Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 17, 2018 7:59 pm

Uma tarde com bolinhos de chuva
A chuva, àquela tarde, foi mais do que a água abundante e cristalina, foi especialmente uma saudade carinhosa para o meu coração.
Até o momento, era um dia comum com os afazeres.
Depois do almoço, o tempo mudou e a chuva logo começou.
Terminei o que precisava em casa - aquele dia estava de folga do trabalho - e fui para a varanda lateral observar a aguinha caindo do céu e animando as plantas; até alguns passarinhos brincavam de voar na chuva.
Sentei-me na cadeira branca, na varanda, e fiquei olhando o comportamento da natureza, sempre belo e sábio.
Ao lado, há uma mesinha redonda e também branca na qual deixo o romance que estou lendo e normalmente uma xícara com chá de camomila.
Agora só estava o livro.
Fiquei mais um pouco olhando tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo.
A chuva tornou-se mais calma, e continuava.
De repente, parece que senti o cheiro de bolinho de chuva.
Tentei esquecer.
Quem estaria fritando esses bolinhos?
Ninguém. Mas o cheiro persistiu e comecei a ficar com muita vontade, vontade de criança que não esquece.
Não me restou outra saída, fui fazer.
Minha avó materna havia me ensinado.
E como amava os seus bolinhos.
Lembro-me de quando eu era criança e passava parte das férias na casa de minha avó que fazia muitos bolinhos de chuva, guardava numa lata grande e tínhamos aquela delícia por muitos dias.
Era para o café da manhã e o da tarde, mas como “vó é vó” eu podia comer quantos quisesse também durante o dia.
Peguei os poucos ingredientes e a tigela e coloquei-os na pia.
Comecei a arte da culinária do delicioso bolinho.
E lembrei-me de que minha avó falava:
“A massa deve ficar mais consistente do que a de bolo”.
E foi assim que ficou.
Esquentei bem o óleo na panela e pegava a massa com colher e a colocava no óleo quente.
Logo terminei.
Esquentei água para o chá.
Sentei-me.
Na mesa da cozinha estavam o prato com os bolinhos e a xícara de chá de camomila.
E, de facto, os bolinhos estavam deliciosos.
Enquanto fazia e quando comia, meu pensamento reavivou inúmeras lembranças de minha tão querida avó.
Uma saudade tranquila e cheia de ternura tomou meu coração.
E falei em voz alta:
“Ah, vó, que saudade!”.
Peguei mais um bolinho e neste momento senti um carinho no meu dedo mindinho.
A surpresa foi grande com um frio no estômago.
Meus olhos se encheram. Lembrei-me tão ternamente destas palavras:
“Minha querida, seja feliz!”.
Eram as palavras que minha avó sempre me dizia e acarinhava com leveza o dedo mindinho de minha mão direita.
Senti com calma e gratidão esse momento.
Depois de um tempinho, secando o rosto, pensei:
“Verdade, o amor que existe não se perde, mas fica no sentimento sem diferença de dimensão”.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 17, 2018 7:59 pm

Reminiscência
- O senhor pode me ensinar a construir violinos? - o menino Antoine perguntou ao antigo vizinho de bem antes de ele nascer.
Após a escola e o almoço, o menino se aproximava da oficina onde o senhor Marion construía muitas peças lindas em madeira.
A casa mais antiga era a de Marion e a menos um pouco, ao lado, a de Antoine que nascera ali, herança de seus avós maternos.
Por volta normalmente das catorze horas, o menino já estava sentado num banquinho construído pelo senhor e observando a arte que Marion dava a qualquer pedaço de madeira.
Era antes um grande carpinteiro que se tornara um artista sensível, no entanto, sem alarde, apenas manteve-se com sua simplicidade.
O senhor construíra desde pequenos brinquedos a grandes móveis que enfeitavam as nobres casas francesas daquela região.
E há alguns anos, ganhara muitas madeiras de boa qualidade e algumas delas apropriadas para o feitio de violinos - madeiras que eram ideais para a acústica -, no entanto, nunca havia construído nenhum instrumento sequer.
Mas, como ele sempre dizia, “tudo se pode aprender”, então, Marion foi em busca de projectos para a construção de violino.
A mesma pessoa que o presenteara com as madeiras também havia encomendado o primeiro instrumento ao carpinteiro.
“Todo objectivo precisa de empenho”, uma das falas de Marion.
E com este não fora diferente, pois não era tão comum encontrar um projecto ideal para um bom violino; porém, quem deseja sinceramente alcança o objectivo e, assim, Marion conheceu um senhor inglês radicado numa cidade bem próxima de onde morava que construía instrumentos de madeira com cordas.
Além do objectivo, também angariou uma preciosa amizade de já alguns anos que dura até os dias presentes.
Marion tomou um grande gosto pela feitura de violinos que passou a ser o seu trabalho, vez ou outra construía outros objectos ou brinquedos.
Ele se tornou um reconhecido luthier, não só da região como do país e referência no exterior.
E Antoine nascera ali do lado e era natural ver um senhor construindo violinos.
No entanto, Antoine sabia que não eram violinos tão comuns, mas construídos com muito cuidado e requinte.
O menino observava atenciosamente cada gesto e forma utilizados em cada parte da construção do instrumento.
Sabia quais ferramentas seriam usadas, qual a sequência para a feitura, a medida das partes.
Ele sabia que cada violino construído ali era “incomparável, único, por isso tão especial”, pois era assim que o senhor Marion falava em voz alta.
E naquele dia, sem responder ainda à pergunta, o luthier pediu ajuda ao menino, que segurasse o pedaço de madeira para o senhor terminar o acabamento; era uma encomenda feita por um dos mais renomados violinistas da Suíça.
O projecto fora desenhado pelo próprio instrumentista, um design inovador e perfeito, pareceria inteiramente com vida o reverberar das notas no instrumento, seria pura emoção.
O pequeno Antoine segurou com precisão a madeira, uma das partes do violino.
Com respeito pelo trabalho, com carinho pelo instrumento, com a certeza do magnífico som que sairia, foi assim que o menino ajudou o luthier.
Quando o sol já ameaçava esconder-se é que o senhor e o menino terminaram a parte do violino para aquele dia.
O senhor Marion deu um sorriso de canto de boca, entretanto, seus olhos estavam radiantes.
E o senhor já havia percebido que Antoine amava violinos.
Naquele fim de tarde, Marion ofereceu um violino da oficina com o arco para o menino vê-los de mais perto e senti-los.
Agora, os olhos de Antoine é que estavam radiantes.
Ele observou cada partinha do instrumento, enquanto isso, o senhor organizava a oficina.
E quando o último raio de sol se escondeu para iniciar o turno das estrelas, foi ouvido o som imensamente sensível vindo do instrumento das mãos de Antoine.
O senhor parou imediatamente o que fazia e muito devagar se virou para o menino.
- Sim, posso ensiná-lo a construir violinos já que é seu instrumento tão particular de há muito tempo… certamente de muitas existências - falou em tom baixo ouvindo a melodia.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 17, 2018 7:59 pm

Os moinhos de Anemoon
Quanto mais vento, mais as hélices dos moinhos se movimentavam, elas se impulsionavam querendo alcançar o horizonte assim como Anemoon queria partir para os lugares criados por sua imaginação.
Ele era um menino habitante de uma pequena e calma cidade da Holanda, morava com seus avós; seus pais, por algum motivo, foram para outro país a fim de encontrarem uma vida mais tranquila e próspera, mas nunca voltaram para a pequena cidade, nem para visitar o filho que há pouco completara doze anos.
E Anemoon sentia a falta dos pais, no entanto, não compartilhava essa dor com os avós que ele tanto amava e os avós o amavam mais e mais, costumavam dizer que os amavam até o infinito do vento dos moinhos.
Anemoon sorria.
O avô tinha um pedaço de terra, equivalente a uma chácara simples, onde plantava, em pouca quantidade, muitos alimentos para a família de três pessoas consumir.
A avó, óptima cozinheira, fazia comidas muito saborosas.
Não eram comidas sofisticadas, mas muito nutritivas e deliciosas; Anemoon sempre elogiava sua avó-cozinheira predilecta.
Ainda havia um gato branco de nome Zank, já era da família, pois presenciara boa parte da história dessas pessoas.
Ele era muito observador e parecia compreender o que ocorria naquele lar.
Era já um velho gato.
Anemoon perdia a hora de tanto contemplar os moinhos próximos de sua casa.
Eram moinhos antigos e estavam lá só como preciosidades, pois outras máquinas mais modernas já os haviam substituído para a captação de energia.
Entretanto, existiam, estavam conservados; suas hélices giravam e, para o menino, eles eram importantes demais:
davam realidade à sua imaginação.
E numa tarde de céu azul anil claro, o menino estava sentado num banquinho sob a sombra de uma árvore de pequeno tamanho olhando para seus inspiradores moinhos, quando algumas pessoas com roupas diferentes começaram a sair de dentro deles e a caminhar para perto do menino que não acreditava no que via, coçou os olhos para tentar melhorar a visão, mas era uma imagem verdadeira e as pessoas mais se aproximavam dele.
Os moinhos passaram a rodar mais rápido, pois o vento também estava mais forte.
Anemoon não piscava e seus olhos diziam não acreditar.
E quando se deu conta, as pessoas estavam bem à sua frente.
Sorriram para ele com ternura.
O pequeno não teve condições para fugir, pois suas pernas estavam trémulas e não poderiam sustentar o corpo de menino.
E eles abaixaram e sorriram para Anemoon.
Havia homens e mulheres; todos estavam vestidos com roupas muito diferentes das que ele conhecia.
Os olhinhos estavam prontos para piscar.
“Quem sabe com algumas piscadas, a mágica pudesse se desfazer e tudo voltaria ao normal”, o menino pensou.
Mas ele piscou muitas vezes e coçou forte os olhos, mas aquelas pessoas com aparência de bondade continuavam ali e após o pensamento do menino, eles sorriram mais e Anemoon percebeu.
Na verdade, sorriram porque…
- Vocês sabem o meu pensamento? - Anemoon perguntou espantado.
- Sim, podemos saber o seu pensamento – um dos homens respondeu.
- E agora? Vocês saberão tudo o que penso! - o menino concluiu insatisfeito.
O pensamento é de cada um! - falou um pouquinho bravo.
- Calma, Anemoon! - uma das mulheres pediu com muita ternura.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 17, 2018 7:59 pm

Você já sabe o meu nome? - tornou a perguntar.
- Sim… e também sabemos muito sobre você, menino dos moinhos – a mulher completou.
Decididamente, Anemoon não falou mais nenhuma palavra… para quê?
Eles podiam ler o pensamento do menino.
Entre homens e mulheres, contavam cinco:
três delas e dois deles.
“Eram muito diferentes, mas de um jeito bonito e não assustador”, pensou o menino.
Suas roupas eram de um cinza bem clarinho e cobriam quase todo o corpo deixando apenas as mãos, o pescoço e a cabeça à mostra.
“E seus rostos eram tão bondosos!”, mais uma vez, ele pensou.
“Mas como eles saíram dos moinhos?”
- Se você quiser podemos conversar de forma comum com perguntas e respostas em voz alta – o homem, que já havia falado antes, sugeriu.
Anemoon olhou para o homem e concordou com a cabeça.
- Então, precisamos nos apresentar.
Sou Trada – o homem se apresentou.
- Trada? Que nome esquisito!
- Sou Dren - o outro homem se apresentou.
Anemoon estava muito surpreso.
- Sou Medra – a mulher que já havia conversado antes falou.
- Sou Cetra – também a outra.
- E sou Hadre – a terceira mulher falou.
O menino preferiu não fazer nenhuma observação, simplesmente falou:
- Prazer em conhecê-los.
- A alegria é muito grande em estarmos aqui com você – Trada falou.
Anemoon estava surpreso, curioso e ao mesmo tempo feliz.
Os cinco também estavam felizes.
- E os moinhos…
Como vocês saíram de lá? - o menino perguntou.
- Anemoon, precisávamos chegar a você e como é encantado pelos moinhos, nada melhor do que ter toda sua atenção por meio de algo de que tanto gosta – o homem começou a explicação.
Trada era o mais falante e, sem nenhuma vaidade, parecia ser o líder pelas explicações dadas.
- E por que eu? - o menino quis saber.
Os dois homens e as três mulheres olhavam para ele com imensa bondade.
E em banquinhos como o de Anemoon, eles se sentaram.
- Porque você, meu querido, sempre tem bons pensamentos e tanto deseja um mundo mais feliz – Medra falou.
Observamos você todos os dias quando está aqui admirando seus moinhos.
Pois bem, e o movimento que as hélices fazem cria energia e por meio do seu olhar se transforma em bondade em seu coração que é lançada para muitas direcções… para muitas pessoas.
E mesmo com a dor da ausência de seus pais, você ama e tanto amor há em seu coração.
E Anemoon observava com seus olhinhos tão brilhantes e surpresos, pois esse sentimento ele nunca compartilhara, estava em seu interior… pensava que estivesse só em seu coração e o pequenino não imaginava que seu pensamento e sentimento pudessem ser desvendados assim, tão perfeitamente.
E seus olhinhos permaneciam brilhantes.
- Mas… quem são vocês? - ele insistiu.
Não apenas os nomes… de onde vieram e o que fazem? - o menino insistiu.
- Anemoon, somos cinco habitantes de um lugar onde a bondade é o maior sentimento, onde o bem é vivenciado.
E continuamente observamos os diversificados lugares e conhecemos quem são as pessoas que criam essas luzes cintilantes, pois a bondade possui uma luz muito radiante, é o oposto de sentimentos não muito bons que emitem uma nuvem triste e acinzentada.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 17, 2018 8:00 pm

Em muitos casos, as pessoas desconhecem que pensamento e sentimento emitem formas e cores.
Trada fez uma observação.
- Mas sou apenas um menino – ele tentou explicar.
- Mas seus sentimentos são inteiramente brilhantes e bons – Trada falou.
- E o que querem de mim? - o menino perguntou.
- Quisemos conhecê-lo porque é muito jovem e amoroso e isso nos sensibilizou.
Também viemos para fortalecê-lo a continuar nesta caminhada de bondade que você já trilha para ajudar ainda inúmeras pessoas, animais e flores…
O menino suspirou e soltou um leve sorriso.
? Sim, penso muito em ajudar as pessoas e penso em como posso fazer.
Meu avô me falou que não sou como os outros meninos… que pareço de outro mundo, mas ele não me falou de qual mundo – sorriu.
Os dois homens e as três mulheres também sorriram, eles sabiam que Anemoon, como os moinhos de vento, levaria adiante o sopro da bondade e do amor.
Talvez Anemoon também fosse do mesmo mundo que eles.
E os cinco voltaram por onde vieram e os moinhos de vento levaram todos ao seu destino.
O menino acordou de seu hipnotizante cochilo.
Esfregou os olhos.
Olhou para os moinhos que giravam com o vento.
Lembrou-se de alguma coisa, mas não dos detalhes.
Sorriu… sorriu feliz, mas não por se lembrar, sorriu por olhar os moinhos e por algum motivo sentir-se com mais vontade ainda de querer ajudar o mundo, na verdade, de realizar o compromisso assumido antes de vir para o plano destes moinhos terrenos de vento.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:40 pm

O semeador do campo dourado
O trigal brilha com os raios de sol à tardezinha, apenas um senhor no meio do campo dourado.
Pássaros voam em busca de seus ninhos; outros pequenos animais também fazem o caminho de casa… de tocas.
Todos querem aconchego.
Somente quando o sol é mais lua é que o senhor do campo dourado volta para a singela casa de dois cómodos.
Volta para ele mesmo, pois ninguém o espera a não ser os dois cachorros obedientes e amorosos que vivem descansando na varanda da frente.
Eles o avistam, mas preferem que o dono chegue até eles, pois vivem descansando.
O homem os acaricia um pouco e logo os três vão para dentro.
No fogão há uma panela de arroz com alguns pedaços de carne.
Há ainda um bule de café feito após o almoço.
Os dois cachorros rodeiam o fogão sem quererem importunar o dono que lava os braços no banheiro improvisado.
Ele lava o rosto e se olha no pedaço de espelho pendurado na parede de tinta antiga.
Ele olha tão profundamente que parece querer descobrir os seus próprios segredos, e dá um sorriso sincero e amistoso.
Ajeita o cabelo, passa a mão no rosto.
Coloca a camisa de um pijama pendurado num preguinho.
Volta para a cozinha.
Os dois cachorros, calmos e em paz, abanam o rabo.
Aquela simples casa tem harmonia.
O homem coloca mais lenha no fogão para esquentar a comida.
Enquanto isso, os dois se deitam ao lado da mesa perto de onde estavam seus pratos e acompanham o movimento do homem apenas com os olhos. O homem olha para eles e sorri.
E os dois se sentem ainda mais felizes.
Com os minutos passados, a comida já estava aquecida a uma temperatura ideal.
O homem pegou a panela e serviu os dois pratos primeiro, em seguida serviu o seu prato que estava na mesa.
Os cachorros se levantaram e comeram com calma a comida; da mesma maneira, o senhor se alimentou com calma.
A essa hora a lua iluminava o campo de trigo.
O homem terminou antes dos dois, ele comia o necessário para o seu sustento.
Os cachorros comiam o que colocava para eles, caso sobrasse um pouco mais e o homem os servisse, eles também comiam.
Após alimentados, olhavam-se e compreendiam-se; certas vezes, palavras são desnecessárias, no entanto, a observação e a cumplicidade enredam a harmoniosa convivência.
Então, o homem se levantou, recolheu o seu prato e já o lavou deixando-o apoiado no cantinho da pia, também sua colher, a panela e a colher de tirar a comida.
A louça estava limpa, escorrendo.
Ajeitou a pia.
Ainda pegou os pratinhos dos cachorros e enxaguou-os no tanque de fora e também deixou-os apoiados no canto do primeiro degrau da escada da varanda onde se sentaram para ver a lua iluminar o campo de trigo; o homem, na cadeira, e os cachorros, um de cada lado dele, como toda noite faziam.
Entretanto, aquela noite a lua parecia mais perto e sua luz iluminava mais o campo tão agradável daquele belo trigo.
E o homem observava que uma luz mais se aproximava, ficou em dúvida se era mesmo a luz da lua.
Procurou firmar os olhos, mas o brilho aumentava e não mais pôde continuar.
Os cachorros estavam a seu lado, mas o homem não mais com eles.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:41 pm

O semeador do campo dourado havia partido para cuidar de outros campos.
Certamente um bom vizinho de longa data cuidaria dos dois cachorros.
O trigal, de alguma forma, continuaria a produzir e a alimentar gratuitamente as crianças das escolas, os doentes dos hospitais, os presos da cadeia, os idosos dos asilos e algumas famílias desprovidas na cidade, como até agora o senhor fizera por sessenta e cinco anos, desde os seus vinte anos na juventude.
Depois de perder a família, ele não desperdiçou nenhum dia sequer.
Trabalhou muito em todos eles. Trabalhou com a disciplina que somente o amor e a sabedoria são capazes de desenvolver, são capazes de despertar no espírito a sua verdadeira consciência de progresso que não consiste apenas para a individualidade, mas para o progresso colectivo.
Em um singelo escrito registrado no cartório da cidade havia o seu pedido:
“Que o campo de trigo dourado possa continuar a levar vida a tantas vidas necessitadas.”
E o cortejo reuniu boa parte dos habitantes do local, pois quantos alunos se formaram, doentes melhoraram, quantas pessoas de toda sorte foram beneficiadas pela alimentação daquele trigo e, por conseguinte, todos os parentes e amigos dos beneficiados acompanharam também o cortejo.
De facto, o semeador do trigo dourado continuará a ver a luz em seu caminho.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:41 pm

Os desenhos de Apolline
Quando ouvia o sino da matriz, principalmente, às dezoito horas, quando saía da escola e já havia cumprido o compromisso escolar, seu batimento acelerava como um despertar no tempo actual talvez por algum facto do passado, mas o coração de oito anos de Apolline era ainda tão jovem.
E o sino batia quando ela passava em frente à igreja na volta para casa.
De segunda à sexta era assim.
Nos fins de semana, ou se estava brincando ou fazendo a tarefa, parava, fechava os olhinhos e ouvia o som. Isso acontecia desde que a menina era bem mais novinha.
Os pais achavam graça, porém, era tão profundamente que Apolline sentia.
Começou, há pouco tempo, desenhar uma casa com arquitectura mais antiga; a menina desenhava muito bem.
Depois vieram o jardim, o campo de flores em volta que se estendia a alguns quilómetros, os animais - quando desenhou um pequeno cachorro branco, a menina sorriu -, até que começou a preencher o desenho com algumas pessoas.
Após a casa, vieram vários quadros de desenhos. A sequência desenvolvia-se cada dia um pouquinho.
E o tempo passava.
Até que num sábado de manhã, depois de ter ouvido o sino tocar às dez horas, Apolline veio até a cozinha onde os pais estavam e disse-lhes que gostaria de mostrar-lhes os desenhos, estavam terminados.
Os pais sorriram e pediram-lhe que os trouxesse.
A menina, como um corisco, foi buscá-los em seu quarto.
Pegou as várias folhas desenhadas, organizou-as apoiando-as na escrivaninha e, como um raio, voltou à cozinha.
Os pais estavam sentados à mesa aguardando-a.
A filha colocou as folhas sobre a mesa.
Eles sempre lhe deram muita atenção e amor.
Como as folhas estavam sequenciadas, à medida que eles fossem passando-as uma história começava a ser criada.
Desde o primeiro desenho, os pais se surpreenderam com o que viram.
Os detalhes eram muito encantadores e, ainda nas primeiras folhas, os pais já haviam desmanchado o sorriso e uma surpresa bem definida estava no semblante do casal.
O que os surpreendeu era a própria época, há uns cem anos.
Aquela arquitectura, detalhes, cores, eram os mesmos questionamentos que os dois faziam mentalmente.
E a filha passava-os e explicava-os com a desenvoltura de quem sabia, de facto, o que estava fazendo.
E a pequena apontava algumas partes e lhes trazia as explicações.
Foi um total de quinze folhas desenhadas.
A surpresa no olhar dos dois era evidente, pois estavam com os olhos arregalados e quase não piscavam.
E passaram todas as folhas até chegarem à última.
No fim desta, ao lado direito, estavam duas letras, poderiam ser as iniciais de algum nome ou informação.
E o pai não perdeu tempo e logo lhe perguntou qual era o significado.
A filha não tinha argumentações prontas nem convincentes, apenas falou com sinceridade que quando terminou os desenhos apenas fez, com muita rapidez, as duas letras.
Após a resposta, o pai, simples, mas com gosto e certo entendimento por desenhos e arte, lembrou-se de que havia folheado, numa livraria, um dia desses, um livro de grandes arquitectos dos séculos XIX e XX e uma das obras arquitectónicas apresentadas era de uma famosa arquitecta que assinava o esboço e suas obras com as mesmas letras e caligrafia com que Apolline fizera.
Os três ficaram quietos ora olhando-se, ora olhando o desenho.
O sino tocou mais uma vez no horário do meio-dia.
Ainda nesse livro, estava escrito que a mesma arquitecta amava o som do sino e adorava seu cão branco, companheiro e tão querido.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:41 pm

Uma estrela sob o céu
O chão era de terra não só ao redor do casebre, mas em quase toda a cidade, só mesmo bem no centro da cidade havia calçamento, e também era sujo de terra.
E no casebre número dezassete morava Shaira, uma menina africana de doze anos.
Mais cinco irmãos, uns maiores e outros menores que ela, sua mãe e a avó materna também dividiam o local suspenso por frágeis estacas de madeira velha.
Esse era o cenário de quase toda a cidade, com excepção do centro que era calçado e possuía construções de comércio e alguns estabelecimentos necessários para o funcionamento de uma pequena área de civilização.
A mãe trabalhava numa fabriqueta de costura.
Cumpria quase doze horas diárias de trabalho para manter a comida para a família, uma mistura de farinha com água mais alguns legumes era prato rotineiro.
A avó fazia uns bolinhos típicos da região a fim de conseguir um pouco de dinheiro para algum remédio ou comprar algo de quase tudo que lhes faltava.
Shaira era diferente dos outros irmãos e das crianças que por ali viviam.
Era mais quieta e muito observadora.
E adorava olhar para o céu quando a noite começava a chegar.
Ficava encostada, se a deixasse, por horas, no batente da única porta do casebre e olhava tanto para aquele profundo céu com estrelas.
Não se encantava muito pelas brincadeiras comuns do lugar.
Mas ao mesmo tempo era cheia de ternura e muito carinhosa com sua família.
A avó muito a observava.
Era uma senhora simples que exageradamente já havia trabalhado em sua vida.
Desde criança era entregadora de água, ou seja, ela ia até a fonte, um lugar bem distante, enchia latas grandes de água e trazia para as pessoas que tinham alguma moeda para lhe dar.
Com esse trabalho criou a filha e ajudou a criar os netos, mas ultimamente sentia, com dor e desconforto, o excesso cometido ao corpo ao longo dos anos.
E os bolinhos agora podiam ajudar a renda.
E a avó perguntava para Shaira:
- Minha neta, o que tanto olha para o céu?
- Eu gosto muito do céu, vó - simplesmente a menina respondia e continuava com o olhar compenetrado.
A avó a olhava um pouquinho mais e voltava para os afazeres.
Durante o dia, Shaira ia à escola, ajudava em casa.
A magia começava com o início da noite e continuava noite adentro, mas às dez horas já estava na cama junto com todos os irmãos.
A menina gostava muito de cantarolar uma música folclórica da região.
Eram assim os versos que ela sempre repedia:
“E um dia, quando for forte e grande, terei condições de salvar meu povo e subir para o céu”.
Naquele dia, última sexta-feira do mês, Shaira voltou da escola em companhia de seus irmãos e alguns coleguinhas, como sempre fazia.
Quando ela e os irmãos chegaram, a comida estava pronta, a mistura de farinha com água mais alguns legumes; a avó é quem preparava, pois a mãe trabalhava na fabriqueta quase doze horas por dia.
Depois de lavarem as mãos, as crianças se sentavam num banco de madeira que havia no casebre.
A avó lhes servia um prato de comida para cada um.
Sem falatório, nem boca aberta, as crianças e a avó comiam com calma e muita educação.
Esse comportamento era natural naquela família.
Quando muito, durante a refeição, uma ou outra criança compartilhava algum acontecimento.
Alimentados, então era hora de cada um fazer o que deveria.
E Shaira sempre lavava a louça do almoço.
Assim também fez naquela sexta-feira.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:41 pm

E depois da tarefa feita, ela pediu à avó se poderia ir à casa de uma amiga para as duas fazerem o trabalho da escola.
- Sim, minha neta.
Mas tome cuidado - falou a avó.
A menina deu um beijo no rosto da querida senhora e nos dos irmãos que ali estavam, pois dois deles já haviam saído para brincar.
Pegou o material e foi para a casa da amiga.
O trabalho escolar consistia em criar uma poesia e declamá-la no dia da grande apresentação da escola.
Alguns países fizeram uma aliança cultural, cujos vencedores das escolas participantes viajariam para um país europeu e apresentariam as poesias.
Então, Shaira chegou à casa da amiga Malika, que vivia numa situação financeira um pouquinho melhor.
As duas eram muito amigas e decidiram se reunir para se ajudarem com o propósito da criação da poesia.
Sentadas à mesa, com lápis na mão e papel à frente.
Só faltava mesmo a inspiração.
As duas começaram a rir.
A graça de criança.
- Mas, Malika, precisamos ter ideia… precisamos saber sobre o que vamos escrever - Shaira falou.
- É mesmo. Precisamos escolher o que queremos escrever - pensou um pouco.
- Será que podemos colocar sobre qualquer coisa? - a amiga perguntou.
- A professora falou que sim, mas que precisa ter sentimento, porque poesia não existe sem sentimento - Shaira relembrou o que a professora havia explicado.
E aquela tarde foi a primeira das cinco que as duas se encontraram para tentar escrever a poesia.
Malika finalmente escreveu sobre o amor que sentia por seu cão vira-latas de olhos cor de mel.
Ela o amava, então, descreveu esse sentimento com simples e verdadeiras palavras.
No entanto, Shaira, na véspera do dia da entrega da poesia, ainda não havia terminado e muito menos poderia declamar algo que ainda não existia.
Ela se despediu de Malika que lhe falou:
- Shaira, podemos dizer que escrevemos juntas a poesia e pedimos para declamar.
O que acha?
Shaira a escutou com carinho e lhe falou:
- Malika, a professora disse que cada um precisa escrever a sua própria poesia.
Desse jeito, nós duas ficaremos sem nota… e você já escreveu a sua… que ficou linda - Shaira falou com a delicadeza que lhe era tão própria.
- Gostaria que você já estivesse escrito uma bela poesia - Malika falou.
- Sim… - Shaira falou meio desanimadinha e logo foi embora.
Ela estava esperançosa que durante o caminho de volta tivesse uma ideia que a ajudasse com a poesia, mas ela chegou ao casebre e nenhuma ideia havia surgido.
E mais uma vez, Shaira chegou e ajudou a avó.
A menina estava preocupada com o seu dever poético.
Terminada a ajuda, a menina foi admirar as estrelas.
Seus olhos brilhavam com o encanto do céu.
Mais do que nunca, ficou estática a buscar o entusiasmo criador.
Precisava escrever uma poesia; a inspiração começou a surgir.
A menina, sem perder tempo, correu para o papel e o lápis.
As palavras começaram a formar os primeiros versos, melodia, cadência, estrofação, tudo sem conhecimento de estrutura poética, mas com inteiramente o caminho do coração.
Shaira começou a organizar o que já existia em seu sentimento, simplicidade foi dando forma.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:42 pm

E não parou de escrever até colocar o ponto final no último verso.
Soltou o lápis sobre o papel.
Os irmãos, aquela noite, estavam mais calminhos.
Pegou o papel e leu a poesia.
Após a leitura seus olhinhos estavam marejados.
Leu a sua própria emoção.
Mas logo se lembrou de que não bastaria escrever, era necessário memorizar a poesia para, no dia seguinte, declamá-la e garantir, pelo menos, alguma pontuação para a nota final.
Sua família já estava dormindo.
A avó e a mãe não se importavam em deixar uma luz acesa, pois sabiam do trabalho escolar.
E, com determinação, a menina conseguiu, por mais uma hora, ler e tentar gravar a poesia; em seguida o sono e cansaço foram mais determinados que a jovenzinha.
Novamente o sol nasceu e o dia da apresentação chegou.
A ordem para declamar seguia o livro de chamada.
Shaira seria uma das últimas e, sentadinha, aguardava a sua vez na humilde sala de aula.
Alguns alunos eram mais aplaudidos que outros; finalmente chegou a vez da menina que se levantou e foi para a frente da sala. Levou a poesia escrita no papel que a criara.
Ela sabia que não poderia ler, mas foi mais por segurança.
Um pouco tímida, começou.
Não houve um barulhinho sequer durante a apresentação.
Quando terminou, os aplausos foram muitos.
- Que poesia linda, Shaira – a professora falou.
- Obrigada, professora – a menina agradeceu.
- Adorei, Shaira – Malika abraçou a amiga.
Eu estava triste por você, ainda ontem, não ter conseguido…
Que bom… você conseguiu! - Malika falou muito feliz.
- Sim, Malika, também estou muito feliz.
Escrevi o que eu estava sentindo - Shaira falou.
E por ser tão simples e sensível, a poesia de Shaira foi escolhida, entre as dos alunos da escola, para a declamação em um país europeu.
A menina, na companhia dos colegas e irmãos, voltou saltitando de alegria para casa.
Também levou um pedido solicitando, no dia seguinte, a presença do responsável para as determinadas explicações e a autorização para Shaira poder participar do evento cultural em um país europeu que custearia todos os gastos.
Seria também uma preciosa oportunidade para a menina conhecer novos lugares e pessoas, oportunidade até de iniciar uma nova vida.
No dia seguinte, a avó, com a procuração, chegou à escola na companhia da menina; a mãe não pôde comparecer, pois trabalhava quase doze horas diárias.
O professor, que também acompanharia Shaira, explicou à avó como seria a viagem, quanto tempo ficariam e o mais importante, além de todo gasto ser pago por um país europeu, a aluna receberia uma quantia em dinheiro pela participação.
E a avó foi embora; Shaira ficou na escola.
Mais tarde, o professor daria entrada à documentação necessária.
Como a cada dia tanto se resolve, após alguns amanheceres, chegou a manhã da viagem.
A pequenina, com sua avó e irmão, chegou à escola um pouco adiantada do horário marcado.
A despedida foi emocionante.
Shaira nunca havia ficado distante de sua família… de sua avó querida.
Mas eram apenas alguns dias e por um motivo tão feliz: a sensível poesia.
E lá no alto, o avião já recebia de mais perto os dourados raios solares.
A menina estava sentadinha ao lado do atencioso professor e de uma professora acompanhante.
Mais algumas horas e o avião tocou o solo em outro país, continente, com distinta cultura e valores.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:42 pm

Passada a noite, Shaira e os professores, após um delicioso café da manhã no hotel, foram levados ao maior colégio da cidade, onde aconteceria a apresentação com vinte alunos vencedores de diversos países.
O teatro do colégio estava lotado.
Vários alunos já haviam recitado quando Shaira foi apresentada.
- Recebam, com uma salva de palmas, a querida africana Shaira – foi o anúncio final do apresentador.
Shaira entrou no palco.
O público se aquietou.
A menina de doze anos estava diante de uma enorme plateia.
Então, ela respirou fundo e começou a declamar sua poesia.
Ela, assim, delicadamente começou:
“Gostaria tanto de pegar uma estrela do céu.
Mas pensei… se eu pegá-la, uma estrelinha deixará de brilhar, pois em minha mão não é o seu lugar.
Gostaria de ser uma estrela… uma estrela azul, poderia ver meu povo do alto; mas se fosse assim, estaria longe e não poderia ajudá-lo.
Gostaria de ser uma colorida borboleta para voar por todo os espaços e ver do que meu povo mais precisa, mas eu seria muito frágil para ampará-lo.
Poderia, então, ser uma linda flor perfumada para ajudar as pessoas a se sentirem melhor.
Mas uma flor tem vida mais curta e não poderia ajudar muitas pessoas.
Então, posso continuar mesmo a ser…
Shaira, uma menina africana de olhos verdes, pois crescerei e o brilho das estrelas iluminará meu caminho; como a borboleta, terei sabedoria para ir por todos os lados e serei doce como a flor para conversar com meu querido povo e entendê-lo.
Somos o que devemos ser, mas podemos nos melhorar sempre”.
O público começou a se levantar antes mesmo de a menina terminar sua declamação.
Algumas pessoas se encaminharam para os corredores.
E quando a menina, magrinha e muito simples terminou, ficou um pouco envergonhada no palco, sozinha.
Em segundos, os aplausos aumentaram.
O público do corredor queria estar mais próximo da menina africana de olhos verdes e não ir embora por estar desinteressado.
O som das almas e assovios aumentavam a cada segundo.
Aqueles olhos verdes estavam brilhantes da lágrima emocionada.
Abraços e cumprimentos, Shaira perdeu a conta de tantos que recebeu.
E mesmo com a apresentação posterior dos outros alunos, foi Shaira quem levou o troféu por sua linda poesia.
Estava muito feliz, pois além de tantos bons momentos durante a viagem, ela receberia um prémio em dinheiro e poderia comprar coisas muito necessárias para sua família, inclusive, o primeiro bolo de aniversário para sua avó que em três dias completaria setenta e dois anos.
Shaira, na verdade, já era uma estrela, uma flor e uma borboleta, pois irradiava luz, era profundamente sensível e também de uma grande sabedoria, a de amar e tanto querer ajudar o seu povo.
E lá do céu, a menina enxergava o pequenino universo onde morava.
Estava cheia de planos. O avião aterrissou.
Os olhos verdes da menina se encontraram com sua família e seu povo.
As estrelas do céu brilhavam forte depois de um dia de sol.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:42 pm

O caminho até a pedra branca
Ren sempre passava, ao fim da tarde, pelo mesmo caminho entre as árvores, arbustos, flores, o lugar próximo de onde morava.
Era no pé de uma montanha bastante conhecida no Japão, mas o povoado era acanhado.
O menino saía de sua casa por volta das quatro e meia e até chegar ao local destinado gastava cerca de quinze minutos andando por parte da pequena floresta.
Antes desse compromisso diário, Ren fazia uma higiene básica, lavava os braços, rosto com a água fresca tirada das fontes naturais, penteava o cabelo e se olhava para verificar se a roupa surrada estava limpinha.
E o menino seguia.
Nesta tarde alguns chuviscos caíram, mas a claridade de alguns raios de sol ao fundo do horizonte prevaleceu.
A passagem da primavera para o verão favorecia esse momento.
Ele conhecia muito bem por onde passava e por isso ia pela trilha mais segura.
Durante o caminho, seguia com seus pensamentos, parecia uma meditação.
O menino ia ao encontro de algo realmente importante, compromisso com o coração.
E percebia as flores que acabavam de se abrir, algum galho caído que no dia anterior não estava, novas plantinhas crescendo, a posição que os raios de sol desciam, para qual direcção o vento gostoso soprava.
Ren apreciava tudo o que merece apreciação, aprendera com sua mãe.
E o caminho, mais uma vez, havia sido percorrido.
Uma clareira se fazia vista.
Ele chegou, parou, passou a mão no rosto e tirou o suor em forma de gotinhas, secou a mão na lateral da camiseta limpinha e surrada.
Deu um sorriso calmo e feliz.
Com tranquilidade, aproximou-se de uma pedra bem clara, passou suavemente a mão e sentou-se ao lado.
- Hoje é o seu aniversário - disse o menino.
Ele sorriu e uniu as mãos ao peito.
Falava palavras bem baixinho com os olhos fechados e terminou com a prece como todos os dias.
Ren sentia-se em paz e feliz com aquela tão maravilhosa companhia.
Abaixou a cabeça em sentido respeitoso e despediu-se.
O sol começava a querer descansar devagar.
Quando o menino se virou para voltar, percebeu que seu pai o observava.
E o pai sorriu.
- Vamos, filho!
Ren sorriu.
Os dois começaram o caminho de volta para casa.
Naquele dia, completaram-se dois anos do ocorrido com a mãe do pequeno Ren.
E não houve como evitar.
O mesmo dia do nascimento também fora o da sua partida.
Mas o menino preferia lembrar o dia do aniversário de sua mãe e não o da despedida, porém, as visitas diárias celebravam o encontro, por um tempo, entre mãe e filho.
E ele a visitava desde o dia após o enterro do corpo de sua mãe ao lado da pedra clara em formato de coração.
- Papai, mamãe estava mais feliz hoje.
- Sim, Ren.
Mamãe está a cada dia se recuperando no céu… e quando ficar bem, flores brancas nascerão ao lado da pedra clara e ela correrá para o jardim das lindas flores.
O filho sorriu mais uma vez.
De longe o pai não percebera, mas o menino vira pequeninas flores brancas brotando ao lado da placa no chão com as seguintes palavras:
“Aqui está o corpo de minha mãe, mas ela inteira está no meu coração.”
Pai e filho chegaram a casa, e mesmo com alguns pingos de chuva à tarde, as estrelas já iniciavam, bem ao longe, o lindo brilho no eterno céu.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:42 pm

O menino e o horizonte
Pode ser que o domingo seja dia de passeio somente no planeta Terra, pode ser que seja dia de passeio nos outros planetas também.
Como domingo, ainda na Terra, é dia de muitas brincadeiras, comida mais elaborada, sobremesa mais gostosa, é também dia de montar casinha para as meninas e jogar futebol na pracinha para os meninos.
E foi exactamente o que aconteceu.
Por volta das três da tarde, Gabriel foi em direcção à pracinha onde se encontraria com os outros meninos, os amigos de futebol.
De longe, já viu a bola voar pelo céu; o aquecimento começara.
A trupe era de oito a dez meninos com idade entre dez e doze anos.
Eram meninos simples.
Suas famílias não tinham muitos recursos financeiros, mas tinham muita disposição para o trabalho e para o ensino dos bons costumes para os seus filhos.
Todos estudavam na pequena escola do bairro que, por não ser muito grande, podia ser bem cuidada.
Mas era domingo, era dia de brincar e início das férias.
Somente na volta às aulas eles se lembrariam da escola bem cuidada do bairro.
E a trupe estava muito animada, cheia de alegria e muita graça, mas depois do aquecimento, a condição era outra, ou seja, muita concentração para o jogo de futebol.
Naquela tarde, havia apenas nove meninos.
Faltava um para formar dois times de cinco e sobrava um para dois times de quatro.
Nenhum queria ficar de fora.
Grande dilema.
O tempo passava, até que um menino veio se aproximando da pracinha e chegou aonde os outros estavam.
Imediatamente uma pergunta surgiu:
- Quer jogar?
Um pouco desprevenido, mas o menino respondeu:
- Sim, eu quero.
- Pronto. Tudo resolvido – Gabriel, o capitão do time azul, falou.
Também havia o time laranja, cujo capitão era Fernandinho.
Pronto. Dez meninos.
Cinco para cada lado.
- Qual é o seu nome? - Gabriel perguntou ao desconhecido garoto.
Os meninos estavam por perto, pois também queriam conhecê-lo e saber o seu nome.
Curiosidade: característica imprescindível do ser humano.
O menino demorou um pouco para responder, parecia pensar antes ou, então, não ter compreendido.
Mas, enfim, falou:
- É… Amadeo.
Os meninos nada comentaram, mas a indagação dos olhares era a de que ainda nunca tinham ouvido esse nome.
O que importava era o número igual de jogadores para os lados e se ele, Amadeo, fosse bom de bola, poderia até tornar-se um do time e, o melhor, tornar-se amigo da trupe.
O novo participante ficou no time de Gabriel, time azul.
Não havia árbitro, quem advertia as jogadas mais perigosas ou inadequadas, eram as gargantas do time adversário.
Uma gritaria só, então, sabia-se que algo havia sido irregular.
O jogo começou.
Como goleiros, eram os meninos não tão espertos para a corrida e nem muito magrinhos, mas com concentração e agilidade para esticar os braços.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 18, 2018 8:43 pm

Todo início de jogo é uma correria só; todos estão entusiasmados e descansados.
Amadeo ainda não havia se destacado em nenhuma jogada, só fizera mesmo o trivial.
Os garotos do time azul não estavam tão contentes com o novo companheiro; eles esperavam jogadas mais incríveis, golos a mais e uma vitória inesquecível com a ajuda de Amadeo.
É, não estavam muito contentes, não.
Até que, de repente, ele, o novo companheiro, fez uma jogada extraordinária, pareceu flutuar sobre a bola e, em vez de ir para o lado mais esperado, fez um drible muito diferente de tudo o que os outros já tinham visto pela televisão.
A comemoração azul foi intensa, quantos abraços, risadas e o grito uníssono.
“A… ma… deo…” repetidas vezes.
Quanto ao time vermelho, ficou de boca aberta com o incrível drible.
E Amadeo recebera muitos abraços, toques na cabeça e tamanha vibração.
E os meninos compartilhavam o momento como se há muito se conhecessem, com naturalidade e carinho.
Até quando se via o brilho do sol, também poderia ver-se a brincadeira na pracinha, mas do finalzinho da tarde para o início da noite é questão de alguns segundos e de repente a noite está formada.
Mas antes de isso acontecer, para evitar as broncas de mãe, os meninos foram logo se despedindo e cada um buscou o caminho de casa.
Na verdade, um deles, não.
Amadeo não tinha casa para voltar.
E os outros, tão preocupados em não levarem bronca nem se deram conta do novo colega.
Amadeo foi distanciando-se pela rua escura; quem olhasse de longe poderia perceber um contorno iluminado suave em seu corpo.
Talvez não mais voltaria àquela cidade, muitas outras o aguardavam e seguiu para um certo tipo de luz que o esperava.
Chegou e em instantes tudo desapareceu pelo horizonte.
Mas olhos sempre existirão a observar.
E os olhos de Gabriel assistiram a todo esse momento de Amadeo, da simples janela de seu quarto.
Esses olhos observaram o sumiço do brilho no infinito céu.
No entanto, quem fora observado também podia sentir de onde vinha a observação e Amadeo, com uma roupa diferente, não mais vestido de aspirante a jogador infanto-juvenil de futebol, visualizou mentalmente a imagem do capitão do time azul, olhando pela janela.
Mas o menino precisava continuar seu destino.
Uma viagem sem nome, roteiro, nem objectivo ainda e inexplicável para o menino Gabriel que ficou mais uns instantes olhando pela janela até perder o foco da pequena luz entre os tímidos brilhos nascentes das estrelas no fundo azul-escuro do céu.
Com todas as perguntas e a curiosidade latejante, mesmo assim, não havia muito o que fazer.
Como Gabriel poderia explicar?
Pensaria em um caminho ou esqueceria tudo aquilo, se bem que em alguns segundos nem ele próprio saberia afirmar a verdade plena da ocorrência.
Encostou a janela.
O novo amanhecer não fora como os antigos, ou melhor, os comuns amanheceres antes do anterior anoitecer.
O sentimento do capitão do time azul era drasticamente incomum; o menino sentia como se algo fora roubado de si, estava ali mas incompleto… não sabia o que havia ocorrido, nunca sentira essa sensação.
Tentou começar um novo dia como os comuns que já havia vivido; no entanto, como viver se algo lhe falta para estar vivo e, ainda, não compreender sequer um pequeno início do que poderia estar acontecendo.
As férias mal haviam começado e toda euforia e entusiasmo pareciam ter ido embora com a luz do dia anterior…
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:39 pm

Como entender?
A mãe logo percebeu a mudança.
- Tudo bem, Gabriel?
Parece que está em outro mundo hoje!
O que aconteceu? - a mãe, preparando o ralo café da manhã para o filho, perguntou.
- Hã…? Também não sei, mãe.
Estou desanimado… sem vontade de brincar…
O menino, sentado, falou escorando a cabeça na mão direita, cujo braço, escorado, estava na mesa rústica de madeira.
O pai já tinha ido trabalhar, estavam apenas mãe e filho… e também o cachorro vira-latas chamado Sabugo que observava o andamento da conversa da varandinha da cozinha.
A mãe observou o filho, todos os detalhes, pois mãe é expert em filho.
Fez algumas perguntas e pôde constatar que estava triste, talvez nunca vira o filho com tamanha tristeza.
Então, continuou com algumas perguntas até o filho, que muito confiava em sua mãe, contar-lhe todo o ocorrido do dia anterior.
O início da brincadeira com o futebol, o novo menino a participar, a hora de voltar, até aqui realização normal.
Quando o filho contou sobre o menino Amadeo e a luz, ela compreendeu, inexplicavelmente, o profundo sentimento… toda a sensação que o filho estava sentindo.
E pensava como algo poderia ser tão intenso e tão sem explicação.
E como poderia ajudar o pequeno e a quem poderia recorrer?
Enquanto isso a tristeza assolava o menino.
A sensação que, com muita dificuldade, recebeu uma nominação foi a palavra saudade proferida pela voz fraca de Gabriel.
- Saudade… saudade – ele falou duas vezes
- O que, meu filho? - a mãe logo perguntou e sentou-se à mesa.
- Saudade…
- De quem? Do quê? - ela novamente logo perguntou.
- Penso em Amadeo e em seguida vejo um campo lindo molhado de chuva e sinto um vento muito frio… mamãe, será que estou ficando louco?
- Filho meu, não pense assim!
Eu não tenho muito estudo, mas ouvi falar que existem outros lugares com vida… outras maneiras de viver ? a mãe tentou explicar.
- Não entendi, mãe - o filho respondeu.
- Também não sei explicar muito, mas li alguns livros sobre a continuação da vida em outras formas.
- Entendi menos ainda, mãe.
- Certo dia, abri um livro explicando que em muitos outros lugares também vive alguém.
Como em outros planetas, planos, mas não sei bem explicar.
Não somos sós.
E que alguns podem nos visitar por possuírem pouco mais evolução… não sei bem, filho - a mãe se esforçou, porém, não foi capaz de esclarecer muito.
Os olhos do menino olharam os da mãe; um discreto sorriso sem graça apareceu no rosto do filho.
Há momentos e factos cujas explicações não são capazes de esclarecerem, mas a atenção e o carinho podem muito ajudar.
E foi o que aconteceu.
Com esforço, Gabriel comeu um pouquinho para ver a alegria, pelo menos, nos olhos da mãe.
Talvez tivesse crescendo e conhecendo as dores da vida, mas o motivo era irrisório para isso; certamente, não seria.
Gabriel recusou também o jogo de futebol na tarde do dia.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:39 pm

Embaixo do pé de laranjeira, no quintal, aguardou mais um entardecer, pois foi o momento do ocorrido no dia anterior, estava esperançoso que neste pôr do sol teria a resposta para tudo aquilo.
Correu para dentro de casa e foi para seu quarto no mesmo horário, buscou a mesma posição e através da janela olhou para o infinito horizonte implorando por uma explicação.
Os olhos não piscavam e a ansiedade por uma resposta era mais alta que o silêncio cinza do quarto.
Os minutos se passaram e o tempo avançou, nada aconteceu.
O desânimo abraçou o menino e a tristeza invadiu-o.
Como poderia viver daquela maneira para sempre?
Seu sentimento estava profundamente doloroso.
A mãe, no decorrer dos dias, não sabia o que fazer.
Então, o filho não quis mais sair do quarto, também não fechava a janela; o horizonte era a única direcção de seu olhar.
Uma saudade o imobilizou, não se levantava mais da cama.
A tristeza na mãe não havia como aumentar.
O pai simplesmente trabalhava.
Quando se completaram dezassete dias, uma voz chamou, pela porta da cozinha, o nome Gabriel.
Era o doutor Apolónio, senhor de próximos setenta anos.
O pai, com sacrifício de dinheiro, pagara uma consulta para o filho.
O doutor entrou no quarto, acompanhado pela mãe do menino, observou e consultou de maneira criteriosa, e não encontrou nenhum vestígio de enfermidade física.
A mãe, em silêncio, ouviu as explicações do doutor e em seguida acompanhou-o à porta.
No dia seguinte, o padre foi chamado.
Entrou no quarto, onde o menino, tristonho, estava deitado.
O homem humilde e amoroso fez suas orações e consolou a mãe, entretanto, não havia mais o que fazer; ela também o acompanhou até a porta.
Passados dois dias, os amigos de futebol foram visitá-lo, mas os olhos tristes do menino não se alegraram; a mãe, mesmo assim, serviu bolachas de maisena com leite gelado aos meninos.
No outro dia, um pastor da igreja da rua detrás também veio para ajudá-lo.
Teve boa vontade, mas deixou o menino como o encontrou.
A mãe não sabia a quem mais recorrer e o filho, desfalecido, encontrava-se na cama simples.
Completaram-se trinta dias; exacto, um mês.
E como as conversas correm pelo vento, o ocorrido foi parar do outro lado do grande rio, num povoado antigo de cultura milenar.
Naturalmente, os acontecimentos nunca chegam aos ouvidos, de facto, como aconteceram, ou se apresentam muito a mais, muito a menos ou totalmente distorcidos.
E naquele povoado havia um homem com sabedoria; na verdade, ele era mais conhecido como bruxo do povoado.
Um bruxo é assim denominado quando conhece algo a mais, dizem ainda, sobrenatural.
Mas o próprio bruxo ri disso tudo, pois se existem inúmeras e imensuráveis coisas na vida, tudo, então, tende a ser simplesmente natural.
No entanto, o homem se comoveu, atravessou o rio e buscou a casa do menino Gabriel.
A mãe, surpresa - pois o bruxo do povoado raramente saía de sua casa, atendia, em sua choupana, quem o procurasse -, recebeu-o com grande respeito como todos os que visitaram o filho, acompanhou-o ao quarto onde estava o menino.
O homem, simples, aproximou-se da cama, observou com compaixão o franzino corpo esticado cuja respiração era tão discreta.
O senhor sentou-se na cadeira, que permanecia desde o início do acontecimento, de frente para o menino.
Pegou a mão magrinha e morna, não perguntou nada, pois o que ouvira já bastava.
A mãe também nada falou.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:39 pm

O homem fechou os olhos e segurando a mão magrinha e morna, começou a sentir a sensação do frágil ser.
Sentiu os muitos sentimentos, mas o da tristeza era prevalecente, também pôde ver algo sumindo pelo horizonte e sentir que outro coração também sofria.
Continuou concentrado e pôde, aos poucos, compreender o motivo que fortalecia o sofrimento.
Quando algumas janelas ficam semiabertas na alma, certos encontros, inconscientes, mas de harmonia, amor e sintonia extremos tendem a acontecer e caso não haja oportunidade para os corações caminharem juntos e apenas sentirem a eterna emoção sem o apoio da compreensão racional, as almas podem muito adoecer mesmo em estágios e planos diferentes.
Não importa se o corpo é de criança ou não, o reconhecimento é facto.
E o bruxo, com instrução recebida das gerações anteriores, pôde, mais uma vez, compreender o ocorrido e ajudar outra alma fragilizada.
O entendedor de almas, com ternura que lhe era peculiar, falou as seguintes palavras para o menino na cama:
- Gabriel, acorde e volte para o seu caminho.
Há tanto a ser vivido, construído e tantas pessoas para amar e tantas para o amarem - o homem falava e aguardava alguma reacção do menino.
Você e Amadeo são espíritos milenares… muito já viveram juntos e muito viverão, mas, agora, cada um precisa, em seu plano, realizar o propósito necessário… volte, querido menino, quão maravilhoso é o seu ideal - o homem falou.
Alguns segundos passaram-se, os olhos começaram a querer-se abrir e as mãos mornas e magrinhas fizeram suaves movimentos.
Vagarosamente, Gabriel iniciou o despertamento como alguém que se desperta de um profundo sono.
Abriu os olhos; o bruxo estava sentado com olhar raso de lágrima emocionada e no rosto da mãe, a lágrima emocionada já escorria.
O menino, fraco, deu um leve sorriso e perguntou:
- Senhor bruxo?
O que faz aqui?
- Olá, menino Gabriel!
Vim apenas visitá-lo.
O menino sorriu e agradeceu.
Olhou para a mãe e outro sorriso nasceu.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:40 pm

O mistério atrás da porta branca
Davi tinha nove anos e morava numa casa bem simples num bairro afastado do centro.
Moravam ele, o avô, a mãe e o irmão caçula; o pai vivia em outra cidade por questões profissionais.
Todas as manhãs, Davi ia à escola como as crianças do local.
Próximo do meio-dia, ele retornava à casa com muita fome.
- Mamãe, cheguei – Davi sempre se anunciava.
- Olá, filho – a mãe respondia já o abraçando.
- Oi, vô – ele cumprimentava o avô e o abraçava também.
- Oi, mano – abraçava o irmão.
Em seguida Davi lavava as mãos, tirava o uniforme e vestia uma roupa simples de casa.
A família rotineiramente almoçava junto; o avô explicara que a hora das refeições era sagrada e como eram importantes aqueles momentos.
- Como foi a manhã, filho?
- Foi tudo bem, mamãe.
A mãe não prolongou a conversa, pois percebeu que o filho estava mesmo com fome, depois do almoço, então, conversariam mais.
A mãe sorriu.
O irmão caçula observava e fazia tudo como o irmão, até a forma como Davi pegava os talheres.
E o almoço, mais uma vez, foi muito feliz.
Agora, sim, poderiam conversar mais, pois com “barriguinha roncando não é fácil, não”, o avô costumava dizer.
E a família ficava ali sentada à mesa deixando os minutos passarem com calma.
E a conversa agradável e engraçada acontecia.
O avô amava os netos e olhava para eles com profunda ternura.
Mas o tempo passa e cada um precisa cuidar de seu afazer:
a mãe e o avô, dos afazeres domésticos; Davi, dos escolares e o caçulinha, dos afazeres de brincar.
Davi foi para seu quarto e fechou a porta.
Antes de fazer sua tarefa, como um ritual, sentou-se na cama, fechou os olhos e, com as mãos unidas à altura do peito, começou sua oração.
Em segundos, algumas pessoas apareceram no local e ele, com os olhos abertos, agora, viu-as e sorriu para elas.
Conversavam e, de algumas delas, recebia conselho e muito aprendizado.
Eram seres bondosos e tranquilos, eram seus amigos de verdade.
O avô de Davi já lhe havia explicado sobre este mundo aqui e o mundo dos pássaros, pois o avô lhe dissera que quando as pessoas morrem ficam bem levinhas e podem voar para onde quiserem e, muitas vezes, elas vêm em visita, mas não fazem mal.
E Davi sempre recebia, em seu quarto de porta branca, a visita de pessoas leves como os pássaros voando no céu.
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Ave sem Ninho

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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:40 pm

O pôr do sol da mesma montanha
Tomás era um jovem de poucos amigos, mais por sua timidez que por alguma outra característica insociável.
Tinha formação profissional e já trabalhava.
Acabara de completar vinte e três anos e morava em uma pequena cidade no sul da Itália, o mesmo lugar onde nascera.
Era bem visto, principalmente pelos mais velhos, devido à disciplina e empenho que demonstrava com os estudos e com o trabalho, isso desde criança.
Todos os dias ao fim da tarde quando voltava do “lavoro”, Tomás não resistia ao encanto da “Montanha dos Sentimentos”, como era conhecida aquela montanha.
Era encantada, pois ao assistir ao pôr do sol por detrás dela era como se a mente mergulhasse em emoções, em lembranças que, muitas vezes, não se podiam compreender os acontecimentos nem o tempo no qual ocorreram, porém, um sentimento bastante profundo era sentido nessas ocasiões.
Mas nem todas as pessoas da cidade reconheciam ou admitiam esse facto.
E o jovem, todos os dias, sentia essa emoção a caminho de casa.
Ultimamente, o sentimento se tornara mais intenso e Tomás necessitou buscar alguma explicação.
Na pequena cidade, havia uma livraria que fora passada de geração; única família detinha esse ramo desde há mais de um século.
E foi para lá que o jovem, no sábado de manhã, se encaminhou.
Precisava encontrar respostas para as emoções que o visitavam quando estava de frente para a montanha assistindo ao pôr do sol.
Entrou na bela livraria; não havia muita modernidade, mas o estilo clássico bastava, realmente muito aconchegante e acolhedor.
Passou os olhos pelos livros expostos, era difícil procurar o que ainda não tinha ideia do que poderia ser.
Até que a jovem vendedora veio atendê-lo.
- Bom dia, precisa de ajuda? - a simpática jovem perguntou.
- Bom dia… preciso, sim - ele respondeu rapidamente.
- Procura por algum assunto específico?
- Não sei lhe dizer o assunto específico, mas penso que posso começar lhe explicando o que acontece - ele respondeu.
- Pois, não - a jovem falou e deu um sorriso achando graça pela resposta.
Um pouco sem jeito, ele começou a explicação sobre o que lhe acontecia quando passava, ao fim da tarde, em frente à Montanha dos Sentimentos.
A jovem vendedora ouvia, com os olhos sorrindo, o rapaz, por sentir sua sensibilidade e também por ter ouvido a mesma história relatada por outras pessoas, porém, sem a intensidade com que Tomás lhe contava.
Ele, um pouco tímido, encerrou sua explanação, aguardando o que a jovem poderia lhe indicar para leitura e também se ela faria alguma consideração acerca do relato.
Ela sorriu e lhe pediu:
- Por favor, acompanhe-me.
A jovem vendedora caminhou uns dez passos para o interior da livraria e chegou à seção de livros, considerados por alguns leitores daquela cidade, sobrenaturais.
Antes de escolher o indicado livro, ela olhou para o rapaz para saber sua reacção, pois havia uma plaqueta para cada seção indicando a categoria pertencente dos livros; essa plaqueta estava intitulada com a discriminação com que alguns leitores consideravam o enredo desses livros: sobrenaturais.
Ele olhou, com surpresa, mas manteve o olhar mais interessado que surpreso.
Ela passou os olhos pelo número expressivo desses livros e sorriu quando encontrou o que procurava.
- Aqui está - ela falou e passou o livro ao rapaz.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:40 pm

Tomás o pegou, com delicadeza, observou a capa que, aliás, era uma bela fotografia de flores, diferentes, das que normalmente se viam nos jardins das casas da pequenina cidade italiana.
Agradeceu à jovem vendedora e depois de pagar o livro foi para casa, queria logo começar a leitura a qual lhe poderia esclarecer a questão que o acompanhava.
Chegando a casa, fez, com pressa, algumas tarefas de organização e limpeza domésticas - era sábado, o dia escolhido para essas actividades - para rapidamente começar a leitura do livro que poderia trazer respostas para as perguntas sobre os sentimentos em relação à montanha e ao pôr do sol.
Pegou um copo de água e o livro, encaminhou-se para a poltrona da sala simples.
Sentou-se, bebeu um gole de água, colocou o copo sobre uma pequenina mesa ao lado de onde estava, respirou fundo.
A expectativa era grande. Olhou para a capa e leu o título, “Existências”, e o subtítulo, “A continuada caminhada”.
O rapaz ficou alguns segundinhos olhando para o livro, mas seu coração, muito desejoso, de respostas.
E fez o primeiro movimento para abri-lo e começar sua leitura.
Leu as primeiras informações e verificou que era a vigésima edição; sua expectativa ainda aumentou.
Leu o índice; era tudo novidade, mas sentia, ao mesmo tempo, uma retomada a algo, a algum tempo… local.
Então, começou.
Não era longo demais, o livro continha cerca de duzentas páginas, mas o número diminuía se dispensassem as páginas de informações sobre o autor entre outros esclarecimentos que, normalmente, os livros possuem.
A cada mudança de capítulo, Tomás respirava fundo e mais compreendia.
“Como este livro está me respondendo tantas questões!”, pensava ele.
Ainda se recordava da jovem vendedora da livraria e sorria.
As horas passavam, porém, era como se o tempo inexistisse, somente a leitura… preciosas informações, nada mais.
Quando, crucialmente, Tomás lera a passagem sobre o eterno e profundo amor que, mesmo em dimensões diferentes, os espíritos, de uma forma geral, sentem e os encarnados ainda podem trazer uma saudade inexplicável de lugares e de outros companheiros, definitivamente, o rapaz se identificou e mais lia ininterruptamente as frases, os períodos, os parágrafos e virava as páginas.
Os olhos do rapaz estavam brilhosos e concentrados nas palavras esclarecedoras.
E seu coração mais se sensibilizava e lembranças, como flashes de luz, saltavam à sua mente.
Primeiro vieram imagens mais generalizadas sem detalhes que pudessem identificar coisas, lugares ou pessoas.
A leitura continuava dinâmica e mais informações lhe eram apresentadas.
E outras imagens lhe saltaram à mente, imagens mais nítidas, mais familiarizadas; ele começou a sentir uma emoção intensa e comovente.
A cena com maior clareza foi quando o rapaz viu num quintal simples numa região parecida com a actual.
Havia sua mãe e seu pai, alguns avós, irmãos menores e outros com emancipação natural pela idade. Estavam felizes.
Os olhos de Tomás se encheram de lágrima, pois o jovem passou a identificar as pessoas que se apresentavam em sua lembrança.
Acervo da alma.
Identificou, pelo olhar, uma de suas irmãs que fora a mãe que há poucos meses falecera; o pai tinha os mesmos olhos do irmão mais novo de agora que morava em outra cidade; uma das avós tinha o doce olhar da irmã mais velha que partira em decorrência de uma inexplicável doença.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:40 pm

E a montanha, como em flashes brilhantes, sempre aparecia durante a revelação.
Outros momentos foram resgatados pela lembrança permitida, até que se viu de frente para a montanha e o dourado do pôr do sol iluminava a paisagem.
Observou toda a imagem e o desejo era compreender essa emoção cotidiana do fim de tarde.
Quando, com a mais decidida persistência, viu um casal jovem, deitado, observando os raios de sol se esconderem atrás da enorme montanha.
Firmou seu olhar para identificar quem poderia formar o casal.
Seu coração começou a disparar.
Com esforço conseguiu ver os olhos dos dois jovens.
Com a liberação de toda aquela surpresa, o coração não sabia mais pulsar galopava querendo voltar ao momento de tão profundo amor.
Os olhos do rapaz eram os mesmos de Tomás e os da jovem moça brilhavam com a mesma intensidade que os da atenciosa vendedora da livraria que lhe indicara o livro.
E compreendeu que em todos os fins de tarde o apaixonado casal fortalecia a verdadeira jura com as seguintes palavras:
“Te digo que já és parte de mim e que respiras pelo meu suspiro, que vês pelos meus olhos, e que pulsas em meu coração”.
Espíritos ligados pelo tão profundo e real amor podem trazer consigo as impressões vivenciadas, o sentimento amoroso e a eterna saudade de quem já foi um dia seu bem-querer.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:41 pm

Ouvidos que ouçam a regência da vida
“- Eu estou aqui.”
Tantas vezes deixamos a fraqueza ser mais forte que a fé.
Vêm a dor, o desespero, o desânimo, a vontade de nada mais fazer para progredir.
E o tempo fatigante se arrasta.
Muito comum tudo isso.
No entanto, nenhuma paz se conquista sem o empenho com a vida e o seu nobre reconhecimento. Viver é o maior dom que se pode sentir.
Se as dificuldades existem, também se fazem presentes as suas transformações; se a dor lateja no corpo ou na alma, quer dizer que é o momento perfeito para a reforma dos actos, palavras, sentimentos; se o dia é gris e não se percebe o céu azul, libere o franzimento do olhar para que a linda paisagem possa ser vista; se a fria solidão é a maior companheira, abandone-a para ter companhias mais bondosas e amáveis; se o turbilhão habita no interior, silencie-o com a simples prece de coração.
Para toda dor existe o remédio ideal e o mais eficiente é a compreensão de que tudo deve partir do interno para o externo.
E então a beleza será reconhecida; o amor, exaltado; a mudança, automática; a fé, inabalada.
E os passos abençoados continuarão lado a lado.
Todas as estradas já percorridas devem ser observadas como exemplos vivos; umas dessas nunca mais deverão ser retomadas, outras deverão ser lembradas, ou seja, o que é bom alimenta-se, o que não é que se desmanche com o vento das oportunidades.
E a vida segue… segue com sua naturalidade perfeita: a mesma energia investida é auferida.
Mas somos filhos de Deus e essa dádiva é o tesouro que restaura o nosso ser e um dia poderemos ser como nosso irmão, Mestre Jesus.
O objectivo maior deve sempre ser o nosso melhor, pois só assim conseguiremos, bem devagarzinho, perceber a bondade divina… incomparável Amor.
Olhemos mais as flores nos campos; agradeçamos o ar, a água, a natureza; respeitemos a vida em seus pormenores, amparemos quem precisa e dessa forma sejamos amparados por quem já conquistou um pouquinho mais; sintamos mais os nobres sentimentos e haverá menos espaço para os de pequenez comprovada.
Quando nos importarmos com o que de facto é importante, nosso horizonte será esverdeado e infinito e os passos na areia serão vistos.
O tempo todo há mais a agradecer, o que ocorre, tantas vezes, é a incapacidade de reconhecer o presente e a notável capacidade de avistar a dificuldade em todos os momentos e direcções.
Fragilizar-se nas ocasiões é o mesmo que não aceitar o convite da vida.
Por mais difícil que seja, o amparo já é antes existente.
Se Deus é o Pai, o que se pode temer?
Todo crescimento implica etapas conquistadas, logo, que se deseje seguir, pois senão, o caminho naturalmente nos encaminhará.
E como numa tarde amena e aconchegante de outono, possamos sentir a vida como o vital laranja das folhas, o suave e fresco vento tocando o nosso rosto, a paz de um dia a mais vivido, a companhia dos que amamos e dos que aprenderemos a amar, a tranquilidade do entardecer visto de um parque de tulipas coloridas, como realmente a vida deve ser sentida.
Ainda se aquietarmos a rebeldia do nosso coração poderemos ouvir as doces palavras - “Eu estou aqui” -, frase que ecoa eternamente… frase amorosa de Deus dita por meio da bondade do Mestre Jesus.
E graças a Deus nunca estamos sós, mas acompanhados até a eternidade.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:41 pm

Sob a luz do céu segue o caminho da vida
Quando criança, Cecília era uma menina radiante, espuletinha, dificilmente chorava, só mesmo quando alguma coisa a machucava como o dia em que tentou pular a cerca de madeira entre uma casa e outra e acabou cortando a perna, o que resultou em alguns pontos.
Ou ainda, quando sua melhor amiga mudou-se para outra cidade e, por isso, como Cecília chorou.
Ela não tinha irmãos e seus pais eram bem mais velhos do que os pais dos seus amigos e colegas de escola.
Mas a menina - que hoje já era jovenzinha - amava seus pais do jeito que eram.
E amava ouvir as histórias de antigamente que eles contavam.
Numa noite clara de primavera, cujo céu parecia um jardim de estrelas, os pais e a filha estavam na varanda, sentados, apreciando o belo céu no ritmo das histórias de antigamente.
Numa dessas, o nome Lucila fora mencionado e os pais, nesta hora, olharam-se surpresos.
Tentaram continuar, mas Cecília percebeu a surpresa e lhes perguntou:
- Quem é Lucila?
Os dois, de surpresos, passaram a assustados.
Não deram resposta.
- Quem é Lucila? - a filha insistiu.
- Meu bem… - a mãe tentou começar uma explicação.
Lucila era uma jovem que morava perto de onde morávamos na cidade do interior.
O pai não falou nada.
- E o que aconteceu com ela? - a filha perguntou.
- Ah, naquela época só me lembro de que ela era uma adolescente e sua família passava muita necessidade.
Algo parecia faltar para a explicação.
Então, o pai começou a contar outra história que recordara, algum acontecimento engraçado da época em que era menino.
Mesmo assim, uma tensão pairou sobre a varanda.
Cecília ficou mais um pouco e foi para seu quarto, adorava ler à noite.
Os pais se entreolharam com sentimento de preocupação.
Ficaram os dois mais um pouco olhando o céu, mas com o pensamento perdido no tempo.
Com passos calmos, Cecília voltou à varanda e sentou-se onde antes estava.
Os dois a observaram e lhe sorriram com os olhos ansiosos.
- Oi, filha - a mãe falou querendo uma resposta.
- Oi, mãe - queria saber alguma coisa.
O pai observou o andamento sem falar nada.
Algo incomodava os três; a filha interessou-se pelo nome.
A luz da lua parecia clarear ainda mais os olhos daquela família.
Cecília aguardava mais algum comentário sobre Lucila.
Os pais vasculhavam com rapidez a mente para logo iniciarem outro assunto, mas outros assuntos não eram interessantes o suficiente para aquele momento.
- Quem era a mãe de Lucila? - a filha perguntou.
Os pais tentaram ganhar tempo para uma resposta.
- A mãe… de Lucila era a dona Anna.
O homem se surpreendeu com a resposta que não deixou de ser verdadeira.
- Anna? E o pai?
- O pai? - a mãe ficou surpresa.
- Sim.
- O pai… se não me engano, era Constantine.
- Constantine e Anna - Cecília repetiu.
E em meio às surpresas da noite, as horas passaram rápido, quase meia-noite.
- Preciso dormir - o pai falou olhando o relógio de bolso.
Ele se levantou e foi para dentro.
Apenas as duas ficaram.
Cecília olhou para a mãe e sorriu.
A mãe foi recíproca.
- Mãe, amo você.
A filha aproximou a cadeira e esticou o braço para pegar a mão já enrugada da mãe.
As duas ficaram de mãos enlaçadas olhando a lua.
Cecília acariciou a mão materna.
E as duas continuaram olhando para a imensidão do céu.
- Um dia posso conhecer quem me gerou e amá-la também, mas meus grandes amores hoje são você e papai.
As mãos ficaram enlaçadas e os olhos, marejados olhando o horizonte, brilhavam com a luz da lua e o brilho das estrelas.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 19, 2018 8:42 pm

Um gatinho branco e outros olhos brilhantes
Naquele domingo de manhã, o sol estava muito radiante e o céu, azul… bem azul - no sábado à noite, uma chuva mansa e demorada caiu para limpar e refrescar.
No domingo soprava um ar fresco; era início de primavera.
Thomas estava na varanda perto da cozinha brincando com um jogo de que os meninos de sua idade gostavam.
Diziam que era um jogo de muita paciência e observação para encontrarem as parecidas peças e desenvolverem a sequência de uma acção, um exemplo de uma seria um menino pegando a bicicleta e saindo para passear.
E Thomas se concentrava.
No entanto, naquele momento, não o suficiente, pois percebeu um gatinho branco passando rápido por ali, mas sem detalhes.
O menino interessava-se muito pelo jogo para deixá-lo e procurar um suposto gato que até poderia ser apenas de sua imaginação.
A sequência de montagem do jogo estava muito interessante e num estágio que Thomas ainda não havia chegado.
E mesmo muito concentrado, percebeu mais uma vez o gatinho, porém, agora o pequeno não passou rápido, veio aproximando-se, com algum receio, e o menino perdeu de vez a atenção pelo jogo e passou a olhar inteiramente para aquele gatinho branco que também olhava para o menino querendo dizer algo, talvez um pedido de ajuda.
O menino olhava para o animalzinho que tinha os olhos com tanto brilho.
Ainda, com certa ponderação, o gatinho deu um passinho para trás.
Mas Thomas falou com ternura:
? Não tenha medo, gatinho.
Só quero conhecê-lo mais.
O bichano virou um pouco a cabeça querendo compreender, ou melhor, já compreendendo pelo tom carinhoso.
E Thomas, devagar, foi conversando e aproximando-se do gatinho branco que deixou o menino aproximar-se.
E Thomas ficou bem perto e poderia fazer um carinho no frágil animalzinho que se sentando permitiu que o menino o acariciasse.
Menino e animalzinho em paz e respeitando-se.
Thomas acariciava com leveza a cabeça daquele gatinho branco e este aceitava com gratidão o gesto.
Porém, o olhar do gatinho dizia mais.
Recebeu, mais alguns segundos, o carinho em sua cabeça, mas, de repente, pôs-se em pé e, como se chamasse Thomas para segui-lo, recuava miando.
O menino simplesmente o seguiu.
Andaram uns minutos; o menino acompanhava o animalzinho.
Thomas morava num vilarejo e toda a redondeza era mais rural que urbana.
E passaram por um sítio e quando começaram a cruzar outro, o gatinho deu uma corridinha para chegar logo, como se chegasse ao local desejado.
Isso mesmo.
O gatinho branco esperou até que o menino chegasse.
Parecia uma pequenina gruta.
Thomas abaixou-se um pouco para ver melhor o que estava dentro e quando olhou bem viu um gato querendo esconder-se, parecia também um gato branco, maior que o gatinho.
O pequenino observou o olhar do menino que não se espantou muito, porém, em segundos esse olhar mudou completamente.
Outros olhinhos começaram a brilhar saindo de trás do gato.
Eram olhinhos diferentes e não eram gatinhos brancos.
Saíram e ficaram à frente do gato que os protegia.
Thomas não acreditava.
Aqueles olhos não eram de gatinhos.
Eram cinco pares de olhinhos de esquilos.
? Nossa! Não são gatos!
O gatinho branco observava o menino.
O gato maior deveria ser a mamãe do gatinho, Thomas compreendeu.
E aqueles olhinhos brilhosos vieram para frente para saber quem os observava.
Curiosidade nata.
Então, era possível entender que a mamãe do gatinho branco estava cuidando dos cinco pequenos esquilos que certamente estavam órfãos.
No entanto, todos, os esquilos e os gatos precisavam de ajuda.
E Thomas, que era um menino e mais capaz que os pequeninos, sentiu a responsabilidade e o carinho em ajudá-los.
Depois de uma semana, também no domingo de manhã, Thomas estava brincando novamente com seu jogo, porém, na companhia de uma corajosa gata mamãe, um adorável gatinho branco e cinco alegres esquilos muito belos e brincalhões.

§.§.§- Ave sem Ninho
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