Casos de Reencarnação

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 16, 2013 9:40 pm

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Alguns de seus colaboradores seguiram certos casos de perto.

Hernani Guimarães Andrade (1913-2003) – director do Instituto de Pesquisas Psicobiofísicas, de São Paulo – realizou inúmeros estudos a respeito, com uma metodologia similar cujos resultados foram publicados em Reencarnação no Brasil:
Oito Casos que Sugerem Renascimento (1988, O Clarim).

Certas perguntas se fazem necessárias:
as declarações das crianças que dizem lembrar-se de uma vida anterior correspondem a eventos que podem ser verificados na vida de alguém falecido?

O carácter psicológico das crianças permite explicar de forma “normal” esses casos?
Essas crianças são psicologicamente diferentes das outras em geral?


Muitos críticos têm proposto que alguns factores potenciais tais como uma vida ricamente fantasiosa;
uma necessidade de compensar o isolamento social;
alta sugestionabilidade
(em culturas em que a crença na reencarnação tem papel fundamental);
tendências dissociativas;
procura atenção e más relações com os pais podem levar a criança a dizer que pertence a uma vida anterior ou que reencarnou.


Apesar dos críticos, Erlendur Haraldsson aplicou uma bateria de testes psicológicos a um grupo de crianças do Sri Lanka que diziam recordar-se de uma vida anterior.

Com questionários, entrevistou pais e professores sobre a conduta das crianças e obteve seus registos escolares. Haraldsson diz:
“Durante os últimos oito anos investiguei mais de 40 novos casos em Sri Lanka, que é um dos países em que se encontram muitos CTR.

Em poucos casos, as declarações dessas crianças se ajustam a factos na vida de pessoas que viveram antes da criança nascer.

Em outros casos, e são mais comuns no Sri Lanka do que na maioria dos outros países, não se encontrou ninguém que correspondesse às declarações da criança”.


A maioria das crianças com recordações ativas de suas vidas passadas tem entre 3 e 7 anos, mas elas são difíceis de serem encontradas.

Haraldsson aplicou uma série de testes a uma criança.

Por exemplo, quatro ilustrações em preto e branco são mostradas e pede-se a ela que escolha uma fotografia que ilustre bem o significado de palavras-estímulos apresentadas oralmente.

Outros testes foram elaborados para registar a capacidade e os problemas de comportamento das crianças de 4 a 16 anos, sua competência social e seu desempenho escolar.

Outro foi administrado ao professor de cada uma das crianças, especialmente para obter informação sobre os problemas de seus alunos e seu desempenho escolar.

Na maior parte dos casos, Haraldsson, juntamente com um psicólogo e um intérprete, visitava a criança em sua casa ou na escola, sem aviso prévio, uma vez que na maioria dos casos alguns componentes da equipe já haviam entrevistado a criança e seus pais sobre o assunto.

Os professores o ajudavam a encontrar uma “criança controle” da mesma condição social que a “criança reencarnada”;
mas se a criança em questão estava em casa, os investigadores procuravam outra criança controle nas vizinhanças, com a idade mais próxima possível;
e, ao finalizar a entrevista, mostravam seu agradecimento através de doces e uma bola para todas as crianças da casa.


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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 16, 2013 9:40 pm

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As famílias, em sua totalidade, cooperaram e ajudaram muito.

Esses estudos parecem revelar dados muito significativos sobre a vida dessas crianças.

Por exemplo, na idade de 10 anos, as crianças de Sri Lanka participam de uma competição nacional de exames, e as que obtêm pontuações excelentes conseguem ser admitidas em escolas selecionadas.

A maioria das crianças em estudo estava nessas escolas.

Segundo os pais, as crianças que diziam recordar-se de vidas passadas pareciam ter algum problema de conduta;
por exemplo, são mais argumentativas, mais nervosas, sentem que têm de ser perfeitas, são solitárias, mais retraídas (têm menos contato social);

são mais confusas, mais interessadas na higiene pessoal, falam muitíssimo, são medrosas e ansiosas;
ficam enfastiadas e falam e caminham dormindo.


Algumas das crianças têm medos;
em certos casos, esses medos parecem estar relacionados a recordações da vida anterior.

É interessante notar que os professores também dizem que as crianças são insípidas, tristes ou depressivas, são menos desobedientes na escola, menos impulsivas e têm menos dificuldades em seguir as ordens do que seus colegas.

Sem dúvida, algumas dessas crianças desenvolvem imagens e fantasias de eventos passados (que ocorreram antes delas terem nascido), os quais elas consideram que pertencem a uma recordação de eventos que viveram.

As perguntas são: como surgem essas imagens ou fantasias?
Elas nada mais são do que fantasias que, de algum modo, dão uma fala impressão de recordações, como ocorre com as experiências de dèjá-vu (já visto)?

São fantasias misturadas com imagens de eventos actuais que as crianças percebem por meios paranormais?
Ou esses eventos reais foram observados directamente pela consciência da criança antes de ter nascido?


Muitos críticos consideram que a sugestão tem um papel fundamental nas culturas que acreditam na reencarnação.

Os que dão preferência a esse facto inquestionável como uma explicação global, suficiente para “fechar o caso”, na verdade observam superficialmente a evidência relacionada àqueles pais que frequentemente reprimem os filhos;
estes, por sua vez, opõem-se veementemente a qualquer tentativa de repressão.

Um bom exemplo de perseverança contra a oposição paterna foi o caso da criança Dilupa Nanayakkara, cujos pais (católicos romanos) trataram de reprimir seu relato sobre uma vida anterior.

Stevenson, Chadha e Mills observaram algumas vezes como essas crianças, na Índia, sofrem uma pressão considerável por parte dos pais para que se abstenham de mencionar suas aparentes recordações.

Algumas das crianças são repreendidas e umas poucas são espancadas por falarem sobre o assunto.
Muitas delas dizem a suas mães que elas não são suas mães verdadeiras.

Contudo, em muitos casos, as declarações recebem o apoio e até o estímulo dos pais, especialmente nos “casos resolvidos”, ou seja, aqueles em que se conseguiu identificar a pessoa falecida.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 17, 2013 9:22 pm

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O isolamento social é outro factor que pode ser a causa das crianças se recordarem de vidas passadas.
Por um lado, os pais não consideram seus filhos menos activos ou socialmente competentes do que os demais.

Por outro lado, essas crianças não querem estar mais sozinhas do que outras crianças e, com frequência, se sentem retraídas numa relação com os outros.

Parecem viver sob uma considerável tensão emocional.
Contudo, também são argumentativas, obstinadas e loquazes, características que dificilmente são indicadoras de isolamento social.

Que conclusões podemos tirar desse estudo?
As hipóteses de isolamento social e de alta sugestionabilidade como causas “normais” para os casos de recordação de uma vida anterior em crianças não parecem ser a resposta mais adequada.

O mesmo se pode dizer em relação àqueles que levantam a hipótese da fantasia e da tendência à fabulação.

Podemos dizer que, da forma como foram pesquisadas, as hipóteses psicológicas normais não são adequadas para explicar por que algumas crianças dizem lembra-se de suas vidas passadas.

Elas são um grupo com um talento fora do comum; especialistas em crianças dotadas e talentosas com frequência falam em “genialidade” quando as descrevem.

O que nos leva novamente à pergunta:
porque essas crianças mostram um alto nível de desenvolvimento cognitivo, comparadas às crianças normais?

São crianças com grande capacidade para criar histórias de uma vida anterior, provavelmente mais do que outras crianças, ou são crianças que se lembram de uma vida anterior porque são mais talentosas?


Keil, Mills e Pasricha, entre outros, têm a impressão de que, em alguns casos, e certamente nos de Ian Stevenson, há alguma forma de paranormalidade envolvida.

Nesse sentido, é mais provável que a genialidade das crianças seja um modelo característico geral nesses casos.

Certamente, nossas descobertas de genialidade necessitariam de uma réplica em outros países para que possamos dizer que a genialidade é uma característica geral das crianças.

Se de facto a genialidade for uma característica geral nesses casos, então teremos encontrado mais uma característica nas crianças para a qual não encontramos nenhuma explicação normal fácil, em bom número de casos – juntamente com as demais características como recordações, fobias, predisposições, marcas de nascimento e deformações.

Além disso, Stevenson estudou algumas crianças que revelavam habilidades não aprendidas, algumas das quais poderiam ser interpretadas de forma paranormal.

As supostas recordações converteram-se gradualmente em apenas uma parte do fenómeno que desafia qualquer explicação normal, e isso as transforma em características susceptíveis de uma interpretação paranormal.

A questão crucial e mais difícil é: qual é a interpretação paranormal?

As doutoras Antonia Mills e Satwant Pasricha sustentam a hipótese da reencarnação, ainda que Jurgen Keil tenha argumentado que a hipótese de percepção extra-sensorial (superpsi) possa explicar suficientemente o fenómeno.

Contudo, Haraldsson declara:

“Essa área de investigação tem muitos problemas e falhas potenciais que, com frequência, tornam difícil obter dados sólidos.
Depois de investigar mais de 50 casos no Sri Lanka, durante oito anos, vejo cada vez mais difícil a hipótese do superpsi.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 17, 2013 9:23 pm

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Sabe porquê?”,[i/] ele nos pergunta.
[i]“Porque pode ser boa para explicar as supostas recordações, mas a vejo pouco convincente – devo admiti-lo, intuitivamente –, para explicar as fobias e os modelos de conduta complexa, sem mencionar as marcas de nascimento e as malformações, para os quais, devo dizer, encontrei muito mais evidências em Sri Lanka.

As marcas de nascimento e as malformações começam a se formar durante o desenvolvimento do embrião e muito antes que a criança nasça, o que faz com que a hipótese do superpsi pareça, inclusive menos satisfatória”.


Pode ser prematuro perguntar-se isso, mas se aceitássemos, como tentativa, a hipótese de reencarnação, o que essas crianças trazem consigo em sua infância?

É a maturidade precoce e a genialidade, de alguma forma ou sentido, da mesma maneira que trazem consigo outras características psicológicas?


Os estudos ainda continuam.

Lembrando a Própria Morte

O caso de Dilukshi Nissanka é muito interessante porque foram obtidas declarações da vida anterior da menina antes de se encontrar uma pessoa cuja descrição coincidisse com suas declarações.

Dilukshi nasceu em 4 de outubro de 1984 e era filha única.
Os pais viviam em Rukmalie, no distrito de Gamphaha, Sri Lanka.
Diluskshi começou a falar sobre sua vida anterior quando tinha três anos.

Ela dizia ter sido uma menina chamada Shiromi, que tinha vivido em Peravatte, Dambulla, onde tinha se afogado num rio.
Para inquietação dos pais, negava-se a chamá-los de pai e mãe e pedia-lhes reiteradamente para ver sua “mãe anterior”.

Os pais tentaram impedir que continuasse falando sobre isso, inclusive ameaçando-a, mas foi inútil.

Três anos depois, seus pais contactaram um amigo, B. A. Sunil, que se comunicou por telefone com um monge do templo de Dambulla, um dos locais de peregrinação mais conhecidos do Sri Lanka.

O monge Ven Inamaluwe Sugamala, que é arqueólogo, pediu a Sunil que escrevesse uma carta listando as declarações que a criança estava fazendo.

O monge fez algumas averiguações em Dambulla e nos arredores, e não encontrou ninguém com aquelas características.
Depois, entrou em contacto com um jornalista, H. W. Abeypala, que se encarregou do caso.
Ele entrevistou os pais da menina, e a matéria apareceu na edição cingalesa e inglesa da revista Weekend.

Em Dambulla, Dharmadasa Ranatunga leu o artigo da revista e escreveu uma carta aos pais da menina e ao monge.

Dias depois, todos se encontraram.

De acordo com eles, a criança os conduziu pelo caminho até à casa de Ranatunga, a uns seis quilómetros da cidade de Dambulla, onde ele e sua esposa aceitaram como sua filha falecida depois que Dilukshi reconheceu alguns dos objetos e pessoas na casa.

Os pais de Dilukshi não tinham amigos, conhecidos ou qualquer outra conexão com Dambulla, que é um povoado pequeno na área rural.

Como a investigação do caso ainda continua, o número de correspondências entre as declarações de Dilukshi e os factos sobre a vida de Shiromi parece exceder o número esperado de coincidências.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 17, 2013 9:24 pm

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Monge na Vida Anterior

Merece ser mencionado o caso do menino Duminda Ratnayake.
Em 1987, quando Duminda tinha três anos, começou a falar sobre uma vida anterior como abade no templo Asgiriy.

Com frequência ele expressava interesse em visitar o templo.

Duminda nasceu em 16 de junho de 1984, de pais budistas.
Em 1988, Erlendur Haraldsson entrevistou as principais testemunhas das declarações do menino, uns monges do templo Asgiriya.

Duminda dizia ter vivido no templo budista, ter sido proprietário de um carro vermelho e ter morrido de infarto num hospital.

Mostrava certos comportamentos que não eram comuns para uma criança de sua idade:
gostava de se vestir com hábitos de monge;
queria que o chamassem podi sadhu
(pequeno monge);
diariamente ia a uma capela budista (vihara);

visitava o templo com regularidade;
não jogava com as outras crianças e recitava canções e orações budistas na linguagem religiosa (o pali), que nunca poderia ser escutado porque só é falada entre monges e é aprendida depois de muitos anos de estudo.


Então, os pais levaram Duminda ao templo de Asgiriya.
O menino ficou tão impressionado que os pais decidiram que ele permanecesse como monge no templo.

Fonte: Revista Espiritismo & Ciência, Ano 5, Número 48, Maio de 2007.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 18, 2013 8:45 pm

REENCARNAÇÃO, UNIDADE DA SEITA, E IDENTIDADE ENTRE OS DRUSOS
Anne Bennett

California State University

Tradutor:
Vitor Moura Visoni

A crença em reencarnação é atípica dentro do Islão, embora excepções existam em algumas pequenas seitas.

Este artigo analisa o papel que a reencarnação exerce ao manter um sentido de unidade e identidade entre os Drusos, uma seita islâmica residindo principalmente no Oriente Médio de Levantine.

Também descreve as condições necessárias para a reencarnação de acordo com a doutrina dos Drusos e como evidenciadas nas histórias de reencarnação.

A reencarnação é de grande importância social para os Drusos, concernente às relações familiares e da população, e da comunidade Drusa em extensão.

Há, no entanto, alguma resistência dentro da comunidade à crença em reencarnação.

Esta resistência é devida em parte à gestão da imagem no contexto político da Síria, e também porque a crença em reencarnação é um estigma para um grupo no Oriente Médio Islâmico.

Ela também é contraproducente aos esforços dos Drusos de se apresentarem ao mundo como modernos.

(Islão, identidade Drusa, reencarnação)

A crença em reencarnação é atípica no Islão.

Há, no entanto, algumas seitas islâmicas que acreditam em reencarnação, incluindo os Drusos e Alawi, que são mais numerosos no Líbano, Síria, e Turquia.

Estes grupos minoritários sustentam uma posição ténue entre os muçulmanos, em alguma medida devido a sua crença em reencarnação, e frequentemente são considerados pelos co-religiosos sunitas ou xiitas da corrente principal como heterodoxos ou mesmo heréticos.

Os Drusos e Alawi diferem em vários pormenores concernente em como descrevem o processo de reencarnação, mas este artigo foca apenas nos Drusos.

Os Drusos acreditam que a reencarnação ocorre entre todos os seres humanos em todos lugares e épocas, e que alguns se lembram de vidas anteriores, mas a maioria não.

Não há, no entanto, nenhum acordo colectivo entre os Drusos concernente à reencarnação.
Há muitos que são cépticos sobre o fenómeno e o descartam totalmente.

Ao mesmo tempo há muitos outros que circulam histórias e possuem curiosidade e mente aberta sobre o fenómeno.

Em ambos os extremos há uma cautela relacionada à discussão da reencarnação devido à sensibilidade de percepções estrangeiras.

Um factor complicante é que a seita dos Drusos é esotérica e secreta sobre a maioria dos aspectos de seus princípios religiosos.

Assim é difícil determinar precisamente como a reencarnação se encaixa em sua doutrina.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 18, 2013 8:46 pm

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Este artigo, no entanto, está menos preocupado com a reencarnação Drusa como doutrina religiosa e prática, e mais como um fenómeno social que aumenta a unidade e identidade da seita apesar do facto da reencarnação não ser aceita uniformemente entre os Drusos.

O género de interesse aqui são as histórias de reencarnação que podem ter raízes na doutrina religiosa mas existem e proliferam na conversa informal quotidiana.

O trabalho de campo para esta pesquisa aconteceu em dois locais no sul da Síria, Jeremana e Suwayda.

Jeremana é uma vizinhança urbana densamente povoada no sul de Damasco com uma população Drusa grande;
Suwayda é uma capital provinciana rural a aproximadamente cem quilómetros ao sul de Damasco e as aldeias nesta província são quase exclusivamente Drusas.
A pesquisa consistiu de observação participativa, acompanhando a vida dos informantes, e entrevistas.

A reencarnação não era um foco importante da pesquisa a princípio, mas o tema surgiu frequentemente e se tornou claro que a reencarnação estava amarrada às noções de identidade Drusa.

As histórias de reencarnação foram registadas em fitas de áudio.

O relacionamento entre reencarnação e a unidade e identidade da seita é ilustrado com exemplos de três histórias — as de Abu Qasim, Amal, e Saeed — coleccionadas durante o trabalho de campo em Damasco e Suwayda, Síria.

A primeira história é de Abu Qasim, cujo irmão mais velho Marwan morreu num acidente na lavoura quando Abu Qasim era um menino.

Vários anos mais tarde, um adolescente chamado Shafiq se aproximou da família de Abu Qasim alegando ser Marwan reencarnado.

A segunda história é sobre Amal, uma mulher que vive em Damasco e que, aos dezoito anos de idade, perdeu sua mãe em casa, electrocutada num acidente.

Aproximadamente cinco anos mais tarde acreditou-se que uma menina chamada Lamis, que vivia numa aldeia distante, talvez fosse a mãe reencarnada de Amal.

A terceira história diz respeito a Saeed, cuja mãe morreu num acidente de automóvel quando era jovem e cuja família, aproximadamente cinco anos mais tarde, concordou em encontrar uma menina que diziam ser a mãe reencarnada.

Quarenta anos depois Saeed, agora nos seus setenta, mantém um relacionamento com esta mulher, sua “mãe”, que actualmente é conhecida como Um Yasir.

Estas histórias contêm elementos em comum, incluindo:
uma morte repentina e inesperada como um catalisador para memórias de vidas passadas;
o prelúdio contemporâneo, onde rumores e fofocas preparam o caminho para os encontros;

as descrições dos primeiros encontros; o uso da conversa informativa no estabelecimento de provas de reencarnação;
e o relatório das acomodações passadas e presentes, isto é, como vivem as pessoas reencarnadas.


Ao contar essas histórias, há frequentemente o reconhecimento que os encontros ocorrem ao custo de alguma dissonância tanto para as famílias que são abordadas por alguém alegando ser um parente reencarnado quanto para o presumido indivíduo reencarnado cujo self dividido se torna apegado à “camisa” corporal de um corpo com sua própria vida para viver, mas ligado fortemente a uma vida passada.

Quando falam sobre reencarnação, os Drusos referem a ela em árabe padrão como taqammus (reencarnação, transmigração de almas) mas coloquialmente como natiq.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 18, 2013 8:47 pm

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Em arábico, taqammus deriva de qammasa (vestir com uma camisa).
Há assim a implicação linguística que taqammus descreve uma alma que fica revestida, ou reenvolvida de uma vida para outra.

O corpo que uma alma entra quando transmigra de uma vida humana a outra é concebido como sendo uma vasilha ou manto da alma (Abu-Izzedin 1993:116).

Tanasukh, outro termo em árabe padrão para reencarnação, carrega conotações de renascimento e transmigração que podem incluir uma alma transferindo-se do ser humano para a forma animal, mas isto não é possível na concepção Drusa de reencarnação.

Tanasukh raramente é usado por Drusos quando discutem a específica reencarnação Drusa.

Os Drusos às vezes se referem a uma pessoa que reencarnou como natiq, que significa alguém que se lembra das acções de uma vida passada (Abu-Izzedin 1993:125).

Não há, no entanto, nenhum acordo uniforme mesmo entre os Drusos concernente ao uso e significado de natiq.

O Dr. Samy Swady, da Universidade da Califórnia São Diego, diz que os Drusos usam natiq para indicar o fato que vidas passadas são lembradas e comentadas (comunicação pessoal).

Nas histórias de reencarnação Drusas, o papel da fala é essencial, o qual o termo coloquial natiq claramente mostra, porque a alma reencarnada é “de alguém que fala”.

Quando Abu Qasim ou Amal, por exemplo, se convencem que encontraram um ente querido falecido no corpo de outra pessoa, é em grande parte devido às informações prestadas verbalmente.

Amal, como será mostrado, também responde fortemente aos gestos idiossincrásicos que uma menina usa para saudar Amal e seus irmãos como indicativos de ser a mãe deles reencarnada.

Mas a evidência mais crucial ocorre com o testemunho verbal, que às vezes pode contar com a ajuda de comunicações não-verbais.

As histórias que as pessoas contam fazem uso frequente do discurso informativo, uma estratégia linguística comum para estabelecer autoridade e veracidade na narrativa
(por exemplo, Bauman 1986; Briggs 1988).

BASES DOUTRINÁRIAS E CONDIÇÕES NECESSÁRIAS

Segredo e Esoterismo


Embora o segredo e o esotérico caracterizem o conhecimento religioso Druso, várias fontes descrevem os princípios básicos da seita
(Andary 1994; CORA 1984, 1996; Makarem 1974; deSacy 1838; Shavit 1993).

A busca de conhecimento religioso formal não está aberta a qualquer um, Drusos incluídos.

Se um Druso busca o estudo religioso, isso só é possível quando adulto e através do estabelecimento de uma relação com os líderes religiosos.

Assim, não se ensinam às crianças Drusas os aspectos mais misteriosos de sua religião, mas ainda assim elas estão cientes da identidade de sua seita, em parte pelo mecanismo informal de histórias de reencarnação.

Os Drusos são uma seita fechada, e por dez séculos não aceitaram conversos.
De acordo com a doutrina Drusa, todas as almas humanas foram criadas em um momento, e seu número é fixo por toda a eternidade.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 19, 2013 10:19 pm

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Adicionalmente, cada pessoa é feita de um corpo e uma alma, e enquanto o corpo pertence ao mundo físico e degenera após a morte, a alma é eterna.

Isto significa que o número da seita foi fixado desde seu princípio e mantido pela reencarnação.

Quando um Druso morre a alma imediatamente renasce em outro corpo (Druso), ou em algo além do humano, no reino seguinte ascendente mais próximo a Deus.

Há algumas exceções a isto, como quando um indivíduo viveu uma vida anterior fora dos limites da seita, mas a vasta maioria das histórias de reencarnação envolve Drusos reencarnados como Drusos.

A questão de a seita ser fechada — não aceitando conversos — indica que há um sentido muito claro e forte de irmandade da seita.

Além disso, coloca a reencarnação numa posição importante defronte a identidade da seita e sociedade.

Ideologicamente, ser um Druso é ser membro de uma comunidade que foi íntegra e impermeável por ao menos mil anos, e a reencarnação é o mecanismo pelo qual a integridade da comunidade original de almas Drusas foi mantida.

Ao pesquisar a reencarnação, o investigador pode encontrar entre os informantes uma relutância em discutir o assunto devido ao sigilo da seita a respeito das matérias religiosas.

Mesmo entre aqueles que são bastante familiares e confiantes do investigador, a discussão sobre a reencarnação é evitada frequentemente.

Às vezes, os informantes evitam recordar momentos do passado incómodos, desconcertantes — por exemplo, quando os membros da família debateram se aceitariam a alegação de um sujeito reencarnado presumido ser um ente querido falecido ou, inversamente, quando aquele que se acredita reencarnado teve que lutar com a confusão feita pela experiência de ser um self dividido, preso entre o presente e o passado.

Adicionalmente, a cautela está relacionada ao estigma associado com a crença na reencarnação na percepção dos muçulmanos e dos cristãos sobre esse assunto, na Síria e no Líbano onde a maioria dos Drusos vive.

Condições Necessárias

Embora não estejam sozinhos no mundo ao sustentar a crença na reencarnação, os Drusos são singulares no contexto cultural e religioso do Oriente Médio muçulmano por sua crença.

Comparadas com outros exemplos de reencarnação, as principais diferenças específicas dos Drusos e que influenciam o que é ouvido nas histórias de reencarnação incluem o seguinte:

1. Morte Repentina e Inesperada.
A maioria das vidas passadas lembradas são de Drusos que experimentaram morte repentina, inesperada, e frequentemente violenta.

2. Renascimento Imediato.
Na maioria das culturas que acredita na reencarnação, uma alma pode vagar durante meses ou anos antes do renascimento.

Para os Drusos, a alma do recentemente morto renasce imediatamente como alguma criança ou forma não humana mais alta.

3. Renascimento exclusivamente humano (ou mais alto).
A possibilidade que uma alma talvez se transfira para uma existência corpórea não humana não existe na crença dos Drusos.

Na reencarnação Drusa, a alma renasce apenas na forma humana, a menos que a alma transmigre acima da existência humana.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 19, 2013 10:19 pm

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Morte Repentina e Inesperada.

Um extenso estudo inter-cultural da reencarnação por Stevenson (1975, 1977, 1980, 1983, 1997) identificou algumas características universais que incluem uma morte repentina e violenta:

Incidências altas de mortes violentas entre as personalidades prévias foram achadas em todas... as culturas em que eu estudei estes casos...
Morte violenta é normalmente inesperada e repentina...
Muitas das... personalidades prévias morreram num momento em que tinham o que eu chamo “negócios inacabados”.

Por esta expressão eu quero dizer alguém, como uma mãe, que morre e deixa um infante ou jovem criança necessitando de seus cuidados
(Stevenson 1980:355).

É interessante que na comparação de Stevenson de oito culturas diferentes, os Drusos libaneses/sírios e o Alawites turcos informem a porcentagem mais alta de mortes violentas em suas histórias de reencarnação (Tabela 1).

Tabela 1

Dados sobre a Porcentagem de Mortes Violentas em Casos de Reencarnação

País, Etnia, ou Grupo(s) Religioso(s) - Percentagem de Mortes Violentas - Número Total de Casos
Turquia (Alawi) / 73,7% / 133 casos
Líbano e Síria (Drusos) / 67,6% / 77 casos
Índia (Hindu) /46,8% / 172 casos
Burma (Budista) / 44,4% / 230 casos
Tailândia (Budista) / 41,6% / 31 casos
Sri Lanka (Budista) / 40,0% / 95 casos
Alasca (Tlingit) / 36,2% / 65 casos
Colúmbia Britânica e Alasca (Haida) / 29,4% / 24 casos
(Extraído de Stevenson 1980:356)

Stevenson adiciona que mesmo em casos de reencarnação seguindo uma morte natural, esta era normalmente repentina e inesperada.

A “alma é pega de surpresa”, como um informante Druso diria.

As histórias de reencarnação Drusas frequentemente envolvem uma morte repentina, inesperada, e frequentemente violenta, o que é considerada uma condição particularmente possível para a reencarnação.

A mãe de Saeed, por exemplo, morreu num acidente de carro quando era jovem.
Aproximadamente cinco anos mais tarde, a sua família concordou em encontrar uma jovem menina diziam talvez ser sua mãe reencarnada.

Com graus variáveis de afeição e interesse, Saeed e seus irmãos vieram a aceitar que esta menina tinha a alma da sua mãe.
Saeed em particular, 40 anos mais tarde, nos anos da década de 1990, continuou a manter um relacionamento afectuoso e cordial com ela.

O irmão mais velho de Abu Qasim, Marwan, morreu na lavoura quando um trator emborcou, atingindo-o de forma fatal e ferindo seu pai.

O pai estava com Marwan quando ele falou suas últimas palavras, e a pessoa que alegava ser Marwan reencarnado, chamada Shafiq, podia lembrar passagens da conversa que aconteceu entre pai e filho no local do acidente.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 19, 2013 10:20 pm

Continua...

A história de Abu Qasim ilustra o uso do discurso informativo:

Ninguém acreditou nele a princípio.
Muito do que ele disse era uma explicação de como o acidente aconteceu.

Depois desse encontro na rua [quando a família de Abu Qasim foi abordada por Shafiq alegando ser Marwan] ele veio ver meu pai.

Meu pai também não acreditou nele a princípio até que ele lhe disse exactamente como o acidente aconteceu.

Ele sabia o que [Marwin] disse no dia que ele morreu, o que ele disse no último momento...
Meu pai corria e quis ajudá-lo, você sabe.
Dizia, “Oh pai, não sangre, não sangre”, até o fim.

Meu pai também tinha se machucado no acidente.
Depois que Shafiq disse estas palavras, meu pai disse, “Bem. Este homem é seguramente Marwan”.

A mãe de Amal foi electrocutada num acidente doméstico quando Amal tinha 17 anos de idade.
Amal estava em casa com sua mãe quando ocorreu.

Aproximadamente cinco anos mais tarde, uma menina chamada Lamis alegou que era a mãe reencarnada e lembrava de morrer nos braços de Amal.

Amal relatou:[i]

Aproximadamente cinco anos depois de minha mãe morrer, começamos a ouvir histórias que minha mãe reencarnara numa aldeia no distrito de Suwayda.

Havia uma menina lá que falava os filhos que deixara para trás.
E esta menina disse a sua mãe, [i]“Eu tenho uma bela casa, mais bela que a sua, e filhos”.


Quando sua mãe tentou pegá-la para comer, ela recusou o alimento, insistindo em vez disso que queria cuidar de seus filhos.

Ela dizia frequentemente que tinha outra família.
A primeira coisa que ela disse foi, “tenho uma menina, seu nome é Amal”, porque morreu nos meus braços.

Amal também informou como as pessoas reagiram à morte da sua mãe:

As pessoas sempre diziam, “Se Deus quiser, sua mãe está reencarnada”.

Diziam isto com grande certeza porque as pessoas que morrem num acidente e têm crianças ou deixam para trás algo especial, é costume dizer “Se Deus quiser, elas reencarnam”.

Isto é especialmente verdadeiro no caso de um acidente repentino e violento.
Mas não é tanto o caso quando vem de uma morte natural.

Continua...
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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 20, 2013 10:26 pm

Continua...

Stevenson (1983) só pode especular quanto ao porque uma morte violenta e/ou repentina é uma característica inter-culturalmente tão comum nos casos informados de reencarnação.

Talvez, sugere, seja devido à intensidade e sofrimento da experiência pré-morte.

A intensidade de alguma maneira fixa a memória da morte, e então pela associação, outras memórias da vida deixadas para trás se aderem.

Entre os Hindus da Índia, dizem que as pessoas que morrem inesperadamente podem se lembrar bem de sua existência passada porque “embora o seu corpo tenha sido destruído, seu ser... ainda vaga num estado inconsciente... se alguém morre inesperadamente, a memória do passado ainda está viva depois de nove meses num novo útero”
(Gupta 1992:189-190).

Renascimento imediato.

Em alguns modelos culturais de reencarnação, a alma não necessariamente renasce de forma imediata, pelo contrário:
podem se passar muitos anos antes do renascimento (Stevenson 1983).

O renascimento imediato, no entanto, diferencia a reencarnação Drusa e acontece imediatamente ou muito pouco depois da morte, com a alma de alguém que morreu reentrando no mundo pelo corpo de uma criança.

Em todas as três histórias consideradas aqui, a cronologia depois da morte súbita está clara.

A família de Amal começou a ouvir os rumores da possível reencarnação da sua mãe de quatro a cinco anos depois de sua morte.

O mesmo é verdadeiro para Saeed e sua família, e a família de Abu Qasim.

A expectativa de renascimento imediato, especialmente se composto por uma morte repentina e violenta, pode encorajar uma receptividade a alegações de reencarnação.

A avó de Amal, por exemplo, estava entusiasmada para investigar os rumores sobre Lamis e se dispôs a viajar à aldeia onde diziam que a jovem menina vivia.

Por tal meio, acaba a distância social entre os indivíduos Drusos e as famílias que eram anteriormente desconhecidas — por serem de aldeias, cidades, ou classes diferentes, — e novas ligações intra-seitas e redes são estabelecidas.

Para os Drusos, a reencarnação cria uma ponte dentro da seita que conecta o indivíduo e a família com base nas redes de parentela, ligando também as aldeias e vizinhanças.

Cria um sentido de irmandade na seita a longo prazo, compartilhado apesar de divisões ocasionadas pela geografia, classe social, ou outras diferenças.

Renascimento somente humano (ou mais alto).

Rebaixamento à forma animal como justiça cármica ocorre em alguns modelos de reencarnação, mas a reencarnação Drusa não inclui essa possibilidade.

Inclui a possibilidade de renascimento a uma ordem mais alta.
“O processo de transmigração prossegue até o fim dos tempos.

No processo as almas ascendem por sua dedicação à verdade, par um grau mais alto de excelência, ou se deteriora ao negligenciar os ensinos religiosos”

(Abu-Izzedin 1993:116).

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 20, 2013 10:27 pm

Continua...

A maioria dos sírios está ciente que os Drusos possuem uma crença na reencarnação.

As pessoas em Damasco brincam condescendentemente sobre isto.

Como resultado, muitos Drusos consideram a reencarnação uma deficiência para a seita porque pode obscurecer ou distrair o entendimento dos forasteiros das bases filosóficas mais importantes de suas crenças.

O foco dos forasteiros na reencarnação descreve a seita como abundante em superstições, e exótica ou estranha no contexto da crença e prática islâmica da corrente principal.

Quando o tema da reencarnação surgiu durante a pesquisa de campo, a maioria dos Drusos foi rápida em salientar que eles não estão sozinhos ao sustentar esta crença, e então prosseguiam repetindo de memória histórias que eles tinham lido ou visto na televisão.

Interpreto tais respostas tanto como um desvio do tema da reencarnação Drusa quanto uma postura defensiva que os coloca dentro de um mundo maior de crentes, antes que como algum grupo peculiar com uma crença esquisita.

Goffman (1963) observa que o estigma, ou uma identidade manchada, não é simplesmente a posse de um atributo particular, tal como sustentar uma crença na reencarnação, ou indivíduos mantendo trabalhos considerados abaixo de sua posição social.

O estigma não existe num vácuo.

Para entender a estigmatização, é preciso reconhecer a linguagem de relacionamentos que age ao redor de estigma, não simplesmente quais atributos específicos são estigmatizados.

“Um atributo que estigmatiza um tipo de possessor pode confirmar a qualidade de outro, e portanto não é nem digno de crédito nem desonroso como uma coisa em si” (Goffman 1963:3).

Se o ponto é feito por um informante Druso que em muitas partes do sul e leste da Ásia hindus e budistas acreditam na reencarnação, a implicação é claramente que a reencarnação em si não é universalmente desonrosa.

Isto não era incomum quando o tema de reencarnação surgiu entre os Drusos com quem eu não era bem-familiarizado.

Foram-me contadas histórias de reencarnação que não envolviam indivíduos Drusos mas focalizavam na centralidade da reencarnação em outras partes do mundo e em outros sistemas de crença.

Este desvio reflecte tanto o interesse da seita em guardar seu conhecimento religioso quanto a gestão da sua imagem para evitar a estigmatização.

Porque dizem que a reencarnação é imediata, há alguma abertura e mesmo antecipação que as almas renascidas, particularmente as que morreram inesperadamente, se farão conhecidas dentro de três a sete anos.

Estas almas renascidas entendem que entraram novamente no mundo “vestindo” o corpo de uma criança.
Algumas crianças entre as idades de três e sete podem começar a falar sobre uma vida passada.

A receptividade dentro das famílias Drusas a este comportamento varia, mas outros fora da família podem fofocar sobre o discurso da criança, e então usam as redes Drusas talvez para ocasionar um encontro entre um suposto indivíduo reencarnado e a família que a alma deixara para trás.

Dentro das famílias e comunidades, a reencarnação traz consigo várias consequências sociais.
Reúne membros de famílias sem ligação que contrariamente nunca teriam se conhecido.

Relações sociais recíprocas, sobrepostas com cativantes termos de discurso baseados na parentela, se seguem às vezes destes relacionamentos “encontrados”.

Nem todos os membros de uma família que são abordados por um indivíduo que alega laços reencarnatórios são igualmente receptivos a tais aberturas.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 20, 2013 10:27 pm

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Ao mesmo tempo, muitos relacionamentos com o parente reencarnado são mantidos para sempre.

Visitas regulares podem ocorrer, troca de presentes, a procura ou oferecimento de auxílio financeiro, e conselho em questões conjugais e outras questões importantes da vida podem ser solicitados e oferecidos.

Pela maior parte de sua vida, Abu Qasim foi profundamente céptico com relação à reencarnação.

Ele começava as histórias sobre reencarnação com dois pontos complementares.

Deixava claro que era respeitoso da doutrina Drusa com a qual ele foi criado, mas isto não queria dizer que ele aceitava cegamente cada princípio com que os Drusos eram associados.

Pela maior parte de sua vida, Abu Qasim em grande parte tinha excluído o conceito de reencarnação porque sentia que não podia ser explicado cientificamente.
Para ele representava uma crença supersticiosa do povo.

De facto muitos Drusos não queriam ser identificados como crentes dogmáticos da reencarnação.

Amal, por exemplo, explicou que a hesitação inicial da sua família em investigar os rumores da reencarnação da sua mãe foi porque eles eram pessoas educadas.

Uma tensão existe entre as ideias que as pessoas têm da incompatibilidade entre a religião e possuírem uma mentalidade moderna ou científica.

Uma tendência em direcção à defensividade quando a reencarnação é o tópico da vez deve ser entendida como um esforço na gestão da imagem por uma comunidade que não é estranha à estigmatização e marginalidade.

Mas às vezes mesmo os cépticos mais dogmáticos tiveram que rever sua posição sobre a reencarnação devido a experiências que eles tiveram que eram difíceis de explicar.

Em tais casos, os indivíduos eram sempre cuidadosos em fornecer uma prova irrefutável de que alguém alegando ser um ente querido reencarnado de facto o era.

O fornecimento de provas é uma parte essencial de todas as histórias de reencarnação Drusas, e normalmente toma a forma de algum conhecimento íntimo da família revelado por um indivíduo que alegar ser um parente reencarnado, conhecimento sabido só a um ou dois íntimos da família e o membro falecido da família.

Assim, o uso do discurso informativo e o linguarar do testemunho são centrais nas histórias de reencarnação.

Mas a aceitação de tal testemunho não é sempre imediata.
Nem os encontros que ocorrem são necessariamente acontecimentos festivos;
mais tipicamente, são ocasiões tensas, com emoções misturadas.

Assim, os Drusos têm uma variedade de reacções com relação à reencarnação:
desqualificação, cepticismo, crença relutante, e aceitação.

Além dessa variedade há alguma sensibilidade às percepções dos forasteiros sobre a reencarnação, o que não surpreende considerando que os Drusos são uma seita relativamente pequena, constituindo só 2 ou 3 por cento da população síria e só aproximadamente 6 por cento da população no Líbano.

Parte da razão para alguma hesitação em aceitar a legitimidade de uma história de renascimento é que estas histórias não são um género familiar na Síria dos dias actuais.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 21, 2013 9:17 pm

Continua...

Condições políticas desencorajam sua reprodução, e a reencarnação é quase inequivocamente rejeitada no Islão.

A Síria é um país que é constituído por aproximadamente 85 por cento de sunitas muçulmanos.
A família governante presidencial é de uma minoria religiosa (Alawi) que governou com mão-de-ferro durante décadas.

O governo de Hafez e agora o Partido de Ba’ath de Bashar al-Assad abafou eficientemente a multiplicidade na Síria de grupos religiosos e étnicos, enquanto trabalhava duro para perpetuar uma ideologia que a Síria é um país de cidadãos socialistas unificados árabe-muçulmanos.

Embora haja igrejas cristãs e mesquitas xiitas na Síria, aí também existe uma cautela concernente às questões de diferenças religiosas e étnicas, e uma discussão aberta de tais distinções é desencorajada.

Neste meio político e religioso, histórias de renascimento não são um género familiar como são através de partes do sul da Ásia que são ou hindus ou budistas.

Por exemplo, na Índia “a circulação destas histórias em si depende de (e cria) uma validação tanto de sua possibilidade quanto autenticidade”
(Gupta 1992:189).

Há uma circulação de histórias de renascimento entre os Drusos, mas a narração frequentemente é marcada por cautela.

Não é reproduzida regularmente no discurso popular.
Diferentemente dos inacreditáveis contos de Bauman (1986) ou das narrativas históricas mexicanas de Briggs (1988) que têm um tempo e lugar característicos para sua narração e repetição, as histórias de reencarnação Drusas são relatadas em particular.

Este é um género em que falta uma associação institucionalizada com um tempo e local que permitam recursos para sua legitimidade pública.

A História de Abu Qasim sobre Marwan

Abu Qasim, um homem de negócios muito viajado e refinado, relatou várias histórias concernentes a reencarnação sobre as quais ele teve algum conhecimento directo.

Destas, no entanto, a história sobre seu irmão que morreu num acidente na lavoura quando Abu Qasim era menino é possivelmente a mais notável para ele.

As circunstâncias cercando a morte de Marwan e a presumida reencarnação forçou Abu Qasim a reexaminar a possibilidade que a reencarnação existe.

Abu Qasim foi a criança mais jovem na sua família por muitos anos.

Nos seus anos adolescentes e os iniciais da vida adulta ele evitou o encontro com um homem levemente mais jovem chamado Shafiq, que alegava ser seu irmão morto.

Quando estava na casa de seus vinte anos, Abu Qasim partiu para a Nigéria para uma estadia de aproximadamente dez anos.

Naquela época ele acreditava que a reencarnação de Marwan era uma possibilidade, mas ele não podia estar certo disto.

Quando ele retornou à Síria no início da década de 1970, sua irmã informou-o que havia uma conversa circulando sobre uma pessoa reencarnada, talvez Marwan.

Minha irmã me contou sobre uma pessoa reencarnada vivendo aqui em Suwayda.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 21, 2013 9:17 pm

Continua...

Seu nome era Shafiq al-Hasan.
Ela me disse que ele veio a nós e que ela se encontrou com ele.
Eu não era exactamente duvidoso sobre esta questão, eu somente não o tinha visto cara a cara.

Fui a sua casa, à casa de Hasan em Suwayda...
Todos nós estávamos presentes na sala.
Ele entrou, mas ninguém tinha prestado muita atenção de quando ele entrara no local.

Disse suas saudações, salaam alay, como é típico, saudando todo o mundo.
Eu não tinha visto a família antes, quaisquer deles.

Ele me saudou, e disse, “Bem vindo, A’del” [isto é, se referindo ao seu nome ao contrário do seu kunya, Abu Qasim], sendo que ninguém me conhecia ou havia falado a meu respeito.

Quero dizer, ele não me conhecia!
Sentamo-nos e conversamos por algum tempo.
Eu queria conversar com ele mais tempo para avaliar suas alegações.

Disse-lhe que eu queria vir outra hora quando houvesse tempo suficiente, quando não houvesse outras pessoas, então eu poderia lhe fazer perguntas.

Mas dois dias depois fui a Damasco.

Neste momento, depois do seu retorno da Nigéria, Abu Qasim estava receptivo ao que Shafiq talvez tivesse a dizer, mas muitas distracções e exigências sociais não ofereceram a oportunidade para um interrogatório mais intensivo de Shafiq.

Mais tarde, Abu Qasim se encontrou e falou demoradamente com Shafiq, e ficou impressionado com o conhecimento íntimo de Shafiq e detalhes da história da família.

Shafiq sabia muitas coisas de conhecimento apenas de Abu Qasim e sua mãe.
Era impossível ignorar a possibilidade que Shafiq realmente talvez fosse seu irmão reencarnado.

Depois disso, Abu Qasim começou a ler tanto quanto podia sobre reencarnação.

Saeed e Um Yasir

A descrição dos encontros iniciais entre o suposto indivíduo reencarnado e os membros com quem ele tenta se encontrar é um elemento chave em todas as histórias de reencarnação Drusas.

Estas descrições dos primeiros encontros são extremamente carregadas emotivamente;
frequentemente existe choro e quase sempre algum exemplo de discurso informativo.

Outra história de primeiro encontro vem de Saeed, um homem agora nos seus setenta anos que encontrou sua presumida mãe reencarnada quando tinha por volta dos seus trinta anos e ela tinha aproximadamente quatro anos de idade.

Naquela época, Saeed vivia em Suwayda e a menina em Salkhad, uma aldeia cerca de 30 quilómetros a sudeste de Suwayda.

O tio paterno da menina tinha ido a Suwayda para informar a família de Saeed sobre ela e o que ela estava dizendo.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 21, 2013 9:18 pm

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Ela tinha convencido alguns membros de sua família natal que a sua família de uma vida passada realmente existia e que não era um produto de sua imaginação.

O tio foi visitar a família de Saeed, contando-lhes sobre a menina e o que ela tinha estado dizendo, e convidando-os a visitar Salkhad.

A primeira reunião de Saeed com sua mãe reencarnada foi como se segue:
Ela [a menina] tinha falado à sua família.
Contou-lhes, “meu nome é tal e tal, e tenho filhos que se chamam...”

E nomeou todas as suas crianças.
Falou para eles sobre nossa vida, você sabe, como vivemos no dia a dia.
Ela tinha quatro anos de idade. Imagine isso!

(AB: E ela não teve qualquer maneira de te conhecer antes disso)?
Não, nunca. Nunca tinha havido qualquer tipo de relacionamento entre ela e nós. Nenhum, absolutamente.

(AB: O que sua “mãe” disse a você na primeira vez que você foi a Salkhad? Como foi esse dia)?

Foi extremamente difícil.
Ela chorou. Se jogou no vestido da mãe e chorou.
Naturalmente tentei encorajá-la a vir para mim mas ela estava muito dominada [pela emoção].

No outro dia quando seus avós vieram me visitar, ela se agarrou em mim desse jeito, e ela chorou e chorou.

Ela me amava tanto. E eu a amei muito.
Vê como foi? Chorou e chorou e chorou e chorou.
Depois de um tempinho ela começou a se sentir melhor, seu rosto ficou limpo.

Toquei seu rosto, e foi quando comecei a estragá-la e abusar dela [ri].
Ela nunca fugiu de mim outra vez.
E desde esse dia, eu sempre a visito.

É uma coisa estranha, não é uma coisa quotidiana absolutamente.
Pelo contrário, é um mistério. Eu não o posso explicar.

O primeiro encontro de Saeed é menos típico que o de Abu Qasim, Amal, e outros, onde a boa vontade em aceitar que se está na presença de uma pessoa reencarnada não é imediata.

Dos três casos, a aceitação de Saeed da sua mãe reencarnada veio facilmente, e é a excepção mesmo dentro da sua família imediata.

A irmã de Saeed, Rasmia, disse que ela não tinha visto Um Yasir (agora referida por seu kunya) em vários anos.

Saeed admitiu que só ele entre a maioria dos irmãos manteve um relacionamento mais consistente com sua mãe reencarnada, a quem ele sempre referia como “minha mãe”.
Abu Qasim, por outro lado, a princípio, se aproximou de seu familiar reencarnado com uma distância estudada.

Quando Abu Qasim retornou de Damasco e teve tempo de visitar o rapaz, Shafiq, uma segunda vez, ele e sua esposa dirigiram até a casa dele para conversar com ele e “estarem seguros que ele era exactamente quem alegava ser”.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 22, 2013 9:41 pm

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Abu Qasim informou o seguinte:

A primeira pergunta que fiz para ele foi “quando foi exactamente que você descobriu que havia reencarnado?”

Ele respondeu, “A primeira vez que eu senti que era outra pessoa foi quando tinha três anos de idade.
Eu pensava que era um adulto e que portanto devia ser muito maior fisicamente.

Eu estava muito confuso sobre o motivo de eu me achar pequeno, por que eu estava num corpo de criança”.

Ele então me disse, “Logo depois dessa sensação, lembrei de minha mãe”.

Shafiq também disse que ele se lembrava de detalhes sobre lugares que foram uma parte da sua vida passada.

Ele descreveu claramente as grandes árvores de damasco na casa onde tinha crescido como irmão de Abu Qasim, Marwan, e ficou confuso com a discrepância entre onde ele vivia no presente e onde ele achava que devia estar vivendo.

Ele quis conversar sobre isto com a sua família natal,

...mas eles lhe disseram para ficar quieto.
Eles não queriam que ele conversasse sobre isso...
Ele tinha quatro irmãs, ele era o único menino.

A sua família ficou muito zangada.
O jovem menino lhes disse, “vocês não são a minha família.
Você não é minha mãe, e ele não é meu pai, e ela não é minha irmã, e eles”,
e assim por diante.

Ficaram muito zangados.

A história de Amal é semelhante neste aspecto.

Uma criança jovem expressa crescente raiva e frustração, sentindo que ela está no lar errado com a família errada.

Tais explosões às vezes são toleradas pelas famílias natais, esperando que elas sigam seu curso.
Às vezes elas são mal recebidas e agravadas.
É uma situação confusa e difícil para a criança e para a família natal.

Nem todo o mundo encoraja ou mesmo permite que uma criança converse desta maneira.
Uma informante disse que ela ameaçou sua irmã mais jovem de falar sobre uma vida passada, e obteve sucesso nisso.

Ela justificou sua aspereza, dizendo que “era estúpido” para sua irmã continuar com isso, sobre outra vida e outra família.

Para essa pessoa, a reencarnação é uma deficiência — uma superstição que subverte a reputação dos Drusos.

Abu Qasim relatou algumas das histórias que o menino lhe contara durante o segundo encontro deles, que foi mais intensivo que a visita do grupo inicial.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 22, 2013 9:41 pm

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Quando ele era criança, Abu Qasim quase foi atropelado enquanto brincava na rua.

Seu irmão mais velho, Marwan, o salvou com um equipamento que o tirou do caminho de um caminhão de barris que descia a estrada.

Abu Qasim há muito tinha esquecido este incidente, mas imediatamente se lembrou dele quando foi narrado novamente.

Não muito depois deste segundo encontro, a família de Shafiq al-Hasan se mudou para o Kuweit, ficando aí por vários anos, onde seu pai tinha um trabalho, e o contacto com ele cessou.

Durante este período, Abu Qasim leu o que podia sobre reencarnação e veio a adquirir maior certeza que Shafiq era seu irmão morto.

Depois que a família de Shafiq retornou do Kuweit, Abu Qasim renovou o relacionamento com Shafiq, o qual ele descreveu como quente e cordial.

Antes de Shafiq se casar, ele visitou os membros da família de Abu Qasim para discutir o casamento e receber a aprovação porque, como Abu Qasim e sua esposa disseram, “é costume” para um irmão ou um filho conversar com sua família sobre os planos de casamento.

O casamento é uma das decisões mais importantes que um Druso faz na sua vida, e é uma decisão feita em comunhão com a família de alguém (Shavit 1993:20).

Fazia pleno sentido para Shafiq discutir as opções e planos de seu casamento com a sua família natal bem como com a da sua vida passada.

Abu Qasim descreve Shafiq como tendo uma vida difícil como uma pessoa dividida.
“A vida o cansa bastante; ele está cansado da vida”.

Abu Qasim e sua esposa expressaram preocupação por ele, mas vêem-no menos frequentemente agora que é casado e tem os próprios filhos para criar.

Eles atribuem o cansaço de Shafiq com a vida à dificuldade emotiva de ser “uma pessoa reencarnada”.

Embora a reencarnação seja um ponto de coesão para a comunidade Drusa, vem no custo de selves divididos que normalmente conseguem mais tarde se reintegrar na vida.

Existe variabilidade dentro das famílias quanto à receptividade do familiar reencarnado.

Por exemplo, é principalmente Saeed entre os cinco outros irmãos que mantém um relacionamento com sua mãe reencarnada, conhecida agora como Um Yasir.

Uma ambivalência penetrante domina as recordações das pessoas em casos onde uma família natal se defrontou com uma criança que estava dividida entre o presente e o passado ou, contrariamente, uma família cujo ente querido perdido foi reinvidicado por alguém anos mais tarde ser o parente reencarnado.

De qualquer modo é uma situação emotivamente tensa.

Quando uma alma reencarnada é aceita e integrada nas vidas das pessoas, é como se virasse qualquer outro relacionamento familiar, uma fonte tanto de interesse quanto encanto.

Abu Qasim e sua esposa gostavam as visitas de Shafiq, mas também se preocupavam com ele quando percebiam que ele se sentia deslocado e melancólico.

Saeed disse que tanto ele quanto sua “mãe” estavam geralmente ansiosos sobre o bem estar um do outro.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 22, 2013 9:42 pm

Continua...

Agora mesmo é um grande problema para ela porque ela sempre está pensando sobre como vivo, se tudo em minha vida vai bem.

E ao mesmo tempo, eu sempre estou preocupado e temeroso por ela.
A saúde dela está boa?
Ela não se cansa por trabalhar demais?
Todo o mundo a trata bem?


A História de Amal

Os três irmãos mais velhos de Amal já eram casados e moravam em outro local na época da morte da mãe deles, e Amal, com dezoito anos, assumiu os deveres de cuidar do lar e de seus quatro irmãos mais jovens.

Encontrei Amal quando ela tinha trinta e um anos.

Há muitos elementos semelhantes nas histórias relatadas por Amal e Abu Qasim.

Ambas falam de mortes violentas precedendo a reencarnação, com rumores de uma reencarnação, seguidas por uma descrição dos problemas de uma jovem criança que tinha que reconciliar as experiências conflituantes do presente e do passado.

Também, ambas descrevem a ambivalência em suas famílias a respeito de se ou como determinar se uma personalidade passada é de facto seu parente.

Amal relatou o seguinte:

Aproximadamente cinco anos depois da morte da minha mãe, começamos a ouvir histórias que minha mãe tinha reencarnado numa aldeia no distrito de Suwayda.

Havia uma menina lá que falava sobre ter crianças que tinha deixado para trás ainda novos.

E esta menina disse a sua mãe, “Eu tenho uma bela casa, mais bela que a sua, e filhos.”
Quando sua mãe tentou pegá-la para comer, ela recusou o alimento, insistindo em vez disso que queria cuidar dos seus filhos.

Ela frequentemente dizia que tinha outra família.
Ela disse, “Eu tenho uma menina, seu nome é Amal”.
[Minha mãe] morreu nos meus braços...

O último a estar com ela fui eu.
Mas, somos educados, e então, sabe, [pausa] nós não fomos à aldeia vê-la... mas minha avó foi.

O extracto acima deixa claro que a família de Amal estava pouco disposta a agir com base nos rumores sobre a jovem menina.

Havia alguma ambivalência ao ser muito rápido em aceitar que uma reencarnação ocorreu.

A avó de Amal, no entanto, não se sentia tão presa e foi à aldeia da menina para vê-la, mas o pai da menina disse que ela estava muito doente para receber visitas.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 23, 2013 9:27 pm

Continua...

(AB: Na cabeça ou no corpo dela)?

Psicologicamente doente.
Psicologicamente, não no seu corpo.
Por causa destes problemas que eu estou relatando.

Seu pai era um professor.
Ele disse, “Como posso levar minha filha à casa de alguém e dizer às pessoas de lá, ‘ela é a sua mãe?’”

Ele tinha razão.
Talvez minha família não tivesse aceitado isso.
Naturalmente, pessoas diferentes vêem as coisas de forma diferente.

Mas quando a menina melhorou, minha avó foi lá outra vez, mas outra vez não viu esta menina.

Depois aproximadamente um ano e meio se passou...
A menina melhorou grandemente.
Ela ia começar o jardim de infância, que é exigido.

Mas ela se recusava a ir porque estava obcecada, preocupada com seus filhos...

Seu tio havia chegado de uma viagem a trabalho no estrangeiro, e disse ao pai da menina, “Você deve levá-la ao local que ela descreve”.

Ela não podia se concentrar na escola. Pensava em seus filhos.
Ela não pensava nos estudos, nem no seu pai, nem na sua mãe, nem no seu avô, nem nos seus irmãos.

Então eles vieram aqui com ela.

A história de Amal, mais que a de Abu Qasim, ilustra as emoções dolorosas às vezes enfrentadas pelas crianças e as suas famílias que têm dificuldade reconciliar presente e passado.

Em muitos pontos na história de Amal, o pai da menina tenta proteger sua filha e outros do tumulto emotivo por evitar um encontro entre sua filha (chamada Lamis) e a família de Amal.

Porque a mãe de Amal tinha morrido jovem, repentinamente, e deixando várias crianças, muitas pessoas disseram a Amal e seus irmãos, “Se Deus quiser, sua mãe está reencarnada; certamente ela está”.

Casos em que um parente morre de forma repentina e sua alma reencarna, seu primeiro e maior interesse diz respeito aos seus filhos.

Lamis, muito antes das circunstâncias levarem-na à família de Amal, frequentemente falava sobre seus filhos, mencionando inclusive seus nomes e atributos físicos.

Quando o pai de Lamis finalmente foi convencido pelo seu irmão de procurar as pessoas as quais sua filha era obcecada, a notícia se espalhou pela comunidade:
“Quem morreu em Jeremana, com uma filha chamada Amal, e uma chamada Semah que tem um cabelo vermelho comprido e ondulado?”

Antes do pai de Lamis ser convencido pelo seu irmão a iniciar a procura pela família de Amal, ele fez tudo o que podia para proteger sua filha e outros que talvez sofressem emotivamente se o assunto fosse levado adiante.

Pensou que era melhor impedir o contacto entre as famílias, e esperava que sua filha crescesse além da sua obsessão com uma vida passada.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 23, 2013 9:27 pm

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Tentou convencê-la que seria difícil de achar a outra família e, se contactada, alegar que ela é a mãe morta.

Ao contar essa parte da história, Amal concorda.
“Talvez nós não tivéssemos aceitado isso.
Nem todo o mundo vê as coisas da mesma forma”.


Apesar de ser um princípio central para a seita, algumas pessoas pensam que a crença na reencarnação está desaparecendo, especialmente nas gerações recentes, muitas das quais deixam as aldeias para Damasco, os Estados do Golfo, e além.

Isto ocorre particularmente entre os que recebem maior educação.

CONCLUSÕES

A reencarnação para os Drusos não é apenas sobre reuniões felizes.

É sobre reconciliar o passado e o presente, e é frequentemente uma situação emotivamente difícil para as famílias em questão, que sempre envolve algumas adaptações, e acordos normalmente tanto emotivos e práticos.

Para Amal, isto significou a contenção de sua parte para proteger a criança que alegava ser o veículo para a alma da sua mãe.

Apesar da certeza de Lamis que ela tinha achado o lar e as crianças as quais ela estava procurando, Amal e seus irmãos não se referiram a Lamis como “mãe” nem a trataram como se ela fosse sua mãe, a qual eles sentiram se esforçava para proteger Lamis assim como Amal e a sua família.

A família de Amal aceitou Lamis, a tratou com gentileza, e frequentemente ficavam surpreendidos com algumas coisas que ela dizia e fazia que os lembrava de sua mãe.

Mas se continham e tentavam se relacionar com ela como se fosse apenas outra menininha.

Nós não a amamos como amamos nossa mãe.
Não há esse tipo de sentimento, essas emoções...
Nós a amamos porque ela é uma criança.

Sabe o que eu quero dizer?...
Eu não a chamo de “mamãe”... porque ela precisa viver sua vida como uma criança — naturalmente, sem ansiedade.

A família de Amal e o pai de Lamis tentaram proteger Lamis do conflito dos seus dois mundos, fazendo o que eles consideravam que era no melhor interesse dela e capacitá-la a viver uma infância tão tranquila quanto possível.

A princípio, seu pai pensou que era melhor esperar até que ela crescesse para além de sua obsessão.

Frequentemente uma criança Drusa irá passar por um período em que fala sobre outra família, algo parecido com a fase do amigo imaginário.

O filho de Abu Qasim, por exemplo, passou por tal fase.

Para o filho do Abu Qasim, no entanto, a etapa passou suavemente, não como Lamis, para quem os sentimentos de obsessão e ansiedade se intensificaram ao ponto onde ela não podia mais frequentar a escola.

Mas depois que Lamis encontrou a família de Amal e se estabeleceu um relacionamento entre eles, seu estado mental melhorou e ela pôde retornar à escola e interagir com crianças da sua idade.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 23, 2013 9:28 pm

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Por um dogma da doutrina, o casamento fora da seita é proibido, mesmo para outros muçulmanos.

Há um debate fervoroso entre os Druzos sobre essa questão, que vem acontecendo com frequência cada vez maior nas gerações recentes.

Os sheikhs afirmam que desde seu princípio, a comunidade Drusa se manteve pela reencarnação.
Com isto se quer dizer que o casamento fora da seita é uma ameaça a sua integridade.

Mas explicações oficiais estão fora de questão quando uma família deve lidar com uma criança que fala obsessivamente sobre sua outra família, às vezes ao ponto de rejeitar os membros da família natal actual, ou quando uma família encontra alguém que alega ser um irmão ou outro parente falecido.

Embora, para aqueles que a aceitam como parte de suas vidas, a reencarnação seja mais frequentemente agridoce que alegre, às vezes pode adquirir uma veia cómica.

Uma vez eu indaguei se havia planos para uma família visitar uma prima antipática, já que havia pressões sociais para visitá-la e a sua família bem sucedida.
Alguém respondeu que talvez visitassem esse primo em outra geração (bi-jeel thani).

Esta piada da reencarnação é frequentemente usada pelos Drusos, que preferem adiar temporariamente, talvez pela vida inteira, alguma obrigação social onerosa.

Os casos discutidos neste artigo oferecem exemplos de como a reencarnação ajuda a aumentar a unidade, identidade, e a natureza coesiva social Drusa, isolando uma minoria em contextos tanto religiosos quanto políticos.

A reencarnação vence as barreiras geográficas, de classe, políticas, e outras (tais como o partidarismo dentro da própria seita).

Pode reunir famílias não relacionadas que de outra forma jamais teriam se conhecido.

As relações sociais recíprocas que seguem destes relacionamentos que não são nem consanguíneos nem por casamento, embora aceitem alguns aspectos de parentesco.

Termos de parentela são usados para se referir a indivíduos que alegam ser um parente reencarnado.
Nem todos os membros de uma família, no entanto, são igualmente receptivos a tais alegações.

Mesmo assim, muitos relacionamentos com o parente reencarnado são mantidos para sempre.

Embora para muitos Drusos, a reencarnação seja um fenómeno que cria tensão em termos de como é entendida no contexto religioso, científico, e político, ela é importante e influente já que também trabalha num nível social ao contribuir à força e manutenção da comunidade Drusa.

Um indivíduo reencarnado é considerado um Druso puro, eficientemente removendo qualquer questão de laços de sangue.

A reencarnação é um fenómeno social, não apenas religioso, e ajuda a promover um sentido de família entre os Drusos apesar de haver níveis misturados de receptividade à crença dentro da seita.

1) Todos os nomes que aparecem neste artigo são pseudónimos.
Em árabe é comum os adultos serem chamados por seu kunya, um tratamento honorífico que indica o nome do primeiro filho nascido do indivíduo (tipicamente masculino).

Abu Qasim, portanto, se traduz como “pai de Qasim”, Qasim sendo o filho mais velho deste homem.

O segundo e terceiros narradores, Amal e Saeed, são referidos exclusivamente por seus nomes dados, embora a suposta mãe reencarnada de Saeed seja referida por seu kunya actual, Um Yasir (“mãe de Yasir”), Yasir sendo seu filho biológico mais velho.

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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 23, 2013 9:28 pm

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2)  O trabalho de campo aconteceu graças ao apoio da Fulbright Student Grant entre 1994 e 1996, da Fulbright-Hayes Group Projects Abroad concedido no verão de 2000, e pelo programa “Professors Across Borders” da Universidade São Bernardino do Estado da Califórnia no verão de 2004.

3)  Se conhecimento é poder (Foucault 1980), reter acesso à informação religiosa capacita esta seita a se proteger de escrutínio e de imposições externas.

Como os Drusos são muçulmanos heterodoxos, eles sempre enfrentam o risco de sanções de outros muçulmanos.

Referências

Abu-Izzedin, N. 1993. The Druzes: A New Study of Their History, Faith, and Society. E. J. Brill.
Andary, N. 1994. On Druze Identity. The Druze Society of America.
Bauman, R. 1986. Story, Performance, and Event: Contextual Studies of Oral Narrative. Cambridge University Press.

Briggs, C. 1988. Competence in Performance: The Creativity of Tradition in Mexicano Verbal Art. University of Pennsylvania Press.
CORA (American Druze Society Committee on Religious Affairs). 1984. The Tawhid Faith. Theospohical Foundations, Book Two. American Druze Society.
CORA (American Druze Society Committee on Religious Affairs). 1996. The Tawhid Faith: Fundamental Beliefs, Book Five. American Druze Society.

deSacy, S. 1838. Expose de la religion des Druzes. L’Imprimerie Royale.
Foucault, M. 1980. Power/Knowledge: Selected Interviews and Other Writings 1972-1977. Pantheon Books.
Goffman, E. 1963. Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. Simon & Schuster Inc.

Gupta, A. 1992. The Reincarnation of Souls and the Rebirth of Commodities: Representations of Time in “East” and “West.” Cultural Critique 22:187–211.
Makarem, S. N. 1974. The Druze Faith. Delmar. Caravan Books.
Shavit, S. S. 1993. Lebanese Druze Identity: Change or Continuity? Ph.D. dissertation,
University of California. UMI Dissertation Services.

Stevenson, I. 1975. Cases of the Reincarnation Type. Vol. I: Ten Cases in India. University Press of Virginia.
________________ 1977. Cases of the Reincarnation Type. Volume II: Ten Cases in Sri Lanka. University Press of Virginia.
________________ 1980. Cases of the Reincarnation Type. Volume III: Twelve Cases in Lebanon and Turkey. University Press of Virginia.

________________ 1983. Cases of the Reincarnation Type. Volume IV: Twelve Cases in Thailand and Burma. University Press of Virginia.
________________ 1997. A Contribution to the Etiology of Birthmarks and Birth Defects. (2 Vols). Praeger.
Bennett, Anne. “Reincarnation, Sect Unity, and Identity Among the Druze”. Ethnology, Vol. 45, Nº 2, pages 87-104, 2006. Fator de Impacto:  0,143  (JCR-2006)

§.§.§- O-canto-da-ave
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Re: Casos de Reencarnação

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 24, 2013 9:39 pm

Revisão do Caso Bridey Murphy
C. J. Ducasse

Durante mais de uma década, o caso da reencarnação de Bridey Murphy provocou espanto, irrisão e controvérsia.

Apresentamos a seguir, pela pena de um conceituado filósofo, uma reavaliação do caso.
Ducasse é Professor Emérito de Filosofia, da Universidade Brown, de Providence, no Estado de Rhode Island.

Este estudo foi publicado pela primeira vez, com o título de “Como se Encontra Hoje o Caso da Procura de Bridey Murphy”, na “Revista da Sociedade Americana de Pesquisas Psíquicas”, em janeiro de 1962.

O livro recentemente publicado e muito discutido, “The Search for Bridey Murphy” (A Procura de Bridey Murphy), Nova York, 1962, trata das seis tentativas feitas por seu autor, Mr. Morey Bernstein, entre 29 de novembro de 1952 e 29 de agosto de 1953, para fazer voltar à consciência de uma paciente profundamente hipnotizada, “Ruth Mills Simmons” (pseudónimo de Virginia Burns Tighe), uma vida anterior à actual, e para obter dela pormenores concernentes àquela vida que pudessem ser verificados, mas que não pudessem ser por ela conhecidos, de qualquer maneira normal.

A experiência se mostrou notavelmente bem-sucedida, e conseguiu-se esclarecer um certo número de pormenores obscuros acerca da Irlanda, que a paciente em transe forneceu.

Isso e a forma coloquial – reproduzida palavra por palavra no livro – em que foram apresentados aqueles pormenores intrinsecamente monótonos deram à ideia da reencarnação uma solidez que a tornou mais plausível para os leitores do livro do que as explicações de que dispunham antes.

E isso, por sua vez, abriu-lhes os olhos para o fato de que a reencarnação, se for verdade, pode oferecer uma explicação racional para as grandes disparidades – de outro modo tão chocantes para o sentimento de justiça humano – que marcam, desde o nascimento, a capacidade e o destino dos indivíduos.

Devido a isso o livro se tornou um best seller, quase imediatamente após a sua publicação.

A ideia da reencarnação, porém, contraria tanto as crenças religiosas dominantes no Ocidente como certas presunções que, embora realmente gratuitas, predominam actualmente nos círculos científicos ocidentais.

Em consequência, o súbito aparecimento da hipótese da reencarnação perante a atenção pública levou os representantes, tanto da ortodoxia religiosa como da ortodoxia científica, a atacarem o livro.

Os aspectos sociológicos do caso Bridey Murphy apresentavam um interesse excepcional, mesmo se deixando de lado as provas a favor da reencarnação que se admitia fossem por ele oferecidas.

Com efeito, constituíam eles eloquentes contribuições à psicologia da crença e da descrença, tanto nos cientistas que se aproximavam da “terra encantada” do paranormal como dos guardiães dos dogmas religiosos.

Por esses motivos, e porque o caso ainda é bem lembrado hoje, será interessante rever e discutir aqui todos os aspectos daquele interessante episódio.

1 - O Hipnotizador e Autor e a sua Paciente.

O autor do livro, Morey Bernstein, é um homem de negócios do Estado de Colorado, formado pela Universidade de Pennsylvania.

Seus estudos, segundo parece, não incluíram um curso de psicologia anormal, pois foi somente mais tarde que ele – depois de inesperadamente assistir a uma demonstração particular de hipnotismo – pôs de lado a sua descrença na realidade da hipnose.

A partir de então passou a estudar o assunto e a fazer experiências de hipnotismo.

Por ocasião da primeira das sessões “Bridey Murphy”, em 1952, ele tinha cerca de 10 anos de experiência do hipnotismo, já hipnotizara centenas de pessoas e, em muitas dessas experiências, fizera com que os pacientes regressassem a várias fases de sua infância.

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Re: Casos de Reencarnação

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