Criticando Kardec

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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 01, 2013 9:35 pm

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Uma inferência lógica parecia justificar-se pelo fato de ser sentida como uma necessidade de pensamento, um sentimento de que somos compelidos a pensar ao longo de certas linhas.

No campo da Lógica, talvez se possa dizer que essa espécie de psicologismo é, hoje, coisa do passado.

Ninguém sonharia em justificar a validade de uma inferência lógica, ou defendê-la contra possíveis dúvidas, escrevendo ao lado, na margem, a seguinte sentença:
'protocolo: revendo essa cadeia de inferências, no dia de hoje, experimentei forte sensação de convicção'.”
(A Lógica da Pesquisa Científica)

A lógica é uma ferramenta, apenas. Com ela pode se dizer se se um raciocínio foi bem encadeado e um sistema é consistente ou não, isto é, se não se contradiz.

Mesmo, que eles passe por este teste, ainda não está garantido que a Natureza não se comporte através de outro arranjo.

Os gregos antigos fizeram inúmeras especulações acerca de como o universo funcionava.

A maioria, palpites errados.

Bom senso é, de certa forma, uma redundância, pois ter senso já é muito bom.
Situado em algum lugar entre um raciocínio linear e a intuição, ele também esconde suas armadilhas.

O senso comum de um povo pode diferir de outro, assim como o juízo feito em determinada época se revelar equivocado na seguinte.

Esta subjectividade aliada às subtilezas que a Natureza fazem do “bom senso encarnado” um contra-senso metodológico.

Um exemplo:
A diversidade das raças corrobora, igualmente, esta opinião, O clima e os costumes produzem, é certo, modificações no carácter físico;
sabe-se, porém, até onde pode ir a influência dessas causas.

Entretanto, o exame fisiológico demonstra haver, entre certas raças, diferenças constitucionais mais profundas do que as que o clima é capaz de determinar.

O cruzamento das raças dá origem aos tipos intermediários.
Ele tende a apagar os caracteres extremos, mas não os cria; apenas produz variedades.

Ora, para que tenha havido cruzamento de raças, preciso era que houvesse raças distintas.
Como, porém, se explicará a existência delas, atribuindo-se-lhes uma origem comum e, sobretudo, tão pouco afastada?

Como se há de admitir que, em poucos séculos, alguns descendentes de Noé se tenham transformado ao ponto de produzirem a raça etíope, por exemplo?


Tão pouco admissível é semelhante metamorfose, quanto a hipótese de uma origem comum para o lobo e o cordeiro, para o elefante e o pulgão, para o pássaro e o peixe.

Ainda uma vez: nada pode prevalecer contra a evidência dos factos.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 02, 2013 9:55 pm

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(LE, cap III, ítem 59)

Há um acerto na questão que cronologia que realmente curta demais para permitir variabilidades sensíveis entre as espécies.

Porém, o encadeamento lógico desanda quando generaliza para todo caso e qualquer intervalo de tempo.

Kardec usou o senso que tinha, mas a verdade subjacente à origem e diversidade das espécies precisa das noções de evolução e mutações, que não são intuitivas.

Especulações à parte, o espiritismo ainda possui problemas quantos à maneira de agregar o “conhecimento” que colhe.

Ele ainda está impregnado pelo modismo intelectual do século XIX: o positivismo.

Antes que se realce as características materialistas deste sistema filosófico que pretendia reformar a sociedade e terminou por querer criar a “religião da humanidade”, deve-se lembrar de que ele também era uma teoria da ciência, e foi esta a parte que inspirou a metodologia kardecista.

Em linhas gerais, pode-se dizer que o positivismo e suas escolas derivadas (empirismo lógico, Círculo de Viena, etc.) baseavam seus critérios na verificabilidade de uma teoria.

Um enunciado seria científico se pudesse ser sucessivamente confirmado empiricamente.

A não ocorrência do enunciado estabeleceria sua falsidade.
De facto, a noção de “Consenso Universal dos Espíritos” nada mais é do que esta busca de contínua verificação.

Quantos médiuns ao redor do mundo dessem a mesma resposta a uma pergunta, maiores as chances de ela ser verdadeira.

Mas daí vêm alguns problemas “o quanto de comunicações seria necessário para se dizer 'é o bastante'?”, “o que fazer com as respostas destoantes?”, “rejeitá-las, simplesmente?”, “se podem haver influências do médium na comunicação, não se deveria espalhar os questionários por diversos locais distantes do globo – não apenas no universo europeu - para garantir que não houve influência cultural?”.

Uma maneira simples de questionar a verificabilidade seria indagar se, pelo facto de todos os cisnes de um zoológico serem brancos, todos os membros da espécie também o são.

Poder-se-ia sair numa busca frenética atrás de todos os cisnes do mundo e cada novo animal branco reforçaria a hipótese, tornando-a mais “verdadeira”, mais “provável”.

Simples engano, pois bastaria um único exemplar de cor diferente para derrubar a teoria.

Infelizmente, o suposto caçador de cisnes brancos se desiludiria ao percorrer a Austrália, onde cisnes negros foram encontrados pela primeira vez...

Esta forma indutiva de fazer ciência recebeu dura crítica do filósofo da ciência Karl Popper que, divergindo dos neopositivistas dos quais fazia parte, propôs a falseabilidade (ou refutabilidade empírica) como novo critério para a demarcação da cientificidade de um enunciado.

O que distingue uma ciência da pseudo-ciência é a capacidade de a primeira ser refutada com base na experiência.
Uma teoria é válida quando resiste à refutação, podendo, então, ser confirmada.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 02, 2013 9:56 pm

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Esta mudança de postura foi imensa e actividade científica passou a buscar não a confirmação de suas próprias teorias, mas justamente o contrário: derrubá-las.

Afinal, quem merece mais crédito:
um cidadão que testou mil vezes os postulados da mecânica clássica ou um que lhes determinou um limite de validade?
Lembra de Einstein?


Nesta parte os continuadores de Kardec deixam a desejar.

Há um receio, ou talvez temor, em se arrumar uma maneira de por à prova o que está escrito no Pentateuco.

Enfoca-se mais a parte filosófica-doutrinária, que se mantém quase sem arranhões justamente por não ser passível de refutação, e se subestima os erros e equívocos que se revelam por serem minoria dentro do corpo doutrinário.

Mas são estes "acessórios falhos" que englobam aquilo que nós seres materiais podemos ter acesso e verificar por conta própria.
São eles que lançam dúvidas sobre as partes referentes ao "lado de lá".

Por isto penso que o pior lugar para se discutir o espiritismo é dentro de um centro espírita, o mesmo vale para debates dentro de igrejas, partidos políticos e times de futebol.

Neste locais sempre se busca um consenso, nem que seja à força.
Embates que gerem novas ideias aparecem mais quando antagonistas se chocam.

É irónico dizer isto, mas os detractores do espiritismo, desde de cristãos radicais até materialistas (e muitos me incluiriam neste bojo, também), lhe prestam um grande favor.

São eles que, por vias tortas, desempenham um papel que deveria ser dos próprios espíritas. "Ciência também erra", diriam os críticos.

Concordo, os cientistas erram e uns vão atrás dos erros dos outros, pois sabem que neles está a mola propulsionadora para o progresso.

Uma atitude perante ao erro melhor do que uma postura defensiva.

Há críticas, porém, à aplicação da refutabilidade a ferro e fogo. Popper mesmo admitiu a possibilidade de se utilizarem hipóteses auxiliares específicas para se contornar uma dificuldade prática (ad hocs).

Um exemplo tradicional ocorreu na astronomia do século XIX:
as observações da órbita do planeta Urano não batiam com o previsto pela teoria da gravidade de Newton.

Cogitou-se a presença de um outro planeta ainda não descoberto estaria interferindo em sua órbita e até se previu sua possível posição.

Assim, Neptuno foi descoberto e confiança na Gravitação Universal restaurada.

Baseado nesta e outras avaliações históricas, Thomas Kuhn postulou que boa parte do tempo é gasta pelos pesquisadores na avaliação das previsões de teorias e na reconciliação dos dados discrepantes.

Somente quando a quantidade de remendos chegasse a um nível crítico, ocorreria a crise de paradigmas, na qual pressupostos antigos são postos em cheque e novos são criados.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 02, 2013 9:56 pm

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Voltando às órbitas planetárias, pela mesma época da descoberta de Neptuno, tentou-se justificar as irregularidades na órbita de Mercúrio pela presença de um planeta entre ele e o Sol, que foi chamado Vulcano.

Ninguém conseguiu encontrá-lo e o incómodo só foi resolvido com a introdução da Relatividade Geral de Einstein, uma nova teoria de gravitação que deu uma explicação satisfatória para este e outros fenómenos.

O problema da obra de Kuhn é que não há uma definição precisa para "paradigma" (o cerne de seu trabalho) e ele mesmo admitiu que perdeu controle do uso do termo.

Mesmo questionando Popper, de forma alguma defende o retorno ao indutivismo lógico dos neopositivistas.

E afinal, seria possível reconciliar o espiritismo com o que diz a ciência por meio de hipóteses auxiliares?

Bem, vale lembrar que há critérios no uso de ad hocs.
Eles também têm de ser passíveis de corroboração.

Um caso emblemático ocorreu com Galileu, quando ele verificou em sua luneta que a superfície da Lua era irregular e cheia de crateras e montanhas.

Isto contrariava as ideias de Aristóteles ainda vigentes na época segundo as quais a Lua seria perfeitamente esférica e lisa.

Os neo-aristotelistas partiram em defesa do antigo mestre e disseram que o espaço entre as montanhas estava preenchido por uma substância invisível, que não podia ser detectável aqui da Terra.

Com isso garantiam qualquer chance de refutação seria impossível.

Galileu, muito inteligentemente, endossou a presença de tal misteriosa substância, porém com uma diferença: ela se acumularia no topo das montanhas, tornando a superfície do satélite ainda mais irregular.

Que os seguidores de Aristóteles provassem que ele estava errado!
Ele mostrou que suposições ad hoc são capazes de provar qualquer hipótese, até as opostas.

Este tipo de argumento pode ter até senso, mas pouco valor se não houver nenhuma maneira de testá-lo.

Do contrário haveria um verdadeiro jogo de desonestidade intelectual:
se der cara eu ganho, coroa você perde.

Aí que reside o erro de boa parte das defesas argumentativas do espiritismo:
no abuso de ad hocs fracos.

Podem até dar uma aparente capa de racionalidade, mas estão próximos demais a um comportamento pseudo-científico ou, no mínimo, de má-ciência.

Um dos mais problemáticos consiste na justificativa dada para explicar a ausência, até o presente momento, de vida inteligente em outros planetas deste sistema solar, mesmo após a investigação de sondas espaciais:
os habitantes destes mundos seriam feito de uma matéria "subtil" e invisível aos nossos instrumentos.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 03, 2013 9:58 pm

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Não sei se há alguém brincando de esconde-esconde com os robozinhos que pousaram em Marte, se estes aterrissaram em cima de desertos, ou a civilização marciana se encontra no subsolo.

Enquanto nossos vizinhos não mostrarem a cara, esta afirmação continuará digna de estar sobre o mesmo pedestal de outras pérola do tipo:
"a Terra tem apenas 6.000 anos, mas foi feita para parecer que tem 4,5 biliões" ou "objectos inanimados possuem sentimentos, embora não sejam capazes de expressá-los".

Outras afirmações especiais são um pouco mais subtis, dentro do cerne da metodologia.

Informações disparatadas são desculpadas não como fruto de uma comunicação espiritual, mas do "psiquismo" do médium que colocaria ideias próprias como sendo de "outrem". Kardec, supostamente, não soube separar uma coisa de outras.

Tal alegação apenas resolve os problemas das comunicações presentes e futuras, mas nada pode dizer quantos às que foram feitas no século XIX.

Como se sabe onde houve contaminação da mente do médium ou não?

Parodiando Galileu, digo que as afirmações até agora não refutadas foram feitas por cérebros encarnados, ao passo os erros pertencem apenas ao mundo espiritual.

Provem que estou errado!

A separação do joio do trigo nas comunicações, por sinal, ainda depende de uma metodologia precária, que remonta a Kardec.

Pode ser que se estude os efeitos de "estados alterados de consciência" sobre o cérebro com o mesmo aparato tecnológico usado para se verificar os efeitos da oração ou meditação.

Agora, o que se extrairá disto só o futuro dirá. Dizer que alguém está tendo acesso a uma verdade superior só de olhar uma tomografia pode ser ambicioso demais no momento.

Os critérios adoptados são indirectos e foram assim catalogados por Herculano Pires em quatro pontos principais:

“1) Escolha de colaboradores mediúnicos insuspeitos, tanto do ponto de vista moral, quanto da pureza das faculdades e da assistência espiritual;

“2) Análise rigorosa das comunicações, do ponto de vista lógico, bem como do seu confronto com as verdades científicas demonstradas, pondo-se de lado tudo aquilo que não possa ser justificado;

“3) Controle dos Espíritos comunicantes, através da coerência de suas comunicações e do teor de sua linguagem;

“4) Consenso universal, ou seja, concordância de várias comunicações, dadas por médiuns diferentes, ao mesmo tempo e em vários lugares, sobre o mesmo assunto”.

Acontece que:

1) Há um elevado grau de subjectividade aqui.
Não há técnicas confiáveis para avaliar tais atributos em encarnados, que dirá da "assistência espiritual";

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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 03, 2013 9:59 pm

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2) Já foram ditas as deficiências da lógica em garantir se algo é verdadeiro ou não.

Quanto a limitar o crédito apenas às mensagens que corroborem o conhecimento vigente, está se perdendo uma bela oportunidade de se colocar comunicações sob teste.

Um conjunto de relatos em meados do século XIX que fizesse menção aos paradoxos quânticos e relativísticos ou rejeitasse as teorias de superioridade racial seria rejeitado segundo esse critério, uma oportunidade teria ido embora.

Preferiu-se ficar à sombra do que já era conhecido como uma forma de provar uma mensagem, quando o mais interessante seria um conteúdo ainda desconhecido para justamente pô-la à prova algum dia.

Uma crítica muito frequente é a falta de descobertas científicas através de mediunidade.
Nenhuma cura de doença, dedução de um teorema difícil, sítio arqueológico relatado, ou mesmo uma literatura digna de prémio Nobel.

Para isto existe mais um ad hoc:
Os espíritos não trazem nenhum conhecimento pronto porque isto tira o nosso mérito em progredir pelo próprio esforço.

Espere aí, não tire o corpo fora.
Ninguém falou em seres astrais super-protectores transformando a humanidade encarnada em um bando de indolentes.

Pede-se apenas que algumas jóias sejam oferecidas para que se tornem "evidências extraordinárias para alegações extraordinárias".

E é bom que se diga que ao relatar civilizações extra terrenas, expor teorias da Lua, defender abiogénese e afirmar que a medicina espiritual curaria doenças letais da época, se trouxe, sim, informações que deveríamos descobrir por nós mesmos;
portanto essa desculpa é muito furada.

3) Se falar bonito fosse sinal de idoneidade, então os 171 da vida seriam os melhores mentores da humanidade.

Este critério é por demais ingénuo.
Farsantes deste (e quem sabe do outro) mundo usam palavreado florido e conceitos científicos pouco conhecidos do grande público como uma forma de dar pretensa autoridade.

Magnetismo e mecânica quântica, então... isto me faz pensar se algum desses sábios espirituais seria ao menos capaz de resolver uma equação diferencial que se preze.

4) O "consenso universal", além do problema de ser indutivista, se mostra cada vez mais regional.

Diferenças já apareciam no século XIX
(espiritismo inglês, roustaignismo e até em diferenças entre a primeira e segunda edição do LE).

Isto aumentou no século XX com novos grupos Nova Era e espiritualistas (não-kardecistas) com suas doutrinas e interpretações próprias.

Uma resposta dada a isto foi que estes relatos divergentes não são dados por espíritos que fizeram parte da original "Falange do Espírito da Verdade" (relativa), que auxiliou Kardec.

Entretanto, é difícil definir - se é que isto não seria arbitrário - quem pertence a esta casta de "autorizados" ou não.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 03, 2013 10:00 pm

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As obras de Edgar Armond e Pietro Ubaldi, por exemplo, são controversas ainda, existindo quem os considere como continuadores e complementares à codificação, e aqueles que toleram estes autores apenas como fundadores de outras vertentes espiritualistas.

Só para citar, em um exemplar da revista Visão Espírita (ano 2, número 20, pág. 20, Editora Seda) se encontra um anúncio dos livros de Ubaldi.

Como diz o velho ditado:
"filho feio não tem pai".

Alguém pode estar pensando que toda a prelecção feita acima se refere apenas às ciências experimentais, não tendo nenhuma relação com outros campos.

De que maneira poderia o um astrónomo analisar astros tão distantes, um paleontólogo tratar como ratinho de laboratório um animal morto a milhões de anos e um historiador voltar no tempo para assistir a uma importante batalha.

Elas não estão sujeitas aos testes popperrianos de refutação.

Nada mais falso!
Campos de estudos que se valem de análise indirectos podem (e devem), sim, ter suas teorias postas em xeque.

Um astrónomo pode cogitar sobre os elementos que compõem uma estrela e verificar se está certo analisando o espectro de luz emitido por ela.

A teoria da evolução pode ser refutada se se descobrir um ser vivo cuja origem não pode explicada ou se encontrar um fóssil de humano moderno ao lado do de um dinossauro, tudo que se imaginava acerca de um evento histórico pode sofrer uma reviravolta com a revelação de um novo documento apresentando nova versão dos factos.

Ciências não-experimentais baseiam-se no controle criterioso de seus dados, na dúvida sistemática, na aplicação de dedução, eliminação de preconceitos baseados na autoridade ou no bom senso, na busca de contra-provas que possam ser previstas a partir das hipóteses formuladas.

Em suma, tudo que já foi exposto acima e o espiritismo deixa a desejar.

O facto de espíritos (se existirem) não serem acessíveis directamente não dá ao espiritismo o direito de ter um tratamento especial.

Uma questão ainda pendente é o da "ciência com consequências morais".
Mesmo que o espiritismo fosse ciência, seria muito arriscado fazer juízos morais baseados em noções científicas.

Nas palavras de Stephen J. Gould:

"(...) a descoberta potencial pelos antropólogos de que o assassinato, o infanticídio, o genocídio e a xenofobia podem ter caracterizado muitas sociedades humanas, podem ter prosperado em muitas sociedades humanas e podem até ser benéficos para a adaptação a determinados contextos não oferece nenhum apoio à pressuposição moral de que devemos nos comportar dessa maneira".

(Extraído de Pilares do Tempo, parte 2, Definição e defesa dos ministério não interferentes).

Certo que o espiritismo não chega a propor as coisas do exemplo de Gould, mas há as conclusões quanto ao transplante de órgãos citadas na parte "Restauração de Dogmas".

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 04, 2013 10:07 pm

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Foram afirmações de cunho moral muito duvidoso, tanto que nem são (creio eu com minha experiência humilde no meio) aceitas pela maioria dos espíritas.
Ficam como amostras do tipo de equívoco que pode acontecer.

Há um último comentário a ser feito que não se encontra na tabela do começo do tópico.

Os espíritas se colocam fora do conjunto das demais religiões tradicionais por possuírem postulados, ao contrário das demais crenças cristãs que se baseiam em dogmas.

Bem, até que ponto isto é verdade vai depender da maneira como der nome aos bois.
Dogmas e postulados partilham entre si a qualidade de serem aceitos sem demonstração.

Não vale a regra que dogmas seriam os mistérios da fé mais esdrúxulos, ao passo que postulados seguiriam mais a intuição.
Ambos podem ser pontos de partida para raciocínios lógico, ainda que de conclusões duvidosas.

"As definições são dogmas; somente as conclusões retiradas delas podem proporcionar-nos nova perspectiva"
K. Menger, citado por Popper.

Então qual a diferença?

A principal distinção se dá através do uso de cada um.
Campos de estudo continuam existindo mesmo após uma profunda revisão de seus princípios.

Por isso a conseguiu fazer a mudança de seus paradigmas no começo do século XX, a biologia continuou existindo após descrença do "princípio vital" como motor da vida e a geometria alargou seus horizontes para muito além de Euclides.

Já uma doutrina, não.
O catolicismo sofreria um baque sem a virgindade de Maria antes e após o parto;
o protestantismo, não.

Ambas rejeitariam com veemência a descoberta de um hipotético cadáver de Cristo, comprovando que ele não ressuscitou, nem ascendeu aos céus.
Elas perderiam a razão de ser sem este dogma.

Bem, você pode pensar que o espiritismo está livre desta porque a única maneira de refutá-lo é provar que a mente não sobrevive à morte do corpo, não é?
Não, não é, isto valeria para o espiritualismo no sentido mais amplo da palavra.

O espiritismo tem uma quantidade maior de pressupostos, o que torna-o mais frágil.

Uma prova da sobrevivência da mente ao fim do corpo apenas prova isto:
a vida após a morte;
não garante nada a respeito da existência de um deus ou regras de "acção e reacção" (karma).

Deuses podem muito bem continuar não existindo ou não dando a mínima para o que fazemos e até serem imperfeitos, que a vida após a morte não seria um contra-senso.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 04, 2013 10:07 pm

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O budismo theravada vive muito bem sem um deus.

A reencarnação pode ser um facto como muitos se esmeram em provar, mas ela tem mesmo de ser do jeito que Kardec diz?

Poderia se dar por um processo aleatório, independente de um karma; mais de uma essência (ou alma) poderia se reunir em um mesmo ou uma mesma essência se dividir para corpos distintos, possibilidade também aceita por vertentes budistas;
novas almas poderiam ser geradas junto com feto, sem nenhum karma passado.

Deus, reencarnação, espíritos, karma;
espíritas acham que estes conceitos formam um bloco monolítico e que a existência de um depende dos outros, o que não é verdade.

Há mais pressuposto que não foram ditos, mas apenas com estes eu pergunto:
pode o espiritismo mudar ou até excluir algum deles sem ter que mudar de nome?

Se a resposta for um estrondoso SIM, quem sabe exista ainda um modo de mudar a atitude dos espíritas e dar-lhes mais rigor.

Se a resposta possuir alguma espécie de "se", então estamos diante de um religião ou, com boa vontade, uma filosofia, nunca uma ciência.

O espiritismo possui inspiração racionalista, mas isto não basta para fazer dele um campo de pesquisa.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 05, 2013 11:25 pm

Restauração de Dogmas

Em ESE, cap XXII, 5, Kardec fala "O divórcio é uma lei humana que tem por objecto separar legalmente o que já, de facto, está separado.
Não é contrário à lei de Deus, pois que apenas reforma o que os homens hão feito e só é aplicável nos casos em que não se levou em conta a lei divina."


Até aí tudo bem, ele foi, inclusive, avançado para sua época, o problema veio com seus sucessores.

No livro Vida e Sexo, de Chico Xavier pelo espírito Emmanuel, cap VIII, lê-se:
"Partindo do princípio de que não existem uniões conjugais ao acaso, o divórcio, a rigor, não deve ser facilitado entre criaturas..."

"Óbvio que não nos é lícito estimular o divórcio em tempo algum, competindo-nos tão-somente, nesse sentido, reconfortar e reanimar os irmãos em lide, nos casamentos de provação, a fim de que se sobreponham às próprias susceptibilidades e aflições, vencendo as dura etapas de regeneração ou expiação que rogaram antes do renascimento no Plano Físico, em auxílio a si mesmos;
ainda assim, é justo reconhecer que a escravidão não vem de Deus e ninguém possui o direito de torturar ninguém, à face das leis eternas.

O divórcio, pois, baseado em razões justas, é providência humana e claramente compreensível nos processos de evolução pacífica."

"Efectivamente, ensinou Jesus:
"não separeis o que Deus ajuntou", e não nos cabe interferir na vida de cônjuge algum, no intuito de arredá-lo da obrigação a que se confiou.

Ocorre, porém, que se não nos cabe separar aqueles que as Leis de Deus reuniu para determinados fins, são eles mesmos, os amigos a que se enlaçaram pelos vínculos dos casamento, que desejam a separação entre si, tocando-nos unicamente a obrigação de respeitar-lhes a livre escolha sem ferir-lhes a decisão."

Pelo menos Emmanuel ainda permite divórcio para alguns casos críticos, mesmo sem especificar quais são.

O pior é o facto de não permitir acaso, fazendo com que muitas almas gémeas virarem algemas.

Se só nos casamos
(ou devemos) com pessoas previamente escolhidas pela lei do karma, como vamos criar novos laços afectivos?

Está implícita a falácia do apelo à força (argumentum ad baculum).
Os cônjuges são livres para decidir o que quiserem, mas enfrentaram as consequências de sua desobediência à lei.

Afinal Jesus ao dizer "não separeis o que Deus uniu" não estaria querendo dizer "o que Deus realmente uniu, ser humano nenhum é capaz de separar"?

Richard Simonetti em seu livro Atravessando a Rua, história 39, conta o caso de um casal que, por não resolver suas pendengas na última encarnação, estarão fadados a novo reencontro (cadê o livre arbítrio?).

No mesmo livro, história 3, um casal opta pelo esterilização após o nascimento do terceiro filho.
A consequência é que três espíritos que estavam programados para aquela família não podem reencarnar.
Um vai para planos superiores onde seria útil e outros dois, mas inferiores, passam a fazer obsessão ao casal.

Em comentário final, Simonetti diz:
"Ocioso discutir sobre a legitimidade do planeamento familiar.
Se os pais têm a responsabilidade de cuidar dos filhos, é elementar seu direito de decidir se desejam tê-los."

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 05, 2013 11:26 pm

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"Ressalte-se, todavia, que esse planeamento geralmente remonta à Espiritualidade, com o concurso de generosos e sábio mentores, antes do retorno à carne, quando os casais têm uma visão mais objectiva de seus necessidades evolutivas que, não raro, envolvem prole numerosa."

"O problema é que, chegados à Terra, distraem-se das finalidades da existência e, transitando pela névoa da ilusão, decidem limitar a natalidade, contrariando a própria consciência, que lhes diz inarticuladamente, no imo d'álma, que ainda há nascimentos programados para seu lar.

Com isso adiam par futuro incerto experiências necessárias à própria edificação".


Confiar na intuição é seguro?
Quantos casais não desejam uma prole numerosa e depois mudam de ideia ao se depararem com o custo que já é criar um único filho.

Se os mentores fossem realmente sábios, saberiam que não iam aguentar tal carga.
O Papa adoraria ter esses argumentos de pressão para os fiéis evitarem contraceptivos.

Penas que ele não acredita em reencarnação.

Em Anais do Instituto de Difusão de Cultura Espírita do Brasil, vol. IV, 1979, pág. 177, está a conclusão de um capítulo acerca do tema transplante de órgãos.

Eis dois itens da conclusão:

"- Não encontramos no Espiritismo nada que justifique e aprove a fria técnica do transplante, mesmo considerando que examinada por um lado, poderia ser tida como socorro à vítima de certa deficiência orgânica.

Enquanto não se levar em conta a existência do componente espiritual no ser humano, o transplante acarretará maiores desequilíbrios do que aqueles que pretende corrigir.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 05, 2013 11:26 pm

Continua...

Além do mais, a tentativa indiscriminada de prolongamento da vida a qualquer preço, é inatural.
É preciso que tudo que tudo se destrua, ensinam os espíritos, para renascer e se regenerar"

"- A palavra final é, pois, que não encontramos no Espiritismo a aprovação à técnica dos transplantes, não porque não a entendamos, mas justamente porque, ainda que rudimentarmente, podemos já alcançar todas as complexidades e objecções éticas envolvidas."


Neste exemplo, há uma perigosa aproximação com mesma postura das testemunhas de Jeová contra a transfusão de sangue.

Só trocaram os livros sagrados.
Nem a igreja católica foi capaz disso.

Certo que já se passaram mais de vinte anos desde a publicação deste texto e já existem opiniões mais moderadas no movimento espíritas em relação aos transplantes.

Só quero mostrar o que um raciocínio bitolado, ainda que lógico, de uma "fé racionada" é capaz de deduzir.

Anjos viraram espíritos de luz, demónios agora são chamados obsessores, Inferno virou Umbral e Céu, Colónia.

A coação pelo medo de castigos, mesmo que temporários, continua.
O suborno das boas obras virou valor maior.

E agora?
Como fazer a caridade se ela pressupõe desinteresse?


Será que trocaram seis por meia dúzia.
Talvez o único avanço do Espiritismo tenha sido a chance de nunca se perder a esperança.

Nenhum destino está selado.
É como se dessem dois passos para frente e um para trás.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 06, 2013 11:09 pm

Explicação de Milagres

O que é um milagre?
Poderia chapar aqui diversas definições de dicionário, mas julgo de pouca criatividade quem age assim.

Temos uma definição intuitiva do que seja, em geral:
“quando o impossível acontece”, “quando as leis naturais são suspensas em para a acção do sobrenatural, do Altíssimo”, etc.

Não é difícil encontrar alguém que tenha ouvido falar (ou até vivenciado) de uma cura após uma reza, mesmo já estando o paciente já desenganado, ou de uma coincidência de eventos esquisita demais para ser totalmente fortuita.

Mas quantas preces por uma recuperação em nada resultam?
Quem sabe melhoraram de outra forma...
Coincidências, pelo próprio nome, não ocorrem a nosso bel-prazer.

Isto não significa, porém, que estes relatos anedóticos sejam inviáveis, apenas que eles não podem ser controlados ou repetidos e, com isso, ficam à margem da ciência.

Ela só é capaz afirmar que, por não se enquadrarem em nenhum dos seus parâmetros, são extremamente improváveis.

“Se uma estátua da Virgem Maria subitamente acenasse para nós, consideraríamos este facto um milagre, pois toda a nossa experiência e conhecimento nos diz que estátuas de mármore não se comportam desse modo. (...) as moléculas do mármore sólido estão continuamente colidindo umas com as outras, em direcções aleatórias.

As colisões das moléculas anulam umas às outras, e por isso é que toda a mão da estátua se mantém parada.
Mas, se por pura coincidência, acontecer de todas as moléculas se mexerem simultaneamente na mesma direcção, a mão se mexerá.

E se então inverterem a direcção do mesmo momento, a mão se movimentará na direcção oposta.
Desse modo, é 'possível' que uma estátua acene para nós.

Poderia acontecer.
A Improbabilidade de uma coincidência assim acontecer é inconcebivelmente grande, mas não impossível de calcular (...)”


Richar Dawkins, O Relojoeiro Cego, cap. VI

Então nada é impossível e “vale tudo”, embora eventos como o aceno da Virgem terem um tempo provável maior que a idade do universo, certo?

Não precisa ser tão radical assim.
Estou apenas no campo do que é plausível ou não.

Factos de probabilidade irrisória não devem ser objectos de nenhuma pesquisa, pois talvez ninguém esteja lá para colher algum resultado.

Só não se pode afirmar categoricamente de “impossível” coisas que estão além da verificação.
O máximo que se pode fazer é conjecturar sobre o que pode ter ocorrido nos casos menos bizarros.

Por exemplo, doenças graves possuem um certo percentual de regressão espontânea.
Com ou sem reza.

Alguns vão querer ousar mais e explicar factos miraculosos de grande porte e alto “teor cabeludo” baseado só nas leis conhecidas.

Continua...
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 06, 2013 11:10 pm

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Uma tentativa emblemática foi a proposta do reverendo Thomas Burnet na sua “Teoria sagrada da Terra”.
Lá, ele se enveredou na tarefa hercúlea de explicar episódios da Bíblia através das leis naturais conhecidas na época.

Burnet acreditava que a história terrestre estava realmente retratada na Bíblia, mas não era exactamente um intérprete literal das Escrituras e admitia certo grau de alegoria nelas.

Apesar de suas interpretações soarem risíveis hoje em dia, elas estavam de acordo com as normas científicas de sua era.

Ao falar do dilúvio:
“(...) Burnet criou uma teoria incrivelmente estranha de uma Terra original perfeitamente esférica com uma camada lisa e sólida de terra cobrindo uma camada de água (que seria a fonte natural de dilúvio de Noé).

Essa camada de terra seca e se quebra aos poucos;
as águas saem pelas rachaduras e formam nuvens;
as chuvas vêm e fecham as rachaduras;
a pressão da água por baixo acaba arrebentando a camada de terra, causando o dilúvio e criando a actual topografia acidentada da Terra.


Estranha teoria, sem dúvida, mas inteiramente explicada pelas leis naturais, e portanto passível de ser testada e desacreditada pelo ministério da ciência.

De facto, testamos as ideias de Burnet, considerando-as tantos erradas quanto bizarras, e tiramos seu nome de nosso panteão de heróis científicos.

Mas, se ele houvesse simplesmente defendido a criação divina da água, seu relato anti-convencional e inoperante jamais teria inspirado Buffon, Vico e tantos outros estudiosos.(...)

Stephen J. Gould, Pilares do Tempo – Ciência e religião na plenitude da vida, Ed Rocco, cap. I - “A história de Tomé e de Thomas”

O abacaxi de quem se propõe a tarefa semelhante passa por um leque de dificuldades.

Primeiro, será que eles aconteceram de verdade?
Segundo, caso ocorreram, foi do jeito que são relatados?
Terceiro, como reproduzir o fenómeno, pois do contrário o que se tem serão apenas conjecturas, especulações e hipóteses ad hoc.


Do ponto de vista dos historiadores, pouca importância há se os factos foram verídicos ou não. O que interessa mais é como as populações encaravam essa mística.

Por exemplo, não importar se Jesus ressuscitou ou teve seu corpo roubado;
a simples crença na ressurreição dos mortos (dada pelo episódio cristão) foi importante combustível no fervor do cristianismo primitivo.

“(...) Mas a cura miraculosa de moléstias de natureza assaz incomum ou mesmo sobrenatural não deve causar surpresa se nos lembrarmos de que nos dias de Irineu, ao fim do século II, não se considerava a ressurreição de mortos acontecimento muito raro;
que o milagre ocorria com frequência, nas ocasiões necessárias, graças a um longo jejum e às súplicas conjuntas da Igreja local;
e que as pessoas assim devolvidas às suas preces sobreviviam ainda um bom número de anos.

Numa época que tal, em que a fé podia jatar-se de tantas prodigiosas vitórias sobre a morte, parece difícil justificar o cepticismo daqueles filósofos que rejeitavam e escarneciam a doutrina da ressurreição.

Continua...


Última edição por O_Canto_da_Ave em Sex Dez 06, 2013 11:11 pm, editado 1 vez(es)
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 06, 2013 11:10 pm

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Um nobre grego assentara toda a controvérsia nesse importante fundamento, prometendo a Teófilo, bispo de Antioquia, que se lhe fosse dado ver uma só pessoa de facto ressuscitada de entre os mortos, ele imediatamente abraçaria a religião cristã.

É de certo modo singular que o prelado da primeira Igreja Oriental, conquanto ansioso de ver seu amigo converter-se, achasse conveniente rejeitar esse justo desafio.
(...)”

Edwardo, Gibbon, Declínio e queda do Império Romano, tradução: José Paulo Paes, Companhia das Letras, cap. VIII

Não estou afirmando crença ou descrença em milagres, o que me interessa aqui é a explicação dada por Kardec em A Génese (Gen).

Parece-me que ele caiu em armadilhas similares às de Burnet.

A ressurreição de Lázaro (Gen, cap XV, 40) seria apenas uma letargia e o cheiro ruim, uma suposição de sua irmã, afinal já se passavam 4 dias de sua morte.

Certo que certas pessoas que aparentam estar mortas não estão (este pode ter sido o caso da filha de Jairo, Marcos 5.24), mas esta não era a situação de Lázaro pois em Jó 11.11-14 Cristo diz claramente que ele morreu.

No item 48 do mesmo capítulo, a multiplicação dos pães é atribuída ao fascínio "por sua palavra e talvez também pela poderosa acção magnética que ele exercia sobre seu auditório, não sentissem a necessidade material de comer".

Uma leitura acurada de Mt 14.13-21 revela que a fome era física, que "todos comeram e se fartaram" e que foram recolhidos doze cestos cheios de sobras.

Pode-se apelar para um fenómeno de materialização, mas como sem ectoplasma e sem preparativos prévios?
A comida não desapareceu finda a “sessão”.

O fenómeno de transporte é até possível pela mecânica quântica (efeito túnel), só que, para objectos macroscópicos, tão provável quanto o “aceno da Virgem”.

No item 47, ele não fornece nenhuma explicação plausível para a transformação da água em vinho ocorrida nas bodas de Caná (Jó 2.1-12).

Jesus "era de uma natureza demais elevada para se deter em efeitos puramente materiais" e que isso "o teria nivelado a um mágico" (duvido que alguém nascido em manjedoura, sendo digno de berço de ouro, teria essa arrogância).

Uma saída também tentada foi dizer que não foi um milagre, mas uma parábola como tantas outras que Jesus relatou.

O problema é que isso se trata de uma narrativa histórica, em que aparecem, além de Jesus, sua mãe e seus discípulos;
e é primeira referência a um milagre de Jesus nesse evangelho.

Encher esta passagem de significados simbólico dá uma moral sofisticada ao relato, mas não ajuda nada na hora explicar como uma substância de estrutura simples (água) virou o complexo vinho.

Fica uma questão:
seriam milagres algo proibido?

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 07, 2013 10:09 pm

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Kardec expressou-se assim em Gen, XIII, 15:
Quanto aos milagres propriamente ditos, Deus, visto que nada lhe é impossível, pode fazê-los.
Mas, fá-los?
Ou, por outras palavras;
derroga as leis que dele próprio emanaram?

Não cabe ao homem pré-julgar os aptos da Divindade, nem os subordinar à fraqueza do seu entendimento.

Contudo, em face das coisas divinas, temos, para critério do nosso juízo, os atributos mesmos de Deus.

Ao poder soberano reúne ele a soberana sabedoria, donde se deve concluir que não faz coisa alguma inútil.

Porque, então, faria milagres?
Para atestar o seu poder, dizem.

Mas, o poder de Deus não se manifesta de maneira muito mais imponente pelo grandioso conjunto das obras da criação, pela sábia previdência que essa criação revela, assim nas partes mais gigantescas, como nas mais mínimas, e pela harmonia das leis que regem o mecanismo do Universo, do que por algumas pequeninas e pueris derrogações que todos os prestímanos sabem imitar?

Que se diria de uni sábio mecânico que, para provar a sua habilidade, desmantelasse um relógio construído pelas suas mãos, obra-prima de ciência, a fim de mostrar que pode desmanchar o que fizera?

Seu saber, ao contrário, não ressalta muito mais da regularidade e da precisão do movimento da sua obra?


Não é, pois, da alçada do Espiritismo a questão dos milagres;
mas, ponderando que Deus não faz coisas inúteis, ele emite a seguinte opinião:

Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus, nada no Universo se produz fora do âmbito das leis gerais.

Deus não faz milagres, porque, sendo, como são, perfeitas as suas leis, não lhe é necessário derrogá-las.

Se há factos que não compreendemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos necessários.


Não sei ... parece-me muita pretensão querer palpitar sobre como funcionaria uma mente “divina” (se ela existir) e ainda chegar à conclusão de que seu raciocínio seria o mesmo.

Porque entrar em questões de “grandeza” ou demonstrações de perícia e poder, se o deus cristão estaria acima dessas coisas que só fazem sentido quando lidamos com mortais?

A analogia do relógio também é fraca, pois relógios mecânicos (os únicos daquela época) só servem para uma coisa: marcar hora.

E se sempre do mesmo jeito.
Até os digitais, que muitas vezes nem lembram simples marcadores de tantas coisas que fazem, se baseiam todos no mesmo princípio de contadores binários.

Se eu mudar este paradigma para algo do tipo “it from bit”, maneiras diferentes de fazer a mesma coisa podem ter algum sentido.

Assim como programas complexos muitas possuem rotinas “não documentadas” que lhe optimizam o funcionamento, “Easter eggs” engraçados – postos por pura diversão - e, por que não, bugs.

Com uma analogia do programador melhor que a do relojoeiro, um funcionamento “anormal” não é algo tão esdrúxulo assim.

A ciência, em ambas visões, é uma engenharia reversa que tenta extrair o projecto do produto final.
Sempre deduzindo primeiro o funcionamento “regular” de um aparato.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 07, 2013 10:10 pm

Biologia & Física

O Barbeiro de Deus
Vitalismo, Principio Vital e Alma
Urano - O caso do planeta deitado[


Itens Gerais


-Em LE questões:

38 - Como criou Deus o Universo?
“Para me servir de uma expressão corrente, direi: pela sua Vontade.
Nada caracteriza melhor essa vontade omnipotente do que estas belas palavras da Génese – 'Deus disse: Faça-se a luz e a luz foi feita'.”

Se tivessem se contentado com essa resposta, não haveria a Teoria do Big-Bang.
Tudo bem que isto era muito além do século XIX, mas não seria melhor os espíritos afirmarem isto do que citar a Bíblia?

42 - Poder-se-á conhecer o tempo que dura a formação dos mundos: da Terra, por exemplo?
“Nada te posso dizer a respeito, porque só o Criador o sabe e bem louco será quem pretenda sabê-lo, ou conhecer que número de séculos dura essa formação.”

Exames radiológicos em rochas estimam a idade da Terra em 4,5 biliões de anos.
A teoria do Big Bang estima a idade do universo entre 10 e 15 biliões.
É um traço positivista achar limites da ciência está dentro da experimentação directa.

Comte, o criador desta corrente filosófica, não achava que se pudesse, por exemplo, saber de que são feitas as estrelas.

Ainda no século XIX, o estudo do espectro luminoso da luz destas, permitiu saber de que gases elas são feitas.

Esta opinião é de Kardec ou do Espírito de Verdade?

46 - Ainda há seres que nasçam espontaneamente?
"Os tecidos dos homens e dos animais não encerram os germes de uma multidão de vermes que aguardam, para eclodir, a fermentação pútrida necessária à sua existência?".

47. A espécie humana se encontrava entre os elementos orgânicos contidos no globo terrestre?
“Sim, e veio a seu tempo.
Foi o que deu lugar a que se dissesse que o homem se formou do limo da terra.”

48. Poderemos conhecer a época do aparecimento do homem e dos outros seres vivos na Terra?
“Não; todos os vossos cálculos são quiméricos.”

"53 - O homem nasceu sobre diversos pontos do globo?
- Sim, e em épocas diversas, e isso é uma das causas da diversidade de raças;
depois os homens, em se dispersando sob diferentes climas e aliando-se a outras raças, formaram os novos tipos.

- Essas diferenças constituem espécies distintas?
- Certamente que não, todos são da mesma família; as diferentes variedades de um mesmo fruto impedem que pertençam à mesma espécie?

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 07, 2013 10:10 pm

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54 - Se a espécie humana não procede de um só, os homens devem deixar por isso de se reconhecerem como irmãos?
- Todos os homens são irmãos em Deus, porque são animados pelo espírito e tendem ao mesmo fim.
Quereis sempre tomar as palavras, literalmente."

Esta tese de que os seres vivos surgem da eclosão da vida na matéria é a tese conhecida por abiogénese ou da geração espontânea, que foi provada falsa por Pasteur em 1862.

Apesar de o espiritismo aceitar a evolução espiritual (e a orgânicas, também), estas respostas dadas nas perguntas de 46 a 53 contradizerem totalmente a ideia evolução biológica.

Os seres vivos teriam surgido prontos em épocas distintas e todos os desenvolvimentos posteriores foram paralelos.

No caso da evolução humana, tanto a teoria do candelabro como a da origem multiregional apontam para um ancestral comum africano, diferindo-se na época em que a separação teria se iniciado.

Interessante quando se afirma “que todos os cálculos são quiméricos”, pelo menos seria preciso uma ideia da ordem de grandeza da idade das espécies para se afirmar isto com tanta segurança.

A evolução, como de qualquer outra espécie, se assemelha mais com uma árvore ramificada, cujos galhos são constantemente podados pela tesoura da extinção, do que com linhas paralelas.

Pode ser até que a história dos galhos mude; mas os frutos, NÓS, não se alterarão.

Somos irmãos e não primos.
O conceito de raça não faz sentido em nossa espécie, pois as diferenças são ínfimas

 Criticando Kardec - Página 4 Multirregional_candelabro
-
Nota: Apesar de a Academia de Ciências Francesa ter julgado e premiado as experiências de Pasteur em 1862 e este ser considerado o fim, digamos, “oficial” da geração espontânea, a história é um pouco mais complicada.

A Academia foi parcial e era simpática à biogénese e Pasteur se recusou a repetir experimentos de cientistas pró abiogénese, como Pouchet.

Em vez de encarar o desafio, acusou os adversários de erros procedimentais.

Na verdade, se Pasteur tivesse testado as propostas de Pouchet, que utilizavam água de feno como caldo nutritivo, o resultado seria a favor da geração espontânea.

Hoje se sabe que a água de feno possui microorganismos que resistem à fervura simples e assim teria mascarado o resultado correcto que ocorreria em caso de uma esterilização mais eficiente.

Havia muitas paixões no meio científico no que se refere a este tema.

Muitos se prendiam a geração espontânea como única alternativa ao criacionismo bíblico, outros eram simpáticos à biogénese por ela ainda fazer preciso a “intervenção divina” na origem dos primeiros seres.

Possivelmente Pasteur estava neste grupo.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 08, 2013 10:50 pm

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O Grande Dicionário Universal Larrousse de 1865 ainda dava vitória aos partidários da geração espontânea e Pasteur continuou a enfrentar outros espontanatistas.

Por outro lado, os membros mais influentes da Academia negavam a geração espontânea.

Tais factos podem ajudar a entender a persistência do entusiasmo de Kardec em a Génese, cap X, mesmo quando a heterogenia já estava na defensiva.

Porém, o item 22 do mesmo capítulo dá a entender que ele, além de não admitir uma solução evolutiva, extrapola a geração espontânea a animais complexos, apesar de certo resguardo na própria especulação.

Mas, então, por que não se formam da mesma maneira os seres de complexa organização?

Que esses seres não existiram sempre, é facto positivo;
logo, tiveram um começo. Se o musgo, o líquen, o zoófito, o infusório, os vermes intestinais e outros podem produzir-se espontaneamente, por que não se dá o mesmo com as árvores, os peixes, os cães, os cavalos?

Param aí, por enquanto, as investigações;
desaparece o fio condutor e, até que ele seja encontrado, fica aberto o campo às hipóteses.

Fora, pois, imprudente e prematuro apresentar meros sistemas como verdades absolutas.

De qualquer maneira, se se considerar a hipótese de o suposto “mundo espiritual” possuir uma ciência mais abrangente que a nossa, este momento histórico alivia a crítica a Kardec, mas não as comunicações pró abiogénese que recebeu.

Para saber mais:
Martin, Lilian A. C. Pereira & Martins, Roberto de Andrade; Geração Espontânea: dois pontos de vista, Epistemologia e História da Ciência UNICAMP.

Apesar de pregar a evolução espiritual, Kardec não aceitava a evolução orgânica de forma plena, tanto nas primeiras edições do LE, como no trecho acima da Génese.

O Boletim GEAE 307 (Grupo de Estudos Avançados Espírita) traz uma certa elucidação sobre estes pontos e, talvez sem querer, levante outras dúvidas.

Allan Kardec rejeitou todas as mensagens de espíritos que, antes de Darwin, afirmavam o evolucionismo biológico, a descendência do homem, a selecção e a evolução das espécies.

Essa atitude do mestre foi criticada, por escrito, por d'Ambel, seu secretário e seu médium preferido, além de Alexandre Canu, que era o secretário das sessões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e que, igualmente, fez críticas ao mestre, por escrito, pela mesma razão.

Devido ao seu critério pessoal é que Kardec seleccionou para a primeira edição de "O Livro dos Espíritos", o ensino de que o homem não descendia do animal:
"O homem não foi jamais outro ser senão homo (questão 127, da primeira edição).

Na segunda edição, já tendo sido publicada a obra de Charles Darwin (1859), Allan Kardec se deu conta de que seu critério anterior houvera sido falho e adoptou o novo ensino, passando-se, então, para o lado dos Espíritos que deram as explicações contidas nas questões de nº. 604 a 611, incluídas na segunda edição de "O Livro dos Espíritos"(1860).

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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 08, 2013 10:52 pm

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Há falhas aqui:
as questões de 604 a 611 referem-se mais a origem a alma do que a uma génese orgânica e mesmo na segunda edição do LE, como exposto mais acima
(perguntas 46 a 59) ele continuou não sendo adepto de Darwin na 2ª edição do LE.

O famoso “Consenso Universal” não se revelou muito grande aqui e Kardec, ao que parece, pôde rejeitar sua metodologia em prol de opiniões pessoais!

Bem mais tarde, no livro da Génese, Kardec já fazia concessões à evolução orgânica de animais complexos:

X, 25- (...) De acordo com o que fica dito, percebe-se que não exista geração espontânea senão para os seres orgânicos elementares;
as espécies superiores seriam produto das transformações sucessivas desses mesmos seres, realizadas à proporção que as condições atmosféricas se lhes foram tornando propícias.

Adquirindo cada espécie a faculdade de reproduzir-se, os cruzamentos acarretaram inúmeras variedades.

Depois, uma vez instalada em condições favoráveis, quem nos diz que os gérmens primitivos donde ela surgiu não desapareceram para sempre, por inúteis?

Quem nos diz que o nosso oução actual seja idêntico ao que, de transformação em transformação, produziu o elefante?


Explicar-se-ia assim porque não há geração espontânea entre os animais de complexa organização.

Esta teoria, sem estar admitida ainda, de maneira definitiva, é a que tende evidentemente a predominar hoje na Ciência.

Os observadores sérios aceitam-na como a mais racional.

Mas é preciso fazer uma ressalva:
ele ainda não lhe passava a ideia de que uma pequeno grupo destacado dos demais poderia dar origem a uma nova espécie, sendo esta capaz de ocupar uma novo grande nicho.

Faltava-lhe a noção de “irradiação adaptativa”.

X, 2. - É esta a questão primordial que se apresenta:
cada espécie animal saiu de um casal primitivo ou de muitos casais criados, ou, se o preferirem, germinados simultaneamente em diversos lugares?

Esta última suposição é a mais provável.
Pode-se mesmo dizer que ressalta da observação.

Com efeito, o estudo das camadas geológicas atesta, nos terrenos de idêntica formação, e em proporções enormes, a presença das mesmas espécies em pontos do globo muito afastados uns dos outros.

Essa multiplicação tão generalizada e, de certo modo, contemporânea, fora impossível com um único tipo primitivo.

Doutro lado, a vida de um indivíduo, sobretudo de um indivíduo nascente, está sujeita a tantas vicissitudes, que toda uma criação poderia ficar comprometida, sem a pluralidade dos tipos, o que implicaria uma imprevidência inadmissível da parte do Criador supremo.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 08, 2013 10:54 pm

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Aliás, se, num ponto, uni tipo se pode formar, em muitos outros pontos ele se poderia formar igualmente, por efeito da mesma causa.

Tudo, pois, concorre a provar que houve criação simultânea e múltipla dos primeiros casais de cada espécie animal e vegetal.

De facto, um único casal seria uma restrição exagerada;
um grupo pequeno para permitir certa variabilidade, nem tanto.

Seres submetidos às mesmas pressões selectivas podem realmente sofrer adaptações semelhantes (evolução convergente), mas só continuarão sendo uma mesma espécie se tiverem algum parentesco recente em comum e um fluxo gênico que os mantenha unidos.

Tubarões, golfinhos e os extintos ictiossauros desenvolveram perfis semelhantes, mas são de classes distintas e parentesco remoto.

LE, cap. VIII, pergunta 402:

...O sono liberta a alma parcialmente do corpo.
Quando dorme, o homem se acha por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre. ..."


Nosso corpo não fica como morto depois que dorme e, pelo contrário, em certas fases do sono o cérebro trabalha activamente.

No século XIX havia muito pouco conhecimento a respeito do funcionamento da mente.
Ainda é um campo nebuloso, mas já estamos colhendo algumas luzes onde há 140 anos atrás só podíamos dizer "não sei".

537 a) - Poderá então haver Espíritos que habitem o interior da Terra e presidam aos fenómenos geológicos?

“Tais Espíritos não habitam positivamente a Terra.
Presidem aos fenómenos e os dirigem de acordo com as atribuições que têm.
Dia virá em que recebereis a explicação de todos esses fenómenos e os compreendereis melhor.”

Seriam as placas tectónicas tais espíritos?

539. A produção de certos fenómenos, das tempestades, por exemplo, é obra de um só Espírito, ou muitos se reúnem, formando grandes massas, para produzi-los?

“Reúnem-se em massas inumeráveis.”

Por que eles teriam um comportamento caótico, então?

- Em Chico Xavier, Emmanuel, "Dissertações Mediúnicas", editora da FEB, cap XXIII.

Emmanuel (o espírito) relata:

(...) pouco têm adiantado os homens na solução dos problemas da cura dentro dos dispositivos da medicina artificial por eles inventados.

Apesar do concurso precioso do microscópio, existem hoje questões clínicas tão inquietantes, como há duzentos anos.

Os progressos regulares que se verificam na questão angustiosíssima do câncer e da lepra, da tuberculose e de outras enfermidades contagiosas, não foram além das medidas preconizadas pela medicina natural, baseadas na profilaxia e na higiene.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 09, 2013 10:43 pm

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Os investigadores puderam vislumbrar o mundo microbiano sem saber eliminá-lo.
Se foi possível devassar o mistério da Natureza, a mentalidade humana ainda não conseguiu apreender o mecanismo das suas leis.

É que os estudiosos, com poucas excepções, se satisfazem com o mundo aparente das formas, demorando-se em nas expressões exteriores, incapazes de uma excursão espiritual no domínio das origens profundas.

Sondam os fenómenos sem lhes auscultarem as causas divinas.

(...) A saúde humana nunca será o produto de comprimidos, de anestésicos, de soros, de alimentação artificialíssima.(...)

Pouco depois houve a difusão dos antibióticos, que curaram doenças como a tuberculose e a lepra.

O câncer ainda assusta;
mas enquanto ele não é derrotado por knock-out, cada vez mais vitórias por pontos têm aparecido.

A varíola foi erradicada, a poliomielite segue rumo parecido.

Se as doenças têm causa cármica, alguém deve deixar vacinar seu filho por causa disto e confiar na Providência?
Será que Emmanuel realmente entende de biologia?


Há o discurso de que se algum “mal reparador” é eliminado, outro é remetido para provar a humanidade. Um exemplo moderno seria a AIDS.

Emmanuel poderia se assustar com a quantidade de conhecimento sobre a causa desta moléstia (o vírus HIV) que se adquiriu em tão pouco tempo.

Àqueles que ainda acreditam na contaminação pela imunodeficiência devido fórmula mágica da “lei de causa e efeito”, deixo uma resposta anti-falso-moralismo:
“A moralidade, que é tão inconsequente quanto é impressionante.
Ela incita com enorme rapidez a condenação solícita das infracções quotidianas, desde que perpetradas por outros
(...)

Se você fuma, pode ter câncer no pulmão.
Se você bebe, pode ter cirrose no fígado.
Se você faz sexo, pode apanhar uma doença transmitida sexualmente, como pode apanhar uma gripe por suas actividades sociais.

Receber de braços abertos essa infecção [sífilis] como o castigo adequado ao crime (...) é uma cruel expressão da cretinice puritana.”

Richard Gordon, A Assustadora História da Medicina, ed. Prestígio, cap VII.

- Em Divaldo Franco, Joanna de Ângelis Estudos Espíritas - 1973 FEB:

Afirma que o perispírito é o responsável por todo processo teratológico. p-43.
Há medicamentos que causam processos teratológicos (mutações), tal como a talidomida.

Como atribuir a causas espirituais deformidades que pode ser artificialmente induzidas?

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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 09, 2013 10:43 pm

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Em Catecismo Espírita, de Léon Denis, cap. VI, faz-se uma alusão ao éter luminífero:

P: Existe o vácuo absoluto?
R: Não; o próprio espaço é ocupado por um elemento que a Ciência denomina éter.

Provavelmente uma alusão a pergunta 36 do LE.

A rigor, nunca se provou a existência do éter, ele era um conceito utilizado para explicar a propagação da luz no espaço interplanetário.

O electromagnetismo de Maxwell suprimiu muitas de suas propriedades e o éter luminífero foi tornado obsoleto e desnecessário pela relatividade restrita de Einstein.

A expansão desta teoria, a Relatividade Geral, foi publicada em 1916 e teve sua primeira verificação por observações astronómicas em 1919:
o ano de lançamento do Catecismo Espírita.

O Espiritismo surgiu numa época que o homem carecia de algumas explicações científicas, Kardec supriu as necessidades de alguns alegando que isto ou aquilo era consequência da actividade e propriedade dos espíritos, ou que era apenas de conhecimento divino.

O tempo passou, as explicações da ciência tradicional apareceram.

Será que o espiritismo repetiu o hábito de seus antecessores, que queriam dizer o porquê do Sol e da chuva?

O Barbeiro de Deus

- Em LE questões:

4 - Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?

“Num axioma que aplicais às vossas ciências.
Não há efeito sem causa
Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”

5. Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus?

“A de que Deus existe;
pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base?
É ainda uma consequência do princípio — não há efeito sem causa.”

6 - O sentimento íntimo que temos da existência de Deus não poderia ser fruto da educação, resultado de ideias adquiridas?

“Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?”

7 - Poder-se-ia achar nas propriedades íntimas da matéria a causa primária da formação das coisas?

“Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades?
É indispensável sempre uma causa primária.”

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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 09, 2013 10:44 pm

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8 - Que se deve pensar da opinião dos que atribuem a formação primária a uma combinação fortuita da matéria, ou, por outra, ao acaso?

“Outro absurdo! Que homem de bom-senso pode considerar o acaso um ser inteligente?
E, demais, que é o acaso? Nada.”

9 - Em que é que, na causa primária, se revela uma inteligência suprema e superior a todas as inteligências?

“Tendes um provérbio que diz:
Pela obra se reconhece o autor.
Pois bem! Vede a obra e procurai o autor.

O orgulho é que gera a incredulidade.
O homem orgulhoso nada admite acima de si.

Por isso é que ele se denomina a si mesmo de espírito forte.
Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!”

10 - Pode o homem compreender a natureza íntima de Deus?
“Não; falta-lhe para isso o sentido.”

O Barbeiro e Deus

Era uma vez um homem que foi ao barbeiro.
Enquanto tinha seus cabelos cortados conversava com o barbeiro.
Falava da vida e de Deus.

Daí a pouco, o barbeiro incrédulo não aguentou e falou:
- Deixa disso, meu caro, Deus não existe!
- Porquê?

- Ora, se Deus existisse não haveria tantos doentes, mendigos, pobres, etc...
Olhe em volta e veja quanta tristeza.
É só andar pelas ruas e enxergar!

- Bem, esta é a sua maneira de pensar, não é?
- Sim, Claro!

Pois bem, o freguês pagou o corte e foi saindo, quando avistou imediatamente um maltrapilho imundo, com longos e feios cabelos, barba desgrenhada, suja, abaixo do pescoço.

Não aguentou, deu meia volta e interpelou o barbeiro:
- Sabe de uma coisa? Não acredito em barbeiros!
- Como?!

- Sim, se existissem barbeiros, não haveria pessoas de cabelos e barbas compridas!
- Ora, existem tais pessoas porque evidentemente não vêm a mim!
- Agora você me respondeu porque existe tanta tristeza em torno de nós...

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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 10, 2013 10:13 pm

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Texto de autoria desconhecida por mim, mas são facilmente encontradas na internet diversas variantes dessa história.

Realmente a história do “barbeiro e Deus” é tocante por sua tirada final, que pegou o barbeiro de surpresa.

Apesar de arrumadinha um barbeiro mais prevenido poderia indagar coisas mais complicadas:
“Mas eu nem sabia que ele existia, esse mendigo é novo na cidade e também não deve me conhecer.
Como não sou omnisciente , nem omnipresente, Deus também não deve ser.”


“Esse mendigo agora está em frente a barbearia.
Por que ele não entra, já que não vou sair daqui para atendê-lo ao Sol?
Logo Deus sabe quem está precisando dele, mas é acomodado.”

“Tenho que ganhar o pão de cada dia!
Se for atender de graça cada indigente que aparece, me quebro.
Não sou infinitamente bom, pois corto o cabelo apenas dos que me pagam.

Assim Deus não deve ser tão bondoso como dizem, já que exige as pessoas vão até ele e o adorem.
Ou ele ajudará até os que blasfemam sem querer exigências.”

“Eu ateu e tenho uma barbearia, logo Deus até que tem sido legal comigo.
Esse mendigo faz ponto na porta da igreja, não teria ele já se voltado a deus?”

Humm... já imagino alguns leitores torcendo o nariz, mas não precisa fazer isso.
Estas frases, como a historiazinha, são apenas retórica inocente.
Talvez apenas a última gere algum desdobramento mais interessante.

Pessoas boas e dedicadas “à seara de Deus” também sofrem. E às vezes muito.
Algumas perseveram na fé outras a abandonam.

Muitos dos que perseveram criam formas de explicar o que aconteceu:
provação, teste de fé (como Jó), karma, expiação por alguma negligência feita na vida.

Chegou-me aos ouvidos o caso de uma idosa que definhava vítima de um câncer, após lutar cinco anos contra a metástase.
Fragilizada, considerava seu sofrimento um castigo por não ter subido virgem ao altar.

Novas gerações achariam o raciocínio dessa senhora moribunda totalmente disparatado, mas para ela era algo sério.
Há também o discurso “Cale a boca.
Se achas que está ruim, poderia ser pior”.


Por exemplo, o padrão de histórias espíritas em que alguém questiona algum sinistro acontecido a ele ou a um parente zeloso e, durante uma comunicação mediúnica, é informado que no planeamento “original” estava planeado algo pior.

Se o “amor cobre uma multidão de pecados”, quanto bem seria necessário para evitar qualquer sofrimento expiatório?

Todas estas posturas giram em torno de alguns pressupostos básico:
Deus é bom, justo, omnisciente, omnipresente e omnipotente.

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