Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 8:36 pm

— Que coisa linda! — exclamou Denise.
Tão diferente das praias brasileiras!
Mas o mar é sempre divino.
Amo olhar para ele.
— Ah, não! Mais um concorrente — brincou Max, apertando-a.
Assim não dá! Vamos voltar para Paris.
— Não, não — apressou-se Denise, rindo e voltando-se para abraçá-lo.
Contudo, parou porque teve a nítida sensação de estar sendo puxada para longe de Max.
Voltou-se, olhou... e não havia ninguém.
Mas persistiu a impressão, e isso quebrou a mágica e a alegre descontracção do momento.
— O que foi? — perguntou Max, curioso.
— Não foi nada, ou melhor, foi apenas uma sensação.
Algo estranho. Senti alguém me puxando.
Max riu, trazendo-a para junto de si e abraçando.
— Você errou a direcção, bobinha — brincou e beijou-a.
Denise riu, retribuiu o beijo, mas logo interrompeu-o, com uma súbita falta de ar e a garganta apertada.
— É o sol — disse ela e afastou-se respirando com um pouco de dificuldade.
Max não deu muita importância ao facto.
Tomou-a pela mão e convidou:
— Vamos dar uma caminhada?
— E há algo que se possa fazer aqui sem precisar de uma "pequena caminhada"?
— É claro, sentar em um restaurante e comer.
— Peixe? — indagou Denise, torcendo o nariz.
— Sopas maravilhosas... de frutos do mar — provocou Max.
— Prefiro piqueniques com baguetes.
— Imagina! Isso é um sacrilégio!
Em Plante Mars a comida é obra dos deuses.
Reconquistando a descontracção, o casal prosseguiu o passeio.
No entanto, dia após dia, aqueles pequenos episódios foram se somando e ganhando intensidade.
A sensação de déjà-vu de Denise diante de alguns lugares era muito forte.
Por que em igrejas, meu Deus? — indagou ela em uma visita à Catedral de Notre-Dame de La Garde, diante da qual sentiu uma vertigem aliada à certeza de que conhecia o local.
— Max, eu posso descrever essa igreja para você — declarou Denise assustada, pálida, em frente ao grande prédio rodeado por uma infinidade de turistas das mais diversas nacionalidades.
Os cliques das máquinas fotográficas e as expressões de encantamento com a vista da cidade sequer eram registrados pelos namorados.
— Como ela é? Diga-me.
Vamos tirar a limpo essas sensações.
Fale — incentivou Max.
Denise, arfante, começou a descrever a basílica com detalhes arquitectónicos, falou das obras de arte sacra e da acústica, e finalizou assim:
— Mas a acústica não é tão perfeita quanto a da Abadia de Thoronet, a melhor da Provença.
— Quando você foi a esse lugar?
— Eu não sei, nem sei onde fica, mas sei que a acústica é perfeita.
Não me pergunte mais nada, por favor — pediu Denise.
E, apoiando-se em Max, desabafou:
— Essas coisas fazem eu me sentir mal.
Eu não gosto quando acontecem porque não sei o que é, não posso evitar nem sei para que servem.
Acho que só servem para me torturar.
— Acalme-se, meu bem.
Deve haver uma explicação.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 8:36 pm

Nós viemos aqui para conhecer o lugar.
E vamos conferir os dados que você narrou.
Veja, eu gravei — e mostrou-lhe o aparelho celular.
Agora, vamos entrar e fotografar ou filmar tudo que for possível.
Mais tarde, analisaremos o que falou e o que, de facto, existe lá dentro.
Denise olhou para Max e perguntou:
— Você acha que pode ser imaginação minha? Loucura, talvez?
— Não, não. Calma.
Eu acredito em você.
Vi como esse fenómeno a incomoda e a deixa mal.
— Eu me sinto perdida no tempo e no espaço.
Sei que é a primeira vez que venho aqui.
Mas, de alguma maneira, já conheço este lugar.
Além disso, tem esses nomes que vêm na minha mente.
Nem faço ideia do que seja ou de onde está localizada Thoronet.
Se é que existe.
— Existe, Denise.
Já participei de uma gravação lá.
A acústica é fabulosa, incrível mesmo.
Tão perfeita que as vozes precisam se harmonizar completamente.
Ela foi construída para o canto.
É uma antiga abadia trapista, depois foi cisterciense, mais tarde rolou por várias mãos e hoje é um prédio histórico.
É uma das chamadas "três irmãs da Provença".
As três abadias pertencentes à ordem cisterciense.
Quer ir até lá?
Denise encarou-o com os olhos arregalados:
— Ai, meu Deus! Não!
Eu não quero.
Não gosto de mexer nessas coisas.
Odeio quando isso acontece!
Nossas férias estavam tão boas! — lamentou Denise, irritada.
— Tudo bem — contemporizou Max.
Esqueça o convite.
Mas vamos entrar na Catedral de Notre-Dame de La Garde. Venha!
E puxou-a pela mão, sem olhar para trás.
Denise seguia-o com o rosto crispado, pálida e ansiosa.
Muito perto deles, alguém escondia o rosto sob um capuz marrom.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 8:36 pm

Capítulo 19
A última semana do festival foi uma prova dura para Denise e Max.
O encantamento com a cidade e o festival fora eclipsado pelo retorno daqueles episódios estranhos.
Lentamente Denise mergulhou na conhecida melancolia, as crises de ansiedade retornaram e ela não suportava mais aquele local.
Max tentara entender, ser paciente, mas perdia terreno para a irritação.
Até que, às vésperas do final do festival, tiveram uma briga violenta, com agressões verbais de ambas as partes.
— Eu não aguento mulher neurótica! Histérica! — berrou Max.
Você é insuportável, sabia? Uma chata!
Estragou as minhas férias.
E quer saber? Não aguento mais.
Fique aí com essa cara de doida, perdida no mundo.
Vou sair. Preciso de ar puro. Você não se ajuda. Parece que gosta dessa coisa, seja lá o que for.
— Vá, seu grande idiota! — retrucou Denise, irada.
Neurótica e histérica é a sua mãe!
Egoísta! Você não sabe nada.
Saia e vá aproveitar suas festas de música pop.
Eu as odeio!
Suma da minha vista!
— Ah, é assim?
Então se lembre de que este quarto é meu.
- Suma você! — revidou Max, que pegou a jaqueta jeans, jogou sobre os ombros e saiu batendo a porta.
Indignada, furiosa e agindo sem pensar, Denise saltou da cama, abriu o armário, pegou a mala, encheu-a, literalmente com seus pertences e a fechou.
Sem dar explicações, abandonou o hotel e foi à estação central de Marselha.
Partiu no primeiro trem rumo a Paris.
Durante as três horas de viagem, a adrenalina corria em suas veias e, rememorando a discussão e o sofrimento da última semana, que acabara até com sua libido, ela justificava-se e mentalmente crivava Max com todos os xingamentos de seu repertório.
Furiosa, chegou ao estúdio, em Paris.
Charlotte assustou-se ao ouvir o barulho da fechadura e saltou da cama.
Era madrugada.
— Por Deus, Denise, você quer me matar do coração?
— Não, quero que Max morra.
Ah, se eu pudesse esganá-lo, seria um prazer incrível — resmungou Denise, mal-humorada.
— Hum, entendi. Brigaram.
Fique calma, isso vai passar.
Brigas acontecem em namoros...
— Acabou! — declarou Denise enfaticamente.
Como pude me enganar tanto com ele!
É um estúpido, insensível, sem compreensão.
Desgraçado! Ah, eu quero as tripas dele no meu prato!
— Ih! Foi feio.
Mas não seria melhor esfriar a cabeça? — aconselhou Charlotte, tentando distraí-la.
Denise pareceu não ouvir, seguiu falando e despejando sua ira em cada palavra.
Charlotte consultou o relógio, eram quase seis da manhã.
Reparou na agitação de Denise, na palidez sob o bronzeado, nas mãos crispadas, nos olhos injectados de sangue e nas narinas dilatadas.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 8:36 pm

"Ela precisa se acalmar... e não adiantará eu voltar para a cama", considerou e então propôs:
— Vou fazer um chá e você me conta o que aconteceu.
De acordo? Não estou entendendo o que houve.
Só entendi que brigaram.
Denise aquiesceu e, minutos depois, enquanto relatava os acontecimentos à amiga, desatou a chorar.
Na catarse, ora xingava Max, ora xingava Deus e a vida, amaldiçoando as
"esquisitices" que a acompanhavam desde menina.
Explodindo num choro angustiado, disse:
— Eu só queria entender o porquê dessas coisas!
Que droga! Isso sempre estraga tudo, entende?
Charlotte abraçou-a, penalizada, e, ao fazê-lo, sentiu uma onda gelada envolvê-la.
Arrepiou-se, estremeceu e, lembrando--se das conversas com a tia, silenciosamente começou a orar pedindo calma e a presença de bons espíritos em torno da amiga.
Previu dias difíceis.
Denise comunicou à irmã o rompimento com Max apenas com uma frase no Facebook:
"Demorou mais do que os outros, mas acabou".
Retirou todas as fotos dele do celular, do computador, da memória da máquina fotográfica, colocou tudo em um pen-drive e jogou no fundo de uma caixa no armário de roupas.
Os antigos papéis de parede retornaram a suas páginas.
Com um clique fora fácil livrar-se das lembranças digitalizadas, porém, com o passar dos dias, a memória humana iniciaria seu conflito.
Charlotte acompanhava o processo, respeitando a imposição de silêncio da amiga.
Afinal, cada um tem sua própria maneira de lidar com a dor.
Alguns dias depois, em um fim de tarde, encontrou Max, por acaso, em um café onde esperava Maurice.
Ele aproximou-se de Charlotte e sorriu, mas a tristeza era perceptível no olhar opaco e na falta de entusiasmo dele.
Após uma conversa cheia de voltas e sem sentido, Charlotte decidiu abordar a questão:
— Você está sentindo falta de Denise.
— Está tão evidente? — indagou Max, fitando o tecto para não encarar a amiga.
— Cristalino. Diria que está escrito em letras garrafais.
— Puxa! Pensei que seria mais fácil.
Como ela está?
— Estranha. Calada.
Mergulhou no mundo da música.
Conseguiu um papel.
Será Emília, a dama de companhia de Desdémona, em Otelo.
Estreia em dois meses.
Está ensaiando como louca.
A cantora que faria o papel engravidou e sente muitos enjoos.
Então resolveram substituí-la.
Denise ficou com a vaga. Só fala nisso.
— Bom para ela.
Fico feliz — comentou Max, piscando rapidamente para disfarçar a emoção.
Não fala em mim?
— Não. Ela chorou muito quando chegou de Marselha, estava desequilibrada, triste, furiosa e confusa.
Depois se fechou num silêncio gelado.
Tem tido pesadelos nos últimos dias, chora dormindo, murmura e algumas vezes pronuncia o seu nome.
Ela sofre, eu vejo.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 8:37 pm

Acho que Denise também pensou que seria mais fácil esquecer você.
Ele sorriu e encarou Charlotte, em silêncio.
— Olha, estou esperando Maurice.
Por que não pede algo e fica connosco?
— Não quero incomodar — falou Max, com pouca vontade de recusar o convite.
Ele tinha necessidade de conversar com alguém, e ninguém melhor do que uma amiga de ambos.
— Você é meu amigo — protestou Charlotte.
Não me incomoda.
Está resolvido: você fica.
O que vai pedir?
Imediatamente chamou o garçom e acresceram o pedido.
— Agora, conte-me o que houve em Marselha — determinou Charlotte.
Era a ordem ideal para Max.
Ele estava com todos os factos e sentimentos presos em si, precisava desabafar.
Mas a verdade é que tinha poucos amigos, e nenhum sensível o bastante para entendê-lo.
— Meu pai sempre dizia que há coisas que um homem só pode revelar para uma mulher, por isso muitos procuram mulheres de programa.
Eu não gosto de pensar que é preciso pagar alguém para me ouvir.
Ainda bem que tenho você, Charlotte.
Ela sorriu com meiguice e comentou:
Interessante o pensamento do seu pai.
Segundo ele, poder-se-ia dizer que a prostituição feminina é uma necessidade da sociedade machista.
— É, acho que agora eu o entendo.
Comentei com um amigo sobre o fim do namoro com a Denise e ele me disse:
"Não se preocupe, arrume outra".
Foi tão frio! Não era o que eu queria ouvir.
Aliás, eu não queria ouvir nada, só precisava falar.
Parece que ele tinha medo de ouvir, como se fosse sentir o que sinto e isso fosse descabido.
Então menosprezou minha necessidade de desabafar.
Sabe, me senti fora de moda, foi esquisito.
— Ah, eu sei como é.
Infelizmente já encontrei amigas com esse mesmo pensamento.
São relações de consumo, sem querer ser chula, mas sendo, são de comer.
Triste! Por trás desse comportamento, há um medo de amar, de encontrar o outro, de mostrar-se.
São relações sem intimidade, sem cumplicidade.
Simplesmente um consome o outro sem compromisso.
— Certa vez, ouvi um professor dizer que o sexo era razão preponderante da cultura e socialização humana — lembrou Max.
Observando a expressão pensativa e, ao mesmo tempo, de espanto da amiga, informou:
— Você sabe que comecei vários cursos e ainda estou tentando concluir um. Foi em uma aula de sociologia.
Actualmente, há uma neurose por auto-suficiência e o sexo é, por natureza, algo que impulsiona para o outro, para compartilhar, há uma troca.
E havia toda a questão das religiões antigas, por incrível que pareça, mais evoluídas do que algumas actuais.
E é um impulso à socialização, surgimento das famílias, despertar de amor e por aí vai...
— Vi algumas comédias realmente neuróticas que abordavam essa questão de família, filhos...
O tema era a reprodução assistida.
Assisti ao filme como se fosse uma crítica social.
Mas o problema é que colocava a situação de uma mulher desesperada para ter um filho e recorrendo a clínicas de inseminação.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:39 pm

Algo como escolher um bebé em um catálogo de compra.
Isso é reflexo.
Acho que Eros foi despejado, perdeu o endereço.
— Bem, então ele anda vagando pelo mundo e se hospedou comigo — brincou Max.
— Sério?
— Sério. Descobri um pouco tarde, mas é o que sinto.
Me apaixonei de verdade pela Denise — declarou Max, relembrando e relatando os fatos vividos em Marselha.
Maurice chegou no café e notou, pela expressão de Max e Charlotte, que a conversa era necessária.
Aproximou-se, beijou a namorada, cumprimentou Max, sentou-se e, em segundos entendeu o que se passava.
— E foi isso, meus amigos.
Situações estúpidas que, não sei como, deixei que ganhassem essa proporção.
Sabe, sou um cara paciente e gosto mesmo da Denise.
Eu sabia das "esquisitices" dela e sempre disse para mim mesmo que aquilo era coisa dela, que não tinha por que influir em nosso relacionamento e, principalmente, confiei que ela superaria aquilo pela nossa felicidade.
Puxa! Como me enganei!
Bem dizem que o amor nos deixa cegos.
Charlotte e Maurice trocaram um olhar de entendimento, daquele tipo que só duas mentes cúmplices são capazes.
Dispensam palavras, dialogam por pensamento.
Um olhar basta para saber o que o outro pensa ou deseja.
Maurice balançou a cabeça afirmativamente e, em seguida, meneou-a na direcção de Max, como se dissesse à namorada:
"Conte a ele".
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:39 pm

Capítulo 20
Charlotte não foi uma boa mensageira do Cupido.
Suas tentativas de conversar com Denise, sugerindo uma reaproximação com Max, foram barradas.
Maurice não teve melhor sorte. Então decidiram calar-se, lamentando a atitude da amiga.
Instado pelos amigos, Max procurou-a para desculpar-se.
Ela o tratou friamente, não lhe dispensou mais do que três frases, trocadas nas escadarias em frente à ópera, em meio a centenas de pessoas.
Pensando que ela estava magoada, ele deu-lhe mais um tempo e depois telefonou.
Foi atendido pela secretária electrónica e nenhum de seus recados recebeu resposta.
Após essas tentativas, desistiu de Denise.
Mergulhou no trabalho, voltou a encontrar-se com os amigos e evitou qualquer lugar onde pudesse encontrá-la.
Continuava amigo de Charlotte e Maurice, pois eles compreenderam que esbarravam em uma vontade superior à deles.
Continuavam a sair juntos e, numa dessas vezes, Max comentou:
— Charlotte, Denise não quer reatar comigo.
Eu me apaixonei, ela não. É simples assim.
Meus amigos, isso dói, mas não mata, certo?
Vou esquecê-la. Melhor!
E vou usar essa energia para a minha arte, para ficar famoso.
Afinal, esse foi o segredo de muitos conterrâneos famosos, não é?
— Não só a arte francesa vive da dor do amor — lembrou Maurice.
É universal e atemporal.
— É — concordou Charlotte, vacilante e pensativa.
Mesmo nesta época de relacionamentos virtuais, ainda há lugar para uma dor de amor.
— Sua tia explicaria isso maravilhosamente bem, minha querida.
Ela diria: "A sociedade evolui, surgem novas tecnologias, mas no fundo reeditamos práticas antigas com novas roupagens.
As leis universais estão latentes na consciência humana e nos impulsionam à felicidade.
Por isso, não há nada de novo sobre a Terra, se olharmos com atenção" — declamou Maurice, imitando a enfática Berthe.
Max sorriu.
Ouvira tanto falar nessa senhora que estava curioso para conhecê-la, quase ansioso.
— Contarei a tia Berthe o que você fez — advertiu Charlotte, rindo.
— Ela vai adorar.
Conte! — provocou Maurice, abraçando-a e encostando a cabeça na dela.
— Convencido! — acusou Charlotte.
Você acha que conquistou a família toda, não é?
Vá com calma para não cair do cavalo com tia Berthe.
— A família é grande? — indagou Max, feliz pela saudável relação dos amigos.
— Duas mulheres: Charlotte e Berthe — respondeu Maurice.
Max ficou espantado com a resposta.
Charlotte era tão expansiva e determinada que o surpreendeu a informação.
Sabia que ela era órfã, mas desconhecia a história da tia que a criara.
Sempre pensou que ela pertencesse a uma grande família.
— Surpreso?! É porque você não conhece minha tia-sogra.
Quando eu a conheci já era tarde.
Se meu coração fosse livre, teria me apaixonado por Berthe — declarou Maurice.
E não me olhem assim!
Falo sério. Adoro Berthe!
Ela virá a Paris na semana que vem — informou Charlotte.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:39 pm

Denise enviou-lhe um convite para assistir à apresentação
dela.
Imagina se ela não viria, sabendo que a direcção de arte é do queridinho dela aqui presente.
— Corrija-se, meu amor:
eu não sou o queridinho.
Sou Maurice, e eu e sua tia somos amigos, apesar de você estar em nossas vidas.
— Você viu, Max?
Ele realmente me trocaria por uma mulher com mais de sessenta anos! — protestou Charlotte, brincando.
Entrando no clima de amistosa brincadeira, Max provocou:
— Não seria qualquer mulher...
Ele a trocaria pela sua tia.
E não se preocupe, Charlotte.
Você pode deixá-lo visitar asilos.
Não é nenhuma tara incontrolável por velhinhas.
Mas cuide-se com dona Berthe.
Freud talvez explicasse... quem sabe seja algum complexo edipiano tardio...
E, convenhamos, as mulheres mudaram muito.
O cinema está cheio de gatas de cinquenta anos.
A maturidade fica linda nas mulheres.
Talvez, depois dessa experiência com Denise, eu opte por um relacionamento com uma mulher mais experiente.
Acho que deve ter menos drama e mais alegria.
— Você entendeu — falou Maurice.
Concordo com tudo o que disse, menos com a ligação entre maturidade emocional e idade.
Nem sempre andam juntas.
Deveriam, mas idade física e idade emocional são coisas distintas.
— Embora você não aceite muito, eu insisto:
Denise não age sozinha.
Ela carrega problemas, não sei quais são, mas vêm de outros tempos — disse Charlotte, dirigindo-se a Max.
— Minha amiga, Noru há muito tempo me disse:
"Quando não existe inimigo no interior, o inimigo no exterior não pode te machucar".
— Hã? — indagou Charlotte.
— Admito que ela tenha inimigos interiores.
Se são neuroses ou espíritos, que diferença faz?
Ela escolheu dar-lhes força.
— Sei. Bonito o pensamento do seu amigo, Max — disse Charlotte.
— É um provérbio africano.
Noru adora citá-los.
Chama de cápsulas de sabedoria.
Para ele, filosofia funciona como remédio para a mente e a alma, desde que ingerida e processada, ou seja, acompanhada de um processo de reflexão.
— Já imaginou, Charlotte, como seria legal um encontro entre sua tia e o amigo do Max?
Eu adoraria ouvi-los — comentou Maurice.
Seria inspirador.
Charlotte bebericou o vinho e, fitando o namorado e depois o amigo, falou séria:
— Estou ansiosa pela visita de tia Berthe.
Vocês não imaginam o que é viver com uma criatura assombrada.
Tenho medo todos os dias do que encontrarei quando chegar em casa.
Entendam, não tenho medo de espíritos, cresci sabendo que somos espíritos imortais e a morte física equivale à perda de uma das roupagens do espírito quando encarnado...
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:39 pm

— Traduza, Charlotte — pediu Max.
— Charlotte é da moda, Max — lembrou Maurice.
O que ela está dizendo é uma comparação.
Nós todos, os ditos vivos, temos um corpo material, outro semi-material e a essência ou espírito, aquilo que realmente somos.
Então, o corpo é como se fosse um casaco que você usa no inverno.
Quando passa a estação, você se livra dele e segue existindo.
Max ouviu, pensativo, e comentou:
— Sendo assim, eu não sou um corpo, eu tenho um corpo.
É essa a relação que vocês fazem?
— Sim, exactamente — respondeu Charlotte.
— Isso tem muitas implicações, desloca o centro da vida.
Já pensaram nisso? — questionou Max.
— Lógico — respondeu Maurice.
Essa visão altera o entendimento de tudo, absolutamente tudo, na experiência humana.
— É interessante, mas não nos tira o chão?
— Ao contrário! — falou Charlotte.
O que nos tira o chão é pensar que a vida é apenas a matéria.
Sob esse enfoque, você está sujeito ao acaso, à injustiça e ao egoísmo puro e selvagem.
Veja à nossa volta:
o mundo tem muitos problemas, mas nunca se conheceu o reinado absoluto do egoísmo puro e selvagem. Por quê?
Boa pergunta!
É o oásis moral humano?
É acção do instinto do sobrevivência?
Afinal, se imperasse o egoísmo selvagem decorrente da visão materialista, não haveria cultura nem sociedade... — questionou-se Max, espetando um pedaço de queijo da tábua de frios sobre a mesa.
Não sei, nunca havia pensado nisso.
— É porque não existe.
Simplesmente, por isso.
O progresso que testemunhamos na história da humanidade fala da condução da espécie em direcção ao bem.
As estruturas sociais evoluíram.
Note que elas vêm das esferas animais para nos proporcionar bem-estar.
Essa busca pelo bem move o homem para o progresso.
Instintiva e emocionalmente nós sabemos que somos mais do que um corpo, que a vida é maior do que a aventura de uma existência entre o berço e o túmulo — argumentou Maurice.
O ser humano se rende ao bem e ao amor quando os encontra, não importa em que condições, pois isso é da nossa natureza.
Sei que há longas filas nos cinemas para filmes de guerra e violência.
Também sei que, se eu for ciumento, aplaudirei Otelo quando matar Desdémona e jamais acreditarei que ela era inocente e que nunca o traiu.
Ainda nos identificamos com o mal.
Há uma propensão a usar a energia da ira de forma descontrolada.
Aliás, somos emocionais demais e racionais de menos, com mais frequência do que seria desejado.
Mas quando alguém enfrenta o mal com o bem, a sociedade rende-lhe um tributo imortal.
Pois, nesse caso, há uma conexão com o mais profundo do ser humano, com a nossa consciência.
E lá todos nós sabemos o que é o bem e o mal e quais as opções certas.
E é essa percepção profunda e inconsciente, na maioria das vezes, que rege nossos destinos e guia-nos ao progresso.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:40 pm

O egoísmo puro e selvagem nunca se desenvolveu, assim como nunca se desenvolveu uma sociedade cem por cento materialista.
Elas são antinaturais.
— Espera aí, Maurice!
As ideias materialistas estão semeadas pela sociedade.
As igrejas são excelentes museus de arte sacra e cultura do passado — rebateu Max.
Muita gente já não acredita em suas histórias.
- Eu sei, eu sou um deles, Max.
Charlotte também, e provavelmente a maioria das pessoas com as quais lidamos no dia a dia.
Mas não estou falando de religião.
Estou falando de filosofia.
E a filosofia materialista não consegue muitos adeptos.
O ser humano não é só matéria.
Viver é uma experiência transcendental.
Somos espiritualistas, por natureza.
As crenças entram em outro capítulo.
Muitos se dizem ateus ou agnósticos não por terem profundas convicções e provas a respeito da inexistência de Deus, da alma humana e das questões relativas, mas porque não aceitam o que lhes apresentam as religiões como caminhos de fé.
Entra aqui o próprio conceito de fé para ser questionado.
Nisso eu concordo com você:
já passou o tempo de crer em histórias do poder mágico da madeira do berço de Cristo.
Entretidos, conversaram horas a fio.
Surpresos, viram os garçons começarem a arrumar o pequeno salão.
Pessoas tinham ido e vindo, e eles não tinham percebido a movimentação no café.
Mas, acostumados a uma saudável boémia, pagaram a conta e seguiram a conversa pelas calçadas da cidade.
O resultado do encontro foi que, no dia seguinte, sábado, Max os aguardava em frente ao endereço mencionado na rue Saint-Jacques.
Maurice e Charlotte trocaram um sorriso de contentamento ao vê-lo parado na calçada.
— Que bom que veio, Max! — falou Charlotte ao cumprimentá-lo.
— Vamos entrar, está quase no horário — lembrou Maurice, sorrindo ao amigo.
Espero que goste.
— Há mais pessoas interessadas do que eu imaginava.
Até vi entrar algumas pessoas que eu não imaginava encontrar em um evento desses.
Uma surpresa!
— Por quê? — questionou Charlotte.
— Sei lá, um preconceito bobo.
— Esses temas sempre mobilizaram pessoas inteligentes, Max.
Pensadores do passado e do presente se interessam por ele.
Maurice calou-se.
Entravam no salão destinado à exposição e debates da tarde e a assistência se colocava educadamente em silêncio.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:40 pm

Capítulo 21
Conforme se aproximava a estreia de Otelo, Denise tornava-se mais introspectiva.
Após o rompimento com Max, ela fechara-se para tudo e para todos.
Comia, dormia e respirava apenas para dedicar-se à música.
— Denise, você precisa se distrair — alertou Charlotte.
Vamos descer, somente eu e você, e procurar um bom crepe de champignon e um vinho.
O que acha?
Vemos o movimento do fim do dia, conversamos um pouco... Vamos?
— Não estou com fome e ainda não estou bem segura da forma de interpretar alguns versos.
Preciso treinar mais.
Ofélia é complexa, ela trai sua senhora por amor ao marido, que é um crápula, e depois se arrepende.
Há uma intensidade dramática nela... preciso rever...
— Não precisa, não.
Você está enfurnada neste estúdio há semanas!
Sabe o que acontecerá?
Stress, querida.
E não aceito sua resposta.
Vamos! Eu sei que esse papel é importante para você, mas a grande estrela é outra pessoa.
E Charlotte agarrou Denise pelo braço, puxando-a pela porta.
Denise riu da insistência da amiga e lembrou:
— Preciso pegar a bolsa... arrumar o cabelo...
— Não precisa nada!
Precisa sair daqui, isso sim.
Eu pagarei a conta e seu cabelo está bom.
— Isso é um milagre! — brincou Denise, deixando-se puxar pelas escadas.
Você nunca achou o meu cabelo bom.
— Existe um movimento de aceitação da beleza natural de cada pessoa, já ouviu falar?
Eu aderi a ele — rebateu Charlotte.
— Basta de padrões!
Aceite-se como é e trate de ser feliz com o que tem.
Muito sábio!
Fim das neuroses e futilidades femininas. Amei!
— Você passou por alguma experiência de liberação da criatividade? — perguntou Denise, ao chegarem à calçada, ajeitando o cardigã para proteger-se dos primeiros ares do outono.
— Deus do céu, as noites já estão frias!
Ainda não terminou o verão...
Se há algo do que sinto falta é do calor do Brasil.
Acho que não vou me acostumar nunca ao inverno, ao frio.
Eu gosto do sol.
— Se está sugerindo que ingeri alguma droga para liberar inibições, esqueça!
Não me ofenda! Eu não preciso disso.
Essas viagens são muito curtas.
É o tempo entre o oi e o tchau.
Jamais me envolvi com drogas.
Alegria e criatividade falsas não me interessam.
Não desejo ser um ícone, quero criar moda para o povo.
E o inverno ainda está bem longe.
No próximo ano, lembre-se de aproveitar mais o verão.
No último mês, você foi da escola para o trabalho e de lá para casa e se encontrou com o sol apenas nas calçadas.
— É verdade!
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:40 pm

Mas é por uma boa causa.
É isso o que vim fazer na França, Charlotte.
Será que estarei aqui o ano que vem?
Meu período de intercâmbio termina em dezembro.
— Meu Deus, que rápido!
Eu não tinha percebido que falta tão pouco!
— Pois é. Você está muito envolvida com o término de seu curso e com Maurice.
— É meu último semestre.
Inacreditável! Precisamos comemorar.
Vou beber duas garrafas de vinho.
Vamos até a ílê de Paris?
Adoro a Notre-Dame e o Sena nesta época.
Lá tem um crepe muito bom.
Que tal?
Rendida à empolgação da amiga, Denise concordou.
Prazerosamente, entregou-se ao som das ruas parisienses.
Gostava de ouvir o burburinho, pois, ao cair da tarde, sempre havia ao fundo o som dos acordeões lembrando às pessoas a melodia inconfundível da música francesa.
— Acho que nunca esquecerei os sons e aromas das ruas de Paris — comentou Denise.
Nem do vento gelado.
Charlotte ignorou o comentário.
Tomaram o metro e pouco depois desciam às margens do Sena, contemplando a graciosa e milenar igreja.
— Essa é a única igreja que gosto de visitar.
Ela tem algo de diferente.
Acho que é porque celebra a vida — comentou Charlotte quando se aproximavam da praça em frente à igreja.
— Você não vai querer entrar, não é? — indagou Denise.
— Não, hoje não.
Eu gosto do lugar, não necessito entrar.
Mas sabe que, às vezes, eu venho fazer preces e meditar.
— Só se for de madrugada, porque ela está sempre cheia de turistas.
Como consegue ficar em silêncio e meditar com tanta gente?
Eu acho impossível.
— Mas não é, Denise.
E mesmo cheia de turistas ela me transmite paz.
Gosto de ficar no seu interior sombrio. Consigo ignorar completamente o movimento ao redor.
— Você é uma caixinha de surpresa, Charlotte.
Eu não a imaginava meditando refugiada em uma igreja.
Pensei que não se interessava por religião, quer dizer, nunca a ouvi falar em ir à missa ou cultos, enfim... essas cerimónias.
Compraram a refeição e seguiram até o jardim, nos fundos da igreja.
Um local tranquilo, aprazível, de onde podiam observar o movimento, comer e relaxar.
— Realmente, eu não participo de cerimónias e também não gosto.
Não sou adepta dessas religiões.
Acredito na religiosidade natural do ser humano.
Respeito todas as crenças, quem as professa e seus lugares de culto.
Meu caso com a Notre-Dame é de amor antigo.
Eu amo o prédio, a construção e sinto uma energia boa.
Cada pessoa que vem aqui deixa marcas nesse local.
Admiram a arte, a história, veneram a vida, seus sentimentos impregnam o local.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:40 pm

Como são bons sentimentos, criam uma atmosfera agradável e atraem cada vez mais sentimentos de bem-estar.
Já vi alguns turistas chegarem irritados na porta da igreja e depois se tranquilizarem.
Nem percebem, mas é o local, as energias daqui que fazem isso.
Esse local é depósito de energias de fé e esperança há milénios.
O prédio actual foi erguido sobre as ruínas de um antigo templo pagão de adoração à deusa Mãe.
Charlotte fez uma pausa, mordeu seu crepe e depois tomou um longo gole de vinho.
Ficou contemplando as gárgulas e suas caretas e sorriu.
Denise acompanhou-lhe o olhar e comentou:
— Demorei para assimilar a existência desses monstrinhos em igrejas.
Não me lembro de nenhuma construção assim no Brasil.
Acho que não deve ter mesmo, porque isso é tipicamente medieval.
Nossas igrejas são do período Barroco.
Agora eles me parecem bonitinhos.
— As gárgulas representam os defeitos humanos, o que há de ruim no homem e que deve ficar do lado de fora do templo.
Lá dentro só o sagrado é admitido.
Naquela época em que matavam em nome de Deus, essa maneira de pensar até se justificava.
O homem era um dentro do templo e outro fora.
Depois vieram os movimentos do Renascimento, do iluminismo e essa concepção foi mudando.
Em igrejas desse período não se vêem gárgulas.
— No meu país as igrejas são dos séculos XVII e XVIII.
Corresponde ao período colonial e elas têm apenas uma torre inteira e a outra inacabada.
Sabe por quê? Para evitar a cobrança de impostos sobre a construção.
O imposto tinha que ser pago quando a construção estivesse concluída, como faltava uma torre...
Charlotte riu e lembrou que, na mesma época, acontecia a Revolução Francesa, que também tinha questões tributárias entre suas causas.
Após terminarem a refeição, permaneceram sentadas, conversando e observando o entardecer e a mudança da paisagem com a iluminação eléctrica.
— De alguma maneira, as gárgulas ainda sobrevivem.
Por isso gosto de olhar para elas.
— Contemplar os defeitos humanos, a dualidade...
É interessante!
Trabalhando o texto de Shakespeare, não tem como fugir de pensar um pouco nisso — falou Denise.
Amor, ciúme, posse, violência, cuidado, fragilidades, sofrimentos.
Em português, dizemos que amor rima com dor.
E é facto.
Os amores são sempre trágicos.
— Será? Eu estava observando aquele casal na mesa do restaurante do outro lado da rua.
Veja! — disse Charlotte.
— Os velhinhos? — perguntou Denise, vendo um casal septuagenário que conversava animadamente.
São turistas entusiasmados com Paris.
— Devem ser mesmo.
Máquinas fotográficas penduradas no pescoço não enganam.
Mas não é só isso que eu estava observando.
Eles têm um brilho na expressão, é alegria.
E estão sozinhos, felizes...
— E por que não estariam?
Devem ter saúde e dinheiro para viajar — comentou Denise.
— Sim, isso é bom, lógico.
Mas não vi diferença entre eles e aquele outro casal mais jovem. Veja!
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:40 pm

Discretamente Charlotte apontou o casal, e continuou sua análise:
— Eles estão namorando, curtindo as coisas boas da vida.
Devem ter tido seus momentos ruins juntos, mas se isso aconteceu, é passado.
É nesse amor que eu acredito.
Já li Orfeu, já vi filmes baseados na obra, e acho que Shakespeare escreveu essa peça pensando em retractar um relacionamento de paixão com uma pessoa doente, possessiva e ciumenta. Isso é diferente de amor.
Amor para mim é o que está escrito no olhar daquele velhinho contemplando a companheira.
É doce, é manso, é forte e flexível.
Não arde, nem queima, simplesmente brilha.
É estar ao lado, é ser com o outro e não subjugar o outro.
Amar não é sofrer, ao contrário, é libertação da dor.
Relacionamentos que causam sofrimento não têm por base o amor.
Denise ficou calada observando o casal.
Charlotte também.
E as duas sorriram quando eles saíram do restaurante de mãos dadas e com passos lentos.
— É um andar junto, crescer, aprender... no mesmo ritmo — concluiu Charlotte.
— Será que não estamos romanceando demais, Charlotte?
Meus pais têm um casamento sólido, estão juntos há trinta anos ou mais e espero que envelheçam juntos.
Mas eu não saberia dizer se eles se amam.
— Você nunca viu eles sorrirem um para o outro por "nada"?
Trocarem carícias? Cumplicidade?
— Não sei. Talvez eu tenha sido egoísta e imatura demais para observar isso.
Minha preocupação era comigo, e eu os observava a partir das minhas demandas e na solução delas.
Engraçado... Nunca pensei nos meus pais como amantes ou na relação deles sem a minha presença ou a da minha irmã.
Coisa doida, não é?
— Concordo.
Você sabe que a minha família é muito pequena.
Somos apenas eu e tia Berthe.
Mas me recordo dos meus pais namorando, lembro-me deles rindo um para o outro, brincando...
Eles tinham uma relação antes da chegada dos filhos e ela prosseguiu connosco, e creio que depois de nós.
Onde estiverem, acredito que se amem.
Depois que eles morreram e eu fui viver com tia Berthe, ela sempre fez questão de relembrar isso e a gente se consolava no amor deles.
Isso nos dava força para prosseguir na vida.
— Que bonito!
Obrigada por compartilhar isso comigo — agradeceu Denise, emocionada.
E a sua tia, nunca se casou?
— Sim. Tia Berthe casou-se, divorciou-se.
Casou-se outra vez, ficou viúva...
— Ah, coitada!
Mas é uma história comum.
— Não é, não.
Tia Berthe é uma criatura única.
Ela virá a Paris com o namorado para a estreia da peça.
Denise arregalou os olhos e riu:
— É mesmo? Que legal!
Você disse que ela tem mais de sessenta anos, não é?
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 8:41 pm

— Sessenta e três.
Ela é minha tia-avó.
— Estou curiosa para conhecê-la.
"E eu ansiosa para que ela a conheça", pensou Charlotte, encarando a amiga em silêncio.
— Tia Berthe é admirável.
Eu a amo muito, sou suspeita para falar dela.
— E ela a ajudou bastante, não é?
— Engraçado, ela não permite que ninguém diga isso.
Sempre corrige e enfatiza que uma ajudou a outra.
Tia Berthe nunca me cobrou nada nem estimulou qualquer sentimento de gratidão.
Simplesmente ela me ensinou a amar.
Quando as pessoas descobrem que sou órfã, que ocorreu "uma tragédia" na minha infância, às vezes ficam me olhando com ar de piedade como se aquilo ainda fosse presente.
Sou eu que tenho que chamar a atenção delas lembrando que aquilo já foi, é passado.
Aí me vêem como "durona", tecem mil comentários até entenderem que superei mesmo, não tenho mágoa, nem rancor, não tenho revolta com Deus nem com a vida.
E sabe por quê?
Porque tia Berthe não se limitou a me amar, ensinou-me a amar.
— E ela mesma não encontrou ainda o "grande amor", pelo visto.
— Como o daqueles velhinhos? Acho que sim.
— É? Seria como Vinícius de Moraes descreve:
"Mas que seja infinito enquanto dure"?
— Não. Para tia Berthe, amar é o seu modo de viver.
Ela não teve um companheiro apenas, mas sei e vi que amou e ama intensamente as pessoas que vivem em torno dela.
E são muitas!
Ela nunca está sozinha.
É algo impressionante.
— Quer dizer, ela nunca está como eu agora: sem namorado?
— Não, ela nunca está sozinha.
Vive cercada de pessoas e também de namorados.
Mas ela não é o tipo de mulher que não sabe ou não consegue viver sozinha, ao contrário.
— Falta pouco para eu conhecê-la.
Não posso voltar ao Brasil sem conhecer uma mulher assim — brincou Denise.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:01 pm

Capítulo 22
O teatro estava lotado.
No camarim, Denise ouvia os sons da plateia misturado ao corre-corre e à balbúrdia do elenco.
Estava uma pilha de nervos, mais tensa do que as cordas dos violinos da orquestra.
Jeanne, uma colega, observou que ela estava pálida e trémula.
— Quer um uísque ou um conhaque? — ofereceu-lhe, mostrando o copo.
— Não, obrigada.
O álcool faz eu me sentir pior — justificou Denise.
Jeanne deu de ombros e entornou um grande gole.
Instantes depois, sorria mais relaxada.
— Pois para mim é imediato.
Uma dose generosa é o suficiente.
Tem certeza de que não quer, Denise?
Vai ajudá-la a acalmar-se.
— Obrigada, Jeanne.
Realmente não é bom para mim.
Não se preocupe, ficarei bem.
Só preciso de alguns instantes de sossego, mais nada.
— Em noite de estreia?
Isso é artigo de luxo, querida.
Todos estão nervosos.
É, eu sei.
Mas acho que me expressei mal.
Quis dizer que só preciso meditar um pouquinho — corrigiu-se Denise.
— Hum! Está bem.
Mas, se mudar de ideia, a garrafa está do outro lado — e apontou um lugar no camarim colectivo.
Sei que é superimportante para você hoje.
É a primeira vez que cantará sozinha, mas lembre-se:
você não é a figura principal. Relaxe!
— Eu sei, você tem razão, Jeanne.
Mas, não adianta, no meu coração Emília é mais importante que Desdémona e o próprio Otelo.
Sou eu que lhe darei vida.
Não tente entender, sou neurótica.
É meu jeito de ser.
Acredite, sei que são minutos em que cantarei sozinha contracenando com uma cantora experiente, mas para mim valerão por uma ópera inteira — falou Denise, enquanto ajeitava a roupa da personagem.
Jeanne não argumentou.
"Talvez ela esteja certa", pensou, admitindo que estava na escola havia mais tempo e não tinha recebido, ou melhor dizendo, conquistado a mesma oportunidade.
Na plateia, Charlotte e Berthe acomodaram-se nas cadeiras reservadas.
— Esse prédio é lindo! — elogiou Berthe, admirando discretamente a cúpula e depois o palco.
Preciso agradecer a Maurice e a sua amiga por esta oportunidade.
Fazia anos que eu não vinha aqui. Ele é uma jóia!
— É sim. Eu, particularmente, o considero exagerado, mas era o estilo da época.
E você sabe que gosto das linhas modernas.
— Sim, querida, tudo muito simples, muito limpo, muito recto.
Eu não entendo como não mora em La Défense.
— Um dia, quem sabe...
— Com Maurice?! Será difícil.
Ele ama o clássico e o erudito.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:02 pm

Veja onde estamos! — brincou Berthe.
Mas, é óbvio, o clássico sempre faz concessões, aceita estilos novos e dá um jeito de influenciá-los.
Então você pode ter alguma esperança.
Charlotte riu e indagou:
— Você está prevendo algo no meu futuro?
Teve alguma visão comigo?
A troco do que essa conversa sobre eu morar com Maurice?
- Ah, Charlotte, não me decepcione.
Por favor! Eu tenho experiência suficiente para reconhecer um casal apaixonado.
Não preciso consultar os meus mentores espirituais para isso Minha querida, alguns caminhos são clássicos, muito clássicos nesta vida.
Um deles é o dos apaixonados.
Modernizam-se costumes, mas os desejos da alma humana são eternos.
Quando se ama, se quer ficar junto, compartilhar.
As coisas mais banais ganham um sabor especial, mas incompreensível aos que não fazem parte da relação.
É simples, é natural querer morar junto.
Querida, essas são as previsões de quem viveu nada mais do que sessenta e três anos sobre a Terra e várias experiências com o amor.
Charlotte riu baixinho e, sem se conter, discretamente colocou a mão sobre o colo da tia, chamando-lhe a atenção.
Berthe baixou a cabeça e logo tomou a mão da sobrinha, erguendo-a em frente aos olhos para apreciar a jóia que brilhava em seu dedo.
— Que lindo, querida! Parabéns! — e abraçou Charlotte efusivamente.
Vocês serão felizes.
É tão fácil prever que um casal que se ama e se conhece será feliz!
Eu não disse que Maurice era o estilo clássico?
Pretendem se casar logo?
— Bem, ganhei este anel ontem à noite — revelou Charlotte.
— E se está no seu dedo é porque aceitou o compromisso.
— Sim. Planeamos nos casar no final do ano.
Até lá, faremos algumas arrumações no apartamento de Maurice e eu vou ajeitando a minha vida também.
Preciso concluir o curso de moda, ainda farei um estágio rápido em Milão no próximo mês e tenho que arrumar as coisas que estão lá em casa, em Nancy.
— Conte comigo, querida!
— Sempre, tia.
Eu sempre conto com você, ainda não percebeu?
Berthe sorriu e apertou a mão de Charlotte.
Ouviram soar a campainha anunciando o início do espectáculo.
As luzes diminuíram e imperou o silêncio na plateia.
Os acordes da música ecoaram pelo teatro, tomando todos os espaços.
O palco foi iluminado e abriram-se as cortinas.
Berthe, de mãos dadas com a sobrinha-neta, concentrou-se no espectáculo e, em especial, no elenco.
Com facilidade, identificou Denise.
É ela — informou Charlotte, sussurrando no ouvido de Berthe quando Dénis entrou em cena.
— Eu sei, meu bem.
Ao término do segundo ato, Charlotte confessou:
— Estou impressionada com Denise.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:02 pm

Como é segura em cena!
Ela tem domínio de palco, não lembra em nada a criatura problemática que mora comigo.
Maurice me falava dessa transformação, mas eu não conseguia imaginar.
— É — respondeu Berthe, reticente e pensativa.
Ela é outra, ou melhor, tem outra por dentro.
Mas todos nós temos, não é mesmo?
Charlotte concordou e deixou-se envolver pelo clima do espectáculo dramático, que seguia o crescente de toda obra genial.
Verdi compôs a ópera sendo extremamente fiel a Shakespeare.
O clímax era o final.
Ele sabia que o público raramente lembra o início de uma história, mas, se faz sucesso, o fim é sempre lembrado.
É o impacto que ele guarda consigo.
Denise interpretando Emília igualou-se à interprete de Desdémona.
A cena das duas arrepiou e arrancou suspiros da plateia.
Desdémona representava a vítima pura e indefesa da maldade humana.
É um sonho que vive no imaginário.
Emília é bem real.
É a vilã boazinha, fingida, a pessoa que esconde a ambição e trai afectos por uma mísera quantidade de moedas.
Mas, dividida entre a ambição e a amizade a Desdémona, o peso da culpa após o assassinato a faz arrepender-se e confessar seu crime, entregando a intriga orquestrada por lago para tornar-se o capitão da guarda.
É uma figura que incomoda, desperta rejeição, piedade e, ao mesmo tempo, forte identificação com o público.
Afinal, seu crime era a intriga, a fofoca movida pela ambição.
Desdémona cantando a Ave-Maria era a representação do anjo em injusto sofrimento.
Tocava a sensibilidade da plateia.
Essa emoção tornaria mais hediondo o crime de Otelo, as intrigas de lago e Emília.
A manipulação da paixão pela razão fria e calculista, lago aproveita-se do amor doentio e ciumento de Otelo, da sua insegurança por viver um amor cheio de preconceito é um mouro casado com uma nobre —, e insufla o ciúme e o leva a assassinar a amada Desdémona.
Com isso, arruína-se.
O leão está caído.
Emília não esperava o desfecho trágico e arrepende-se.
Denise deu-lhe a dramaticidade exacta.
O público aplaudiu de pé e pediu o retorno do elenco mais de uma vez.
Maurice exultava com o sucesso.
Quando abraçou Denise, exausta e suada, não se conteve:
— Você foi sensacional, garota!
Brilhante! Vi nascer uma grande cantora lírica.
Merde! Merde, querida!
Denise estremeceu nos braços do amigo, apertou-se contra seu peito e, inesperadamente, sentiu-se pequena, frágil e sozinha.
Aquele futuro descrito por Maurice despertou-lhe medo e dúvida.
O que, afinal, queria para o seu futuro?
Aplausos, luzes, música...
Sim, aquilo a fazia vibrar.
Mas... abraçaria sempre os amigos, apenas amigos?
Não queria, não devia, mas lembrou-se do sorriso e do calor de Max.
Tudo aquilo não ultrapassou o domínio dos segundos.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:02 pm

É incrível como o mundo das emoções e dos pensamentos desafia o tempo.
Quantas coisas podem passar no interior de uma pessoa em uma fracção de segundo!
Maurice afastou-se, foi abraçar outra pessoa, e Denise sentiu frio, desejou sair correndo dali, ainda com o figurino de Emília.
Mas não podia, afinal não era louca, e só os loucos fazem o que bem entendem sem ligar para nada nem ninguém ou, ao menos, assim se pensa.
Então permaneceu com o elenco.
Abraçou e foi abraçada, sorriu, agradeceu, participou da festa, mas seu coração não vibrava da mesma maneira.
Sentia-se sozinha, profundamente sozinha.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:02 pm

Capítulo 23
Na manhã seguinte, Denise, com os olhos inchados pelo sono pesado, encontrou Charlotte e Berthe no café.
Sorriu, e seus olhos se fecharam mais ainda.
— Parece uma japonesa — brincou Berthe, após as saudações matinais.
Muito cansada, querida?
— Mais ou menos.
Sinto-me dolorida, pesada, mas feliz.
Os últimos dias foram muito estressantes, eu estava tensa demais.
Tenho a sensação de ter sido esmagada por um trem.
— respondeu Denise, sentando-se com a xícara de café.
— Eu imagino. Deve ser muito desgastante — comentou Berthe, observando a jovem com atenção.
Admiro quem sobe em um palco e encara o público para viver a sua arte.
É preciso coragem.
O artista é uma criatura estranha: sua arte o satisfaz, mas ao mesmo tempo necessita do olhar, do aplauso do público e até da avaliação da crítica para motivá-lo.
Denise riu, bebeu um gole do café, e respondeu:
— Acho que o aplauso e o reconhecimento do trabalho são viciantes.
Mas não penso que seja privilégio dos artistas.
No Brasil, temos uma vizinha que adora rosas.
Ela cuida das roseiras diariamente e fica estufada, chega a corar de satisfação quando alguém elogia suas rosas.
Ela ama as rosas, mas também espera que o seu trabalho seja reconhecido.
— Touché! Denise tem razão, tia.
Eu mentiria se dissesse que não gosto de ouvir elogios às minhas criações ou que não fico satisfeita com a boa aceitação do meu trabalho.
— Certo, certo, meninas, eu reconheço:
falei sem pensar.
É lógico e natural que todos nós gostamos de ter nosso trabalho reconhecido.
Afinal, a nossa auto-estima se constrói também pelo olhar do outro.
E um profissional indiferente é um profissional sem amor-próprio, em geral não é bom no que faz.
Não tem auto-estima e isso se reflecte no trabalho.
Vou reformular minha fala, certo?
Denise olhou para Charlotte, e uma sorriu para a outra.
Denise fora seduzida com facilidade pela simpatia e inteligência de Berthe.
— O artista se expõe ao público mais do que qualquer outro profissional, especialmente quem sobe ao palco.
Músicos, cantores, atores de teatro, em geral, são intérpretes de outros artistas, como escritores, compositores e poetas.
Eles têm o trabalho avaliado, aprovado ou rejeitado no ato.
A interpretação é instantânea.
O compositor pode levar horas e dias, sozinho, torturado por sua própria ânsia, compondo uma canção, mas o intérprete, ao vivo, terá alguns minutos para materializá-la diante do público.
É essa coragem que eu admiro.
Consegui me fazer entender agora?
— Sim — respondeu Denise, pensativa, recordando as conflituantes emoções da noite anterior.
É fugaz, dona Berthe. Muito fugaz.
E talvez exista algo que nós, intérpretes, sentimos ou que precisamos sentir e que tem a exacta duração do brilho de uma estrela cadente.
— Como estão poéticas! — falou Charlotte, levantando-se.
Ela lavou rapidamente a louça usada e deixou-a no escorredor.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:02 pm

Em seguida, disse:
— Vou deixá-las por algumas horinhas, está bem?
Vejo--as mais tarde.
Charlotte beijou a tia, acenou para Denise, pegou a bolsa e a pasta com seus desenhos e saiu.
— Foi o que senti ontem — confessou Denise.
Até então minhas experiências eram académicas e amadoras.
Totalmente voltadas para satisfazer a minha necessidade de cantar.
A música me dá paz e prazer, me faz sentir viva.
— Ela preenche você?
— É, a senhora captou muito bem.
É exactamente isso:
a música me preenche, me desperta, me ilumina.
Eu vivo quando canto.
Eu sinto. Interpretar organiza as minhas emoções.
É como se fosse um canal por onde elas escoam e me esvaziam, me libertam.
Berthe encarou Denise, ouvindo-a atentamente, avaliando suas palavras e expressões.
Conversaram longamente, sem pressa.
A manhã morna do início de outono convidava à calma e até à preguiça.
— Minha querida, me desculpe perguntar, mas, por suas palavras, deduzo que você sinta muita angústia, é isso mesmo?
Por favor, fique à vontade para me mandar calar a boca.
E acredite: minha intenção é apenas compreender o que se passa com você.
Denise fitou a xícara de café, como se pudesse ler a resposta no líquido escuro.
Sorriu com tristeza.
Essa ambiguidade tão humana, tão típica dos que carregam dores íntimas.
— A senhora é muito observadora.
— É uma característica desenvolvida na vida — esclareceu Berthe, calmamente.
Auxilia-me muito.
Devo entender sua colocação como um sim à minha indagação?
— Sim. Às vezes, sinto como se eu tivesse engolido uma panela de pressão e ela estivesse prestes a estourar no meu peito.
Aperta-me a garganta, me sufoca, põe meus pensamentos em estado caótico.
Ninguém consegue se concentrar sentindo algo assim.
É impossível fazer qualquer coisa.
Já sentiu algo parecido?
— Claro! É um misto de ansiedade e tristeza, porém tudo muito intenso.
É o que se pode chamar de angústia aguda.
— Pois é.
A música esvazia-me desse sentimento.
E é a única actividade que me dá paz e equilíbrio.
Derramo essa emoção toda no canto.
A ópera me atrai porque une a música à interpretação teatral.
Enquanto vivo um personagem, ele me organiza interiormente — confessou Denise.
Berthe ficou pensativa, séria, então encarou Denise no fundo dos olhos e disse:
— Você não conhece a felicidade nem a dor real.
Denise sorriu e questionou com amargura:
— E alguém conhece a felicidade?
O que a senhora chama de dor real?
O que sinto é muito real, embora eu não saiba explicar.
Com certeza, não é criação da minha imaginação.
Não provoco nada, nenhum dos fenómenos que acontecem comigo.
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Ave sem Ninho

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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:03 pm

— Nós fomos criados para sermos felizes, portanto, conhecer a felicidade é parte do nosso aprendizado e crescimento.
Está ao alcance de todos.
É bobagem das pessoas dizerem que este mundo não é para nossa felicidade. Houve uma época em que ser sombrio, triste, depressivo era moda, até mesmo suicidar-se.
Eram os chamados românticos, decepcionados com a vida.
Melhor seria dizer-se decepcionados com as ilusões do seu modo de pensar a vida.
Talvez venha daí que ainda hoje algumas pessoas, pretendendo profundidade intelectual, declaram algumas bobagens como "felicidade não existe" ou que "só existem alguns momentos felizes na vida".
Penso que podemos ser felizes, apesar de alguns momentos de dor.
Não confundo felicidade com euforia.
A euforia é vizinha das lágrimas, minha querida.
É comum o eufórico cair em pranto desesperado.
A felicidade é vizinha da alegria sadia, pura, que não gargalha, nem galhofa a qualquer hora, mas que dá equilíbrio e bom humor.
Eu me considero alegre, pois raramente sou vista desequilibrada, alterada, irritada ou tendo ataques de ira ou de ansiedade, mergulhando em estados depressivos.
Ávida é bela e rica demais para eu me entregar a essa desvalia.
Isso é uma ilusão produzida em grande parte pela preguiça, pela vitimação.
Quando falo em preguiça, estou me referindo à preguiça mental.
Há quem não gaste um minuto da vida para questionar o que está fazendo aqui ou por que está aqui.
Então, não preciso dizer que jamais pensam de onde vieram nem para onde vão.
Simplesmente sabem que nasceram de uma mulher e serão comidos pelas minhocas e vermes.
Eis a vida, segundo eles!
Denise examinou a expressão e o olhar de Berthe por longos instantes, até que a sábia senhora sorriu e comentou:
— Você está me olhando como se eu fosse um oásis no deserto.
— É verdade.
Não quero me iludir com miragens, dona Berthe.
A senhora descreveu o que mais anseio conquistar: equilíbrio emocional.
Agarrar-se ao hoje, ao palpável, é uma maneira de lidar com essa angústia existencial.
— Oh, sim. Sem dúvida!
Contudo, essa atitude não acaba com a angústia, a menos que você tenha construído internamente um conjunto de valores e crenças que lhe permita lidar com essa realidade presente transitória, impermanente.
Do contrário, você será apenas mais uma egoísta na multidão, reclamando que ninguém lhe ama, ninguém lhe faz feliz, ninguém a compreende.
É preciso entender que depende de você amar, ser feliz, compreender-se.
Isso não é tarefa dos outros, é sua.
Felicidade se constrói de dentro para fora, é conquista pessoal, é minha, ninguém me dá, ninguém me tira.
Eu sou feliz. Entendeu?
Denise fez um gesto com a cabeça, sugerindo que entendia em parte.
E Berthe prosseguiu:
— O presente é o mais importante de todos os tempos.
É eterno. O passado é meu património.
O futuro é sempre incerto.
Veja: aprender a lidar com a incerteza é fundamental para ter alegria ou equilíbrio interior.
Viver é capitalizar incertezas.
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Ave sem Ninho

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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:03 pm

A todo momento, transformo o futuro incerto em passado, que é meu património.
Isso é um processo eterno, é viver o presente.
Ele é difícil, daí tantas fugas de pessoas vivendo de lembranças ou sempre em eterna expectativa, com a mente cheia do que irá fazer.
Uns e outros têm as mãos vazias e são solitários, tristes, embora eufóricos.
A primeira coisa que aprendi para ser feliz foi não tentar controlar a vida.
Fiz isso quando entendi o quanto o futuro é incerto e, portanto, todos os meus planos estão sempre sujeitos a me causarem surpresas.
Planeio, tenho sonhos e luto para realizá-los, porém consciente de que as coisas não estão no meu controle.
Você não imagina como isso é estimulante.
Sinto o dobro da alegria quando elas se realizam e metade da decepção quando não saem como eu tinha planeado.
E sabe o que mais admiro nisso tudo?
A sabedoria de Deus.
Quando algo não segue meus planos e eu me frustro, passado algum tempo, constato que Ele me deu o melhor.
A mudança que me impôs contribuiu para a minha felicidade, me fez mais forte, enfim, foi o melhor.
Na hora, nem sempre vemos, mas o bom julgador analisa o resultado pelas consequências.
A vida sempre nos dá o melhor.
As pessoas é que são muito mimadas e infantis, confundindo satisfação de desejos com crescimento e felicidade.
Meus próprios desejos muitas vezes são infantis e serão contrariados exactamente para que eu cresça como ser humano.
Falo demais, será difícil você julgar se sou uma imagem ou uma miragem — comentou Berthe, descontraindo propositalmente a conversa.
Denise riu e respondeu:
— É uma imagem.
Eu convivo com uma de suas obras, Charlotte, que é uma pessoa incrível.
Ela adora a senhora.
— Eu e Charlotte nos amamos.
É simples assim.
Nem eu sou a oitava maravilha do mundo em educação de pessoas, nem Charlotte é um anjo na Terra.
Somos pessoas que amamos, só isso. Eis o segredo.
— Parece tão simples, não é?
Quem me dera...
— Você também é capaz disso: escolha amar.
É uma opção, acredite.
O amor é diferente de todos os sentimentos humanos, ele nasce na razão, na consciência, e não nos instintos.
Os demais sentimentos você não escolhe experimentar, pode sempre escolher o que fazer com aquilo que sente.
O amor não, você opta por ele.
— Como assim?
— Você desenvolve seu potencial de amar.
E é simples.
Em cada coisa você procura o melhor, aquilo que ela tem de belo, de bom, aquilo que a fará sorrir.
Cada uma delas é optar pelo amor.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:03 pm

Por exemplo:
se alguém a perturba ou incomoda, você podo entrar em uma faixa de irritação ou convidá-la para outra faixa que seja do seu agrado.
Você muda o assunto e, se ela não quiser, irá embora.
Viu como o amor protege?
— Soa como indiferença e até egoísmo.
Algo como "não saio da minha rota".
— É exactamente isso.
Mas você não é egoísta ou indiferente simplesmente por saber o que deseja e agir de acordo.
Amar exige individualidade.
Quem ama se destaca, não faz parte da manada.
Costuma até ser incompreendido.
Pense: na vida, pessoas destacadas agem com individualidade e movidas por amor.
É possível notar que lhes ocorrem sempre bons exemplos.
O esquecimento é a consequência da falta de amor, das acções geradas pela ambição, pela vaidade, pelo orgulho.
A humanidade esquece seus criminosos.
Isso não é divino!
Imagina quanta amargura e revolta haveria se ficássemos remoendo a memória dos desatinos de todos os ditadores que já pisaram na Terra?!
Mas eles são esquecidos, porque guardamos a lembrança dos que amaram e semearam amor.
São eles que nos inspiram.
— Não será por isso que o crime se perpetua?
— Não, de forma alguma.
O crime ainda existe porque não evoluímos o suficiente para bani-lo.
Quando um maior número de pessoas se convencer e adoptar como prática de vida optar pelo amor, o crime desaparecerá por si mesmo.
Ele é reflexo do mal que há no ser humano e essa maldade é fruto da ignorância do bem.
De mais a mais, nós esquecemos os criminosos, não seus actos.
Mesmo quem não viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial os conhece e por isso tem o dever de evitar nova ocorrência.
— Interessante seu modo de pensar.
Tudo se resume no que carrego comigo e nas escolhas que faço.
— Exactamente.
É simples, Denise.
— Isso quer dizer que poderei, se eu quiser, livrar-me dos sentimentos e esquisitices que carrego?
Que depende de mim ser tão feliz quanto eu consiga ser?
— Exacto. Só depende de você.
Eu posso ajudá-la, se quiser.
Posso orientá-la, apoiá-la, mas de você dependerá o sucesso e a libertação.
Denise ficou pensativa.
A presença de Berthe lhe dava paz.
Aquela mulher madura e jovial, vestida com estilo, cabelos primorosamente arrumados, perfumada, a atraía.
Confiava nela.
Estava adorando a conversa.
— Denise, preciso sair.
Vou aproveitar para visitar as lojas, afinal, fim de estação é bom para compras porque há promoções.
E ainda quero visitar algumas livrarias.
Quer me acompanhar?
— Eu adoraria, mas não veio acompanhada?
Charlotte disse...
— Não, querida.
Louis precisou ficar em Nancy.
Ele até pediu-me para comprar-lhe alguns livros.
— O que ele faz?
— O mesmo que eu:
é professor de literatura.
Trabalhamos na mesma escola. Vamos?
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 9:03 pm

Capítulo 24
Ir às compras com Berthe foi milagroso para o estado de ânimo de Denise.
Divertiu-se, conversaram muito sobre diversos assuntos e as horas voaram.
O cansaço da estreia e as emoções conflituantes que drenavam sua energia deram uma belíssima folga.
Estavam em uma das grandes lojas de departamentos de Paris, de preços acessíveis.
Berthe escolhia vestidos e camisas para o dia a dia, feliz com as promoções.
Denise a acompanhava e admirava as escolhas da companheira, alegres, elegantes, de bom gosto, adequadas a qualquer ambiente urbano.
— Gosto de praticidade — falava Berthe, analisando um vestido trespassado, manga longa.
Com esse modelo posso ir a qualquer lugar, desde um, um jantar até festas informais, bastando apenas modificar os acessórios, sapatos e cabelo.
Berthe olhou para Denise e calou-se.
A jovem estava pálida, gotas de suor eram perceptíveis em sua fronte e os lábios tremiam levemente.
Ela tinha os olhos fixos na escada rolante que descia do terceiro andar, onde ficava a moda masculina.
Berthe percorreu com o olhar a escada, várias pessoas desciam, mas seu sexto sentido lhe dizia que a comoção emocional de Denise se devia a um casal.
Eles conversavam, entretidos e a moça apoiava-se no braço do acompanhante, um homem jovem e atraente.
— Denise! — chamou Berthe.
Você está se sentindo bem?
Parece que viu um fantasma.
Denise reagiu depressa, virou as costas para a escada e balançou a cabeça afirmativamente, enquanto respondia de chofre:
— É o meu ex.
Já está com outra.
Berthe ergueu as sobrancelhas e, com discrição, examinou o casal.
— Hum... Belo espécime!
Apreciei seu gosto, querida.
Temos algo em comum: gostamos de homens bonitos e grandes.
Descobri que esse tipo me atraía olhando meus álbuns de fotos.
Dei-me conta de que todos os meus namorados foram homens altos, fortes e com boa aparência.
Fora isso, eles eram tipos bem diversificados:
loiros, morenos, ruivos, teve até um indiano e um latino — comentou Berthe, descontraída.
Você ficou abalada ao vê-lo, Denise.
Foi um relacionamento traumático ou ainda tem interesse nele?
Denise disfarçou, fingindo escolher uma roupa na arara, e, com a cabeça baixa, perguntou:
— Eles já saíram?
Berthe olhou o casal e confirmou:
— Sim, desceram.
Denise exalou um longo suspiro e mostrou-lhe as mãos ainda trémulas.
— Na verdade, não sei o que sinto — confessou, respondendo ao questionamento de Berthe.
— Esse é um problema sério, querida.
Vamos pagar essas compras e tomar um café.
— Vamos! Estou precisando...
Não imaginei que teria essa reacção.
Nunca aconteceu antes, quero dizer, nunca fiquei assim por reencontrar um antigo namorado.
Berthe encarou-a de forma compreensiva, balançou a cabeça suavemente, apanhou a sacola com as roupas e dirigiu-se ao caixa.
Acomodadas em um café, Berthe voltou ao assunto.
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