Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

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Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:22 pm

ATRAVÉS DA JANELA DA VIDA
Cinthia Cortegoso

25 Contos

Sumário

Prefácio
Apresentação


Através da janela da vida
A indígena menininha
Como a branca flor que desperta na primavera
Agustina e o tempo
Enquanto o amor não é sentido
Minhas memórias numa cadeira de balanço
O mesmo trem para o homem e o menino
Os violinos (O luthier)
Um príncipe chamado João
Uma joaninha com asas de borboleta
Os personagens ao longo do tempo
Uma tarde com bolinhos de chuva
Reminiscência
Os moinhos de Anemoon
O semeador do campo dourado
Os desenhos de Apolline
Uma estrela sob o céu
O caminho até a pedra branca
O menino e o horizonte
O mistério atrás da porta branca
O pôr do sol da mesma montanha
Ouvidos que ouçam a regência da vida
Sob a luz do céu segue o caminho da vida
Um gatinho branco e outros olhos brilhantes
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Ave sem Ninho

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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:22 pm

Prefácio
Um conto é uma narrativa com personagem; narrador, às vezes, omnisciente; lugar; tempo; um desfecho a ser seguido, mas antes, um momento crucial no qual situações passam a ser definidas.
Assim, o conto é uma cópia da estrutura do andamento da vida, esta que, tão ricamente, apresenta os mínimos detalhes perfeitamente entrelaçados em seu enredo e um observador Omnipresente e Permanente.
Neste livro, histórias são narradas cujos personagens poderão ser semelhantes aos personagens da realidade ou, pelo menos, várias passagens serem reconhecidas e, com elas, assimilados os exemplos, por conseguinte, aprendizado.
E infindáveis histórias ocorrem e mesmo com todos os contos escritos não seria capaz de relatar os vários andamentos que cada pessoa, ao longo de suas existências, já vivenciou.
E quando se compreende que o acaso não existe, e tempo, lugar, encontros e desencontros, sorrisos e lágrimas não são acidentais, mas tudo à sua devida necessidade, então, começa-se a apreender a grandeza que é a obra de Deus.

Apresentação
Cinthia Cortegoso nasceu em Londrina, no Paraná.
Formada em Letras Anglo-Portuguesas.
Professora de Língua Portuguesa e das respectivas línguas estrangeiras:
Espanhol, Inglês e Italiano.
Colaboradora cultural da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina.
E alguém que se encanta cada vez mais com a vida, ou melhor, com a imensurável grandeza da vida em relação a tempo, espaço, dimensão, estado e tudo o que ainda não é possível compreender e enleva-se com o pouquinho que se conhece e com a perfeição absoluta presente em tudo.

A nós... pois somos os personagens dos nossos contos de vida.
E janelas se abrirão em todo o tempo de vida, e o sol entrará com o suave vento e a luz da lua.
O refinamento virá também.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:22 pm

Através da janela da vida
Certa vez, em meio a uma viagem inesperada, num trem que cruzava pequenos países da Europa, um senhor calmo e observador, de barba rala e crescida, sentado sozinho num dos bancos, olhava através do vidro.
Seu olhar atravessava o tempo, a paisagem e se encontrava no ângulo das somas de sua experiência.
Sem nenhum pouco querer, mas sua postura de sábio senhor despertava curiosidade nos viajantes da mesma hora.
Os que transitavam de um vagão a outro ao avistarem-no, de facto, sentiam enorme vontade de sentarem-se ao lado e poderem conversar.
Não tardou e um jovem rapaz pediu licença e sentou-se próximo ao senhor.
De início, o silêncio foi mais alto, porém em alguns minutos, o jovem começou a relatar a ocorrência em sua vida que lhe trazia amargor.
O senhor ouvia com atenção e após ouvir simplesmente respondeu:
? O amor cura.
Os olhos do senhor se voltaram ao jovem que questionou:
– Só isso que tem a falar, senhor?
O homem ainda olhando ao rapaz, sorriu.
Como o rapaz não ouviu o que desejava, pediu licença e retirou-se.
O senhor sorriu e murmurou as palavras:
Sim, meu rapaz, o amor cura a ferida do orgulho.
E a viagem seguia o curso entre paisagens lindas nas terras europeias.
Como o senhor já fora percebido por muitas pessoas mesmo em sua discrição – toda energia exala sua essência –, uma senhora que observara o ocorrido com o jovem, apesar de não saber o conteúdo da conversa, também se aproximou do homem pedindo licença para sentar-se.
O senhor sorriu levemente e consentiu com a cabeça.
A mulher iniciou com um comentário sobre os campos floridos vistos por grande extensão, no entanto, logo em seguida relatou um acontecimento que a deixara muito infeliz desde então.
O senhor, da mesma forma, ouvia com atenção olhando através da janela.
A senhora desejando um parecer favorável, apenas ouviu:
? O amor cura.
A mulher com um ar impaciente, levantou-se e saiu sem uma palavra.
O senhor sorriu e murmurou as palavras:
Sim, minha senhora, o amor cura a chaga da intolerância.
Antes de chegar ao seu destino, o senhor fora acompanhado, em breves minutos, por várias pessoas diferentes que se retiraram de perto com semblantes ora inconformados e descontentes, ora amargurados e enraivecidos.
Entretanto, para cada visita rápida que recebia, ele apresentava um sorriso bondoso e experiente e murmurava: O amor cura.
Quase próximo à estação final, um jovem rapazinho pediu permissão para se achegar e buscou a mesma direcção que os olhos calmos do senhor já encontraram.
Os dois, tranquilos e em silêncio, olhavam para a paisagem, mas sentiam antes de tudo a essência que a sabedoria da vida insistentemente deseja mostrar.
A diferença de idade era um cisco que não se sente, pois o que sempre importará é a vontade disciplinada em alcançar o que é verdadeiro para o ser imortal.
? O rastelo que livra o campo do capim seco, sufocante e mofado alivia o solo como o amor neutraliza e elimina os secos, infrutíferos e destruidores sentimentos.
– E florescerão sempre as sementes plantadas pelo coração – o rapaz completou.
As luzes da estação já eram vistas.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:22 pm

A indígena menininha
Dily dançava sob os raios do pôr do sol.
Ela dizia que era seu agradecimento por mais um dia maravilhoso.
Na aldeia onde morava, todos agradeciam à natureza… o ar, a água, o fogo, a terra, as flores, as folhas, a comida, os animais, a vida.
Os raios avermelhados do horizonte para a menina, pensava ela, “eram o aconchegante abraço de Deus”.
Os pequeninos pés pisavam a terra e a grama, sentiam a água do rio e as texturas das rochas e dos cascalhos.
Seu rosto recebia o vento formado de liberdade e paz.
Seus olhos podiam apreciar as cores e as suas inúmeras tonalidades.
Seu nariz sentia os cheiros e reconhecia cada um deles desde o início da primavera ao término do inverno.
Definia com precisão as folhas de floresta ao redor da aldeia; conhecia cada pássaro ou animal de porte grande, médio ou pequeno e ainda os nomeava.
Os insectos eram muito observados pelos olhos da menina e com aqueles estes muito aprendiam.
O olhar de Dily era meigo, amoroso e atento.
Percebia quando um animalzinho não estava bem ou uma criança estava triste, quando um adulto estava preocupado com algum problema surgido na aldeia ou se a observação eram apenas acções cotidianas em sociedade indígena.
Passou a interpretar para qual lado o vento soprava, pois, dependendo da direcção do sopro, podia ser chuva calma ou até temporal.
A cada nova descoberta, Dily amava e respeitava ainda mais a natureza.
A pequena indígena aprendia todos os dias.
Mas ela não conseguiu prever nem impedir a desventura ocorrida em sua aldeia:
uma tempestade terrível avassalou todo o lugar e sua família inteira não mais amanheceu no novo dia, não somente os seus familiares, apenas Dily pôde abrir os olhos na manhã após o dilúvio por se esconder dentro de um tronco de uma grande árvore.
E a indígena menininha estava só naquela floresta com fauna e flora tão conhecidas, mas, ao mesmo tempo, numa situação imensamente estranha: sozinha… e ainda tão pequenina.
Começou a observar o desastre no local e seus olhinhos eram muito pequenos para suportarem as lágrimas de tanta dor; a face morena dourada estava tão triste.
A menina encontrou a sua família em corpos sem vida, os amigos, os animaizinhos… mas dor sentida foi quando encontrou o corpo de sua amada avó, sua melhor amiga, quem lhe ensinou quase tudo que sabia, sinónimo de amor e de respeito.
Dily ajoelhou-se ao lado, pegou a mão, que tanto carinho lhe fizera, e beijou-a.
Acariciava o rosto da índia anciã e determinada, mas, também naquele momento, a menina pôde sentir a delicadeza e a suavidade da senhora que somente um espírito em real progresso poderia ter.
E sua avó era assim.
Um silêncio choroso estava presente.
Dily procurou deixar o corpo da avó e os dos outros em uma posição mais serena e isso foi trabalho para muitos dias.
A menina procurou organizar a aldeia da melhor forma, no entanto, reconheceu que não poderia ficar ali, não havia condições em muitos sentidos, então, foi a alguns quilómetros à frente onde um dia havia ido com a avó que lhe dissera que aquele lugar era muito abençoado e profícuo.
A antiga aldeia transformou-se num santuário para a menina e o tempo foi indiscutível companheiro na vida da pequena indígena.
Com os meses avançados, Dily não voltava diariamente para fazer a oração na antiga aldeia como fizera no início.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:22 pm

A cada novo amanhecer se lembrava dos ensinamentos da avó, como um deles era preservar no coração, por meio do sentimento e pensamento, os que se ama, e toda sua família indígena perdida no dilúvio se encontrava em paz e muito amada no puro coração da menina.
Depois de muitos dias, Dily, numa manhã dourada e de novo feliz, dançou sob os raios do lindo amanhecer, há quanto tempo não fazia.
Aquela dança, acompanhada de um tímido canto, era o agradecimento pela vida, pois a menina podia ver a beleza da natureza, sentir o vento fresco e puro, comer a comida natural oferecida, podia reconstruir uma nova estrada a caminhar, uma nova alvorada para viver.
E isso estava realizando muito bem.
Até uma moradia havia construído com muito cuidado e eficiência.
Novos amigos animais já havia aos montes… e a avó era presente em tudo o que a neta fazia.
E em quantos entardeceres o rosto da anciã se apresentava sorrindo para a pequena querendo dizer que a vida continua e o sentimento atravessa tempo e plano e chega ao destinatário amado.
E a neta sorria para os olhos que a olhavam.
Conforme os dias se acalmavam, mas trabalho sempre havia, Dily, mesmo com uma casinha bem arrumada, com sua horta, algumas flores em volta, um novo ambiente aconchegante, comida fresca, tantos amigos animais, ela era menininha… gente e desejava muito conviver com outras pessoas.
Nesse longo tempo após a grande mudança, Dily vira apenas duas pessoas, uma única vez, um médico e um assistente que visitavam as aldeias daquelas terras.
Nessa ocasião, os dois quiseram levá-la para a cidade, mas, com muita destreza, a menina indígena se embrenhou no mato e só voltou depois de dez horas; eles já haviam ido embora.
Portanto, agora era Dily que queria muito ver esses rostos dos quais já fugira.
E os dias passavam.
E tantos dias transformaram-se em meses, parecia que a menina havia sido abandonada.
E após a única visita nem os dois homens voltaram à aldeia como faziam.
De certa forma, por observarem o acontecimento na antiga aldeia e a constatação de única sobrevivente que fugira, o local e a sua proximidade foram encerrados para a lista de visitas que o governo mantinha.
Após quase dois anos de acontecimento, Dily não tinha mais o olhar alegre, mas mantinha-o amoroso, era o seu jeito.
E a menina precisava de ajuda, aos poucos começou a adoecer.
A pequena indígena precisava de um abraço, do convívio com pessoas que lhe dessem amparo e carinho… e a ausência e a saudade de quem amava e não mais podia estar fizeram com que ela enfraquecesse e adoecesse.
Deitadinha em sua cama de um tipo de capim seco, Dily ficou completamente esmorecida; sua respiração era fraca e seu corpinho, tão frágil, ainda estava mais miúdo.
E os olhos da avó viam tudo e ela, configurada em outra dimensão, estava com tristeza ampliada sem poder muito o que fazer, mas todo ser recebe auxílio onde se encontra, no tempo e na forma adequados.
E a dificuldade da pequena continuava, mas ao mesmo tempo o desespero não a detinha, pois bem no fundo de seu coraçãozinho podia sentir a felicidade por reencontrar a amada avó - aqueles sábios indígenas acreditavam na eternidade da vida? mas outro sentimento mais profundo tomou Dily:
a valorização dos presentes dias.
Sua avó dizia que se os olhos piscassem havia energia para a conquista.
Uma suave névoa leve e completa de bem-estar envolveu a pequena menina que não pôde observar muito menos compreender o ocorrido no momento, porém, sua melhora foi crescente.
Seus olhinhos começaram a brilhar, suas mãos se aqueceram e também seus pés, todo o corpinho recebeu a benéfica energia… como um renascimento.
A suave névoa era na verdade, espíritos em socorro pela pequena, os respeitados ancestrais; a avó também observou o amparo e quanto se emocionou pela permissão.
Muito discretamente um canto indígena acompanhou todo o acto amoroso.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:23 pm

E no tempo adequado, sem poder contá-lo em segundos terrenos, todo o envolvimento cessou, o que pudera ser permitido assim estava, no entanto, o resultado aguardado; a avó permanecia com olhos bondosos para a frágil menina.
O que estava previsto poderia ser, de facto, até aquela medida de tempo na floresta terrena, na idade de menina.
Apenas a sabedoria maior detém esse saber.
Discretamente, a pequena índia começou a se mexer como quem quer despertar de um descanso profundo.
Abriu os olhinhos, esticou os braços, estava acordando para uma vida nova.
A menina agora, em seu espírito milenar, havia sido restabelecida e sua energia estava vigorosa com uma saudação que lhe viera do lado de fora.
? Por favor, tem alguém aí? - uma voz perguntou.
Dily demorou uns segundos a responder, como quem precisa assumir todos os controles do corpo, e respondeu:
? Sim.
A menina não conseguiu ainda se levantar e correr para atender como faria antes.
Ela estava terminando o processo de despertamento.
Conseguiu sentar-se.
- Sim – respondeu outra vez.
- Posso entrar? - a voz perguntou.
- Sim – outra vez.
Devagar, uma mulher entrou acompanhada de um homem e de outro jovem.
Todos vestiam branco.
A menina, sentada na cama, ainda necessitada do recurso de uma nutritiva alimentação, sorriu.
- Minha querida, está sozinha? - a mulher perguntou.
- Sim.
- Oh, meu bem.
Vamos ajudá-la.
Os três de branco rodearam a pequena ao amparo necessário.
O homem, com todo carinho e cuidado, tomou a menina nos braços e os quatro saíram do local singelo onde não mais poderia abrigar aquele coração com algo abençoado a realizar.
Eram novos médicos que cuidariam daquela região.
Quem sabe Dily terá seu nome entre os grandes feitores do bem, como em prémios notáveis de paz e ciência.
No entanto, algo definido é que todo propósito benfazejo será ladeado para o seu cumprimento.
E os olhos bondosos da avó sorriram no horizonte a se dispersarem na natureza.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:23 pm

Como a branca flor que desperta na primavera
E a menina queria apenas uma companhia para brincar, mas ninguém ali naquele rico casarão percebia isso.
Os empregados, com tantos afazeres, mal conseguiam tempo para algo que não fosse os afazeres.
As pessoas da família mal observavam outra coisa que não fosse o destaque social e o aumento do dinheiro em suas graúdas contas.
A menina queria apenas uma companhia para brincar.
Ela sempre estava com vestidinho claro, meias curtas brancas e sapatinhos pretos de verniz, mesmo em dias mais frios.
Andava pela casa, talvez alguém lhe desse atenção, mas todos tinham seu próprio interesse.
E numa manhã de primavera, a menina, surpreendentemente, quando foi à cozinha, deparou-se com um garoto de quase a mesma idade.
Ela ficou estática, mas um sorriso lindo logo surgiu em seu rosto.
O menino também sorriu.
- Olá! Quem é você?
- Sou Marcus, sobrinho de Louise, a cozinheira.
- Nunca o vi aqui.
Ele sorriu.
- Você quer brincar? - a menina lhe perguntou.
- Sim. Vamos!
E os dois foram para o belo campo de grama verdinha em frente da casa.
Havia um imenso e muito bem cuidado jardim ao redor com um raio de alguns quilómetros, na verdade, uma bela fazenda no sul da Europa.
O sol estava o seu puro dourado; o céu, anil; o vento tão agradável como o afago de quem se ama; e as duas crianças, felizes como próprias crianças.
As risadas demoradas e verdadeiras, risadas de quem tem, puro, o coração.
Corriam sem pressa de chegarem a nenhum determinado lugar, alegria simplesmente por estarem ali, um com o outro.
Descobriam novas flores no jardim e insectos delicados, uns mais bonitos do que outros; as joaninhas eram as preferidas.
Compartilhavam cada descoberta.
E os donos da casa continuavam sem tempo para observarem a vida; o tempo era somente para o aumento de lucro, posições de destaque na sociedade e a tristeza os acompanhava.
E os empregados tinham de servir, com o rigor exigido, seus patrões.
Mesmo na primavera, o sol não demorava tão mais das seis para começar a descer.
Esse foi o sinal para as crianças voltarem para a casa.
Entraram pela porta da cozinha, lavaram as mãos numa pia própria para essa higiene e sentaram-se à mesa a fim de saciarem fome e sede.
Louise estava na cozinha, mas sempre triste nem os percebeu.
Outra senhora empregada lhes serviu suco com uma fatia de bolo.
E os olhinhos das crianças brilhavam felizes.
Depois de comerem, as crianças se levantaram e foram em direcção a um quarto de estudo onde havia livros interessantes para essa idade.
Entraram e a menina foi directo ao seu favorito.
Pegou-o para mostrar a Marcus que sorriu por também dele gostar.
Sentaram-se no grande tapete do cómodo e o menino começou a ler suas partes preferidas em voz alta.
A menina sorriu por também serem essas as suas partes preferidas.
Leram mais um pouco.
E a noite chegou.
As crianças se levantaram e sorrindo saíram pelo corredor.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:23 pm

Foram até o quarto da menina que sempre estava arrumado.
Entraram e a porta ficou semi-aberta.
A mãe passou pelo corredor e estranhou.
Olhou o quarto, tudo estava impecável.
Mais uma vez os olhos da mãe se encheram e ela encostou a porta.
Seguiu pelo corredor; o marido ainda não havia chegado.
Ela estava só.
Lembrou-se tanto de quanto podia ter brincado mais com a filha e lhe dado amor e carinho.
Tanto deixou de observar que a filha adoeceu sem a mãe perceber.
A mãe começava a compreender a importância das pessoas, da vida.
A importância do que é real e não da efemeridade, materialidade, orgulho.
O marido chegou tarde da noite.
Pensava ser necessário a cada dia mais dinheiro e destaque.
E a esposa estava adormecida na fria poltrona.
Ainda no quarto, a menina foi embalada pelo carinho de Marcus e de outros amigos que lhe explicaram sua condição actual e que no lugar que a esperava haveria muita atenção, amor e companhia para brincar.
Ela sorriu.
Seguiram para o local onde o que realmente valerá é o sentimento de amor no coração e o de bondade no olhar
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:23 pm

A chuva cai para alimentar a terra
Enquanto observava da janela da sala os últimos pingos após a tempestade, também buscava inspiração para alguma prosa ou poesia, desejava escrever.
Mas inspiração não é coisa que se determina, ela vem quando quer, ou melhor, quando encontra terra arada.
E do telhado parou de pingar.
E a ponta de minha caneta estava parada sobre uma das páginas de um caderno - prefiro ainda escrever à mão - aguardando um começo, uma palavra que viesse para uma composição.
Bem mais seco estava o telhado.
E a tarde continuou com a cor cinza, cor que acinzenta as cores primárias.
A caneta escapou e fez um risco no papel.
Assustei, pois não estava tão distraída assim.
Mesmo em momentos de falta de inspiração, a disciplina cria condição, porém, nesta hora, nenhuma condição fora criada para minhas palavras.
No entanto, outras palavras começaram a ser escritas.
Períodos, parágrafos eram escritos.
Virei a página e continuava.
Sabia que não era minha literatura; eu estava presente, mas com certa ausência.
Foram vinte e duas páginas escritas.
As palavras eram inclinadas para a direita.
Quando escrevo, minha letra mantém posição vertical, portanto, não era minha composição.
De quem poderia ser?
Busquei o início do texto.
Apareceu o vocativo, “Irmãos em Cristo”.
Minha emoção transbordou em forma de forte arrepio com o sentimento que mais o Mestre nos ensina: o amor.
E a sequência da leitura foi em tom fraterno, amparador, de profunda instrução, a qual todos, pelo menos superficialmente, conhecemos o conteúdo, mas muito infelizmente relutamos em praticá-lo.
As palavras eram arranjadas com perfeição, sem excesso, nem limitação.
Estou com as folhas em minhas mãos, no entanto, não consigo lê-las por inteiro, em voz alta, ainda não me recompus.
Porém, posso relatar um pouco do muito que está escrito.
O início foi a abençoada saudação.
E o conteúdo, tão completo, traz-nos o que já sabemos, não há vida se a vida não for cultivada, pois viver é muito além de dormir, alimentar-se, trabalhar mecanicamente e aguardar o pôr do sol e o amanhecer.
Que o amor não será sentido se antes ele não brotar no próprio coração; assim, também, não haverá o respeito, a paciência, a tolerância, o perdão, a caridade se esses valores não forem sentidos antes pela própria criatura. Como somos centelhas eternas, necessitamos alimentar com o apropriado alimento o espírito a caminho da eternidade; materialidade pertence ao plano físico.
Tudo o que é utilizado de forma equilibrada também será valioso, logo se aproveitará a sua essência.
E uma citação primorosa:
Somos centelhas criadas por Deus e Ele nos habita.
E não há luz nem vida quando o pai está adormecido em nós.
Ainda nestas vinte e duas páginas, a prece foi nominada como a bonança para o nosso interior, quanto mais nos conectarmos com o Criador, mais sentiremos Sua omnipotência e omnipresença.
O céu foi clareando.
Guardarei com gratidão o abençoado presente; primeiro, toda a lembrança do aprendizado e segundo, as páginas em tinta que sempre me recordarão da certeza de que sou filha de Deus, como você, e somos irmãos de Jesus.
Algumas vezes não acontecerá o que desejamos, porém, o que devemos aprender e viver.
Graças a Deus que o Pai não faz a vontade do filho, mas, sim, o que sempre será melhor para seu pequenino.
E antes de anoitecer, o sol deixou alguns raios singelos no céu.
E o telhado já estava bem limpo para reflectir o brilho das estrelas.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 15, 2018 7:23 pm

Agustina e o tempo
Talvez se se permitisse para a própria felicidade, Agustina não teria vivido este enredo.
Desde menina, ouvia mais que falava e sempre conquistou grandes amigas; quem sabe estas nutriam, como lema de amizade, ter alguém para desabafar e compartilhar os pormenores do sofrimento íntimo.
Pode ser que, sim; pode ser que, não. Entretanto, Agustina era uma mestra em ouvir e aliviar o outro coração atribulado.
Tantas histórias guardara como segredo ao longo dos anos.
Acontecimentos hilariantes, simples, bem comuns e alguns comprometedores geral e ramificadamente.
O alívio era nítido no olhar de quem compartilhara sua dor; o olhar da ouvinte era sempre doce.
Tinha laço de fita no cabelo quando começou; hoje já tinha, grisalho, todo o cabelo.
Também anotava, sem as amigas e as pessoas saberem, as informações de cada conversa, o motivo, o dia, o nome e o sobrenome de quem a procurava.
Tudo muito organizado numa caixa, guardada, no lado direito de seu guarda-roupa.
O chá e as bolachinhas feitas em casa eram sempre oferecidos.
Agustina, depois de muitos anos trabalhando em cargo administrativo, havia se aposentado, estava com mais tempo para ouvir.
Certa tarde ainda fresca e quase chegada a primavera, ela olhava pela janela da sala se certificando de que ninguém viria procurá-la.
Olhou para o guarda-roupa, mas não ameaçou nenhum movimento em sua direcção.
Olhou-se no espelho e viu sua imagem a distância.
Sentiu como se olhasse para uma estranha.
Seus olhos se encheram de lágrima que logo escorreu pela face clara.
Agustina ficara imóvel um tempo irreal ou imensurável, talvez incomparável com a vida do plano terreno.
Sinceramente não soube calcular o tempo em frente ao espelho; sua face não mais estava húmida.
Procurou a cadeira em frente à escrivaninha, precisava sentar-se e retornar ao seu eu.
Ainda se viu pelo espelho em outro ângulo.
Os olhos se encheram da lágrima da dor por sua anulação, porém, sem opção de reconstruir o passado.
E se olhava a distância pelo espelho.
Um sono profundo a inebriou.
Ela conseguiu passar da cadeira para a cama ligeiramente.
Deitou-se de lado; uma das mãos descansou à altura do coração e a outra, embaixo do travesseiro.
A respiração estava suave, mas muito definida para a dimensão dos sonhos.
E Agustina foi.
Caminhou com a leveza que promoveu às inúmeras almas que a procuraram, sentiu as flores amarelas entre os dedos e levitava tão naturalmente; o sopro suave visitava sua face, não sentia nem frio, nem calor, estava em paz e sorrindo.
De repente, viu-se de frente a uma também senhora, sentada.
Havia uma cadeira vazia; a senhora fez sinal para que Agustina se sentasse.
Ela se sentou.
E como as amigas e as pessoas que passaram por sua vida, era agora a sua vez de desabafar e aliviar o coração que tanto ouviu e afagou inúmeros outros.
Não precisou de explicação para o momento, Agustina compreendeu que deveria falar; a senhora a ouvia com calma e carinho.
Quantos acontecimentos, compartilhou, sorria, entristecia-se e voltava a sorrir, mas, pela primeira vez, concedeu a si momento de falar… de falar sobre as suas dores, alguma felicidade, as suas decepções, os seus desejos que não se realizaram, pois Agustina, durante esse tempo, anulou suas próprias realizações e escondeu-se delas.
Ela, pela primeira vez, sentiu-se inteira.
O passeio naquela dimensão chegara ao fim, ela precisava retornar para o mundo físico e aproveitar o tempo que ainda lhe restava na presente existência para valorizar-se e ser para si o que somente os outros, por enquanto, haviam sido para ela.
Por meio de um suspiro profundo, Agustina estava de volta à sua cama, à sua vida, com o diferencial de, possivelmente, ter compreendido que tudo se inicia pelo próprio eu.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:42 pm

Enquanto o amor não é sentido
Aliz era prisioneira e sofria perseguição.
Era a caçula de três irmãos, a única mulher.
Sua família era bastante conhecida na região e detinha próspera situação financeira.
O patriarca já havia morrido fazia quatro anos.
Ele era verdadeiro amigo e protector de sua filha - protector contra as investidas ferrenhas de sua esposa, mãe de Aliz.
A família morava na maior e mais bela fazenda da redondeza ao Norte da Hungria; a criação de gado leiteiro era trabalho que vinha de gerações.
Os irmãos homens cuidavam de toda a fazenda e também da parte burocrática.
Aliz sempre foi poupada de trabalhos físicos, teve sempre oportunidade para os estudos, aliás, que soube aproveitá-los.
No entanto, seu olhar, muitas vezes, dizia que se ela tivesse trabalhado duro sem tanto sofrimento emocional, tanto seria mais feliz.
Pelos irmãos, ela era muito amada.
Foi o que restou após a ausência de seu pai.
Mas foram se casando e, na grande e bela casa, restaram a mãe, a filha, muitos empregados e a solidão.
Aliz pouco podia sair de casa, mesmo aos vinte anos, sua mãe muito decidia por ela.
Então, para evitar discórdia e aborrecimento, a jovem permanecia a maior parte do tempo em seu quarto.
As aulas de idiomas e piano eram ministradas na sala onde havia um belíssimo Steinway, negro, com cauda.
Aliz amava tocar piano; seu pai admirava a facilidade e a emoção com que a filha executava o piano desde criança.
No entanto, sua mãe nunca a elogiara por nada, embora a filha possuísse muitos predicados.
E foi num sábado de setembro, momento no qual o sol suave começava a se esconder, que a bela casa fora cenário de um inesquecível acontecimento.
Naquele dia, como sempre, o professor de piano estava recolhendo as partituras depois de uma produtiva aula, quando a mãe de Aliz entrou no recinto onde aluna e professor estavam e, totalmente desequilibrada, começou a desferir palavras horrendas e perversas, todas direccionadas à filha.
Vocábulos grosseiros e amargurados eram desferidos com muito ódio.
O professor tentou proteger a jovem que começou a sofrer investidas físicas da mãe.
E o sol se pôs.
A falta dessa luz de tom dourado e claro piorou a situação, pois quando tudo está mais gris, normalmente também mais sombrio e negativo se apresenta.
Depois de cair de joelhos, no meio da sala, devido à exaustão, a senhora, que estava com a face transfigurada e totalmente desequilibrada, pendeu para a direita e se perdeu no chão.
Com aparência instintiva, buscava o ar para saciar o pulmão ofegante.
A jovem, atónita, ficou segura por alguns segundos nos braços do professor até que, como se fosse no despertamento de um pesadelo, sua razão começou a voltar.
Então, depois de a jovem começar a recobrar-se, o primeiro ato do professor foi, por telefone, pedir socorro, entretanto, no momento, não havia ambulância para socorrê-la.
Mas, por algum evento desconhecido, um dos filhos entrava pela porta da sala para visitar mãe e irmã.
E com rapidez, conseguiu colocá-la no carro com a ajuda do professor.
Aliz, desnorteada, não sabia para onde ir depois que se levantou do chão.
Olhava, mas nada enxergava.
A cozinheira, antiga funcionária da família, veio ao encontro da jovem que, como uma criança, precisava do aconchego seguro, de um abraço materno, amoroso e protector.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:42 pm

Como num relance, Aliz se deu conta de que sua mãe nunca a havia abraçado, muito menos dado um beijo em sua face ou feito um gesto carinhoso de mãe para filha.
A cozinheira amparava a jovem nos braços como se fosse a pequenina de antigamente, como tantas vezes fez.
E por dentro, era tão carente e sensível, a jovem ainda era a criança tímida e amedrontada que fugia para longe de sua mãe.
Aliz ainda não sabia, mas sua mãe chegara quase morta ao hospital; seu coração não aguentara a emoção intensamente negativa e começara a se desconectar para não mais bater.
E devagar, a jovem fora se acalmando.
Seu outro irmão chegou para ampará-la; os irmãos muito se entendiam.
Muito se amavam.
Incrivelmente no momento em que Aliz começou a se acalmar foi o mesmo em que sua mãe desencarnou.
Na sala da casa, sumptuosa, os dois irmãos estavam sentados; o professor se mantinha em silêncio em uma das poltronas.
A cozinheira, querida senhora, amparava ora a jovem, ora o irmão que estavam com olhar carente como crianças.
De repente, o telefone tocou.
O irmão levantou-se para atender.
- Alô! - a voz foi expectante.
Do outro lado, o irmão mais velho informou o falecimento da mãe.
Passou algumas orientações a serem seguidas e logo encerrou a ligação.
Na sala, o irmão do meio veio para perto da irmã caçula e lhe comunicou o ocorrido.
Abraçaram-se.
A sensação naquele tempo e local era de pesar, mas antes de tudo, era a de certo alívio por tudo o que já haviam presenciado; a intransigência e a frieza com que a mãe tratava a jovem Aliz eram perturbações para todas as pessoas da família.
E o pesar foi menor do que o sentimento consolador experimentado.
Todas as providências foram tomadas.
Após algum tempo do enterro, houve a necessidade de alguns documentos para dar entrada a novas situações quanto aos numerosos bens da família.
Os irmãos foram forçados a procurar a necessária documentação.
E entre tantos papéis e documentos, foi encontrado um que mudaria toda a história familiar e até esclareceria o comportamento da matriarca em relação à única filha… mulher.
No papel estava escrito:
“Não tem meu sangue, mas é minha filha… hoje e sempre”.
Os filhos reconheceram que era a letra do amado pai.
O documento fora registrado em cartório, em nome do pai, ou seja, ele havia descoberto a imprudência da esposa com um jovem muito bonito, contratado para trabalhos na fazenda.
Desde o momento quando soube que a esposa estava grávida, e não mais poderia ser dele devido a problemas de saúde, não mais a tocou como mulher.
No entanto, em nenhum momento a humilhou, ao contrário, acolheu-a com toda bondade; isso se tornara um segredo entre o casal.
O brilho de alegria surgiu quando a mãe deu à luz uma menina, linda.
O homem a pegou nos braços e daquele segundo seu coração instantaneamente a amou.
Tanto desejava uma menina… uma filha; ela veio.
A mãe, desse instante, se sentiu desgostosa por não mais ser amada pelo homem tão maravilhoso que era seu marido.
Ela aprendeu duramente que paixões impulsivas, normalmente, levam os envolvidos a sofrimentos perdurantes.
O jovem, após o ocorrido, foi embora e nunca mais, dele, se teve notícia.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:43 pm

Para o coração materno, olhar para a filha, indesejada, mas tão amada por toda família, era a morte em vida.
A filha não era culpada, mas, pela mãe, era torturada, principalmente, longe dos olhos do marido, quando ainda estava entre eles, e dos dois filhos.
As ocasiões ocorrem em duas situações: amor e reparação.
A mulher não compreendeu que a oportunidade estava à sua frente.
Era necessário sabedoria para percebê-la e muito amor para melhor entender a vida, grandeza absoluta.
Os três irmãos mais se aproximaram; o amor entre eles, intensificado.
Eram antes, irmãos de alma, espíritos harmonizados entre si que só o tempo de outras existências pode construir.
Tiveram a companhia de um espírito mais esclarecido e bondoso, tiveram a companhia de um com menos clareza e mais endurecido; no entanto, por algum motivo, foram agrupados no mesmo núcleo familiar.
Em toda dimensão e tempo, só o amor construirá baluartes de bondade e trará a verdadeira alegria ao coração.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:43 pm

Minhas memórias numa cadeira de balanço
Assim!
Era sábado de primavera e este momento da narrativa abeirava-se às cinco da tarde.
Com os anos, acabei por dispensar a vida na cidade e a me encantar com o som do campo, da natureza pura e liberta.
À cidade, só me aventurava ir para cumprir com os deveres de cidadã, fazer compras e as visitas, um pouco regulares, ao médico Estêvão, clínico geral.
Recordo-me que a última vez que fui a uma consulta, à saída da clínica, do outro lado da rua, havia sido inaugurada uma loja de sofás, cadeiras e outros tipos de sustentação para o corpo – penso que o vocábulo sustentação até se torna engraçado e desvaloriza o invólucro carnal que possibilita à alma o seu progresso; às vezes, não, isso depende da atitude perante a vida.
Na verdade, quando avistei esta cadeira de balanço na qual estou recordando essas passagens, puxei Ernesta pelo braço – Ernesta é minha funcionária, cuidadora, motorista, mas antes de tudo minha grande amiga – e logo atravessamos a rua e estávamos na loja.
Eu, feito uma criança, agarrei-me à cadeira, que nem por decreto soltaria – certas vezes, tornamo-nos ainda mais materialistas ou possessivos; mas, de certa forma, já melhorei um pouquinho, pois não me agarro mais aos parreirais de uva querendo engolir os cachos de uma só vez.
A vida nos ensina.
Da aquisição da cadeira em diante, a maior parte dos meus dias passo como estou agora, entregue a ela; quando me balanço é bem suavemente, as náuseas são visitas um tanto comuns dos corpos mais vividos pelo tempo.
E exactamente aqui, onde me posiciono sobre a cadeira, na varanda que rodeia a casa, tenho a paisagem mais impressionante de tudo o que já vi – outros podem não concordar, mas meu consenso confirma isso.
Nesta posição posso enxergar as pedras grandes e milenares organizadas pela montagem natural; o céu se mostra com a liberdade mais plena já vista; as flores miúdas, mas de hastes longas, se dobram e nunca se debatem com o vento; por isso vivem até o dia previsto de vida, elas são muito sábias; as árvores, pelo espaço subterrâneo, conquistam a fortaleza para suas raízes e tornam-se fortes e saudáveis senhoras seculares; a nascente, que dá vida ao grande rio mais à frente, inicialmente, é modesta, discreta em sua grandeza, que traz o néctar da manutenção da existência, pois para o Planeta a água é vital, imprescindível para a sua continuidade.
Ainda quero relatar o horizonte tão infinito aos olhos e tão conquistador à alma, pois quando esta estiver espírito comprovará a eternidade que nada mais é que o infinito.
Também vejo os pássaros, felizes, cantando em agradecimento à força divina; a natureza em sua completude é uma excelente educadora, nós é que talvez sejamos ainda alunos insipientes na lição do valor à vida.
Aprendi, com os dias vividos, que mais temos a doar e bem menos a guardar; no entanto, normalmente nos apegamos a tanto e tão pouco somos capazes de passar adiante o que, na verdade, somente nos foi ofertado… emprestado e não passado a nós como posse definitiva.
Percebi que se podem criar vários sábados durante a semana, não para relaxar do trabalho, mas para compartilhar mais tempo com a família e realizar o que nos acalenta o coração; constatei que a palavra escrita no momento de grande emoção é capaz de nos reequilibrar e nos restaurar para o desfecho a construir, como desabafo escrito.
Sentada, ontem à noite, na poltrona da sala, quase concluindo um dos contos para a formação de mais um livro que será encaminhado à editora, atentei-me aos poucos objectos daquele cómodo; mais espaço, menos obstáculos para a boa energia circular.
Senti-me feliz.
Na verdade, de tão pouco necessitamos para viver com plenitude!
Será fardo ou presente o que escolhermos carregar.
Balancei-me levemente na cadeira.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:43 pm

Veja! A coruja, que sempre me visita à mesma hora diária, chegou.
E como gosto dessa amiga vespertina, quase nocturna – pelo horário em que sempre aparece, entre as cinco da tarde até as seis e meia.
Ela pousa sempre na borda branca da cerca que contorna a varanda.
Com seus olhos compenetrados olha nos meus, querendo saudar-me.
Amiga de longa data.
E logo vai. E eu fico.
Ernesta me trouxe a xícara de café com leite… sempre às cinco e quarenta.
Há dias que a xícara vem acompanhada de alguns mantecais(1), ou pãezinhos de queijo, ou alguma bolacha salgada integral.
É sempre bom esse momento.
Mas Ernesta não me acompanha na refeição; sempre diz que já lanchou na cozinha mesmo.
Então, se queres um amigo, não o censures, compreende-o e aceita-o, a não ser que a atitude seja de prejuízo próprio ou para terceiros.
E neste sábado vieram mantecais; eles me trazem à recordação minha infância de quando eu e meus irmãos maiores comíamos com ardente jovialidade todos os mantecais que mamãe nos servia após as aulas da tarde.
Essas aulas nos ensinaram muito, pois eram ministradas pela senhora Ingrid Thompson, inglesa com descendência francesa, apaixonada pela história do mundo; era dona de um vasto conhecimento.
Senhora Ingrid sempre nos ensinou que a grandeza não era só obter tão incontável cognição, mas, principalmente, compartilhá-la com pessoas que nos participam um pouco ou a vida toda.
Explicava-nos que o que assimilávamos sempre seria nosso e nunca o perderíamos, se o compartilhássemos com o companheiro do momento na jornada eterna.
De um instante a outro, a lembrança trouxe-me a imagem do meu jovem falecido esposo, homem de tanta bondade e ternura.
Ele era incapaz de lançar uma saudação friamente a quem quer que fosse; aprendi demais nos quatro anos de casamento.
Sempre me dizia:
“Dê atenção ao próximo como se fosse a mais amada pessoa da sua vida”.
Foi a partir dessas palavras que me dei conta de que o outro simplesmente é a extensão da vida na qual estou inserida.
Edgard, quanto aprendi e quanto sinto a falta de seu olhar!… doce olhar!
É incrível como é rápida a junção dos pensamentos em nossa mente.
Logo me veio à tona a época na qual iniciei o magistério – aulas gramaticais.
Penso ser bastante remota a dificuldade de aprendizado das estruturas gramaticais de um idioma, mas como a maior parte da sala labutava para assimilar o conteúdo!
A maioria deles entendia superficialmente; eram poucos os que dominavam as regras e sua aplicação; na verdade, somos tantos e estamos em patamares tão diferenciados!
Por mais que comparemos não há uma pessoa sequer participando igualitariamente do momento na vida; podemos estar no mesmo lugar com muitas outras, mas o universo íntimo é estritamente individual.
E eu adorei cada aluno que por mim passou.
Mesmo que tenha sido há tanto tempo, recordo-me, muitas vezes, de Sébastien, tão educado aluno francês; o bem iluminava os seus olhos.
Tomei mais um gole do café com leite e peguei mais um mantecal.
Quantas recordações!
Quantas acções vividas!
Depois me veio a satisfação da escrita.
Desde a minha infância, escrevi poemas, poesias, letras de música tentando pôr melodia sem conhecer o mínimo necessário da maravilhosa arte musical; cada vez que eu cantarolava a canção, entoava um ritmo inédito… coisas da vida.
Entretanto, os anos me deram muito gosto pelas narrativas mais breves como o conto e a crónica.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:43 pm

Impus-me uma regra para a minha literatura:
escrever sobre a vida, a nobreza de se viver… de receber esse tão magnânimo presente.
Dessa decisão, surgiram vinte livros, todos editados pela mesma editora.
Talvez tenha sido oportunidade, simplesmente isso.
Tomei mais um gole para ajudar a empurrar o último mantecal.
Realmente a vida passa… e rápido, mas a colheita dos frutos é que se torna importante.
E, graças a Deus, sentada aqui, quantifico bem mais numerosas as felizes recordações.
No entanto, houve um número razoável de incorrecções… essas se transformaram em exemplos a não serem repetidos… mas… ainda uma vez ou outra reincido… e olhe… que me vigio!
Percebi, naquela hora, que não havia mais nenhum vestígio dos raios solares.
Ernesta já acendera a luz da varanda e agora mesmo me convidou para entrar.
Vamos terminar o vigésimo primeiro livro, a maioridade na literatura.
Então me recordo de que amanhã farei oitenta e oito anos.
Entrei.
A luz da varanda ficou acesa, significando que não estava aparente, mas que havia moradores na casa.
É assim para o corpo, não se sabe qual alma está acoplada ao físico, no entanto há centelha divina animando a matéria.
“Cada alma possui um caminho a trilhar; cada espírito terá a liberdade ou a clausura; cada ser conquista seu livre-arbítrio; cada um pode ser protagonista ou coadjuvante de sua própria história; cada um será o que de verdade quer ser.”
Essas foram as frases finais do meu vigésimo primeiro livro.
E Ernesta, sentada ao meu lado, finalizou salvando mais um documento no computador, intitulado:
“As sombras que impreterivelmente serão luzes”.
Pela manhã será enviado à editora.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:43 pm

O mesmo trem para o homem e o menino
Àquela hora o trem já havia saído e o próximo sairia apenas às sete da manhã do dia seguinte.
O homem, magro, pôde apenas comprar o bilhete e aguardar o horário.
Na estação não havia movimento de transeuntes comuns, a não ser dos poucos funcionários e o da única cafeteria do local.
Algumas luzes a mais foram apagadas no interior da antiga estação.
A cafeteria sempre ficava aberta.
O homem, com sua pouca bagagem, encaminhou-se para um café e alguma coisa para comer.
Estava apenas um atendente que o esperou acomodar-se para oferecer-lhe o cardápio.
Havia uma música francesa tocando no rádio com volume bem baixinho.
Ele pediu um cappuccino grande e um pedaço de torta de queijo, como sempre.
Enquanto aguardava retirou, de sua maleta, um livro, cujo marcador era uma fotografia antiga de uma jovem mulher numa paisagem com neve.
Ficou alguns segundos olhando para a imagem, em seguida deixou-a na mesa e retomou a leitura a partir de um pouco antes da metade do livro, onde estava marcado com a fotografia.
Havia um pendente de luz com fio baixo sobre a mesa, o que facilitava a leitura.
O jovem atendente trouxe o pedido.
O rapaz era simpático e simples, assim, o homem o definiu em pensamento.
Ao mesmo tempo em que o senhor comia uma garfada da torta ou tomava um gole do cappuccino, continuava a leitura.
Isso aconteceu até o fim da refeição.
O atendente não demorou e logo retirou a caneca, o prato e o garfo, ainda passou um pano húmido sobre o tampo redondo da mesa.
- O senhor deseja mais alguma coisa?
- Não, obrigado.
Pegarei o primeiro trem da manhã… então, posso esperar aqui?
- Sim, senhor.
Hoje é o meu turno, se precisar de alguma coisa… só me chamar.
- Muito obrigado.
Você é novato? - perguntou o homem.
- Sim, senhor - o rapaz respondeu.
Era uma noite fria e o silêncio era presente como o vento gelado entrando pelos cantos das janelas.
A madrugada fora longa, mas a manhã chegou.
O senhor despediu-se do jovem atendente e foi para a plataforma; o trem estava chegando, vinha de outra cidade.
Então, o senhor subiu ao segundo vagão, procurou sua poltrona, alojou a pequena maleta e sentou-se com o livro nas mãos.
Talvez a ansiedade pelo fim da leitura seria um subterfúgio da verdadeira emoção que carregava sempre na mesma data.
Mais um tempo se passou e chegou à última página.
Ponto final. Tudo lido e observado.
Também faltavam apenas alguns minutos para a chegada a seu destino.
E bem agora, pela primeira vez, o senhor olhou pela janela e viu a beleza natural contornada pelo brilho do sol.
Respirou fundo querendo encontrar a alegria, sentida, por uma hora, quando fora menino.
Era também a manhã de seu aniversário.
Há sessenta anos cumpria o ritual nessa data.
Começou quando fez dez anos.
Desceu do trem e foi ao seu destino.
Durante o percurso, cumprimentou muitas pessoas, pudera era a pequena cidade onde nascera e morou até os dez anos.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:44 pm

Antes do meio-dia chegou ao local pretendido, a praça central em frente à matriz.
Os passos tornaram-se mais vagarosos até chegarem ao banco azul da praça.
O homem estava de frente para o banco, tirou o lenço do bolso de seu paletó e enxugou as lágrimas que, insistentemente, escorriam. Com calma se sentou, pegou novamente o livro e retirou a fotografia como marcador de página.
Olhou para a figura da mulher, beijou-a e a trouxe ao encontro do coração.
O senhor ficou sentado no banco com a fotografia, abraçada ao seu coração, durante exacta uma hora.
Esse homem era notável doutor em sua área profissional e vinha todos os anos nesse dia e hora para reviver a família, unida, que teve durante uma hora em toda sua vida, pois conhecera seu pai quando completara dez anos e por este não ser bem-vindo à família de sua mãe, fora impedido de viver com a jovem que engravidara inesperadamente.
E no dia do seu aniversário de dez anos, quando estava na praça com sua mãe, o pai, surpreendentemente, chegara e o conhecera; pai e filho juntos por única hora.
Os três ficaram como uma família, em toda a existência, apenas durante uma hora, no dia do aniversário do menino, hoje doutor.
Sua mãe, depois do ocorrido, adoeceu e logo faleceu e o menino foi para a casa de uns tios em outra cidade.
Os avós, com a perda da filha, enlouqueceram.
Do pai do menino não se teve mais notícia.
E toda uma família, por falta de compreensão e amor, fora desfeita.
Às treze horas e dez minutos, o doutor olhou para o céu, respirou mais fundo e levantou-se de volta para a estação de trem.
Precisava voltar para sua esposa, filhos e netos.
Na tarde seguinte, lançaria mais um livro, seria o trigésimo de sua carreira literária em Psicologia.
E aquele livro que viera lendo na viagem seria o seu lançamento.
E o conteúdo das quase trezentas páginas desenvolvidas com muita exemplificação e observação era que nada pode ser maior que o amor.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:44 pm

Os violinos (O luthier)
Pierre Chantal era um luthier que morava na casa cinza com muitas janelas. (1)
Ele era francês.
Também havia muitos gatos na casa, eram os seus “chats”, gatos em francês, mas sem pronunciar as duas últimas consoantes, simplesmente [chá].
A língua francesa é muito misteriosa, pois se escrevem todas as letras, mas nem todas são pronunciadas.
O senhor Chantal também era misterioso e ainda construía violinos.
Dois dos gatos eram cinza; outros dois, brancos; outros dois, pretos e apenas um, malhado, com fundo branco e pintas amarronzadas, total de sete gatos.
E como havia sete grandes janelas, cada gato se exibia, sentado, no parapeito de uma delas, e sabe-se lá como, cada dia um gato ficava numa janela, com rodízio em sentido horário, e durante a semana não se confundiam… gatos são gatos… inteligência, observação e uma certa metidez.
E tanto lambiam seus pelos, suas patas. Tomavam, rigorosamente, o sol da manhã, sabiam a hora do almoço; à tarde passeavam pela redondeza e por volta das cinco e meia da tarde, antes de a empregada fechar as janelas e ir embora, os sete gatos retornavam para não mais saírem à noite, só, mesmo, no dia seguinte.
Quanto à empregada, ela se chamava Seraphine e trabalhava para o senhor Chantal há mais de trinta anos.
E o senhor Chantal, muito pouco, saía de casa.
Ele transformou uma área bem grande de dentro da casa em sua oficina.
As duas salas espaçosas se tornaram seu local de trabalho.
Naquela oficina com sete janelas, muitos violinos foram construídos.
Violinos coloridos, grandes, pequenos, alguns que só tocavam músicas russas; outros, apenas músicas italianas; outros ainda, músicas japonesas; ainda outros foram construídos, simplesmente, para tocarem músicas sacras.
Alguns violinos foram construídos para crianças; outros, para jovens; outros, ainda para adultos e uma quantidade, para as pessoas mais velhas.
O senhor Chantal amava construir violinos ou talvez isso o ajudava a esquecer algo.
Ele construiu violinos durante quase toda a sua vida.
Ele não se casou, não formou família, não teve filhos por isso não brincou com esses filhos; ele nem conheceu outros países, nem pessoas; nem quis ver mais vezes o céu, admirar as estrelas e sentir o calor do sol.
Ele nunca foi à feira às terças-feiras; Seraphine quem ia, ela pagava as contas, fazia as compras e também cuidada da conta no banco.
O senhor Chantal, a maioria das vezes, recebia o pagamento dos violinos por depósito bancário; outras poucas vezes recebia em dinheiro em sua oficina.
E os gatos… eles não foram comprados, nem buscados em algum lugar pelo senhor Chantal.
Os gatos foram aparecendo, na verdade, um foi chamando o outro.
E, incrivelmente, quando somaram sete, mais nenhum gato apareceu.
Sete janelas; sete gatos.
Durante o dia todo, o senhor Chantal ouvia música clássica, calma, em volume baixo; os gatos pareciam gostar, pois ficavam sentados no parapeito da janela com os olhos mais fechados que abertos.
Também eram calmos e nem miavam muito, só mesmo quando estavam com fome de leão.
Mas a senhora Seraphine não os deixava com tanta fome assim, colocava ração para eles e também água limpa todos os dias pela manhã, se precisasse colocava mais água durante o dia, mas ração era só uma vez, mesmo assim, nunca ficaram com fome de leão.
No vidro de bolachas sempre havia umas bolachinhas de nata que Seraphine fazia; o senhor Chantal gostava de comer umas delas às quatro da tarde com uma xícara de chá e ele deixava algumas no canto de um pequeno tapete na sala para os gatos quando chegassem do passeio vespertino.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:44 pm

Eles quase sempre comiam tudo.
Cada gato tinha um nome e todos os bichanos eram educados e mansos e eram sempre chamados pelo nome tanto por Seraphine quanto pelo senhor Chantal, mas o luthier pouco os chamava, ele só queria mesmo construir violinos.
Isso não quer dizer que ele não gostava deles, apenas não os chamava, pois os bichanos sempre estavam por perto e estes também gostavam do senhor Chantal e gostavam também de Seraphine.
Era na verdade, um relacionamento sem cobranças, só isso.
Senhor Chantal e Seraphine pouco se conversavam, mas muito se entendiam.
Há uma revelação: ele, todo dia 15 de cada mês, saía às oito horas da manhã, com algumas flores colhidas de seu jardim, e retornava entre dez e dez meia.
Senhor Chantal trabalhava com roupas formais, calça com vinco, camisa de manga comprida, normalmente de cor clara, e suspensórios.
Vestia-se assim, pois se algum cliente chegasse já estava arrumado para recebê-lo, era isso que um dia explicou para Seraphine.
E ele recebia encomendas de vários países, mas essas encomendas - os violinos - eram feitas por telefone.
Então, depois de prontos, os violinos eram despachados pelo correio que vinha busca-los na casa do luthier.
Sábados e domingos eram dias comuns, de muito trabalho, apenas o fazedor de violinos encerrava o expediente às quatro da tarde, hora do chá com bolachas, e ia conferir seu belo jardim feito, aos pouquinhos, durante cada sábado e domingo depois das quatro ao longo da vida.
Com as mãos, enlaçadas, para trás das costas, o senhor Chantal observava as flores e sabia detalhes de cada uma.
Olhava minuciosamente e também conversava com elas; isso ele havia aprendido quando era bem criança, com seu avô que o criara, este lhe havia ensinado que as plantas tinham sentimento.
E esse aprendizado fora muito apreciado por Pierre Chantal.
E observava e fazia um carinho de leve nas folhinhas, mas não em todas, eram muitas.
E naquele domingo, depois de o jardim ter sido observado pelo olho clínico do próprio cultivador e também de ter sido regado, pois o senhor Chantal usava um belo regador antigo e afirmava, nas poucas palavras, que a regagem por regador era mais carinhosa, o homem se recolheu quase seis da tarde; as andorinhas buscavam os ninhos, todo mundo quer voltar para casa, para quem ama.
O sol estava alaranjado e bem fraquinho sumindo no horizonte.
O dia estava acabando para começar a noite.
E para o senhor Chantal, a noite não era tão bem-vinda, era o período que podia ouvir mais os sentimentos, sentir mais saudade… saudade.
Os gatos eram os companheiros, mas eles eram quietinhos e dormiam cedo, logo depois de comerem alguma ração sobrada no potinho ou algum restinho de bolacha no tapete.
Mais uma noite e o senhor estava sozinho, em sua casa, com a saudade e os sentimentos.
Ele gostava de assistir a programas sobre cultura e músicas clássicas, mas, muitas vezes, apenas olhava para a tela da TV sem assistir a nada.
E quando algum programa apresentava concertos com peças mais dramáticas, então, seu olhar ainda mais se perdia no espaço e algumas lágrimas escorriam pela face do senhor francês.
E nessa noite, quando a saudade não cabia mais em seu peito, e a tristeza o tomara, senhor Chantal, em desespero, suplicou a paz que há muito não sentia, desde quando começou a construir violinos.
Num ato desatinado, encolhendo-se na poltrona, com a face banhada, começou a verbalizar sua dor…
- Há quanto amo, há quanto sofro… nada mais me resta.
Desde aquele 15 de abril do fatídico ano, não mais pude viver… sobrevivo, pois sou insignificante demais para me tirar o que Deus me concedeu… mas confesso que muito já pensei - falava com voz alta que há muito não se ouvia.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 16, 2018 7:44 pm

- Por quê? Por que com tanto amor não tive tempo de doar… para minha Gabrielle… que me deixou por, equivocadamente, comer uma pequenina fruta venenosa, pensando que fosse uma doce fruta comum no parque onde passeávamos uma semana antes de nosso casamento…
Por quê? Ajude-me, Pai!
O senhor Pierre Chantal desfaleceu na poltrona.
Certamente, vai melhorar, pois fora a primeira vez que exteriorizou seu sofrimento; a cura, enfim, começara.
Sou o primeiro violino a ser construído pelo grande luthier.
Sou o início da fase da construção da alegria para muitos corações por meio da música, já que o do senhor francês vivera até agora na aflição dos dias, entretanto, poderá, a partir de hoje, sentir os acordes com mais leveza, pois se permitiu chorar e revelar a dura dor; o pedido de ajuda estava feito, a bondade divina poderá finalmente operar.
A partir do fatídico dia é que o senhor Chantal começou a construir violinos; “Gabrielle amava o som dos violinos”, o senhor Chantal sempre murmurava.

(1) Luthier (palavra francesa, de luth, alaúde: leia-se lutiê):
artesão que fabrica ou repara instrumentos de corda com caixa-de-ressonância.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 17, 2018 7:58 pm

Um príncipe chamado João
O menino João não morava em um castelo, nem se vestia com roupas finas, muito menos tinha empregados à sua volta.
Ele não falava idiomas diferentes do seu e nem adquirira cultura.
Para comer, tinha apenas o necessário para sobreviver.
Brinquedos, ele mesmo construía com pedacinhos de pau, tampas de garrafas plásticas e outros intermináveis badulaques que encontrava.
Adorava estudar, mas nem sempre podia ir à escola, era longe demais e quando não podia então ficava em casa estudando por conta.
Amigos, João tinha demais; as pessoas se aproximavam e desejam essa amizade sem nenhum interesse, pois o menino era a simplicidade e pobreza em grau elevado, também no mesmo grau era de educação, atenção, amor, fraternidade, bondade, afeição, caridade.
Era encantado pelos animais, plantas e pelos pequeninos insectos.
Atraía muitos desses para bem pertinho sem querer, assim ele pensava.
O local onde morava era muito simples e muitas outras pessoas ali moravam também.
Havia as mesmas dificuldades e sofrimentos paras seus moradores e os seus olhos eram de tristeza e desesperança, no entanto, os olhos de João reluziam esperança e amor.
Eram olhinhos de luz.
O menino, certo dia, teve bastante paciência e carinho com um cavalinho-de-deus que se enroscou numa planta com muitos galhinhos finos.
Se fosse outro menino, seria mais provável deixar o pequenino insecto, preso, lá mesmo; entretanto, com calma e amor e falando muitas frases bondosas, João desvencilhou o pequenino verde e o devolveu à liberdade.
Outro dia ainda, observando uma menina mais nova que ele, em frente a uma mercearia do bairro simples, e já conhecendo o motivo por aquela visita - enorme vontade, há tempo, de comer um doce -, João não teve dúvidas, foi até o dono do local e, com toda educação e delicadeza, pediu-lhe que lhe desse uma guloseima, pois não podia pagá-la, para, assim, presentear a pequena menina que estava doente de tanta vontade de comê-la.
E realmente ganhou o doce e presenteou a pequena.
Os gatinhos, mesmo ariscos por natureza, viam de longe o menino João e vinham a seu encontro; os cachorrinhos eram seus grandes companheiros; os pássaros dançavam a revoada feliz; as outras crianças pobres corriam para perto dele.
As pessoas dali sempre diziam que o menino tinha mel, tamanha era sua doçura e não menos a sua bondade.
E tanto sofria com as maldades observadas de toda espécie, das insignificantes às nocivas demais.
Ele não compreendia como o ser humano conseguia ser ainda assim, mas, ao mesmo tempo, compreendia, de alguma forma, que cada um se encontra num estágio com suas proezas, defeitos, dificuldades, tristezas, dores e conquistas.
Cada um com sua responsabilidade.
No entanto, no coração de João as benéficas qualidades ocupavam quase todo o espaço, seu coraçãozinho era muito bondoso.
E numa noite de frio durante a madrugada, como a única forma de aquecer e iluminar as casas era por meio de lampiões acesos e todas elas possuíam um, foi numa das casas vizinhas da de João que, por um descuido, ao deixar o lampião muito na beirada da mesa, ele caiu e rapidamente o fogo se alastrou sem ter chance de abafá-lo.
A estação seca de inverno contribuiu para o alastramento do fogo e como as casas eram construídas de madeira e outros materiais inflamáveis e muito próximas umas das outras, em pouquíssimo tempo, uma enorme chama criou vida e ganhou altura.
O desespero tomou conta do simples lugar; quem conseguiu escapar a tempo tentava buscar ajuda aos menos felizes que, lamentavelmente, não tiveram a mesma sorte.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 17, 2018 7:58 pm

Mas o fogo ganhava força e suas chamas imperavam naquele triste momento.
Choro, desespero, dor embalavam o local.
João tentou, com outros, várias maneiras de salvar os desafortunados, no entanto, muitos deles ficaram presos em seus casebres.
A fumaça cinza e entristecida tomava o ar; por ser pobre e muito distante o bairro popular, o socorro demorou a chegar e menos pôde ser feito pelos sofridos moradores.
Após o desastre da chama e a ajuda dos bombeiros, felizmente, o incêndio foi apagado e também foi realizado o possível para auxiliar os necessitados.
O desconsolo abraçou o lugar.
Todos perderam suas casas e o pouco que tinham.
O que seria deles?
Era o comum pensamento.
Os sobreviventes estavam totalmente enfraquecidos pelo esforço, pelo susto, pelo desespero.
Uns andavam de um lado para outro sem noção do que fazerem; não havia quase nenhum lugar de pé; um ou outro casebre insistia em continuar, as cinzas de tudo estavam no chão.
E muitas pessoas haviam morrido; João perdera o avô e a avó, seus grandes companheiros, aliás, sua única família.
O menino olhava para tanta destruição e já doía muito a dor da perda dos avós.
Mas João tinha força e muita fé, acreditava que para tudo havia uma causa e sua consequência e se já havia tanta desesperança e tristeza não seria de nenhuma ajuda ele também se desesperar e ser mais um a precisar de cuidados.
Na verdade, João foi a luz naquela escuridão de lamento, foi a esperança para aqueles corações sem vida e desanimados, foi os braços a embalar as crianças chorosas, foi as mãos com água e comida a alimentarem os restantes moradores, foi o consolo aos animaizinhos machucados e carentes, foi a paz e o amor, foi as palavras doces de uma oração a um desvalido em sua última hora, foi a coragem dos socorristas, foi a determinação no momento da fraqueza em continuar, foi o bálsamo no olhar e a doçura ao falar, João foi até cada sobrevivente e abraçou cada irmão seu.
E o céu, em silêncio, assistia a tudo.
O menino era uma alma bondosa que só conhecia o desejo de amparar.
João, de facto, era um anjo em forma de menino, animado com a luz de Jesus, que em mais uma existência veio para amar e ensinar com bondade; as características, inclinações e conquistas serão presentes em todo tempo e lugar.
Com pelo menos um anjo assim, Deus abençoa os grupos de seus filhos.
São aquelas pessoas que, com benevolência no olhar, fortalecem outros olhares, curam e enchem de vontade os outros corações para quererem viver e melhorar-se.
E a mão suave de João consolava mais uma criança que acabara de ser resgatada com vida de um dos casebres acinzentados pelas chamas.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 17, 2018 7:58 pm

Uma joaninha com asas de borboleta
Se alguém começasse a ouvir o sonho de uma joaninha de um dos muitos campos de flores de uma cidade bem do interior de um país da América do sul, ou daria uma sincera gargalhada ou nem esperaria a história terminar ou, quem sabe, ouviria sem muito considerá-la.
Mas como se fala, sonho não tem medida e o que puder ser sonhado já é um sonho, embora entre sonhar e realizar exista uma distância às vezes.
E aquela tarde estava completamente linda naquele campo de flores e cores.
Tudo estava com mais brilho.
Os seres voadores enchiam de movimento colorido sobre as tulipas, margaridas, rosas e outras tantas senhoritas da natureza.
E se exibiam com graça aproveitando o bem-estar da energia pura, calmante, refazedora.
Porém, num galho de uma árvore antiga à lateral do campo, estava uma joaninha vermelha com pintinhas pretas.
Estava sozinha, não tinha nenhuma amiga joaninha, ou melhor, não tinha nenhum amigo.
Ela ficava quietinha observando, às vezes, chorava baixinho, mas como não tinha amigos, não havia nenhuma criatura com quem pudesse conversar, desabafar.
E mesmo naquela magnífica e reluzente tarde, a joaninha não conseguiu perceber nem um pouquinho toda a alegria no campo.
E os seus olhinhos se encheram ainda mais de lágrimas quando ela viu bem de perto o gracioso voo de uma borboleta grande, colorida, livre.
A borboleta voou para o campo.
E a joaninha chorou tanto que, sem força, dormiu no galho da árvore.
Durante esse soninho, ela sonhou que era o que sempre desejou ser:
uma linda borboleta colorida.
Voava por todos os lados, via tudo o que queria lá de cima, sorria e era feliz, mas se machucou ao tentar entrar entre as flores e querer observar os detalhes de cada uma.
Não era possível, pois era uma borboleta grande e seus ares deveriam ser maiores para as suas asas.
Uma folha apenas não era suficiente para protegê-la do sol forte ou da chuva gelada.
Não conseguia caminhar pela suavidade das flores nem sentir toda a sua delicadeza.
Também não tinha o brilho reflectido tão lindamente em suas asas… de borboleta como nas asas de joaninha.
Ainda no sonho, outra joaninha passou por perto da borboleta e simplesmente falou:
? Sou muito feliz… sou uma joaninha cheia de oportunidades… sou quem agora devo ser…
E a borboleta no sonho ficou muito pensativa até que despertou joaninha.
Continuava uma tarde linda.
Ela abriu bem os olhinhos e começou a ver tudo muito diferente.
Em seu coraçãozinho, uma alegria nunca sentida chegou de mansinho e se fortaleceu.
Também sentiu uma gratidão por estar viva e ser ela mesma.
Compreendeu que cada um é o que deve ser e todos possuem as suas qualidades.
Viu uma linda e grande borboleta passar à sua frente, mas se sentiu muito feliz em ser a joaninha pequenina e vermelha com pintinhas pretas naquele lindo campo que agora tanto queria conhecer.
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Re: Através da janela da vida - Cínthia Cortegoso

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 17, 2018 7:59 pm

Os personagens ao longo do tempo
Os olhos se viram. O sentimento sentia tão interiormente… de um tempo imensurável.
E os olhos ainda se reconheciam, pois, seu brilho, nem os séculos podem mudar.
Talvez aquele olhar tenha sido o mais observador de sua existência.
E a emoção trouxe o sorriso aos lábios; depois, a tristeza; em seguida, a surpresa; mais adiante, o contentamento de algo bom realizar.
Trouxe também as decepções por tantas barbáries cometidas, por ter feito quantos olhos chorarem pela falta da indulgência deste único olhar.
Sua face deu lugar a inúmeras outras:
menina, menino, negro, branco, homem, mulher, ocidental, oriental, espírito e novamente voltou ao retrato de sua alma actual.
A cada face lhe era impressa a sensação do personagem, ou seja, as consciências vividas amparadas pelas existências.
De facto, foram muito poucas frente ao total que lhe pertence, de tudo o que está em sua linha do tempo e não há como apagar.
E os olhos se relembraram de que estavam aqui para mais uma actuação, ou melhor, um desempenho mais preciso, o que realmente lhe é esperado.
Outra vez mais o despertador se anunciou.
O homem já estava no banheiro, de frente para o espelho, pois deveria se barbear e, de repente, sem compreender, tornou-se visitante de sua própria história.
Mais alguns segundos, permaneceu estático até se mover para desligar o relógio.
Ele ainda se pôs diante do espelho para retomar o momento.
No entanto, isso não lhe foi permitido.
As oportunidades sempre visitam, então, há a importância de estar preparado para reconhecê-las e aproveitá-las.
E o homem observou mais um tempo sua face, seus olhos e teve saudade de estar consigo, porém compreendeu que sempre estará consigo e decidiu, assim, que seria para si o melhor amigo, fiel e amoroso.
Suas conquistas sempre serão suas; suas faltas, precisará corrigi-las e seus méritos serão degraus para sua ascensão.
A experiência do momento o emocionou muito, pois percebeu que tão pouca atenção dispensa para tudo o que ainda de bom pode fazer, para o universo que é e continua em transformação.
Era um rosto… um rosto reflectido no espelho.
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