A Ciência confirma o Espiritismo?

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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 07, 2013 10:01 pm

A diversidade dos grupos de trabalhadores da parábola indica a diversidade dos seres criados e das tarefas a desempenhar em cada estágio de sua evolução.

Deus reconhece essa diversidade, convocando cada um a seu tempo para as tarefas adequadas ao momento.
E contanto que haja disposição para o trabalho, todos recebem o fruto de seus labores, por mais modestos que sejam.

Não espera o Senhor que, num dado dia todos desempenhem as mesmas tarefas.
A meta de todos deve ser a de colaborar cada vez mais na obra divina, mas a convocação divina leva em conta a capacidade presente de cada um.

A nós cabe estar permanentemente dispostos ao labor, para que não sejamos como os servos imaginados por Constantino, que receberam somente o salário da preguiça, ou seja, a estagnação evolutiva.

Não somente a preguiça e a indiferença têm de ser evitadas, mas também a afoiteza e a precipitação.
Por falta de bom senso, arriscamo-nos frequentemente em tarefas para as quais não estamos, presentemente, preparados.

Pior ainda: movidos pelo orgulho lançamo-nos em empreendimentos que se nos afiguram “grandes”, não pelo bem que deles decorra, mas pela evidência em que nos coloquem.

O malogro parcial ou total, e a dura decepção de nossa vaidade é o resultado inevitável de tais iniciativas.

A igualdade dos “pagamentos” que cada trabalhador de boa vontade recebe reflecte a bondade divina, que valoriza tudo aquilo que venhamos a fazer na obra do bem.

Não ressaltou Jesus esse ponto na expressiva passagem do óbolo da viúva? (Ver Mc 12:41-44 e Lc 21:1-4, bem como os comentários de Kardec a essa passagem no item 6 do capítulo 13 de O Evangelho Segundo o Espiritismo.)

Outra virtude veladamente evocada pela parábola é o desinteresse.
Conforme já notamos, os trabalhadores da última hora e todos os demais que foram convocados depois do início do dia aceitaram a oferta de trabalho sem perguntar quanto ganhariam.

Do mesmo modo, nossa meta é fazer o bem pelo bem, tão logo a ocasião apareça, e não “por cálculo”, contabilizando os benefícios que dele nos advenham.
Kardec sabiamente inseriu um estudo sobre esse ponto logo após o referente ao óbolo da viúva, nos itens 7 e 8 do capítulo 13 de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Todo esse capítulo, aliás, contém reflexões valiosas sobre o assunto, complementando as fundamentais elucidações contidas na seção inicial do capítulo Da perfeição moral de O Livro dos Espíritos.

Por fim, além da indolência e do interesse, mais um vício parece ser exprobrado na parábola: a inveja (“Tens mau olho, porque sou bom?).
Vendo o gesto de generosidade do pai de família, os trabalhadores da primeira hora queixaram-se, muito embora no que lhes dissesse respeito ele houvesse agido com correcção.

Aproveitando uma sugestão interpretativa feita anteriormente, seria mais ou menos como se nos queixássemos do governo por conceder auxílio-desemprego a um colega provisoriamente desempregado.

Além de injustificável inveja, faltaríamos com a solidariedade, que deve reinar entre os homens em geral.

( Questão deixada para o leitor:
Quem os trabalhadores da primeira hora poderiam simbolizar?
)
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 07, 2013 10:02 pm

5. Ainda com Constantino...

Após ter comentado, assim, a situação dos preguiçosos e indiferentes, Constantino prossegue, penúltimo parágrafo da mensagem:
[§ 3] Que dizer, então, daquele que, em vez de apenas se conservar inactivo, haja empregado as horas destinadas ao labor do dia em praticar actos culposos; que haja blasfemado de Deus, derramado o sangue de seus irmãos, lançado a perturbação nas famílias, arruinado os que nele confiaram, abusado da inocência, que, enfim, se haja cevado em todas as ignomínias da Humanidade?

Que será desse?
Bastar-lhe-á dizer à última hora:
Senhor, empreguei mal o meu tempo;
toma-me até ao fim do dia, para que eu execute um pouco, embora bem pouco, da minha tarefa, e dá-me o salário do trabalhador de boa vontade?

Não, não; o Senhor lhe dirá:
“Não tenho presentemente trabalho para te dar; malbarataste o teu tempo;
esqueceste o que havias aprendido;
já não sabes trabalhar na minha vinha.

Recomeça, portanto, a aprender e, quando te achares mais bem disposto, vem ter comigo e eu te franquearei o meu vasto campo, onde poderás trabalhar a qualquer hora do dia.”

Agora não se trata mais da indolência do servo que despreza o trabalho, mas da acção destrutiva daquele que, ao invés de ajudar, atrapalha a obra divina.
A extensão dos comentários de Constantino para esse tópico é particularmente relevante para nós, Espíritos ligados à Terra.

A observação dos fatos confirma a classificação de Kardec na seção “Destinação da Terra
Causas das misérias humanas”, do capítulo 3 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, da Terra como planeta especialmente destinado ao abrigo de Espíritos desajustados com as leis divinas.

Como reafirmaria depois Emmanuel, “todas as entidades espirituais encarnadas no orbe terrestre são Espíritos que se resgatam ou aprendem nas experiências humanas, após as quedas do passado, com excepção de Jesus-Cristo...” (O Consolador, questão 243).

Também sabemos, à luz dos ensinos cristãos e espíritas, que nossa interferência indébita na harmonia universal traz para nós consequências negativas, sofrimentos e tribulações que visam a impor limites à nossa acção maléfica, despertando-nos para o bem.

Não desenvolveremos esse tema aqui, por sobejamente explorado na boa literatura espírita.
Centremos nossa atenção nas singulares palavras de Constantino.

Como entender a reacção atribuída ao Senhor, diante do servo mau: “Não tenho presentemente trabalho para te dar...”?
Tolher-nos-ia Deus a oportunidade do trabalho depois que falimos?

Sabemos, por outro lado, que é somente pelo trabalho no bem que repararemos nossos erros, apagando suas repercussões.
( Ver o “Código penal da vida futura”, no capítulo 7 da primeira parte de O Céu e o Inferno. )

Inspeccionando mais atentamente o texto, vemos que o Senhor não impede para sempre o servo “cevado em todas as ignomínias” de trabalhar em sua vinha.
Depois que reaprender a trabalhar construtivamente, ser-lhe-á novamente franqueado o vasto campo de acção na vinha.

Mas por que esse impedimento temporário?
É que a prática do mal pode de tal forma destrambelhar-nos que, por algum tempo, naturais limitações nos advirão.
Seria como um motorista insensato, que provoca um acidente e vai hospitalizado.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 07, 2013 10:02 pm

Enquanto permanecer internado, não poderá desenvolver todas as actividades para as quais estaria em princípio capacitado. É um período de recomposição.

Do mesmo modo, aos nossos desatinos espirituais sobrevém um estágio de reequilíbrio, de aprendizado pela dor, de reflexão.
Se, porém, esse estágio no “hospital” divino nos limita em alguns aspectos – as idiotias, as paralisias, as enfermidades degenerativas incuráveis, a miséria extrema, etc.,– sempre resta-nos a possibilidade de agir no bem pela paciência e resignação, pelos esforços para corrigir-nos, pela gratidão a quem nos auxilie, pelo sorriso de esperança, e por tantas outras formas.

6. Seriam os espíritas os trabalhadores da última hora?

Concluindo este nosso estudo, vejamos agora o último parágrafo do texto de Constantino.
Com base nele, bem como numa passagem da Instrução que o segue, de Henri Heine, difundiu-se no meio espírita a ideia de que “os espíritas são os trabalhadores da última hora”.

Não é raro vermos esse pensamento exposto até mesmo com uma certa ponta de orgulho.
Afinal, na parábola os trabalhadores da undécima hora são aqueles que mais se beneficiaram da magnanimidade do senhor. Estaríamos todos, então, admitidos à vinha, com salário integral e tudo.

Será isso o que os Espíritos escreveram, ou deram a entender?
Examinaremos aqui apenas o que diz Constantino, pois a mensagem de Heine parte de uma perspectiva diferente e requereria outro artigo.

Eis o parágrafo:
[§ 4] Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última hora.
Bem orgulhoso seria aquele que dissesse:
Comecei o trabalho ao alvorecer do dia e só o terminarei ao anoitecer.

Todos viestes quando fostes chamados, um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, para a encarnação cujos grilhões arrastais; mas há quantos séculos e séculos o Senhor vos chamava para a sua vinha, sem que quisésseis penetrar nela!

Eis-vos no momento de embolsar o salário; empregai bem a hora que vos resta e não esqueçais nunca que a vossa existência, por longa que vos pareça, mais não é do que um instante fugitivo na imensidade dos tempos que formam para vós a eternidade.

A leitura atenta deste trecho não parece corroborar a referida interpretação.
Primeiro, a frase inicial qualifica os espíritas: “Bons espíritas...”.

O adjectivo ‘bons’ em geral passa despercebido!
Logo, a frase não diz respeito aos espíritas em geral, mas aos bons espíritas.

E todos conhecemos a impressionante lista de qualidades dos bons espíritas, que Kardec registrou no capítulo 17 do Evangelho Segundo o Espiritismo, seções “O homem de bem” e “Os bons espíritas”.

Além disso, a frase não tem o artigo definido ‘os’ antes de ‘obreiros da última hora’, como normalmente se diz.
A inclusão do artigo emprestaria ao pensamento um ar de sectarismo e orgulho incompatível com a índole da doutrina espírita.

Os bons espíritas não são os obreiros da última hora, com a implícita exclusão dos outros homens, mas simplesmente obreiros da última hora.
Eles são aqueles que passaram, numa “hora” relativamente recente da história da humanidade, a trabalhar, ao lado de tantos outros, na vinha do Senhor.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 07, 2013 10:03 pm

E mais: nem mesmo entendida correctamente a comparação de Constantino serviria de fundamento a qualquer sentimento ufanista no meio espírita.

Afinal, os trabalhadores da última hora não tiveram nenhum mérito relativamente aos da primeira hora.
Simplesmente são aqueles para quem, por uma razão ou por outra, a tarefa chegou um pouco mais tarde.

Prosseguindo, o Espírito modifica um pouco a alegoria, ao salientar que mesmo estes em geral ignoraram durante séculos os apelos do Senhor para o trabalho na vinha!

A rigor, então, os bons espíritas não deveriam se orgulhar nem mesmo de terem sempre estado aguardando ansiosamente o chamado para a obra divina.
Estão, via de regra, na condição geral da humanidade terrena, de Espíritos que fizeram mau uso de seu livre-arbítrio em passado próximo ou distante.

No entanto, o que os caracteriza – sem a exclusão de outros, repetimos – é que agora já superaram aquele período de “hospitalização”, e reaprenderam a trabalhar no bem.

Esse o seu maior salário: a bênção de já poderem trabalhar na construção de sua felicidade, mediante o amor activo ao próximo e a si mesmos.

Que dizer agora dos espíritas que ainda não podem ser ditos bons?
Esses são os que, não obstante terem as luzes dos princípios espíritas ao seu alcance, ainda resistem indolentemente a trabalhar, ou a trabalhar tanto quanto sua condição permitiria;
ou aqueles, em condição mais lastimável ainda, que ainda se “cevam nas ignomínias” morais, sem envidar esforços para emendar-se.

É claro que essa classificação não é nítida, ou seja, não há apenas dois grupos de espíritas.
Há uma gradação contínua, começando naqueles francamente retardatários e terminando nos que já entendem e vivenciam plenamente as directrizes divinas para os homens.

Caberá a nós determinar, pelo exame isento de nossos pensamentos e actos, nossa posição nessa escala, e incessantemente procurar galgar posições cada vez mais avançadas, pela reparação de nossos erros, pela superação de vícios e conquista de virtudes.

Referências bibliográficas

EMMANUEL. O Consolador. (Médium Francisco Cândido Xavier.) 8ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1940.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

–––. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro. 111ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
–––. O Céu e o Inferno. Trad. de Manuel Quintão. 28ª edição, Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 08, 2013 9:45 pm

.. Silvio & Clarice Seno Chibeni > Estudo sobre a mediunidade

Artigos

1. Introdução


A mediunidade desempenha papel essencial no estabelecimento da base experimental da ciência espírita e nas actividades dos centros espíritas.

Seu estudo sistemático e contínuo possibilita a correta compreensão tanto de sua natureza como de suas finalidades, habilitando-nos a dela obter seguros e produtivos resultados, com vistas ao nosso aperfeiçoamento intelectual e moral.

Esse estudo deve necessariamente estar centralizado no mais completo e profundo tratado que já se escreveu sobre a mediunidade: O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.

Os presentes apontamentos devem ser tidos unicamente como uma exposição incompleta de alguns tópicos importantes, destinada a facilitar posteriores contactos com essa obra fundamental e a vasta literatura subsidiária surgida desde sua publicação, em 1861.

No Vocabulário Espírita que forma o capítulo 32 desse livro Kardec dá como sinónimos os termos mediunidade e medianimidade, definindo-os com "a faculdade dos médiuns".

Quanto à palavra médium, Kardec explicita o seu significado em várias passagens de suas obras, como por exemplo nesse mesmo Vocabulário, onde se encontra esta definição sucinta:
MÉDIUM. ( do latim, médium, meio, intermediário ).
Pessoa que pode servir de intermediário entre os Espíritos e os homens.

Ao analisar os conceitos de médium e de mediunidade, faz notar que a palavra médium comporta duas acepções distintas, expressas com clareza neste trecho da Revue Spirite:

Acepção ampla:
Qualquer pessoa apta a receber ou a transmitir comunicações dos Espíritos é, por isso mesmo, médium, quaisquer que sejam o modo empregado e o grau de desenvolvimento da faculdade, desde a simples influência oculta até à produção dos mais insólitos fenómenos.

Acepção restrita:
Em seu uso ordinário, todavia, esse termo tem uma aplicação mais restrita, aplicando-se às pessoas dotadas de um poder mediador suficientemente grande, seja para a produção de efeitos físicos, seja para transmitir o pensamento dos Espíritos pela escrita ou pela palavra.

Quando analisamos um texto ou um discurso onde o termo médium aparece, é importante reconhecer em qual desses sentidos está sendo empregado, a fim de se evitarem mal-entendidos e discussões sem fundamento.

Assim, por exemplo, a afirmação feita no parágrafo 159 de O Livro dos Médiuns de que "todos [os homens] são quase médiuns" deverá ser entendida apenas na acepção ampla do termo, pois sabemos, pela questão 459 de O Livro dos Espíritos, que todos somos passíveis de receber a influência dos Espíritos, ainda que sob a forma subtil de intuição.

Incorreremos em grave equívoco se concluirmos daí que todos somos mais ou menos médiuns no sentido restrito e usual da palavra, ou seja, se julgarmos que todos podemos produzir manifestações ostensivas, tais como a psicofonia, a psicografia, os efeitos físicos etc.

2. A natureza da mediunidade

Limitando-nos daqui para frente à acepção restrita do termo «médium», que é a mais usual e relevante, estaremos, no que se vai seguir, entendendo a mediunidade como a aptidão especial que certas pessoas possuem para servir de meio de comunicação entre os Espíritos e os homens.

A questão que naturalmente surge neste ponto é a de se determinar qual é a natureza da faculdade mediúnica: quais as suas causas, por que surge somente em determinadas pessoas e em modalidades e graus diversos, se é passível de desenvolvimento forçado mediante alguma técnica etc.

Um aspecto central relativo à natureza da mediunidade acha-se exposto na resposta à questão que Kardec endereçou aos Espíritos no parágrafo 226 de O Livro dos Médiuns:
O desenvolvimento da mediunidade guarda proporção com o desenvolvimento moral dos médiuns?

"Não; a faculdade propriamente dita prende-se ao organismo; independe do moral.
O mesmo, porém, não se dá com o seu uso, que pode ser bom ou mau, conforme as qualidades do médium”.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 08, 2013 9:46 pm

Como observamos pela resposta dos Espíritos, a capacidade de servir de "ponte" entre o mundo espiritual e o mundo material está ligada a factores de ordem orgânica.
Esse ponto encontra-se exarado em vários lugares das obras de Kardec e de outros autores espíritas abalizados, passando, no entanto, despercebido à maioria das pessoas, mesmo espíritas.

Já em 1859 Kardec afirmava, em seu livro Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas que "essa faculdade depende de uma disposição orgânica especial, susceptível de desenvolvimento”.

Em O Livro dos Médiuns as referências nesse sentido são numerosas.
No parágrafo 94, por exemplo, que trata das manifestações físicas espontâneas, os Espíritos informam que a aptidão de ser médium de efeitos físicos "se acha ligada a uma disposição física”.

Bem mais adiante, ao estudar a formação dos médiuns (§ 209), Kardec retorna ao assunto:
Têm-se visto pessoas inteiramente incrédulas ficarem espantadas de escrever [mediunicamente] a seu mau grado, enquanto que crentes sinceros não o conseguem, o que prova que esta faculdade se prende a uma disposição orgânica.

Notemos que nesta última passagem há referência a mais um princípio importante: a mediunidade não depende das convicções filosóficas ou das crenças religiosas do médium.

Por fim, em resposta à questão 19 do parágrafo 223 desse mesmo livro os Espíritos esclarecem que "a mediunidade propriamente dita independe da inteligência bem como das qualidades morais" do médium. Portanto a mediunidade independe também do desenvolvimento intelectual do médium.

Resumindo o que vimos até aqui:
A mediunidade é a faculdade especial que certas pessoas possuem para servir de intermediárias entre os Espíritos e os homens.

Ela tem origem orgânica, e independe:
• da condição moral do médium;
• de suas crenças;
• de seu desenvolvimento intelectual.


No parágrafo 200 de O Livro dos Médiuns, Allan Kardec deixa claro que "não há senão um único meio de constatar [a existência da faculdade mediúnica em alguém]:
a experimentação. Ou seja, só poderemos saber que uma pessoa é médium observando que efectivamente é capaz de servir de intermediário aos Espíritos desencarnados.

Isso naturalmente remete à importante questão do desenvolvimento da mediunidade.
Por sua importância e pelas confusões e equívocos a que se tem prestado, merece ser abordada numa seção especial.

3. O desenvolvimento da mediunidade

Uma primeira observação a ser feita é que se a presença da faculdade mediúnica em uma pessoa independe de sua condição moral, intelectual e de crença, ninguém poderá tornar-se médium tão-somente pelo fato de moralizar-se, ou de estudar, ou de aderir às convicções espíritas.

É evidente que essas atitudes serão de imenso proveito para a criatura, pois a colocarão em condições de compreender e utilizar bem a faculdade mediúnica que porventura possua.

É significativo, a esse respeito, que Kardec tenha alertado já no terceiro parágrafo da Introdução de O Livro dos Médiuns que muito se enganaria aquele que "supusesse encontrar nesta obra uma receita universal e infalível para formar médiuns.

Lança mão, a seguir, de uma comparação muito clara e objectiva, que esclarece o assunto à saciedade:
Se bem que cada um traga em si o gérmen das qualidades necessárias para se tornar médium, tais qualidades existem em graus muito diferentes e o seu desenvolvimento depende de causas que a ninguém é dado conseguir se verifiquem à vontade.

As regras da poesia, da pintura e da música não fazem que se tornem poetas, pintores, ou músicos os que não têm o génio de algumas dessas artes.
Apenas guiam os que as cultivam no emprego de suas faculdades naturais.

O mesmo sucede com o nosso trabalho.
Seu objectivo consiste em indicar os meios de desenvolvimento da faculdade mediúnica, tanto quanto o permitam as disposições de cada um, e, sobretudo, dirigir-lhe o emprego de modo útil, quando ela exista.

O carácter espontâneo da faculdade mediúnica é ainda destacado no parágrafo 208 de O Livro dos Médiuns (o destaque é nosso):
Se os rudimentos da faculdade [mediúnica] não existem, nada fará que apareçam [...].
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 08, 2013 9:46 pm

No capítulo intitulado "Manifestações dos Espíritos" de Obras Póstumas (parágrafo 6, no 34) encontramos esta densa passagem (destaque nosso):
O desenvolvimento da faculdade mediúnica depende da natureza mais ou menos expansível do perispírito do médium e da maior ou menor facilidade da sua assimilação pelo dos Espíritos;
depende, portanto, do organismo e pode ser desenvolvida quando exista o princípio; não pode, porém, ser adquirida quando o princípio não exista.

E no parágrafo 198 de O Livro dos Médiuns, que trata da diversidade das faculdades mediúnicas, lemos ainda:
Em erro grave incorre quem queira forçar a todo custo o desenvolvimento de uma faculdade que não possua.

Deve a pessoa cultivar todas aquelas de que reconheça possuir o gérmen.
Procurar à força ter as outras é, antes de tudo, perder tempo, e, em segundo lugar, perder talvez, enfraquecer com certeza, as de que seja dotado.

Encerrando esse parágrafo, Kardec transcreve comunicação mediúnica de Sócrates sobre o desenvolvimento da mediunidade, que contém grave advertência:
Quando existe o princípio, o gérmen de uma faculdade, esta se manifesta sempre por sinais inequívocos.

Limitando-se à sua especialidade, pode o médium tornar-se excelente e obter grandes e belas coisas; ocupando-se de tudo, nada de bom obterá.
Notai, de passagem, que o desejo de ampliar indefinidamente o âmbito de suas faculdades é uma pretensão orgulhosa, que os Espíritos nunca deixam impune.

Os bons abandonam o presunçoso, que se torna então joguete dos mentirosos.
Infelizmente, não é raro verem-se médiuns que, não contentes com os dons que receberam, aspiram, por amor-próprio ou ambição, a possuir faculdades excepcionais, capazes de os tornarem notados.

Essa pretensão lhes tira a qualidade mais preciosa: a de médiuns seguros.

Apenas como exemplo de opinião de um outro autor, corroborativa da de Allan Kardec, vejamos como Emmanuel responde à questão 384 de seu livro O Consolador, questão essa que versa especificamente sobre o tema que estamos focalizando:
Dever-se-á provocar o desenvolvimento da mediunidade?

A mediunidade não deve ser fruto de precipitação nesse ou naquele sector da actividade doutrinária, porquanto, em tal assunto, toda a espontaneidade é indispensável, considerando-se que as tarefas mediúnicas são dirigidas pelos mentores do plano espiritual.

Logo em seguida, em resposta à questão 386, o conceituado Espírito reitera:
Ninguém deverá forçar o desenvolvimento dessa ou daquela faculdade, porque, nesse terreno, toda a espontaneidade é necessária;
observando-se, contudo, a floração mediúnica espontânea, nas expressões mais simples, deve-se aceitar o evento com as melhores disposições de trabalho e boa vontade [...].

Precisamos, portanto, estar vigilantes quanto à opinião, infelizmente tão comum no meio espírita, de que as pessoas que aparecem nas casas espíritas devem, cedo ou tarde, ser encaminhadas às chamadas "sessões de desenvolvimento mediúnico".

São dois os motivos mais frequentemente alegados para esse tipo de recomendação:
1. o empenho e dedicação com que alguém se interesse pelo Espiritismo, sugerindo, segundo julgam, que tem "todas as condições" para exercer a mediunidade;
2. os desequilíbrios variados de saúde ou de comportamento que apresente, notadamente quando venham desafiando a perícia dos médicos.

Ora, no primeiro caso dever-se-ia ponderar que as boas disposições da pessoa deverão ser aproveitadas antes de mais nada em seu aperfeiçoamento intelectual e moral, e, em se tratando de sua colaboração nas actividades do centro espírita, naquele sector ao qual mais se ajuste por sua formação profissional, seus interesses e disponibilidades, quais sejam a condução de estudos, a evangelização infanto-juvenil, a administração, a biblioteca, as visitas fraternas, a costura de enxovais, a faxina, a distribuição de alimentos, a acolhida aos novos frequentadores etc., ou os trabalhos mediúnicos, se os sinais de mediunidade se apresentarem de forma espontânea.

No segundo caso, que é o mais frequente, seria preciso compreender que o mero facto de alguém encontrar-se desequilibrado significa que não pode ser inserido no grupo mediúnico, sob o risco de comprometer o seu bom funcionamento.

A mediunidade em si é uma faculdade neutra, que não tem qualquer conexão com os desajustes físicos, mentais e espirituais da criatura.

Estes surgem por motivos específicos, e requerem o tratamento médico, psicológico ou espírita adequado ao caso.
Somente após seu retorno à normalidade é que a pessoa poderá participar, como médium, dos trabalhos mediúnicos, se a faculdade surgir espontaneamente.

O exercício da mediunidade não é recomendável na presença de determinadas enfermidades físicas, como por exemplo, nas doenças contagiosas, ou onde o equilíbrio orgânico esteja "por um fio" e a actividade mediúnica envolva situações que emocionem muito o médium.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 09, 2013 8:43 pm

No caso dos desequilíbrios mentais e espirituais, o exercício mediúnico não pode nunca ser iniciado, ou continuado.
Um médium nessas condições não poderá contribuir positivamente, além de gerar dificuldades para o grupo, facilitando mesmo a actuação de Espíritos interessados na instalação da desarmonia, dos melindres, das suspeitas, do enregelamento das relações entre os membros.

O desenvolvimento mediúnico a ser promovido nos centros espíritas não deve nunca ser entendido como o aprendizado de técnicas e métodos para fazer surgir a mediunidade, pois que não os há nem pode haver, mas exclusivamente como o aprimoramento e direccionamento útil e equilibrado das faculdades surgidas de forma natural, o que pressupõe o aperfeiçoamento integral do médium, por meio do estudo sério e de seus esforços incessantes para amoldar suas acções às directrizes evangélicas.

Ressaltemos, outrossim, que os núcleos espíritas não deverão iniciar qualquer trabalho mediúnico, quer de desenvolvimento (no sentido correto do termo), quer, menos ainda, de assistência aos Espíritos enfermos, se não estiverem seguros de que dispõem de colaboradores suficientemente preparados, por seus conhecimentos doutrinários, por seu equilíbrio psicológico e por sua conduta cristã, que disponham de tempo para encetar com regularidade tão delicada tarefa.

Resumindo o que foi visto nesta seção:
• A mediunidade é uma faculdade natural, que surge espontaneamente.
• Não se deve procurar desenvolvê-la enquanto não aflorar por si só.
• O desenvolvimento da mediunidade deve ser entendido unicamente como a sua educação, o seu aprimoramento, a sua disciplina, o seu direccionamento útil para o bem.

• A mediunidade não é a causa primária dos desequilíbrios orgânicos e psicológicos.
• O exercício da mediunidade não deve ser colocado como a culminação obrigatória das actividades do cooperador da casa espírita.


4. Os mecanismos da mediunidade

Na presente seção procuraremos reunir alguns informes sobre os mecanismos da faculdade mediúnica, ou seja, sobre como se dá o fenómeno mediúnico.

A fonte básica continuará sendo Allan Kardec. Iniciemos com este trecho, já parcialmente transcrito, do capítulo "Manifestações dos Espíritos" de Obras Póstumas (§ 6, no 34; o destaque é nosso):
O fluido perispirítico é o agente de todos os fenómenos espíritas, que só se podem produzir pela acção recíproca dos fluidos que emitem o médium e o Espírito.

O desenvolvimento da faculdade mediúnica depende da natureza mais ou menos expansível do perispírito do médium e da maior ou menor facilidade da sua assimilação pelo dos Espíritos.

Esmiuçando as informações aqui contidas, notamos:
1. O perispírito desempenha papel de capital importância no processo mediúnico.

2. Sendo o perispírito "o agente de todos os fenómenos espíritas", e estes só podendo produzir-se pela acção recíproca dos fluidos que emitem o médium e o Espírito, temos como regra sem excepções que, ocorrendo um fenómeno de comunicação com o mundo espiritual, necessariamente haverá a participação de um médium.

Em alguns casos, como em certas manifestações de efeitos físicos, não se nota a presença do médium, mas podemos estar certos de que haverá alguém, em algum lugar, servindo de médium, ainda mesmo que este não esteja consciente do papel que desempenha.

Também percebemos que serão vãos os esforços de certos pesquisadores que, desprezando a riquíssima contribuição do Espiritismo para o estudo daquilo que (impropriamente) denominam "paranormalidade", tentam detectar o Espírito unicamente por meio de aparelhos.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 09, 2013 8:46 pm

Se algum instrumento chegar a registrar um espírito, é porque houve a participação oculta de algum médium.
Neste caso, seria mais confiável analisar a manifestação directamente, sem o recurso indirecto de instrumentos, que sempre constituem fonte adicional de incertezas.

3. A presença da faculdade mediúnica em alguém liga-se à possibilidade de seu perispírito "expandir-se".
Veremos logo mais que essa "expansão" do corpo espiritual pode ser entendida como a sua parcial desvinculação do corpo físico.

4. A efectivação da comunicação exige, além da "expansão" do perispírito do médium, a assimilação deste com o perispírito do Espírito comunicante, ou seja, tem de haver sintonia entre ambos.

Esse facto importante, de que o médium em geral não é capaz de comunicar-se indiscriminadamente com todos os Espíritos, é exposto em Obras Póstumas imediatamente após o trecho que acabamos de transcrever (§ 6, no 35; os grifos são nossos):
As relações entre os Espíritos e os médiuns se estabelecem por meio dos respectivos perispíritos, dependendo a facilidade dessas relações do grau de afinidade existente entre os dois fluidos.

Alguns há que se combinam facilmente, enquanto outros se repelem, donde se segue que não basta ser médium para que uma pessoa se comunique indistintamente com todos os Espíritos.
Há médiuns que só com certos Espíritos podem comunicar-se ou com Espíritos de certas categorias, e outros que não o podem a não ser pela transmissão do pensamento, sem qualquer manifestação exterior.

No exame do assunto do item 3, podemos colher subsídios em André Luiz, o autor espiritual que tanto tem contribuído para a extensão de nosso conhecimento científico acerca da mediunidade.

Em sua obra Evolução em Dois Mundos, ao analisar a fase evolutiva em que se elaborava a faculdade de desprendimento do veículo perispiritual durante o sono (capítulo 17, item "Mediunidade espontânea"), adianta esta valiosa informação (grifamos):

Consolidadas semelhantes relações com o Plano Espiritual [...], começaram na Terra os movimentos de mediunidade espontânea, porquanto os encarnados que demonstrassem capacidades mediúnicas mais evidentes, pela comunhão menos estreita entre as células do corpo físico e do corpo espiritual, em certas regiões do campo somático, passaram das observações durante o sono às da vigília, a princípio fragmentárias, mas acentuáveis com o tempo [...].

Vemos, assim, que o respeitado cientista deixa entrever a correlação íntima entre a possibilidade de contacto com a realidade espiritual durante a vigília (mediunidade) e um certo "afrouxamento" das ligações entre as células do perispírito e as suas correspondentes do corpo material. Prosseguindo, André Luiz explicita mais essa correlação:
Quanto menos densos os elos de ligação entre os implementos físicos e espirituais, nos órgãos da visão, mais amplas as possibilidades na clarividência, prevalecendo as mesmas normas para a clariaudiência e modalidades outras, no intercâmbio entre as duas esferas [...].

Reflectindo um pouco sobre as assertivas de André Luiz, verificamos, inicialmente, que não conflituam com a explicação dada por Kardec, em termos da capacidade de expansão do perispírito do médium.

Há, pelo contrário, até um reforço, já que a noção de "expansão" é aqui suficientemente abrangente e flexível para permitir ulteriores elaborações e detalhamentos, dentro da natureza eminentemente progressiva do Espiritismo.

Podemos compreender, deste modo, a "expansibilidade" do perispírito como a sua faculdade de desvinculação parcial e temporária do corpo físico, passando, nesse estado especial, a partilhar da realidade do mundo espiritual para nela colher impressões diversas, sem no entanto perder a possibilidade de actuação sobre o corpo denso.

É fundamental deixar claro que o que acabamos de expor não corrobora de modo algum a ideia popular de que no processo mediúnico o Espírito do médium "sai" e "dá lugar" ao Espírito comunicante, que passaria então a servir-se directamente do corpo do médium.

Os Instrutores Espirituais já esclareceram a Kardec, no importante capítulo "Do papel do médium nas comunicações espíritas" de O Livro dos Médiuns que essa ideia não corresponde à realidade.
A mensagem sempre passa pelo Espírito do médium, mesmo quando ele não guarda disso a consciência ao despertar do transe.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 09, 2013 8:46 pm

Vejamos o que dizem no item sexto do parágrafo 223:
O Espírito que se comunica por um médium transmite directamente o seu pensamento, ou este tem por intermediário o Espírito do médium?

"É o Espírito do médium que é o intérprete, porque está ligado ao corpo que serve para falar e por ser necessária uma cadeia entre vós e os Espíritos que se comunicam, como é preciso um fio eléctrico para comunicar à grande distância uma notícia e, na extremidade do fio, uma pessoa inteligente que a receba e transmita”.

Compreendemos então que, em última instância, o comando do veículo físico só pode ser feito pelo seu próprio "dono".
Poderíamos dizer que o corpo material é feito "sob medida" para cada Espírito, e que não "serve" para nenhum outro.

O Espírito estranho não tem como agir directamente sobre as células materiais formadas sob a influência de outro Espírito e para o seu próprio uso.

É interessante notar que nas questões seguintes à transcrita os Espíritos frisam mesmo enfrentando uma oposição inicial de Kardec que essa é uma regra absoluta, sem excepções, nem mesmo na mediunidade dita "mecânica", ou ainda nos casos de efeitos físicos onde uma mensagem inteligente é transmitida (tiptologia, escrita por meio de pranchetas etc.).

Vemos, na questão 10 do referido parágrafo, que os Espíritos expressam indirectamente sua desaprovação a esse modo de denominar a mediunidade na qual o médium não guarda consciência do conteúdo da comunicação:
o médium jamais atua como máquina, mecanicamente.

Resumindo o conteúdo desta secção:
• O perispírito desempenha papel essencial em todos os processos mediúnicos.
• A faculdade mediúnica liga-se à possibilidade de o perispírito desvincular-se parcialmente do corpo físico durante a vigília.
• A comunicação não se efectiva sem que haja sintonia entre os perispíritos do médium e do Espírito.
• A comunicação espiritual, ainda que de efeitos físicos, sempre passa pelo Espírito do médium.


5. As modalidades mediúnicas

Um aspecto importante dos esclarecimentos de André Luiz é que permitem compreender não somente como se dá o fenómeno mediúnico, mas também o porquê da existência de diferentes modalidades de mediunidade.

Observamos, pelos trechos citados, que a faculdade mediúnica será deste ou daquele tipo conforme a região do organismo em que as células do perispírito apresentem maiores possibilidades de desvinculação das que lhe correspondem no corpo físico.

Desse modo, segundo o exemplo dado, se for nos órgãos da visão que ocorre a maior liberdade das células do perispírito, a mediunidade assumirá a forma de vidência;
se nos órgãos da audição, a de audiência; se nos da fala, a de psicofonia, e assim por diante.

Devemos notar, no entanto, que os órgãos a que se refere André Luiz são, conforme se depreende de outras passagens de sua obra, não tanto os órgãos periféricos olhos, ouvidos, mãos etc., mas fundamentalmente as regiões do cérebro responsáveis por seu comando.

De facto, a ciência mostrou que há no cérebro grupos de neurónios (células nervosas) mais ou menos especializados para as diversas faculdades sensoriais e motoras.
No caso da visão, por exemplo, tais neurónios recebem, através do nervo óptico, os impulsos eléctricos gerados na retina do olho, sinais esses que a alma interpreta como imagens.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 10, 2013 9:09 pm

O mesmo se dá, mutatis mutandis, com os demais sentidos.
No caso das funções motoras, ao comando da alma determinados centros cerebrais enviam, através dos diferentes nervos, impulsos eléctricos aos músculos, resultando daí os movimentos corporais.

Kardec dividiu os médiuns em duas grandes categorias: os de efeitos físicos e os de efeitos intelectuais.
Os primeiros são "aqueles que têm o poder de provocar efeitos materiais, ou manifestações ostensivas"; os segundos, "os que são mais especialmente próprios a receber e a transmitir comunicações inteligentes" (O Livro dos Médiuns, parágrafo 187).

Para fins didácticos, é conveniente subdividir a categoria de efeitos inteligentes em dois grupos: efeitos sensoriais (percepção da realidade espiritual na forma de uma impressão dos sentidos) e efeitos intelectuais propriamente ditos (transmissão de uma mensagem inteligente pela palavra escrita, oral, por gestos etc.).

Apresentaremos agora um quadro sinóptico com os principais tipos de fenómenos mediúnicos, associados às diversas modalidades mediúnicas.
Trata-se de uma adaptação do que foi elaborado por Jayme Cerviño em seu livro Além do Inconsciente, reunindo apenas as modalidades mais importantes.

Nesse interessante e original livro, o autor infere, a partir de estudos clássicos da psicologia experimental e da neurofisiologia, bem como de investigações sobre os fenómenos espíritas, quais regiões do encéfalo estariam associadas às diferentes categorias de fenómenos espíritas.

EFEITOS INTELECTUAIS
( mediunidade de expressão cortical )

Efeitos estritamente intelectuais
( córtex frontal )

intuição
psicografia
psicofonia
psicopraxia
Efeitos sensoriais
(córtex extrafrontal)
vidência
audiência
sensitividade

EFEITOS FÍSICOS
( mediunidade de expressão subcortical )

Telergia
sons
luzes
odores
movimentos
curas
Teleplastia
materializações
Somatização
transfiguração
estigmatização
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 10, 2013 9:09 pm

6. O exercício da mediunidade

Na secção 2 deste trabalho vimos que se deve fazer uma distinção clara entre a mediunidade, enquanto faculdade, e o seu uso ou exercício.

Se a faculdade em si é neutra, o mesmo não vale para o seu uso, que pode ser bom ou mau, dependendo da condição moral do médium.

Na Introdução de O Livro dos Médiuns Kardec destaca entre os objectivos da obra a orientação para que a mediunidade seja empregada de modo útil.

Um requisito essencial para isso é a compreensão de sua natureza e mecanismos, no que o Espiritismo tem contribuído de forma decisiva.
Respeitando a liberdade humana, ele não poderia prescrever normas de conduta para os médiuns de maneira cega, impositiva, sem um esclarecimento racional da sua necessidade.

É fácil constatar a justeza da afirmação de Kardec, nessa mesma Introdução, de que "as dificuldades e os desenganos com que muitos topam na prática do Espiritismo se originam na ignorância dos princípios desta ciência".

A preocupação com a compreensão e o exercício correctos da mediunidade vem sendo partilhada pelos espíritas sérios, que se conscientizaram da necessidade do crescimento espiritual do médium para que sua faculdade seja bem empregada.

Muitos dos grandes autores espíritas dos dois planos da vida nos têm legado estudos e lições preciosas sobre a mediunidade e seu objectivo.
Procuraremos, no que se vai seguir, compilar alguns desses ensinamentos.

Comecemos, no entanto, com O Livro dos Médiuns, em cujo parágrafo 226 Kardec pergunta aos Espíritos (no 3):
Os médiuns que fazem mau uso de suas faculdades, que não se servem delas para o bem, ou que não as aproveitam para se instruírem, sofrerão as consequências dessa falta?

"Se delas fizerem mau uso, serão punidos duplamente, porque têm um meio a mais de se esclarecerem e não o aproveitam.
Aquele que vê claro e tropeça é mais censurável do que o cego que cai no fosso."

A questão da responsabilidade moral do uso da mediunidade é semelhante à das demais faculdades do homem.
Aquele que emprega mal a inteligência, a palavra, os dotes artísticos ou a força física arcará com as consequências desse emprego, devendo expiar e reparar as faltas cometidas.

No caso da mediunidade há um agravante, conforme se salienta na resposta dada, pois ela é poderoso recurso iluminativo.

É por meio da mediunidade que nos certificamos de nossa natureza imortal, facto de suma importância, em torno do qual gira todo o Espiritismo e sua doutrina moral.

É ela que nos desvenda a vida futura, possibilitando-nos conhecer de modo abrangente os efeitos de nossas acções.
Ajuizaremos então com mais acerto sobre o que nos convém ou não fazer, com vistas à nossa felicidade integral.

Para nós, os encarnados, a mediunidade constitui advertência contra o equívoco de tudo considerarmos do ponto de vista de nossos interesses materiais e imediatos, incentivando-nos a lutar contra o egoísmo, o embrutecimento dos prazeres, a estagnação do conhecimento.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 10, 2013 9:09 pm

Para os desencarnados sofredores, revoltados ou aturdidos, representa muitas vezes a via preferencial de despertamento, possibilitando-lhes retomar o progresso espiritual.

A maioria das instituições espíritas em nosso país hoje em dia centraliza sua actuação mediúnica precisamente nessa tarefa, tão louvável pelos benefícios que espalha, mas também tão delicada em sua condução, exigindo muito preparo da equipe, quer no que concerne ao conhecimento doutrinário e à disciplina, quer quanto ao espírito fraterno e à devoção incondicional ao bem do próximo.

A esse respeito adverte Emmanuel no capítulo "Examinando a mediunidade" do livro Encontro Marcado:
O exercício da mediunidade nas tarefas espíritas exige larga disciplina mental, moral e física, assim como grande equilíbrio das emoções.

Na obra Educação e Vivência, lição "Mediunidade e problemas", o Espírito Camilo tece as seguintes considerações, ainda dentro desse tópico:
Tristemente, porém, muitas dessas criaturas que se sabem ou se imaginam médiuns não são bafejadas pelos recursos de amadurecido estudo, a fim de que compreendam o que é que se passa nesse vasto território dos fenómenos psíquicos.

Seria de esperar que os indivíduos que se embrenham pelos bosques das percepções mediúnicas fossem caindo em si, aprendendo que todos terão que dar conta desses talentos formidáveis que lhes são concedidos, nas experiências terrenas, na condição de empréstimo, proporcionando liberdade e ventura íntimas, logrando evadir-se dos tormentosos episódios do pretérito culposo ou negligente.

E em Cintilação das Estrelas (capítulo 32) esse lúcido Espírito prossegue no assunto:

Em mediunidade é importante que o médium se aplique em melhorar-se a si próprio, ampliando as percepções, iluminando-se a cada hora, nas lutas que deve enfrentar, na pauta do quotidiano.

O desenvolvimento da mediunidade marcha ladeando o desenvolvimento do médium.
Quanto melhor o indivíduo, maior a sua fulgência mediúnica no bem.

Aprimore-se o homem para que se lhe ampliem as posições de sensibilidade mediúnica.

Têm-se infelizmente observado muitos agrupamentos mediúnicos descuidados quanto às superiores finalidades da mediunidade, bem como quanto às directrizes doutrinárias que devem guiar sua prática.

Não raro desenvolvem suas actividades de forma ritualística, tratando os médiuns como simples máquinas de comunicação.

No momento do intercâmbio, os trabalhadores assumem posturas formais, como que denotando concentração e devoção ao bem, mas que nem sempre se fazem acompanhar das atitudes íntimas correspondentes.

Manoel Philomeno de Miranda comentou esse tópico no capítulo intitulado "Mediunidade e viciação", do livro Sementeira da Fraternidade (p. 123):
O médium é filtro por cuja mente transitam as notícias da vida além-da-vida.

Nesse sentido, consideramos a concentração mental de modo diverso dos que a comparam a interruptor de fácil manejo que, accionado, oferece passagem à energia comunicante, sem mais cuidados...

A concentração, por isso mesmo, deve ser um estado habitual da mente em Cristo, e não uma situação passageira junto ao Cristo.

Já analisamos na seção 3ª, a situação na qual o aparecimento da faculdade mediúnica se dá juntamente com desequilíbrios físico-espirituais variados, destacando o erro dos que consideram tais distúrbios como uma consequência da mediunidade em si.

Em Educação e Vivência (p. 111), Camilo enfoca outro ângulo dessa questão:
A decantada "mediunidade de provas" não passa de episódio no qual alguém em provas e sérias expiações recebeu da Divina Misericórdia as excelências da sensibilidade mediúnica, através de cujas portas será chamado ou convocado à assunção de responsabilidades, bem como ao cumprimento dos deveres para com Deus, através do próximo.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 11, 2013 9:48 pm

Dessa forma a mediunidade, mesmo quando se apresente assinalada por impertinentes padecimentos dos médiuns, representa para eles a mão da Celeste Providência evitando dores maiores e tormentos mais acerbos.

A origem do nosso sofrimento, da nossa aflição, não reside na mediunidade, mas a bagagem de desacertos que ainda trazemos, acumulada nesta e em vidas pregressas.

É por isso que nossos recursos mediúnicos, neutros em si mesmos, amiúde ainda se ligam aos mundos de sombra.
Mal empregada, a mediunidade significará o cultivo da ignorância, a disseminação da dúvida e da mentira, o insuflamento do egoísmo e do orgulho, da vaidade e do personalismo, o verbo e o texto degradantes, a manipulação de forças mentais deletérias, a porta aberta às obsessões.

No capítulo 39 do livro Sementeira da Fraternidade, Vianna de Carvalho descreve a mediunidade como "canal cósmico por onde transitam seguras as consolações e esperanças para o atribulado espírito humano" (p. 179), destacando outro aspecto da mediunidade: o consolo que prodigaliza ao homem em sua vida de incertezas e de dores.

Que de mais belo existe do que saber que o abismo que se imagina existir entre nós e os entes queridos que já partiram não é intransponível; que os sofrimentos que não conseguimos evitar têm causas justas ligadas ao nosso passado!...

Dádiva com que a misericórdia divina nos favorece, informando-nos de nossa natureza de seres imortais, a mediunidade bem empregada reveste as formas de esclarecimento acerca da vida além-túmulo, de consolo para os que perderam a esperança, de advertência salvadora para os equivocados, de amparo para os que cambaleiam, de recursos terapêuticos para os que enfermaram, de despertamento para os sofredores e os trânsfugas do dever que já cruzaram a aduana da morte.

Daí a necessidade de desenvolvermos esse abençoado talento, nos trabalhos da caridade, nos exercícios constantes de benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos outros, de perdão das ofensas, conforme a questão 886 de O Livro dos Espíritos.

Reconheçamos, acima de tudo, que mais importante do que sermos bons médiuns, no que toca à faculdade, é sermos médiuns bons, a serviço de Jesus.

Referências bibliográficas

ANDRÉ LUIZ. Nos Domínios da Mediunidade. (Médium Francisco Cândido Xavier.) 13ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1955.
Evolução em Dois Mundos. (Médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.) 1ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1959.

CAMILO. Cintilação das Estrelas. (Médium José Raul Teixeira.) Niterói, Fráter, 1992.
Educação e Vivência. (Médium José Raul Teixeira.) Niterói, Fráter, 1993.

CERVIÑO, J. Além do Inconsciente. 2ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1968.

CHIBENI, S. S. "Espiritismo e ciência", Reformador, maio de 1984, pp. 144-47 e 157-59.
"A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de 1988, pp. 328-333, e dezembro de 1988, pp. 373-378.
"O paradigma espírita", Reformador, junho de 1994, pp. 176-80.

EMMANUEL. O Consolador. (Médium Francisco Cândido Xavier.) 8ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1940. Encontro Marcado.
(Médium Francisco Cândido Xavier.) 6ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira.

JOANA DE ÂNGELIS. Estudos Espíritas. (Médium Divaldo P. Franco.) 2ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1982.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985).
Instruction Pratique sur les Manifestations Spirites. Paris, La Diffusion Scientifique, 1986. Le Livre des Médiuns. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1978).
O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro, 59ª ed., revista, Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d. L'Évangile selon le Spiritisme. (Reprodução fotográfica da 3ª edição francesa.) 1ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1979.
Oeuvres Posthumes. Paris, Dervy-Livres, 1978. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro, 18ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d. L'Obsession. (Extractos da Revue Spirite.) Farciennes, Éditions de L'Union Spirite, 1950.

PEREIRA, Y.A. Devassando o Invisível. 4ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1963.

PHILOMENO DE MIRANDA, Manoel. "Mediunidade e viciação", in: Sementeira da Fraternidade.
(Ditado por Espíritos diversos a Divaldo Pereira Franco.) 3ª ed., Salvador, Livraria Espírita Alvorada Editora, 1979. Capítulo 25, pp. 121-24.

VIANNA DE CARVALHO. "Hipnose e mediunidade", in: Sementeira da Fraternidade.
(Ditado por Espíritos diversos a Divaldo Pereira Franco.) 3ª ed., Salvador, Livraria Espírita Alvorada Editora, 1979. Capítulo 39, pp. 177-81.

( Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo, setembro de 1996, pp. 24749. )

§.§.§- O-canto-da-ave
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 11, 2013 9:48 pm

.. Silvio & Sílvia Seno Chibeni > A concepção espírita de fatalidade

Artigos

1. Introdução
{nota 1}

No capítulo "Da lei de liberdade" de O Livro dos Espíritos Allan Kardec analisou com lucidez diversas questões relativas à fatalidade, dedicando-lhes uma seção inteira.

Neste artigo pretendemos expor brevemente a concepção espírita de fatalidade, estabelecida naquela seção e em obras complementares.

Ao iniciar qualquer estudo, é sempre conveniente ter clareza quanto ao significado preciso dos termos envolvidos.
Consultando o dicionário, verificamos que fatalidade é a marca do que é fatal, a força que predispõe irrevogavelmente os acontecimentos, o destino.

Fatal é aquilo que é certo, prescrito pelo destino, irrevogável, que necessariamente acontecerá, inevitável, decisivo, inadiável, funesto, nefasto.

As duas últimas acepções do adjectivo fatal indicam algo de carácter negativo.
Na concepção vulgar, esse aspecto mistura-se às primeiras acepções, resultando daí a ideia de que a fatalidade é a ocorrência inevitável de alguma coisa ruim.

Essa associação da predeterminação com algo trágico, nefasto, porém, não é necessária.
Em um sentido geral, a noção de fatalidade é neutra quanto à natureza boa ou má dos acontecimentos.

Ao inspeccionarmos a seção sobre a fatalidade de O Livro dos Espíritos verificamos facilmente que é esta noção geral, neutra, que está sendo ali estudada;
é, portanto, a que nos interessará neste trabalho também.

Como o próprio termo indica, dizer que um fato está predeterminado é afirmar que sua ocorrência é determinada de maneira certa pelo estado de coisas que a antecede.

A noção de predeterminação pressupõe a existência de uma como que "amarração" entre os acontecimentos: uns levariam a outros infalivelmente.

Quando consideramos os acontecimentos do mundo de um modo geral, são concebíveis três possibilidades:
1) todos estariam predeterminados (determinismo);
2) nenhum estaria predeterminado (aleatoriedade);
e, 3) apenas alguns estariam predeterminados.

Conforme veremos, é esta última posição, intermediária entre os dois extremos, que é aceita pela ciência contemporânea e pelo Espiritismo.

Ao formular a pergunta 851 de O Livro dos Espíritos, que abre a seção sobre a fatalidade, Kardec esclarece que entende a fatalidade como a predeterminação completa dos acontecimentos.

Ao longo da seção, são expostos os motivos pelos quais não pode existir a fatalidade nesse sentido extremo, de uma predeterminação de tudo quanto ocorre.

São também indicadas as circunstâncias especiais em que pode haver um certo tipo de predeterminação dos acontecimentos.
A compreensão satisfatória desses pontos requer a análise de vários conceitos filosóficos, como o de determinismo, o de livre-arbítrio, o de causalidade etc.
É o que procuraremos fazer a seguir, de forma bastante simplificada.

2. Determinismo e livre-arbítrio
A tese filosófica do determinismo, discutida há milénios pelos filósofos, sustenta que tudo o que acontece está predeterminado, podendo em princípio ser previsto por quem possua conhecimento completo do mundo em um dado instante.

O Universo seria comparável a uma imensa máquina em funcionamento automático e infalível.

No exame das questões relativas ao determinismo é de suma importância, quer do ponto de vista filosófico, quer espírita, distinguir os acontecimentos do âmbito exclusivo da matéria daqueles que envolvem seres de natureza espiritual.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 11, 2013 9:49 pm

Muitos filósofos e cientistas de épocas passadas sustentaram que a matéria comporta-se de forma completamente determinista.
Com a criação da ciência moderna, nos séculos XVI e XVII, essa posição ganhou força, visto que as novas teorias mecânicas, que culminaram na monumental síntese newtoniana, incorporam o determinismo em suas equações fundamentais.

Com o ulterior desenvolvimento da ciência a crença no determinismo enraizou-se.
No final do século XIX e início do século actual, a formulação do electromagnetismo, da mecânica estatística e das teorias da relatividade dentro desse mesmo referencial conceitual foi frequentemente interpretada como sua consolidação definitiva.

No entanto, essa visão de mundo suscitou dificuldades filosóficas de grande monta, quanto à sua compatibilização com o livre-arbítrio humano.

Com efeito, a experiência psicológica da liberdade de nossos pensamentos e acções é algo indubitável.
Mas essa experiência parece conflituar com o determinismo da matéria, qualquer que seja a concepção acerca da natureza humana.

É interessante notar que, com seu senso filosófico apurado, Allan Kardec abre a referida seção sobre a fatalidade precisamente com uma questão sobre o conflito entre fatalidade plena e livre-arbítrio.

Na perspectiva materialista, tudo no homem seria matéria.
Ele estaria, pois, sujeito ao mesmo determinismo que existe no movimento dos astros, na queda de uma pedra, no movimento de um relógio.

Como conciliar isso com o facto de sentirmos, com toda a clareza de que é capaz o nosso entendimento, que levantamos ou abaixamos o braço, andamos para a esquerda ou a direita, dizemos isso ou aquilo, com inteira liberdade?

Dificuldade semelhante surge na visão dualista, segundo a qual o homem é um espírito ligado a um corpo.
Se o corpo, que é matéria, tiver seus mínimos movimentos predeterminados, como poderá o espírito actuar livremente sobre ele, fazendo-o executar essa ou aquela acção?

Os esforços dos filósofos para solucionar o problema não alcançaram qualquer êxito.
Felizmente, porém, ele tornou-se amplamente irrelevante com o advento da mecânica quântica, na década de 1920.

Essa teoria descreve a estrutura íntima da matéria, e representa a mais abrangente, precisa e bem sucedida teoria científica de todos os tempos.
Pois bem: ao contrário das demais teorias físicas, a mecânica quântica não prevê um comportamento totalmente determinista para a matéria.

Além disso, sofisticados estudos teóricos e experimentais recentes indicaram que qualquer tentativa de reinstalar teorias deterministas na microfísica encontrará necessariamente dificuldades proibitivas.

Tais avanços da ciência parecem haver renovado o referencial conceitual no qual o problema do livre-arbítrio humano deve ser analisado.
As perspectivas de se conceber o ser humano como um espírito livre que atua sobre um corpo material desbloquearam-se.

Deve-se todavia notar que ainda quase nada foi feito nesse sentido nos círculos académicos.{nota 2}
O Espiritismo, porém, há muito tempo estabeleceu essa concepção, por meio de suas investigações científicas dos fenómenos espíritas.

Confirmou a visão dualista que situa o pensamento, a vontade e o sentimento do homem num espírito independente da matéria.

Mostrou também que esse espírito antecede e sobrevive ao corpo.
De acordo com os últimos avanços da ciência, o comando do corpo pelo espírito é perfeitamente compatível com as leis que regulam o comportamento da matéria, já que estas contemplam a existência de processos indeterministas no nível dos constituintes fundamentais dos corpos, como prótons, neutrões, eléctrons etc.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 15, 2013 9:17 pm

3. Fatalidade e relação de causa e efeito
Estudemos um pouco mais a questão da predeterminação dos acontecimentos do domínio exclusivo da matéria.

Segundo a ciência contemporânea, muitos desses acontecimentos de fato são predeterminados.
Os movimentos dos orbes celestes, a queda de uma maçã, a propagação de uma onda de rádio constituem exemplos típicos.

Especificada a altura da qual a maçã cai, sua forma, a viscosidade do ar, a força gravitacional que sobre ela exerce a Terra etc., as leis da mecânica permitem em princípio o cálculo do tempo de queda e a velocidade que terá ao atingir o solo, entre outras coisas.

Se quisermos, podemos caracterizar esses eventos previstos como efeitos, e a força gravitacional e as condições iniciais da maçã como causas.
Dadas as causas, seguem-se os efeitos de modo certo. Isso faz ver que a fatalidade parcial que existe no mundo material está ligada à existência de certas relações causais.

Conforme apontamos na seção anterior, a física contemporânea reconhece que, mesmo no âmbito puramente material, há processos indeterministas, que não seguem esse padrão de previsibilidade estrita.

Nesses casos, as noções de causa e efeito continuam aplicáveis, embora em sentido ampliado:
as causas não determinam os efeitos individualmente, mas apenas as probabilidades de sua ocorrência.

Ao considerarmos os eventos em que participam seres humanos, factores novos intervêm, devido à presença do elemento espiritual dotado de livre-arbítrio.

Esses eventos em geral também não são passíveis de uma descrição determinista.

Todavia, enquanto encarnados estamos em associação estreita com a matéria, sendo possível que o encadeamento estrito de alguns eventos materiais nos afecte de modo directo ou indirecto.

Por exemplo, vários processos físicos, químicos e biológicos do corpo humano são, em boa aproximação, deterministas.

A passagem de uma corrente eléctrica intensa através do corpo provoca choques;
a ingestão de determinada porção de uma substância venenosa causa a morte;
doses apropriadas de radiação gama destroem tumores, enquanto que doses muito elevadas os ocasionam;
a transpiração resfria a pele;
e assim por diante.

Desse modo, na medida em que participamos do mundo material há certos acontecimentos que se podem dizer predeterminados em nossas vidas.

O que os predetermina, porém, são leis físicas, químicas, biológicas, na presença de certas causas.

É indispensável observar que muitas dessas causas decorrem, a seu turno, de acções que livremente praticamos.

No caso da ingestão do veneno, por exemplo, pode-se dizer que a pessoa fatalmente morrerá.
A predeterminação da morte, todavia, é condicionada à prévia ingestão da substância tóxica, o que em geral depende da livre decisão de alguém.

A morte não está predeterminada em termos absolutos:
se o veneno não for ingerido, ou se for administrado um antídoto eficaz, ela não advirá.
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A Ciência confirma o Espiritismo? - Página 6 Empty Re: A Ciência confirma o Espiritismo?

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 15, 2013 9:17 pm

Tudo isso é do escopo das ciências académicas.
O Espiritismo complementa-as de forma substancial, fornecendo o conhecimento de inúmeros e importantes outros vínculos causais entre os acontecimentos.

Por sua própria concepção, tais ciências restringem sua análise ao aspecto material do ser humano.
Não podem, assim, acompanhar os efeitos das acções humanas além da morte corporal, nem identificar causas e efeitos de natureza espiritual, presentes, por exemplo, em fenómenos mediúnicos, obsessivos e anímicos.

Foi a ciência espírita que, pioneiramente, adentrou esse estudo utilizando-se de metodologia racional-experimental.{nota 3}

É nesse sentido que muitos autores espíritas costumam referir-se à chamada lei de causa e efeito, ou de acção e reacção, que regula as ocorrências da vida, em um sentido amplo, englobando os eventos referentes ao ser espiritual.

A lei de causalidade restrita ao domínio da matéria, que as ciências ordinárias estudam, pode ser entendida como caso especial dessa lei mais ampla.

4. Livre-arbítrio e relação de causa e efeito

Cada evento tem uma causa, em geral bastante complexa, envolvendo múltiplos eventos anteriores, próximos ou remotos no espaço e no tempo.

Todos esses factores têm de estar presentes para que o acontecimento se verifique.
Voltando ao exemplo da maçã, para ela cair em tantos segundos e com tal velocidade uma série de condições têm de ser satisfeitas: força de atracção, desprendimento da macieira, ar com uma certa viscosidade etc.

É o conjunto dessas condições que, mais apropriadamente, se deve entender como a causa da queda, embora nas situações ordinárias se fixe a atenção em apenas algumas delas, por conveniência ou dificuldade de conhecê-las todas.

A pergunta "Por que a maçã caiu desse modo?" pede a especificação de uma causa.

Dependendo do interesse, a resposta enfocará um determinado componente da causa total:
um dirá que foi porque a Terra a atraiu;
outro, que foi porque se soltou do galho;
outro ainda porque ventou forte, todos podendo estar certos.

Os acontecimentos de que directamente participamos são passíveis de análise semelhante, ou seja, podemos investigar suas causas gerais ou particulares.

Meu dedo se queimou porque o encostei numa uma panela quente; meu ritmo cardíaco aumentou agora porque acabo de correr; fiquei sonolento esta tarde porque me alimentei excessivamente no almoço.

Nessas respostas, apenas os factores mais salientes das causas foram apontados.
As causas são, nesses casos, mais ou menos próximas no tempo, e dependem de escolhas que livremente fizemos: pegar a panela sem luvas, correr ao invés de andar, comer demais.

O Espiritismo mostra-nos que se as causas dos acontecimentos mais importantes de nossas vidas, felizes ou dolorosos, não puderem ser localizadas na vida presente, certamente existirão em passado anterior ao nosso renascimento.

Os efeitos de nossos actos, conformes ou contrários à lei que vela pela harmonia do Universo, podem ser imediatos ou ocorrer em futuro mais ou menos distante.
É isso, incidentalmente, que possibilita entender muitas das disparidades nas condições físicas, sociais etc., dos seres humanos dentro do quadro da justiça divina.

Cada pessoa encontra-se num contexto parcialmente determinado pelo conjunto de suas acções desta vida, das vidas anteriores e dos períodos na erraticidade, sempre levadas em conta suas necessidades expiatórias, provacionais e de aprendizado de um modo geral.

A possibilidade de interferirmos no curso dos acontecimentos, agravando ou atenuando os efeitos ruins, promovendo ou embaraçando os efeitos bons, encontra-se claramente expressa na questão 860 de O Livro dos Espíritos, que agora transcrevemos em parte:{nota 4}
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 15, 2013 9:17 pm

Pode o homem, pela sua vontade e por seus actos, fazer que se não dêem acontecimentos que deveriam verificar-se e reciprocamente?
"Pode-o, se essa aparente mudança na ordem dos acontecimentos tiver cabimento na sequência da vida que ele escolheu. [...]"

Todas as nossas acções, por insignificantes que sejam, fazem-se acompanhar de certos efeitos, que se vão superpondo uns aos outros.

Em cada momento, vivemos em meio a esse conjunto de efeitos.
A importância prática de adquirirmos conhecimento acerca das leis que regem a matéria e o espírito reside em que, sabendo melhor quais serão os efeitos daquilo que fizermos, poderemos agir de modo a criar situações que nos aproximem da felicidade. Somos, por assim dizer, os construtores de nossos próprios destinos.

5. Programação da existência corporal

Boa parte das questões que formam a seção sobre a fatalidade de O Livro dos Espíritos referem-se directa ou indirectamente à questão da programação da existência corporal.

Essa programação enquadra-se no princípio geral que estamos analisando.
Na medida em que o ser amadurece espiritualmente, tornando-se mais consciente, poderá avaliar por si próprio as principais acções praticadas e, no estado de erraticidade, planificar certos aspectos de sua futura encarnação, frequentemente auxiliado por Espíritos amigos.
Assim é que, por exemplo, seu corpo, seu meio social, os componentes de seu grupo familiar poderão, em certa medida, ser objecto de escolha, com vistas às suas necessidades evolutivas.

Levando porém em conta que entre a época da programação e a da ocorrência programada os seres envolvidos continuarão agindo, criando novos efeitos que se juntarão aos anteriores, o facto poderá ser parcialmente alterado.

Conforme assinala Allan Kardec no item 872, os detalhes dos acontecimentos dependem de circunstâncias que o próprio homem encarnado cria pelos seus actos.

Na resposta à questão 861 encontramos uma importante distinção, quanto à fatalidade, entre os acontecimentos materiais e os de ordem moral (espiritual):
"Demais, sempre confundis duas coisas muito distintas: os sucessos materiais da vida e os actos da vida moral.
Se há, às vezes, fatalidade, é nos acontecimentos materiais cuja causa reside fora de vós e que independem da vossa vontade.

Quanto aos actos da vida moral, esses emanam sempre do próprio homem que, por conseguinte, tem sempre a liberdade de escolher.
No tocante, pois, a esses actos, nunca há fatalidade."

Podemos entender melhor esse ponto se considerarmos o facto, anteriormente apontado, de que somente a matéria, por ser inanimada e passiva, pode estar sujeita a um reordenamento preciso.

Já os nossos actos, estes subordinam-se em cada instante à nossa vontade livre.
Assim, um corpo malformado ou perfeito, uma doença grave ou sua cura, uma queda mortal, poderão ser fatais, no sentido mais estrito do termo.

Mas um assassinato, uma difamação, uma reconciliação, uma doação caritativa nunca serão fatais.
Note-se que isso vale para todas as partes envolvidas, mesmo as que ocupam a posição de vítimas.

Ninguém pode renascer para ser alvo de difamação ou assassinato, porque isso exigiria que alguém renascesse para difamar ou assassinar, o que é claramente absurdo.

É por isso que a resposta da questão 851 adverte que a fatalidade só pode existir com relação às provas físicas (como certas doenças e acidentes que se não conseguem evitar), nunca porém com relação às provas morais (como as traições, os desgostos com o comportamento de entes queridos, as humilhações).
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 16, 2013 10:16 pm

6. Previsão do futuro

O problema controverso da previsão do futuro também se elucida quando se compreendem correctamente as leis que correlacionam os eventos de nossas vidas.
O futuro será, em princípio, previsível somente na medida em que se tenha acesso completo e seguro às causas dos eventos, e as leis que os correlacionem forem de tipo determinista.

Dissemos em princípio porque, mesmo conhecendo completamente as causas e sendo as leis deterministas, faz-se ainda mister efectuar as deduções dos efeitos, o que em geral está fora de nossa capacidade prática.

Ora, no que toca aos acontecimentos não-triviais das vidas dos homens, ordinariamente nenhuma dessas três condições é satisfeita.

Não conhecemos a totalidade das causas;
não há encadeamento determinista dos eventos (devido à presença do livre-arbítrio); e, mesmo que houvesse, não seríamos efectivamente capazes de deduzir os efeitos das causas, dada a complexidade extrema das situações típicas.

Disso se conclui que, a não ser em condições muito especiais e limitadas, dentro do domínio exclusivamente material, o futuro é indeterminado e imprevisível.
(Para maiores detalhes sobre esse assunto, consulte-se Chagas 1996.)

7. Aspectos morais

Com o esclarecimento racional fornecido pelo Espiritismo, as questões da fatalidade e do destino perdem o carácter místico com que frequentemente são revestidas.

Nada do que nos sucede é questão de sorte ou azar.
Vemos que são quiméricas as ideias de que ocorrências de nossas vidas são influenciadas pelos astros, pelos nomes, pelos números e outros factores externos semelhantes, que não encontram lugar na lei de causa e efeito e na justiça divina.

O mal que nos acontece, acontece na hora certa, na medida certa, porém como consequência de acções más livremente praticadas, nesta vida ou em vidas anteriores.
Igualmente, as situações felizes que vivemos não são obra de puro acaso, mas foram preparadas por nós mesmos quando agimos de acordo com as recomendações evangélicas, ou seja, quando fazemos o bem.

Não há um destino transcendente, que nos arraste em seu turbilhão, independentemente do que sejamos ou façamos.{nota 5}
O destino que existe é aquele que nós mesmos construímos, e que podemos ir modificando a cada momento, no quadro das leis naturais que regem o mundo.

Esse ponto é expresso de forma muito feliz por Emmanuel no capítulo "Fatalidade e livre-arbítrio" do livro Nascer e Renascer, do qual destacamos os seguintes trechos:
É por isso que fatalidade e livre-arbítrio coexistem nos mínimos ângulos de nossa jornada planetária.

Geramos causas de dor ou alegria, de saúde ou enfermidade em vários momentos de nossa vida.

O mapa de regeneração volta connosco ao mundo, consoante as responsabilidades por nós mesmos assumidas no pretérito remoto e próximo; contudo o modo pelo qual nos desvencilhamos dos efeitos de nossas próprias obras facilita ou dificulta a nossa marcha redentora na estrada que o mundo oferece.

Importa notar ainda que as leis naturais, ou divinas, têm por objectivo último o bem da criatura.
É fácil perceber, por exemplo, que as dores físicas consequentes a algumas de nossas acções visam à preservação de nosso corpo.

Assim, se não sentíssemos dor ao tocar um objecto quente, não o soltaríamos imediatamente, resultando daí lesões graves em nossa mão.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 16, 2013 10:16 pm

De igual modo, as dores morais, e mesmo certas dores físicas sem causa imediata, objectivam à nossa educação espiritual.
Ajudam-nos a ver que, com nossas acções, interferimos indebitamente na harmonia do Universo, violando as leis de amor que nos devem guiar o comportamento frente aos homens e demais seres da criação.

Consideremos um exemplo: uma pessoa resolve embriagar-se e, nesse estado, põe-se a dirigir um veículo.

Em seu percurso, atropela um pedestre, ferindo-o gravemente.
O motorista contrai, nesse instante, um débito para com a lei divina, que lhe será causa de sofrimentos futuros.

Cedo ou tarde enfrentará as consequências dolorosas de seu acto, tendo ainda que reparar o mal causado ao seu próximo.
Mas como Deus não é apenas a suprema justiça, mas também a suprema bondade, o devedor não precisará pagar sua dívida com a mesma "moeda"; poderá, por vontade própria, resolver saldá-la com amor.

Eis porque o apóstolo afirmou:
"O amor cobre a multidão de pecados" (I Pedro 4: 8), contrapondo-se ao ditado de que "quem com ferro fere, com ferro será ferido".

Para o pedestre, a ocorrência possivelmente representará o efeito de uma dívida anteriormente contraída, de um erro cometido no passado próximo ou distante.

Terá sido uma forma bastante dura de aprender e resgatar, determinada pelas necessidades do seu caso particular.
Em outros casos, o aprendizado e a expiação de erros semelhantes podem ser alcançados por processos mais brandos, menos dolorosos.

A lei pode ser flexibilizada, porque seu objectivo é sempre educar, nunca punir.
Se a criatura já aprendeu a lição, reparou seu erro e está exercendo o amor, não mais precisa continuar sofrendo.

Sobre esse ponto, é oportuna a leitura da seção "Código penal da vida futura", do capítulo 7 da primeira parte de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec.

Vejamos estes trechos:
16º. O arrependimento é o primeiro passo para a melhora; mas só isso não basta, sendo ainda precisas a expiação e a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.

O arrependimento suaviza as dores da expiação, ao dar esperança e preparar os caminhos da reabilitação.

Contudo, somente a reparação pode anular o efeito, destruindo a causa;
o perdão seria uma graça, e não uma anulação.

17º. O arrependimento pode ocorrer em qualquer parte e em qualquer momento;
se tardar, o culpado sofrerá por mais tempo.

A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a consequência da falta cometida, verificando-se quer já na vida presente, quer após a morte, na vida espiritual, ou ainda numa nova existência corporal, até que os traços da falta sejam apagados.

A reparação consiste em fazer o bem a quem se haja feito o mal. [...]

A possibilidade do abrandamento das consequências dolorosas de nossas acções pelos esforços que façamos nesse sentido é ilustrada em conhecido episódio narrado por Hilário Silva no livro A Vida Escreve (cap. 20, "O merecimento"):
Saturnino Pereira sofre um acidente na fábrica onde trabalha, vindo a perder o polegar direito.

Seus colegas e amigos comentam a injustiça da ocorrência, dada a grande dedicação de Saturnino ao bem de todos.
Comparecendo à reunião mediúnica em que colabora regularmente, um benfeitor espiritual espontaneamente lhe esclarece que, em existência anterior, foi poderoso sitiante que, num momento de crueldade, puniu barbaramente um pobre escravo, moendo-lhe o braço direito no engenho.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 16, 2013 10:17 pm

Com o despertar de sua consciência, atrozes remorsos torturaram-no no além-túmulo.
Deliberou então impor-se rigoroso aprendizado, programando um acidente para a futura encarnação, no qual perderia o braço.

No entanto, sua renovação para o bem, testemunhada por suas acções, possibilitou que o acidente apenas lhe ocasionasse a perda de um dedo.

Notas

1.
Algumas ideias deste texto foram motivadas por palestra proferida por José Carlos Ângelo Cintra no âmbito da II Semana Espírita da Unicamp, promovida pelo Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp, em outubro de 1995.

2. Algumas propostas têm-se difundido nos círculos leigos, misturando referências esparsas à física contemporânea com ideias religiosas, místicas etc.
No entanto, uma análise autorizada e isenta revela que são prematuras e pouco rigorosas.
O que estamos afirmando no texto não deve ser entendido como uma aprovação, ou mesmo um incentivo a trabalhos dessa natureza.

Estamos apenas salientando que a visão da matéria fornecida pela ciência de hoje não representa mais um obstáculo à concepção espírita do homem como um ser dotado de livre-arbítrio.
Sobre esse ponto, ver os artigos Xavier Jr. 1995, Chagas 1995 e Chibeni 1984.


3. Sobre a ciência espírita e suas relações com a ciência académica, consultem-se Borges de Souza 1986, Chagas 1984, 1987 e 1994, Chibeni 1988, 1991 e 1994, bem como os trabalhos citados na nota 2.

4. Nesta e demais citações de obras de Allan Kardec, utilizamos os textos originais, aproveitando em grande parte as traduções publicadas pela Federação Espírita Brasileira.

5. Diante de certas ocorrências trágicas, é comum ouvir-se dizer que "tinham que acontecer", que "estavam escritas".
Essa opinião, que o Espiritismo mostra incorrecta quando generalizada, é analisada de forma interessante em Simonetti 1996.


Referências

BORGES DE SOUZA, J. "Pesquisas e métodos", Reformador, abril de 1986, pp. 99101.
CHAGAS, A. P. "O que é a ciência", Reformador, março de 1984, pp. 80-83 e 93-95.
-----. "As provas científicas", Reformador, agosto de 1987, pp. 232-33.
-----. "A Ciência confirma o Espiritismo?" Reformador, julho de 1995, pp. 208-11.

-----. "O Espiritismo na Academia?" Revista Internacional de Espiritismo, fevereiro de 1994, pp. 20-22 e março de 1994, p. 41-43.
-----. Sobre a previsão do futuro. Revista Internacional de Espiritismo, maio de 1996, pp. 124-25.
CHIBENI, S.S. "Espiritismo e ciência", Reformador, maio de 1984, pp. 144-47 e 15759.

-----. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de 1988, pp. 328-33, e dezembro de 1988, pp. 373-78.

-----. "Ciência espírita", Revista Internacional de Espiritismo, março de 1991, pp. 45-52.
-----. "O paradigma espírita", Reformador, junho de 1994, pp. 176-80.
EMMANUEL. "Fatalidade e livre-arbítrio" (Psicografia de F. C. Xavier.). In: Nascer e Renascer. São Bernardo do Campo, GEEM, 1982.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, 64ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
-----.Le Ciel et l'Enfer. Farciennes, Editions de l'Union Spirite, 1951. O Céu e o Inferno. Trad. Manuel Quintão, 28ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

SILVA, H. A Vida Escreve. (Psicografia de F. C. Xavier e Waldo Vieira.) 5ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1960.
SIMONETTI, R. "Tinha que acontecer?", Reformador, maio de 1996, pp. 138-39.
XAVIER JR., A. L. "Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-Ciência", Reformador, agosto de 1995, pp. 244-46.

Artigo publicado em Reformador de junho de 1997, pp. 176-180.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 17, 2013 9:34 pm

.. Daniel Chiozzini > O direito de morrer

Artigos


O caso da norte-americana Terry Schiavo suscitou o debate sobre a eutanásia em todo o mundo.

A decisão pelo desligamento ou não dos aparelhos que a mantinham viva estendeu-se pelos tribunais.

Vários laudos técnicos foram usados na disputa judicial, além de funcionarem também como atenuante para a solução final:
ela praticamente não teria sofrido durante os treze dias em que ficou sem água e comida até falecer, já que seu cérebro estaria comprometido a ponto dela não sentir mais dor, fome ou sede.

O embate jurídico em torno da manutenção ou não da vida da paciente mostrou que a questão, do ponto de vista exclusivo da medicina e do direito, está longe de ter um ponto final.
Nesse contexto, a ética e a filosofia podem contribuir de maneira significativa para um avanço das discussões e de critérios para decisões em torno do assunto.

Entre os médicos, o conceito de morte cerebral é padronizado e aceito internacionalmente.
Ocorre quando um paciente encontra-se em um quadro de falência total do sistema nervoso central, caracterizável como irreversível.

Já uma falência parcial do cérebro pode levar ao controverso conceito de “estado vegetativo”, quando existe um comprometimento das respostas do organismo aos estímulos nervosos.

Mas, em muitos casos, o grau desse comprometimento é impossível de ser aferido e avaliado com exactidão.
Desse modo, os argumentos de natureza estritamente técnica mostram-se insuficientes para decidir pela interrupção ou não da vida de uma pessoa que, por exemplo, vive com o auxílio de aparelhos.

O debate ético em torno do assunto, que no Brasil é ainda incipiente, lança novos pontos de vista sobre a eutanásia.

O que seria, no caso de Terry Schiavo, algo praticamente indolor? indaga o filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro.

Para ele, na ciência, há um forte elemento amoral, ou seja, uma tendência de isentar-se de julgamentos morais e manter-se neutra.
Tal característica é oriunda do facto que seus avanços, muitas vezes, já se confrontaram com valores considerados correctos pela sociedade na qual ela está inserida e se desenvolvendo.

Um exemplo significativo pode ser situado nos primórdios dos chamados estudos científicos:
“A ciência começou a fazer anatomia quando isso era um pecado mortal, uma entre muitas coisas que a religião desaprovava, afirma.

No entanto, Janine lembra que, embora a anatomia tenha sido fundamental para o progresso da medicina, os estudos anatómicos também foram feitos, por exemplo, em prisioneiros durante o século XVI:
“Quando o rei Carlos IX, da França, foi ferido em um torneio, o médico dele, Ambroise Paré, recebeu vários presos condenados à morte para estudar possíveis tratamentos, e todos morreram nas experiências, afirma.

Assim, é muito difícil dizer que o que hoje a moral condena não vá ser, dentro de um tempo, aceito, completa.

Janine revela não ter uma opinião fechada sobre a eutanásia e que é céptico em relação a uma possível solução ou regra única para definir em quais casos o paciente tem direito a morrer.

Para ele, os cuidados médicos podem prolongar uma agonia por muito tempo ou assegurar uma morte limpa e sem dor, mas a decisão sobre isso não pode ser do médico.

“Deve ser, em última análise, uma decisão da pessoa que há-de viver ou morrer e, antes disso, uma decisão da sociedade, diz.
Deste modo, Renato Janine aponta para a necessidade de uma discussão ética sobre o assunto, incluindo os limites entre os direitos sociais e individuais, nos mais variados casos em que a eutanásia é cogitada.

A questão apontada pelo filósofo e a necessidade de um posicionamento da sociedade englobam o paciente que, conscientemente, opta pela morte.
Trata-se de uma ocasião em que a discussão sobre os limites da autonomia individual é mais latente, uma vez que, em muitos casos, a pessoa manifesta o interesse por morrer antes do tempo que ela poderia ficar viva com auxílios técnicos da medicina ou até mesmo se curar.

Embora também tenha dúvidas sobre a maneira adequada para decidir-se sobre a eutanásia nesses casos, Janine aponta um possível caminho para iniciar essa discussão: o respeito pelo direito da pessoa de não querer mais viver.
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A Ciência confirma o Espiritismo? - Página 6 Empty Re: A Ciência confirma o Espiritismo?

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 17, 2013 9:34 pm

Uma das maneiras de fazer isso é o diálogo com o indivíduo sobre a opção feita por ele e não simplesmente a tentativa de convencê-lo do contrário.

Seria uma maneira de fugir de uma tendência de infantilizá-lo, como muitas vezes ocorre com os idosos.
Isto significa que, se uma pessoa não quer mais viver devido a um sofrimento intenso e irreversível, deve ter meios de poder abreviar sua vida, tal como exemplifica o filme Menina de Ouro, de Clint Eastwood, conclui.

Também para o médico e filósofo Rodrigo Siqueira Batista, coordenador do Núcleo de Estudos em Filosofia e Saúde da Fundação Educacional Serra dos Órgãos (Feso), é imprescindível tornar essa discussão mais ampla.

Para ele, a eutanásia não tem recebido a devida atenção da comunidade médica brasileira.
Devido ao facto da sua prática ser considerada crime pelo artigo 121 do Código Penal, tem sido mantido um espúrio pacto de silêncio nas Unidades de Assistência à Saúde.

Ele menciona que a decisão de interromper ou não a vida dos pacientes acaba por ser tomada às escuras, por profissionais habitualmente sem qualquer preparo para enfrentar a situação, muitas vezes à revelia dos familiares e do próprio enfermo:
Discutir e ponderar sobre ética e eutanásia, demarcando-se adequadamente os conceitos e enfocando-se os argumentos favoráveis e contrários à sua realização, torna-se fundamental para a formação laboral em saúde, bem como para o mais amplo exercício da cidadania, ao menos em sociedades laicas e plurais, afirma.

Nesse sentido, Siqueira Batista entende que uma das ponderações importantes para essa discussão é a noção de finitude da vida, uma das marcas profundas da condição humana.

Desde tempos imemoriais, vêm sendo desenvolvidos modos para se lidar com a efemeridade da vida, como no caso das narrativas míticas gregas, por exemplo, nas quais deuses e homens eram distinguidos pela sujeição à mortalidade, explica.

Posteriormente, as religiões e a filosofia também desempenharam esse papel, e actualmente ele também vem sendo exercido pela ciência.

No contexto actual, é imprescindível realçar a inserção da ciência como uma das modalidades de explicação da realidade:
Ainda que se torne possível um prolongamento da vida, a questão da sua finitude estará sempre enraizada na experiência humana de existir, afirma.

Segundo o pensador, tornar-se imortal representa, em última análise, abdicar de ser humano”, completa.

Para Eduardo Cruz, chefe do Programa de Pós-graduação em Ciência de Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), um avanço sobre a questão da eutanásia está relacionada a uma aproximação equilibrada entre ciência e religião.

Ao ver a religião apenas como resquício de um passado de superstições e dogmatismo, alguns cientistas podem prejudicar a própria sociedade a quem querem beneficiar, afirma.
Ele procura realçar a lógica do pensamento religioso diante dos avanços da medicina, que permitem hoje a possibilidade de uma sobrevida do paciente com graves problemas de saúde.

Ele diz que as religiões optaram, de um modo geral, pela naturalidade da vida e da morte dos seres humanos.
Meios de prolongar intoleravelmente a vida não são incentivados, enquanto o término antecipado da existência é condenado, afirma.

Essa postura contrária à eutanásia, segundo ele, advêm da impossibilidade de reversão do processo e do questionamento da objectividade do paciente e dos parentes em um momento de extrema emoção.

Para Cruz, outra questão presente no discurso religioso que critica a eutanásia é a ideia da inserção de cada indivíduo no fluxo da existência e da sociedade:
“Esta concepção, de certa forma, vai contra o postulado da modernidade da soberania do indivíduo em tomar qualquer decisão”, afirma.

Segundo o pesquisador, esse princípio não se restringe ao âmbito religioso, pois o direito e a moral contemporâneos, já apresentam limites ao poder de decisão do indivíduo.

Seja porque uma acção deste pode ter um impacto directo na vida social, como roubar, por exemplo, seja porque, aos poucos, essas decisões podem corroer o tecido social e o fluxo da natureza, explica.
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A Ciência confirma o Espiritismo? - Página 6 Empty Re: A Ciência confirma o Espiritismo?

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 17, 2013 9:35 pm

Desse modo, o homem que reivindica o direito à eutanásia, definido como um indivíduo em face de um incómodo existencial, não deve ter sua vontade como único referencial:
Não há um direito sagrado a uma existência sem problemas, afirma.

Já Rodrigo Siqueira Batista aponta também algumas perspectivas para desenvolver o debate sobre a eutanásia.
A primeira delas seria recuperar o sentido originário da palavra eutanásia, literalmente “boa morte (eu regular/justamente //com bondade, benevolência; e tanatos morte), livrando-a de ranços e sequelas remanescentes da política nazista de extermínio, erroneamente traduzida por eutanásia”.

A segunda perspectiva aproxima-se da posição de Eduardo Cruz.
É preciso uma profunda discussão acerca da autonomia do sujeito possivelmente o mais poderoso argumento pró-eutanásia na medida em que a autonomia individual, ainda que plenamente defensável, é sujeita a grande polémica em termos do seu alcance, chegando-se, inclusive, a questionar a sua real existência, afirma.

O pesquisador cita filmes de ficção científica, como Gattaca e Brilho eterno de uma mente sem lembrança, nos quais a ciência desenvolve técnicas para moldar a personalidade e o fenótipo do ser humano.

Trata-se de uma fecunda discussão sobre livre arbítrio/ determinação para o âmbito da vida e o para o futuro da humanidade, diz Baptista.

Uma terceira perspectiva vai ao encontro da proposta de Renato Janine.
Rodrigo Siqueira Batista afirma a necessidade de entender a eutanásia como um ato inscrito no paradigma da compaixão, segundo o qual o homem em processo de morrer deve ser acolhido, como um igual, em seus mais íntimos propósitos independentes de serem livres ou determinados ainda que estes se dirijam para a interrupção da própria existência.

Mesmo que a compaixão esteja sendo pouco prestigiada nas reflexões contemporâneas, ele afirma que integrá-la aos demais fios que compõem o grande tecido dos debates sobre a eutanásia é uma forma de olhar e acolher o homem que morre, um genuíno ato de fraternidade, permitindo-lhe, quiçá, a restituição da prerrogativa de sonhar com seus melhores dias de outrora, conclui.

http://www.comciencia.br/reportagens/2005/05/03.shtml

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