Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:02 am

24º Capítulo - Os Agéneres
Sempre me considerei uma ilha, cercado de espíritos e... não posso cometer essa injustiça com os meus felinos gatos por todos os lados...
Os espíritos, fora do corpo e mais ou menos no corpo, sempre me rodearam; pelo menos nos bons tempos era assim, quando, principalmente, a presença da notável médium Modesta os atraía.
Eu nunca soube explicar o dom que os médiuns possuem de atrair os espíritos; os desencarnados, quando os pressentem, não mais deles se afastam...
Os médiuns lhes parecem uma espécie de porta constantemente aberta aos contactos que almejam prosseguir mantendo com os habitantes da dimensão de que foram alijados pela morte.
Eu não sei, mas tenho a impressão de que a modernidade aniquila os sensitivos,
tornando-os cada vez mais raros falta de introspecção, com certeza.
O progresso material vertiginoso da civilização é um forte apelo à vida exterior; a luta pelo pão de cada dia, as solicitações do mundo, o complexo problema da educação dos filhos, a competitividade do mercado de trabalho...
A verdade é que os medianeiros de faculdades portentosas do meu tempo sem nenhum demérito para os demais, que têm feito o que podem foram escasseando; a lacuna deixada no Sanatório pela desencarnação de D. Modesta, em 1964, jamais voltou a ser preenchida...
Mas isso é outra história.
Diante dos meus olhos, eu estava com a excelente obra, que havia sido recentemente adquirida para a minha colecção, “Os Santos que abalaram a Igreja”, de René Flop-Miller.
A sua leitura, no capítulo que trata da vida de Santo Antão, veio colaborar com as reflexões que, à época, eu efectuava em tomo da controvertida tese de Roustaing, o advogado de Bordéus e contemporâneo de Kardec, a respeito do pretenso corpo fluídico de Jesus.
De início, deixe-me dizer-lhes que sempre a achei a mais absurda das ideias; não houve nenhuma encenação no Calvário e, com o devido respeito, a maternidade de Maria não foi qualquer demérito para o seu espírito iluminado...
Se sobre a Terra algo existe do Céu, sem dúvida é o prodígio da maternidade!
O engodo do corpo fluídico infiltrou-se no Cristianismo assim que as lutas dos cristãos cessaram, e o Imperador Constantino declarou-o a religião oficial do Estado.
Vejamos que curioso:
a ideia do corpo fluídico que, há dois mil anos, dividiu os cristãos, tornou a dividi-los através dos espíritas...
No Além, as entidades que pugnam pela Igreja Católica não esmorecem e estenderam a sua influência no Espiritismo, mal havia sido encetada por Allan Kardec a obra da Codificação.
O livro de René Flop-Miller conta que, findado o tempo dos martírios a que os cristãos foram submetidos por cerca de trezentos anos, teve início entre eles as querelas teológicas que, infelizmente, até hoje persistem.
Antes tivessem continuado a morrer no testemunho da fé e, por consequência, antes os espíritas prosseguissem vítimas da opressão religiosa, pois, quando o ideal cessa de ser combatido, os idealistas costumam embaraçar a si mesmos...
Tudo começou com discussões a respeito da natureza do Cristo:
o Senhor havia sido um Deus que assumira forma humana ou um homem que quase atingira a perfeição divina?
As opiniões se dividiam entre Ário, presbítero de Alexandria, e o jovem diácono Atanásio.
O primeiro defendia que Jesus era semelhante em essência, e o segundo que Ele era igual em essência...
No ano de 325, para resolver o impasse, Constantino convocou o célebre Concílio de Niceia, ao qual trezentos bispos, de todas as partes do mundo, compareceram.
Vale ressaltar que o Imperador não se expressava em grego, o idioma com que os bispos se digladiavam, tendo-o como mediador; Constantino só falava o latim...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:02 am

Em seu trono de ouro, registrava, quase sem nada entender das palavras que lhe eram sumariadas por um intérprete, o motivo de tamanho conflito:
“Cristo é homem!”, exclamavam os arianos; “Cristo é Deus”, defendiam os atanasianos...
Pasmem: no grego, a expressão para semelhante em essência é “homoi-ousion”, e para igual em essência é “homo-ousion”, ou seja, a diferença, tremenda, residia na menor letra do alfabeto grego, a letra i!
Aqueles homens, em sua maior parte, ainda traziam as marcas das flagelações a que haviam sido expostos:
“corpos mutilados, escaldados, queimados ou cegos pelos opressores”...
Quando a discussão entre eles se acirrou, Constantino perguntou ao intérprete:
“A respeito de que eles estão discutindo agora?”
Com ironia, o auxiliar respondeu:
“A respeito de uma letra!”
Desnecessário dizer que os adeptos de Ário foram derrotados pelos de Atanásio, e a semente do corpo fluídico de Jesus germinou na gleba da Igreja e, até os dias de hoje, produz amargos frutos para o Cristianismo.
A opinião do autor da obra referida “Se Cristo tivesse sido simplesmente um homem, a alegria jubilosa da fé cristã não poderia ter nascido.
Não haveria ressurreição, nem milagre do Espírito Santo, nem graça, nem sacramento, nem redenção. Não haveria a misericordiosa Mãe de Deus, não haveria Natal, não haveria Páscoa” , embora compreensível e respeitável, falta com a Verdade, pois, infelizmente, ao longo do tempo, toda a filosofia do Evangelho se deixou influenciar e a Igreja, aos poucos, foi se desviando de suas finalidades.
Não podemos, no Espiritismo, repetir o mesmo equívoco.
A chamada “Revelação da Revelação”, obra extemporânea lançada por Roustaing em 1866, quando sequer a Codificação estava concluída, se invalida no que possa conter de aproveitável do ponto de vista doutrinário por defender o dogma da virgindade de Maria, como se, repetimos, o sexo fosse algo execrável.
Ora, se até as abóboras se reproduzem através de suas flores masculinas e femininas!...
Existem no homem coisas mais abjectas do que o sexo o funcionamento dos intestinos, por exemplo, e a própria cadaverização, cujas fétidas emanações atraem as aves de rapina...
Desculpem-me, se excedo. Lembrem-se, no entanto, de que fui um médico, e lidar com dejectos e secreções sempre foi muito natural para mim.
Não me causa asco a referência acima.
Tenho para comigo nos estudos que ainda efectuo acerca da personalidade humana, a par da influência obsessiva que agiu sobre J. B. Roustaing e Mme. Collignon, a médium única que lhe intermediou as pesquisas de Além-Túmulo que o obscuro advogado nutria por Allan Kardec enorme admiração...
Tendemos a copiar aqueles que admiramos e, mais, aspiramos a ser exactamente o que eles são.
Se pudéssemos, inclusive, na falta de melhor expressão, lhes surripiaríamos a personalidade...
Estudei, à saciedade, os quatro volumes da aludida obra roustainguista e digo-lhes com sinceridade:
eles nada contêm de excepcional e ficam a dever muito a outros que, com maior propriedade, interpretam os textos do “Novo Testamento”; não fosse pela tese miraculosa e esdrúxula do Cristo “agénere”, o trabalho compulsivo de Roustaing teria caído ainda em mais amplo esquecimento.
Os agéneres, aos quais Kardec igualmente se referiu, existem.
Isto é ponto pacífico.
A Bíblia está repleta de exemplos de aparições tangíveis de espíritos.
Para citar, talvez, o mais clássico deles, referir-me-ei à luta que Jacó travou com um espírito, o qual lhe deslocou a junta da coxa e, após, lhe mudou o nome para Israel. (Génesis, 32:2232)
Retomando a interpretação da personalidade de Roustaing, sem, evidentemente, o menor propósito de crítica, porquanto tudo é experiência nos caminhos da evolução, digo-lhes que ele, em seu desejo de destaque, agiu sem conhecimento de causa, ou seja, foi mero instrumento das entidades que, pressentindo o perigo que o Espiritismo representava, assim se movimentaram inteligentemente.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:03 am

As estéreis discussões em torno do carácter religioso ou não da Doutrina Espírita tiveram igualmente aí a sua origem: para defender a Nova Revelação do misticismo, nega-se-lhe o aspecto ético ou religioso, que, em essência, é reviver a discussão entre arianos e atanasianos.
Há vinte séculos, Atanásio venceu Ário, mas, agora, Roustaing não pode prevalecer sobre Kardec!
Jesus Cristo nasceu de Maria e José, que se uniram sexualmente, sendo que ambos, posteriormente, vieram a ter outros filhos.
A maternidade, tanto quanto a paternidade, é sublime missão.
A mulher, quando se faz mãe, deixa de ser apenas Terra e carrega consigo alguma coisa do Céu.
Jesus é igual ao homem e semelhante a Deus o Modelo possível de ser alcançado! -, e não o contrário.
Maria de Nazaré não representou aos pés da cruz, vertendo lágrimas por um agénere...
A grandeza real do Cristo está na sua condição humana e não na sua suposta divindade.
Devo, sem dúvida, ter me encontrado com alguns agéneres quando cruzei com eles os meus passos na Terra...
É uma possibilidade mais plausível do que, por exemplo, se estar
face a face com um extraterrestre, habitante de um planeta que, se suas condições climáticas e culturais não forem absolutamente idênticas às nossas ou semelhantes (não vamos discutir como os cristãos diante de Constantino), não terá veículo de manifestação física que o faça passar despercebido do comum dos mortais.
Aliás, ultimamente, eu vinha suspeitando que os agéneres, ou, em outras palavras, as assombrações tangibilizadas estavam me rondando...
Com que finalidade, não sabia.
Doar ectoplasma é mais fácil que doar pensamento.
O médium de efeitos físicos extrojecta, ou seja, expele substância para os espíritos se materializarem; o médium de efeitos intelectuais deve introjectar, ou seja, acolher a ideia e transformá-la em palavra...
As entidades que se tornam agéneres retiram o ectoplasma dos médiuns como a abelha, o néctar das flores; na maioria das vezes, os médiuns não sabem que estão servindo de instrumentos para os desencarnados se corporificarem e, por sua vez, os desencarnados, muitos deles, não têm plena consciência do fenómeno; quando percebem, por acção da vontade inconsciente, estão revestidos de matéria...
Felizmente, o fenómeno é fugaz, pois, caso contrário, a explosão demográfica do orbe terrestre se anteciparia!
— Os agéneres abrindo-lhes a indagação poderiam manter contacto físico com os encarnados?
É evidente que sim; possuem um corpo artificial, mas possuem...
Falta-lhes, no entanto, a complexidade dos órgãos que constituem o corpo de carne neles, somente a aparência é humana.
Difícil entender?
Difícil explicar.
O Cristo não foi um agénere e nem um extraterrestre.
Dos doze aos vinte e nove incompletos de idade, o Senhor não se desintegrou e nem tomou um disco-voador, esperando o momento propício de baixar à Terra!
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:03 am

25º Capítulo - O Teólogo
Padres e pastores, com relativa frequência, visitavam as nossas actividades mediúnicas no Sanatório, proferindo blasfémias e anátemas.
Mediunizada, D. Maria Modesto Cravo me permitia encetar longos diálogos com eles, que argumentavam connosco com o propósito de demover-nos da fé espírita.
Alguns até se revelavam sinceros, sem que, no entanto, eu pudesse entender o seu desconhecimento das verdades de Além-Túmulo.
Em minha ingenuidade, quantas vezes supus que a desencarnação fosse o bastante para converter os espíritos mais recalcitrantes...
Aos poucos, fui entendendo que, nas dimensões da Vida após a morte, os espíritos afins formam extensas comunidades e resistem à evidência dos factos.
Não basta a morte do corpo para que o espírito se esclareça e se disponha à necessária mudança.
O problema mental e as limitações do pensamento persistem, porquanto, evidentemente, estão arraigados no âmago do ser; os interesses pessoais, inclusive os de carácter religioso, acabam deformando a personalidade e criando sugestões de difícil resolução.
A vida mental intensa faz, por vezes, que o espírito perca completamente o interesse pelo mundo exterior.
Em uma quarta-feira, antecedendo a sessão, lêramos um trecho inserido por Allan Kardec no capítulo IV de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, intitulado “Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”.
Com rápidas palavras, aludimos ao diálogo que Nicodemos, senador dos judeus, sustentara com Jesus em torno da Reencarnação.
Todavia, nem bem diminuíramos a luz de intensidade, deixando o recinto imerso em relativa penumbra tranquilizante, apresentou-se um espírito que conversou connosco como se estivesse, o tempo todo, brandindo a Bíblia em sua mão direita.
— Heresia! - começou dizendo.
A Reencarnação é uma heresia!
Vocês estão se iludindo.
Não distorçam a interpretação das palavras do Senhor!
Isso é pecar contra o Espírito Santo...
Após a morte do corpo, apenas o Juízo Final.
Vocês são adeptos de uma seita, não de uma religião cristã...
Além de estarem contrariando a proibição de Moisés, no livro Deuteronómio, capítulo 18, versículos 10 e 11, está escrito:
“Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos...”
Vocês são infractores da Lei!
Reconsiderem e recuem em suas falsidades.
O Senhor, com Nicodemos, referia-se à necessidade do baptismo.
— “Em verdade, em verdade, te digo que quem não nascer da água e do espírito não poderá entrar no Reino de Deus”...
Na primeira oportunidade que me fora concedida, comentei:
— Meu irmão, eu não sou versado nos assuntos bíblicos; admiro-lhe a memória prodigiosa; no entanto, não nos apeguemos à letra que mata...
0 apóstolo Pedro, em sua Segunda Epístola, declarou:
“...nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação.
— Capítulo 1, versículo 20... - atalhou o teólogo.
É o que vocês, espíritas, vivem fazendo:
interpretando pela sua óptica distorcida o que não carece de interpretação.
A Palavra é clara.
O Senhor nos advertiu contra a aparição dos falsos Cristos e falsos profetas...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:03 am

O renascimento é a conversão do pecador...
O homem vive muitas vidas em uma única existência...
— Em parte alguma está escrito assim, pelo menos que eu me recorde...
— Como não?
Vocês não estudam, vivem perdendo tempo com os livros daquele homem que, infelizmente, escapou aos braços da Inquisição, que, diga-se de passagem, prestou relevante serviço espiritual à Humanidade; muitos bruxos, que vocês modernamente chamam de médiuns, foram parar nas fogueiras...
Espiritismo é alucinação.
O homem carece de se reformar agora, e não depois, adiando o seu esforço de regeneração para o futuro...
A tese da Reencarnação faz com que a criatura se desinteresse pela salvação!
Vocês nunca leram o que Paulo escreveu aos Hebreus:
“E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois disto, o juízo”?
(Capítulo 9, versículo 27).
— Existem, no entanto esclareci -, outras passagens evangélicas que endossam a ideia reencarnacionista...
O apóstolo João, por exemplo...
Sei a narrativa à qual você se refere:
“Caminhando, Jesus viu um homem cego de nascença.
E os seus discípulos perguntaram: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?
Respondeu Jesus:
Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus”.
(Capítulo 9, versículos 2 e 3).
— Não lhe parece implícita no texto a Reencarnação?
Aquele homem era cego de nascença...
Todos o conheciam. Os discípulos indagaram:
“...quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”
— Muitos nascem para que as obras de Deus neles se manifestem...
— Mas nem todos têm o privilégio de ser curados...
A maioria nasce cega e morre cega.
As obras de Deus, como você coloca, não se manifestaram neles.
— Foram instrumentos para que se manifestassem em outros...
— Isto é sofisma...
— Ora, vejam só quem está falando em sofisma!...
Vocês dizem que a Reencarnação torna o homem responsável pelo seu destino, ou pelo seu carma.
Pois bem. Semelhante crença impera na índia, o país mais reencarnacionista do mundo, mas o povo vive por lá em extrema miséria social...
Ninguém se compadece dos párias.
Os hinduístas e muçulmanos se conflituam de maneira sanguinolenta...
— A Verdade sem o Amor gera a loucura.
No Espiritismo, o Evangelho ilumina a Vida, ou seja, não pregamos a pluralidade das existências dissociada da necessidade humana de se renovar...
A finalidade da Reencarnação é o renascimento moral do ser, o que, convenhamos, não lhe é possível numa única experiência...
—Vocês sabem da força do Cristianismo, por este motivo vivem querendo associar o Espiritismo a ele, mas a doutrina que professam nada tem a ver com o Senhor.
— Retomemos exortei a nossa discussão inicial.
Você se referiu a Moisés no Deuteronómio...
O grande legislador hebreu, porventura, cometeria a insensatez de proibir algo que não fosse prática usual entre os de sua raça?
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:09 am

Vocês falam em evocação...
Quem evocou o seu comparecimento à nossa reunião?
— Vim de livre e espontânea vontade... respondeu, lacónico, na tentativa de ganhar tempo para reflectir.
— A referida proibição não se estenderia aos desencarnados?
— Eu não sou um desencarnado; não me rotule com as suas terminologias heréticas...
— O que, então, é você?
— Estou à espera do Juízo Final...
— Conforme lhe disse insisti -, não me preocupo em decorar a Bíblia...
Não é falta de respeito ou de interesse, mas é falta de tempo.
No entanto, no próprio Deuteronómio há um versículo que, no mínimo, sugere a Reencarnação...
— “...eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem...”.
(Capítulo 5, versículo 9).
— Obrigado por me auxiliar falei, admirando a presteza mnemónica do interlocutor.
Que Deus cheio de misericórdia seria o que fizesse os filhos pagarem pelos pais?
Não lhe pareceria mais lógico e justo que os antepassados, simbolicamente aqui representados pela figura dos patriarcas, renascessem de si mesmos e colhessem o que semearam com as próprias mãos?
—Você está conduzindo a polémica de acordo com os seus interesses...
Está escrito no livro de Jó, capítulo 5, versículo 13:
“Ele apanha os sábios na sua própria astúcia...”
— Eu havia me esquecido de Jó - emendei.
Você me refrescou a memória...
Jó é um outro exemplo da Lei de Causa e Efeito e, consequentemente, da Reencarnação.
— É inútil - redarguiu com enfado.
Tudo para vocês é Reencarnação...
— João Batista era a reencarnação do profeta Elias, que, antes do Cristo, mandara degolar os sacerdotes do deus Baal...
— Está querendo me dizer que João Batista teve a cabeça decepada por este motivo?
Isso é loucura. Foi obra de Herodes e de Herodíade, mulher de seu irmão, que, com o tetrarca, passara a viver em concubinato...
— Uma vida tão importante submetendo-se aos caprichos de uma cortesã? - interroguei.
— Explique-se melhor...
— Você acha que João Batista, “o maior dos nascidos de mulher”, encontrou a morte pela leviandade de quem lhe exigiu a cabeça numa bandeja?
— Vou-me embora - disse o teólogo, prestes a bater em retirada.
Vocês arderão no Tártaro...
— Antes de se retirar solicitei por obséquio, responda-me: como é que você está aguardando a própria ressurreição, à distância de seu corpo?
Quanto tempo se passou de sua morte?...
— Cerca de vinte e cinco anos...
— Ora, meu irmão!
O seu corpo físico já se transformou em poeira...
— É o milagre da ressurreição...
No terrível Dia do Juízo, os justos sairão da tumba e possuirão a Terra.
Palavras da salvação!
Os ímpios serão expurgados.
Vocês se negam a me escutar, como o povo de Sodoma e Gomorra aos dois anjos que o Senhor lhes enviou...
(Génesis, capítulo 19).
E, sacudindo o Livro Sagrado na destra, citou os Salmos 11 e 12, capítulo 143:
— “Vivifica-me, Senhor, por amor do teu nome; por amor da tua justiça, tira da tribulação a minha alma.
E, por tua misericórdia, dá cabo dos meus inimigos, e destrói todos os que me atribulam a alma: pois eu sou teu servo.”
Muitos outros adeptos do Protestantismo, em suas diferentes facções, nos conclamariam a repudiar a Doutrina.
Padres, pastores e, pasmem, até materialistas tentavam nos convencer de que andávamos equivocados na crença.
Mas nenhum deles, com certeza, foi uma figura tão exótica quanto a do filósofo que, de quando em quando, nos visitava.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:09 am

26º Capítulo - O Filósofo
De quando em quando, o espírito do Filósofo se apresentava em nossa reunião.
Apesar do tempo que nos tomava, eu chegava a me deleitar com as suas considerações que, abem da verdade, melhor me ensejavam conhecer a diversidade dos caracteres dos habitantes do Invisível.
Ele nunca se identificou e, sempre que eu lhe perguntava pelo nome, respondia com evasivas.
Às vezes, revelava um raciocínio brilhante, sendo que, em outras oportunidades, não conseguia ocultar os delírios do pensamento.
Com fraternidade e paciência, tentávamos cooperar para que as suas ideias se harmonizassem...
Certa vez, ele nos disse que havia vivido na Europa e, posteriormente, reencarnara no Brasil, efectuando inócuas pregações nas vias públicas de uma grande cidade, expondo-se à execração de quantos o ironizavam.
— Conjecturas, conjecturas! exclamava, a cada início dos diálogos que vinha entabular connosco, em nossas sessões mediúnicas no Sanatório.
— Como é que você tem passado, Filósofo? - interrogava, procurando deixá-lo à vontade no recinto e com o propósito de conquistar-lhe a confiança.
— Nada do que é verdadeiramente passa - respondia.
Somente o que não é se transforma, a cada dia...
Porém não me preocupo com os enigmas insondáveis da existência; a Vida nos é concedida para o prazer a felicidade é o prazer.
Foi Epicuro quem mais se aproximou da Verdade...
Não temos poder algum de influenciação: as Leis do Universo agem sobre nós sem nenhuma consulta prévia...
— Não é bem assim argumentava.
O destino é uma construção pessoal...
O prazer em excesso gera o sofrimento.
Experimente beber água além da conta...
Tudo que extrapola tem consequência danosa.
— Não estou dizendo que o sedento deva esvaziar a fonte de uma só vez; a Vida, segundo os epicuristas, pode ser comparada a um prato de mingau quente:
deve ser comido pelas beiradas...
— Aceitando a Reencarnação, como você pode não se preocupar com o futuro?
— Fomos feitos para viver e não para especular...
A angústia vem do que o homem não pode saber.
Para que ir adiante?
Deixemos que as coisas, por si mesmas, se nos revelem...
Está escrito que quem aumenta ciência aumenta tristeza...
O homem deve saber o essencial; o importante é o momento, a alegria de agora e não a suposta alegria do amanhã...
— Tudo se encadeia - prosseguia, adequando-me à sua linguagem e, aos poucos, tentando direccionar com proveito a conversação.
— O que fazemos repercute e somos obra de nós mesmos...
O prazer termina por anular as possibilidades do espírito e leva à exaustão.
Viveremos para sempre e carecemos crescer para a Luz!
— Nada afecta o espírito; se não existe a morte, por que eu me preocuparia com a dor?
A dor, como tudo mais, é uma ilusão:
se não dermos importância a ela, ela não nos molestará...
Concentremo-nos na alegria.
Desfrutemos...
Se preferirem, digo que a Vida é uma taça transbordante; devemos sorvê-la gota a gota...
—Vejamos, no entanto, meu amigo, os outros em relação a nós... argumentei.
O progresso moral e intelectual das criaturas é evidente.
Não podemos ficar para trás...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:09 am

— Não raro, mais avança quem não sai do lugar...
Muitos caminham em círculos, concorda?
— Concordo, mas é devido não terem um direccionamento...
Jesus Cristo é o roteiro; o Evangelho é o livro da mais alta Filosofia que a Humanidade conhece...
O prazer não está nas coisas transitórias e perecíveis; a alegria real está no espírito...
— O corpo é o veículo das sensações e, por este motivo, temo-lo em diversas formas de manifestação...
— Você se refere ao perispírito?
— Sim, ao corpo espiritual não importa a terminologia...
Você nos supõe destituídos de corpo?
O espírito, em qualquer estágio em que esteja, sempre se reveste...
O Universo é o corpo místico do Criador...
— Você acredita Nele?
— Tudo teve um começo, não?
Mas conjecturas, meras especulações...
Os sacerdotes necessitam de sobreviver e industrializam a Fé; os cientistas precisam justificar a classe e rendem culto à Ciência...
O mundo dos homens é movido por interesses; tudo se ajeita e tudo se ajusta...
O pensamento se conforma às palavras e as palavras modificam o pensamento; por este motivo, não vale a pena...
— Pessimismo exagerado...
A Vida é constante convite à ascensão.
Deus habita dentro de nós.
0 júbilo espiritual nada tem a ver com o prazer oriundo da matéria; a consciência tranquila pode nos induzir ao êxtase, sem, no entanto, nos abstrair da realidade...
Jesus, pela força do Amor, realizava prodígios:
lê-se que transformou a água em vinho, multiplicou pães e peixes, transfigurou-se no Tabor, curou cegos, paralíticos e leprosos, converteu pecadores...
A sua Divina Presença atraía os espíritos até as próprias crianças a disputavam...
— Não nego que Jesus tenha sito um grande homem que, no entanto, morreu na cruz...
Quanta tristeza no Calvário!
Melhor que o vinho jamais tivesse se convertido em fel...
Jesus Cristo excedeu; quis ir além do que um homem deve ir...
— Ele já era o que, um dia, talvez venhamos a ser...
— Não me interessa ser mais, à custa de tanta renúncia.
Eu estou bem assim...
Não entendo por que você se preocupa comigo.
Não tenho nada contra ninguém e ninguém tem nada contra mim.
Quero apenas existir.
Se não posso controlar o Universo, controlarei a própria ambição.
O desejo é a causa de todo descontentamento; vocês se afligem desnecessariamente...
— A mediocridade, de facto, nos incomoda; viver ignorando o que, de fato, seja a Vida... retruquei.
— A pedra não pode compreender a montanha...
— Não somos pedras; somos filhos de Deus, e os filhos podem, sem dúvida, compreender o pai...
Se a pedra soubesse que ela é um pedaço da montanha, olharia para dentro de si e não para fora...
— Veja quem já está filosofando!... - troçava comigo.
Você vai acabar bom nisto...
— O aprendiz pode superar o mestre...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:09 am

— Em termos; teoricamente sim, na prática não, pois faltar-lhe-ia vivência...
— Você pretende reencarnar? - perguntei, curioso.
— Se não tiver que disputar um corpo, é possível; a vida na Terra tem os seus
atractivos...
— Mas, e se reencarnar num corpo doente?
— Sem chance alguma; saberei escolher...
Não me aproximarei dos meus futuros pais se eles não forem saudáveis; sei lidar com a genética...
— Algumas crianças nascem sadias, mas, depois, adoecem...
— É o que tem me afastado da carne...
A criança vive à mercê de certas circunstâncias do berço em que renasce.
Um corpo mutilado seria uma prisão.
Recusar-me-ei a viver no mundo, se não for para usufruir de suas delícias...
— E o próximo?
Você não se interessa por ele?
— O meu lema é “não prejudicar”...
— Não é o suficiente; toda omissão no bem é espaço cedido ao Mal...
— Para ter, sei que devo dar... - concordou.
0 prazer requer um objecto, um estímulo.
Se partilho com alguém o momento, divido a emoção.
— O que lhe dá prazer?
— Toda e qualquer sensação que me afecte os sentidos o paladar, o olfacto, o tato, a...
— Li, certa vez, um poema, que dizia que o coração tem dois quartos...
— Eu o conheço; diz que num dos quartos mora o Prazer e no outro quarto, a Dor...
É de um poeta alemão, Friedrich Ruckert.
— “O coração tem dois quartos:
Moram ali, sem se ver,
Num a Dor,
Noutro o Prazer.
Quando o Prazer no seu quarto
Acorda cheio de ardor,
No seu, adormece a Dor...
Cuidado, Prazer! Cautela!
Canta e ri mais devagar...
Não vá a Dor acordar...”
Recitei, algo titubeante, com a intenção de elucidar.
— O poema é de beleza indiscutível, mas quanto a associar o prazer à dor...
Se existe dor, não existe prazer, se bem que os masoquistas sentem prazer em sofrer e os sádicos, em fazerem sofrer.
— Insanidade de parte a parte - aleguei.
Aristóteles dizia que a virtude está no equilíbrio nem excesso nem carência.
Os doentes que temos connosco neste hospital cometeram excessos ou... ficaram carentes.
É justamente aí, meu irmão, que entra a nossa parcela de culpa.
— Culpa? Ora, eu não tenho remorso algum!
Do que posso me arrepender?
— Diante de alguém caído, o que você faz?
— Nada! Não fui eu que o derrubei...
— E se alguém no chão for você?
— Bem...
— Responda sem rodeios insisti.
— Eu vou procurar não cair...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:10 am

— Todos caem...
As chamadas pedras de tropeço existem em todos os caminhos.
E se você cair ou, então, for lançado ao solo?
— Tentarei me levantar sozinho...
— E se não puder?
— Esperarei...
— O quê? Que alguém o faça, não é?
Esperará por um samaritano anónimo...
— Se samaritanos existem...
— E não lhe será grato?
— Ingratidão é defeito que não tenho...
Difícil esquecer quem nos estende a mão.
— E se o samaritano precisar que você interceda em favor de um terceiro, de alguém que ele não possa auxiliar directamente?
Um filho, por exemplo?
— Não terei como me omitir...
— Somos interdependentes, não?
O prazer é sempre a cota de alegria que furtamos a alguém.
Tudo que se exacerba é egoísmo; o que passa em nós falta nos outros...
Nunca me considerei em condições de doutrinar a quem quer que fosse, apenas me proponho conversar com os espíritos que me era dado atender nas sessões do Sanatório.
Graças a Deus, o falso moralismo jamais me conduziu em minhas intenções...
Os desencarnados se apresentavam e eu os recebia fraternalmente, na tentativa de auxiliá-los, sendo que, na maioria das vezes, eram eles que me faziam enxergar melhor a minha própria realidade.
Enganam-se os doutrinadores que imaginam convencer os espíritos com meia dúzia de palavras...
Apesar do meu jeito, digamos, um tanto bronco de ser, sempre fui sincero em minhas atitudes, e creio que seja o que, de certa maneira, me conferia autoridade sobre as entidades que se comunicavam connosco, expressando-se mediante D. Modesta ou, esporadicamente, por um ou outro medianeiro. Não raro, os desencarnados se manifestavam por várias semanas seguidas, dando continuidade ao diálogo que, infelizmente, os ponteiros do relógio interrompiam.
0 Filósofo esteve connosco em várias oportunidades e não se tratava de um espírito que, a meu ver, pretendesse nos enrolar na reunião, ocupando todo o espaço da mesma; sim, porquanto, de quando em quando, apareciam aqueles que tentavam nos ludibriar, espíritos matreiros que, felizmente, eram logo identificados por mim, que não consentia que brincassem comigo.
Percebendo que o Filósofo, depois de vários encontros que com ele mantivéramos, fraquejava em seus argumentos, dando sinais de melhoras efectivas em seu mundo íntimo, continuei a exortá-lo:
— Meu irmão, não podemos nos opor ao curso natural da Vida...
A necessidade de mudança é uma Lei.
Deus não nos criaria para nos deixar entregues à própria sorte; existem circunstâncias que nos fazem avançar...
A Verdade não está no excesso de palavras.
O pensamento sem directriz é um labirinto no qual podemos nos perder por séculos...
A sabedoria está mais naquilo que somos e fazemos do que propriamente no que dizemos...
A palavra, por mais eloquente e bela, pode soar vazia aos ouvidos dos nossos interlocutores.
Quem diz e não crê no que fala não imprime acção à sua própria vontade.
Reformule os seus conceitos equivocados acerca da Vida...
Não fomos criados para a ociosidade eterna; tudo existe com uma finalidade superior...
O prazer é um minuto que passa, deixando em seus rastros séculos de desilusão.
Não se deixe influenciar por ideias esdrúxulas e teorias que intentam debilitar o homem, mantendo-o cativo da ignorância.
Por mais tempo solicite à Natureza, o fruto amadurece...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:10 am

Creio que esteja chegando a sua hora de renovar-se. Harmonize-se.
Ideias delirantes caracterizam o quadro de morbidez intelectual.
Deixe de andar em círculos ao redor de si mesmo...
Ocupe, agora, as suas mãos.
Diz-nos os Evangelhos que “no princípio era o Verbo”, no entanto o Verbo Divino se transformou em acção e a Terra se modelou do caos.
— Talvez você esteja com a razão... retrucou o espírito, reticente.
Eu já me sinto cansado e as minhas palavras não repercutem; não sei por onde é que eu andei durante todo este tempo...
Tenho a impressão de que nunca parei de falar, ou melhor, de abrir a boca, consentindo que as palavras soassem desconexas...
Você acha que eu sou louco? O que me levou a ser assim...
— O seu anseio, meu irmão, de ser mais do que é, é anseio natural a todo ser humano, todavia ninguém logra transpor uma escada saltando degraus, sem que se exponha ao risco de fragorosa queda...
— De facto, eu sempre quis ser igual a Sócrates, a Spinoza, a Rousseau...
Nunca, no entanto, consegui escrever sequer uma linha.
Tentei ser poeta e não consegui, literato e fracassei.
Tentei, então, a Filosofia, o mundo das ideias livres, concebendo teorias pessoais que, a rigor, não havia quem as pudesse contestar.
Chegava, por vezes, a me imaginar um Giordano Bruno ou um grande reformador como Lutero...
— Eu também gostaria de ter sido qualquer um deles, mas nunca passei de ser eu mesmo; aliás, sem que sejamos o que somos, jamais chegaremos a ser o que sonhamos...
Todos aqueles aos quais você se refere, fizeram-se por baixo, ou seja, começaram no primeiro passo, derramando suor e vertendo lágrimas no inevitável e intransferível esforço da subida.
— Todos?
— É claro que sim, ou você poderia imaginar que sejam eles constituídos de material diferente?
Onde é que estaria a imparcialidade do Criador?
Os que admiramos na condição de Génios da Humanidade, gestaram através da experiência e do sofrimento; foram espíritos que valorizaram a oportunidade e não malbarataram o tempo, o que convenhamos somos mestres em fazer...
Deixamos que os minutos se escoem sem proveito com uma facilidade impressionante; vivemos de bocejos e, depois, queremos reivindicar...
— Eu acreditei que, de repente, uma luz principiasse a brilhar em mim; quem sabe, um lampejo me favorecesse e a futilidade de minhas palavras fosse tocada por real inspiração...
— Sem vínculo com a nascente, o rio seca... - redargui, sentindo o envolvimento sereno dos espíritos amigos que me inspiravam no diálogo.
Tudo promana de uma fonte...
A luz da Sabedoria promana do Alto para o homem na Terra. De nós mesmos, nada podemos.
Sem vínculo com o Criador, a criatura perde a própria identidade e não se encontra.
Deus é o sustento da Vida.
Os grandes iluminados apenas são grandes espelhos reflectindo a Luz...
Interrompendo, por instantes, o curso das minhas reflexões filosóficas, enveredei por um caminho mais prático, concitando:
— Prepare-se para uma nova existência no corpo...
Você tem potencial.
Não sofra inutilmente!
Muitos não sabem extrair da dor todo o arsenal de lições que ela contém.
As mãos que operam na caridade às vezes podem nos ensinar mais que todos os compêndios, reunidos.
A rigor, meu irmão, o que você tem feito de prático até aqui?
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:10 am

Plantou uma árvore, construiu uma casa, educou uma criança?...
— Nada, absolutamente nada.
A avidez do prazer me consumia o espírito, prazer que, em verdade, eu nunca soube definir.
O Amor é um sentimento que desconheço.
Todas as emoções que sinto são superficiais...
Esvazio a taça e torno a enchê-la, sem jamais me saciar.
Fui, confesso, um filósofo de botequim...
Nunca, porém, ninguém falou comigo como você tem falado.
Você é médico, não é?
Isto é um hospital de dementes...
Não sei quem me forneceu o seu endereço e nem como foi que cheguei até aqui.
— Aos poucos, você saberá...
Não continue trocando o essencial pelos detalhes.
Fuja à sua viciação mental...
Crie, meu irmão, o hábito de orar; a prece saneia a atmosfera da alma...
Respire no clima da fé.
Sem que os percebamos, pensamentos que não são nossos nos influenciam; ideias que sintonizam com as nossas podem nos vampirizar, sem que haja necessidade de espírito obsessor presente...
Eleja para si novas companhias espirituais.
Esvazie-se de sofismas e... esqueça.
A reencarnação poderá favorecê-lo com a bênção de temporária amnésia.
No seu caso, a reencarnação é prescrição terapêutica que não convém adiar, sob pena de maiores complicações.
Enquanto lhe resta algum bom senso, retome o corpo de carne, evitando, mais tarde, renascer em condições físicas anómalas.
O cérebro espiritual, quando se degenera, demora para se reconstituir.
Escolha um berço humilde em que, desde pequeno, seja compelido a trabalhar pela sobre vivência.
A luta pelo pão de cada dia é vacina contra a perturbação.
— Tenho medo... - falou, deixando-me perceber duas discretas lágrimas que lhe escorriam na face pelos olhos da médium.
Agora estou com mais medo ainda...
Temo não sair desta...
— Deus não é Pai que conceda pedra ao filho que lhe peça pão...
Se houver sinceridade de sua parte, o receio não se justificará.
Bastar-lhe-á ser o que é, tomando consciência de sua fragilidade.
O recomeço é sempre uma bênção.
Às vezes, de enxada nas mãos, o homem aprende mais a respeito da Vida e de si mesmo do que frequentando as melhores escolas.
— Quem sabe, então, eu renasça filho de pobres lavradores...
— É uma excelente ideia - concordei.
O contacto com a Natureza e a vida no campo far-lhe-ão imenso bem.
— Quem me auxiliará a tomar semelhante providência?
— Diversos amigos das Esferas Mais Altas poderão fazê-lo, todavia, se você tem pressa, procure se aproximar de um jovem casal de sitiantes...
Aqui mesmo é uma zona rural.
Quem sabe, não?
Do ponto de vista espiritual, a nossa região é privilegiada e, talvez, lhe possa ser propícia às novas ideias.
— Agradeço a sua bondade...
— Bondade alguma, meu irmão.
Para lhe dizer a verdade, eu já estou invejando você...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:10 am

— A mim? indagou, surpreso e curioso.
—Sim, a você respondi sem titubei-os.
Eu também sinto, por vezes, a cabeça cansada cansada dos meus muitos livros, da agitação da cidade, da rotina do consultório...
É possível que, mais tarde, eu siga a sugestão que estou lhe fazendo.
Gostaria de renascer num ambiente que me induzisse a um contacto mais estreito com as coisas simples da Vida...
— Adeus! disse-me o Filósofo, partindo.
— Até breve! respondi, convicto de que algum dia, em algum lugar, os nossos caminhos voltariam a se encontrar.
Aquele pensador nunca mais apareceu. Os anos se passaram e, vez por outra, eu me recordava dele nas longas conversações que entabulávamos nas noites calmas e silenciosas das reuniões de toda quarta-feira no Sanatório.
Quando, porventura, um casal de sitiantes das redondezas me procurava e se fazia acompanhar de algum pirralho, eu me detinha a observá-lo...
Nada posso afirmar, mas, cerca de dez anos depois, um menino peralta que corria atrás dos meus gatos no hospital, enquanto eu me detinha a lhe consultar a avó com depressão, disse-me, ao ser ameaçado por mim de um puxão de orelhas:
— Conjecturas, conjecturas!...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:10 am

28º Capítulo - Espiritismo e Preconceito
O Espiritismo graças a Deus! é uma doutrina completamente isenta de preconceitos.
Embora não se possa dizer o mesmo dos espíritas, o Espiritismo não endossa o falso moralismo.
É lógico que não estou generalizando, porquanto muitos irmãos de ideal
professam com sinceridade a sua crença e são extremamente tolerantes...
Os mais rigorosos, em termos de moralidade, são os de conduta mais reprochável.
Eu os conheci e os conheço bem, quanto conheço a mim nas fragilidades que ainda me assinalam.
Se o Espiritismo não fosse condescendente com as imperfeições humanas, seria uma doutrina destinada aos anjos e não aos homens.
E digo-lhes, com franqueza, que ele em nada me atrairia.
No entanto, na revivescência do Evangelho, o Espiritismo é mesmo o Consolador Prometido abrindo os braços a criaturas de qualquer procedência.
Semelhantes reflexões me vêem a propósito da visita que, certa tarde, recebi em minha casa.
— Desculpe-me, Dr. Inácio, incomodá-lo disse-me a irmã que solicitou a minha atenção por alguns minutos.
Sei que o senhor é muito ocupado, mas estou necessitada de conversar com alguém...
— Fique à vontade e não se preocupe respondi, procurando minimizar a sua aflição.
— Fundei uma casa espírita em bairro afastado...
Tive uma vida difícil desde a minha infância e, infelizmente, perambulei por caminhos equivocados.
Eu não me casei; moro com um companheiro que é separado da mulher...
Não fui eu que provoquei a separação dos dois; quando o conheci, ele já a havia deixado.
No Espiritismo, eu me encontrei.
Andava muito perturbada, e uma amiga me levou até o Chico Xavier; quando ele me viu, sem sequer me ter visto antes, me chamou pelo nome e me disse palavras de encorajamento...
Fiquei feliz e resolvi deixar aquela vida atribulada ou, pelo menos, tentar.
Muitos, na cidade, me conheceram e sabem do meu passado.
Agora estou um tanto envelhecida, mas eu já fui uma mulher bonita...
— Dá para perceber brinquei, acendendo um malfadado cigarro e solicitando à serviçal de nossa casa que nos preparasse um café.
— Ora, Doutor, não troça comigo! Eu não tinha estas rugas no rosto e nem tantos fios de cabelo branco...
— O tempo é um artista, esculpe e pinta com perfeição...
O pior é que nunca está satisfeito com a obra que concebe senti-me inspirado a dizer-lhe.
— Deixe-me continuar pediu-me, ansiosa.
Eu poderia ter ficado rica, mas nunca me apeguei às coisas deste mundo...
Vivo hoje com uma modesta aposentadoria e o meu companheiro, que foi proprietário de fazendas em Uberaba, não tem mais nada; somos quase dois velhos, um fazendo companhia para o outro...
Ultimamente, ando muito aborrecida, Doutor.
O senhor sabe, as fofocas...
— O sopro do Diabo, do lendário Diabo você quer dizer... - atalhei, com ironia.
Uma vez ou outra, ele também me bafeja...
O bafo dele é insuportável, sabe?...
Ela sorriu e contou:
— Estão dizendo que eu não tenho moral para presidir uma casa espírita, que eu tenho um amante, que sou prostituta...
— “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!
Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estais por dentro cheios de rapina e perversidade”...
— Eu adquiri o terreno com o meu dinheiro, não pedi um centavo a ninguém...
Vivo no meio da poeira, Doutor.
O bairro onde moramos é muito pobre, a criançada passa fome e aquelas mães, muitas largadas do marido, sofrem muito, quase não tendo o que comer.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 05, 2018 11:11 am

Distribuímos pão, roupa, sopa...
Oramos com eles toda manhã...
— Você vive no Céu e não sabe...
— Mas as conversas maledicentes me entristecem; quase toda semana é “fulano disse”, “sicrano contou”, “beltrano acha”...
— Falarão sempre...
Não espere sensatez dos insensatos.
O Espiritismo é livre; não temos que prestar obediência a ninguém, a não ser à própria consciência...
— O centro espírita é na minha casa; me levanto de madrugada para preparar a sopa, para fazer o chá que oferecemos às crianças da evangelização, no entanto...
— A língua do povo é sinuosa feito o corpo de uma serpente...
— Eu não esperava que os próprios espíritas...
— Não se iluda, minha irmã, são os piores ou, por outra, somos os piores...
Os que não prostituíram o corpo estão prostituindo a alma.
Existe muita gente boa, mas os bons são tímidos em excesso.
— De facto, Doutor, recebo a ajuda de alguns não estou me referindo a todos...
— Se você conta com a aprovação e o apoio de um homem como Chico Xavier, dê uma banana para o resto comentei, indignado.
— Eu tenho me esforçado para melhorar; não sou mais o que fui, mas eles não me deixam esquecer...
Às vezes, tenho vontade de deixar tudo e ir embora.
— É o que as trevas querem que você faça...
— Não cito nomes, não falo mal de ninguém, mas...
— Eu não sou muito bom com números, mas, dias atrás, eu estava folheando o “Novo Testamento” e tive a curiosidade de contar: só no capítulo 23 do Evangelho segundo Mateus, Jesus chama os escribas e os fariseus de hipócritas 7 vezes...
Hipócritas, quase uma dezena de vezes!...
— Maria Madalena se transformou e foi escolhida para ser a mensageira da Ressurreição...
— Essa gente, minha irmã, côa um mosquito e engole um camelo...
— O que significa?
— Tornam pequenas as coisas grandes e fazem grandes as coisas pequenas.
— Como assim, Doutor?
— Ninguém enxerga o tamanho do seu idealismo, do seu amor à Causa, da sua luta para melhorar...
Se não tem em quem atirá-las, o homem não sabe o que fazer com as pedras que carrega nas mãos...
— Eu tenho me esforçado, sou uma mulher sozinha...
Não tenho família, não tive filhos...
Veja as minhas mãos, Doutor, repletas de calos; lavo roupa, cozinho, racho lenha; trabalhei de servente de pedreiro na construção do Centro construímos a casa em regime de mutirão...
Saí por aí pedindo tijolos.
Os espíritas foram os que menos me ajudaram...
— Estão lhe dando as pedras, minha irmã, para a sua edificação espiritual...
Tenha paciência!
— Quando eu fui visitar Chico Xavier, ele me disse:
“Tudo de que acusam você, eles me acusam também”...
Fiquei pasma. Um homem sem defeitos qual o Chico!
— Somos todos doentes em tratamento, neste grande hospital que é a Terra!
Para que não sejamos o alvo, estamos sempre a elegê-lo nos outros...
No fundo, o que pretendemos é desviar a atenção de nós.
Como não somos capazes, não queremos que ninguém o seja.
O que é que você esperaria uma ex-adúltera presidindo uma casa espírita?!...
Quase pelo mesmo motivo, Jesus foi crucificado.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:15 am

O filho de um carpinteiro, o Messias?!
Nunca, jamais...
Um homem que convivia com os pecadores ser o Enviado dos Céus?!
Um absurdo! Uma heresia!...
— O senhor acha, então, que devo continuar?
— Tenho certeza.
— Dizem que eu não posso aplicar passes e nem doutrinar espíritos; o nosso Centro, Doutor, fica perto do cemitério...
— Melhor ainda! Os espíritos estão ao lado...
— Somos uns três, quatro médiuns apenas gente humilde lá do bairro...
— Quanto maior o grupo, maior a confusão...
Quando o grupo cresce ao ponto de não mais conhecermos os seus frequentadores pelos nomes, podemos esperar: é confusão na certa.
— O senhor acha que eu posso continuar aplicando passes?
— Se você não pode aplicar passes, eu não posso nem ser espírita!
A senhora, um pouco mais jovem do que eu, - sorriu e respirou aliviada.
— Fico mais tranquila — disse, ajeitando a bolsa e a sombrinha, preparando-se para sair.
— Eu não posso pagar a consulta...
— Eu é que vou pagar a você - respondi, abrindo a gaveta e pegando algum dinheiro.
É para nossas crianças.
Creio que dá para comprar macarrão, fubá, leite...
— É muito, Doutor - redarguiu, surpresa.
— Todo mês, você pode mandar alguém vir aqui...
— Estou envergonhada...
— Não se sinta assim.
Eu estou no bem-bom lá no Sanatório, alheio aos problemas das casas espíritas na periferia; há muito espírita safado, que embolsa tudo, mas não é o seu caso...
E espere a minha visita qualquer dia.
— Irão falar mal do senhor...
— Já falam tanto, que terão que exercitar a criatividade...
Despedimo-nos e a corajosa confreira, uma mulher de pequena estatura física, mas de grande valor espiritual, retirou-se, feliz.
De facto, depois de aproximadamente um mês, coloquei o meu carro na poeira e cheguei sem avisar, num domingo ensolarado.
Cerca de cinquenta crianças e uns vinte velhinhos estavam na fila da sopa que fumegava, tentadora...
De avental e pano amarrado à cabeça, ela me recebeu com alegria.
— Doutor! Eu não acreditava que o senhor viesse...
— Uma das poucas coisas que eu ainda não aprendi foi mentir... muito!
Fiquei por ali mais de meia-hora e confesso-lhes que, o tempo todo, fazendo força para não chorar.
Tudo era simples, mas tudo era tão limpo!...
Um pequeno jardim à semelhança de um oásis no deserto, o prédio humilde do Centro com reboco inacabado, uma cerca de bambu, uma cisterna de água límpida...
Quando a sopa terminou de ser servida, antes de ir embora, solicitei àquela irmã, que não cabia em si de contentamento:
— Eu gostaria que você e as suas companheiras me transmitissem um passe!...
Vi quando o casal desceu do carro e, olhando para os lados, entrou depressa no Sanatório conduzindo uma jovem.
A maioria dos que me procuravam, o faziam à semelhança de Nicodemos a Jesus, apesar do despropósito da absurda comparação...
Muitos, ao agendarem uma consulta comigo, queriam mais do que sigilo.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:15 am

O simpático doutor da lei, a quem Jesus falara sobre Reencarnação, prevalecera-se das sombras da noite para não ser percebido pelos que o reverenciavam na condição de mestre em Israel.
— Dr. Inácio explicou-se o pai, constrangido -, somos de Uberlândia; telefonamos e marcamos a consulta com o senhor...
Esta é a nossa única filha, a Isadora.
Olhando para a moça, não tive dificuldade para notar que ela era vítima de certa perturbação que, a princípio, me pareceram traços de esquizofrenia; além do mais, com a minha longa experiência clínica, diagnostiquei uma gravidez inicial.
— Ela está grávida confirmou o progenitor -, quase completando sessenta dias de gestação.
Precisamos que o senhor nos ajude.
—A minha filha, Doutor interferiu a mãe -, é doente; tem crises de desequilíbrio e fica agressiva...
Foge de casa com frequência e... deu no que deu.
Não sabemos quem é o pai.
— O pior é que ela tentou se matar...
Cortou os pulsos com uma navalha e a encontramos caída no banheiro...
Estamos desesperados.
Isadora não pode ter essa criança; um médico amigo me disse que a possibilidade de meu neto herdar os problemas
psíquicos da mãe é grande... acrescentou o chefe da família.
A jovem, que apresentava cicatrizes em ambos os pulsos, não dizia uma palavra; ensimesmada, mais me parecia um animal acuado, vítima, certamente, das inegáveis pressões que vinha sofrendo...
— Não sabemos o que fazer.
Indicaram-nos o senhor - disse a progenitora.
Preferimos Uberaba para evitar comentários...
O meu marido é bastante conhecido em Uberlândia, onde residimos há mais de vinte anos.
Tocamos fazenda e somos cerealistas...
— O que vocês desejam exactamente de mim? - perguntei, quase adivinhando-lhes o propósito.
— Queremos interná-la - responderam em uníssono.
Não podemos ficar com a Isadora em casa e...
— Estamos passando por pais relapsos, Doutor - emendou o fazendeiro.
É contra nossos princípios, mas...
Ho meu marido e eu já discutimos o assunto e não temos alternativa...
— Somos católicos, e ninguém compreenderia...
— Por favor, sejam mais claros - pedi.
— É a terceira vez que a nossa filha tenta se matar.
Queremos um tratamento psiquiátrico para ela e confirmar com o senhor o que o médico nos disse...
— A respeito da criança que vai nascer?
— Sim observou o pai, alternando-se com a esposa no diálogo que sustentavam comigo.
— De facto, existe tal possibilidade; estudos demonstram que não apenas os caracteres físicos são transmitidos hereditariamente...
— O senhor, então, não acha aconselhável o aborto?
Ela aproveitaria a internação aqui...
Pagaríamos todas as despesas.
Diremos em Uberlândia que a enviamos em tratamento para o Rio de Janeiro, onde temos parentes.
— Vocês já consultaram Isadora a respeito?
- questionei, deixando-os surpresos.
— Como?! - reagiram.
Infelizmente, nossa filha não tem bom senso; desde os quinze de idade, ela vem ficando estranha...
Primeiro, começou ase trancar no quarto e, depois, a fugir de casa.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:15 am

Deixando pai e mãe por instantes, voltei-me para a jovem, que me fitava com os seus dois grandes olhos castanhos, e tentei conversar.
— E você, filha, o que me diz?
— Há mais de dez dias, Doutor, que ela não pronuncia uma palavra...
É inútil interferiu a progenitora, demonstrando receio do que a filha fosse capaz de me dizer.
— Isadora - insisti -, eu gostaria de ouvi-la...
Você concorda com tudo isso?
Sei que você está lúcida e é inteligente.
Por que você tem tentado se matar?
O suicídio, minha filha, é contra as Leis de Deus...
— O aborto também é... - respondeu, deixando os pais boquiabertos.
— Repita, filha, queremos escutá-la de novo...
— Eu quero a criança!
Eu quero a criança!... - murmurou, sob o efeito dos medicamentos que lhe haviam sido prescritos.
— Não é possível, Isadora - atalhou o pai.
Você está doente.
Eu e a sua mãe não podemos assumir o seu filho; se, pelo menos, você fosse casada...
Mas com quantos rapazes você namorou?
Agora, ninguém a quer.
— Deixemo-la falar - intervim com determinação.
Isadora, você quer ser mãe?
É grande a responsabilidade de se ter um filho...
— Eu quero a criança!...
Não quero abortar!...
— Doutor, o senhor nos auxilie pediu a mãe da jovem, tomada pelo pavor. Eu não sei
o que eu e o meu marido fizemos para merecer o que estamos passando...
— De graça, não é sentenciei, me contendo a custo.
Não vamos nos isentar de culpa.
Ninguém é tão bom quanto pensa...
Nós não sabemos nada de Espiritismo, Doutor - retrucou o cerealista.
Já nos falaram em Reencarnação, mas eu não entendo...
O senhor acha que é um carma o que estamos atravessando?
— Tenho certeza...
Quem semeia, colhe.
Mas a dor pode ser uma bênção...
— Eu não vejo como...
— A doença, às vezes, pode ser o remédio...
— Explique-nos, Doutor solicitou a senhora.
— Tenho acompanhado casos interessantes...
Com o nascimento da criança, a Isadora poderá melhorar consideravelmente.
— O senhor garante?
— Eu nada sou para garantir alguma coisa respondi.
Não garanto nem a minha vida no próximo minuto...
Estou dizendo que é uma hipótese que, sob a óptica espiritual, deve ser considerada.
E, de mais a mais, aqui é uma casa onde se reverencia a Vida e não a morte...
— Mas, no caso de Isadora, o aborto tem indicação terapêutica, não? - foi a vez de o pai da moça me pressionar.
— Não, não tem e assumo - disse com ênfase.
A única indicação no caso são o comodismo e o preconceito de vocês...
— Doutor, o senhor nos ofende!..
— A Verdade não tem a intenção de ofender a ninguém, meu amigo.
Vocês não me procuraram como médico?
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:16 am

Pois digo-lhes que nossa Isadora poderá melhorar com o nascimento do filho.
— Eu quero a criança!
Eu quero a criança! - dizia aquela quase adolescente, afagando o ventre com a destra.
— Viemos tão esperançosos...
— O que vocês esperavam de mim?
— Que o senhor internasse a nossa filha durante sete meses os sete meses restantes da gestação que necessita ser interrompida...
Aqui é um hospital, e abortos espontâneos acontecem eis o que claramente esperamos explicou-se o fazendeiro e cerealista abrindo o jogo.
O que é que pretendemos de errado?
Ponha-se, Doutor, na minha condição de pai...
Já fiz isto, meu amigo...
Você agora é que deve se colocar na minha condição, na de sua filha e... na de seu futuro neto.
Imaginemos se fosse você que estivesse para nascer?...
Positivamente, naquela tarde eu estava possuído por uma paciência divina.
Caso contrário...
— Faço com vocês um acordo - disse, por fim.
— Qual? - interessou-se a senhora de temperamento irritável.
— Isadora ficará connosco até o final da gravidez...
— E o senhor faz o aborto?
— Não, faço o parto...
— Impossível! Eu não quero a criança...
— Eu quero a criança... - redarguiu a jovem, olhando a mãe dentro dos olhos.
— Acalmem-se - pedi.
Se vocês não quiserem o menino ou a menina que vai nascer, fico com ele ou com ela...
— A criança é minha - falou Isadora, quase esboçando um sorriso.
— Está feito, Doutor o casal concordou no acto.
O senhor poderá doá-lo, não?
Dizem que os pais que não podem ter filhos procuram crianças para adoptarem nos hospitais...
De nossa parte, não criaremos problema.
— Eu não dou; a criança é minha...
— Filha disse-lhe com discreta piscadela a criança é nossa... Tranquilize-se!
— O senhor faz muitos partos aqui? - perguntou a senhora um tanto aliviada, imaginando ter encontrado uma melhor solução para o problema.
— Será o primeiro...
De há muito, eu estava querendo que uma criança nascesse aqui...
Você quer ter o seu filho connosco, Isadora?
— Quero! Eu quero a criança...
—Você a terá - disse, alisando-lhe os cabelos.
Ou melhor, nós a teremos...
Este espírito não irá se frustrar em sua tentativa de renascer...
Mas você terá que me prometer que nunca mais pensará em morrer!
— Prometo! Eu prometo!...
— Doutor, como a minha filha poderá levar essa gravidez a termo?
Ela não fala coisa com coisa... - inquiriu o progenitor.
— Ela está excessivamente impregnada - expliquei.
Diminuirei os medicamentos e entraremos com outro tipo de terapia...
— Qual?
— Passes e água fluidificada...
Vocês já ouviram falar?
— Funciona para esquizofrenia?
— Mais que qualquer providência médica...
— Quer dizer que o senhor não acredita em remédios?
— Até certo ponto.
Nos casos psiquiátricos, o medicamento deve entrar como terapia de apoio...
Isadora está precisando de carinho, de atenção, coisa que, ao que me parece, vocês não têm dado a ela...
— Desde menina, ela é rebelde e desobediente...
— Igual a todos nós, não é?
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:16 am

30º Capítulo - Isadora
Os dias passaram rápidos e... lentos, prodígio que apenas pertence ao Tempo de, por vezes, ser vertiginoso e, por vezes, moroso, veloz como uma águia, que corta o firmamento e, concomitantemente, lento como o caracol, que se arrasta.
Isadora ia melhorando a olhos vistos; à medida que se lhe distendia o ventre, a lucidez parecia lhe beneficiar o entendimento.
Eu já presenciara diversos casos semelhantes com certeza, o obsessor a renascer por ela, aninhando-se em seu colo de mãe, lhe concedia uma trégua...
A reencarnação, sem dúvida, é o remédio eficaz contra os males de maior gravidade da alma.
Com a curiosidade do cientista e a alegria do crente, eu acompanhava aquela metamorfose que se operava na futura mãezinha, irradiando-se-lhe no semblante; aquela flor mirrada, aos poucos readquiria a vitalidade e a beleza, com pétalas orvalhadas exuberantes ao Sol da manhã...
De quinze em quinze dias, o comerciante de Uberlândia e a sua esposa vinham ver a filha e nada mais falaram comigo a respeito do pacto que seláramos.
Eles não sabiam que, com facilidade extrema, a minha palavra voltasse atrás; de acordo com as circunstâncias e as necessidades, as minhas opiniões se modificavam...
Em meus lábios, um sim poderia ser um não, e vice-versa.
Para mim, era difícil vivenciar no cotidiano o “sim, sim; não, não”, de Jesus Cristo...
— Como a Isadora está melhor! exclamava a mãe, a cada vez que vinha visitá-la.
— Estou surpreso, Doutor, com a recuperação dela... emendava o genitor, que, no porta-malas do carro sempre nos trazia sacas de arroz e de feijão, qual se pretendesse, parceladamente, me comprar a consciência...
Desculpem-me, se me precipito no julgamento de sua atitude, que talvez muitos considerem simples generosidade; com certeza, não estarão eles, os que discordarem de mim, tão habituados quanto eu a lidar com a personalidade humana...
Os homens, segundo os seus interesses, mudam até de voz, tornam-se, como alertou Jesus, lobos em pele de cordeiro.
Mas deixemos de divagações...
— Que medicamento ela está tomando?
Algum novo lançamento do Exterior? - insistia a senhora que, devagar, se reaproximava da menina.
— Os remédios são os mesmos eu explicava mas em sua dose óptima, ou seja, o mínimo necessário...
— Isadora está tão bem! Nunca vimos a nossa filha tão tranquila comentou o cerealista.
— São os passes - respondia, percebendo, no entanto, a resistência velada do seu preconceito religioso.
Os passes atuam em nível de corpo e perispírito, beneficiando a vítima e o seu algoz...
— E uma benzição, não é, Doutor? perguntou a senhora.
— Não deixa de ser, porém mais eficiente...
— Por que mais eficiente? - indagou o pai de Isadora.
— Porque os médiuns actuam com conhecimento de causa, estabelecendo mais consciente sintonia com as forças espirituais que são postas em movimento com o propósito de aliviar ou curar.
Depois de quase dois meses connosco, Isadora conversou com naturalidade e, não raro, me questionava a respeito das cicatrizes que trazia em ambos os pulsos.
— Doutor, teria sido eu mesma a me cortar?
Tenho uma vaga lembrança, mas...
Escutava muitas vezes que me acusavam e era como se, de repente, eu deixasse de ser eu.
— Não se preocupe mais com isto, minha filha - procurava desconversar.
Todos passamos por certas crises...
O importante é que você está melhor e mais linda, a cada dia.
D. Modesta, sempre prestativa, envolveu a jovem e a fez interessar-se pelo enxoval da criança que, com pressa de nascer, não esperaria os nove meses.
Sob a orientação da devotada companheira, Isadora, que nunca havia enfiado a linha numa agulha, começou a fazer pequenos bordados e gravar as iniciais da criança nos cueiros e nas fraldas; sim, porque D. Modesta lhe havia revelado que ela seria mãe de um menino...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:16 am

— Então, vai se chamar Fernando!... — dizia Isadora, esboçando um sorriso.
Por volta do sexto mês de gestação, quando se despedia de mim, o fazendeiro questionou:
— Está de pé, Doutor, o nosso trato?
— Como não?! - respondi, mentindo...
Eu já tenho até os candidatos a pais do seu neto.
Não se preocupem; vocês nem o verão...
Assim que o garoto nascer, tomarei providências.
— Diga a ela, Doutor, que o recém-nascido não resistiu... - sugeria a desnaturada avó.
Para ser sincero, só estava aguentando aquilo tudo porque, no fundo, eu me deliciava com o golpe que estava preparando para aqueles dois; positivamente, eles não me conheciam...
Ao completar o sétimo mês, o telefone tocou em casa de madrugada; era o Manoel Roberto avisando que Isadora estava com contracções a bolsa havia se rompido e a criança estava prestes a nascer...
— De psiquiatra a parteiro eis a minha sina, murmurei, desligando o telefone e me vestindo às pressas.
0 menino, apesar de prematuro, nasceu bem e sem maiores problemas.
Confesso-lhes que, raras vezes, experimentei tamanha emoção B a emoção de cooperar para que um espírito, vencendo a barreira das dimensões diferentes, viesse ao mundo...
Então reflectia em silêncio aquela era a cara do obsessor de Isadora, uma criança indefesa e assustada, agora completamente entregue aos cuidados daquela a quem ele perseguia!
Que coisa extraordinária!...
De dominador a dominado, de auto-suficiente a dependente, de espinho a flor...
Com avidez, o recém-nascido sugava os seios da mãezinha, naquela química divina de transformar o ódio em amor.
Certo, teriam problemas, mas...
Segundo deduzia, Isadora, embora aliviada psiquicamente, estaria sujeita a crises periódicas; a esquizofrenia era um problema que, durante muito tempo, continuaria a desafiar a Medicina...
Tildo, no entanto, estava certo; as Leis Divinas não se equivocavam...
O pequeno Fernando talvez viesse a se constituir no protector da mãe os braços que a enlaçariam e os lábios que a cobririam de beijos, qual se, de forma inconsciente, intentasse cicatrizar as chagas que Isadora trazia abertas na alma, nos embates travados consigo mesmo.
Ainda de madrugada, pedi a Manoel Roberto que ligasse para Uberlândia e acordasse o casal.
— Diga-lhes que o menino nasceu...
Que venham depressa!
Meu Deus, como dormem os espíritos na Terra, que, por vezes, me parece mais um planeta dormitório, do que propriamente um educandário!
Para a maioria, o mundo não passa de escura caverna e os homens não passam de seres noctívagos...
Amanhecia, quando os pais de Isadora chegaram ao Sanatório; os pardais faziam a sua orquestração matinal e, floridos, os pés de jabuticabas enchiam o ar de inebriante perfume, atraindo as abelhas...
Eu estava espiando pela vidraça, perdido com os meus pensamentos nas espirais de fumaça do cigarro que fumava, quando os vi estacionar o carro no pátio do hospital e descerem, esbaforidos.
— Tolos! — resmunguei.
Idiotas! - repeti, não satisfeito.
Duas bestas quadradas, apeando de um carro de luxo! - praguejei, tossindo...
— Como está a nossa filha, Doutor? - perguntou o fazendeiro e cerealista, que deve ter sido aquele homem no qual Jesus se inspirou, quando narrou a parábola do homem insensato e louco que mandara aumentar os seus celeiros...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:16 am

Sentindo que era o momento de alterar o meu discurso, respondi:
— Estão bem; mãe e filho estão muito bem...
— O parto se antecipou, não é, Doutor? - questionou a senhora, com voz trémula.
— Às vezes, acontece...
Deus também nos prega peças!
— Como assim?!
— Conforme havíamos combinado, o casal que adoptaria o neto de vocês é de outra cidade...
0 menino nasceu de sete meses e não pude avisá-los.
— Quer dizer, então...
— Quer dizer que a criança está nos braços da mãe; afinal, tinha que mamar, não é?
Eu vou precisar de tempo; vou ter que localizá-los e é provável que demore uns dias, três dias...
— Mas, Doutor...
— Olhem, não me culpem; eu não posso com Deus...
Estava tudo certo:
nome, endereço... - disse, sentindo-me como, digamos, um Clark Gable.
— Fizemos um trato... - argumentava a matrona.
— E ele não está desfeito, apenas não saiu como prevíamos...
Vocês querem vê-los? - indaguei, como se não tivesse dando a menor importância à aflição deles e, de facto, não estava mesmo.
Entreolhando-se surpresos, antes que respondessem, emendei:
— Isadora sabe que vocês chegaram...
O menino é lindo e tem os olhos castanhos iguais aos do avô, embora os traços fisionómicos e o sorriso sejam os da avó...
É claro que eu estava exagerando; o garoto não tinha nada a ver com aquelas duas, desculpem-me, toupeiras...
Eu nunca haveria de xingá-los o suficiente pela proposta que ambos haviam sido capazes de me fazer.
(E vocês, que estão me lendo agora, não pensem que eu, o Dr. Inácio Ferreira, fosse diferente de qualquer um de vocês o meu arsenal de palavras grosseiras era considerável!)
Ante o impasse que se criara, a Providência Divina interveio no momento certo: o menino, que até então ressonava ao lado da mãe, em um quarto isolado próximo à enfermaria, começou a chorar...
Espontaneamente, como que atraídos por um mágico encanto, o casal me tomou a frente e saiu caminhando na direcção do choro.
Eles tinham caído como dois patinhos!
Eu me regozijava da maldade...
Quando a porta do quarto foi aberta, Isadora sorriu e, com ingenuidade, falou para o filho que se aquietara:
— Fernandinho, são o vovô e a vovó...
— E trouxeram presentes... falei, deixando os em dificuldade e com vergonha.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:17 am

31º Capítulo - Abrandando a Prova
A passos lentos, a mãe de Isadora se aproximou do leito e colocou a mão sobre a mão da filha, que sorria como quem tivesse ganhado um presente do Céu.
— O Dr. Inácio disse que ele se parece com vocês...
Ele não é uma gracinha?
— Sim, minha filha; ele é lindo, mas...
Antes que a senhora concluísse a frase, emendei:
— O momento é de alegria; o futuro pertence a Deus...
Não vamos, agora, cogitar de outra coisa que não seja o restabelecimento de Isadora...
— Eu já tomo os remédios sozinha, papai; antes eu era rebelde, o senhor se lembra?
O Dr. Inácio me ensinou...
Preciso criar o meu filho...
0 genitor, incapaz de falar, permanecia mudo, com os olhos marejados.
— Pegue o Fernandinho no colo, papai pediu a jovem, serenamente envolvida pelo amparo do Alto.
0 comerciante me olhou e reforcei a solicitação de Isadora:
— Pegue-o, não tenha receio...
O seu neto está bem.
Assim que nasceu, chamei um pediatra amigo para examiná-lo.
Desajeitado e esquecido das poucas vezes que, certamente, tivera a própria filha no colo, o avô abraçou-se à criança e começou a niná-la; o recém-nascido, intuindo, quem sabe?, que aqueles braços seriam os únicos braços de pai que conheceria na vida, esboçou discreto sorriso...
Enciumada, a avó interveio:
— Não é deste lado que se segura um menino disse, tomando Fernandinho dos braços do marido; a cabeça deve ficar de encontro ao peito, ao lado do coração...
Você não tem experiência...
— Eu quase não tinha tempo, Doutor - procurou justificar-se.
A fazenda e, depois, a máquina de beneficiar arroz não me deixaram acompanhar o crescimento de Isadora; toda a vida, trabalhei muito...
Aquele, sem dúvida, aquele era o instante de desfechar o golpe de misericórdia; emocionalmente, o casal de Uberlândia estava frágil e à mercê da situação que fora criada pelas circunstâncias e... fomentada por mim.
— Vocês fiquem à vontade observei; preciso dar um telefonema para Ribeirão Preto...
Não demoro. Empenhei a minha palavra e não volto atrás...
Marido e mulher me olharam significativamente, mas, sem dar a mínima para nenhum deles, saí, representando em cena...
O comerciante, me alcançando no corredor, pediu:
— Doutor, espere um pouco; vamos conversar...
— O casal de Ribeirão está esperando...
Não é o que vocês querem?.. - indaguei, reticente, no diálogo que prosseguiu.
— O senhor acha...
— Uma criança crescendo enjeitada numa casa, não sei...
O amor faz falta.
Se damos carinho às plantas e aos animais, por que o negarmos a uma criança?
Você e a sua esposa estão certos:
é melhor darmos sequência ao plano.
Diremos a Isadora que o menino teve que ser internado com pneumonia e... que morreu.
Ela vai chorar, mas tudo passa.
— Doutor, o senhor nos perdoe...
— O senhor está falando por você ou também pela sua esposa?
— Tenho certeza de que falo por nós dois; não somos tão cruéis assim...
— Eu pensei que fossem...
Lembra-se da proposta que ambos me fizeram?
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:17 am

— Tínhamos receio de mais uma criança doente; a Isadora...
— A Isadora melhorou, mas não alimentem muitas esperanças; a esquizofrenia costuma ser uma prova para toda a vida...
É possível que ela recaia em outras crises.
— Quais as chances do meu neto ter herdado a carga genética da mãe?
— Ainda é cedo para falar, mas a chance é de 50%.
A Isadora deve ter herdado o problema de alguém de sua família...
Cientificamente, não se chegou a qualquer conclusão, mas, no caso da esquizofrenia, a genética parece implacável.
— A avó dela, mãe de minha esposa, morreu num hospital psiquiátrico; daí o trauma que carregamos...
— A sua esposa argumentei também não me parece muito tranquila...
— A nossa vida tem sido difícil; o senhor já deve ter reparado que ela tem problemas psiquiátricos...
— Desde a primeira vez que me procuraram.
— Isto explica, Doutor, a minha angústia.
— Explica, mas não justifica...
— O senhor tem razão.
Como faremos? — questionei.
— Ficaremos com o menino. Quem sabe...
— Tenho certeza de que a presença do seu neto em sua casa será bom para todos vocês.
— Quando poderemos levá-lo?
Não é prudente que seja agora; digamos dentro de uns três, quatro dias...
E a sua esposa, não seria interessante ouvi-la?
Voltamos para o quarto e a senhora, ao nos perceber abrindo a porta, que rangeu, levou o indicador aos lábios e pediu silêncio:
o garoto dormia nos seus braços e, extenuada, Isadora igualmente cochilava.
Chamando-a à porta para conversar, após ter acomodado o neto no berço rente à cama da filha, fui directo ao assunto.
— Precisamos resolver...
Aqui não é maternidade e muito menos orfanato.
— Resolver o quê, Doutor? - perguntou, dando o braço ao marido.
— O que vocês me pediram que fosse feito quando a criança nascesse; infelizmente, o parto se antecipou e...
— Vamos levar a minha filha e o meu neto connosco! reagiu com energia.
E, dirigindo-se ao esposo, disse, incisiva:
— Eu quero a criança!
Eu quero a criança!
— Tudo bem atalhei, temendo ir além do que me competia.
A criança é de vocês.
— Eu tenho um primo que é da polícia, Doutor desafiou a mulher.
Ora, ora! Aquela seria boa!
Eu atrás das grades, quando aqueles dois é que deveriam estar trancados numa das celas do Sanatório...
— Não, minha senhora, não há necessidade de que cheguemos a tanto falei, piscando discretamente para o cerealista.
Não queremos complicações com a polícia.
— Quer dizer...
— Que dentro de uns três dias vocês poderão viajar; Uberlândia não é tão longe assim...
— Ficarei aqui...
— Como?! - interrogou o esposo, surpreso.
Ficarei aqui! - repetiu, com ênfase, a avó.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 06, 2018 10:17 am

— Mas o hospital não possui acomodações adequadas...
Vocês pagando, eu ajeito redargui.
— Dinheiro não é problema, Doutor...
— Então, está tudo resolvido.
Depois do almoço, deixando a esposa na companhia da filha e do neto, o comerciante partiu, tendo ficado acertado que voltaria no meio da semana para buscá-los.
Naqueles pouco mais de dois dias em que se hospedara connosco, pude melhor analisar o drama da família.
O espírito que reencarnara havia sido, em existência pregressa, o pivô do desentendimento entre aquelas duas, que, agora, ele deveria se esforçar por reaproximar; no outro dia, mãe e filha já me davam a impressão de disputar o menino...
No dia marcado para a alta hospitalar de Isadora, convidei o casal ao meu gabinete e esclareci sem meias palavras:
— Devo dizer a vocês que nunca houve ninguém em Ribeirão Preto interessado no seu neto; se vocês pensaram que eu fosse capaz de aceitar a proposta que ambos me fizeram, enganaram-se redondamente...
Sinto-me no direito de dizer o que estou dizendo.
Aqui mando eu e não aceito que ninguém levante a voz para mim ou me faça ameaças.
Primeiro, vocês me propuseram um aborto e, depois, que mentisse para a Isadora...
Falamos em dinheiro; vocês não me devem nada...
A minha consciência não está à venda e, se estivesse, não teriam dinheiro para comprá-la.
A menina, de facto, é doente, no entanto é mais sadia que vocês dois e, principalmente, mais que a senhora ¦disse, olhando para aquela mulher, que abaixou a cabeça.
Moderem o temperamento e pensem na responsabilidade que estão assumindo ao levar esta criança para casa.
São católicos?
Por que não frequentam a igreja?
A Isadora vai necessitar prosseguir com o tratamento e... a senhora também precisa.
— Eu?! - exclamou a mulher, ante o silêncio do companheiro.
— É, a senhora confirmei.
— Mas eu não sinto nada...
— Às vezes, a pior doença é aquela que não se sente.
— Sou apenas um pouco nervosa, tenho insónia...
— Trate-se; não comigo, mas trate-se...
—E eu, Doutor? - perguntou o pai de Isadora.
— O senhor, meu amigo, aumente a sua cota de paciência e não seja mais tão omisso; o seu neto vai precisar muito de sua protecção...
— Por que o senhor não continua olhando Isadora?
— Ela não é um caso para mim e nem o Sanatório é um hospital para ela.
— Não sabemos como agradecer...
— Pois não agradeçam...
Eu não fiz nada; foram os espíritos...
— Que espíritos? - indagou a mulher, com certa ironia.
— Os espíritos, senhora, nos quais eu acredito.
Procurem fazer jus à bênção recebida.
O neto de vocês é a sua oportunidade de abrandar a prova.
Tenham juízo.
Se não souberem se relacionar, tudo ficará pior. Isadora e o menino necessitam de carinho.
Não dispute o seu neto com a sua filha; unam-se, para criá-lo com amor...
É só o que eu tenho a dizer.
Vocês me desculpem, mas, além de pigarro, eu não costumo ficar com mais nada entalado na garganta.
Despedimo-nos e, ao abraçar Isadora e abençoar o garoto, confesso-lhes que o velho músculo cardíaco tropeçou dentro do peito.
— Eis o cheque, Doutor disse o comerciante, preenchendo uma folha, à minha revelia.
— Ex-cheque, senhor respondi, rasgando-o em pedacinhos.
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