Reencarnação na Bíblia

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 02, 2012 10:04 am

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Agora, quando dizemos que este mundo foi estabelecido na diversidade na qual acima explicamos que foi criada por Deus e quando dizemos que este Deus é bom e recto, e mais justo, há numerosos indivíduos, especialmente aqueles que, oriundos da escola de Marcião, e Valentino, e Basílides, ouviram que há almas de diferentes naturezas, que nos objectam, que isto não pode consistir com a justiça de Deus em criar o mundos para designar a algumas de Suas criaturas uma morada nos céus, e não apenas para dar uma melhor habitação, mas também uma mais alta e honorável posição (...)

De Principiis, II, IX

Muitos autores não têm Marcião como gnóstico, apesar de possuir pontos em comum com eles, mas Valentino e Basílides eram sem dúvida gnósticos.

- Ele responde à sua própria pergunta:
“É claro que alguns pecados existem [isto é, foram cometidos] antes de as almas [terem corpos] e, como resultado, cada alma recebe a recompensa de acordo com seu mérito” (19)

Em sua nota (19), Prophet dá sua fonte para esta frase:
Orígenes On the First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 1.8.1, Butterworth, p. 67.

Prophet situa tal citação no livro I, capítulo VIII, parágrafo primeiro;
porém tal trecho não aparece na tradução de De Principiis feita por Crombie na série Ante-Nicene Fathers (1866-1872).

Há uma explicação simples para o facto, segundo John s. Uebersax, Butterworth (1936/1966) baseou sua popular tradução inglesa não numa tradução directa do texto latino de Rufino.

Ele a extraiu de uma tradução alemã feita por Koetschau, que tentara uma magnus opus visando reconstruir o original De Principiis com existia antes da editada tradução de Rufino, a forma em que a maior parte do trabalho chegou até nós.

“Tem-se sugerido que Koetschau fez um uso extremamente liberal de fontes secundárias”, i.e., citações ou paráfrases meramente atribuídas a Orígenes.

Apesar de frase não ser demasiadamente estranha ao sistema origenista, fica revelado aspecto temerário da obra de autora ao não se basear em uma fonte confiável, caso Uebersax esteja certo.

Os texto disponíveis on-line de Ante-Nicene Fathers não tentam fazer uma reconstrução crítica de forma tão atrapalhada.

Eles simplesmente expõem como base o texto de Rufino e, ao fim de cada tomo, colocam extractos da carta de Jerónimo a Avitus e de Philocalia.

Fica a cargo dos leitores a comparação.

- Ao dizer que o nosso destino resulta de nossas acções passadas, Orígenes dá a entender que tivemos alguma forma de existência anterior que precedeu o nosso corpo actual.
Para Orígenes a conclusão óbvia é que a esta existência anterior também foi vivida sob a forma humana.

Na verdade, o estado humano foi devido a um grau de queda maior que o dos anjos e os astros celestes.
Antes das quedas, todas as alma tinham um estado primordial incorpóreo.

Note a (falsa) citação que Prophet faz de Orígenes (digo, de Butterworth) logo acima.
Parece que ela leu uma coisa e entendeu outra.

- Em seu Comentário sobre João, trata da questão da reencarnação, mas não chega a oferecer uma resposta dizendo:
“O assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido...
Exige, por isso, tratamento diferenciado.”
(21)

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 02, 2012 10:04 am

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A nota (21) informa que a citação foi extraída de Comentário de João 6.7.
Para começo de conversa, como se viu acima, Nesse livro e capítulo dessa obra de Orígenes discute-se sim a reencarnação.

Ele afirma que não doutrina entre os judeus contemporâneos seus e que seus pares:

Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transcorporação como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supra-citadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder de Elias.

e segue com uma longa argumentação de que João Baptista não era uma reencarnação de Elias, muito similar, por sinal, a que os apologistas cristãos fazem hoje:

Quanto aos espíritos dos profetas, estes são dados por Deus e são considerados como sendo, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” ( Cor 14:32) e o Espírito de Elias repousou sobre Eliseu (2 Reis 2:15).

Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias”,[i] voltou o coração dos pais para os filhos e foi por causa deste espírito que foi chamado de [i]“o Elias que deve vir”.

O trecho que Prophet exibe se encontra ao fim do capítulo referido do Comentário de João e merece uma contextualização maior:

Não admira, então, se aqueles que conceberam Finéias e Elias como a mesma pessoa;
caso tenham julgado ajuizadamente ou não, não é a questão agora, considerariam João e Jesus como também sendo só mesmo.

Isto, então, eles duvidaram e desejaram saber se João e Elias eram os mesmos.

Em outra ocasião que nem esta, a questão [identificação entre Jesus e João] certamente exigiria uma análise detalhada e o argumento teria de ser bem ponderado quanto à essência da alma, ao princípio de sua composição e quanto a sua entrada neste corpo terreno.

Também deveremos ter de inquirir quanto às distribuições da vida de cada alma, e quanto a sua partida desta via, e se é possível para ela entrar numa segunda vida em um corpo ou não, e se tal ocorre no mesmo período e após o mesmo arranjo em cada caso, ou não, e se entra no mesmo corpo ou em outro distinto, e se o mesmo, se o sujeito permanece o mesmo ao passo que as qualidades mudam ou se tanto o sujeito quanto as qualidades permanecem, e se a alma sempre fará uso do mesmo corpo ou o trocará.

Junto com estas questões, seria também necessário perguntar o que é transcorporação e como ela se difere da incorporação e ele que sustém a transcorporação deve necessariamente que o mundo seja eterno.

A noções desses pensadores também devem ser consideradas;
quem considera que, segundo as Escrituras, a alma é semeada junto com o corpo e as consequências de tal noção também deve ser levada em conta.

De facto, o assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido e tem de ser compreendido de expressões dispersas da Escritura.

Exige, por isso, tratamento diferenciado.

A breve consideração que fomos levados a dar ao problema em relação a Elias e João pode bastar por enquanto; prossigamos ao que se segue no Evangelho.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 02, 2012 10:05 am

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Orígenes não estava falando de nenhum ensinamento secreto a respeito da alma, mas enumerando os pontos a serem levantados com pensadores pagãos ou influenciados por doutrinas tidas por heréticas.

Ele dá uma “receita de bolo” sobre a mesma técnica de argumentação que ele usou contra aqueles que associavam Elias a João e que poderia novamente ser útil no caso de lançarem a hipótese de Jesus e Elias serem os mesmos.

Prophet faz uma única admissão de um texto anti-reencarnacionista de Orígenes no “Comentário sobre Mateus”.

Ela dá essa passagem como uma atitude defensiva de Orígenes contra perseguidores, pois ele:

(...) escreveu quando já estava com mais de 60 anos (por volta de 246-248), o seu contexto leva-nos a questionar se não a estaria negando como uma tentativa de despistar seus inimigos (22).

Pois Orígenes, assim como todos os iniciados nos mistérios gregos e gnósticos, praticava o sigilo.

Bem, vamos à nota 22:

Orígenes nega a reencarnação quando se discute se João Baptista era ou não Elias que voltara.
Nessa discussão dirige-se claramente aos bispos.

Eis a sua negação:
”'Aqui não me parece que por Elias se expressa a alma, ou cairei no dogma da transmigração, que é contrário à Igreja de Deus, que não foi transmitido pelos apóstolos nem é encontrado nas Escrituras” (ênfase do autor).

Aqui, Orígenes rejeita a reencarnação porque ela não se coaduna com a ideia cristã do julgamento final.

Como poderia haver um fim, ele pergunta, se as almas estão continuamente cometendo actos que as obrigarão a retornar à terra para redimi-los?
Ele conclui que o conceito de um final deveria “abolir a doutrina da transmigração”.

Commentary on Mathew (Comentário Sobre Mateus) 13.1, em The Ante-Nicene Fathers (Os Patriarcas Ante Nicéia) 10:474, 475.

Orígenes, entretanto, procurou conciliar a ideia de um final com a ideia de oportunidade contínua através da reencarnação.
Mas afirmando que haveria um final quando o mundo for 'tudo em todos' (1 Cor 15:28), ele também previu que “depois da dissolução deste mundo haveria um outro”.

On First Principles (Sobre Primeiros Princícios) 3.5.3 Butterworth, p.239(...)

Aqui no caso há uma meia-verdade.
Orígenes cria num tipo de reencarnação inter-Eras, mas em instante algum em De Principiis ou qualquer outra obra que chegou até nós ele defendeu alguma reencarnação “na mesma era”.

Do jeito que Prophet coloca tal aspecto de Orígenes ao fim do livro, em uma nota, e como uma saída alternativa em vez de ser o principal;
um leitor desavisado pode ter uma impressão errónea de que Orígenes estava escondendo algo que ele nunca defendeu.

Se não tiver lido a nota 22, pior será a ideia.
Orígenes cria, também, em ressurreição e julgamento final ao fim de cada era e dedica até um capítulo de De Principiis a isso.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 03, 2012 9:14 am

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Ademais, há mais passagens em Comentários sobre Mateus contra a reencarnação (Livro X, cap. XX), além de os trechos que ela tem por pró-reencarnação do Comentário sobre João na verdade, como vimos, são anti.

O Comentário de João, por sinal, precede o de Mateus e na própria introdução do capítulo VI (o utilizado por Prophet), Orígenes fala que tal fora originalmente escrito em Alexandria antes de seu exílio em Cesareia (231), embora tenha sido extraviado e reescrito já na Palestina.

Orígenes, era mais jovem, enfraquecendo o peso do factor idade que Prophet para descartar o Comentário sobre Mateus.

Também não se deve esquecer, Contra Celso IV, XVII.
Prophet ainda tenta associar Orígenes ao gnosticismo e um errinho menor ao citar 1Cor 15:28:
“quando Deus for tudo em todos”.

O ponto que Prophet considera xeque-mate para uma crença de Orígenes na reencarnação (ao estilo ocidental) é o relato de Jerónimo:

Se ainda restam dúvidas sobre o facto de Orígenes ter se referido ou não à reencarnação, podemos confiar no Patriarca da Igreja do século IV, Jerónimo, que o acusou de fazê-lo.

Jerónimo teve acesso aos textos originais em grego, e disse que uma das passagens de Primeiros Princípios prova que Orígenes “acreditava na transmigração das almas”. (26)

A nota (26) informa a passagem: Ad Avitum, 14.

Na verdade, o texto de Jerónimo também foi passível de alteração e, mesmo que não tivesse sido, Jerónimo dá uma citação textual do que dissera Orígenes, não apenas afirmando da boca para fora:

O Fogo do Inferno, além disso, e os tormentos com os quais a sagrada escritura ameaça os pecadores são explicados por ele não como punições externas, mas como aflições de consciências pesadas quando, pelo poder de Deus, a memória de nossas transgressões é posta perante nossos olhos.

“Toda colheita de nossos pecados cresce de novo das sementes que permanecem na alma e todos os actos desonrosos e indignos são outra vez retratados diante de nossas vistas.
Assim é o fogo da consciência e os espinhos do remorso que torturam a mente a medida que ela relembra na referida auto-indulgência”.


E de novo:
“mas talvez este grosseiro e terreno corpo deva ser descrito como névoa e escuridão;
pois ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro, o similar à escuridão levará ao similar nascimento físico
[ou fisicamente nascido]”.

Falando assim ele claramente pleiteia claramente pela transmigração das almas como ensinado por Pitágoras e Platão.

“Ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro...”

Mesmo na versão mais heterodoxa possuída por Jerónimo, o relato é de uma reencarnação inter-eras e talvez com continuidade de corpo, não do conceito comum no ocidente moderno.

A fala de Jerónimo foi, pois, inadequada.

Resumindo Prophet:
a maior parte do tempo, ela insinua que Orígenes defendia a reencarnação ao estilo ocidental, com vários reencarnes num mesmo mundo.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 03, 2012 9:15 am

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Passagens que rejeitam a reencarnação tradicional são minoradas (Comentário sobre Mateus), distorcidas para se tornarem pró-reencarnacionistas (Comentário sobre João) ou esquecidas (Contra Celso).

As passagens onde Orígenes adopta o modelo inter-eras são relatadas de forma marginal (De Principiis) ou explanadas por alto sem citação explícita (Carta a Ávitus, de Jerónimo).

Prophet é menos mal que Severino Celestino da Silva ou Langley, mas deixa muito a desejar ainda.

Balanço Geral da Questão Origenista

Afinal, Orígenes acreditava ou não na reencarnação?

Este é um aspecto tremendamente nebuloso de sua doutrina.
A crença na pré-existência é algo mais garantido a partir dos escritos que sobraram.
Apesar de defender uma tese de ressurreição ortodoxa em De Principiis, II, X

“Pois se corpos são erguido outra vez, sem dúvida eles se erguem para nos revestir;
e se nos é necessários ser investidos de corpos, como é certamente necessário, não devemos ser investidos com nenhum outro senão o nosso próprio.”


o sistema origenista guarda grandes semelhanças também com sistemas platónicos.

Algumas diferenças, porém, são chamativas:
a volta a algum corpo físico só se daria entre “aeons” (eras) distintos, não ao mundo tal como o conhecem e, sim, a novos;

uma possível continuidade entre o antigo corpo físico e próximo, o que permitiria conciliar este sistema cíclico com uma ressurreição ortodoxa

(ou uma ressurreição e julgamento final ao fim de cada era, como na versão de Rufino);

um ponto final para essa criações sucessivas (apocatástase), quando todas as almas estariam “sujeitas a Cristo” e Deus seria “tudo em todos”;

e o valor do mérito no futuro, coisa nem sempre presente em sistemas neo-platónicos e que podia levar tanto à ascensões quanto à quedas momentâneas.


A falta de um texto confiável de De Principiis só piora a questão.
Basicamente, as fontes que temos são a tradução corrompida de Rufino, extractos da colectânea Philocalia e uma sinopse de uma tradução “literal” latina de Jerónimo.

Rufino, ao menos, foi honesto em assumir as modificações que fez e deu algumas “justificativas” para tanto em um panfleto intitulado “A corrupção das palavras de Orígenes”:

Seria impossível um homem inteligente e erudito como Orígenes se contradizer dentro de um mesmo tratado, às vezes quase em sentenças sucessivas;

• Outros escritores de inquestionável ortodoxia tiveram suas palavras adulteradas dos “hereges”, como Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, Dionísio de Alexandria;

• O próprio Orígenes reclamara, em uma carta ainda existente, que seu trabalho fora corrompido por heréticos.


O ponto em questão nessa carta era a possibilidade de salvação do diabo.
Orígenes assevera que jamais teria ensinado isso;
mas, durante uma discussão com um herético, tomara ciência que uma versão adulterada de seus textos devia estar circulando.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 03, 2012 9:15 am

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Jerónimo contra-atacou a defesa de Rufino lembrando que escritores anteriores a ele, como Eusébio e Dídimo, já declaravam que Orígenes ensinara coisas indevidas.

Outro complicador ao entendimento é o facto de que – segundo alguns estudiosos (“Deans...”, pág. 125) – Orígenes não foi um pensador sistemático.

Não é possível juntar seus tratados de forma que eles formem um todo coerente.

Por exemplo, a crença em criações sucessiva por não conceber uma divindade ociosa também entra, de certa forma, em contradição com uma restauração universal final.

Além disso, os trabalhos de Orígenes que categoricamente rejeitam a “transmigração de almas” e interpretações reencarnacionistas do Novo Testamento são os do fim de sua vida, como Contra Celsus e os Comentários.

Teria ele adquirido um viés mais “tradicional” conforme envelhecia?
Possivelmente ou, como uma análise pormenorizada mostra, o universo multi-eras de Orígenes poderia ser conciliado com leituras ortodoxas da Bíblia, ao passo que reencarnações dentro de uma mesma criação não o são e foram vigorosamente rejeitadas por ele.

Prophet defende ter Orígenes se tornado “ortodoxo” por conveniência ao fim da vida, para despistar inimigos (no caso do Comentário de Mateus), o que nela esta análise é que uma obra anterior, cuja redacção foi concluída no ambiente mais ameno de Cesareia (a salvo de adversários alexandrinos), e tida por Prophet como reencarnacionista, na verdade não o é:
Comentário de João.

Orígenes, por sinal, nem sempre levava a ferro e fogo muitas de suas especulações e dava ênfase nisso. Os pontos destoantes dele com a ortodoxia algumas vezes são vistos como um exercício intelectual em expor argumentos pró e contra - opinião de Atanásio - ou que não são dogmas antigos, mas opiniões pessoais sujeitas a discussão - segundo de Jerónimo:

Ele (Orígenes) escreve que “(...) suas acções (das almas) e decisões nesta ou naquela direcção é que determinaram seus vários futuros;
isto é, se anjos virão a ser homens ou demónios e se demónios se tornaram anjos ou homens”.


Então, aduzindo vários argumentos para sustentar sua tese e sustentando que, enquanto não incapaz de virtude, o diabo ainda não escolheu ser virtuoso;
ele finalmente raciocina de maneira bem difusa que um anjo, uma alma humana, e um demónio - todos de acordo como ele com a mesma natureza, mas diferentes arbítrios - pode, em razão de grande negligência ou insensatez, ser transformada em feras. (...)

Então, para que ele não seja acusado de sustentar junto com Pitágoras a transmigração das almas, ele termina o raciocínio ímpio com o qual tem ferido seu leitor ao dizer:
“não se deve pensar que faço destas coisas dogmas, elas são apenas conjecturas expostas para mostrar que não se faz vista grossa a elas totalmente.”

Carta 124 a Ávitus

Em suma, tal “reencarnação” multi-eras guarda imensas diferenças tanto com os antigos pitagóricos e platónicos quanto às modernas visões ocidentais do fenómeno.

A principal delas é que a volta a algum tipo de forma física não seria possível na realidade tal como a conhecemos, o que explica porque não se deve estranhar quando Orígenes ataca os que associam João Baptista a uma reencarnação de Elias.

Vale lembrar que o leitor deve se desatrelar do modelo reencarnatório espírita (um para um, progresso constante, várias vezes numa mesma era, passagem obrigatória pelo útero materno, causa e efeito, etc.).

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 04, 2012 9:43 am

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O Mediterrâneo oriental era um mosaico de religiões e um verdadeiro laboratório de crenças aos séculos II e III, cujos sistemas teológicos eram muito mais amplos que isto.

A própria ressurreição judaico-cristã não deixa de ser, de certa forma, – segundo o estudioso de Josefo, Steve Mason – uma espécie de “reencarnação”.

Inclusive a crença da escatologia judaico-cristã em um fim dos tempos, começo de uma nova era (o “mundo vindouro”), transformação do antigo corpo físico em outro “glorificado” para os justos, redenção ou danação para os homens de acordo com o que fizeram na era que finda, etc.;
também é uma forma de “reencarnação multi-eras” muito similar a do polémico tratado De Principiis da juventude de Orígenes.

A ideia de pré-existência, ainda que momentânea, não é tão inédita assim:
o deutero-canónico “Sabedoria de Salomão” vv 8:19-20 pode ser interpretado nessa óptica e Agostinho de Hipona também cogitou alguma forma de pré-existência, embora não partilhasse da teoria das quedas de Orígenes.

Sob estes aspectos e levando em conta a importância que dá ao sacrifício de Cristo, ele é mais ortodoxo que a maioria dos anti-reencarnacionistas imagina ou que os reencarnacionistas gostariam de admitir.

O que o torna “diferente” em De Principiis é que ele não especula apenas três estados do ser (pré-existente, o desta era e o da próxima), mas situações dele ao longo de uma quantidade enorme de eras antes e após esta.

Aí que a maioria dos reencarnacionistas derrapa:
confundem isto com o conceito mais em voga actualmente de reencarnação - na cabeça de alguns o único viável - e não enfatizam o carácter especulativo deste tratado de Orígenes (uma espécie filosofia-ficção semelhante a encontrada em muitos filmes modernos), passando a falsa ideia do que ele propusera era dogma para o próprio e foi e que sua especulação foi consenso até o século VI.

Orígenes foi rejeitado ou não no II Concílio de Constantinopla (V Concílio Ecuménico)?

Orígenes já havia sido rejeitado várias vezes por diversos teólogos antes e o sínodo de 543 fez tão somente reafirmar isso de uma forma “oficial”, devido a ser por essa época que ele começou a incomodar a capital.

Antes dele outras dissidências tiveram prioridade como o arianismo, monofisismo, donatismo, docetismo, gnosticismo, nestorianismo, etc.

Ao que tudo indica, as polémicas origenistas que no começo eram “matéria de discussão” foram realmente tornadas “dogma” por admiradores de Orígenes, em especial, os evagrianistas.

Este teria sido, sim, o sistema condenado na segunda crise origenista.
Até 543 há consenso entre os historiadores.

O que está em dúvida é se houve uma nova rejeição a Orígenes no Concílio de Constantinopla de 553.

Léon Denis escreveu em Cristianismo e Espiritismo, cap I, item IV:

(...) reconhecemos que estes concílios [Calcedónica (451) e Constantinopla(553)] repeliram, não a crença na pluralidade de existências, mas simplesmente a pré-existência da alma, tal como ensinava Orígenes, sob esta feição particular:
que os homens eram anjos decaídos e que o ponto de partida tinha sido para todos a natureza angélica.


Na realidade, a questão da pluralidade das existências da alma jamais foi resolvida pelos concílios.
Permaneceu aberta às resoluções da igreja no futuro, e é esse um ponto que se faz preciso estabelecer.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 04, 2012 9:43 am

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O que Denis não resolve é como existir reencarnação sem pré-existência, nem ele faz alusão às obras anti-reencarnacionistas do teólogo alexandrino.

Dá a entender que muitos espíritas não leram o próprio comentário do continuador de Kardec.
Ainda assim ele está errado:
o objectivo principal do primeiro concílio citado certamente foi combater o nestorianismo.

O peso da influência do sínodo constantinopolitano de 543 no V concílio permanece com muitos dados contraditórios.

Evágrio Escolástico (não confundir com o Pôntico) - em sua obra História Eclesiática, livro IV, cap. 38 – parece que funde os factos de 543 com os 553, dando a entender que o V concílio só tratou do origenismo e foi convocado devido aos distúrbios provocados por Nova Laura.

Tais dados não condizem com as demais fontes que dão maior ou igual ênfase ao nestorianismo dos “Três Capítulos”.

Nas versões latinas das atas de Constantinopla II que chegaram até nós, são praticamente só relatadas as questões dos “Três Capítulos” e quase nenhuma menção é feita a Orígenes ou ao origenismo.

Somente no item XI do Cânon aparece uma citação textual de seu nome e de alguns seguidores, seguida por uma condenação deles.

Não se sabe se os quinze anátemas de 543 (encontrados apenas no século XVII) tiveram participação nas actas ou se foram as opiniões do teólogo quanto a natureza de Cristo.

Esta página de Early Church Fathers apresenta argumentos pró e contra o uso do material do sínodo em 553.

De qualquer forma, os sucessores de Virgílio (Pelágio I e II, Gregório), ao tratarem do quinto concílio, falaram apenas dos “Três Capítulos” e agiram como se não soubessem da condenação (segundo a Catholic Encyclopedia).

Há a possibilidade de os papas não terem tido nenhum interesse na questão origenista, pois, como relatou [Alberigo] o origenismo era fraco no ocidente.

É possível também que Justiniano, como já obtivera dez anos antes a corroboração dos cinco patriarcas (com o papa incluído) para o sínodo local, tenha apenas quisto uma nova confirmação que tivesse mais “status” que a anterior.

Se assim foi, estaria explicado por que o origenismo pouco espaço tomou nas actas.
Vale lembrar que se Teodora teve alguma coisa a ver com esta confusão toda, deve ter sido apenas na memória do Imperador, pois ela morrera em 548.

A pré-existência das almas foi, então, anatematizada?

Os anátemas contra Orígenes - tanto os do imperador quanto os do sínodo de 543 - revelam que a questão origenista transcendia em muito a simples questão da pré-existência.

Em geral só é citado o primeiro anátema de 543:

I - Se algum crer na fabulosa preexistência das almas e na monstruosa reabilitação das mesmas, que é associada a ela, seja anátema

Mas uma análise dos seguintes chama a atenção:

III - Se alguém disser que o sol, a lua e as estrelas pertencem ao conjunto dos seres racionais a que se tornaram o que eles hoje são por se voltarem para o mal, seja anátema.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 04, 2012 9:44 am

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IV - Se alguém disser que os seres racionais nos quais o amor a Deus se arrefeceu, se ocultaram dentro de corpos grosseiros como são os nossos, e foram em consequência chamados homens, ao passo que aqueles que atingiram o último grau do mal tiveram como partilha corpos frios e tenebrosos, tornando-se o que chamamos demónios e espíritos maus, seja anátema

Dos anátemas de Justiniano:

V - Se alguém disser ou pensar que, na ressurreição, os corpos humanos ressurgirão numa forma esférica e distinta da actual, seja anátema.(*)

VIISe alguém disser ou pensar que Cristo, o Senhor, será, em algum tempo futuro, crucificado por demónios assim como foi por homens, seja anátema.

VIII Se alguém disser ou pensar que o poder de Deus é limitado e que ele criou apenas aquilo que foi capaz de alcançar, seja anátema

(*) A tese deste anátema não pode ser encontrada nos escritos que sobraram de Orígenes, estando em alguma obra perdida ou foi cunhada por origenistas posteriores.

Ao menos suas ideias sobre o tópico tinham pontos comuns com a de Paulo.

Apesar de alguma semelhança aparente com a doutrina espírita, as diferenças são imensas.

Sou céptico se a maioria dos espíritas conhece esta parte mais “heterodoxa” do origenismo - talvez nem saibam do que falam - e duvido muito se os que lamentam o episódio de 543 aceitariam-no integralmente.

Teodora matou 500 prostitutas?

Não há nenhum documento histórico que comprove isto.
Mesmo o mais virulento cronista da corte bizantina, Procópio, relata apenas um encarceramento.

E ainda que houvesse ocorrido tal chacina, há evidência suficientes para que o verdadeiro gatilho da segunda crise origenista tenha sido as dissensões ocorridas nos mosteiros sírio-palestinos.

De toda a sorte de crimes que a imperatriz cometeu, foram logo escolher um forjado.
Como o ónus da prova recai sobre quem propõe e Procópio foi o único nome apresentado, cabem aos proponentes arrumar alguma fonte alternativa em outro cronistas bizantino.

Se ela existir.

Afinal, qual o papel de Orígenes nessa história toda?
O de um mito.

Ele representa – para os espiritualistas - “aquilo que fomos um dia, nos desviamos e almejamos voltar a ser”.

Isto, na verdade se encaixa na definição de qualquer mito.

O rei Davi, que unificou as tribos e fez de Israel uma nação imperialista;
Solano Lopez, o déspota esclarecido que fez o Paraguai peitar os interesses ingleses e seus lacaios brasileiros;
Duque de Caxias, militar modelo e pacificador do Brasil.


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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 05, 2012 10:16 am

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Todas estas figuras realmente existiram, mas não eram tidos por seus contemporâneos pelas imagens que têm hoje.
Escavações comprovam que Davi deve ter sido apenas um monarca local, sem tanta pompa e glória.

Francisco Daratioto, em seu livro “Maldita Guerra”, mostra que Solano Lopez era tido pelos paraguaios como um tiranete que levou sua pátria à uma aventura desastrosa.

A construção do “herói nacional” se deu ao longo do século XX, em especial durante a ditadura Stroessnser e, deste lado da fronteira, uma espécie de desforrismo contra a ditadura militar pintou o Brasil como marionete inglesa.

Caxias não era tão bem visto assim na República Velha por ter sido monarquista.
Ele sempre teve prestígio militar, sem dúvida, mas este não era maior do que o dos demais chefes das campanhas platinas, como Osório.
Teve seu valor inflacionado grandemente pela ditadura Vargas.

Neste aspecto, Orígenes se tornou um mito espiritualista.
O prolífico teólogo alexandrino – cujos escritos despertavam igual número de paixões pró e contra – de facto existiu.

O mártir intelectual que cria numa reencarnação aos moldes modernos, era uma unanimidade até o século VI e foi perseguido pelos delírios de um casal de monarcas – em especial a esposa -, é uma construção dos tempos actuais.

Uma “história” personalista da história da cristandade que tira o foco do que interessaria:
o que realmente os pequenos grupos cristãos originais discutiam entre si?

Será que o sacrifício da arena contaria com tantos adeptos caso eles não vissem nisso uma porta da a redenção imediata?

Não estás fazendo “tempestade em com d'água”, dando ao episódio maior importância do que deveria?


Não, por um simples motivo:
as tácticas usadas na criação de mitos.

Selecção de factos e escritos, aumento da importância de alguns aspectos em detrimento a outros, teorias conspiratórias, erros biográficos, quando não revisionismo puro e simples, são coisas que deveriam preocupar qualquer espiritualista que preze algum respeito.

Citei vários autores como Severino Celestino da Silva, Elizabeth Clare Prophet, Noel Langley, José Reis Chaves, Kersten e te pergunto:
posso levar a sério alguns desses estudos?
Definitivamente, NÃO!!!

Devo acusá-los de má-fé?
Também não, do contrário o ónus da prova seria meu e poderia incorrer em calúnia.

A interpretação “mais leve” que posso fazer quanto a eles é que não leram em os escritos de Orígenes e pegaram citações de outros autores (ou uns dos outros) sem fazer a devida verificação.

Neste caso, agiram de modo irresponsável com seus leitores e seus “trabalhos académicos” não passam de “recorte e cole” feito por estudantes fundamentais.

Ao encontrar alguma citação que apoiasse seus pontos-de-vista, suspenderam todo o senso crítico.
É a emoção humana adentrando na “fé racionada”.

Mas cá entre nós ... minha visão íntima do trabalho deles é bem mais rigorosa que isso.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 05, 2012 10:16 am

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Simplificações exageradas também ocorrem por parte de anti-reencarnacionistas como D. Estevão Bettencourt, que esconde o aspecto multi-eras de Orígenes, e há “tábuas de salvação”, como a História da Filosofia feita por Giovanni Reale e Dario Antiseri, que não apela para teorias conspiratórias e situa correctamente o pensamento de Orígenes no conceito de multi-eras.

Para saber mais sobre a querela origenista: Origen and Origenism
(Tudo bem que seja um portal católico, mas acho que eles também têm direito de dar sua versão)

Concílios Ecuménicos

The Deans of the School of Alexandria - ORIGEN - A herdeira da Igreja de Alexandria contando sua própria história.

The School of Alexandria: Origen – Arquivo em pdf que serviu de base para o link anterior.
Extenso (cerca de 900 páginas) estudo sobre a vida, a obra, influência e polémicas de Orígenes.
Possui a vantagem de ter, ao pé das páginas, as referências que faltam no portal da Igreja Copta.

Early Christianity and Reincarnation: Modern Misrepresentation of Quotes by Origen - de John S. Uebersax.
Interessante colectânea de como as obras de Orígenes tem sido distorcidas por portais pró-reencarnação e uma crítica à edição “crítica”
Butterworth-Koestchau.

Aleberigo, G. História dos Concílios Ecuménicos. Paulus, 1995.
Reencarnação e o Velho Testamento: mais de Severino Celestino da Silva

Cresce ultimamente uma suposição de que a reencarnação já era moeda corrente entre os judeus da palestina do século I.

Bem, a sociedade da antiga Judeia era à época de Jesus um verdadeiro caleidoscópio de crenças, com diversas seitas rivais entre si.

Entre elas havia, inclusive, a dos saduceus que descriam em qualquer forma de sobrevivência da alma ou ressurreição.
Para eles todos os benefícios e castigos divinos seriam dados em vida e, após a morte seria o fim.

De facto, muitas passagens do Velho Testamento assinalam a descrença num pós-morte:

Jó: 7-10

Lembra-te que minha vida é um sopro, e que meus olhos não voltarão a ver a felicidade.
Os olhos de quem me via não mais me verão, teus olhos pousarão sobre mim e não mais existirei.
Como a nuvem se dissipa e desaparece, assim que desce ao Xeol não subirá jamais.

Salmos 6:5-6

Volta-te, Iahweh! Liberta-me! Salva-me por teu amor!
Pois na morte ninguém se lembra de ti, quem te louvaria no Xeol?

Eclesiastes 9:4-6

Ainda há esperança para quem está ligado a todos os vivos, e um cão vivo vale mais que um leão morto.
Os vivos sabem ao menos que irão morrer;
os mortos, porém, não sabem, e nem terão recompensa, por que sua memória cairá no esquecimento.
Seu amor, ódio e ciúme já pereceram, e eles nunca mais participarão de tudo que se faz debaixo do Sol.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 05, 2012 10:16 am

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Isaías 38:18-19

Com efeito, não é o Xeol que te louva, nem a morte que te glorifica, pois já não esperam em tua felicidade aqueles que descem à cova.
Os vivos, só os vivos é que te louvam, como estou fazendo hoje.

Nota: O Xeol seria um lugar nas profundezas da Terra para onde os mortos iriam.
Não seria exactamente um além-vida porque lá levariam uma existência apagada, não importando se foram bons ou maus.

Certas seitas cristãs, como as Testemunhas de Jeová, baseiam-se em versículos análogos para rejeitar a existência de vida após a morte que até que chegue o Dia do Juízo Final.

Num credo assim, em que nem ressurreição tinha lugar, arrumar um canto para a reencarnação é algo mais difícil ainda.
Mesmo assim, há quem tente.

A Preposição da discórdia

Uma das controvérsias principais está em Êxodo 20:5

lo'-thishtachveh lâhem velo' thâ`âbhdhêm kiy 'ânokhiy Adonay'eloheykha 'êl qannâ' poqêdh `avon 'âbhoth `al-bâniym `al-shillêshiymve`al-ribbê`iym lesone'ây

Que pode ser traduzido por:

Não te prosternarás diante delas e não as servirás.
Sim, eu mesmo, Iahveh, teu Deus, sou um Deus ciumento(*), sanciono o erro dos pais sobre os filhos, sobre a terceira e sobre a quarta geração dos que me odeiam.

Ciumento - (*) sem tradução precisa em nossa língua.
Outros tem como “zeloso”, ou “de paixão ardente”

Vale alguns comentários a respeito de certas palavras, expostos em “Analisando as traduções bíblicas”, de Severino Celestino da Silva:

`al – sobre, em
`avon – erro, falta
'abhoth – pais
bâniym – os filhos
shillêshiymve – terceira geração, netos
ribbê`iym – quarta geração, bisnetos.

Toda a querela gira em torno da preposição “`al”.

Os espíritas criticam a tradução do trecho final do versículo como:
“erro dos pais sobre os filhos ATÉ a terceira e quarta geração”.

Defendem que o sentido correcto, pelo vocabulário exposto acima, seria: “erro dos pais sobre os filhos, NA terceira e na quarta geração”.
Aí pode haver problemas.

A preposição “`al” admite, diferente do que foi alegado, mais do que os dois sentidos apresentados (em, sobre),

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 06, 2012 9:56 am

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O dicionário hebraico-português, de Rifka Berezin, Edusp, 1ª ed., 2003, em seu verbete para “`al” (pág. 501) traz os seguinte significados:
sobre, em cima; perto, junto; até, por, para

A própria “orientação geral para o uso do dicionário”, contida na introdução, informa:
“vocábulos homógrafos pertencentes à mesma categoria gramatical foram geralmente apresentados num único verbete, e, as respectivas traduções separadas por ponto-e-vírgula”.

Exemplos bíblicos:

Gn 18:8 Tomou também coalhada e leite e o novilho que mandara preparar e pôs tudo diante deles;
e permaneceu de pé junto a eles debaixo da árvore; e eles comeram.

(vayyiqqach chem'âh vechâlâbhubhen-habbâqâr 'asher `âsâh vayyittên liphnêyhem vehu'-`omêdh`alêyhem tachath hâ`êts vayyo'khêlu)

I Sm 1:10 levantou-se Ana, e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente
(vehiy' mârath nâpheshvattithpallêl `al-Adonay ubhâkhoh thibhkeh)

Js 2:8 Antes que os espiões se deitassem, foi ela ter com eles [até eles] no eirado.
(vehêmmâh therem yishkâbhun vehiy' `âlethâh `alêyhem`al-haggâgh)

Jr 18:11 Ora, pois, fala agora aos homens de Judá e aos moradores de Jerusalém(...)
(ve`attâh'emâr-nâ' 'el-'iysh-yehudhâh ve`al-yoshebhêy yerushâlaim (...))

Jr 23:35 Antes, direis, cada um ao seu companheiro e cada um ao seu irmão: Que respondeu o SENHOR? Que falou o SENHOR?
( koh tho'mru 'iysh `al-rê`êhu ve'iysh'el-'âchiyv meh-`ânâh Adonay umah-dibber Adonay )

Portanto, não se tratou de nenhuma fraude premeditada, como se sugere!
Para uma breve discussão dos múltiplos significados de (`al), ver Gramática do Hebraico Bíblico, Allen P. Ross, ed Vida, lição 53.3.

Existe mais de uma preposição com a mesma grafia (ou mais de um uso para a mesma preposição)!
Note que nos dois últimos exemplos (`al) e outra preposição ('el) são usadas lado a lado com o mesmo sentido.

A explicação a seguir pode esclarecer como (`al) se tornou “eclética” a partir de uma mudança fonética na evolução do hebraico bíblico, que pode ter dado origem a homografia:

“Algumas consoantes hebraicas representam sons não conhecidos no português, como é o caso do 'alep ('), oclusão glotal surda, e do `ayin (`), fricativo glotal sonoro, e algumas cinco sibilantes conhecidas no hebreu.

Nos Manuscritos do Mar Morto e até na tradição massorética é frequente a confusão destas guturais (p.ex.: `l, sobre e 'l , até).

As variantes dialetais e as modificações linguísticas de uma a outra época originaram numerosas confusões.
Exemplo típico é o da diferente pronúncia de xibbolet na montanha de Efraim ou sibbolet na Transjordânia, que deu origem ao famoso episódio relatado em Jz 12:5-6”

- Barrera, Julio TrebolleA Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã - Editora Vozes, 2ª ed., parte I, cap. I

Note que Barrera não dá vogais a estas preposições (`al, 'el), pois a vocalização do texto hebraico se deu ao longo da Idade Média, sendo possível uma proximidade maior da pronúncia destas palavras num período anterior.
Como nos exemplos já citados desta confusão no massorético (Jr 18:11 e Jr 23:35).

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 06, 2012 9:56 am

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Os manuscritos de Qumran, mais especificamente 4QSama, trazem uma informação esclarecedora.

Em 2 Sm 3, 27:

Texto massorético (TM)

(...) hasha`ar ledabbêr 'itto basheliy vayyakkêhushâm hachomesh vayyâmâth bedham `asâh-'êl 'âchiyv

4QSama

(...)[h]asha`ar ledabbêr 'itto basheliy [vayyakkêhush]âm `ad hachomesh [vayyâ]mâ(v)th [bedham] `asâh-'êl 'âchiyv

Notas:

1) Os colchetes são lacunas no manuscrito reconstituídas. Os parênteses, uma diferença ortográfica.

2) 4QSama, na verdade, não é vocalizado.

Em Discoveries in the Judean Desert XVII [Cross], pág. 114, há a seguinte explicação quanto a estes trocas preposicionais:

“Vários textos gregos lêem eij (para, a) ou epi (sobre) onde 4QSama tem (`d) e oTM, uma lacuna.
A sintaxe requer uma preposição nesta posição.

Em qualquer outra parte do TM [de 1 e 2 Sm], a preposição empregada é ('l), como na frase (yo'âbh ... 'el-hachomesh) (*), que é encontrado em 2 Sm 2:23, 4:6 e 20:10.

O texto de 4QSama não possui 2 Sm 2:23 e 4:6, mas em 20:10 se lê (yo'âbh vayyakkêhu bhâh `al-hachomesh) com a preposição (`l).

Consequentemente, três preposições são usadas pelos textos hebreus nesta expressão.
Contudo, ('l) e (`l) adquiriram a mesma pronúncia neste período e eles são frequentemente confundidos em 4QSama .”

(*) Joabe... no abdómen (ao pé da letra: na quinta [costela]).

Outra troca entre ('l) e (`l) ocorre apenas dois versículos abaixo, no início de (2 Sm 3:29) “Caia [este sangue] sobre a cabeça de Joabe e sobre/para/a toda a casa de seu pai(...)”:

TM:
yâchulu `al-ro'shyo'âbh ve'el kol-bêyth (...)

4QSama
[y]âchulu `al-[r]o'shyo'âbh ve`al k[ol-]bêyth (...)

Bem, agora o leitor pode estar se perguntando o que tem a ver estas variantes textuais com a crítica de Severino Celestino da Silva quanto à tradução de Ex 20:5?

Uma crucial falha de seu trabalho:
o apego quase dogmático à primazia do Texto Massorético (TM) sobre as demais versões.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 06, 2012 9:56 am

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Não que o TM seja ruim, muito pelo contrário:
é o ponto de partida dos estudantes da bíblia hebraica, foi mantido com grande estabilidade ao longo de 1.800 anos por esmeradas técnicas de cópia e verificação e possui grandes corroborações nos textos qumrânicos.

Mas ele não é o que se possa chamar de uma “edição crítica”:
foi pego “ao todo” e não por meio de uma selecção dos manuscritos de melhor qualidade.

Ele possui uma parcela de erros que foi transmitida de forma inalterada ao longo de séculos pelos sábios massoretas.

Antes da estabilização do texto consonântico, nos primeiros séculos da era cristã, houve uma flutuação e evolução textual dos livros da bíblia.

Os manuscritos do Mar Morto reflectem essa pluralidade original e traduções feitas nesse período e antes (como a Septuaginta) podem resultar em textos discordantes do TM, sem que isto signifique má tradução, apenas uma matéria-prima distinta.

Só para chamar atenção, tanto Qumran e a LXX trazem uma versão do livro de Jeremias que é 13% menor que a da versão hebraica moderna.

Nem a Vulgata foi uma tradução deste três, pois Jerónimo pegou a maior parte do AT em recensões hebraicas mais recentes do texto grego.

A crítica textual do AT foi extremamente dificultada pelo hábito entre as comunidades judias de destruir ou enterrar seus livros religiosos velhos quando novas edições vinham em substituição.

Por causa disto, faltam originais da antiguidade de grande porte.
Dessa maneira, o TM tornou-se dominante simplesmente porque se impôs como único texto autoritativo nos meios académicos.

As teses de Severino Celestino da Silva de autoridade massorética seriam aceitáveis até década de 60 do século XX;
mas após a descoberta, tradução e publicação dos manuscritos do Mar Morto elas não se sustentam mais.

Como se comenta na introdução aos livros de Samuel em “The Dead Sea Scrolls Bible”:

“Estes manuscritos [4QSama, 4QSamb] também têm ajudado a realinhar as assertivas dos académicos quanto ao valor da antiga tradução da Septuaginta.

Tradicionalmente, quando a Septuaginta diferia do Texto Massorético (que vinha sendo considerado o original hebraico), ela era rotineiramente considerada como sendo uma tradução livre (ou mesmo uma paráfrase ou puro erro).

O texto hebraico de Samuel encontrado em Qumran, contudo, concorda frequentemente com a Septuaginta quando difere do Massorético.

Isto demonstra que a Septuaginta foi traduzida de uma forma textual hebraica similar a dos manuscritos qumrânicos.

O problema no trato com a Septuaginta, assim como muitos outros documentos históricos, estivera nas visões e critérios dos académicos, não com os dados.

É claro que a Septuaginta - tal como o Texto Massorético, os manuscritos do Mar Morto e qualquer outra tradição antiga de manuscritos – tem sua parcela de erros.

Mas a importante lição aqui é que a Septuaginta não é uma tradução livre ou falsa, mas sim, no geral, uma tradução fidedigna de sua fonte hebraica.”

Logo, ao insinuar a má-fé dos tradutores de outras religiões para (Ex 20:5) ele está sendo, no mínimo, apressado e equivocado.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 07, 2012 9:09 am

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Vale a pena uma lida na crítica a sua postura perante outras versões de texto relatada em Traduções bíblicas: escolha uma!.

http://br.geocities.com/falhasespiritismo/reencarnacao_biblica_arquivos/segundo_samuel3.jpg

Fragmento de 4QSama contendo parte do o capítulo 3 de II Sm, versículos 23 a 30.

Em (1) e (2) estão assinaladas duas trocas preposicionais em relação ao texto massorético, ambas discutidas acima.

Fragmentos do passados elucidam equívocos perpetrados pelo presente.
Esta figura foi elaborada de [Cross et al.], sendo feita do emparelhamento lado-a-lado do esquemático da página 112 à foto do manuscrito na prancha XV, ao fim do livro.

O interessante, também, é que nem sempre o TM joga a favor de interpretações reencarnacionistas.
O rolo “4QDeutn” possui um versículo de Deuteronómio (Dt 5:9) muito semelhante a Ex 20:5.
Lá, Qumran está de acordo com textos samaritanos e a LXX, estando qual ao de Êxodo.

Por sua vez, o TM traz:
lo'-thishtachveh lâhem velo' thâ`âbhdhêm kiy 'ânokhiy Adonay'eloheykha 'êl qannâ' poqêdh `avon 'âbhoth `al-bâniym ve`al-shillêshiymve`al-ribbê`iym lesone'ây

“(...) o erro dos pais nos filho e até/na terceira e quarta geração (...)”.

Surge a conjunção coordenada (ve), que pode significar “e” (o significado mais comum), “mas”, “ora”, “pois”.
Como não há uma ideia adversativa, nem uma mudança de tema, fica “e” de melhor tradução.

Muitas vezes este “e” não aparece, suponho, por algum emparelhamento do tradutor com (ex 20:5) ou porque os que optam em traduzir (`l) por “até” considerem a conjunção redundante.

O que importa é que fica que o castigo não seria dado apenas “na terceira e quarta geração”, quando os faltantes já estivessem reencarnados, mas também já na própria geração deles e de seus filhos.

A Septuaginta (LXX), adopta em (Ex 20:5) o termo ‘ewj - até (que), epi - sobre – em (Dt.5:9) e novamente ‘ewj em Nm 14:18.

Como o Pentateuco foi traduzido “todo para o grego num período curto de tempo, no século III a.C.” [Jobes, Parte I, cap II], fica sugerido que as trocas preposicionais já ocorriam desde aquela época.

Infelizmente, as passagens do êxodo e suas similares estão perdidas em Qumran.

A versão aramaica (língua aparentada ao hebraico) da “Peshitta” está “espelhada” em relação a LXX.
Nela, Ex 20:5 está como (`l), mas Dt 5:9 oferece uma outra variante que também pode ser vertida para “até”: (le).

Uma outra grande surpresa guardada na Peshitta é Nm 14:18: aqui o texto é mais longo e idêntico a Ex 34:7.

Traduções latinas podem sugerir o oposto, à primeira vista:
in terciam et quartam gerationem.
A preposição latina “in” deu origem ao nosso “em”, só que ela tinha um uso mais sofisticado em nossa língua-mãe.

Se ela fosse utilizada no caso ablativo, equivalia ao “em” e era usado com verbos de permanência, movimento circunscrito ou períodos limitados de tempo;
se no caso acusativo, podia também ser “a”, “até” (onde há noção de tempo), “contra”, “para”, “em” (estes dois com verbos de movimento, em geral).

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 07, 2012 9:10 am

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No exemplo acima, tem-se o acusativo.
Este erro aparece em “O Espiritismo e as Igrejas Reformadas”, de Jayme Andrade, cap VIII, parte 2;
e em “Analisando traduções bíblicas”, de Severino C. da Silva, cap VIII, 4ª ed.

Exemplos do uso de “in” no ablativo:
Sum in urbe (estou na cidade)
Ambulare in agris (passear nos campos)

Exemplos com acusativo:
Eo in urbem (vou para a cidade)
In urbem ingressus est (entrou na cidade)
Incedere in hostes(avançar contra os inimigos)
Amor in patriam (amor à pátria)
In multam noctem (até alta noite)

Exemplos extraídos de:

- Almeida, Napoleão Mendes de; Gramática Latina, Ed. Saraiva, 26ª ed., lições 35 e 101
- Encliclopedia Labor, El Linguaje e las Matemáticas, Vol. VI, Gramática latina, pag. 176, Editorial Labor, 1958

Esta última expressão se encontra, por exemplo, no texto Somnium Scipionis (“O Sonho de Cipião”), de Cícero:
Sermonem in multam noctem proxidimus:
“estendemos a conversa até alta noite”.

É um exemplo típico em que o verbo não é de movimento e in faz parte de um advérbio.

O humanista Erasmo de Roterdão, em seu Colloquia Familiaria, traz ao fim de uma fala do personagem Berthulphus, na “conversa” dedicada às estalagens:
atque illic desidendum est volenti nolenti usque ad multam noctem.
“E lá deves ficar sentado, ainda que a contragosto, directo até alta noite”.

Estes dois exemplos mostram um caso de intercambialidade entre in e outra preposição - ad – tradicionalmente tida como (a/até).
Na verdade, pode haver uma subtil diferença nos usos de in e ad.

Isto fica patente em texto em que as duas preposições são postas em oposição, como na Epístola Moral nº 73 de Séneca:
“Deus ad homines venit, immo quod est propius, in homines venit: nulla sine deo mens bona est.”

Em tradução livre:
”Deus vai até os homens, aliás, mais precisamente, adentra os homens: não há mente sã sem Deus”.

Ambas indicam a direcção que se segue, mas ad dá ideia de aproximação e in remete à noção de um percurso até o interior.

Por isso a in de acusativo em vez de ad no versículo ex 20:5 – para garantir a inclusão da terceira e quarta geração no cômputo.

E mais, o uso de em no sentido de “direcção” deve ter sido um de seus usos originais e uma reminiscência da latina in de acusativo.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 07, 2012 9:10 am

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Dizem-nos isso os clássicos portugueses:
“Os cabelos na barba e os que descem
Da cabeça nos ombros.”

(Luís de Camões, Lusíadas, canto VI, 17)

Ou será melhor “da cabeça até os ombros/aos ombros”?

A língua evoluiu e o uso de em no sentido de direcção regrediu e até quase sumir no português europeu, mas permanece ainda vivo na vertente falada no Brasil em frases como:
“Vou no cinema esta noite”.

Para saber deste assunto sugiro: Coutinho, Ismael de Lima; Gramática Histórica, Editora ao Livro Técnico, item 643, pág. 339

Aliás, é bom que seja citado o contexto todo:

5 - non adorabis ea neque coles ego sum Dominus Deus tuus fortis zelotes visitans iniquitatem patrum in filiis in tertiam et quartam generationem eorum qui oderunt me

6 - et faciens misericordiam in milllia his qui diligunt me et custodiunt praecepta mea
(e faço misericórdia até mil [gerações] daqueles que me amam e guardam meus mandamentos )

Se fosse usar a lógica do autor, dever-se-ia traduzir por “nos filhos, na terceira e na quarta geração”.
Não dá porque somente filiis está no ablativo, sendo apenas o in que o antecede traduzido por em.

A segunda aparição desta preposição latina rege o acusativo (tertiam, e não tertia, com o último “a” longo), numa situação temporal, cabendo-lhe muito bem uma tradução por “até”.

Como fica evidente a mesma situação em ex 20:6 (milia, e não milibus)

Tanto as bíblias de Chouraqui e Jerusalém utilizam a tradução por “até”.
Se isto ainda parece um tanto misterioso, veja, caro leitor, como foi escrita a passagem análoga Nm 14:18

“(...) qui visitas peccata patrum in filios in tertiam et quartam generationem”.

Porque teria Jerónimo mudado o ablativo filiis para o acusativo filios, aqui?
Para a tese das equivalências preposicionais no hebraico, isto é fácil de explicar.

Os que pregam a adopção de regras gramaticais rígidas no hebraico e latim – com significados restritos para (`l) e (in) - podem ter um pouco mais de dificuldade...

Outra citação controversa aparece em Êxodo 34,7.
notsêr chesedh lâ'alâphiym nosê' `âvon vâphesha` vechathâ'âhvenaqqêh lo' yenaqqeh poqêdh `avon 'âbhoth `al-bâniym ve`al-benêybhâniym `al-shillêshiym ve`al-ribbê`iym

Que Chouraqui traduziu por:
“detentor do bem-querer para os milhares, carregador do agravo, da carência, da falta, ele não inocenta, não inocenta, mas sanciona o agravo dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos, sobre os terceiros e sobre os quartos.”

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 08, 2012 8:48 am

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Mantendo uma tradução uniforme para (`al).
A Septuaginta, aqui, usa a preposição epi (sobre) também repetidamente e citando explicitamente as quatro gerações em sequência.

Severino Celestino da Silva verteu por “dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, sobre as terceiras e quartas gerações.”

Ora considerando (`al) como “sobre”, ora como “em”.
Uma diferença subtil, mas que dá uma variação de sentido mais ampla em português:
dá uma ideia de salto entre gerações. Será que foi essa a intenção?

Por sua vez, a Bíblia de Jerusalém, impressão de 1995, manteve a tradução por “até”, destoando tanto do texto hebraico como da Septuaginta.

Por outro lado, ela concorda com a Vulgata:
qui custodis misericordiam in milia qui aufers iniquitatem et scelera atque peccata nullusque apud te per se innocens est qui reddis iniquitatem patrum in filiis ac nepotibus in tertiam et quartam progeniem

Severino Celestino da Silva, no seu “Analisando...”, ainda no cap VIII, faz algumas observações questionáveis.

“Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

É interessante notar que as traduções da Bíblia de Jerusalém, de João Ferreira de Almeida, da Bíblia do Centro Bíblico Católico, Editora Ave Maria e da Bíblia Tradução Ecuménica, todas em português, apresentem-se, esses textos, com a colocação da preposição ATÉ, antes das palavras terceira e quarta geração (...)

A excelente tradução de André Chouraqui também apresenta o texto correcto sem o uso do ATÉ, além de não apresentar nenhum preconceito religioso.”

A explicação é simples:
além de Severino Celestino da Silva aparentar não ter tanto domínio assim do latim, a maioria dessas traduções supostamente “tendenciosas” para português deve ter se baseado no texto latino, cuja a tradução correcta, ao contrário do que Severino C. da Silva diz, não tem nada de equivocada.

Já que ele elogiou Chouraqui, vale assinalar que ele traduziu ex 20:5 usando a famigerada ATÉ, que, como vimos, foi a preposição utilizada na LXX.
O mais interessante vem em livros - traduções como A Torá Viva, do Rabino Aryeh Kaplan, Ed. Maayanot, que oferecem ATÉ em ex 20:5.

Será que um judeu acabou tendo preconceito religioso contra a própria crença? É bom que se explique isto...

Chouraqui, por sua vez, sem querer ou ser explícito deu uma explicação para sua tradução “flexível” dois versículos acima de ex 20:5.

“Ex. 20:3 – não haverá para ti outros Elohîms contra minhas faces.

3. outros Elohîms contra minhas faces:
Notemos que a palavra face, 'panîms', é sempre empregada no plural.

Encontramos aqui grande variedade de traduções:
'Além de mim, em detrimento a mim, contra mim'.

A preposição hebraica tem um emprego tão vasto que praticamente qualquer tradução pode encontrar um apoio nos textos bíblicos.
Mesmo a de Rashi, 'desde o tempo em que existo', pode se justificar a partir de Números 3, 4. (...)”

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 08, 2012 8:49 am

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Chouraqui não diz qual preposição é explicitamente, mas isso é fácil de saber:
ex 20:3 - lo' yihyeh-lekha 'elohiym 'achêriym`al-pânâya

Olha aí senhores a boa e velha (`l) dando mostras de sua versatilidade.
Coisa que o mestre reconhecia, mas um de seus discípulos parece que não.

Um outro trecho do Velho Testamento muito ilustrativos das múltiplas traduções viáveis para ela é Sl 48:5:
É ele quem nos conduz sobre (contra) a morte. (Bíblia de Jerusalém, ed. 1995, nota de rodapé a)
Ele será nosso guia até a morte. (tradução de João Ferreira de Almeida Revista e Actualizada)
Ele mesmo nos conduz para além da morte. (Louvores I, André Chouraqui, ed. Imago)

Interessante ver como Chouraqui comenta sua tradução:
“para além da morte: IHWH é o verdadeiro vencedor da morte.
Ele nos dá a força para escapar à sua fatalidade.”


Por outro lado, a tradução de João Ferreira de Almeida não está errada, apenas adopta interpretação teológica que Iahweh nos acompanharia até o fim da vida.

Como o Sheol do judaísmo pré-exílio não pode ser considerado um verdadeiro “pós-morte”, pode ser que a intenção do salmista tenha sido realmente esta.

Nisto comento do que considero outra grande falha na obra de Severino Celestino da Silva:

“O interessante, nisto tudo, é que são encontradas muitas diferenças de tradução entre elas [as traduções bíblicas].
E porquê? O texto que as originou não foi o mesmo?
Por que falta unanimidade em suas traduções?

E a única resposta é esta: a questão pessoal de cada corrente religiosa coloca em sua tradução.”

Analisando as Traduções Bíblicas, Introdução, 4ª ed.

Primeiramente, a origem das diversas traduções não é a mesma, como explanado mais acima. Nem mesmo o massorético pode ser chamado de “original”.

Segundo, mesmo que ainda tivéssemos o autógrafo de cada livro bíblico disponível e nos livrássemos da má-fé de certos grupos católicos e protestantes – coisa que Severino C. da Silva critica com razão já na introdução de seu livro – ainda haveria um problema sério:
certos versículos permitem mais de uma leitura!

Muitas vezes uma tradução não é algo fixo, isento de interpretação, por causa de flexibilidades semântica e gramaticais.

Por exemplo, a LXX é usada em estudos comparativos entre os credos da Judeia e o judaísmo helenístico da diáspora.

A furada de Severino Celestino Severino da Silva é querer dar sentidos únicos para palavras (como nefesh dos salmos 19 e 23) ou um uso rígido da preposições (como a hebraica `l ou a latina in), uma rigidez gramatical que os antigos falantes dos idiomas originais desconheciam.

Quer um exemplo próximo de nós (e similar a outro já citado)?
“Fulano foi à cidade/ Fulano foi na cidade”.

As gramáticas normativas “clássicas” dão apenas a primeira frase como correcta, apesar de a segunda construção ser a mais comum no Brasil.

Ao lado da (falta de) atitude do “Iavé perverso na maior parte do Velho Testamento e justo quando se trata de reencarnação”, há o argumento da coerência da interpretação reencarnacionista das duas passagens acima com relação a outras.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 08, 2012 8:49 am

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Isto até seria válido se a Bíblia fosse realmente um livro isento de incoerências, ou melhor, se os reencarnacionistas achassem que Bíblia é sempre coerente entre seus livros, eles poderiam até questionar se os “pecados hereditários” do Êxodo, que se chocam com o cap 18 de Ezequiel.

Será que acham?

Severino da Silva alude a Jr 31:29,30:
“Nesses dias já não se dirá:
Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram.
Mas cada um morrerá por sua própria falta.
Todo homem que tenha comido uvas verdes terá seus dentes embotados”


Só que esta passagem é de tempo futuro, quando a casa de Israel e Judá fossem restauradas.

Só um pouco depois, com tempo no presente:
Jr 32-18: Tu fazes misericórdia a milhares, mas punes a falta dos pais, em plena medida, em seus filhos.
Deus grande e forte, cujo nome é Iahweh dos Exércitos.


Tem algo errado aí...

Fazendo um paralelo entre as passagens que promovem e rejeitam a hereditariedade das punições:
http://br.geocities.com/falhasespiritismo/index_int_2.html

Com punições hereditárias

Gn 9:24-25
- Quando Noé acordou de sua embriaguez, soube o que lhe fizera seu filho mais jovem (Cam).
E disse: “Maltido seja Canaã (filho de Cam)! Que ele seja, para seus irmãos, o último dos escravos!”

Dt 23:2 - (..) Nenhum bastardo entrará na assembleia de Iahweh;
e seus descendentes não poderão entrar na assembleia de Iahweh até a décima geração

Dt 28:18 Maldito será o fruto do teu ventre (...)

2 Sm 12:13-14 Então Natã disse a Davi:
“Por sua parte, Iahweh perdoa a tua falta:
não morrerás.
Mas, por teres ultrajado a Iahweh com teu procedimento, o filho que tiveste morrerá.

2 Sm 21:6Que nos sejam entregues sete dos seus filhos, e nós os desmembraremos perante Iahweh em Gabaon, na montanha de Iahweh.

1 Rs 2:33 Recaia, pois, o sangue deles sobre a cabeça de Joab e sua descendência para sempre, mas que Davi e a sua descendência, sua casa e seu trono gozem para sempre de paz da parte de Iahweh.

1 Rs 11:11-12 Então Iahweh disse a Salomão:
”Já que procedeste assim e não guardaste minha aliança e as prescrições que te dei, vou tirar-te teu reino e dá-lo a um de teus servos.
Todavia, não o farei durante tua vida, por consideração para com teu pai Davi;
é da mão de teu filho que o arrebatarei.

1 Rs 21:29 Viste como Acab se humilhou diante de mim?
Por ter se humilhado diante de mim, não mandarei durante sua vida;

é nos dias de seu filho que enviarei a desgraça sobre sua casa.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 09, 2012 9:12 pm

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2 Rs 5:27 Mas a lepra de Naamã se apegará a ti a à tua posteridade para sempre.(...)
Is 14:21 Por causa da maldade dos pais promovei a matança dos filhos.
Jr 16:10-11 – (...) Por que anunciou Iahweh, contra nós, toda essa grande desgraça?
(...) Porque vossos pais me abandonaram, disse Iahweh(...)

Jr 29:21por isso assim disse Iahweh:
Eis que vou castigar Semeias Naalam e à sua descendência.
Jr 32:18 - Tu fazes misericórdia a milhares, mas punes a falta dos pais, em plena medida, em seus filhos. (..)
Sl 109:14 - Que Iahweh se lembre da culpa de seus pais, e o pecado de sua mãe nunca seja apagado!

Sem punições hereditárias

Dt 24:16
Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos no lugar dos pais. Cada um será executado por seu próprio crime.
Jr 31:29-30Nesses dias já não se dirá: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram.

Ez 18:20Sim, a pessoa que peca é a que morre!
O filho não sofre o castigo da iniquidade do pai, como o pai não sofre o castigo da iniquidade do filho:
a justiça do justo será imputada a ele, exactamente como a impiedade do ímpio será imputada a ele.


Jó 34:11Ele retribui ao homem segundo suas obras, e dá a cada um conforme o seu proceder
Sl 28(ou 27):4Dá-lhes, Iahweh, conforme suas obras, segundo a malícia de seus actos.

Is 3:11 Mas ai do ímpio, do homem mau! Porque será tratado de acordo com suas obras.
Lm 3:64Retribui-lhes, Iahweh, segundo a obra de suas mãos

Como disse um poeta: “e agora, José?”
Afinal, paga-se pelo próprio pecado apenas ou pelo dos outros, também?


Seriam as penas hereditárias parte de uma antiga lei, que desapareceria conforme a chegada de um novo tempo e uma nova lei;
tal qual sugere o contraste Jr 32:18 X Jr 31:29-30?

Isto é uma questão que remete à fé do leitor.
O acima mencionado Rabino Aryeh Kaplan assim concilia ex 20:5 - “Mas somente se eles seguirem os caminhos de seus pais (Dt 24:16)”.

O Targum Onkelos http://www.targum.info/onk/ExOnk18_20.htm (versão aramaica parafrástica da Torá, final da antiguidade) traz interpretação semelhante:

“(..) visito os pecados dos pais sobre os filhos rebeldes, até a terceira e quarta geração dos que Me odeiam;
enquanto os filhos continuarem a pecar
(ou concluir em o pecado) depois de seus pais;
mas faço o bem a milhares de gerações dos que Me amam e guardam Meus mandamentos.”


Ou seja, reencarnação não é a única interpretação que desata o nó das punições hereditárias.

Numa análise um pouco mais histórica da situação, dado o valor que os antigos hebreus davam a sua descendência e a tudo que pudesse acontecer com ela, o temor dos castigos hereditário parecia ser temível e eficaz ameaça disciplinadora.

Certo que estes versículos estão fora do seu contexto, o que bota algumas ressalvas.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 09, 2012 9:14 pm

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Por exemplo: Jó 34:11, do jeito que está, não leva em conta que o sofrimento de Jó não era um castigo pela infracção de outrem, muito menos algo merecido pelos próprios actos deste personagem; mas o resultado de um aposta entre Deus e Satanás pela integridade de Jó.

Severino C. da Silva passa por cima deste detalhe quando cita o versículo no cap. VIII seu “Analisando...”.

Cita, também, os demais versículos da coluna da direita (e mais alguns) como garantia de sua interpretação reencarnacionista de Ex 20:5 e Ex 34:7, mas desconsidera o que está na coluna da esquerda – talvez não conscientemente.

Este tipo de incoerência é que não pode ocorrer.

Do mesmo modo, não se deveria defender esta ou aquela interpretação em prol de uma uniformidade em um grupo selecto de mensagens e depois, quando convém, retirar a autoridade do discurso de um debatedor salvacionista mostrando-lhe as disparidades do texto bíblico.

Se deve haver coerência de algum tipo, que comece pelas atitudes.

Uma das mais frequentes passagens utilizada pelos que defendem a reencarnação histórica (e uma das que mais expressa esse paradoxo da busca pela coerência) é a do “cego de nascença” (Jo 9:1-2).

Curioso que os discípulos também perguntam se o pecado cometido teria sido obra dos pais e não apenas dele;
sugerindo, assim, que a ideia de punição hereditária ainda persistia, apesar das críticas de Ezequiel.

Os mesmo que usam esta passagem são os que criticam Ex 20:5, só que eles não se atentam à contradição dessa atitude.

Além disto, talvez haja uma explicação alternativa a estes versículos baseada na crença de certos rabinos de que seria possível pecar ainda no ventre:

“Quando ela [Rebeca] passasse pelas casas de adoração dos ídolos, Esaú se contorceria querendo sair, como se diz, 'os ímpios se desviaram desde o seio materno' (Sl 58:4);
quando ela passasse por sinagogas ou casas de estudo, Jacó se contorceria querendo sair, como se diz, 'antes que saísses do seio, eu te consagrei'” (Jr 1:5)

Génesis rabá (63:6) – Uma compilação de comentários feitos por rabinos feita no século IV, a partir de ensinos anteriores.

Nota: A origem deste extracto é indirecta.
"Sacred Texts" possui apenas uma selecta deste livro.

A Bíblia Ecuménica Barsa comenta a passagem de forma parecida, mas não faz nenhuma referência bibliográfica.

Um portal (em inglês) que desenvolve melhor esta ideia de “pecado pré-natal” entre os antigos judeus é o Comentário de John Lightfoot http://eword.gospelcom.net/comments/john/light/john9.htm quanto a esta passagem.

Bem, algum hebraísta roxo pode ainda alegar:
“Estes exemplos que deste de trocas preposicionais só ocorreram em textos marginais ou traduções, ambos passíveis de serem feitos de forma descuidada.
Nenhum deles é páreo para o esmero da transmissão textual feita pelos mestres massoretas...”


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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 09, 2012 9:15 pm

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Tudo bem, então vai um xeque-mate nessa bitolação:

1 Sm 14:1
vayhiy hayyom vayyo'mer yonâthân ben-shâ'ul 'el-hanna`ar nosê' khêlâyv lekhâh vena`berâh 'el-matsabh pelishtiym
“Um dia, Jónatas, filho de Saul, disse ao seu escudeiro: 'Vamos, atravessemos até o posto avançado dos filisteus...”

1 Sm 14:4
ubhêyn hamma`beroth 'asher biqqêshyonâthân la`abhor `al-matsabh pelishtiym...
“No desfiladeiro que Jônatas procurava atravessar para atingir o posto avançado filisteu...”

hum...
2 Sm 23:23
min-hasheloshiym nikhbâdh ve'el-hasheloshâh lo'-bhâ' vaysimêhu dhâvidh 'el-mishma`tos

! Cr 11:25
min-hasheloshiym hinno nikhbâdh hu' ve'el-hasheloshâh lo'-bhâ' vaysiymêhu dhâviydh `al-mishma`tos
“Era mais nobre do que os trinta, porém aos três primeiros não chegou, e Davi o pôs sobre a sua guarda pessoal”. (i.e. no comando da guarda)

e outro

2 Sm 22:16
koh 'âmarAdonay hineniy mêbhiy' râ`âh 'el-hammâqom ...

2 Cr 34:24...
koh 'âmar Adonay hineniymêbhiy' râ`âh `al-hammâqom...
“Assim diz o Senhor: Eis que trarei males sobre/a este lugar...”
e mais outro! (há muitos se quiser saber...)

2 Cr 34:15
vayya`an chilqiyyâhu vayyo'mer 'el-shâphân hassophêr

2 Re 22:8
vayyo'mer chilqiyyâhu hakkohên haggâdhol `al-shâphânhassophêr
“Então, disse (o sumo sacerdote) Hilquias ao escrivão Safã”

Pois é: por mais que se esperneie, por mais que se negue, o massorético traz dentro de si o testemunho se sua própria evolução.

De uma época em que o hebraico bíblico era língua viva e, como tal, sujeita a flutuações.

Quando se extinguiu, fossilizou-se. Um fóssil extremamente bem conservado, ao ponto de poder ser ressuscitado com êxito no séc. XX e voltar a evoluir.

Nesse ínterim, o que se transmitiu foi um conjunto de normas gramaticais mais rígido do que se estivesse ainda viva como língua.

Isto se reflectiu nas análises críticas da Bíblia, que privilegiaram o tradicional, o recebido, em detrimento do aspecto diacrónico dos tempos bíblicos.

Emanuel Tov, em seu “Textual Criticismo of the Hebrew Bible”, cap. VIII, cita como tais questões contaminaram edições bíblicas da era moderna:
“Ao longo dos anos, muitas correcções gramaticais têm sido propostas, geralmente para formas incomuns que eram corrigidas nas bases de um modelo gramatical formal.

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Re: Reencarnação na Bíblia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 10, 2012 8:54 pm

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Como uma vasta colectânea de exemplos, Sperber(*) ataca directamentee as correcções gramáticas desse tipo, argumentando que eles eram comumente baseadas em 'gramática escolar'.

A maioria das correcções mencionadas por ele são encontradas na Bíblia Hebraica (BH) e em muitos dos comentários, e vale mencionar que a maioria delas não foram repetidas na Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS).

(...)

Ez 2:6 ve'el-`aqrabbiym 'attha yoshebh
e estás sentado com/sobre escorpiões

Correcção: ve`al-...

Os editores da BH tinham uma concepção petrificada do uso das preposições 'l e `l (tomadas respectivamente como 'a/com' e 'sobre') e geralmente corrigiam os textos de acordo.

Estas correcções não são necessárias
(ver A. Sperber, A Historical Grammar of Biblical hebrewA Presentation of Problems com Suggestions to Their Solution, Leiden -1966, pags. 59-63).

Nas próprias palavras de Sperber (pág 58):
“Gramáticas bem como dicionários nos ensinam a diferenciar entre 'l e `l.
A própria Bíblia é obviamente ignorante de qualquer diferença entre 'l e `l e as usa indiscriminadamente (...)

Especialmente os livros de Jeremias e Ezequiel abundam em tais 'irregularidades':
encontramos `l onde, de acordo com a gramática e dicionário, esperaríamos 'l e vice-versa. (...)” pág. 633

“As partículas `l e 'l são usadas indiscriminadamente.
Qualquer diferença em seus significados é sem qualquer fundamentação na Bíblia e deve ser considerada arbitrária.”


Portanto, é provável que toda a crítica feita por Severino Celestino da Silva, não passe de um desses casos de “gramática escolar”.
Por Sperber.

“A prática adoptada pelos comentadores de corrigir o texto da Bíblia - mesmo sobre evidências de manuscritos - para determinar que 'l deva significar 'em direcção' e `l 'sobre' ou 'contra', trabalha com o pressuposto [grifo do autor] que estes são os reais significados destas palavras.

Um exame objectivo revelará que todo e qualquer manuscrito as usa promiscuamente, apesar de eles poderem diferir em suas leituras em qualquer dada passagem.”
(pág. 633)

Em resumo:

• Apesar de a preposição (`l) possuir como significado mais comum “em/sobre”, ela também pode assumir outros valores, entre eles “até”.

• Em Qumran, há casos de intercambialidade entre as preposições (`l), ('l) e (`d).

• Em tempos antigos, houve casos de homofonia entre (`l) e ('l), o que permitiu que a primeira assumisse funções de partícula dativa (i.e. preposição de objecto indirecto) e outros significados de ('l), como “até” (e vice-versa).

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Re: Reencarnação na Bíblia

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