem adormece nas visões religiosas e estabelece um falso dimensionamento sobre a erraticidade.
— Não bastasse isso e, quando chegam aqui, ainda querem mudar o que Deus criou!
Adoram dar pitacos e sentem-se os donos do pedaço.
— Donos do pedaço!
Expressão humana que cabe bem na história de Selena.
— A senhora estudou a ficha com mais atenção...
Teremos uma incisão anímica?
— Não há outra saída.
Dentro de vinte e quatro horas, faremos uma varredura no inconsciente.
— E quando a senhora acha que Marcondes e Selena poderão saber da história?
— Na hora certa acontecerá, Inácio!
— O destino, enlaçando almas até no plano espiritual...
Quem diria!
Mais uma para aqueles que julgam ter a "chave do céu"!
Se a reencarnação é palco de laços de afecto e desafecto, a imortalidade é o camarim onde os homens carnais se despem das fantasias das ilusões para que se olhem como devem no espelho da realidade.
— Uai! - disse Dona Modesta como uma típica mineira - virou poeta, Inácio?...
— Não, Dona Modesta!
Foi apenas uma crise psiquiátrica...
O bom humor permanente, a despeito do cansaço, não roubava nunca daqueles dois a chance de debocharem das mais sérias e profunda^ questões da vida.
Essa característica pertinente a ambos era-lhes medicação e refazimento.
— Vamos descansar, Inácio, pois afinal de contas...
— Afinal de contas, temos horário para cumprir e a quem dar satisfações amanhã bem cedo.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:46 pm

13 - Técnica Anímica
“A lembrança da existência corporal se apresenta ao Espírito, completa e inopinadamente, após a morte?
Não, vem-lhe pouco a pouco, qual imagem que surge gradualmente de uma névoa, à medida que nela fixa ele a sua atenção"

O Livro dos Espíritos, questão 305.

A paciente estava há mais de vinte horas neste estado de coma mental.
Monitorada por avançada tecnologia, seu quadro inspirava cuidado especial.
Seu diagnóstico era delicado, uma fixação mnemónica em vivência pretérita.
Selena guardava vínculos estreitos com Angélica (Elise Pyrré), dirigente encarnada que lhe substitui nas tarefas, e que fora sua filha.
Sentimentos hostis tomavam conta de seu campo emocional à maneira de virulenta patologia cardíaca.
Aliás, essa era a matriz da cardiopatia prolongada que a despejou do corpo físico.
A utilização de técnicas anímicas de regressão poderia surtir efeitos positivos.
Dona Modesta guardava larga experiência no tema.
Utilizando-se de seus recursos mediúnicos, far-se-ia intermediária do corpo mental de Selena, a fim de serem executadas delicadas cirurgias.
Passado o efeito das medicações sedativas, ela apresentava sinais vitais estáveis e pouca lucidez mental.
Fizemos a oração junto à enfermeira Rosangela, a médium, Doutor Inácio e dois especialistas em neurocirurgia.
Dona Modesta postou-se ao lado da cama, em transe profundo.
— Selena, pode me ouvir? - indagou Doutor Inácio dirigindo-se à médium.
— Bonsoir merci!
— Essa não é mais sua língua.
Você está no Brasil, Selena!
— Eu não sou... Selena - disse ofegante como se acordasse de uma só vez e com os olhos esbugalhados - eu não sou Selena!
Selena não existe!
É uma réplica infeliz...
Enquanto isso o corpo espiritual de Selena na cama contorcia-se e suava abundantemente.
— Qual seu nome?
— Condessa Pyrré, descendente da família De Guise.
— A condessa já reencarnou como Selena.
— Não! Selena é uma réplica de mim.
Jamais existiu ou existirá.
Elise está a meu lado e me ama...
Há, há, há. Ela me ama...
Querem chamá-la de Angélica!
Isso é obra de Catarina, a malvada dos Médicis...
— Engano seu, Selena.
Elise hoje é Angélica.
Está na carne.
Nada tem a ver com Catarina.
— Catarina é a encarnação do mal na humanidade.
— Que ela lhe fez de tão mal?
— Envenenou o coração de seu filho para roubar-me Elise.
— Terá ela algum motivo?
— Nenhum...
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:46 pm

— Não minta, minha filha.
Aqui é o país da Verdade.
— Ela é vingativa.
— Por quê?
— Seu esposo me amava.
Fui uma concubina sem intenções para tal...
Catarina está aqui?
— Não.
— Mas eu sinto como se estivesse.
— Não, engano seu.
Procure acalmar.
Ela não está aqui.
Estamos em outro tempo, Selena.
— Selena não existe...
— Então vamos ver se não existe.
Observe seus pais, Selena.
Volte à idade de dez anos.
Veja aquela caixa de presentes que lhe foi dada por seu avô Totonho. Viu?
— Sim. Eu me lembro.
Meu presente preferido.
Vovô Totonho...
Onde está?
— Lembra como conheceu o Espiritismo?
Pequenina ainda...
Qual o seu nome?
— Não sei... Talvez seja...
— Selena. Repita comigo:
Selena, Selena, Selena.
— Selena...
— Isso. Esta é sua identidade actual.
Nessa altura, os especialistas aproximaram-se e colocaram na cabeça de Selena uma touca que irradiava ondas de intenso magnetismo, provenientes de um fino dueto a ela interligado.
Dona Modesta sentia, na mesma região, uma ardente onda de calor.
Após alguns segundos, podia-se ver nitidamente, saindo dos lóbulos frontais da médium, uma massa gelatinosa purulenta de cor amarela.
Fenómeno parecido com a emanação de ectoplasma.
Uma grande gota do lado esquerdo, outra do direito.
A matéria escorria pela face, e Doutor Inácio a examinava em silêncio.
Depois de alguns minutos, nova dose daquela gosma escorria com mais intensidade, desta vez, exalando um desagradável odor.
Rosângela prontificou-se a recolher o material cuidadosamente em pequenos chumaços de algodão.
Por onde escorria o líquido, notava-se na face da médium, como se estivesse queimada a pele.
Marcas visíveis de uma oxidação.
Selena apresentou imediata alteração no seu quadro.
Seu batimento cardíaco, sempre lento, passou a pulsar em ritmo normal.
Foi então que Doutor Inácio chamou a atenção da enfermeira para o seio esquerdo da médium, totalmente empapado na mesma substância.
Rosângela, com carinho e respeito, abriu-lhe a roupa e passou ao asseio necessário.
A médium permanecia em total inconsciência.
A operação chegou ao fim.
— Modesta pode me ouvir?
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:46 pm

— Sim, Inácio... regresso lentamente... o fio foi cortado. Angélica está livre.
—Graças ao bom Pai.
—Como está Selena? - perguntou Dona Modesta ainda de olhos fechados.
— Todos os seus sinais são alvissareiros.
Ela dorme como uma criança.
— Solte as amarras dos braços e pernas.
Mesmo ainda recobrando a lucidez, a médium preocupava-se com a paciente esquecendo-se de si.
Terminada a técnica, passamos a outras actividades da rotina.
Dona Modesta deixou um recado para Selena.
No dia seguinte, viria visitá-la para os esclarecimentos necessários.
Passadas duas horas exactas, a paciente recobrara a consciência.
Teve fome e pediu de comer.
Cuidou do asseio e, já refeita, conquanto fraca, iniciou uma amizade com a enfermeira.
— Qual o seu nome?
— Rosângela. Sou enfermeira nesta ala restrita.
— Estou na ala restrita?
— Sim. Você passou por um quadro que exigiu cuidado.
— Não foi você quem cuidou do Marcondes quando esteve aqui?
— Isso mesmo!
Vejo que começa a se recordar dos factos.
Fico feliz!
— Que tipo de tratamento foi o meu, Rosângela?
— A senhora estava com "pinças pretéritas".
São pontos emocionais de ligação com o passado muito intensos e crónicos.
A senhora se lembra de algo?
— Alguns nomes estão como um eco na minha mente...
Elise... Pyrré...
Tenho a impressão de já ter ouvido esse nome aqui mesmo no Hospital...
— Ouviu!
— Ouvi?
— Lembra de Eulália?
— A... a amiga de Marcondes?
— Ela mesma! Eulália foi Isabelle Pyrré.
— Sim, é isso mesmo...
Agora me lembro melhor! Mas e Elise?...
Há alguém com esse nome ou?...
— Tem. Elise foi irmã de Isabelle.
— Os nomes me causam um desejo de chorar Rosângela...
Que acontece comigo?
Ela caiu em pranto sentido.
— São recordações, Selena.
Logo você entenderá! Procure se acalmar e refazer seu estado.
Dona Modesta estará aqui amanhã e lhe responderá.
Quanto ao choro, não segure, deixe fluir, minha amiga!
A noite passou célere para Selena, afogada em muitas lembranças da oportunidade carnal recém-finda.
Com muito custo conseguiu adormecer e repousar.
Na manhã seguinte, tinha outra disposição.
Estava mais animada e alegre.
Desejou sair do leito.
Rosângela a conteve, pedindo aguardar a visita de Dona Maria Modesto.
Não passava de sete horas e trinta minutos, quando ela chegou elegantemente vestida.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:46 pm

14 - Cargos e Responsabilidades
"E chegou a Cafarnaum, e, entrando em casa, perguntou-lhes:
Que estáveis vós discutindo pelo caminho?
Mas eles calaram-se, porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maio.
E ele, assentando-se, chamou os doze e disse-lhes:
Se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos.
E, lançando mão de um menino, pô-lo no meio deles, e, tomando-o nos seus braços, disse-lhes:
Qualquer que receber um destes meninos em meu nome a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber; recebe não a mim, mas ao que me enviou"

Marcos 9:33 a 37

— Dona Modesta!
Não via a hora de conversarmos!
— Aqui estou, amiga querida!
Como passou a noite?
— Bem, muito bem!
Tenho a impressão de ter um coração novo!
— Óptimo! Pretendo tirar você desta cama mais rápido que pensa.
— E a senhora?...
Posso saber aonde vai nessa elegância? - manifestou a convalescente com humor.
— Vou a Terra.
Tenho muitas visitas e compromissos por lá, hoje.
— Jamais imaginei uma rotina como a de vocês.
Conversei muito com Rosângela e impressionei-me com o ritmo de trabalho por estas bandas.
— Abençoado trabalho, Selena!
— Dona Modesta... eu...
— Já sei! Quer saber tudo. Tim-tim por tim-tim!...
— Tenho algum problema grave?
— Nem tanto! Uma obsessão crónica, envelhecida.
— Uma obsessão? É sério?
— É sério.
— O obsessor foi assistido?
— E como!
— Onde está?
— Aqui.
— Aqui?!
— Diante de mim.
— A senhora está de muito humor hoje.
— Não é só humor. É facto.
O obsessor, caso prefira utilizar essa indesejável expressão, está aqui, na minha frente.
— Eu?
— Você vê mais alguém aqui no quarto?
— Mas...
— Quero lhe fazer uma pergunta, Selena - assim expressou a benfeitora mudando o tom da conversa.
— Faça!
— Qual o significado de Angélica, sua companheira de lides espíritas, para você?
— Sinto coisas horríveis por ela depois do que ouvi na reunião de directoria.
— Já sentia isso antes?
— Eu...
— Sem máscaras, Selena!
— Sim, já sentia.
Angélica causava-me um misto de carinho e necessidade de posse.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:47 pm

Não admitia vê-la longe de minhas ordens, ou...
— Ou?...
— Não admitia vê-la agindo sem minha permissão ou contrariando minhas opiniões.
Creio que seja a filha que não tive, ou... quem sabe... era um carma meu...
— Ela se queixava disso?
— Muito. Mas não tinha razões para isso.
— Qual era a queixa?
— Dizia que a sufocava.
Chamava-me de controladora.
— E você era?
— Nem um pouco.
Apenas me sentia muito responsável por ela.
— Engano seu, amiga querida! Engano seu!
Você não só a controlava como a impedia de crescer.
Em verdade, sua atitude foi um grilhão na vida de Angélica.
— Dona Modesta, não fale assim comigo, pois minhas intenções eram as melhores.
— Minha filha, chegou a hora da verdade.
Olhe-se no espelho a consciência.
E imperiosa sua confissão.
— Confissão?...
— Confessar medos, Selena.
Confessar interesses!
A maioria das criaturas que deixam a vida corporal chegam aqui com densas carapaças psíquicas encobrindo seus medos.
Medos cultivados às ocultas durante seu trajecto de vida.
— De que medo a senhora está falando?
— Quem deve saber é você, amiga. Pense!
— Por vezes, passava algumas ideias sem sentido pela minha cabeça.
— Fale sobre elas.
— Achava Angélica muito imatura e entusiasmada.
Excessivamente bondosa...
Acreditava demais nos espíritos e nos líderes do movimento...
Demasiadamente criativa.
— Onde se oculta seu receio nessas questões?
— Não que eu tivesse receio, mas...
__ Selena! Selena! - interrompeu dona Modesta.
Pare de contornar o problema.
Seja clara. Era receio, ou não era?
__ Era Dona Modesta! Era sim.
Desculpe-me por rodear demais.
É difícil este assunto para mim e ainda não me sinto muito bem.
— Compreendo.
Todavia é seu instante de cura, companheira.
Chega de fugas e desculpas.
Meu papel é auxiliá-la no enfrentamento íntimo.
Preferível a dor da verdade que o cáustico da mentira prolongada. Fale!
— Eu tinha medo de Angélica roubar meu lugar.
Tinha zelo com o trabalho.
As ideias dela eram avançadas demais.
Não me inspiravam segurança.
Muito afoita e cordata.
Apesar disso, catalisava os demais e...
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 12, 2018 8:47 pm

— E...
— Precisava podá-la por receio de não acompanhá-la.
Não conseguir manter minha posição...
—Posição?...
—Meu cargo! Foi com tanto sacrifício e renúncia que cheguei até onde cheguei.
Eu tinha as melhores intenções. Será que fiz mal?
— Preciso convir que, o desejo sincero a que você chama de melhores intenções costuma ser inegável em muitos casos.
Isso, porém, não é suficiente para a criação de laços autênticos e duradouros, tecidos através da lealdade aos nossos reais sentimentos.
Conviver é um desafio, Selena!
Ainda que imbuídos das melhores intenções, nosso egoísmo é saliente demais para permitir-nos conviver à luz das propostas do autêntico amor.
Você não fez nada por maldade.
Quase sempre, nossos relacionamentos são como uma casa sobre a areia, sujeita a ruir perante frágeis intempéries.
Porque não possuímos qualidades morais suficientes, adoptamos dois caminhos nos relacionamentos.
— Quais?
— O controle e a indiferença.
Raramente escapamos a esses desatinos ético-emocionais.
Não fomos educadas para conviver.
Somos recém-egressos do instinto.
Somente agora iniciamos os primeiros passos na senda do altruísmo, do desprendimento, da solidariedade, e caridade cristã.
A noção que trazemos de família e amizade esta sufocada por lastimável dose de interesse pessoal e amor próprio.
Se não conseguimos controlar alguém, quase sempre utilizamos o mecanismo da indiferença, isto é, a negação da diferença.
O tema é extremamente profundo e subtil.
Por essa razão, a fraternidade e a construção do afecto nos círculos de convivência, ainda são obras sofríveis para almas como nós.
— Não se inclua, Dona Modesta, apenas para me aliviar! - falou descontrolada.
— Para aliviá-la?
— Claro que sim, pois como poderia uma trabalhadora como a senhora se colocar nessa condição?
— Você não me conheceu e ainda não me conhece bastante, minha filha.
Natural que queira me poupar, considerando suas noções ainda encharcadas pelas teorias espíritas que trouxe da Terra.
É possível que me tenha na conta de um espírito superior, ou algo assim, entretanto, prepare-se para se decepcionar.
— Decepcionar-me?!
— Não queira saber o que é passar uma semana a meu lado...
Boa parte dos espíritas imaginam as esferas espirituais como lugares santificados, repletos de vultos do Espiritismo, aguardando-os de braços abertos depois da morte.
Não foram poucos os que chegaram aqui procurando Allan Kardec e todos os demais expoentes da doutrina.
Alguns mais enlouquecidos queriam ver Jesus...
Acreditavam ter pagado todas as contas tão somente por passarem algumas décadas na distribuição de géneros alimentícios e agasalhos...
— Difícil acreditar, Dona Modesta!
— Muita vez, quando encontram alguém conhecido, esperam um par de asas sobre os ombros.
Contudo, quando começam a conviver connosco, decepcionam-se em suas expectativas e...
— E...
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Ave sem Ninho

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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 13, 2018 8:02 pm

— Então começam os problemas.
__ ?
— Percebo sua dúvida, Selena, e, como mineira que não deixei de ser, vou lhe contar um caso.
Quando desencarnei, Doutor Bezerra de Menezes chamou-me para assumir uma enorme responsabilidade nesta casa.
Seria a condutora do pavilhão no qual se encontravam os casos mais complicados de cristãos falidos e enfermos.
O pavilhão dos líderes e servidores colectivos.
Com poucas semanas de tarefas, um grupo de almas afoitas reuniu-se para apresentar queixa sobre minha conduta firme.
Não aceitavam uma mulher conduzindo-os.
Estávamos no ano de 1964, imagine como era o preconceito contra a mulher!...
Estavam revoltados por serem dirigidos por uma espírita que não tinha folha de serviço junto a órgãos e entidades de unificação.
Questionavam:
''Como pode uma dirigente de sanatório psiquiátrico ser nossa tutora?
"Queriam alguém melhor e mais amável.
— Não consigo acreditar nisso! - atalhou Selena com espontânea surpresa.
— Não queira saber quanta balbúrdia e burburinho gerou tal ocorrência aqui no Hospital.
Foram dias difíceis para todos nós.
Fiquei muito magoada e nem imaginava que algo assim pudesse acontecer com alguém, muito menos comigo, que nunca pleiteei nada em torno de cargos e títulos.
Chorei muito na véspera e procurei Eurípedes, que me acalmou.
Ele me disse que tudo seria resolvido.
Tivemos então que marcar uma reunião com Bezerra para decidir o caso.
— E como foi? - interrogou ansiosa a ouvinte.
— Um deles tomou a palavra e expôs em nome dos demais o ocorrido.
Eram vinte ao todo.
Doutor Bezerra ouviu tudo com extrema serenidade.
Eu nem ocupei em dizer nada, porque nem imaginava o que dizer.
A vontade que tinha era...
Bom deixa pra lá!
— Que dor deve ter sentido a senhora!
— Você nem imagina quanta dor. Após a palestra do representante do grupo, o bondoso Bezerra disse com determinação:
— Irmãos em Cristo, aprecio a sinceridade de todos e as intenções justas pelo bem desta Casa do Cristo.
Certamente, ao apresentarem suas queixas, devem ter, também, escolhido alguém que preencha os predicados morais que levaram o nosso director geral, Eurípedes Barsanulfo, a aprovar o nome de Dona Modesta na condução desse pavilhão.
O representante do grupo externou:
— Não, Doutor Bezerra.
Não tivemos essa preocupação por desconhecer as razões da escolha de Dona Modesta.
Apenas não concordamos com a decisão.
Tem havido muito incómodo com as suas acções determinadas e demasiadamente, digamos..., sinceras...
-falaram em tom de ironia.
— Sendo assim, peço fraternalmente licença aos irmãos para um acordo - externou Doutor Bezerra.
Se me responderem com sinceridade a duas questões, considerem a transferência de Dona Modesta para outras actividades. Concordam que seja assim?".
— Claro! Claro! - manifestaram todos, um a um, repletos de imponência, pois adoravam esse tipo de reunião decisória.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 13, 2018 8:02 pm

— Qual de vocês, enquanto na Terra, devotou-se ao próximo sem limites de sacrifício na escola do amor?
O grupo permaneceu em silêncio.
Olhavam um para outro como se não entendessem a indagação.
Pareciam esperar outro género de questionamentos.
E, ainda sem digerirem a pergunta, Doutor Bezerra voltou à carga com ternura e firmeza:
— Quais obras de amor deixaram na humanidade em nome do Cristo afim de que os homens lembrem seus nomes na posteridade?
Ninguém respondeu absolutamente nada.
Olhavam-se confusos.
A reunião foi encerrada e já se passam mais de quatro décadas nas quais me encontro em serviço activo neste pavilhão.
Todos eles eram excelentes trabalhadores na seara, mas ainda carcomidos pelo interesse pessoal.
Fizeram muito, entretanto descuidaram do amor.
Operaram maravilhas pela teoria espírita, pela doutrina.
Todavia, como ocorre a muitos, esqueceram o próximo.
Não sabiam conviver, não sabiam enxugar uma lágrima, tinham péssimos relacionamentos, não suportavam ser contrariados, adoravam controlar e serem servidos, eram fascinados com suas folhas de serviço, mimavam os cargos e, no fundo, adoravam excluir.
Uma grande diferença existe entre o tarefeiro e o servidor, o trabalhador e o operário.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 13, 2018 8:02 pm

15 - Projecto Essencial
"Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes impor silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, afim de que daí não viesse dano para a obra!"
O Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo XX, item 5.

—Estou estupefacta diante de sua história! -expressou Selena.
—Você aprenderá muito por aqui, minha filha.
Morrer tem suas vantagens!...
— Dona Modesta, seja franca comigo!
— Quer minha opinião sobre Angélica? - antecipou a benfeitora.
— Sim.
—Selena, vários casos de personalidade controladora explicam-se em razão da energia que a criatura emprega para tomar conta da vida, uma tentativa de não se decepcionar, não se frustrar.
Quase sempre, são pessoas magoadas e com medo de serem ofendidas novamente depois de algum incidente doloroso.
A maioria dos espíritas vem se preocupando demasiadamente com as obsessões de desencarnados para encarnados, entretanto desconhecem o quadro lamentável de obsessões que pululam nas relações humanas.
E necessário convir que os desencarnados, devido a barreiras vibratórias pertinentes às dimensões, têm um limite de actuação sobre os homens no corpo.
Mesmo com tantas opções de acção por parte dos espíritos, os encarnados, por vibrarem em faixas físicas idênticas, continuam sendo os mais influentes obsessores com os quais os homens deveriam ocupar-se.
O egoísmo que ainda nos é peculiar tem mil modos de desrespeitar o livre-arbítrio e engendrar a hegemonia pacífica sobre o próximo.
— Então... terei exercido uma obsessão sobre Angélica?
— Sem dúvida!
— Meu tratamento tem algo a ver com ela?
— Claro!
— Seria essa a razão dos sonhos que tinha com ela chegando ao portão do Hospital sem conseguir entrar?
— Não eram sonhos.
Eram factos reais.
Angélica a procurou noites a fio ao emancipar do corpo físico.
— As vozes não eram alucinações?
— Não, não eram.
Você ouvia Angélica a distância.
Ela criou uma dependência doentia.
Por outro lado, sua partida também foi um alívio.
Essa a razão das palavras firmes que expressou durante a reunião no centro espírita e que tanto te magoaram.
— Senti-me traída...
— Mas não foi. Há muitas pessoas sentindo-se traídas sem avaliar a extensão do que existe no coração alheio.
Existem controladores da vida alheia que oprimem sem saber, ofendem sem desejar.
Angélica foi sua filha na personalidade de Elise Pyrré, irmã de Isabelle Pyrré, hoje renascida como Eulália.
— Então Eulália...
— Eulália, a quem o nome chamou a sua atenção na visita a Marcondes, foi Isabelle, a filha rebelde que lhe causou muitas decepções.
Tentando prevenir a sequência de desastres na família, você, como mãe na personalidade de Condessa Pyrré dos Guise, passou a zelar com excessos por Elise.
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 13, 2018 8:03 pm

Você foi ferida demais por Isabelle e tentou poupar Elise controlando-a, super protegendo-a.
É a primeira vez em alguns séculos de encontros que ela se sente livre para ser o que gostaria.
Sua ausência pela morte, em outras ocasiões, não significava o fim do cativeiro para Angélica.
Agora, no entanto, creio que será bem diverso este epílogo.
Selena não suportou as revelações e rendeu-se a incontrolável pranto.
Dona Modesta a acolheu nos braços como uma criança indefesa e assustada.
Afagava a cabeleira lisa da companheira como se o fizesse a uma filha.
Ainda soluçando e com voz embargada, a paciente ainda encontrou forças para perguntar:
— E o centro espírita?!
Por que o cerco dos capangas?
— Expressiva parcela de casas doutrinárias se encontra em situação parecida, graças à natureza do campo vibratório que gravita nos relacionamentos entre seus tarefeiros.
Os sentimentos determinam a qualidade espiritual dos ambientes.
— De que natureza é esse campo?
— Quando existe honestidade emocional e afecto, os campos são de alegria e bem-estar.
— Mas existe, porventura, algum centro espírita cujo campo não seja dessa espécie?
— Lamentavelmente!...
Não se assuste em dizer que, alguns centros erguidos em nome de Jesus Cristo, têm sido pasto de obsessões e doenças graças à natureza enfermiça de seus condutores.
— Inacreditável!
Por vezes, chego a pensar que estou tendo uma miragem!
Ou... ou sendo vítima de um engodo!
— Ou ouvindo uma obsessora, você quer dizer.
— Por aí, Dona Modesta!
— É natural!
Basta ser um espírita sem noções claras sobre o que se passa por aqui para ter essas sensações...
— Não deveríamos avisar aos amigos no plano físico sobre o assunto?
— Se você não acredita, estando aqui, acha que eles acreditariam se lhes endereçássemos algum apelo?...
No tempo adequado, abriremos o véu...
— Não consigo entender a razão de semelhante ocorrência na casa que presidi.
Tínhamos um bom relacionamento.
Com problemas, é verdade, mas sincero.
Mesmo com minhas falhas, o trabalho prosseguiu com bons resultados.
— Selena, que critérios temos adoptado para aferir resultados na seara do Cristo?
Serão eficazes?
Ou fruto de nossa análise ainda interesseira e auto promotora?
Mais que resultados palpáveis externamente, ou para os beneficiados do centro espírita, importa aferir a construção íntima que edificamos através da escola dos relacionamentos.
Será que os trabalhadores sentem nossa ausência quando faltamos?
Somos queridos e esperados por quem partilha-nos a tarefa no dia-a-dia?
— Acreditava que o ambiente era bom em nossa casa!
— E era!
— Então qual a motivo daqueles espíritos cercando o centro?
— Sua decisão impensada!
O alvo das críticas de Angélica na reunião de directoria.
— A suspensão das tarefas mediúnicas?
— Exactamente!
— Uma casa doutrinária sem o serviço de intercâmbio inter-mundos é como um reduto isolado por altas paredes em pleno deserto do materialismo.
— Fiz mal com minha atitude?
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Re: Lírios de Esperança- Ermance Dufaux / Vanderley Pereira

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 13, 2018 8:03 pm

— Mais do que pode supor, Selena.
— Ai, meu Deus!
É muita notícia ruim para um só dia! Estou com uma nítida sensação de falência como se nada de bom tivesse realizado durante a vida física... - envergonhada, cobriu o rosto com as mãos.
—Engana-se! Suas realizações contabilizam um saldo positivo logrado por poucos.
—Preferia não falar nesses assuntos!
Entristecem-me... Creio que...
— E seu momento de aferição - novamente intercedeu a Dona Modesta.
Não temas e nem fujas!
Quanto antes enfrentá-lo, melhor para sua paz.
Ao fechar as portas para a mediunidade, qualquer organização humana está decidindo pela horizontalidade de suas experiências.
A relação com a sociedade invisível representa a alma do Espiritismo.
Espiritismo sem mediunidade é espiritismo de homens.
O Espiritismo do Cristo é luz, verdade, elevação e progresso.
É Espiritismo com espíritos.
Doutrina Espírita quer dizer doutrina dos espíritos...
Grave bem: dos espíritos!
— O propósito foi evitar os abusos e...
— Sabemos disso! - interrompeu a orientadora.
Sua iniciativa não obedeceu a interesses personalistas. Isso não os livrou do peso das pressões psíquicas.
Pior que fechar as portas da mediunidade é abri-la somente a quem se deseja.
— Explique melhor, Dona Modesta.
— O exercício mediúnico atravessa um grave processo deflagrado a algumas décadas, que conduziu ao rompimento com a espontaneidade.
A título de instituir cuidados que se fizeram necessários - facto que ninguém pode contestar -criaram-se normas e padrões muito rígidos.
O exercício mediúnico precisa ser ressignificado.
— Jamais conseguiria agradar a todos em minha posição!
Tive problemas sérios com a mediunidade em nosso centro.
— Não se trata de agradar e, sim, fazer o melhor a nosso alcance de conformidade com as propostas do Cristo e do codificador.
Infelizmente, existe muito "espiritismo sem espíritos..." O motivo?
É fácil responder:
os homens fundaram casas e mais casas.
Poucos foram os que consolidaram grupos.
Muito fácil reunir pessoas.
Difícil é unir pessoas.
Sem equipes fraternas e afectuosas, não teremos serviços criativos e ricos de entusiasmo e alegria.
Sem isso, como avançar em direcção ao espírito do Cristo?
A mediunidade não deve ser analisada apenas como uma actividade da casa espírita.
Em verdade, ela é a alma das tarefas espirituais.
O termómetro pelo qual se podem aferir as lutas e valores de uma organização e seus integrantes.
A relação entre homens e espíritos constitui o cerne da proposta espírita, isto é, a consolidação do sentimento de imortalidade no coração.
— Poderei cooperar na mudança dessa história?
Terei como intervir para que o meu grupo espírita tome outro rumo?
Estou abismada com a situação que criei.
Amava tanto o Centro Espírita Paulo e Estêvão! Lembro-me do dia em que tudo começou...
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