O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:27 pm

Se antes meus direitos eram poucos por ser mulher, agora são nada.
Agradeço a gentileza de querer conforta-me, mas sei em que terreno piso.
Jogar pedrinhas de açúcar sobre ele não o tornarão doce ou suave.
– Está exagerando.
Sua família a quer de volta; seu noivo foi a Córdoba reivindicá-la.
Deve ter grande amor pela senhora; são poucos os muçulmanos que aceitariam uma noiva que foi raptada, quanto mais ir buscá-la.
– Zafir é um grande homem.
Seu modo de ser e pensar ultrapassa as limitações culturais, é a criatura mais honrada e amorosa que conheço.
– Pelo visto, o emir Munir intrometeu-se em um caso raro de amor recíproco – disse Kiéram, disfarçando o desagrado que lhe causara as palavras de sua tutelada.
– O amor é um sentimento tão complexo e tão desconhecido de todos nós!
Sob seu nome se abrigam tantas histórias e relações que não posso imaginar ou conceber um único conceito para ele.
Veja: nós, de facto, caminhamos para uma batalha, não é verdade? – e sem aguardar resposta, Layla prosseguiu, pondo em marcha o cavalo:
Lá feriremos e seremos feridos, haverá matança e tudo se fará em nome do amor a Deus.
Entre muçulmanos – xiitas e sunitas – deveria haver um amor recíproco, não lhe parece?
– Não entendi seu pensamento – respondeu Kiéram sinceramente, o que agradou sua acompanhante.
– Pense, capitão.
E deduza o que lhe aprouver de minhas palavras.
Elas não valem nada, são de uma pária.
Sem opção, Kiéram pôs sua montaria em movimento alcançando a jovem, mas, encarando seu olhar, negro e profundo como um abismo, sério, a ponto de poder descrevê-lo como opaco, calou-se.
Entendeu que ela não demonstrava a dor que lhe ia na alma, nem as angústias que lhe torturavam o pensamento, mas esse silêncio não era sinónimo de ausência.
Ao contrário, naquele átimo de segundo, compreendeu a extensão do sofrimento e da força moral da mulher que cavalgava a seu lado.
Admirou-a; nem lágrimas, nem histeria, apenas a clara constatação da realidade, tal como era, em muda aceitação, decidindo a cada passo o que fazer.
Ela deveria sentir-se como alguém que, subitamente, fica cego.
Tudo que era familiar tornara-se estranho, uma aventura.
Não havia palavras a lhe dizer, enfim entendeu toda a frivolidade de suas cogitações.
Qualquer coisa que dissesse não serviria como pedrinhas de açúcar, mas, sim, como punhados de sal sobre uma ferida recente.
– O silêncio salva – murmurou Kiéram para si mesmo, enxergando sob outro ângulo a sabedoria do provérbio popular.
Seu silêncio salvaria Layla da dor produzida pela curiosidade, pela especulação de quem pensava saber o que o outro passava e sentia, por preconceitos e bobas certezas.
É mil vezes melhor o silêncio a palavras que ferem quando o coração sangra atingido por uma dor que não mata, mas conduz à agonia.
***
Em Cádiz sobre os muros que guarneciam a entrada da propriedade de Al Gassim, Karim supervisionava a entrada dos aldeães.
Decidira abrigar toda a população vizinha nos juros da propriedade.
As informações que recebera em Córdoba no tocante à conduta dos invasores para com cristãos e judeus eram preocupantes.
Os pobres camponeses, independentemente de crença, não mereciam violência; eram criaturas pacíficas, ignorantes das causas de disputa estabelecidas no seio do islã.
Vendo-os passar pelos portões, Karim pensava:
“Pobres homens e mulheres!
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:28 pm

Devem estar com medo, abandonaram tudo que tinham na esperança de que seus cadáveres não venham a servir de lenha na fogueira da intolerância dessa briga, cujas causas desconhecem.
Eu mesmo, confesso, tenho dificuldades em mapear a exacta zona desse litígio.
E Layla, como estará? ”
A o pensar na situação da irmã, uma dor profunda, como uma lança atravessada no peito, o atingiu.
Chegou mesmo a verter gotas de suor frio, ao mesmo tempo que o pensamento lhe comunicava uma calma e uma força tão profundas quanto a dor experimentada.
Reconhecia a força moral da irmã naquela espécie de telepatia que os unia desde a infância.
Layla sofria, mas estava armada física e espiritualmente.
O corpo e a vida material ela saberia defender.
E agora tinha a certeza de que os sentimentos e o pensamento que se reflectiam nele originavam-se na irmã.
Layla era uma guerreira diferenciada, armava-se com suas virtudes.
Rememorava alguns episódios da infância quando ela justificava suas acções invocando piedade, compreensão da natureza maior das coisas e das pessoas, e até respeito, para lutar.
“Layla é feita de abismos.
Tudo nela tem uma profundidade e intensidades desconhecidas da maioria.
Sinto a dor que a vergasta, me sinto cair num precipício cujo fim não vejo e, ainda assim, esse mergulho não tem notas de desespero.
Alá a proteja, irmãzinha!
Onde quer que esteja, a fé é sempre sua maior arma. ”
Lá embaixo Leah organizava acomodações para os camponeses.
Com um sorriso sereno distribuía ordens entra as mulheres e as acalmava.
Comunicava-lhe toda a experiência de um povo que vivia e cultuava as lembranças do exílio, da servidão e que tinha a consciência de que tudo isso servia para recordar que, por pior que sejam os factos e os momento, eles são transitórios.
O deve sobrar é a certeza de que a consciência é, e sempre será, livre naqueles que cultivam a independência de pensamento.
Obedecer a ordens, ser servil, até sofrer alguma afronta por parte de alguém mais ignorante da espiritualidade eram para ela meras circunstâncias.
Uma passageira que não permitia se demorar em seu pensamento.
Essa forma de encarar a vida a fazia uma pessoa leve e sábia, dentro das suas condições.
Querida por todos, se fazia obedecer e respeitar pelo afecto que inspirava.
A serva judia irradiava uma lei própria que nascia nas profundezas de sua consciência e se manifestava em seu ser.
Daí judeus, cristãos e muçulmanos lhe obedecerem, pacificamente, naquele momento.
Em torno dela era como se o véu de sua benevolência ocultasse dos outros as características sociais, raciais e religiosas que a distinguiam.
Quando o último camponês ingressou nos portões, ela respirou aliviada após direccioná-lo às acomodações que restavam.
– Obrigada, Senhor! – murmurou ela, contemplando o céu em que os tons alaranjados do amanhecer apagavam muitas estrelas.
Lançando um olhar ao alto das muralhas, viu o jovem Karim contemplando o trabalho insano daquela noite.
Cansada, caminho até a escadaria que dava acesso ao alto do muro e aguardou a descida do filho do emir.
– Bom trabalho, Leah – cumprimentou o jovem, lançando o braço amistosamente sobre os ombros da serva.
Sua senhora não teria feito melhor.
– Obrigada.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:28 pm

Apenas cumpri meu dever como serva desta propriedade e como criatura humana, nada mais.
Por favor, me dê notícias de sua irmã.
Ela está bem?
Karim suspirou; seu semblante reflectia cansaço e preocupação extrema.
Passou uma das mãos pela testa.
Apertou suavemente o ombro de Leah e respondeu:
– Não encontramos Layla.
Não sabemos onde, nem como ela está.
Você nos conhece desde o primeiro momento de nossas vidas, portanto sabe, tanto quanto eu, o génio feroz que ela possui.
Acredita que ela fugiu dos raptores, venceu dois guerreiros treinados e… desapareceu na planície?
Essa situação é muito aflitiva.
Minha cabeça dói, sinto meus nervos tensos, sempre prontos a uma reacção, sempre em expectativa; não durmo bem desde que tudo isso começou.
A estada em Córdoba só piorou as coisas.
Papai adoecer, veio essa ameaça africana, eu e Zafir tivemos que deixá-lo.
Quando saímos, o Califa havia determinado uma patrulha para vasculhar a planície e resgatar Layla, mas… não pudemos esperar.
Precisávamos voltar e cuidar da cidade.
– Que notícias!
O que será dela, meu senhor?
– Não sei, Leah.
Sinto que ela está viva.
Não tenho dúvida.
Porém, sofre muito.
– Imagino! Qualquer mulher sofreria.
Vou rezar por ela.
Que destino!
Uma pessoa tão amada pelos seus extraviar-se, assim, no mundo; é coisa difícil de aceitar.
Ela é forte, eu sei.
Mas sabe-se lá onde e com quem irá parar.
Esse modo de ser pode aumentar-lhe os sofrimentos.
– Não se aflija, Leah – comentou Zafir que ouvira os últimos pensamentos expressos pela serva ao se aproximar do primo.
Nós a encontraremos e, não importa quando, nem como, a traremos de volta e ela será minha esposa, minha única esposa.
– Abençoado seja, senhor Zafir.
Que os profetas de todas as crenças o protejam.
Somente um homem como o senhor é capaz de um gesto assim.
É nesses momentos que a verdadeira coragem se mostra.
É preciso ser muito corajoso para afrontar séculos de uma forma de viver, pensar e agir em relação à mulher, como o senhor se propõe a fazer.
Quero viver para ver este casamento.
– Viverá, Leah – murmurou ele, afastando-se a passos rápidos.
Não queria enfrentar o olhar indagador de Karim.
Dia a dia, na ansiosa espera pelo resgate de Layla, tornara-se consciente do amor que nutria pela prima e que não conseguia mais esconder de si e de ninguém.
Vislumbrara a estranheza do primo quando declarara sua intenção de ter Layla como única esposa.
Antes não pretendia casar-se, agora não via como amar, com a mesma plenitude, a duas ou mais mulheres.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:28 pm

Ele não tinha sobre os ombros compromissos políticos; dava-se ao luxo de viver como queria.
No interior do palácio, recolheu-se a seus aposentos.
Descansar era mais do que necessário, embora não fosse tarefa fácil.
Era preciso lembrar que, mais algumas horas, o minarete chamaria para as orações matinais na mesquita.
Precisava estar com a mente clara para conduzir o serviço.
Sabia que os demais estavam em piores condições, assim, a menos que alguém se apresentasse antes dele, pretendia exercer as funções de imã. Sabia o quanto a fé sustenta as pessoas nas horas difíceis.
Tão importante quanto o alimento do corpo – talvez mais –, as forças da alma tinham que ser revigoradas, tinha que extrair o máximo de vontade, disciplina e confiança dos fiéis.
“As verdadeiras lutas se travam – se vencem ou se perdem – na alma humana.
Se os sentimentos dão a vontade e a força, a inteligência fornece e usa as armas; se sentimentos e a inteligência não são mobilizados, o homem bate em retirada, foge da luta”, concluía Zafir decidindo que assim começaria o discurso na mesquita pela manhã.
Leah e Karim, insones, permaneceram conversando e orientando o povo que aglomerava no pátio.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:30 pm

O BRILHO DO OLHAR NASCE NAS PROFUNDEZAS DA ALMA
Kiéram apresentou-se à entrada da tenda do Califa.
Como mandava a tradição, era preciso aguardar a permissão para entrar.
Mexia-se, involuntariamente, revelando nervosismo e uma certa inconformidade.
Incomodava-o conduzir a jovem muçulmana àquele meio.
Ela não devia, tampouco merecia a condição de pária desonrada a que estava relegada.
Quanto mais pensava nas atitudes de Munir, mais seus sentimentos de amizade por ele eram postos em xeque e, como as gaivotas da orla marinha, batiam asas, ganhando liberdade e destino ignorados em seu ser.
Identificava com clareza que boa parte da antiga afeição estava embotada pela raiva.
Dava pequenos chutes na areia, sem sair do lugar, quando ouviu o chamado do secretário de Jamal.
A passos rápidos seguiu-o pelo interior da tenda.
– É um bom augúrio sua presença junto a nossas tropas.
Conto com você e seus homens nesta luta.
– Aqui estamos, Califa.
Não é outro o nosso destino.
Mas, se me permite, peço que deixemos os demais acertos desta transacção para depois; agora me aflige o destino da jovem que, cumprindo suas ordens, trouxe para o acampamento.
Jamal analisou a figura conhecida do mercenário cristão; não era a primeira, nem seria última vez que contrataria seus serviços.
Ele era um guerreiro exímio e tal facto suplantava todo e qualquer pudor que pudesse ter em lutar ao lado de um cristão.
Além do mais, não descumpria nenhum preceito corânico.
Kiéram não era membro de seu exército.
Ele chefiava uma companhia de homens independentes, mercenários como ele, que lutavam por dinheiro e para quem os pagasse.
Não entravam em jogo crenças ou ideais, apenas o poder do dinheiro.
Ele estava nervoso, não tinha a frieza que costumava caracterizar suas palavras e atitudes.
Algo o transtornava.
Era a jovem, não tinha dúvida.
Mais uma vez o Califa pensou no quão estranha era aquela mulher – ainda sem rosto para ele; que estranhos poderes tinha que era capaz de desestabilizar as emoções de um guerreiro mercenário.
– A filha de Al Gassim. Onde está?
– É sobre o que desejo lhe falar.
Com o devido respeito à sua ordem, que a contragosto executei, este não é lugar para uma jovem bem-nascida como a que conduzimos.
Como pretende manter a segurança dela em meio às batalhas que hão-de vir?
Ou é sua intenção conhecê-la e remetê-la a Córdoba, com uma patrulha?
Questionou Kiéram angustiado.
– Sei um pouco sobre as leis e costumes islâmicos, mas não posso deixar de reconhecer uma injustiça contra um ser humano quando a vejo.
Como já lhe disse, essa jovem e sua família nenhum mal, nenhuma ofensa fizeram ao emir Al Jerrari, mas ele as desgraçou, segundo entendo do pouco que conheço.
Ela mesma me disse que é, agora, uma pária.
Senhor, essa moça é forte como poucos guerreiros que conheço, porém jamais vi tanta dor no olhar de alguém.
O Califa sorriu ante as argumentações de Kiéram, constatando que estava em suas suposições sobre a mudança no estado de espírito de seu interlocutor.
– Vejo que a mulher o impressionou.
Aliás, desde os episódios de Cádiz.
Não devo satisfações de minhas decisões a ninguém, quanto mais a você.
Traga a moça em minha presença e saberá qual destino lhe darei.
Está dispensado.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:30 pm

– Não, não estou dispensado.
Não sou guerreiro do seu exército, sou cidadão de segunda classe, sim, mas independente.
Entenda, trouxe a jovem até aqui, sinto-me solidário e responsável por seu destino.
E, sim, Layla Al Gassim impressionou-me, muito.
Conquistou meu respeito e admiração por seus próprios méritos, não por nome de família ou cargo que ocupa.
Pelos serviços que lhe prestei e pela estima que tenho por sua pessoa, acredito ter o direito de insistir.
– Você é abusado, Kiéram Simsons.
Por muito menos, outros Califas já determinaram a morte ou a mutilação de pessoas da sua classe – retrucou Jamal admirando a ousadia e a coragem do mercenário.
– E pelas minhas mãos, muitas almas já foram encaminhadas à outra vida.
Nunca olhei para saber qual era a classe a que pertenciam, bastava me ameaçarem de alguma forma – devolveu Kiéram, enfrentando o olhar estupefacto do Califa.
– Sabe que não pode pôr as mãos em uma mulher muçulmana, não sabe?
Isto pode custar a vida dos dois.
– É claro que sei.
Também sabe o senhor que não pode tocar em uma mulher cristã, espero.
Afinal, uma certa e bela serva cristã, que conhecemos, é tentação o bastante, mesmo para o mais poderoso dos crentes, não é verdade?
Pensa que somente homens muçulmanos enxergam?
Pois creia, Deus deu a seus filhos cristãos – ainda que pervertidos e falseadores – a mesma faculdade.
– Sua língua é tão ferina quanto sua espada.
Abre caminhos em fileiras adversárias com a mesma precisão e nos põe em pé de igualdade.
Ofereço paz, Kiéram.
– Se me disser suas intenções quanto à filha de Al Gassim, eu aceito.
– Na verdade, estou muito curioso quanto a essa jovem.
Um sentimento, hoje, fútil; reconheço.
Tenho, também, um certo temor.
Não ignoramos que o desejo de Munir com essa tresloucada aventura foi abalar Amirah e a mim.
Sei que o melhor destino e mais justo para essa mulher, segundo nossas leis, é Munir tomá-la como esposa, reparando a falta e devolvendo-lhe a condição social usurpada.
Mas eis um facto incomum:
a família Al Gassim não quer, desejam-na mesmo desonrada e um homem digno e culto, muçulmano, nobre, ainda a deseja por esposa.
Ora, por favor, sou um mortal, desejei conhecer essa mulher.
– Um capricho. É isso?
– Um desejo possível, eu diria.
Não pensava em trazê-la a uma campanha militar, mas você e seus homens eram necessários.
Você contagia os soldados, comunica-lhes coragem e ousadia, eu não podia abrir mão de sua presença aqui, agora.
A defesa de Al-Andaluz deve ser maior que quaisquer outros interesses.
– Então, não sabe o que fazer com Layla?
– Não, não sei.
Não desejava encontrá-la dessa forma.
Claro que minha decisão é favorável a devolvê-la à família e ao noivo.
Prefiro que esse casamento seja em Córdoba e sob minhas vistas.
Trazê-la para cá foi uma decisão contingencial, não tive como evitar.
Você estava com ela; e você era meu alvo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:30 pm

A honestidade de Jamal o agradara; mais calmo, sabendo que ele era um bom homem, mas não era santo, Kiéram respondeu:
– Eu a disfarcei de homem.
Julguei ser esta a forma mais segura de ingressar com ela em meio aos exércitos.
Os olhos de Jamal se arregalaram de espanto com a solução, provocando um brilho de satisfação no olhar do mercenário, que continuou dando as informações.
– Ela luta e sabe usar armas como meus melhores guerreiros.
Armei-a como um deles.
Ela traja as vestes dos guerreiros mercenários e usa um turbante negro – era o único que eu tinha – para esconder o rosto e os cabelos.
Orientei-a que não levantasse o olhar para nenhum dos soldados…
– Por Alá, isso me parece uma história das Mil e Uma Noites!
Fantástica, inacreditável! – murmurou Jamal encarando Kiéram.
Um plano excelente.
Vamos mantê-lo; é a melhor forma de protegê-la física e moralmente.
Além dos que conhecem a verdade, ninguém mais tomará conhecimento desta história.
Ela permanecerá sob sua protecção, junto de seus homens.
É o mais sensato.
Satisfeito, Kiéram baixou a cabeça em muda aceitação à determinação do Califa.
Depois, voltou a encará-lo e disse:
– Irei buscá-la.
Não tardou o mercenário cristão retornar à presença de Jamal Al Hussain, acompanhado de um soldado de estatura mediana, cujas roupas escondiam a fragilidade física.
O andar tinha uma certa leveza, uma graciosidade natural que, por si, chamava a atenção de um observador atento.
Vinha com a cabeça baixa, envolta num turbante negro.
“Eis a filha de Al Gassim.
Que inusitada situação.
Ela engana bem; olhando de longe, parece um jovem franzino”, pensou Jamal contemplando o casal que se aproximava.
– Califa – cumprimentou Kiéram saudando-o conforme determinava a tradição, para depois voltar-se para Layla.
Aproxime-se. O Califa Jamal Al Hussain deseja lhe falar.
Layla lançou olhares inseguros ao redor; não sabia como agir.
Constatando não haver mais ninguém no interior da tenda, prostrou-se ante o Califa, beijando o solo.
– É uma honra conhecê-lo, príncipe dos crentes.
– Erga-se, filha de Nasser Al Gassim.
É Layla o seu nome, e ouvi tanto nos últimos dias que me permiti, ou melhor, precisei fazer de você uma imagem.
Por Deus, que não se assemelha em nada ao que imaginei!
Mas quero que saiba da minha tristeza e pesar pelo procedimento de meu enviado ao lar de sua família.
Layla ouviu aquelas palavras em silêncio e de cabeça baixa.
Nem ao menos cogitou agradecer a manifestação de simpatia do governante.
O pesar do Califa não mudaria sua vida.
Queria o quanto antes saber de seu destino e, assim, sem rodeios, meias palavras ou jogos sociais, indagou directa e abertamente, levantando a cabeça e encarando o Califa, numa atitude inconveniente a uma mulher:
– Meu destino está em suas mãos?
Qual será ele?
A visão dos olhos negros de Layla e sua conduta foram suficientes para que Jamal entendesse todas as descrições que ao longo daqueles dias ouvira sobre a incomum filha do emir de Cádiz.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:31 pm

A profundidade de seu olhar, a forma corajosa como o enfrentava o cativaram de imediato.
Estava habituado à bajulação, à cómoda obediência a suas ordens.
Aquele olhar marcado de tristeza, mas cheio de determinação ante o infortúnio, era uma rajada de vento forte e frio em sua vida.
– Por ora ficará neste acampamento, seguindo orientações e sob a protecção de Kiéram Simsons.
É o melhor, não posso enviá-la a Córdoba.
Neste momento preciso de todos os homens para a defesa de Al-Andaluz.
As outras questões, por mais graves que sejam, são secundárias.
– Permanecerei aqui e sob a custódia do senhor Simsons, mas… nas condições que negociei com ele, certo?
– Negociou com ele?
Como assim?
Kiéram pigarreou, no intuito de advertir Layla e ao mesmo tempo de limpar a garganta para interferir na conversa, mas ela foi mais rápida e disparou:
– Armas. Eu exijo para minha própria segurança, permanecer na posse e com livre uso das armas. Faço isso recorrendo ao direito sagrado de exercer minha defesa contra o que a mim fizeram os homens.
Fui raptada, vítima de violência, estou em um campo de batalha travestida de homem; é meu direito exercer minha defesa em igualdade de condições.
– Fui informado de suas habilidades – declarou Jamal, tentando esconder o quanto lhe agradava a “estranha mulher” à sua frente.
Diferente de todas as outras que conhecera bem trajadas, arrumadas, para seduzir e encantar, essa tinha como único adereço o olhar profundo, verdadeiro abismo negro, e as palavras.
Ambos revelavam sua alma, mil vezes mais interessante que as curvas de seu corpo.
“Ela tem a sedução da serpente”, constatou Jamal.
“Enfeitiça pelo olhar.
É capaz de para um homem com um simples piscar de olhos, ainda que vestida de homem e sem esforço de encantamento.”
– Vejo que conhece muito bem o livro sagrado.
– Sou muçulmana, não tenha qualquer dúvida quanto à minha fé.
Se meu destino é incerto, ainda assim entendo que o Misericordioso escreve palavras em nossa vida cuja clara compreensão só o tempo nos dará, por isso eu me submeto a Ele, e só a Ele – respondeu Layla numa mensagem de duplo sentido, ambos cheios de convicção, que o Califa entendeu.
– É um preceito pouco evocado e, talvez por isso, pouco usado.
Mas está bem; enquanto estivermos nesta campanha, concedo seu direito de igual defesa e o uso das armas que maneja. Quais são?
– Arco e flecha, escudo e, se houver aqui, uma águia.
– Águia?!
– Ela é a melhor adestradora de águias que já tive a oportunidade de ver.
Esta moça é uma caçadora – interveio Kiéram, divertido com a surpresa do Califa ante a jovem.
Parece que fala a língua das aves.
– É mesmo? Sou um amante das águias e das caçadas.
Sente-se e me fale sobre isso.
Layla trocou um olhar com Kiéram e, vendo que ele flexionava as pernas para acomodar-se nas almofadas, fez o mesmo.
– Não sei como começar.
Por favor, entenda, estes dias têm sido intensos.
Digo a mim mesma que tristeza não perduram, mas assim como se vai a felicidade também se irá a tristeza, mas neste momento esse sentimento domina minha alma.
Seu pedido para que eu fale das águias e de caçadas agora me soa tão distante quanto as memórias longínquas de minha infância.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:31 pm

Naquela época… – e tranquilamente Layla discorreu sobre seu interesse pelas armas, sua identificação com as águias, sua infância e juventude em meio ao vale, seu amor pelos animais.
Revestiu essas lembranças com subtis mensagens ao Califa, informando-o de que ela tinha limites bem traçados a todas as pessoas que faziam parte de sua vida.
Durante aquela hora em que dialogou com Layla, o Califa quase esquecer a razão de estar naquela tenda.
A filha de Nasser Al Gassim encantava pela inteligência e simpatia.
Comunicava uma força espiritual e moral viva.
Esperara encontrar uma jovem arredia, furiosa, rebelde e à sua frente tinha uma mulher encantadora, calma, determinada.
Lembrou-se da expressão usada por Karim para referir-se à irmã.
Ele tinha razão, “incomum” era a expressão que melhor descrevia a jovem.
O movimento na entrada da tenda fez Layla calar-se imediatamente.
O Califa a olhou espantado e recebeu como resposta um gesto imperativo dela para que prestasse atenção.
Não tardou para seu secretário apresentar-se.
Surpreso, Jamal questionou-se de como ela ouvira os passos na areia.
– Alguma novidade? – indagou Jamal ao recém-chegado.
– Avistaram as bandeiras.
São do sultão Kaleb.
– Era o que esperávamos.
Quanto tempo para chegarem e qual direcção?
– Algumas horas.
Tudo indica que aportarão em Cádiz ou muito perto.
– Enviem um emissário a Karim Al Gassim com estas informações.
Reúna os líderes das tribos.
Quero todos aqui o mais breve possível.
– Considere feito, Califa – e, saudando-o, se retirou apressado.
– Lamento interromper nossa conversa – declarou Jamal voltando a atenção para Layla.
Porém o dever em primeiro lugar.
Mas, diga-me, como conseguiu ouvir os passos na areia?
Fiquei impressionado; jurava que estava tão entretida na conversa quanto nós.
– Os passos na areia faziam parte de um conjunto de atitudes e movimentos.
Todos eles geravam ruídos.
Quanto às armas, continuarei usando as fornecidas pelo senhor Simsons.
Algum dia talvez tenha a oportunidade de lhe demonstrar minhas habilidades com as aves – respondeu Layla.
Erguendo-se, imitou o comportamento do secretário e se retirou da tenda, caminhando em direcção ao local onde deixara as ditas armas, mas a tempo de ouvir quando o Califa reteve consigo o mercenário com o pretexto de tratar de um assunto sobre a invasão próxima e as tácticas de defesa.
Apanhou-as e andou até uma duna que ficava a poucos metros das tendas erguidas pelos mercenários, sem qualquer identificação de bandeira.
“Párias e cidadãos de segunda classe não têm
identificação”, pensou Layla, observando a actividade.
Quanto mais evitasse a convivência com os homens, melhor, menos risco correria de ser descoberta.
Em sua mente a informação sobre o porto de destino dos invasores repetia-se com a mesma insistência que tinham as ondas do mar quebrando na praia à vista de seus olhos.
Sentia o coração oprimido; recordava o irmão, Zafir, Leah, o pai, a mãe, Adara, as tias, e tantos outros amigos queridos.
Seus olhos arderam; salgadas lágrimas os queimavam.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 12, 2018 8:31 pm

“Não. Chorar não resolverá coisa alguma.
Preciso lutar para ajudar os que amo.
Não sei o que será o amanhã, mas hoje Deus quis que eu estivesse aqui, é onde melhor posso e devo estar com toda certeza.
Confiarei e serei recompensada”, confortou-se Layla, em sua solidão.
Tomou nas mãos um punhado de areia, esfregou-as, depois fez o mesmo nos braços e no rosto.
Orientou seu corpo em direcção de Meca e prostrou-se ao solo orando pela segurança de seus amigos e familiares.
Entregue à oração percebeu a chegada de alguém, quando viu e sentiu a longa sombra que se projectou para além de seu corpo, desenhando sobre as dumas os contornos de um corpo masculino.
Sem pressa, concluiu sua prece.
Ergueu-se e voltou-se para contemplar o mercenário cristão.
Sabia que era ele.
– Gostaria de ter sua fé.
Já descobri que é ela sua fonte de força e resignação.
Eu a invejo; não tenho esse sentimento no mesmo grau.
– Pois não devia.
Minha religião é acessível a qualquer pessoa.
Converta-se, é simples.
– Não me refiro à fé muçulmana, cristã ou judia.
Falo do sentimento, da ligação que tem com Deus.
É algo pessoal, creia-me.
Conheço muçulmanos, judeus e cristãos católicos desde que nasci; todas as profissões de fé contam um grande número de fiéis fanáticos; e contam, também, é claro, com pessoas esclarecidas e crentes.
Não é somente o que elas ensinam que desperta esse sentimento.
Senão, salvo algumas pequenas diferenças, seria igual em todos.
E não é. Consegue me entender?
– Sim, consigo.
Mas creio que senhor observou apenas os homens praticantes dessas religiões.
Observe as mulheres e terá sua resposta.
Nós, independentemente da fé professada, vivemos ligadas ao Criador.
Cuidamos dos grandes mistérios da vida – nascer e morrer – desde sempre.
É em nossas mãos e corpos que a eterna obra do Supremo Criador se manifesta visível e renovada a cada segundo.
Nenhum grande homem nasceu do nada, senhor; todos precisaram de uma mãe e de mulheres em suas vidas, inclusive os profetas.
– Ideia impressionante.
Mas a mulher sem o homem não realiza essa obra de que você fala.
A mulher é apenas campo fértil à semeadura.
É o que dizem as religiões – retrucou Kiéram, lançando um olhar à praia, fitando o horizonte verde e azul.
– Ideia do filósofo. Não é de todo sem razão, reconheço.
Mas, seguindo esse raciocínio, lembre-se de que as actividades agrícolas começaram pelas mãos das mulheres.
Elas apanhavam a semente como e quando queriam, depois semeavam, esperavam germinar, cultivavam a terra, até que os frutos da natureza brotassem, florescessem; então vinham as colheitas, e todos se saciavam.
Será que as coisas mudaram?
Eu creio que não.
As religiões nos subjugam e nos põem à margem; fazem de nós criaturas invisíveis, mas isso é uma ilusão.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:13 pm

Cobrem nossas cabeças, mas não nossas mentes.
Tentam apagar as marcas das mulheres no mundo, mas isso é impossível.
A mulher aprende a cuidar e ter paciência desde que nasce.
E, se não tiver a consciência de que é, em si mesma, uma força indispensável da natureza, não merece viver.
Aliás, não viverá, ainda que sobreviva.
Será uma qualquer rastejando pelo mundo em busca de migalhas, nunca uma mulher.
Por entendermos a vivermos a natureza da terra, em sua glória e plenitude, é que nos tornamos submissas à vontade do Criador.
– Por Deus, jamais tinha ouvido ideias semelhantes.
De onde as tirou?
– Tenho o hábito de estudar a vida das grandes mulheres da humanidade.
Elas existem, sabia?
– Não, não mesmo – respondeu Kiéram com um sorriso irónico, levemente debochado.
Sempre lidei com homens, sempre fui contratado por homens e sempre decidi com homens.
Talvez eu seja alguém de pouca sorte.
– Bem, pegue os livros da sua religião e leia.
Elas estão lá, eu garanto.
Assim como nos textos hebreus e muçulmanos.
Estão também na história dos povos e dos pensadores.
Como diz o profeta Yeshua:
quem tem olhos de ver verá – retrucou Layla, ignorando a expressão do homem à sua frente.
– Não sou um ignorante, sei o que está sugerindo.
Conheço um pouco de cada coisa que há no mundo.
– Eis aí um grande mal.
Quem conhece um pouco de cada coisa não conhece coisa alguma em profundidade.
Tem uma cultura de mentira; um conhecimento feito de frases decoradas.
Corrija-me, senhor Simsons ainda há tempo.
Se o senhor teimar em ver apenas o que tem à frente de seus olhos, em reconhecer apenas a força bruta, nunca entenderá as complexas forças da natureza.
Existe um poder imenso e muita força em elementos que o olhar e a mão do homem não tocam.
São como temporais de vento.
O ar existe, todos dependemos dele para viver, é tão comum em nossas vidas e tão pacato que somente quando vemos a fúria das tempestades de vento, rajadas violentas derrubando tudo por onde passam é que somos levados a pensar que em algum tempo existem elementos desconhecidos de uma substância vital e rotineira, à qual damos pouco valor em nosso dia a dia.
– Existem mulheres como tempestades, é o que está me dizendo.
– Exactamente, senhor – aplaudiu Layla debochada.
Felicitações!
– Ensine-me, então, onde encontrá-las – pediu Kiéram sorridente.
Estava apreciando aquela criatura provocativa.
– O senhor não tem os requisitos necessários.
Não posso
ensinar um cego a ver, quando muito a tactear, correto?
– A senhorita é ousada e abusada.
Agora entendo o esforço de sua família em protegê-la; por certo terá uma vida muito difícil longe daqueles que a criaram.
-Minha vida… senhor, foi roubada.
Layla, filha de Nasser Al Gassim, já não existe mais.
Mas veja.
Estranhamente, na grande confusão em que lançaram minha existência, deram-me também a solução de um antigo problema.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:13 pm

Nunca fui o que se pode chamar de uma menina dócil, sempre conquistei liberdades que a maioria das mulheres de meu povo não têm; nunca desejei e nem consegui me ver como esposa. Pois bem.
Agora sou tão livre quanto as gaivotas da praia – respondeu Layla, muito séria.
Este não era um assunto com o qual fizesse gracejos.
Vendo-a séria, contemplando os abissais olhos negros, Kiéram voltou à realidade.
Tinha diante de sim uma mulher muçulmana, trajada de guerreiro mercenário, vivendo sob sua protecção em meio a exércitos prontos para uma batalha.
Ela perdera tudo e ganhara um destino incerto.
O noivo ainda desejava desposá-la, mas também isso não era uma escolha, mais parecia um remendo malfeito num traje vistoso.
– Desculpe-me – pediu sinceramente.
Não era o momento para tolas provocações.
Perdoe-me. Juro que desde que percebi as intenções de Munir.
Mesmo quando eu não sabia que era sobre você que elas recaíam, eu tentei de todas as formas ao meu alcance evitar o que aconteceu.
Não repita que você é uma pária, pode lhe parecer estranho que um mercenário cristão se sinta… como direi… falta-me a palavra…
– Apiedado, não serve?
– Talvez seja.
Mas o que gostaria que entendesse é que desejo, sem nenhuma outra intenção, protegê-la, amenizar o máximo possível o amargor dessa situação.
Layla o encarava e, ante a honestidade que brilhava na íris castanha de Kiéram, baixou o olhar comovida.
Não queria chorar, mas sentiu os olhos arderem novamente.
Respirou fundo.
Traçando com a vista um ângulo de 180 graus, ficou o azul celeste, aqui e ali, marcado por brancas nuvens.
– Obrigada, senhor Simsons – respondeu sincera, voltando a encará-lo, refeita da emoção.
– Quero que prometa…
– Homens! Sempre exigem promessas – interrompeu Layla.
Será tão difícil, assim, somente, confiar?
– Ouça-me, então.
Confiarei que seguirá todas as minhas ordens quando a batalha começar.
Que irá se proteger e não fará nenhuma loucura.
Eu sei que é óptima amazona, exímia caçadora, mas uma batalha é muito diferente de seus passeios no vale.
É cruel. O homem quando sente o cheiro de sangue age como outra besta fera qualquer.
Enlouquece, torna-se irracional.
Por favor, fique longe disso.
Layla entendeu a implacável lógica da argumentação do homem à sua frente.
Mais do que isso, sentiu a preocupação dele com sua segurança, física e emocional.
Percebia que, por ele, não seria ela mais machucada do que já fora.
– O senhor é um grande homem – falou ela, solene e, aproximando-se, tocou-lhe a testa com respeito.
Alá o proteja e conserve em sua misericórdia.
Existe clemência e misericórdia em sua alma.
Onde quer que eu vá e em qualquer tempo e lugar, perante amigos e inimigos, darei testemunho de que o senhor é um homem que merece viver com glória. Tem um coração nobre.
– Uma pena que ele bata no corpo de um mercenário cristão – redarguiu Kiéram com o olhar brilhante fico na face da jovem.
Precisamos voltar; eles devem atacar logo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:13 pm

Foram na direcção de Cádiz.
Atacarão primeiro seu irmão.
Nós marcharemos para lá a fim de surpreendê-lo pela retaguarda.
Layla sentiu um nó se formar em sua garganta; nada disse, apenas começou a descer a duna em direcção ao grupo de tendas do pequeno exército mercenário.
Em sua mente uma convecção se formara:
lutaria por sua gente; defenderia seus amigos.
Eles não tinham culpa pelo que lhe acontecera; eram as leis que seguiam.
Acreditava que também sofriam por cumprir o que elas determinavam, sabia-se amada por gente.
No raiar da madrugada, os exércitos sob o comando de Jamal se movimentavam em direcção do pequeno reino do emir Al Gassim.
Nas últimas fileiras cavalgava a filha do emir, vestida de negro.
No olhar um brilho frio, metálico, revelava a determinação que carregava no íntimo.
Era um olhar negro, frio e hipnótico.
Do final da tarde anterior até aquele momento, mudanças haviam se operado em seu espírito para não mais se apagarem.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:13 pm

BATALHAS
À distância, os grossos rolos de fumaça cinzenta erguiam-se contra o céu alaranjado do amanhecer.
Contemplando aqueles sinais tétricos, Layla sentiu o coração oprimido.
Uma angústia crescente apertava-lhe o peito e tinha pressa de chegar, de ver, constatar as proporções da destruição que divisava ao longe.
Instintivamente foi acelerando o trote do cavalo, ultrapassando posições na tropa e, somente quando sentiu a mão de Kiéram em seu braço, deu-se conta de que se afastara do exército mercenário.
Seu olhar traía o sentimento de aflição que carregava na alma.
Não precisou de palavras para justificar sua atitude.
O mercenário cristão a encarou com tristeza e comentou:
– Deve ser horrível o que está sentindo, mas é preciso esperar.
Infelizmente, há momentos em que chegar um pouco antes ou um pouco depois não muda em nada os factos.
É preciso pensar em você.
A jovem baixou a cabeça; a frieza de Kiéram a atingira em cheio.
Reconheceu o gesto piedoso dele.
A racionalidade fria é a mais piedosa e eficaz que o destempero de qualquer espécie.
A contenção que impôs a Layla devolveu-lhe a calma em meio à ansiedade que se mesclava com a dor de ver seu lar sob o domínio estrangeiro e a incerteza do destino de seus familiares.
Pouco depois, as tropas foram, uma a uma, parando.
Um mensageiro foi até Kiéram, sussurrou-lhe ao ouvido e partiu.
– Inferno! – praguejou o mercenário, contemplando o horizonte enfumaçado.
– O que houve? Por Deus do céu, me diga, o que sabe? – implorou Layla aflita, aproximando sua montaria.
– Vamos voltar. Jamal Al Hussain deu ordem de recuar.
Vai evitar o enfrentamento armado e tentar uma negociação.
– Meu Deus! E agora?
– Agora? Boa pergunta.
Não sei, a ordem é recuar e buscar um bom local para montar acampamento.
– Preciso falar com o Califa.
Há notícias da minha família?
– Eles, os sultões africanos, são sanguinários. Cruéis.
Piedade e misericórdia são qualidades divinas, não humanas.
Eles desconhecem qualquer traço delas.
Será que entende o que isso implica?
Uma palidez mortal descoloriu a pele visível do rosto de Layla.
Seu corpo estremeceu, fazendo com que Kiéram tocasse seu ombro, apertando-o gentilmente, desejoso de lhe transmitir força e solidariedade naquele momento que percebia estar sendo difícil.
– Sim – murmurou ela revoltada.
Entendo. Sentia muita angústia, opressão no peito, enquanto vínhamos para cá.
Lá no fundo, eu sabia que a situação não era favorável e que eles não estavam bem.
Maldição! Diabos!
Eles não mereciam isso; nenhum de nós merecia nada do que está acontecendo.
É uma loucura atrás da outra.
Parece não ter fim.
Será que Deus saiu do céu e largou a Terra, sem destino, feito um barco À deriva na tempestade?
Que Ele me perdoe ou me puna, mas está muito além das minhas forças aceitar passivamente tudo isso.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:14 pm

Kiéram ouviu o desabafo da jovem sem nada responder, nem retrucar.
Não sabia o que fazer, essa era a verdade.
Nenhuma palavra de consolo lhe vinha à mente, e as frases decoradas aprendidas na infância haviam desaparecido de seu vocabulário como chefe de exército mercenário.
Definitivamente, palavras não eram o que mais dominava.
– Olhe, eu não sou nenhum devoto religioso, mas penso que, além das convicções que nos são ensinadas por nossas religiões, não importa quais sejam, cada um tem uma visão pessoal de Deus.
Na minha ele não pune, nem perdoa, simplesmente nos contempla e observa como vivemos.
E creio que Ele sabe da nossa condição humana muito mais do que nós mesmos.
E, se nos fez assim, não espera que sejamos diferentes.
É questão de lógica que nos aceite da forma como nos criou.
Eu já o xinguei mais vezes do que posso me lembrar, e, não pergunte como, sei que Ele não deu a menor importância a isso.
Era como se o brilho e o calor do sol reflectissem o sorriso indulgente Dele para com as minhas…
hum… renegações. Xingue, esbraveje, ponha para fora sua revolta, seus medos.
Ele vai ouvi-la e entendê-la – sugeriu Kiéram mansamente.
“Ele não entendeu sobre o que estou falando. Mas entenderá.
É questão de tempo”, pensou Layla, nada argumentando ou expondo quanto às ideias do cristão.
Limitou-se a contemplar o bater nervoso das patas do cavalo no mesmo lugar.
À noite, deitada sobre a esteira, num compartimento da tenda de Kiéram, ele se revolvia insone.
A mente tumultuada, arquitectando planos, o coração batendo acelerado.
Fora das percepções dos sentidos comuns, os espíritos compartilhavam o espaço com a filha do emir de Cádiz – um sob a forma de uma jovem mulher, envolta em roupas orientais diáfanas, contemplava Layla e acariciava-lhe a cabeça na tentativa de acalmá-la; a seu lado, um companheiro de aparência masculina, também com trajes orientais, acompanhava a cena calado e imóvel.
– Nagib, eu a sinto indócil, distante de nossa influência.
Preocupa-me esse estado – comentou o espírito de Safia.
– Layla é ainda bastante passional.
O amor ao saber tem auxiliado muito na mudança de suas características de personalidade.
A evolução do intelecto sempre acaba por surtir bons efeitos sobre as emoções, mas a verdadeira batalha não se trava sob o solo da terra, para ela no dia de hoje, mas no solo pantanoso de suas emoções -respondeu Ele, analisando-a fixamente.
Ela planeja actos, minuciosamente.
Sente como se os estivesse praticando e, por ora, não vislumbrei sequer sombra de arrependimento.
Ela questiona-se, titubeia, mas depois de decidida traça o caminho até o fim.
A conversa será longa, muito longa, Safia.
– Ela precisa resistir.
Entregar-se à revolta e a inclinações vingativas não mudará em nada os fatos ocorridos.
Aliás, ela está se torturando além do necessário. Sinceramente, eu julgava que a experiência dela até este momento, da vivência da fé muçulmana, estava sendo altamente benéfica.
Eu a via exercitar o pensamento sobre Deus, estabelecer, pela oração, uma convivência com Ele.
Ainda que fossem gestos mecânicos, obrigatórios, estavam dobrando-lhe o espírito e impondo, lentamente, o pensar e viver com Deus.
– Bons hábitos, sem dúvida.
Ainda tenho fé que essa vivência dará a ela a conquista do equilíbrio entre a razão e a emoção.
Ser passional não é um mal para o espírito, desde que saiba conduzir essa força extra nascida da paixão.
É de facto salutar; mil vezes melhor encontrar e fazer jorrar essa fonte de força do que viver à míngua da vontade, da incerteza.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:14 pm

Safia, sabemos que Layla recupera-se de experiências extremas.
Ela estudou muito, ampliou seus conhecimentos, despertou e desenvolveu novos valores.
Mas eles são frágeis e, lógico, oscilam quando confrontados com vivências e atitudes passadas.
Nenhuma virtude nasce forte e robusta.
Como tudo, elas também se ensaiam pequeninas nos seres humanos.
– Eu sei. Já passamos por batalhas semelhantes a que ela trava agora.
São dilacerantes.
Por Deus, rasgam-nos de cima a baixo; ficamos com nossas almas em frangalhos.
Ah, quanto é preciso nos questionar!
Quanto é preciso nos sentir em choque, confrontados, para, somente depois, encontrar lá no fundo essas luzinhas das virtudes.
Como, também eu, me debati!
Quisera que não fosse assim com Layla, mas…
– É o caminho fatal para todos.
Do mal nasce o bem; no fruto podre está a semente de uma nova árvore.
Sem que ele apodreça, nunca liberará a fonte de uma nova vida.
Esse embate que ela experimenta é o início da transformação.
Ela é muito jovem, até agora sempre foi muito protegida.
Era preciso.
Era necessário que estudasse, que convivesse com a filosofia, a ciência e a religião, para lançar bases teóricas na mudança de comportamento.
É a partir de hoje que a existência de facto se inicia; doravante ela passará a encontrar e experimentar as provas necessárias e aceitas antes de retornar à matéria.
Adormeça-a, Safia.
Será prudente conversar com ela, recordar alguns conhecimentos.
Para isso viemos, não é mesmo?
Safia concordou e tornou sua carícia ainda mais lenta sobre a testa da jovem, envolvendo-a num sono hipnótico, ao qual não havia como resistir.
Pouco depois, a alma de Layla exteriorizava-se, no fenómeno natural de emancipação pelo sono, e contemplava a encantadora e doce face de Safia.
Reconheceu-a, mas não se lembrava de seu nome, nem de onde provinha a familiaridade.
Sorriu, pois experimentava uma sensação de alegria e intimidade.
Não tinha dúvidas de que a jovem criatura era sua amiga.
Com frequência reencontramos seres queridos nos chamados “sonhos”.
Essas experiências nos deixam boas lembranças, despertam sentimentos e sensações que jazem em arquivos profundos da memória; e não raras vezes, esses encontros modificam nossas atitudes.
Voltando ao estado de vigília, resumimos a reviravolta em nossas decisões como decorrência de uma boa noite de sono que nos permitiu apreciar a “realidade” dos factos com mais calma.
Ou, em outras ocasiões, amanhecemos com questionamentos sobre decisões que antes não tínhamos.
Seja em um ou outro caso, esse momento de libertação do espírito do jugo da matéria é importantíssimo.
É o estado de viver no limiar, sob o umbral, dos dois planos, que permite ver melhor todos os ângulos e contornos da situação, dimensionar ou redimensionar as consequências de uma acção.
A necessidade de repouso está na natureza também com a grande finalidade de dar aos homens essas oportunidades de lembrarem e viverem sua condição real, afrouxando as ilusões da matéria.
Por isso, períodos de repouso são fundamentais para que o espírito encarnado possa desenvolver criatividade e espiritualidade, pelo contacto directo com os amigos e protectores espirituais.
Safia estendeu a mão, sorrindo e convidou:
– Venha connosco, Layla.
Precisamos conversar.
– Perdoe-me, mas não me lembro do seu nome, nem o do senhor que a acompanha. De onde os conheço?
Sim, sei que os conheço, mas não consigo me lembrar.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:14 pm

– Somos amigos, querida Layla, de longínqua data.
Agora você não poderá se lembrar desses factos passados; sua condição de espírito ligado à matéria impede essa lembrança.
Não se aflija, saiba que somos amigos e de confiança, é o bastante.
Chame-me Nagib e a jovem que lhe oferece a mão é Safia.
– Safia?? É um nome pouco usado, é muito antigo, mas… soa tão familiar – comentou Layla dando a mão à cândida entidade.
Gostaria de lembrar-me de onde a conheço.
– Um dia essas memórias retornarão, não se assuste.
Nesta vida material tudo é transitório.
O povo árabe ensina já há muito tempo que este “mundo é ilusão, e o homem é imagem transitória:
mal chega e já se foi”{13}.
– É verdade. É tudo tão movediço como areia.
O que parece sólido, firme, de uma hora para outra virá pó e confusão.
Minha vida em questão de horas desfez-se por completo.
Vejam, estou vestida de homem, uso trajes de um exército mercenário, sem pátria, nem fé.
Há poucos dias enverguei uma batina de sacerdote católico.
Sim, ninguém melhor do que eu, hoje, para entender a transitoriedade das coisas e a ilusão das imagens.
Ouvi várias vezes esse provérbio, mas só agora entendo o quanto é verdadeiro e profundo.
Antes, eu não dava a ele essa interpretação.
Pensava apenas no óbvio, na morte; que o corpo é pouca coisa e, claro, o espírito imortal vale muito mais.
– Maturidade, querida Layla, é seu ganho em tudo que se dá com sua vida – apartou Nagib.
Suas alvíssaras.
Layla riu e surpreendeu-se com o som do próprio riso.
Julgava que nunca mais o ouviria e, de repente, ele britara tão espontâneo em face da sugestão de recompensa por boas novas.
– Quem as dará para mim? Quais são as boas novas de que sou portadora?
– Deus – respondeu Nagib, mantendo o ar sério.
Lembre-se sempre, querida menina, não forme julgamentos apressados; espere o tempo passar.
No momento presente as coisas não são boas ou más – todo julgamento do presente é inválido e passional –, elas apenas são.
Os frutos dos acontecimentos é que falarão do carácter deles e só então poderemos bem julgá-los.
– Usando outras palavras, o senhor repete os versos de um velho poema – retrucou Layla sem esconder que se sentia ferida com as circunstâncias que vivenciava, que o manto de força sob o qual se escondia era um disfarce para sua revolta íntima.
E declamou os versos do velho poema de autor ignorado:
– “Não peça justiça ao destino, isso não é justo; muito menos o censure:
ele não foi feito para ser justo.
Limite-se ao que o alegra e deixe a tristeza de lado, pois nele – destino de nossas vidas – inevitavelmente se cumprem coisas boas e ruins”.
– Sei o quanto é difícil pedir-lhe que se submeta; que aceite todas as reviravoltas do destino.
Entretanto, guardo comigo a forte esperança de que, após nossa conversa, você conseguirá transformar a arte das palavras em arte de viver – disse Safia, conduzindo-a para fora da tenda.
Venha, vamos conversar longe deste ambiente.
Prefiro os raios do luar como toldo e o sereno com tapete.
***
Na propriedade de Nasser Al Gassim a fumaça e o fogo impediam a boa visão; provocavam tosse e dificultavam a respiração dos homens, a maioria feridos, que insistiam em manter a luta desigual contra o xeque africano Omar Almustadi.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:14 pm

Mais bem preparados para a luta, habituados ao combate, os homens do xeque destruíam sem pensar, não sentiam piedade pelo estrago que causavam.
Em suas mentes ecoava a mensagem de seu líder e lhe obedeciam:
“Para cumprir nossa missão, necessitamos de uma base no território de Al-Andaluz.
A mais bem posicionada é a que atacaremos, fica a beira-mar, o porto é próximo.
Não esmoreçam, nem titubeiem; nossos irmãos muçulmanos, no futuro, no agradecerão.
Tudo o que fazemos é para o bem e a glória de Alá e do profeta Muhammad.
Não podemos permitir infiéis deturpando a verdade a nós revelada; somos o povo escolhido para zelar pelas verdades e leis ensinadas no Alcorão.
A morte de um infiel é ato de limpeza no tecido social.
É como cortar fora parte de nossa carne picada por cobra venenosa.
É necessário à própria salvação.
Outros povos faliram, nós seguiremos até a vitória, até a salvação.
Alá os abençoe, meus irmãos.
Morrer na luta é motivo de glória e honra nesta vida e garantia de ingresso no Paraíso, na vida imortal.
Dar nossas existências transitórias em troca da glória e felicidade eternas é quase nada.
Que vale um corpo cujo destino é o fim, é a morte?
Quase nada.
Mas a forma como o entregamos a esse destino faz toda diferença.
Lutem, meus irmãos, mas, ao verem alguns dentre nós tombarem, lembrem que vivemos e morremos com honra e estaremos a caminho do Paraíso.
Que essa santa visão lhes sirva de inspiração”.
Imbuídos dessas ideias, os guerreiros africanos atacavam ferozes, cegos e surdos a todo sofrimento que causassem.
Tinham em vista cumprir as ordens do xeque Omar.
Seguiam-no como cegos. Absolutamente fanatizados.
Karim acompanhado de alguns poucos guerreiros sobreviventes da tragédia que se abatera sobre seu pacífico e alegre lar, batia em retirada, apressado.
Na retina de seus olhos ainda brilhava o horror de ter presenciado a morte de Zafir em combate.
O primo fora um exemplo de coragem e liderança.
Exortara os homens a defender seus lares e suas mulheres, mas a ninguém exigira o sacrifício da própria vida.
Ao contrário, dissera-lhes textualmente que mais valia viver e prosperar em outras terras, reconstruir pelo trabalho, do que morrer por pedras e apego ao que era transitório na vida.
Porém, ele mesmo não suportara ver a barbárie das tribos africanas e partira em defesa de um bando de crianças que fugiam apavoradas após o incêndio do prédio onde se escondiam.
Defendera-as e permitira, com sua acção, que elas ganhassem as matas do vale, fugindo do local invadido.
O preço fora vê-lo trespassado pela espada de um guerreiro fanático que não sabia nada sobre a vida de quem dava fim.
A comitiva de Karim levava os restos mortais do amigo de infância.
Todos tinham as vestes rasgadas e sujas pela batalha, mas o que sobrara eles haviam rasgado, bem como haviam sujado os rostos com terra, demonstrando luto pela perda de Zafir.
A fim de salvar a vida, não gritavam sua dor, como é costume nas comunidades muçulmanas ao saberem da morte de pessoa estimada.
Marchavam guerreiros e camponeses, entre estes homens e algumas mulheres e crianças.
Um cortejo de maltrapilhos e feridos que, sob o manto da noite, seguiam desesperançados pela planície, em direcção à Córdoba.
Inutilmente, Karim esperara o reforço dos exércitos liderados pelo Califa.
Havia vislumbrado as bandeiras à distância e enchera-se de esperança por algumas horas.
Jurara que poderiam resistir até a chegada do reforço.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:15 pm

Entretanto, espantado os observara recuar.
Sentira o abandono.
Em desespero, tomara com Zafir a decisão de abandonar a propriedade levando com eles os sobreviventes.
A maioria não quisera segui-los e Zafir negociara com o xeque Almustadi a rendição em troca de que os invasores poupassem a vida e a honra daqueles que desejassem permanecer.
A trágica morte ocorrera ao abandonarem os portões, quando perceberam que a negociação não fora cumprida pelos invasores e eles seguiam dizimando os inocentes camponeses.
No silêncio da noite, o irmão de Layla ouvia os sons e ruídos dos animais entremeados por soluços e abafadas exclamações de dor e ira.
Conhecia pouco aquele caminho.
A única esperança seria abrigarem-se nas ruínas de uma antiga igreja cristã, ainda distante.
Contava alcançar o lugar ao amanhecer.
Era preciso sobreviver àquela noite.
Desconhecendo o que o aguardava no dia seguinte, irmão Leon revolvia-se insone entre os rústicos lençóis.
Virou para um lado e para outro, até cansar.
Então, conformado com sua insónia, sentou-se, respirou profundamente e começou a monologar consigo, em pensamento.
Queria encontrar as causas da inusitada ansiedade que reconhecia sentir.
Vivia em estado de expectativa, um anseio por uma resposta, e o estranho é que não tinha consciência de qual era a pergunta que ecoava em sua mente gerando aquele sentimento angustiante.
Até que, virando e revirando os refolhos de suas experiências recentes e sentimentos, encontrou a causa.
– A jovem muçulmana! – falou baixinho.
Sim, é o rosto dela que me aflige em sonhos.
São seus grandes olhos que encontro em local escuro.
Sim! É o destino dela que me angustia.
Estará em Córdoba?
Terá desposado alguém? Pobre moça!
Sim, preciso encontrá-la, ou ao menos saber notícias dela.
Não gosto de grandes cidades, especialmente da capital, mas… talvez eu deva ir.
Localizando a questão que o atormentava, trazendo-a à consciência, identificou seus sentimentos e reacções.
Agradecido a Deus, ergueu-se do leito, abriu as grosseiras janelas, recebendo com um sorriso a aragem nocturna; levantou os olhos ao céu estrelado, viu no firmamento a ténue luz do quarto crescente lunar e voltou seu pensamento em prece a Deus, pedindo amparo À jovem muçulmana que lhe conquistara a amizade.
Tranquilizado pelo exercício de busca e reconhecimento interior seguido pela prece confortadora, o religioso retornou ao leito pacificado.
Adormeceu segundos depois de repousar a cabeça no travesseiro de penas de ganso, um luxo ao qual se dava o direito na ascética vida que escolhera.
Cada segundo daquele sono e descanso foi necessário quando raiou o sol.
Em seu pátio jaziam feridos e queimados de toda ordem.
Irmão Leon acordou com seus lamentos; custou a despertar plenamente e, envolto nas brumas da modorra, julgava sonhar.
Foi o grito estridente de um bebé que o pôs alerta.
– Que está acontecendo? – indagou em voz alta, mesmo sabendo que estava só no aposento, pois tinha o hábito de conversar às vezes consigo mesmo, em monólogos íntimos com a consciência, outras vezes com a vida, lançando perguntas e conceitos ao vento, mas crente de que algo ou alguém os recolhia.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:15 pm

À sua maneira isso era uma antecipação das teorias da física contemporânea e uma interpretação muito pessoal, sensível e observadora da natureza e dos evangelhos de Jesus.
Lembrava-se sempre da recomendação do Mestre de que os lírios não teciam, nem fiavam, porém, o mais poderoso dos reis de Israel não tinha túnica igual.
Sim, para irmão Leon os ventos eram mensageiros.
Assim como eles transportavam as sementes dos lírios, também transportavam suas ideias e dúvidas, e um dia, em algum lugar, não sabia onde, tinha convicção de que as primeiras frutificariam e as segundas receberiam resposta.
Lembrava o apóstolo dos gentios a dizer aos fiéis que nunca estamos sós, ao contrário, vivemos rodeados de uma nuvem de testemunhas invisíveis.
“Quem testemunha vê, ouve e fala; ainda que seja invisível”, pensava ele.
Assim, tudo quanto dizia acreditava que era ouvido e poderia ser benéfico a algumas dessas testemunhas se fosse bom; e que seus muitos questionamentos receberiam respostas.
De muitos ele dizia já ter esclarecimentos.
Afirmava ser estranha a via de retorno, pois nem sempre a vida lhe respondia com palavras audíveis ou visíveis, aliás, raramente elas vinham na boca de outras pessoas; o mais comum era apresentarem-se situações concretas em que ele sentia a resposta de Deus.
De um salto ergueu-se.
A batina surrada – o tecido havia muito perdera as fibras mais grosseiras, era por assim dizer amaciado pelo tempo e pelo uso constante – servia-lhe também perfeitamente de camisola.
Perdera todos os incómodos da rusticidade da matéria de que era feita; assentava como uma segunda pele no religioso.
Além do mais, não perdia tempo vestindo-se todas as manhãs.
Estava sempre pronto ao trabalho e, naquele amanhecer, a prática mostrou-se adequada.
Da janela avistou seu pátio tomado por bom número de pessoas.
Uma caravana de dor, em que se poderia dividir os integrantes em:
regularmente feridos, gravemente feridos, mutilados e mortos.
Isso em relação ao corpo.
Quanto à alma…
Seus olhos revelavam tanta dor e desespero que irmão Leon ficou em dúvida se era bondade de Deus aquecê-los com os raios solares ou se era a ira divina que permitia ao astro rei iluminar aquele horror para apreciação de seus olhos.
– Que fazem os homens, meu Senhor? – disse ele baixinho, desejoso de que apenas Deus o ouvisse.
Tenho medo de perguntar a alguém por que esse horror aconteceu.
E se ele me revelar, Senhor, que fizeram essa barbárie em teu nome e por amor a Ti?
O que eu lhe digo? O que faço?
Silenciou um breve segundo e balançou a cabeça como se ouvisse uma resposta e concordasse.
– Nada… Não pergunto nada.
É o que me dizes?
Sim, Senhor, tens razão.
Eu Te louvo.
Não me cabe questionar os porquês, nem os caminhos que os trouxeram até aqui.
Entendo. Estás me dizendo que é meu dever ajudá-los como posso e como eles necessitam.
Sim, sim, tens razão, como sempre.
Vou saber o que eles precisam, não é para discussões.
Obrigado, Senhor! Se for possível, Deus te abençoe!
Para evitar perda de tempo, saltou a janela e caminhou os pouco metros que o afastavam de uma fileira de pessoas acomodadas sobre as raízes da grande árvore que dominava o pátio.
Leu a sede e a febre nos rostos sujos.
Espantou-se ao tomar ciência de que se tratava de dezenas de pessoas.
Marchou resoluto em direcção ao poço d’água que ficava na direcção contrária.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:15 pm

Ao lado do poço, manejando a roldana num supremo esforço, encontrava-se Karim que, aos olhos do irmão franciscano, era apenas um jovem rapaz cuja aparência revelava ser parte do sofrido grupo.
– Preciso de água – rosnou ele, lançando um olhou feroz ao religioso.
Ninguém vai me impedir de matar a sede do que resta do meu povo.
É bom que nem tente.
– Eu sei – respondeu irmão Leon, com voz tranquila.
Vim aqui para fazer a mesma coisa.
Vi que seu povo tem sede.
Olhe, não quero ofendê-lo, mas, apesar de mais velho que o senhor, neste momento estou em melhor condição de ajudar.
Se me permitir, posso puxar a roldana e levar os baldes até… onde estão os outros.
Eles receberão a água de suas mãos com mais confiança e alegria do que das minhas e isso será bom.
Desejo trabalhar com o senhor.
A roupa miserável do religioso, seu rosto corado e sadia, as palavras compreensivas e o tom de voz amistoso que ele usava davam a Karim uma sensação de incerteza, de medo do desconhecido.
Nunca vira ninguém, nenhum padre católico ou fiel cristão agir daquele jeito.
Mesmo zonzo e irado estava lúcido para identificar que se tratava de um monge.
As forças fugiam de seus músculos; o corpo não respondia mais à mente.
O filho de Nasser reconhecia que precisava de ajuda, que tinha de confiar em alguém, por mais esquisito que fosse esse alguém.
Sem forças para falar, afastou-se do poço e ofereceu a corda que girava a roldana ao religioso, que sorriu ao recebê-la entre as mãos.
Trabalhavam em silêncio, dando de beber aos sedentos, lavando os ferimentos mais graves.
Paco e Balboa, habituados a seguir o comportamento do irmão Leon, naturalmente, logo se juntaram a eles no socorro aos sobreviventes.
Foi um dia de muito trabalho e poucas palavras.
A vida respondia que era preciso e mais importante sentir e ser misericordioso, mais do que pregar sobre a misericórdia.
Dizia, também em sua maneira de falar, que fazer aos outros o que desejamos que nos façam não é fazer o que queremos, mas sim o que o outro precisa na condição em que se encontra.
***
No acampamento, Kiéram observava os arredores.
Os homens ainda dormiam.
Ele acordara com a movimentação de Layla.
Acompanhara discretamente as acções dela e louvara-lhe, em silêncio, a sensatez.
A jovem afastara-se do acampamento, nas primeiras horas, em busca de privacidade para realizar sua higiene e orações, com a certeza de não ser vista por ninguém.
Viu seu vulto desaparecer por entre as dunas.
Quando ela regressou, era natural que ele estivesse acordado e, assim, nem ao menos desconfiou de que fora monitorada.
– Bom dia – saudou Kiéram.
Dormiu bem?
– Surpreendentemente bem, considerando-se as circunstâncias.
A natureza é muito sábia; não luto com ela.
Reconheço que é manifestação directa do Misericordioso e tudo nela obedece às Suas vontades supremas; eu me submeto.
Estranho como existem dias comuns em que não conseguimos conciliar o sono com facilidade ou com proveito, e outros em que teríamos todas as razões do mundo para não adormecer ou ter um sono agitado com pesadelos, mas nada disso acontece.
Dormimos tanto que temos a impressão de termos morrido por algumas horas.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:15 pm

Amanhece o dia e, em nossa mente, se operou um distanciamento das emoções e preocupações que nos afligiam.
– Fico feliz de saber que teve uma boa noite.
Diz minha mãe que o sono revigora o corpo e a alma.
Vamos comer.
É sempre melhor o sabor dos alimentos frescos.
Acampamentos militares, mesmo com a presença do Califa, não são o que de melhor se pode esperar em conforto e alimentação.
Layla sorriu, baixou a cabeça e caminhou tranquila, ao lado do mercenário, em direcção a um pequeno grupo de homens que preparava a refeição matinal.
Sentou-se na areia, tal como fizera Kiéram, e admirou-se de apreciar o café forte que lhe foi servido, com pão ázimo ainda quente.
Sentia-se estranha, tranquila.
O futuro, a cada hora mais incerto, não era objecto de suas cogitações; sua mente silenciara em relação a ele.
O passado, o dolorido passado recente, era uma ferida que enxergava em si com clareza.
Havia pontos infecciosos nela, porém era como se alguém, um habilidoso médico, houvesse derramado unguentos calmantes, e o ferimento tivesse se transformado numa zona dormente.
Partilhando o alimento com os mercenários, correu o olhar à sua volta.
Pisava no mundo dos homens e era vista e tratada como tal.
Diferente da das mulheres era a amizade entre os homens; a seu ver, parecia mais imediata e superficial.
Os olhos voltavam-se para o externo.
Não vislumbrou um único olhar introspectivo.
Essa constatação a fez recordar os olhos de Zafir.
Uma dor no peito lhe trouxe lágrimas ais próprios olhos.
Dos tecidos macerados do passado brotou o questionamento dobre a sorte do primo querido e dos familiares.
“Mortos”, pensou.
“Não posso chorar.
É preciso viver; Alá não escreveu, ainda, o meu fim. ”
Dos dias de sua infância veio a lembrança de Adara; dançando e declamando poesias nos banquetes de Cádiz; parecia ouvir-lhe a voz ecoando em sua cabeça:
“Diga a quem carrega uma tristeza que tristezas não perduram;
assim como se vai a felicidade.
também as tristezas se cão”.
Sem que se desse conta, balbuciara os versos atraindo a atenção de Kiéram, que, girando a caneca entre as mãos, comentou:
– É a dinâmica da vida.
Existe uma sucessão infinita de dias sempre novos.
Nós pensamos que são iguais e há quem diga que “são sempre os mesmos”.
É uma ilusão.
Existe um movimento constante em tudo.
Nós pensamos que a areia sobre a qual nos sentamos está aqui desde sempre, mais é só olhar para o pico das dunas e ver que ela se move, está em mudança sempre.
Com os factos da vida e com o que sentimos é a mesma coisa.
– Ahã – concordou Layla, olhando fixamente a face de seu protector.
Eu confio em você Kiéram Simsons.
Por favor, não me traia.
Calmo, ele voltou o olhar encarando-a.
Mergulhar na íris negra de Layla não era tarefa fácil; exigia uma honestidade com os próprios sentimentos e muita confiança em si.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:15 pm

A alma da jovem se espelhava na profundidade do olhar ao mesmo tempo que nela se escondia, porém ela parecia desnudar a alma de quem a enfrentasse olhos nos olhos.
– Agradeço sua confiança.
É uma honra.
Sou um mercenário, mas sou humano.
Tem minha palavra.
– Sabe o que sou; também sou humana.
Temos um pacto.
O acampamento despertara e o movimento fez dispersar o momento de intimidade e entendimento.
Layla encarava o comportamento liberal dos homens, as obscenidades que dizia, as liberalidades de conduta com uma perfeita e fingida naturalidade.
Revelava-se uma actriz de talento.
A luta pela vida impunha-lhe a superação e a transformação.
De sua plácida e luxuosa rotina, sob a protecção familiar, nada mais restava em seu cotidiano.
Kiéram levantou-se e foi na direcção de um grupo de nobres muçulmanos chefiados por Munir Al Jerrari, a poucos metros dali, que o chamavam.
Layla permaneceu sentada abraçando os joelhos, cabeça levemente abaixada, apenas o suficiente para esconder os olhos.
– Kiéram, meu primo enlouqueceu – declarou Munir sem rodeios.
Lançar-nos nessa empreitada contra o sultão Kaleb e o xeque Omar Almustadi só pode ser creditado à insanidade.
Conversei com os emires – e fez um gesto mostrando os três homens que o acompanhavam.
Não desejamos negociar com os africanos, tampouco enfrentá-los.
Eles já têm Cádiz.
Era um reino pequeno, de pouca importância.
O mercenário cristão relanceou os olhos identificando os emires que acompanham Munir.
Eram tolos, os conhecia razoavelmente bem.
Não tinham nenhuma influência, nem gozavam de prestígio.
Mas eram tão interesseiros e irresponsáveis quanto o homem que os liderava.
Sem vaidade, sabia que gozava de melhor prestígio junto a Jamal e ao governo de Córdoba do que todos eles reunidos.
– Sim. Essa é a posição dos senhores…
Mas o que tenho a ver com isso? – indagou o cristão, friamente.
– Estamos organizando um levante contra a decisão de Jamal.
Queremos retornar a Córdoba.
Enfrentar os africanos será morte certa – declarou Munir.
Nenhuma razão mais existe para insistir na defesa e Cádiz.
A família daquela cadelinha furiosa está morta.
Não farão falta a ninguém.
Dela ninguém sabe.
Algum abutre há de tê-la devorado na planície…
– Guarde sua opinião para si, prezado emir – rugiu Kiéram enfurecido, encarando ameaçadoramente aquele que antes tinha como amigo e agora reconhecia desprezar e odiar.
Lembre-se de que eu jamais compactuei com ela e, houvesse o prezado emir dado ouvidos às palavras de um cidadão de segunda classe como eu – na época seu amigo –, nada disso teria acontecido.
Salvo a invasão africana, mas mesmo nela sua insensatez tem parte.
Não tivesse raptado a filha do emir de Cádiz, ele estaria lá com seus homens em condições de defender o pequeno reino, como disse, que não é tão sem importância assim.
Qualquer imbecil, com um rasgo de inteligência, é capaz de enxergar o que o domínio de um porto representa numa luta.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:16 pm

E, antes que os senhores prossigam, informo-lhes que irei imediatamente dar conhecimento ao Califa do que vieram me propor e noticiar,
Munir babou de raiva ao ouvir as expressões insolentes de Kiéram e arremeteu contra ele de punho erguido, buscando acertá-lo no rosto.
Este, porém, foi mais rápido e desviou o golpe.
Os outros três reagiram lançando-se sobre Kiéram, numa luta desigual.
– Ai! – gritou um alvejado por uma flecha certeira.
A seu lado caíram os outros, derrubados.
Surpreso, Munir ergueu o olhar vendo por sobre o ombro de Kiéram o arqueiro negro que o encarava com os olhos incandescentes de ódio.
Num gesto rápido o guerreiro expôs o rosto plenamente.
– Layla! – reconheceu ele e nada mais pôde dizer.
Uma flechada mortal atingiu-lhe o pescoço.
Ela baixou o arco; com parte do turbante voltou a encobrir o rosto e, respirando aceleradamente, sentou-se.
Sabia que matara um homem; os demais estavam feridos, ela apenas os impossibilitara de agredir o mercenário.
Entretanto, ao ouvir as palavras desdenhosas de seu algoz, a fúria a tomara e decidira, movida pelas emoções, que era justo que ele pagasse com a vida o que lhe fizera e à sua família.
Kiéram não precisou se voltar para saber quem fora seu aliado na luta desigual.
Tudo tinha sido tão rápido que o restante de seus homens ainda assistia à cena e dava os primeiros passos quando as flechas de Layla encerraram a questão.
Aproximou-se do corpo de Munir, que estertorava, e ouviu seu último suspiro.
– Está morto – falou para Layla.
Avançou examinando os outros caídos sobre a areia.
Voltou-se na direcção do acampamento e, chamando alguns de seus homens, ordenou-lhes:
– Recolham. Estão feridos.
Chamem quem possa tratá-los.
Os poucos soldados que conheciam a real identidade do defensor de Kiéram, olharam, disfarçadamente, com enorme respeito na direcção do guerreiro sentado sobre a duna.
Transportaram os feridos para a tenda mais próxima, enquanto o líder mercenário retornava a seu lugar ao lado da jovem.
– Como você está? – indagou ele, observando que ela lutava para conter os tremores do corpo.
– Bem.
– Dizem que as primeiras coisas na vida de uma pessoa são as mais marcantes.
Eu não creio nisso, já esqueci o primeiro homem que matei em combate.
Mas, se desejar falar…
– Não é preciso.
Layla levantou-se, lançou-lhe um olhar tão perturbador que ele desistiu de argumentar e até de perguntar o que ela pretendia fazer.
Impôs-lhe silêncio.
Colocou sobre o ombro o arco e deu as costas a Kiéram dizendo:
– Voltarei, não se assuste.
Vendo que ela tomava o rumo do local onde estavam os cavalos, elevou a voz e disse:
– Obrigado pela ajuda.
Ela seguiu andando sem se voltar.
Apenas ergueu a mão num gesto de aceitação e pouco caso do agradecimento.
Tomou-as rédeas do cavalo no qual viajara e partiu em direcção à praia.
“Mulher estranha”, pensou Kiéram, observando-a afastar-se.
“Linda. Furiosa como uma tempestade.
Decidida como uma rainha amazona.”
– Kiéram – chamou um de seus soldados, forçando-o a voltar ao momento, abandonando a figura de Layla que desaparecia rapidamente de vista.
O que fazemos com o morto?
É da família do Califa.
– Eu irei dar a notícia.
Faça como manda a tradição muçulmana.
Eles virão buscá-lo aqui.
– Qual será a reacção do Califa? – insistiu o homem, expressando o que na mente de todos passava a ser preocupação.
Afinal, um emir muçulmano foi morto em nosso acampamento.
– Não sei, mas não vou demorar a descobrir.
E pôs-se a caminho, com passos rápidos, da tenda do Califa, ignorando o protocolo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 8:16 pm

A FAVORITA
– O que diz?
Indagou Jamal Al Hussain incrédulo.
É mesmo verdade?
Você não ousaria mentir para mim, não é Kiéram?
– Juro, senhor.
Munir Al Jerrari, seu primo e cunhado, está morto.
– Eu creio.
Mas foi, realmente, a… – e olhou à volta percebendo, pelas sombras projectadas contra o tecido, que alguns guardas e Fátim estavam no compartimento ao lado.
Reduziu o tom da voz a um murmúrio:
– …filha de Al Gassim quem o assassinou?
– Em minha defesa.
Foi, sim, senhor.
Eu estava em desvantagem na luta.
Eram quatro homens armados contra um desarmado.
Ela não merece nenhuma punição.
Afinal, para todos os efeitos é “um homem” sob meu comando.
Agiu em defesa de seu líder.
– Sei, sei – comentou o Califa com um olhar em que se lia um toque de inveja e outro, de malícia.
Não haverá punições.
Para ser honesto, devo reconhecer que me prestou um grande serviço dizimando um líder rebelado; seria a segunda traição de Munir em questão de dias.
Minha tolerância tem limites.
Enviarei dois soldados com o cadáver e uma carta para minha irmã.
Pouparei desgostos públicos.
A Amirah será dito que ele morreu em missão sigilosa de investigação.
Eu me encarregarei para que os outros revoltosos guardem silêncio.
Kiéram baixou a cabeça em sinal de concordância e agradecimento.
Fazia menção de retirar-se quando a voz de Jamal o deteve.
– Cuidado, Kiéram.
O perigo dorme a seu lado.
Lembre-se de quem se trata.
– No passado ou no presente, Califa? – retrucou Kiéram e, sem aguardar resposta, emendou de forma igualmente dúbia:
– Um guerreiro não vive de lembranças nem de expectativas, vive o momento, pois sabe que o amanhã é incerto e a vida uma incógnita.
– Que trágico seu pensamento, amigo.
– Eu creio que mistérios e tragédias existem na vida de todos nós.
– Mistérios e tragédias…
É, mas há também “outras” coisas na vida de todos nós.
– Senhor, o assunto que me trazia à sua presença está encerrado, Boa noite.
E saiu sem aguardar a permissão do Califa.
Kiéram começava a irritar-se com os poderosos líderes muçulmanos.
Jamal ficou reflectindo sobre o acontecido.
“A estranha mulher é mesmo incomum.
Por Deus, matar um homem exige muito sangue frio…
Ou será o contrário…
Será que exige ser tomado por um estado de fúria, sentindo as labaredas da ira lamberem seu corpo e sua mente?
Não. Pelo que contou Kiéram, ela agiu friamente.
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