Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 8:47 pm

É tempo de ser senhora de si.
Por isso, viemos ajudar você e sua tia.
— Viemos? Há mais alguém?
— Sim. Os mentores de Georgette e de Anton trabalham activamente no resgate deles.
— Resgate? Não compreendo.
Resgatá-los de quê?
— Do passado, da paixão, do extravio no tempo e no progresso.
Tenha calma, você entenderá.
Vocês estão no caminho certo.
Prossigam dessa maneira.
Nós as amparamos e inspiramos, com seus amigos espirituais e benfeitores.
Minha visita é breve.
Por favor, preciso de papel e caneta.
É necessário deixar uma prova da minha visita.
Charlotte apressou-se em providenciar o material e entregou-o à sonâmbula.
Viu-a escrever rapidamente em português e não entendeu o conteúdo.
Terminada a carta, entregou-a a Charlotte e despediu-se.
Denise deitou-se.
Segundos depois, virou-se de lado e ressonava tranquila, enquanto Charlotte, com a carta nas mãos e o rosto "pintado" de creme, fervia de curiosidade.
Precisava falar com alguém, então limpou o rosto com um chumaço de algodão e foi à sala.
Apanhou o telefone celular e ligou para a tia.
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Ave sem Ninho

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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 8:47 pm

Capítulo 31
Na manhã seguinte, Charlotte fazia a refeição quando Denise entrou apressada na sala, falando e carregando a bolsa a tiracolo.
— Bom dia! Dormi demais.
Hoje preciso chegar mais cedo, tomarei só um copo de leite.
— Denise, preciso conversar com você.
Ontem houve outra crise de sonambulismo...
— Ah, não! — esbravejou Denise, sentando-se.
Qual foi a bobagem que fiz dessa vez?
— Salvo sentar-se na janela e cantar antigas canções em provençal, eu nunca a vi fazer bobagem nessas crises — declarou Charlotte.
Você conversou com tia Berthe, disse ser outra pessoa e falou algumas coisas incompreensíveis, só isso.
Mas ontem foi diferente.
— Diferente, como?
Charlotte retirou de sob o prato uma folha de papel dobrada e estendeu-a para Denise.
— Você falou comigo dizendo ser alguém chamada Amélia Goulart Pereira.
Você conhece?
Denise empalideceu, levou a mão ao pescoço como se estivesse com dificuldade de respirar, depois deixou-a descer lentamente até o peito.
— Sim, conheço.
É o nome da minha avó, mãe do meu pai, Charlotte.
— Exactamente, foi o que ela me disse.
Falou que você não se lembraria dela, pois tinha partido desta vida quando você era um bebé.
Denise balançou a cabeça concordando e a francesa prosseguiu:
— Então, pediu-me papel e caneta, escreveu esta carta em português.
Eu não compreendo, sei poucas palavras.
Mas disse que fez isso para deixar-lhe uma prova material.
Com gestos lentos, Denise desdobrou a folha e correu os olhos.
Reconheceu a própria letra, não havia dúvida de que fora ela quem escrevera.
Tratava-se de uma carta dirigida a seus pais, na qual a avó, falecida, comentava factos passados e a encerrava dizendo estar bem na outra vida, que sempre que tinha permissão ia visitá-los e falava também do desejo dela de ver a harmonia restabelecida nas relações do pequeno grupo familiar.
Havia um P.S. após a assinatura, perfeitamente legível, dirigido a seu padrinho, incentivando-o a prosseguir com seu modo de vida autêntico, a ser feliz e crescer.
Chamava-o por um apelido que Denise tinha a impressão de ter ouvido uma única vez, pois ele não gostava de ser chamado daquele jeito.
Estranhou o facto.
Aliás, para ela, o conjunto dos fatos era estranho demais.
— Isso nunca tinha acontecido.
Obrigada, Charlotte.
Denise levantou-se, colocou a carta na bolsa e, pensativa,
despediu-se com um aceno e saiu.
Mil pensamentos rodavam em sua mente.
Os pensamentos lidos em Seráfita permeavam-se às conversas com os amigos.
E a síntese era que estava cheia de dúvidas e sua vontade dividida:
uma parte sua dizia para prosseguir e ir até o fim; outra, mandava parar com tudo imediatamente e afastar-se daquelas pessoas.
Mas não havia como, ficaria para sempre a incerteza, a curiosidade.
Agora ela tinha uma prova em sua bolsa de que havia algo além e que se misturava em sua vida.
"Deus do céu! Ajuda-me!
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 8:47 pm

Por favor, me ajuda!
Dá-me força e ilumina o caminho que devo seguir", clamou Denise, em pensamento, caminhando pelas ruas de Paris, alheia à beleza da cidade.
Aquele pensamento dirigido a Deus brotou-lhe do fundo da alma, era a expressão de seu desespero interior ante aquela luta que tinha por ringue a sua mente, e a luta travada era dela com ela mesma. Enganava-se.
Denise inconscientemente orava, aliás, fazemos isso bem mais do que supomos.
A prece sincera e espontânea atrai os bons espíritos.
No caso, ela abriu-se e chamou seu protector espiritual, vulgarmente conhecido como anjo da guarda.
Espírito amigo e sábio, em nível de evolução bem superior ao do protegido, ele executa um trabalho anónimo e incansável acompanhando-nos, às vezes, através de encarnações.
E poucos se lembram de endereçar-lhe uma prece de gratidão.
Vige a lei de lembrar-se de Santa Bárbara quando troveja.
Tomados pelo desespero, oramos inconscientemente quando nossas necessidades e dores gritam, falam aos sentidos, tocam nossos interesses pessoais.
Então pedimos, imploramos ajuda.
A gratidão reconhece a paz e o bem recebido de outrem, é, por natureza, uma acção que exige consciência para ser realizada.
A gratidão demonstra elevação de espírito e humildade.
Pode ser silenciosa, mas não inconsciente.
Sabemos o que, por quem e por que sentimos.
Conforme Denise mergulhava naquela linha de pensamentos, sem notar, sua lucidez ia gradativamente aumentando.
Uma após outra, lhe ocorreram ideias positivas, ou melhor, propositivas a respeito das suas aflições, levando-a a questionar-se qual seria o prejuízo em permitir-se investigar a fundo as sugestões de seus amigos.
No máximo, poderia constatar que eram inverídicas.
Qual seria o problema? Nenhum.
Pior seria ficar com a dúvida, pois poderiam ser verdadeiras e ser a explicação que buscava havia anos.
Qual o mal em tentar?
Por que desistir?
Que motivo tinha para afastar-se de Berthe, Charlotte e Maurice?
Eram pessoas boas, só queriam o seu bem, eram seus amigos, ajudaram-na muito quando chegou à França.
Não tinha motivos para afastar-se deles.
Nem ao menos a estavam forçando a aceitar seu modo de ver os fenómenos que a acompanhavam.
Ao contrário, apenas convidaram-na, sugeriram livros e até recusaram-se a falar demais, a insistir em discussões.
Enfim, deixaram-na livre para pensar e decidir sozinha.
A um passo das escadarias da ópera, ela decretou mentalmente a si mesma:
"Chega! Estou fazendo tempestade em copo d'água.
A coisa não é tão complicada. Eu irei a Nancy.
Farei o tratamento ou sei lá como Berthe chama o que faz.
Prefiro a certeza de ter tentado.
Se não der certo, paciência.
Tantos já não funcionaram, e não morri por isso.
Não pensarei mais, está decidido".
Os amigos espirituais que a cercavam sorriram.
Amélia uniu as mãos e elevou-as, fitando o céu, num gesto típico de prece de agradecimento.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 8:47 pm

Alberto, protector espiritual de Denise, tocou o ombro de Amélia e comentou:
— Estamos no caminho, seu trabalho deu bons frutos.
Foi uma excelente ideia a sua.
Feliz, ela apoiou-se delicadamente nele e murmurou:
— Eu a conheço, há força moral nela.
É tempo desse passado deixar de ser presente.
— Concordo, amiga — respondeu Alberto.
Mas era preciso que ela amadurecesse.
Por certo, a maçã sofre com a acção do frio para tornar-se doce.
A lei universal é uma só, tanto para o físico quanto para o espiritual.
O sofrimento tem a finalidade de fazer amadurecer.
Aprendida a lição, ele desaparece.
É prova respondida, entregue à avaliação.
Vamos providenciar para que esses pensamentos se fortaleçam.
Amélia tinha uma expressão travessa e sorriu ao sugerir:
— Pequenos acasos?
Tropeçar nos assuntos que chamam à espiritualidade?
— Exactamente.
Coisas simples do dia a dia conduzindo a pensar, reflectir, envolver-se com ideias sadias — concordou o protector espiritual de Denise.
— Pode deixar comigo — declarou Amélia.
— Óptimo, está em boas mãos.
Assim neutralizaremos a acção de Anton, dificultando o acesso à mente de Denise disse Alberto.
— Sim, o povo não sabe a verdade que diz quando fala que mente desocupada é oficina do diabo.
— É mesmo.
O diabo não existe, mas infelizmente existem espíritos ignorantes do bem, extraviados da luz, rebeldes.
Sem falar da nossa própria imperfeição.
Anton sofre e não percebe que está nas mãos dele fazer cessar esses tormentos.
Oremos por ele.
Nosso amigo Artur, por certo, nos ajudará.
Ele também anseia que essa história torne-se o que é: passado.
À distância, irritado e solitário, Anton observava Denise cercada por uma energia azulada, que funcionava como uma barreira, impedindo-lhe a aproximação.
— Ela não aguentará.
Georgette chamará por mim.
Ela me ama e é minha — sentenciou Anton.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 8:48 pm

Capítulo 32
No trem com destino a Nancy, Denise pensava que aproveitara pouco daqueles quase dois anos na Europa.
Muitos colegas estrangeiros como ela viajaram mais.
No entanto, ela não se arrependia, afinal estava analisando uma possibilidade de permanecer na ópera e seus colegas levavam na bagagem cidades visitadas.
Ela poderia visitá-las depois, não tinha pressa.
Era difícil estabelecer-se na sua arte e, fora da Europa, sua melhor opção seria os Estados Unidos.
No Brasil, as possibilidades eram muito pequenas. Então, retornar, talvez, somente em férias.
As paisagens encantadoras passavam na velocidade do TGV.
O trem avançava em direcção à região de Lorena, próximo à fronteira com a Alemanha.
Era possível notar algumas influências alemãs naquela região francesa.
Lembrou-se das tortas de maçã e do creme de nata feitos por Berthe, delícias mais germânicas do que francesas.
O trem chegou à estação central e Denise desceu.
Levava apenas uma mochila, pois retornaria no domingo à tarde.
Lembrando que Berthe devia estar ocupada com suas aulas particulares, decidiu caminhar.
Vira fotos maravilhosas da Praça Stanislas e do conjunto de palácios ao redor, era perto de onde estava.
Contente com o dia frio e ensolarado, entregou-se ao prazer de conhecer a cidade.
Passear livre, encher os olhos e a mente com a beleza do art nouveau, traço marcante da cidade.
Perambulou pelas ruas por mais de duas horas e não viu o tempo passar.
Percebeu o movimento e os aromas nos restaurantes e cafés, então consultou o relógio e viu que passara da uma da tarde. Berthe a esperava.
Havia agendado atendimento no círculo espírita às quatro horas da tarde.
Precisava apressar-se.
A casa de Berthe ficava na cidade nova, não muito distante.
Para evitar atraso, parou um táxi, embarcou e informou o endereço de seu destino.
Após a refeição leve, Berthe preparou chá e ofereceu biscoitos doces para Denise.
Conversaram trivialidades, falaram de Charlotte e dos preparativos para o casamento.
— Você está mais alegre — comentou Berthe.
— Sinto-me bem, muito bem mesmo.
As leituras que você indicou fizeram-me bem.
Foi um pouco difícil no início, porque não estou habituada a essas indagações transcendentais, mas depois foi como se tirassem teias de aranha que me envolviam, véus diante dos meus olhos.
Fizeram-me pensar e entender que talvez o que acontece comigo seja mais comum do que penso e, principalmente, natural.
Então decidi vir e falar com você, informar-me e iniciar logo esse tratamento.
Não sei se é assim que você chama, mas, sei lá, por falta de outra palavra e por ter tentado tantos tratamentos...
Berthe sorriu, depositou a xícara sobre a mesa e encarou a jovem.
— Chame como quiser, querida.
Eu chamo de atendimento magnético-espiritual.
Não deixa de ser um tratamento, mas no seu caso, especificamente, será bem mais.
Vamos testar uma faculdade anímica e, se o resultado for positivo, isso também terá uma conotação de autodescobrimento, de estudo de si mesma. — esclareceu Berthe.
— Você está se referindo às crises de sonambulismo?
- Sim, na verdade, creio que essas faculdades estejam latentes em você, literalmente à flor da pele, por isso todos os "estranhos fenómenos e esquisitices" que a acompanham, até mesmo o sonambulismo, que é uma das principais manifestações delas.
Quando a alma se mostra, essa faculdade é uma porta aberta para estudarmos o ser espiritual.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:01 pm

E essas manifestações são absolutamente naturais, afinal somos espíritos em um corpo material.
— Tive várias crises nas últimas semanas.
E fiquei curiosa, porque elas são muito diferentes entre si.
Eu até vejo um padrão, digamos, quando é a tal Georgette que fala, mas o que dizer da carta assinada pela minha avó?
E as bobagens que fiz, coisas sem sentido, banais, como arrumar roupas e armários?
Ou estudar os livretos da ópera?
— Qual o problema?
O fenómeno é sempre o mesmo, ocorre da mesma forma, acciona os mesmos mecanismos, a diferença é o interesse que o faz acontecer.
Podem ser lembranças de outras vidas, um fenómeno mediúnico no episódio da comunicação da sua avó, ou são ligados aos seus interesses presentes, daí misturar-se circunstâncias do cotidiano.
Esses fenómenos são psicológicos e acontecem por uma necessidade do presente.
Aliás, seja por que motivo for, todos acontecem por haver uma necessidade.
— Quer dizer que não vamos mexer com os espíritos mais tarde, na reunião com o seu grupo, Berthe?
— Não, Denise. Ou melhor, acho que não.
Trabalharemos com você, com a sua essência espiritual.
Mas não vou enganada, poderá haver manifestações de outros espíritos.
Isso não sou eu quem decide, são os nossos mentores.
Ocorrerá o que for permitido por eles e que seja benéfico, útil, necessário e possível no momento.
Você está com medo?
— Medo? — perguntou Denise.
Não, acho que não. Ansiosa, sim.
Curiosa também, mas, acima de tudo, quero melhorar, ser feliz, e para isso compreendi que preciso entender esses fenómenos e trabalhá-los.
— A ansiedade é prima-irmã do medo — falou Berthe, levantando-se, recolhendo as xícaras e guardando no armário o vidro de biscoitos.
Dirigindo-se a Denise, continuou:
— Controle sua ansiedade.
Mantenha vivo em sua mente o desejo de melhorar.
Ele será sua fonte de força para enfrentar as adversidades da vida.
— Entendi essa ideia no romance.
Depois das visões do "paraíso" ou da morada dos anjos, eles retornaram à Terra e mudaram sua forma de ver a vida.
— Exactamente. Compreender o progresso nos torna fortes, e desejar o progresso nos faz activos.
A esfera do querer é limitada, e sem acção real as coisas não acontecem.
Elas precisam andar juntas. Entender o progresso reduz o sofrimento, que passa a ser visto e vivido como o que realmente é: necessidade da alma.
Somos criaturas preguiçosas, acomodadas, não precisaríamos sofrer, bastaria usar a nossa inteligência, pensar, trabalhar pelo conhecimento, ampliar nossa consciência da vida e evoluiríamos.
Mas ainda não conseguimos.
Geramos mil fontes de sofrimentos por não pensar, por não nos conhecer.
Já viu a quantidade de criaturas que cometem verdadeiras aberrações movidas ora por paixão, ora por instinto, ainda nos dias atuais?
E o pensar, e a reflexão?
Consideram bobagem.
E assim nunca conseguem força para vencer essa natureza primitiva.
É preciso usar a massa cinzenta, sabe?
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:01 pm

É para isso que Deus colocou-a em nossos crânios, para pensar — falou Berthe, em um tom complacente e de subtil advertência.
— Creio que vou demorar até ter essa visão.
— Eu não sei, Denise.
Não me surpreenderia se isso fosse muito rápido.
As experiências com o mundo espiritual são transformadoras, intensas.
É uma das maiores oportunidades de crescimento ao alcance de qualquer um.
— É? — duvidou Denise, pensativa.
Mas dá um friozinho na barriga.
Para ser honesta, Berthe, dá um friozão.
Estou com medo, sim. Muito medo!
Estendeu a mão para Berthe, pedindo ajuda:
— Você me ajuda?
Berthe olhou a mão estendida e encarou a jovem.
O medo estava ali, um grande monstro velho, pálido e pesado, fragilizando sua hospedeira.
Uma cena sentimental, lágrimas e palavras comoventes seriam suficientes para alimentar esse monstro.
Então Berthe cruzou os braços e respondeu séria:
— Vença-o. Domine-o. Cresça.
Eu me disponho a orientá-la, mas não vou segurar a sua mão.
Você não precisa de bengala e não quero dependente.
Nós somos seres individuais, temos todo o necessário para viver sobre as próprias pernas.
Se você beber da minha força, não descobrirá a sua.
A cada dificuldade do caminho, correrá à minha procura.
Chegará um dia em que estarei exausta, cheia de você até as orelhas, porque ninguém aguenta ser sugado, sem saber o que lhe tomam.
Dependentes simplesmente tomam a vida do outro.
E quando chegar o dia em que eu não mais quiser lhe dar a mão e deixar-me sugar, você continuará sendo a mesma criança dominada pelo medo.
Ele, o medo, terá comido a sua vida e, por tabela, a minha.
Você não cresceu, porque se acomodou à dependência e não desenvolveu suas forças.
O medo paralisa e a preguiça entretém a estagnação.
E o tempo escoará pelos dedos e ficaremos as duas de mãos vazias.
Então, Denise, vamos deixar claro desde já: eu a oriento, você estuda e trabalha pelo seu progresso.
A luta é sua, encare-a.
Não me estenda a mão, trabalhe por si mesma em vez de mendigar as forças alheias.
A espiritualidade não é piegas, querida.
Denise arregalou os olhos, chocada.
Recolheu a mão e seu rosto mudava de cor ora empalidecia, ora ficava rubro, de vergonha e raiva, denunciando as emoções e os pensamentos contraditórios, Berthe consultou o relógio, ainda tinham alguns minutos.
Em seguida, esclareceu:
— Denise, espero que você compreenda que seria uma imensa falta de caridade minha se eu cedesse a seus desejos.
Sei que várias pessoas fazem isso.
Sabe por quê?
Porque ter dependentes lisonjeia a vaidade delas.
Já passei dessa idade, sou realista.
Sei que não faria bem nem para você nem para mim se cedesse ao seu medo.
Está quase no nosso horário.
Pode usar o lavabo, ali perto da sala de jantar, para fazer sua higiene.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:01 pm

Vou terminar de me arrumar e volto logo.
— Ah, está na hora?
Como passou rápido! — falou Denise, tentando se recuperar do choque com a reacção de Berthe.
Admitiu que ela tinha razão, dizer que estava com medo a havia ajudado a pensar.
Sabia que o inimigo, o problema, não era externo.
Não era o grupo que ainda nem conhecia, nem Berthe, era o medo e morava em seu íntimo.
Enquanto fazia a higiene oral, olhou-se no espelho redondo.
Lembrou de alguns ditados africanos ensinados pelo amigo de Max:
"Quando não existe inimigo no interior, o inimigo exterior não pode te machucar", "Bondade é nos dentes, caridade é nas mãos".
E, por último:
"Lágrimas são mais bem enxugadas com nossas próprias mãos".
"Acho que tudo isso é parecido com o que Berthe me disse.
Doeu ouvir, mas ela tem razão.
Preciso me conhecer, descobrir minha força interior e viver com ela.
Assim serei livre e feliz.
Não quero ser dependente, encher o saco dos outros.
Não sou mendiga.
Ter força interior é ter dignidade para viver.
É isso que quero", pensou Denise.
Alberto, observando-a, sorriu para Amélia, aprovando a nova conduta.
Aproveitando a oportunidade, sussurrou ao ouvido de Denise ideias fortalecedoras daqueles conceitos e estimulou-a a prosseguir.
Denise sentiu-se bem, sentiu-se forte, decidida.
Berthe a aguardava na sala, com um meio-sorriso em seus lábios.
"O banheiro é um óptimo lugar para pensar, tomara que dê descarga nessas ideias bobas, piegas e infantis e saia limpa de lá", pensou rindo.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:01 pm

Capítulo 33
Assistidas pelos espíritos Aryana, Alberto e Amélia, Berthe e sua jovem amiga chegaram ao local da reunião espírita.
Para surpresa de Denise, ficava no segundo piso de um prédio simples e antigo.
— Não é o que você esperava? — indagou Berthe, procurando as chaves na bolsa.
— Não — confirmou Denise.
Como lhe contei, no Brasil fui a alguns centros espíritas.
Mas acho que é uma questão de espaço urbano.
Nada a ver. Esqueça! Pensei bobagem.
Meu país possui uma vastidão territorial e os centros espíritas que conheci tinham imóveis exclusivos, alguns até grandes, com alguns andares.
Outros centros tinham apenas um cómodo com porta e janela e alguns móveis.
Mas não me lembro de nenhum centro espírita em um edifício.
— Entendi. Questões culturais, querida.
O preço dos imóveis também exerce influência.
Afinal, na Terra, o máximo que conseguimos é atrair boas coisas, não plasmá-las.
— O que é plasmar? — indagou Denise.
— Significa criar, fazer surgir da matéria elementar.
Quis dizer que precisamos comprar ou alugar um imóvel.
Nosso desejo tem a força de atrair; o plano espiritual tem capacidade criadora, plasma objectos.
— Ah! Legal! Gostei da ideia.
Apanhando a chave, Berthe abriu a porta.
Era um apartamento remodelado para atender às actividades do grupo.
O hall servia de recepção.
Colocaram as bolsas em um armário, depois seguiram pelo corredor e chegaram a uma sala ampla com várias cadeiras.
Os móveis denunciavam que o local servia à reunião de pessoas, palestras e apresentações.
Por uma porta lateral seguia outro pequeno corredor.
— Vamos aguardar na sala de trabalho.
Enquanto isso, lhe explicarei alguns detalhes.
Bertoldo é muito pontual.
Daqui a pouco estará connosco.
Berthe avançou pelo corredor lateral e Denise a seguiu.
Havia quatro portas, duas de cada lado do corredor.
Ela entrou na primeira. Era uma saleta.
Havia um diva, duas poltronas, uma escrivaninha com cadeira antiga, tapete, quadros na parede e uma estante repleta de livros.
— Simpático — elogiou Denise, olhando ao redor, curiosa.
— Parecido com um consultório psiquiátrico ou psicológico, só que mais familiar.
— É um pouco de tudo.
Gosto de trabalhar nesta sala.
Tem uma energia maravilhosa.
Aliás, o prédio que nos acolhe tem boas energias.
Mas, particularmente, sinto-me bem aqui.
Considero-a minha, embora eu trabalhe aqui três vezes na semana.
Por que não senta?
Caminhamos bastante.
Denise concordou.
O diva a atraía, mas ela acomodou-se em uma poltrona de tecido floral desbotado.
Berthe sentou-se na outra, ao lado, e começou a falar do trabalho que iriam realizar com ela.
— Você entendeu, Denise?
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:02 pm

— Acho que sim.
Você vai me fazer dormir e, segundo suas palavras, quando adormecemos, nosso espírito se emancipa do corpo e em algumas pessoas pode manifestar-se recobrando as capacidades espirituais, então poderei ter mais conhecimentos do que agora, lembrar de outras vidas, ver, digamos, em trezentos e sessenta graus e em 3D, atravessar barreiras materiais, ouvir, deslocar-me a grandes ou pequenas distâncias e narrar o que lá se assiste.
E ainda poderei ter contacto com a dimensão espiritual, ver e conversar com outros seres.
Você não me dará nenhuma droga, apenas manipulará energias subtis, energia vital, que não vejo, mas você diz que sentirei os efeitos. É isso?
Berthe confirmou com um movimento de cabeça e Denise declarou:
— Sinceramente, se não acontecesse comigo e eu não tivesse o testemunho das pessoas, porque não me lembro do que faço, acharia tudo isso fantástico demais.
Mas, depois das nossas conversas, das leituras e porque acontece comigo, eu aceito.
A tia de Charlotte sorriu e, nesse instante, ouviram barulho na porta e depois uma voz masculina alegre e grave falando animado enquanto o som cadenciado de passos se aproximava da saleta:
— Berthe, você está aí?
Como está frio!
Mas teremos um entardecer lindo.
Trouxe minha máquina fotográfica porque não perderei esse espectáculo.
— Sim, Bertoldo, estamos aqui.
Ele surgiu sob o batente da porta aberta.
Um homem grande, aparentava estar na faixa dos cinquenta anos, roupas simples, vestia uma calça de lã marrom, um suéter bege, cachecol xadrez e uma touca preta, trazia o sobretudo preto no braço.
Tinha traços rústicos, cabelos finos escapavam da touca, chegando próximo ao ombro, nariz protuberante, boca fina e grandes olhos castanhos, luminosos e encantadores.
Bertoldo era feio de dar piedade, não fosse seus olhos tão lindos, expressivos e calorosos.
Ele tinha olhos de amigo.
E Denise não viu o quanto ele era feio e esquisito, simpatizou imediatamente com a luz daquele olhar.
— Boa tarde! É essa a moça?
— Sim, Bertoldo, lhe apresento Denise — respondeu Berthe.
Já lhe falei do motivo da visita dela.
Educado, ele se aproximou, estendeu-lhe a mão e, curioso, sem esconder que a examinava, com toda franqueza, olhou-a minuciosamente de cima a baixo.
Mas foi algo tão natural e transparente, as intenções tão às claras, que Denise sorriu.
Não se sentiu acanhada, ao contrário, abriu-se ao exame.
Bertoldo capturara sua confiança com um simples, directo, objectivo e amistoso exame visual.
Sentiu-se aquecida, envolvida por um abraço invisível, morno e acolhedor.
Ao apertar a mão dele, o sorriso da jovem era aberto e franco.
Berthe notou satisfeita o entrosamento entre eles.
Trabalhava com Bertoldo havia anos, era seu maior e melhor amigo.
Conhecia de sobra o efeito que ele causava nas pessoas.
Trocaram algumas palavras e Berthe iniciou o atendimento, aplicando os passes.
Pediu somente que Denise ficasse relaxada, sem pensar em nada.
Ao cabo de um quarto de hora, ela sentiu os olhos pesados, um calor envolvendo-a, e adormeceu.
Berthe prosseguiu a aplicação de energia por mais alguns minutos, então parou e examinou Denise, buscando identificar o grau do estado de sono magnético.
Bertoldo ajudou-a.
Constataram a insensibilidade, espetando-a com um alfinete, examinaram-Ihe os olhos, erguendo as pálpebras.
Ela não reagiu.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:02 pm

Satisfeita, Berthe ordenou-lhe:
— Denise, fale comigo.
Diga onde está e o que vê.
— Estou aqui.
— O que vê?
— Vejo a sala.
Vejo você e uma luminosidade azulada que a envolve.
Vejo Bertoldo, e ele é belo, a luminosidade dele é branca e brilhante.
E o que me chama a atenção são os livros, em alguns há brilho.
— Óptimo. Bertoldo está lendo, você pode ver o que ele lê?
— É claro.
— Então, leia pra mim — ordenou Berthe.
Poucos segundos depois, Denise, adormecida na poltrona, falava em voz alta:
"Acção psíquica de um espírito sobre outro — Transmissão de pensamentos.
Sugestão mental.
Comunicação a distância entre pessoas vivas.
"Aquele que, fora das matemáticas puras, pronuncia a palavra 'impossível', falta à prudência (Arago).
"Tomamos o cuidado de começar estes estudos somente pelo exame de factos de uma mesma ordem:
as manifestações dos moribundos, a distância, a fim de lhes encontrar mais facilmente a explicação.
Chegaremos em breve às manifestações de mortos, reais ou aparentes, e aos outros fenómenos, avançando gradualmente, lentamente, mas com segurança.
O objectivo dessas pesquisas é saber se a observação científica possui bases suficientes para provar a existência da alma como entidade real independente e sua sobrevivência à destruição do organismo corporal.
Os factos examinados nos capítulos precedentes já colocaram a primeira proposição sobre um bom terreno.
Tendo sido, pelo cálculo das probabilidades, eliminada, em abono da telepatia, a hipótese do acaso e da coincidência fortuita, somos forçados a admitir a existência de uma força psíquica desconhecida, emanada do ser humano e podendo agir a grandes distâncias.
"Parece difícil, à vista do acervo tão eloquente e tão demonstrativo desses testemunhos, recusarmo-nos a esta primeira conclusão.
"Não foi o espírito dos observadores, isto é, dos que experimentaram essas impressões, que se transportou até o moribundo.
Este é que os foi impressionar.
A maior parte dos exemplos citados mostra que aí é que reside a causa do fenómeno, e não em uma clarividência, uma segunda vista das pessoas impressionadas.
"Do mesmo modo"... (8)
— Basta, Denise. — determinou Berthe, sentada em sua poltrona, em frente à sonâmbula.
Você conhece esse texto?
Já leu o livro?
— Não.
— Sabe quem é o autor? Qual o título da obra?
— No livro que Bertoldo segura, o nome do autor é Camille Flammarion, e o título O desconhecido e os problemas psíquicos. — respondeu Denise.
Berthe olhou para o amigo que, enquanto ela magnetizava a jovem, se sentara na cadeira, atrás da escrivaninha.
Aleatoriamente, ele escolheu um livro e o abriu.
Bertoldo fez um sinal de certo e, virando a capa do livro para Berthe, confirmou a informação da sonâmbula.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:02 pm

— Óptimo. Como se sente, Denise?
— Bem. Sinto-me leve.
— Você sabe quem é Georgette?
Ela aparece em seus sonhos.
— Sou eu. Antes de ser Denise, chamava-me Georgette.
— Por que ainda revive essa época?
— Porque fui feliz.
Amei e fui muito amada.
Sinto falta dele.
— Lembra-se do nome dele?
— Anton, meu lindo e querido Anton.
A voz da sonâmbula sofrerá uma leve modificação, havia uma emoção forte e latente que transparecia na fala.
Ao pronunciar o nome de Anton, a voz tremera.
— Ele está aqui?
— Não.
— Você se recorda de quando e onde vivia com o nome de Georgette?
— Eu vivia na Provença, em Gordes. Era 1812.
— Sim, me fale mais desse período.
Por que esse amor a marcou tanto?
— Porque era proibido.
Não devo falar mais.
Alberto não permite.
Eu lhe contarei tudo em quinze dias.
— Quem é Alberto?
— Um anjo, eu acho.
Ele é belo e luminoso, bem mais que Bertoldo.
Eu o conheço, mas não recordo de onde.
Ele é bom, diz que me protege e está feliz por estarmos aqui.
Em quinze dias ele voltará.
— Muito bem, em quinze dias voltaremos ao assunto.
Você está cansada?
— Não, mas Alberto pede para pararmos.
Bertoldo encarou Berthe, mostrou-lhe que gravara toda a sessão no pequeno gravador guardado discretamente no bolso da camisa, sob o suéter.
Ela sorriu. Aquilo era típico dele, mas seria útil.
— Muito bem. Agradecemos a presença do amigo espiritual Alberto e suas orientações.
Confiaremos na continuidade deste trabalho em quinze dias — falou Berthe, erguendo-se e aplicando passes vigorosos em movimentos rápidos na jovem.
Finalizou o trabalho, soprando-lhe na altura do nariz, entre os olhos, e ordenou:
— Acorde, Denise.
A jovem suspirou e abriu os olhos, piscando várias vezes.
— Estranho. Sinto como se os meus olhos estivessem fora das órbitas e o corpo desengonçado.
Parece solto — falou Denise, em voz baixa.
Berthe retomou o trabalho magnético, aplicando-lhe passes da cabeça aos pés.
— E agora, como se sente? — perguntou a francesa, após alguns minutos.
— Bem, estou normal. Eu dormi?
Berthe encerrou sua intervenção magnética e sentou-se na poltrona. Denise pediu licença, levantou-se e alongou os membros.
— Sim, você dormiu. Bertoldo e eu relataremos o que aconteceu. A sessão foi gravada, poderá ouvir e comprovar por si mesma. Você tem excelentes faculdades anímicas e mediúnicas. Espero que estude o assunto com carinho e dedicação. Isso lhe fará bem.

(8) Camille Flammarion. O desconhecido e os problemas psíquicos. Brasília/DF: FEB, Vol. II
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:02 pm

Capítulo 34
Querer, saber e poder giram a roda do progresso, unindo o sentimento, o intelecto e o trabalho.
O homem que deseja conhece, age coerentemente e encontra o caminho da felicidade.
Denise demorou, mas descobriu o que queria:
sentir-se livre, viver livre.
Percebeu quão poucas vezes na vida sentira que agia livremente.
Se não eram seus pais, eram os professores, os amigos, e desde a infância "a voz" também orientava suas decisões.
Nenhuma vez ela decidiu sozinha, seguindo e se orientando por suas próprias forças.
Ora concordava com uns, ora com outros.
Indispôs-se com a mãe para dedicar-se à música, mas aí também não agiu sozinha.
De algumas decisões arrependia-se, de outras não.
Se precisasse comprar a briga para estudar música em Paris, repetiria a epopeia.
Mas queria ser livre. Sentia-se presa.
Lembrou-se de quando era menina e fora a um piquenique escolar em um sítio na zona rural.
Havia um riacho com muitas pedras e uma das professoras fizera barquinhos de papel com o grupo.
Sentira-se frustrada quando seus barquinhos se chocavam nas pedras e não navegavam mais.
Ela não via, mas sentia uma pedra em sua vida contra a qual se chocava cegamente, igual aos barquinhos de papel. Não fluía.
Retornou a Paris decidida a prosseguir com os "atendimentos" sob a supervisão de Berthe e Bertoldo.
Trazia na mochila três livros:
O desconhecido e os problemas psíquicos, O Livro dos Espíritos e Giovana.
O primeiro, por razões óbvias, voltou lendo no trem.
Em uma hora e meia de viagem, devorou vários capítulos.
E entre as pausas da rotina diária, agarrava-se ao saber, precisava desvendar esse universo da alma, tão grande, pelo qual espiava.
Desse universo, um chamado ecoava em sua mente:
Venha! Conheça-se! Viva em abundância!
Torne-se livre e feliz!
Seja senhora de si!
O outro livro era sobre filosofia espiritualista, e seus instrutores insistiram que lesse com calma e atenção.
— Marque suas dúvidas e anote seus comentários ao lado das questões.
Na próxima visita discutiremos a respeito. — orientou Bertoldo, ao presenteá-la com um exemplar novo da obra.
Berthe não se conteve e tirou um volume antigo da estante da sala de atendimento e o ofertou a Denise:
— Este é um incentivo.
Se, em algum momento, a leitura dos outros livros tornar-se difícil ou cansativa, leia este.
É um romance espírita.
Por meio dele você visualizará com mais facilidade algumas lições.
É a função deles.
— Como Seráfita, Berthe?
— Sim, minha querida, como Seráfita, Hamlet, Anna Karenina, e milhares de outros.
— Hum, todos falam de alguma forma sobre o espírito, a vida espiritual.
Mas este aqui deve ser mais específico.
— Sim, é. A literatura tem poder, querida.
E o género romance tem grande penetração popular.
É a linguagem das massas.
Os espíritos o usam há séculos, bem antes de alguém criar o termo espírita para disseminar ideias.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:02 pm

E, se você gostar de estudar história, encontrará em alguns deles factos sociais marcantes.
Por exemplo:
Os miseráveis e a Revolução Francesa; A Cabana do Pai Tomás e a Independência Americana; Pé na estrada e o Movimento Bea (9); e muitos outros.
Não seria na difusão de ideais visando ao crescimento e desenvolvimento dos seres humanos, chamando-os à melhora pessoal, que eles renegariam uma ferramenta dessas, não é?
Contar histórias é uma excelente metodologia de ensino.
A literatura espírita é farta, e mesmo Kardec, que você conhecerá com o tempo, clamava num periódico da época que viessem muitos romances espíritas.
— No Brasil tem bastante.
Muitas amigas liam, minha irmã leu vários, acho que ainda lê.
— Que bom! Por aqui, esperamos que reapareçam — declarou Bertoldo.
Eu gosto muito.
Charlotte via com prazer os novos hábitos da amiga.
Incentivou-os ao máximo. Denise estava bem, a nuvem cinzenta que, às vezes, encobria suas feições tinha se dissipado.
Notava sua segurança, ela não estava se esforçando para parecer segura e decidida, estava tranquila e naturalmente resolvia-se como pessoa, desembaraçava o novelo complexo das coisas e emoções no qual se enredava antes.
Por isso, uma noite no meio da semana, na lavandaria perto do estúdio, Charlotte comentou com Denise a respeito das palestras que frequentava com Maurice:
— Que pena ser aos sábados.
Eu tenho compromisso em Nancy, só faltarei por motivo profissional — respondeu Denise.
— Se houver alguma palestra em outro horário, me avise. Eu irei.
— Gostou de Nancy, Denise?
— Não tive tempo nem de fazer um passeio pela cidade, apenas nos arredores da estação e da casa de Berthe.
Mas gostei. Aliás, adorei Bertoldo.
Você o conhece?
— Claro. O homem mais feio e mais encantador da cidade, quem não conhece Bertoldo?
Ele é um encanto.
Faz tempo que não o vejo.
Como está? Muito desarrumado?
— Ah, Charlotte, não fale assim.
Ele é tão meigo! Charlotte riu.
"Bertoldo é uma espécie de Shrek da vida real" pensou.
— É, sim. Gosto dele.
O mundo precisa de mais Bertoldos.
Mas você não respondeu: ele estava muito desarrumado ou não?
Denise recordou os encontros com ele em Nancy, mas não conseguiu ser objectiva, não se lembrava das roupas dele, lembrava-se das conversas, da alegria que sentiu, da sensação de paz e bem-estar.
— Sabe, sinceramente não reparei.
Bertoldo elegantemente vestido não seria Bertoldo.
— É você tem razão, Denise.
Eu tentei melhorar o visual dele:
dei de presente revistas, pela internet enviava fotos de homens bem-vestidos, artigos de moda, de cortes de cabelo.
Enchi a paciência dele, e não consegui nada.
Se tivesse conseguido, ele já não seria um ogro moderno.
Denise riu com gosto da comparação feita pela amiga.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 10, 2018 9:03 pm

— Shrek! Você pensou no Shrek.
Que maldade, Charlotte!
Charlotte riu com ar travesso e respondeu:
— Não pude evitar.
Mas confesse:
não é uma comparação perfeita?
Ele é FF: feio e fofo.
— Ah, gostei tanto dele.
Bertoldo tem charme.
— Sei. Essa é a salvação, ter charme.
Não tem mais nada, mas tem charme.
Eu disse isso muitas vezes.
Mas nem sempre é verdade.
No caso dele, sim.
E nisso é parecido com o Shrek.
Se ele não fosse um fotógrafo tão talentoso, poderia tentar uma colocação no Euro Disney (10).
Charlotte olhou o relógio, virou-se para a máquina na parede à frente, o mostrador sinalizava que faltavam dois minutos para finalizar a secagem das peças.
— Até que enfim! — desabafou Denise, acompanhando os gestos da amiga.
Estou cansada.
Quero ir para casa e me jogar na cama.
Enquanto tiravam as roupas da máquina, colocando-as em cestas plásticas para dobrar na bancada no centro da sala, Denise ouviu a voz de Max.
Olhou para Charlotte e perguntou:
— O que ele está fazendo aqui?
Charlotte discretamente olhou na direcção da entrada da lavandaria.
Max estava com um rapaz e tratavam com a atendente.
— Trouxe roupa para lavar.
Está com um rapaz, mas acho que não o conheço.
Nesse momento, Max viu Charlotte e acenou.
Ela retribuiu, sorriu e avisou Denise:
— Ele nos viu e está vindo falar connosco.
Denise sentiu o coração disparar e um leve tremor nas mãos.
"Controle-se, mulher!", ordenou a si mesma.
"Seja educada, fria e natural.
Como diria Camila: sossega o facho.
Isso não é um encontro, é um esbarrão na lavandaria."
Ele se aproximou, cumprimentou-a alegremente, no seu modo de ser extrovertido, apresentou o amigo, lan, imigrante escocês que fora trabalhar com ele.
— Música new age — comentou lan.
Estudei a música celta.
Adoro aqueles sons.
Mas não entendo de engenharia de som.
Essa parte electrónica deixo para Max.
— Então é uma sociedade? — comentou Denise, surpresa.
Durante o relacionamento deles, Max nunca tinha falado de querer trabalhar nessa área.
Captando o pensamento de Denise, ele adiantou-se e respondeu, encarando-a:
— Estou sempre aberto a novas oportunidades.
A frase era dúbia, mas Denise sentiu-se aquecida e, sustentando-lhe o olhar, respondeu, sorrindo:
— Uma excelente forma de viver.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:01 pm

Estou aprendendo a encarar desafios.
Um dia eu também quero estar aberta às novas oportunidades que surgirem.
Sucesso para vocês!
— Obrigado. Por falar em desafios, você esteve óptima na temporada de Otelo. Parabéns!
— A crítica gostou.
— Você esteve muito bem.
Todas as apresentações a que assisti foram impecáveis — declarou Max.
Denise engasgou, piscou aturdida e pensou:
"Será que ouvi direito?
Não me enganei com alguma palavra?".
Na dúvida, decidiu não demonstrar euforia e apenas balançou a cabeça.
No entanto, o brilho do olhar denunciou o que ela tentou ocultar.
Max percebeu e regozijou-se.
Sentia muita falta dela.
Charlotte e lan se afastaram.
Ela estava dobrando as roupas e acomodava-as na sacola sobre a bancada, e o rapaz colocava as dele na máquina.
— Estamos trabalhando bastante, lan e eu.
Mas qualquer dia podíamos sair para jantar, o que acha?
— Será óptimo, claro.
Meu telefone continua o mesmo - e dando-se conta dos meses transcorridos desde o rompimento, apressou-se em corrigir:
— Mas anote, é...
— Eu tenho — declarou Max, sorrindo.
Ligarei. Quer anotar o meu?
Animada, ela sorriu e confessou:
— Não precisa, eu sei.
Depois, se sentindo boba e insegura, percebeu que poderia ter havido mudanças no telefone dele e corrigiu-se outra vez:
— Quero dizer, sei o número se ainda for o mesmo.
— É o mesmo.
Charlotte concluiu a tarefa e, carregando as duas sacolas, aproximou-se do casal.
Percebeu a atracção entre os dois e sorriu:
— Meus amigos, bendito seja quem inventou a máquina de lavar roupa.
Eu o abençoo. É uma invenção maravilhosa — declarou Charlotte, descontraidamente.
Conversaram alguns instantes e despediram-se.
Denise flutuava, dizia a si mesma para não fantasiar, não se iludir, mas estava apaixonada e, nesse caso, nem sempre se concilia razão e paixão.
Alberto e Amélia acompanhavam-na atentos.
Anton, literalmente, espumava enfurecido, observando-os a distância, e resmungava:
— Malditos!
É por causa deles que não consigo me aproximar.
Ela não sabe o que faz, nem o que diz.
E o nosso pacto?

(9) Movimento Beat: movimento socio-cultural ocorrido na década de 1950 e princípio da década de 1960 que subscreveu um estilo de vida anti-materialista, na sequência da Segunda Guerra Mundial.
A filosofia beat baseia-se na melhoria do interior de cada um, acima das posses materiais.
(10) Parque temático dos Estúdios Disney em Paris, França.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:02 pm

Capítulo 35
A semana terminou, outra vez era sexta-feira.
Denise chegou ao estúdio cansada e feliz.
Assinara o contrato com a Ópera de Paris.
Era uma cantora lírica profissional e empregada.
Charlotte tinha viajado à tarde para Milão, então estava sozinha.
Foi até a geladeira e encontrou um vinho branco frisante, pegou-o, apanhou uma taça de vidro e voltou à sala.
Acomodou-se na poltrona, a vidraça da janela permitia ver as luzes da cidade, os faróis formavam uma serpente brilhante movendo-se pelas ruas.
Abriu o vinho e serviu-se, brindando ao seu sucesso.
— Saudações, Denise!
Você conseguiu, garota — disse a si mesma, erguendo a taça e sorvendo o vinho deliciada.
Eu mereço. Delícia!
Bebericando o vinho, recordou sua chegada a Paris, dois anos antes.
Havia mudado. Lembrou-se da noite da chegada.
Também ficara sozinha no estúdio, bebendo chá, olhando e ouvindo os sons da capital francesa.
Medo e euforia a dominavam, além do teimoso desejo de provar à mãe que tinha vocação e podia, sim, viver da música e para a música.
— Eu era bem pobrezinha — reconheceu Denise, falando para a taça de vinho.
Acho que enriqueci como gente.
Medo? Ainda tenho, mas não me domina.
Bertoldo disse que medo todos têm, o que nos diferencia uns dos outros é que alguns ele domina e outros o controlam.
Estou mudando de polaridade, penso que passei do meio do caminho.
Euforia? Não, não mais.
O trabalho ensina.
A música é exigente, cheia de sacrifícios.
Isso nos faz pousar na Terra.
A ópera não é um concerto de rock, nem música popular, é um trabalho de conjunto.
É interpretação e canto.
O público é diferenciado e não cabe euforia.
É claro que tem os egos inflados, as prima-donas, mas são alguns apenas.
Na próxima semana pedirei demissão da loja.
Assim terei mais tempo para fazer cursos de aperfeiçoamento, ensaios e minhas leituras.
Preciso avisar o pessoal no Brasil e decidir se irei nas férias de Natal.
Estou com saudade.
Será bom revê-los, estarmos juntos.
Convivência virtual é bom, mas não substitui o contacto pessoal.
De um tema a outro, Denise percebeu que ficaria sozinha no estúdio no próximo ano, mas não pensava em se mudar.
— Não será difícil encontrar alguém para dividir as despesas, mas será que surgirá outra Charlotte?
Não vou esquentar a cabeça hoje, porque ainda terei tempo para resolver isso.
Como disse Berthe, o segredo do equilíbrio é ter claro na mente que a cada dia basta o seu mal.
Viver as experiências do dia, sem acumular, arrastando coisas de ontem e correria para o amanhã, simplesmente saborear cada momento, seja ele doce ou amargo, na certeza de que passará. Tudo passa.
Tomou mais uma taça de vinho, sentia-se bem, relaxada, tranquila.
Usufruía essa sensação.
Os livros sobre a mesa, para evitar esquecimentos no dia seguinte, colocaram seu pensamento em outro rumo.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:02 pm

Decidiu ir deitar-se.
Pegaria o trem cedo para Nancy, porque queria aproveitar o dia.
Bertoldo iria esperá-la na estação.
Fariam um passeio pela cidade velha e encontrariam Berthe para almoçar em um bistrô próximo da sede do círculo espírita.
Seria um excelente fim de semana.
Max ainda não havia ligado, mas tinha feito contacto pelas redes sociais.
"Não posso ter pressa.
Afinal, sei que fui responsável pelo rompimento.
Preciso mudar e sinto que esses atendimentos em Nancy irão me ajudar.
Engraçado, nunca tinha dado importância a essa coisa de intuição, mas é exactamente o que acontece: tenho a intuição de que estou no caminho certo, é o meu caminho.
O que será que a Camila diria disso?", pensou, olhou o relógio, calculou o fuso horário e deduziu que a irmã ainda estava no trabalho.
Poderia tentar contacto.
Levantou-se e buscou o computador.
Trocou ideias com a irmã, relatou o atendimento em Nancy, o encontro com Max e o contrato com a ópera.
Camila ficou feliz com as notícias, mas havia uma sombra em seu olhar, estava com a expressão abatida.
Denise considerou que a imagem fosse distorcida pela webcam, mas decidiu perguntar.
— Puxa! Devo estar horrível, Denise.
Esperava que a distorção da imagem disfarçasse — brincou Camila.
— O que houve, mana?
Qual é o problema?
— Eu não queria falar, não queria... ainda não temos nada conclusivo, só suspeitas.
— Fala, Camila.
O que está acontecendo?
— É a mãe. Ela está doente, surgiram caroços nas mamas.
E...
— Já entendi.
Suspeita de câncer. Deus!
Quem é o médico?
Que exames fizeram?
Como é que ela está?
— Como eu disse, ela ainda está fazendo exames.
Fez a biópsia hoje e teremos o resultado em três dias.
Está muito abalada.
Na clínica, encaminharam-na para o atendimento psicológico, mas você conhece a dona Marlene.
Cabeça-dura!
Conversei com a psicóloga, a situação está pesada, e todos sabem que o tratamento é complicado.
E tem a cirurgia, mana.
Mamãe vai perder os seios.
Graças a Deus, a medicina avançou e é possível fazer a reconstrução das mamas com implantes e as cicatrizes são menores.
Mas é barra!
E o pai, nem preciso falar, você o conhece.
Nega tudo, fica dizendo que os médicos estão errados e coisas do género.
— Vou voltar para casa, Camila.
Quando será a cirurgia?
— Ainda não tem data, e não vou ser fingida e dizer que não precisa vir.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:02 pm

Vai ser bom ter você aqui, porque serão tempos difíceis.
O médico quer apenas a confirmação de que os tumores são malignos, mas já nos disse que pelos resultados dos exames anteriores a chance de não ser é muito pequena.
Eu avisarei você.
A consulta é na próxima terça-feira.
Até lá, não há nada a fazer, além de rezar.
Elas conversaram mais alguns minutos até que Camila precisou desligar.
Denise sentia-se pesada, ansiosa.
A notícia abateu-a, como era de se esperar.
Olhou a garrafa.
Mais uma taça de vinho era necessária.
Beberia pelos motivos diametralmente opostos.
Enquanto se servia, lembrou-se de frases do Seráfita:
"Não vejo mais as misérias humanas.
Aqui, o bem brilha em toda a sua majestade; embaixo, escuto as súplicas e as angústias da harpa das dores que vibra nas mãos do espírito cativo.
Aqui, escuto o concerto das harpas harmoniosas.
Embaixo, há esperança, este belo começo da fé; mas aqui reina a fé, que é a esperança realizada!".
Da esperança à fé havia um caminho de crescimento pessoal.
Ela meditou, concluiu que sentia esperança e desejava ardentemente que a doença fosse superada.
Percebeu que a lembrança da frase e a reflexão, ainda que breve, tinham aliviado seu coração.
Olhou a taça servida, perdeu a vontade de sorvê-la.
Deixou-a na mesinha, ao lado da garrafa, e pegou os livros.
Leu, meditou e fez preces pela mãe, pelos familiares e pedindo forças para si mesma.
Sentindo-se calma, foi deitar-se.
Tudo passa, repetia em pensamento a frase preferida de Charlotte.
Na manhã seguinte, embarcou para Nancy.
Precisava avançar, encontrar o equilíbrio e ter força interior, pois voltaria ao Brasil em um momento delicado.
Então, nada de acomodação nem de entregar-se à ansiedade.
Parada na estação de trem, recordou a conversa com Berthe, antes do primeiro atendimento:
"A luta é sua, encare-a.
Não me estenda a mão, trabalhe por si mesma, em vez de mendigar as forças alheias.
A espiritualidade não é piegas, querida".
O trem chegou, ela embarcou e sentou-se.
Abriu o livro O desconhecido e os problemas psíquicos e retomou a leitura.
Quanto mais lia, mais identificava factos ocorridos em sua vida semelhantes aos narrados na obra.
E as explicações curavam suas dores, pois só quando encontramos o significado do sofrimento ele cessa.
Suas angústias eram acalmadas.
Era o poder libertador do conhecimento operando milagres.
Estava concentrada, cabeça baixa, olhos fixos nas páginas, por isso se assustou quando a tocaram.
Alguém se sentara ao seu lado e literalmente colara o corpo ao dela.
Isso era incomum, estranhou, sentiu-se desconfortável, imediatamente olhou para o lado para expressar seu desagrado e deparou-se com Max sorrindo e segurando uma mochila de lona.
Piscou e olhou-o surpresa.
Sorriu e relaxou.
— Que surpresa! — disse Denise.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:03 pm

— Não acreditei quando a vi entrar no vagão — respondeu Max.
Não resisti e sentei aqui mesmo, já que o vagão está quase vazio. Tudo bem?
— Tudo. E você?
— Trabalhando, trabalhando e trabalhando.
E ainda dizem que os músicos são desocupados, boémios e todos os elogios que se pode imaginar.
Para onde vai?
— Nancy. Tenho ido todos os fins de semana.
Estou participando de uma actividade com Berthe no círculo espírita que ela frequenta.
— É mesmo? Não sabia.
Obra de Charlotte?
Ela conseguiu levar-me a algumas palestras.
Gostei do assunto.
— Estou apaixonada por essas palestras.
Tenho necessidade desse conhecimento.
Descobri que as minhas esquisitices, com as quais meus pais gastaram tanto dinheiro, apenas são habilidades pouco conhecidas, absolutamente normais e estudadas há séculos pelas chamadas ciências ocultas.
Vou assumir meu lado bruxa — brincou Denise.
Max riu e depois encarou-a sério, perguntando interessado:
— Está lhe fazendo bem?
— Muito. Eu precisava de respostas para o que acontece comigo, ainda não tenho todas, mas estou no caminho.
Foi como se puxassem um véu, melhor, como se espanassem as teias de aranha na minha cabeça.
Sabe, me sinto livre e consigo pensar com clareza e calma.
Isso eu não fazia antes.
— E os medos?
— Estamos mexendo neles devagar.
Não sentia um medo puro e simples, não era como alguém com pânico.
O meu medo era de mim mesma.
Do fenómeno em si, e ele acontecia em mim, não fora.
Quem tem medo, em geral, é de algo ou alguém, mas é externo, é definido.
Não era isso que acontecia comigo.
Eu tinha medo de lembranças.
Lembranças de outras vidas.
Ainda não sei o motivo e, sinceramente, sei que não é saber ou não os factos do passado que me fará melhorar.
Hoje eu sei que são reminiscências.
Depois que comecei a participar desse atendimento e a estudar com Berthe e Bertoldo, já aconteceram alguns episódios, como aqueles de Marselha, lembra?
— Sim, é claro.
Eu gostaria de tê-los esquecido, mas não pude.
Afinal, acho que acabamos nos irritando e brigando por causa deles.
— Sim, foi. Eu sofria muito.
A ignorância e as buscas sem solução me deixavam desesperada e essas coisas tinham se tornado intensas naquela época.
Foi horrível.
Será que você pode me perdoar por ter sido uma companhia tão neurótica? — pediu Denise encarando-o séria, sem se importar se o vagão do trem era ou não o melhor lugar para aquela conversa.
Ele fez um beicinho, depois sorriu e pegou a mão dela que repousava sobre o livro no colo.
Fitando-a, respondeu:
— Perdoada.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:03 pm

E você não está mais magoada comigo pelas coisas que falei quando estava com raiva?
Eu já pedi desculpas.
Mas não tive resposta.
— Claro que não estou magoada!
Demorei, como disse, eu tinha teia de aranha na cabeça, mas reconheci que a responsabilidade maior era minha.
Lembrei muito das palavras de Noru:
o inimigo interno era meu.
Acabei me ferindo e ferindo você também.
Ele acariciou-lhe a face e sorriu, apertou-lhe a mão e disse:
— Gostaria muito de abraçar você, mas aqui não posso.
O fiscal nos poria para fora.
Ela sorriu, apoiou a cabeça no ombro dele e beijou-lhe a face.
— Teremos muito tempo.
E agora me diga, para onde está indo?
Ele explicou que seguiria viagem até os Alpes.
Tinha um encontro com um grupo de músicos para o projecto de música new age.
Empolgado, falou sobre o trabalho, informando-a de que Noru trabalhava com eles, pois queriam sons étnicos e ao mesmo tempo transcendentais, buscando integrar cultura, natureza e espiritualidade de diversas partes do planeta.
Quando anunciaram a estação de Nancy, Denise sentiu-se triste, pois queria seguir viagem com Max.
Viu nos olhos dele o mesmo desejo, mas lembrou-se do dever, precisava conhecer-se e crescer.
Então, recolocou o livro na bolsa, fechou-a e encarou-o dizendo:
— Ficarei em Nancy.
Estarei em Paris às dezoito horas amanhã.
Preciso ficar, resolver meus dilemas, encontrar minhas respostas.
Isso tem me feito bem, e sei que serei uma pessoa melhor, mais feliz e saudável.
— Eu compreendo.
Faça o que deve fazer.
Esperarei você na estação amanhã às 18 horas.
Ela sorriu e Max beijou-a rapidamente nos lábios.
— Um convite? — perguntou Denise, baixinho.
— Uma promessa — respondeu ele, beijando-a novamente.
— Vá. Amanhã nos encontramos.
Feliz, radiante, com uma expressão sonhadora no rosto, ela saltou do trem e foi ao encontro de Bertoldo.
Passou a manhã passeando e aprendendo a fotografar, conforme combinara com o amigo.
Próximo do meio-dia foram ao bistrô aguardar Berthe.
Era um local simpático, simples e aconchegante.
Uma porta lateral mostrava um jardim de inverno com algumas mesas.
Bertoldo encaminhou-se para lá, Denise seguiu-o, admirando o bom gosto da decoração.
— Adoro esse recanto.
Na minha encarnação passada fui uma velhinha por muitos anos — declarou Bertoldo, acomodando-se e pegando o menu.
Eu amo esses recantos.
Imagine que delícia ouvir música, tomar chá com madelaines e fazer croché.
É perfeito! Veja a luminosidade, sinta a temperatura.
Fiz uma proposta para adquirir esse prédio, mas a proprietária me mandou à lua com rebuscada educação.
— Você é maluco, Bertoldo.
Não acredito que fez isso?
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Ave sem Ninho

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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:03 pm

— Fiz. Por que não?
Mas não tive sucesso, a proprietária é apegada ao imóvel.
Disse que pertence à família desde o início de 1900.
— Isso é comum.
Meu pai tem uma imobiliária no Brasil e frequentemente eu o ouvia falar de casos assim.
Ao mencionar a família, uma sombra encobriu o olhar brilhante de Denise, e Bertoldo percebeu.
— Algum problema?
Você falou no seu pai e seus olhos apagaram.
Estavam tão vivazes que foi impossível não notar a mudança.
Denise suspirou, apoiou os cotovelos na mesa e descansou a cabeça entre as mãos.
— Doença. Minha mãe terá que fazer cirurgia nas mamas.
Eu soube ontem. Na hora, perdi o chão.
Não soube muito bem o que fazer nem o que dizer a Camila.
Só sei que irei ao Brasil, preciso estar com eles, principalmente com a mana.
— Câncer?
— Aguardamos o resultado da biópsia, mas tudo leva a crer que sim.
— Hum. Prova difícil.
Vamos orar para que ela tenha coragem e resignação.
— Coragem, ela terá.
Mas resignação...
— Prefiro um covarde resignado como paciente.
Os resultados são melhores.
— Minha mãe calma e tranquila, deixando as coisas acontecerem, é algo que não consigo enxergar.
Dona Marlene precisa de controle e comando.
— É mesmo? Pobre mulher... É iludida.
Ter sabedoria é distinguir as coisas que podemos controlar e comandar das que estão fora da nossa capacidade.
Não me julgo um sábio, apesar de ter o pré-requisito de Sócrates...
— O que é isso? — indagou Denise, curiosa com a expressão.
— Eu sou feio, mas dizem que ele era horroroso.
Então, estou a caminho da sabedoria — respondeu Bertoldo, sério, fazendo Denise rir.
— Você não tem jeito, Bertoldo.
Mas tem razão, vi alguns bustos de Sócrates.
Ele era muito feio, pequeno, esquisito, parecido com o Mestre Yoda.
Mas você tem razão.
Existe semelhança entre vocês: os olhos.
Eu tenho certeza de que os olhos de Sócrates deviam ser parecidos com os seus:
inteligentes, brilhantes e sedutores.
— Perdi a fome — declarou Bertoldo, sério, mas o brilho do olhar revelava que estava brincando.
Depois de ouvir isso, ficarei em êxtase dois ou três dias, mais do que isso se torna perigoso.
Mas, falando sério, a cada ano a minha lista do que controlo e comando diminui.
Já constatei e risquei tudo que era externo a minha pessoa.
Estou convicto de que fora dos limites do meu pensar e sentir não há nada mais que eu possa controlar.
Comandar é ainda mais restrito, ando discutindo comigo mesmo, mas, por ora, o vencedor é "só posso comandar meu pensamento".
O problema é que ele é rebelde.
É meu, mas é um animal indomado.
Eu ponho os arreios nele, mas quando menos espero ele está solto e corcoveia comigo montado.
Denise ouviu pensativa, entendeu o que ele dizia.
Esse tema permeava as leituras que fizera durante a semana.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:03 pm

— Ainda tenho muito a estudar, Bertoldo.
Mas estou amando esse universo novo.
Fez-me tão bem!
Mas minha mãe não aceitaria a ideia — lamentou Denise.
— Como eu dizia, é uma pena que ela não se resigne com a doença.
Ganharia força aceitando a prova que a vida lhe oferece.
Resignar-se não é cruzar os braços e esperar que o melhor caia do céu.
É aceitar o momento sem revolta, sem perguntar:
por que comigo? o que fiz para merecer isso?; e coisas do tipo.
Mas sim: o que é o melhor a fazer agora? para que a vida está me apontando esse caminho de enfermidade?; o que há aí para ser aprendido?...
É por isso que prefiro um paciente covarde e resignado.
Ele se submeterá aos tratamentos necessários borrado de medo, mas com uma confiança equilibrada.
Terei que tratar somente o físico, o psicológico ele resguardou por si mesmo.
Isso facilita tudo.
— Você fala como se lidasse com enfermos, mas você é fotógrafo.
— Mas eu lido com enfermos nos atendimentos do círculo espírita.
O tratamento com passes magnéticos é complementar à maioria dos tratamentos convencionais.
Por isso, creia, sei do que estou falando.
Nós abrimos ou fechamos as portas das enfermidades, pode apostar.
Meu amigo Sócrates já tinha ouvido falar e comentava que não havia doenças, mas doentes.
É preciso tratar o tumor, mas não perca de vista que a vida trata a dona do tumor.
Então, se pensarmos um pouquinho, veremos que, para trabalhar em favor da vida, não posso descuidar dos olhos do Criador, nem levantar minhas pobres ferramentas contra Ele.
Será luta perdida.
Se Ele está empregando a doença com alguém, é porque essa pessoa tem algo mais a tratar, a pensar, a rever, a mudar em si mesma ou na sua existência do que extirpar um tumor.
É nisso que também precisamos ajudar, Denise.
Senão a doença voltará, seja ela qual for.
É uma professora muito chata, emprega o método socrático para o nosso desespero, ela faz a gente parir a solução, a mudança, e isso incomoda.
Há quem não faça, mas o paciente covarde aceita.
— E os corajosos, não?
— Com maior dificuldade, eu diria.
Os corajosos muitas vezes são insensatos, imprudentes e sem reflexão.
Querem livrar-se do problema logo e fazem muita besteira.
O medo, na dose certa, protege o indivíduo.
Tem gente que bebe a própria urina jurando que é remédio.
Veja bem, com o suco de frutas deliciosas, bons vinhos, água pura, ervas saborosas, tudo isso com reconhecidas propriedades medicinais, o camarada beber urina é muita coragem, não é?
Deve haver alguma fábula que mostra o quanto o burro é mais corajoso que o cavalo — brincou Bertoldo.
Sim, porque o cavalo empaca diante do perigo, mas eu acho que o burrinho segue firme.
Denise ria, embora a conversa fosse séria e profunda.
Bertoldo a orientava para o futuro, para conviver com a enfermidade grave da mãe.
— Nessa ânsia por livrar-se da prova necessária, também podem ser explorados.
Desde que o mundo é mundo há os fazedores de milagres a tantos euros por hora.
Prometem mundos e fundos, e um corajoso desesperado não pensa, só faz.
Corre para todos os lados.
E, às vezes, nessas misturas malucas, faz algumas explosões no próprio corpo.
Isso sem falar nos problemas psicológicos.
Esses ele amontoa.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:03 pm

Comprime tanto que daí eles vão estourando, um a um, igual balão de aniversário hiper-insuflado.
Todas as reacções adversas, em qualquer tratamento, irão acontecer com o corajoso, porque ele está predisposto.
Ele diz que não, mas age dizendo sim a todas as complicações.
Entendeu por que a resignação é força?
— Acho que sim — respondeu Denise, pensativa, e compreendendo que os conceitos de Bertoldo provavelmente seriam necessários a sua mãe.
O perfil de Marlene se encaixava como uma luva na descrição de uma paciente corajosa e irresignável.
Não esperava ver a mãe revoltada, desestruturada, afinal isso era uma conduta exterior.
Dona Marlene estaria firme, pronta para fazer tudo que estivesse ao seu alcance para livrar-se da doença, não o que seria possível e necessário ao tratamento.
A resignação era comando e controle interior.
Reflectindo sobre essas ideias, olhou as plantas iluminadas pelo sol e percebeu a entrada de Berthe.
— Olhe quem chegou, Bertoldo — falou Denise, sorrindo para a amiga.
Berthe cumprimentou-os, sentou-se, e pôs-se a par da conversa.
Contribuiu com a preparação informal de Denise e, com seu senso prático e aguçado, decidiu o pedido do almoço.
Bertoldo e Denise se olharam e falaram juntos ao garçom:
— O mesmo para mim.
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Re: Sinfonia da Alma - Laya/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 11, 2018 8:04 pm

Capítulo 36
Aquela foi uma tarde produtiva.
O atendimento no círculo espírita tornava-se mais rápido, o transe sonambúlico manifestava-se sem entraves e Denise progredia no domínio das faculdades.
Ela era naturalmente dócil e isso facilitava a tarefa de Berthe.
Vencido o medo inicial, ela se transformara em uma aprendiz dedicada e consciente.
Revisaram os assuntos de leitura, trocando ideias.
Depois conversaram sobre como ela estava se sentindo no dia a dia, se identificara os fenómenos anímicos e como lidara com eles.
Satisfeitos, iniciaram a sessão.
Em poucos minutos ela caía no estado sonambúlico, atendendo às sugestões de Berthe.
— Denise, concentre-se em Marlene Pereira — ordenou Berthe.
Consegue vê-la?
Alguns instantes se passaram e a jovem respondeu com voz arrastada e pausada.
Tinha dificuldade para falar.
— Sim, eu consigo.
Ela está deitada no quarto.
As cortinas estão fechadas.
Está na penumbra e sozinha. Ela chora.
— Muito bem.
Você vê a casa?
— Sim. Meu pai está na sala.
A televisão e o computador estão ligados, mas ele não presta atenção neles.
Tem o olhar perdido.
Está magro e triste.
Há uma nuvem cinzenta em torno dele.
— Há mais alguém?
Ela demorou um pouco e falou:
— Há sim.
Mas eu não conheço.
— O que você sente vendo essa pessoa?
— Tranquilidade.
É uma senhora idosa.
Ela sorri para mim.
— Óptimo. Ela consegue vê-la, Denise.
Pergunte-lhe quem ela é, como se chama e o que faz na casa.
— Ela diz ser minha avó, e se chama Amélia.
Está ajudando meus pais e a mim.
— É o mesmo espírito que se manifestou por você, enviando-lhe uma mensagem.
Pergunte-lhe se ela pode nos ajudar a promover um encontro com um de seus familiares.
— Ela disse que sim e olhou para o quarto da minha mãe.
— Acompanhe-a e relate o que vê.
— Estamos no quarto da minha mãe.
Ela continua chorando.
Não é algo desesperado, mas as lágrimas correm.
Amélia disse para eu olhar a cabeça da minha mãe e é estranho, eu vejo uma coisa escura, parece óleo diesel, escorrendo devagar da cabeça pelo corpo.
É algo com aparência pegajosa e tem um cheiro ruim, como se fosse gordura rançosa.
Por onde passa, essa coisa apaga a luminosidade que tem no corpo.
Amélia diz que é o pensamento enfermiço dela que vai consumindo a energia e a vitalidade.
Amélia está me chamando para perto da cama.
— Vá — ordenou Berthe. — Confie.
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