Reencarnação na Bíblia

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 24, 2012 10:49 am

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Jerónimo

Por falar no tradutor da Vulgata, Léon Denis que ele (em Cristianismo e Espiritismo) “afirma que a transmissão das almas fazia parte dos ensinos revelados a um certo número de iniciados”, porém não faz nenhuma alusão à fonte (hum...).

O livro “O Espiritismo e as Igreja Reformadas” (de Jayme Andrade, editora EME, quarta edição) dedica o capítulo VII, parte 3 ao estudo da reencarnação na história e lá preenche tal lacuna:

“São Jerónimo afirmou (Hyeron, Epistola ad Demeter) que a 'doutrina das transmigrações era ensinada secretamente a um pequeno número, desde os tempos antigos, como um verdade tradicional que não devia ser divulgada.'
Esse mesmo Pai se mostra crente na preexistência, em sua 94ª Carta a Ávitus.”

José Reis Chaves, em A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, 7ª ed., ebm, cap VI; faz coro com Andrade:
“São Jerónimo (...) também aceitava a reencarnação.

Aliás talvez seja por isso que a Igreja pouco fale de São Jerónimo.
Ele afirma que a transmigração das almas foi ensinada durante um longo tempo na Igreja. (9)

Muito do que escreveu São Jerónimo escreveu está em forma de cartas.
Em suas Cartas a Avitus, imperador romano, Jerónimo fala sobre a reencarnação (transmigração das almas) (10).

E eis o que escreveu São Jerónimo:
'A transmigração das almas é ensinada secretamente a poucos, desde os mais remotos tempos, como uma verdade não divulgável'.(11)”

As notas de rodapé são:

(9)
Evangelho Esotérico de São João, pág. 68, Paulo le Cour, São Paulo, 1993.
(10) Vidas Passadas – Vidas Futuras, pág. 237, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda. Rio de Janeiro, 1993.
(11) O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Sinceramente, estranhei quando foi atribuído a Jerónimo um perfil pró-reencarnacionista.

Ao contrário dos citados acima, Jerónimo já é um Pai pós-nicénico e, portanto, viveu numa época em que a fluidez teológica já diminuíra bastante.

Bem, começando com a carta a Demetrius, pode-se constactar, procurando nos originais, que NÃO existe tal referência elogiosa à doutrina da transmigração na carta a Demetrius.

Pelo contrário, o que se encontra é:

"Este ensinamento perverso e ímpio foi anteriormente amadurecido no Egipto e no Oriente e agora que embosca secretamente como uma víbora em sua toca muitas pessoas daquela região, corrompendo a pureza da fé e gradualmente tocando conta de forma silenciosa como um mal hereditário, até atacar um grande número"

Isto é, Jerónimo está fazendo alusão à disseminação do origenismo no meio sírio-egípcio, um dos ingredientes da primeira crise origenista.

Continuando:
a Carta a Ávitus é de número 124 (desconheço outra sequência que a enquadre na 94ª posição), bom... são detalhes.

O que começa a chamar atenção seria é o título de imperador desse tal de Ávitus.
Jerónimo nasceu em 340, no ano da morte de Constantino II (imperador do ocidente) e subida ao trono de Constante (340-350).

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 25, 2012 9:12 am

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O oriente era governado pelo irmão de ambos Constâncio II.
Em 350, Magnêncio toma o trono do ocidente, mas no ano seguinte Constâncio II o derrota e governa o império todo até 360 (ano de baptismo de Jerónimo) quando é derrubado por Juliano (360-363).

Seguem Valentiano I (364-375), tendo como co-imperador Valente (364-378) e Teodósio – o último a governar um império indiviso (378-395).
Seu filho Honório ficou com o ocidente (395-423) e Arcádio com o oriente (395-408).

Este foi substituído por Teodósio II (408-450).
Jerónimo morreu em 420, não conhecendo nenhum imperador de nome Avitus.
O cidadão a que ele faz menção deve ter sido o mesmo que o apresentou a uma mulher de nome Salvina na carta 79ª, datada em 400 d.C.

A carta a Avitus é datada em 409-10.
De facto, existiu um imperador romano de nome Avitus (Marcus Maecilius Flavius Eparchius Avitus) que reinou em 455-6 no ocidente, mais de trinta anos após a morte de Jerónimo.

Ele nasceu em 395, logo era muito molequinho quando Jerónimo conheceu Salvina por intermédio do outro Avitus e um rapazola quando a carta em questão foi escrita.

“Detalhes, detalhes”.

Voltando ao que interessa, J.R. Chaves acerta quando diz que Jerónimo escreveu sobre a “transmigração das almas” para Avitus.
Só esqueceu de dizer que ele desceu o sarrafo em tal doutrina a carta inteira!

“Detalhes” (???????).

Na verdade, Jerónimo faz uma sinopse ácida para Avitus de sua tradução latina de De Principiis, a mais polémica obra de Orígenes, em contraposição à versão feita por Rufino, e acusa (erroneamente) Orígenes de ser crente na transmigração e não se mostra nem um pouco a favor da pré-existência como diz Andrade.

Maiores comentários em dessa briga em Concílio de Constantinopla.

Gregório de Nissa

São Gregório de Nissa era reencarnacionista e fazia parte dos teólogos cabalistas que afirmavam que o maior argumento a favor da reencarnação era a justiça de Deus.(14)

Um texto dele:
”Há necessidade de natureza para a alma imortal ser curada e purificada, e se ela não o for na sua vida terrestre, a cura se dará através de vidas futuras e subsequentes.”(15)

José Reis Chaves, em A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, 7ª ed., ebm, cap VI;

notas de rodapé:

(14)
A Reencarnação e a Lei do Carma, pág 47, William Walker Atkinson, São Paulo, SP.

(15) Reencarnação, pág. 153, John Van Auken, Editora Record, Rio de Janeiro, RJ, 1989;
e O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 25, 2012 9:12 am

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Bem, estamos diante de mais uma “citação de citação” patrística sem referência exacta da fonte.
Diz-se o nome do autor, mas nada sobre a obra de onde ela saiu.

Chaves até acerta ao afirmar (um pouco antes) que Gregório de Nissa não cria na “eternidade do inferno” e, junto a Orígenes, foi um dos poucos universalistas da patrística:

Nós certamente cremos, tanto por causa da opinião prevalecente e ainda mais do ensinamento da Escritura, que existe um outro mundo de seres além deste, despojado de corpos tais como são os nossos, que se opõem a tudo que é bom e são capazes de machucar as vidas dos homens, tendo por um acto de vontade se desviado da nobre visão e por sua revolta contra a bondade, personificaram o princípio oposto em si mesmos;
e esse mundo é o que, dizem alguns, o Apóstolo acresce ao número de “coisas sob a terra”, significando em tal passagem que quando o mal for algum dia aniquilado nos longos ciclos das eras, nada será deixado fora do mundo de bondade, mas que mesmo aqueles maus espíritos se erguerão em harmonia com a confissão da Soberania de Cristo.

Sobre a alma e a Ressurreição.

Porém, ao contrário de Orígenes, ele limitava a existência humana a duas claras etapas:

A primeira das ordens de Deus atesta a verdade disto;
a tal que, nominalmente, deu ao homem irrestrito gozo de todas as bênçãos do Paraíso, proibindo apenas o que fosse uma mistura do bom e mal e, assim, composto de opostos, mas fazendo da morte a pena por transgredir esse detalhe.

Porém o homem, agindo livremente por um impulso voluntário, abandonou o quinhão que não estava misturado com o mal e atirou-se no que era uma mistura de opostos.

Embora a Divina Providência não tenha deixado aquela nossa imprudência sem um correctivo.

De facto a morte, como a pena prescrita para a quebra da lei, necessariamente caiu sobre seus transgressores;
mas Deus dividiu a vida do homem em duas partes, nominalmente, esta vida presente e a “fora do corpo” do além-mundo, e colocou sobre a primeira um limite do mais breve tempo possível, enquanto prolongou a outra para a eternidade;

e em Seu amor pelo homem deu-lhe sua escolha, de ter uma ou outra dessas coisas, bom ou mal, digo, qual das partes ele preferia:
ou esta curta e transitória ou aquela de eras infindáveis, cujo limite é a eternidade.
(...)

Quando, então, a humanidade tiver alcançado a que pertence, este movimento contínuo de produção cessará totalmente;
terá tocado a meta destinada e uma nova ordem de coisas bem distinta da presente precessão de nascimentos e morte que conduz a vida da humanidade.

Se não há nascimento, segue necessariamente que não haverá nada para morrer.

Composição deve preceder dissolução (e por composição entendo como a vinda a este mundo pelo nascer);
necessariamente, portanto, se a síntese não precede, a dissolução não se segue.

Portanto, se temos de ir além das probabilidades, a vida após esta se mostra de antemão como algo que é fixo e imperecível, com nenhum nascimento ou decomposição para mudá-la.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 25, 2012 9:13 am

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Sobre a alma e a Ressurreição.

Gregório de Nissa não desconhecia transmigração de almas, mas não aprovava nem sua versão entre humanos, nem a de metempsicose e muito menos a pré-existência das almas:

Desde então a doutrina envolvida em ambas destas teorias está aberta à crítica – a doutrina similar àquelas que associam às almas uma fabulosa pré-existência em um estado especial e as que pensam terem elas sido criadas em uma época posterior aos corpos, talvez seja necessário não deixar nenhuma das declarações contidas nas doutrinas sem exame:

embora embrenhar-se e lutar completamente com as doutrinas de cada lado e revelar todos os absurdos envolvidos nas teorias necessitaria de grande empenho tanto de argumentos como de tempo;

iremos, contudo, rapidamente pesquisar o melhor que pudermos de cada um dos pontos de vista mencionados e então prosseguir nosso assunto.


Aqueles que advogam a referida doutrina e asseveram que o estado de almas é anterior a esta vida na carne, não me parecem serem limpos das doutrinas fabulosas dos pagãos que sustentam aspecto da sucessiva incorporação:
pois alguém tiver de procurar cuidadosamente, descobrirá que a doutrina deles é necessariamente resumida a isto.

Contam-nos que em um de seus doutos disse que, sendo uma e a mesma pessoa, nasceu como homem, e depois assumiu a forma de uma mulher, e voou com os pássaros, e brotou como um arbusto, e obteve a vida de um ser aquático.

E ele que disse essas coisas de si mesmo, até onde podemos julgar, não foi muito longe da verdade:
por tais doutrinas como esta, dizendo que alma passou através de diversas mudanças, são realmente adequadas para o matraquear das rãs e gralhas, a estupidez dos peixes ou insensibilidade das árvores.

Sobre a Construção do Homem - XXVIII.
“Aos que dizem que a alma existiu antes dos corpos ou que os corpos foram formados antes das almas;
e daí também uma refutação para as fábulas acerca da transmigração da alma.”

Mas assim como dissemos que no trigo, ou em qualquer outro grão, toda a forma da planta está potencialmente inclusa – as folhas, o talo, as juntas, o grão, a farpa – e não dissemos em nossa avaliação de sua natureza que nenhuma dessas coisas tem pré-existência ou vem à existência antes das outras, mas que o poder conformado na semente é manifestado em certa ordem natural, não por quaisquer meios que outra natureza seja infusa dentro dele - da mesma maneira que supomos que o germe humano possui a potencialidade de sua natureza, semeada com ele ao primeiro ímpeto de sua existência e que se desdobra e manifesta por uma sequência natural como procede ao seu perfeito estado, não empregando nada externo a si mesma como um degrau para a perfeição, mas avançando por conta própria no devido curso para o estado perfeito;

de modo que não é verdade dizer tanto que a alma existia antes do corpo ou que o corpo existia antes da alma, mas há um começo para ambos, que, de acordo com a visão celeste, jazem sua fundação no arbítrio original de Deus;
segundo a outra, veio à existência por ocasião de sua geração.


Sobre a construção do homem, cap. XXIX – “Uma instituição da doutrina de que a causa da existência da alma e do corpo é uma e a mesma.”

Agostinho de Hipona

O livro “O Espiritismo e as Igreja Reformadas” (de Jayme Andrade, editora EME, quarta edição) capítulo VII, parte 3

Santo Agostinho escreveu:
“Não teria eu vivido em outro corpo, ou em outra parte qualquer, antes de entrar no ventre de minha mãe?”
('Confissões', I, cap. VI).

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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 26, 2012 9:19 am

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Verdade:

Em traduções directas do latim, encontra-se:
“E antes deste tempo, que era eu, minha doçura, meu Deus?[i]

Existi, porventura, em qualquer parte, ou era acaso alguém.
Não tenho quem me responda, nem meu pai, nem minha mãe, nem a experiência dos outros, nem minha memória.

(...)[[i]não há nenhuma alusão à entrada no ventre[i]]”?
(Confissões, da colecção “Os Pensadores”, vol. 6, Abril Cultural, 1973).

Provavelmente houve algum conflito com versões inglesas onde se lê:
“Was I, indeed, anywhere, or anybody? “ [fuine alicubi aut aliquis?], daí uma má tradução errada do termo “anybody”.

Estas duas versões têm subtis e cruciais diferenças:
[i]a primeira é claramente reencarnacionista, ao passo que a segunda não o é necessariamente, podendo ser um questionamento apenas quanto a preexistência.


O trecho imediatamente antes esclarece a dúvida:
“dizei se a minha infância sucedeu a outra idade já morta ou se tal idade foi a que levei no seio da minha mãe?”.

Esta dúvida sempre acompanhou Agostinho, que nunca se definiu como a favor ou contra a existência antes do nascimento, preferindo assumir sua ignorância quanto à origem da alma:

Pois você [Vincêncio Vítor] não apenas caluniou com sua censura os que são afligidos com a mesma ignorância sob a qual eu próprio estou penando, quero dizer, no que diz respeito à origem da alma humana (apesar de eu não ser absolutamente ignorante mesmo quanto a esse ponto, pois sei que Deus soprou a face do primeiro homem, e tal “homem então se tornou alma vivente” [Gn 2:7] – uma verdade, porém, que eu nunca soube com conta própria, excepto o que lera na Escritura);
mas você perguntou tão sucintamente.

“Qual diferença há entre um homem e uma fera selvagem, se ele não sabe como discutir e determinar sua própria qualidade e natureza?”
E você parece nutrir sua opinião tão distintamente, como tendo pensado que um homem deva ser capaz de discutir e determinar completamente os factos de própria qualidade e natureza tão distintamente, de modo que nada acerca de si mesmo deva escapar de sua observação.

Agora, se isto é realmente a verdade da questão, devo, então, compará-lo “ao gado” se não puder me dizer o número preciso de fios de cabelo da sua cabeça.

Mas se, apesar do quanto possamos avançar nesta vida, você nos permitir sermos ignorantes de diversos factos pertencentes a nossa natureza, então eu quero sabe o quão longe sua concessão se estende, que, porventura, pode incluir o mesmo ponto que estamos tratando agora, que de qualquer maneira não sabemos a origem de nossa alma, apesar de sabermos - algo que pertence à fé – além de qualquer dúvida, que a alma é um presente de Deus ao homem, e ainda que ela não é da mesma natureza do próprio Deus.

Da Alma e Sua Origem, Livro I, cap. III

Ao contrário de Orígenes, ele não considerava a união da alma com o corpo como uma punição.
Os problemas viriam com o pecado, que imporia um domínio da matéria sobre alma.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 26, 2012 9:19 am

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A discordância entre Orígenes fica patente numa carta de Agostinho a Optatus:
Mas como afirmas que as almas não se propagam, deves explicar a partir de quê Deus as faz.
É a partir de algum material pré-existente ou do nada?

Pois é impossível que sustentes a opinião de Orígenes, Prisciliano e outros hereges que, por causa dos actos cometido numa vida anterior, as almas são confinadas em corpos mortais e terrenos.

Esta opinião é, na verdade, categoricamente contradita pelo o que o apóstolo de Jacó e Esaú que, antes de terem nascido, não cometeram nem o bem, nem o mal [Rom 9:11].

Nota: Esta carta aparece como sendo a 144ª da colectânea de Jerónimo, que teria, na verdade, uma versão simplificada dela.

J.R. Chaves em seu “Reencarnação na Bíblia e na Ciência”, cap. VI até traz uma versão correcta do texto de “Confissões”, que sugere pré-existência, mas não ainda reencarnação.

O texto que Chaves realmente traz de novo é o de “Contra Académicos”:

A mensagem de Platão, a mais pura e luminosa de toda a Filosofia, pelo menos tornou difusa a escuridão do erro e agora brilha em Plotino, discípulo de Platão, tão semelhante ao mestre, que se pensaria que viveram juntos, ou melhor – uma vez que separados por tão longo período de tempo - que Platão nasceu de novo em Plotino. (8)

Na nota de rodapé (8): Vidas passadas – Vidas Futuras, pág. 35, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda, Rio de Janeiro, 1993.

Ora, mais uma citação de citação.

Mas, por incrível que pareça, tal texto realmente existe e está no capítulo XVIII de Contra Académicos (finalmente uma dentro!).

O texto da tradução inglesa de John J. O'Meara (Paulist Press) traz:
“that one should rather think that Plato had come to life again in Plotinus”.
Isto é: “voltara à vida novamente em Plotino”.

Isto pode até significar “nascer de novo”, mas pode ter, também, sentido puramente metafórico.
Digo isso porque, quando era “pega para capar” em questões doutrinárias, Agostinho tinha uma posição bem nítida:

Devo agora, vejo eu, entrar na arena de afável controvérsia com aqueles cristãos compassivos que renegam em acreditar que qualquer, ou que todos os que o infalivelmente justo Juiz possa declarar merecedor do castigo do inferno, sofrerá eternamente e quem supõe que eles serão enviados a um período fixo de castigo, maior ou menor de acordo com a quantidade de pecado de cada homem.

Quanto a esta questão, Orígenes foi ainda mais indulgente;
pois acreditava que mesmo o próprio diabo e seus anjos, depois de sofrerem das mais severas e prolongadas dores a que seus pecados estão reservados, devam ser libertados de seus tormentos e associados com os santos anjos.

Mas a Igreja, não sem razão, condenou-o por este e outros erros, especialmente por sua teoria de alternâncias incessantes entre felicidade e miséria e uma interminável transição de um estado a outro em períodos de eras fixas;
pois nesta teoria ele perde mesmo o crédito por ser misericordioso, ao distribuir aos santos misérias verdadeiras misérias para a expiação de seus pecados e falsa felicidade, que não lhes traz nenhuma alegria verdadeira e segura, isto é, uma destemida certeza da eterna redenção.

Muito diferente, porém, é o erro de que falamos, que é ditado pela compaixão destes cristãos que supõem que os sofrimentos dos que forem condenados no julgamento será temporário, ao passo que a redenção de todos que serão cedo ou tarde libertos será eterna.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 26, 2012 9:20 am

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Cidade de Deus, XXI, 17

De Chaves:

Santo Agostinho morreu em 430, ou seja, 123 anos antes de V Concílio Ecuménico de Constantinopla II (553), o qual, supostamente, teria condenado a reencarnação.

Agostinho de Hipona, mais de 123 antes de 553, já condenava o origenismo com seu sistema inter-eras e as ideias ao estilo de Gregório de Nissa, afinal fora contemporâneo à primeira crise origenista.

Podes até achar cruéis as palavras de Agostinho – também acho – mas era o que ele realmente pensava.
Apesar de crente em certo tipo de pré-existência, adopta a vida única em estado mortal.

Uma combinação sui generis.
Ironicamente, Chaves deveria saber disso, pois um autor usado por ele – William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47; uma página após falar de Justino – já falava da oposição de Agostinho ao origenismo.

Latino, pelo fim do terceiro século opinava que a ideia de imortalidade da alma implicava sua pré-existência.
S. Agostinho, em suas “Confissões”, usa as seguintes notáveis palavras:
'Não vivi eu em outro corpo [erro aqui, como visto acima] antes de entrar no ventre de minha mãe?'

Esta expressão é tanto mais notável, porque Agostinho se opunha a Orígenes em muitos pontos da doutrina, e porque foram escritas no ano de 415.

A quem quiser saber mais sobre as ida e vindas de Agostinho quanto à origem das almas, do sofrimento humano e a gestação de sua doutrina do “pecado original”, sugiro a leitura de The Origenist Controversy, de Elzabeth A. Clark, cap. V, p. 227-244.

O facto de os primeiros teólogos terem agido com tanta veemência na rejeição da “transmigração” pode ser tomado como sinal de que algum grupo ou seita um dia a aceitou, afinal a cultura grega em que os primeiros cristãos estavam imersos a admitia.

Não que fosse impossível o surgimento de facções sincréticas, mas a maior parte da alegações dos que defendem que ela era moeda corrente entre os primeiros devotos passa pela tese de que a reencarnação era professada pela massa que viria a ser a ortodoxia.

Ou ao menos uma doutrina secreta reconhecia pelas autoridades mais altas.
Não é o que aparenta pelos depoimentos acima, nem por outros que serão narrados abaixo.

Outro mito que se arraigou foi de que a reencarnação foi retirada dos ensinos religiosos em dois tempos:
No Concílio de Nicéia, em 324, - o que é falso, pois vários dos exemplos acima são anteriores – e em 553 no Concílio de Constantinopla.

Este merece uma elucidação especial.

Quem quiser uma fonte de consulta, pode procurar em:
Sacred Texts - Early Church Fathers http://www.sacred-texts.com/chr/ecf.htm

Concílio de Constantinopla: (meias-)verdades e (meias-)mentiras

O sistema Origenista

Há alegações para lá de forçadas, em geral feitas por seitas Nova Era, de que Orígenes teria pregado a reencarnação.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 27, 2012 9:35 am

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São feitas muitas especulações a partir da leitura parcial deste filósofo cristão, que fazem vista grossa aos pontos críticos de sua doutrina (que não lhes interessam, óbvio).

Ele crê na preexistência da alma antes do nascimento e que elas se encontravam primordialmente num estado de igualdade.

Só que, ao contrário do espiritismo, as almas não começavam simples e ignorantes, mas numa espécie de situação angelical; afinal

"Quando no começo Ele criou aqueles seres que desejava criar, i.e, de natureza racional, Ele não tinha motivo algum para criá-las de maneira diferente que a em nome de Si mesmo, i.e., Sua divindade.

Como então Ele foi a causa das criaturas que viriam a ser criadas, nas quais não havia nenhuma variação, nem mudança, nem ânsia por poder, Ele criou todas das quais fez iguais e similares, porque não havia n'Ele nenhuma razão para produzir variedade ou diversidade.

Mas como essas criaturas racionais por si só (...) estavam dotadas de livre-arbítrio, esta liberdade de escolha incitou cada uma a progredir a Deus por imitação, ou reduzir-se ao erro pela negligência"
(De Principiis, livro II, cap IX, VI).

Pelo uso do livre arbítrio, elas se cansavam de sua felicidade e se rebelavam, daí a queda delas.

Haveria diferentes níveis de queda, seguindo uma gradação:
anjos, estrelas (supondo que elas tivessem pensamento), homens e demónios.

Tais posições poderiam ser desfeitas, visto que o livre-arbítrio dado poderia permutá-las.

Aqui entra o cerne da pregação origenista:
o conceito de “aeon” - era – cada mundo corresponderia a uma delas e nossas era actual seria especial no sentido nela ter ocorrido o sacrifício de Cristo, o que acelerou a restauração de todas as coisas.

Isto introduz o conceito de “salvação” no sistema origenista.

“Mas quanto a este mundo, que é o próprio considerado uma era, diz-se ser a conclusão de muitas eras.

Agora que o santo apóstolo ensina que na era que precedeu esta, Cristo não sofreu, nem mesmo ainda na era que precedeu aquela, e não sei se sou capaz de enumerar o número de eras passadas que Ele não sofreu.

Mostrarei, porém, de quais palavras de Paulo eu cheguei a este entendimento.

Diz ele:
'Mas agora na consumação das eras [tempos], Ele se manifestou para tirar o pecado pelo sacrifício de Si mesmo.'

Visto que Ele diz ter sido feito vítima e na consumação das eras manifestou-se para tirar o pecado.

Agora após esta era, que é formada pela consumação de outras eras, haverá outras eras por seguir, aprendemos claramente do próprio Paulo, que diz:
'nas eras [tempos] vindouras Ele deve mostrar a extraordinária riqueza de Sua graça na Sua bondade para connosco' (Ef. 2.7).

Ele não disse 'na era vindoura', nem 'nas duas eras vindouras', daí infiro que, por esta linguagem, muitas eras são indicadas.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 27, 2012 9:35 am

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Agora, se há algo maior que eras, de forma que certas eras devam ser compreendidas entre os seres criados, mas entre outros seres que excedem e ultrapassam as criaturas visíveis, (eras maiores) (que talvez será o caso na restituição de todas as coisas, quando o universo inteiros virá a um término perfeito), talvez o período em que a consumação de todas as coisas ocorrerá deva ser entendido como algo mais que uma era.

Mas aqui a autoridade da sagrada Escritura me persuade ao dizer 'Por uma era e mais' ( In sæculum et adhuc ).

Agora esta palavra 'mais' indubitavelmente significa algo maior que uma era;
e veja se [dada] aquela expressão do Salvador 'Estarei onde estou, que estes também estejam comigo e assim como Eu e Tu somos um, que estes sejam um em Nós'(cf. Jo 17:20-22), pode não parecer conveniente algo mais que uma era ou eras, talvez mesmo mais que eras de eras – aquele período, viz.

Quando todas as coisa que agora existem não duram por mais que uma era, quando Deus estiver em todos.”

De principiis, Livro II, cap. III.

Ao fim de cada era, haveria uma ressurreição e um julgamento final.


“Nosso entendimento dessa passagem de facto é que, o apóstolo, desejando descrever a grande diferença entre os que reerguem em glória, i.e., dos santos, tomou emprestado a comparação dos corpos celestes, dizendo 'Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, outra a glória das estrelas'.

E de novo desejando nos ensinar a diferença entre os que virão à ressurreição sem ter se depurado nesta vida, i.e., os pecadores, tomou emprestado a ilustração das coisas terrestres, dizendo, 'há uma carne dos pássaros, outra dos peixes'.

Pois coisas celestes são merecidamente comparadas aos santos e as terrenas aos pecadores.

Estas declarações são feitas em resposta aos que negam a ressurreição dos mortos, i.e., a ressurreição dos corpos.”

De principiis, Livro II, cap. X.

Aos pecadores, ainda haveria uma chance de redenção.

O “fogo do inferno” não seria um castigo físico, mas um fogo moral e purificador:

"O Fogo do Inferno, além disso, e os tormentos com os quais a sagrada escritura ameaça os pecadores são explicados por ele não como punições externas, mas como aflições de consciências pesadas quando, pelo poder de Deus, a memória de nossas transgressões é posta perante nossos olhos.

'Toda colheita de nossos pecados cresce de novo das sementes que permanecem na alma e todos os actos desonrosos e indignos são outra vez retratados diante de nossas vistas.
Assim é o fogo da consciência e os espinhos do remorso que torturam a mente a medida que ela relembra na referida auto-indulgência'.


E de novo:
'mas talvez este grosseiro e terreno corpo deva ser descrito como névoa e escuridão; pois ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro, o similar à escuridão levará ao similar nascimento físico [ou fisicamente nascido]'.

Falando assim ele claramente pleiteia claramente pela transmigração das almas como ensinado por Pitágoras e Platão.”

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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 27, 2012 9:35 am

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Jerónimo, Carta a Ávitus, 124

Pode ser sugerido acima que na passagem de uma era a outra ocorreria o “reencarne”.
Na verdade, há indícios de que a “reencarnação” originiana se daria por alguma forma de continuidade entre um corpo físico e outro, ao menos para a primeira geração da era que se iniciasse

(opinião que corroboro de Origen of Alexandria - The Internet Encyclopedia of Philosophy http://www.iep.utm.edu/o/origen.htm).

Talvez o choque de Jerónimo possa ser explicado por passagens de outras obras de Orígenes em que ele fala de transformações, não trocas de corpo:

“De acordo com a lei de Moisés está escrito sobre certas coisas que 'deitá-las-ei aos cães' [Ex. 22, 31] e foi uma questão referente ao Espírito Santo dar instrução sobre certos alimentos que deveriam ser deixados aos cães.

Quanto outros, então, que são estranhos à doutrina da Igreja, assumem que almas passam de corpos de homens para corpos de cães, segundo seu variável grau de iniquidade;
mas nós, que não achamos isto na divina Escritura, dizemos que uma condição mais racional muda para uma mais irracional, sofrendo esta modificação como consequência de grande indolência e negligência.

Mas também, da mesma forma, um arbítrio que foi mais irracional, por causa de sua negligência da razão, algumas vezes se transforma e se torna racional, de modo que aquele que foi um cão, adorando comer as migalhas que caem da mesa de seus senhor, vai para a condição de filho.

Pois virtude contribui enormemente para fazer de alguém um filho de Deus, mas maldade, e fúria enlouquecida em falas licenciosas e descaramento contribuem para a atribuição de um homem do nome de cão, conforme as palavras da Escritura [2 Sm 16:9]”

Orígenes,[i] Comentário ao Evangelho de Mateus, cap. XI, 17

Desta forma, Orígenes concilia sua crença em mundos sucessivos com um viés “ortodoxo”.

Ele não cria em uma “reencarnação” dentro de nossa era e negou em outras obras a existência disto na Bíblia, o que é perfeitamente coerente com sua ideia de “reencarnação multi-eras” (com continuidade entre corpos).

A medida que seres purificados iam aumentando em número seria chegada a hora da [i]“consumação de todas as coisas”,
onde todos os seres racionais seriam restaurados a sua pureza original (apocatástase) e Deus seria “tudo em todos”.

O universo chegaria a um fim e os seres racionais dispensariam seus corpos.

“O fim do mundo, então, e a consumação final ocorrerão quando cada um se sujeitar à punição por seus pecados, um tempo que só Deus sabe, quando Ele dará a cada um o que merece.

Pensamos, de facto, que a divindade de Deus, por meio de Seu Cristo, chamará todas as Suas criaturas para um fim, até mesmo Seus inimigos sendo conquistados e subjugados.

Pois assim diz a sagrada Escrituras, 'E o Senhor dirá ao meu Senhor, 'Senta-te a minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés'(Sl 110:1).

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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 28, 2012 9:28 am

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'E se o sentido da linguagem do profeta aqui for menos clara, podemos nos certificar do apóstolo Paulo, que fala mais abertamente assim:
'Pois é preciso que Cristo reine até Que Ele ponha todos os inimigos debaixo de Seus pés'(I Cor 15:25).

Mas mesmo se tal explícita declaração do apóstolo não nos informa suficientemente quanto ao significado de 'inimigos sendo postos debaixo de seus pés', escute o que ele diz nas seguintes palavras, 'Pois todas as coisas devem ser postas sob Ele.'

O que então é este 'colocando debaixo' pelo qual todas as criaturas devem estar sujeitas a Cristo?

Sou da opinião que é esta a mesma sujeição pela qual todos nós também desejamos nos sujeitar a ele, pela qual os apóstolos também foram sujeitos e todos os santos que têm sido seguidores de Cristo.

Pois o nome 'sujeição', pela qual estão sujeitos a Cristo, indica que a salvação que procede dele pertence a seus submissos, em concordância com a declaração de Davi,'Não deverá minha alma estar sujeita a Deus?
Dele vem minha salvação.'
(Sl 62:2).”

(De principiis, I, VI, 1)

Mas este não seria o fim da história.

Como não conseguia conceber uma divindade ociosa e seres estáticos, cedo ou tarde o processo recomeçaria com novas quedas:

“Se estas conclusões, então, parecem valer, segue que devemos acreditar que nossa condição em algum tempo futuro será incorpórea e se isto for admitido e todos estiveres submetidos a Cristo, esta (incorporiedade) também deve necessariamente concedida a todos a que a sujeição a Cristo se estenda;
desde que todos que estão sujeitos a Cristo estarão no final sujeitos a Deus, o Pai, a quem se diz Cristo enviar o reino;
e assim parecer então que também a necessidade de corpo cessará
(...).

Então vejamos o que pode ser dito em resposta àqueles que fazem estas assertivas.

Visto que parecerá ser uma necessária consequência que, se a natureza corporal for aniquilada, ela deve ser outra vez restaurada e criada;

já que parece algo possível que as criaturas racionais, das quais a faculdade do livre-arbítrio nunca é retirada, podem novamente estarem sujeitas a movimentos de alguma forma, através de um acto especial do próprio Senhor, para que talvez, se elas estivessem sempre a ocupar uma posição que fosse imutável, elas deveriam ser ignorantes que é pela graça de Deus e não por seu próprio mérito que foram postas naquele estado final de felicidade;

e estes movimentos serão indubitavelmente outra vez seguidos por uma variedade e diversidade de corpos, pelos quais o mundo está sempre ornado;
nem será composto
(de nada) além de variedade e diversidade, - um efeito que não pode ser produzido sem uma matéria corporal.”

De Principiis, Livro II, cap. III

Resumindo:

Orígenes concebeu um sistema de criações sucessivas de mundos antes e posteriores a este. O estado original de todos os seres racionais seria o de uma felicidade plena e incorpórea, mas por descuido ou insubmissão (no caso dos demónios), se afastaram as almas do estado original de graça e Deus teria criado o mundo material e seus corpos físicos para que pudessem se regenerar.

Em ordem crescente a queda seria anjos, estrelas, humanos e demónios.

Ao fim de cada mundo criado, haveria uma ressurreição e Julgamento Final com a redenção dos “santos” e o fogo do inferno para os pecadores.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 28, 2012 9:29 am

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Tal fogo seria algo moral, uma revisão pela consciência de todos os pecados cometidos a fim de purificar o indivíduos.

Os que ainda precisassem de purificação ao fim do processo, passariam ao próximo mundo (semelhante a este ou não), criado em uma nova era (aeon).

Devido ao livre-arbítrio, virtuosos de uma era poderiam ser pecadores em outras e vice-versa, para o processo não ser errático, nossa era conheceu o sacrifício de Cristo, que teria um efeito catalisador para as almas escolhessem e optassem pelo caminho do bem.

Quando todos estivessem submissos a Cristo, a natureza corporal teria um término e a beatitude original seria restaurada (“o princípio e fim são os mesmo”).

Embora cedo ou tarde tudo se reiniciaria mais uma vez, com novas quedas, etc.

Uma espécie de tentativa de conciliar o tempo cíclico de algumas correntes do pensamento grego com o tempo linear judaico-cristão.

Há outros textos de Orígenes que contradizem suas teses mais polémicas, como a caridade dos eleitos no céu não ser devida a uma escolha ou mérito, mas a uma suspensão do livre arbítrio “para tornar o pecado impossível”
(Comentário aos Romanos, V, 10).

Há estudiosos que alegam não ter sido Orígenes um pensador metódico:
o conjunto de sua obra não permite formar um sistema teológico coerente.

Orígenes x Origenismo

Já houve quem dissesse que se Karl Marx estivesse vivo na década de 70 do século XX, com certeza não seria marxista, tamanha a modificação que suas ideias sofreram durante cem anos de rupturas, dissidências e diversos “experimentos práticos”.

De maneira análoga, as ideias de Orígenes passaram por uma transformação desde sua morte no século III ao segundo Concílio de Constantinopla no VI.

Henri Crouzel (conforme relatado em The School of Alexandria:
Origen, cap. IV http://www.saint-mary.net/family/books/SCHLALX_2.pdf) relata que se podem distinguir seis momentos sucessivos:

1 - O conjunto de especulações que, por meio da incompreensão de seus sucessores, contribuiu para a base do origenismo posterior.

2 - Origenismo como compreendido pelos detractores dos séculos III e IV:
Metódio, Pedro de Alexandria e Eustâncio de Antioquia.

Estes foram respondidos por Panfilo em sua “Apologia de Orígenes”.
Além da pré-existência das almas e apocatastasis, eles rejeitaram, por uma série de mal-entendidos, a doutrina da ressurreição do corpo e criação eterna.

3 - Origenismo dos monges egípcios e palestinos (na segunda metade do século IV):
foi principalmente exposto por Evágro Pôntico em Kephalaia Gnóstica.

O “escolasticizado” pensamento origenista de Pôntico, suprimindo suas tensões internas e deixando de fora parte de sua doutrina a fim de construir uma sistema com o que restara.
[o que teria, segundo os autores de “The School...”, sido o responsável por carácter herético de tal sistema, ao suprimir antíteses que caracterizariam a doutrina cristã].

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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 28, 2012 9:29 am

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4 - O mais importante momento de Orígenes foi nos embates entre os anti-origenistas dos séculos IV e V - Epifânio, Jerónimo e Teófilo de Alexandria - contra seus defensores, como João de Jerusalém e Rufino de Aquileia.

Eles acusavam Orígenes em vista das heresias de seu próprio tempo como o arianismo.

Nunca fizeram estudos sistemáticos do trabalho de Orígenes e baseavam suas acusações em textos isolados, sem levar em conta que explicações muitas vezes podiam ser encontradas no mesmo livro, algumas linhas abaixo.

Data do final do século IV e começo do V uma querela em Rufino e Jerónimo quanto a correcta tradução latina de Principiis.

Jerónimo acusou o primeiro de ter adulterado e suprimido do texto de forma a tornar Orígenes mais “palatável” ao pensamento tido por “ortodoxo” na época.

Jerónimo contra-atacou com sua própria tradução latina, contendo todos os ponto polémicos.
Tal tradução se perdeu, mas uma ideia aproximada dela pode ser extraída da sinopse que Jerónimo faz em sua Carta a Ávitus.

Rufino defendeu-se assumindo que restaurara ao pensamento original um texto que fora alterado por hereges, tal qual outros escritores cristão tinham sido indevidamente alterados.

Um sexto da obra De Principiis está preservada em antologia feita por S. Basil de Cesareia e S. Gregório de Nazianzo (“Philocalia”) e sugere que tanto Rufino quanto Jerónimo extrapolaram em suas posições.

Este episódio (que, na verdade, envolveu mais personagens e histórias) ficou conhecido como “primeira crise origenista”, situando-a cronologicamente em relação à “segunda crise” que viria sob o reinado de Justiniano.

5 - A controvérsia origenista ampliou-se na primeira metade do século VI, sendo descrita em pormenores em “Vida de S. Sabá”, de Cirilo de Citópolis.

O origenismo se propagara principalmente no mosteiro Nova Laura, próximo a Jerusalém. Origenismo, ou melhor, evagrianismo, também se propagou entre os monges palestinos que viviam em mosteiros sob a supervisão de S. Sabá.

A principal expressão de sua doutrina está no Livro de S. Hieroteus, o trabalho do monge sírio Estáfano bar Sudaile, que agravou o “escolaticismo” origenista de Evágrio em um panteísmo radical.

Entre as duas intervenções de Justiano, estes origenistas estavam divididos em dois grupos.

J. Meyndorff declara que recentes estudos lançaram nova luz sobre Evágrio Pôntico, que foi o grande intérprete no século IV das ideias origenistas aos monges palestinos e egípcios.

Ele e não Orígenes é o responsável pelo sistema origenista.

Diz ele:
“A recente publicação dos 'Capítulos Gnósticos' de Evágrio Pôntico, na qual a doutrina condenada em 553 é encontrada, faz possível medir toda a significância das decisões do quinto concílio.
O alvo da assembleia não era um fantasma do origenismo, mas as doutrinas genuínas de um dos mestres do monacato oriental, Evágrio.”.


Entre os dois grupos citados em (5), o partido radical dos monges de Jerusalém – chamados de Isochristi – é aquele cujo origenismo se presume ter sido alvo da condenação do imperador Justiniano.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 29, 2012 9:20 am

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Kersten, Chaves e Celestino: Teorias Conspiratórias a (des)Serviço da História

Há muitos boatos e meias-verdades espalhados quanto ao Concílio de Constantinopla, que teria riscado a reencarnação da Bíblia.

Um bem conhecido é:

“Até agora, quase todos os historiadores da Igreja acreditaram que a doutrina da reencarnação foi declarada herética durante o Concilio de Constantinopla em 553.

No entanto, a condenação da doutrina se deve a uma ferrenha oposição pessoal do imperador Justiniano, que nunca esteve ligado aos protocolos do Concilio.

Segundo Procópio, a ambiciosa esposa de Justiniano, que, na realidade, era quem manejava o poder, era filha de um guardador de ursos do anfiteatro de Bizâncio.

Ela iniciou sua rápida ascensão ao poder como cortesã.

Para se libertar de um passado que a envergonhava, ordenou, mais tarde, a morte de quinhentas antigas "colegas" e, para não sofrer as consequências dessa ordem cruel em uma outra vida como preconizava a lei do Carma, empenhou-se em abolir toda a magnífica doutrina da reencarnação.

Estava confiante no sucesso dessa anulação, decretada por "ordem divina"!

Em 543 d.C. o imperador Justiniano, sem levar em conta o ponto de vista papal, declarou guerra frontal aos ensinamentos de Orígenes, condenando-os através de um sínodo especial.

Em suas obras De Principiis e Contra Celsum, Orígenes (185-235 d.C), o grande Padre da Igreja, tinha reconhecido, abertamente, a existência da alma antes do nascimento e sua dependência de acções passadas.

Ele pensava que certas passagens do Novo Testamento poderiam ser explicadas somente à luz da reencarnação.”

- Kersten, Holger; Jesus Viveu na Índia, Ed. Best Seller, 7ª ed., Cp. VI - “Considerações Finais”.

O engraçado é terem encontrado recentemente uma tumba atribuída a Jesus e Maria Madalena em Israel.
Será que enterraram a cabeça em Jerusalém e as canelas na Índia?

Bem, isto foge ao assunto, vamos a José Reis Chaves:

“A Igreja teve alguns concílios tumultuados.
Mas parece que o V Concílio de Constantinopla II (553) bateu o recorde em matéria de desordem e mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Virgílio, papa da época.

O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter construído, em 552, a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina, hoje uma mesquita muçulmana.

Era um teólogo que queria saber mais que teologia do que o papa.
Sua mulher, a imperatriz Teodora, foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos de teologia.

Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta, isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 29, 2012 9:20 am

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Ela sentia, por sua vez, uma grande revolta contra o facto de suas ex-colegas ficarem decantando tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.

Para acabar com esta história, mandou eliminar todas as prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.

Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes;
que era seu carma por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.

O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da reencarnação.

Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido, resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três séculos antes.

Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da reencarnação.”

Chaves, J.R.; A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VIII, 7ª ed., Ed. ebm

Agora, um texto extraído de “Analisando as traduções bíblicas”, de Severino Celestino da Silva, Editora Ideia, 4ª ed., cap XI

Orígenes afirmava ser a doutrina do Carma e do renascimento uma doutrina Cristã.
Devido a esta sua crença, 299 (duzentos e noventa e nove) dias, após sua morte, contra ele a igreja decretou a excomunhão.

O segundo Concílio de Constantinopla, no ano de 553, decretou:
“Todo aquele que defender a doutrina mística da preexistência da alma e a consequente assombrosa opinião de que ela retorna, seja anátema”[grifo do autor].

Até a época, a doutrina do renascimento e do carma era aceita pela Igreja Cristã.

A história do II Concílio de Constantinopla teve marcante acontecimento com a figura do imperador Justiniano, um teólogo, que queria saber mais teologia do que o papa.

Justiniano tentou reinserir o monifisistas, comandados por Severo de Antioquia, se afastassem e voltassem-se para a Pérsia.

Organizou no palácio a primeira conferência entre ortodoxos e monofisistas, para a qual convidou seis ortodoxos e seis monofisistas tentando definir diferenças entre as doutrinas.

O papa, Virgílio, apesar de se encontrar em Constantinopla, recusou-se a participar do concílio convocado pelo imperador e tampouco se fez representar. O Concílio pressionado pelo imperador excomungou o papa.

O papa Virgílio acabou reconhecendo o concílio em troca da suspensão de sua excomunhão.
A esposa de Justiniano chamada Teodora, teve muita influência nos assuntos do marido e até no que se referiu à teologia.

Foi ela quem acomodou os monges egípcios e os clérigos siríacos nos vários palácios da capital e sobretudo no palácio Hormisdas, que se tornara o centro da propagando monofisista.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 29, 2012 9:20 am

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Por ter sido uma prostituta, sua ex-colegas se sentiam orgulhosas e decantavam tal honra.
Mas esse facto a revoltava e se constituía numa desonra, fazendo com que mandasse matar todas as quinhentas prostitutas de Constantinopla.

Os cristãos da época passaram a chamá-la de assassina e a dizer que ela deveria ser assassinada, quinhentas vezes, em vidas futuras.
Este seria seu carma por ter mandado matar suas quinhentas ex-colegas prostitutas.

A partir daí, Teodora passou a odiar a doutrina da Reencarnação e como mandava e desmandava em meio-mundo através de seu marido, resolveu partir para a perseguição sem tréguas contra essa doutrina e contra maior defensor que era Orígenes.

O concílio tratou de duas questões básicas:
o Monofisismo e o Origenismo.

O Origenismo defendia a apocatástase do universo (revolução de um astro) e a Reencarnação.
O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos.

Para começo de conversa, eu adoraria saber quais foram estes historiadores comentados por Kersten, em quais de suas obras está essa tese de reencarnação na igreja primitiva e em quais capítulos.

O único historiador citado, Procópio, dá uma versão “ligeiramente” diferente dos factos:

“(...)Havia uma multidão de mulheres em Bizâncio que realizavam em bordéis uma actividade de libertinagem, não por escolha própria, mas sob a força da luxúria.

Visto que isto era mantido por cafetões, e as mulheres de tais casas eram obrigadas a toda e qualquer hora a praticar obscenidade e copular de imediato com desconhecidos a medida que apareciam, elas se submetiam aos seus abraços.

Já que houvera um numeroso corpo de alcoviteiros na cidade desde os tempos antigos, conduzindo seu tráfico em licenciosidade nos bordéis e vendendo a juventude alheia no mercado público, reduzindo pessoas virtuosas à escravidão.

Mas o imperador Justiniano e a Imperatriz Teodora, que sempre compartilhavam uma comum piedade em tudo que faziam, arquitectaram o seguinte plano.

Limparam o estado de poluição dos bordéis, banindo o próprio nome dos cafetões e libertaram de uma licenciosidade adequada apenas a escravas as mulheres que estavam lutando com imensa pobreza, provendo-as com sustendo independente e liberando virtude.

Isso ele conseguira da seguinte forma.

Próximo à margem do estreito que está à direita dos que navegam em direcção ao mar chamado Euxino, eles transformaram o que fora anteriormente um palácio em um imponente mosteiro projectado para servir de refúgio a mulheres que se arrependessem de suas vidas anteriores, de forma que lá, através da ocupação que suas mentes teriam com Deus e com a religião, poderiam ser capazes de limpar os pecados de suas vidas no prostíbulo.

Portanto, denominaram o domicílio de tais mulheres de 'Arrependimento', em adequação com seu propósito.

E estes soberanos dotaram este convento com ampla soma em dinheiro e adicionaram várias construções, a maioria notável por sua beleza e sumptuosidade, para servirem de consolo às mulheres, a fim de que nunca se sintam compelidas a se afastar da prática da virtude de uma forma ou de outra.
(..)”

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 30, 2012 8:41 am

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Procópio, Das Construções http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Procopius/Buildings/1C*.html (De Aedificiis), livro I, cap. IX.

“Teodora também devotou considerável atenção ao castigo de mulheres flagradas em pecado carnal.

Ela apanhou quinhentas prostitutas no Fórum, que lá auferiam um vida miserável se vendendo por três óboles, e as enviou para a margem oposta
[do Bósforo], onde foram trancadas no mosteiro chamado Arrependimento, para forçá-las a reformar seu estilo de vida.

Algumas delas, porém, atiravam-se à noite dos parapeitos e assim se livravam de um salvação indesejada”

Procópio, A História Secreta, http://www.fordham.edu/halsall/basis/procop-anec.html (Anekdota), cap XVII, “Como Teodora salvou quinhentas prostitutas de uma vida de pecado.”

Comparando esses dois extractos, consta-se que Procópio muda o tom de um ato piedoso para uma varrida “para debaixo do tapete” feita nas prostitutas.

Ao que parece, o mosteiro ex-palácio fora convertido numa “gaiola de ouro” para uma espécie de noviciado forçado e perpétuo.

Algumas (note bem, algumas) preferiam a liberdade com insegurança àquela vida de beatas e morriam tentando escapar (ou se suicidavam, simplesmente).

Nada diz que o mosteiro “Arrependimento” era uma usina de morte como o Auschwitz nazista, onde elas iriam esmagadoramente parar morrer.
A não ser morrer de velhas.

Um importante historiador do iluminismo inglês – que, ao contrário dos historiógrafos espiritualistas acima, procurava sempre ler originais - fez interessante fusão dessas duas passagens de Procópio, fornecendo um panorama intermediário do que pode ter ocorrido:

“O nome de Teodora figura com igual distinção em todas as iniciativas piedosas e caritativas de Justiniano;
as instituições mais benevolentes do seu reinado podem ser atribuídas à simpatia da imperatriz por suas irmãs menos afortunadas que haviam sido seduzidas ou compelidas a dedicar-se ao ramo da prostituição.

Um palácio no lado asiático do Bósforo foi convertido num espaçoso e imponente mosteiro, e um generoso sustento, garantido a quinhentas mulheres recolhidas das ruas e bordéis de Constantinopla.

Nesse retiro sacro e seguro, elas se devotavam a um perpétuo confinamento, e o desespero de algumas, que se precipitaram ao mar, foi calado pela gratidão das penitentes libertadas do pecado e da miséria por sua generosa benfeitora “


Edward Gibbon, Declínio e queda do Império Romano, Cap. XV, Tradução de José Paulo Paes, Companhia das Letras.

Diga-se de passagem que Teodora não era flor que se cheirasse, sendo que tanto Procópio e Gibbon concordam que ela cometeu inúmeras crueldades.

Procópio, porém, exagera mais nas tintas, a ponto descrever o voraz apetite sexual da imperatriz, quando solteira, de maneira pouco verosímil.

De qualquer forma, nada indica que ela tenha cometido o crime que seria o pivô da condenação de Orígenes.
Justiniano não era tão fantoche assim como foi alegado.

Ele e Teodora tinham visões políticas diferentes em alguns pontos, sendo que ela advogava uma tolerância religiosa maior do que de seu fanático e intransigente marido, afinal era monofisista.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 30, 2012 8:41 am

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Uma história de duas (ou mais) mentiras

- “Até a época, a doutrina do renascimento e do carma era aceita pela Igreja Cristã.”
- “O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos 2.”


São duas declarações extraídas do cap. IX, tópico “Os Cristãos”, de “Analisando as Traduções Bíblicas”, 4ª ed. A primeira é categoricamente falsa.

O origenismo já era rejeitado de pelo menos duzentos anos antes do fatídico quinto concílio.
A segunda citação foi deixada propositadamente com o índice (2) que constava no original.

Este número nada mais é do que a referência bibliográfica dada pelo autor Severino Celestino da Silva:

“2. Aleberigo, G. História dos Concílios Ecuménicos. São Paulo: Paulus, 1995.”

Bem, o que realmente continha o texto da colectânea de Aleberigo?

Quanto ao origenismo, uma carta de Justiniano, cujo texto se perdeu (Jorge o Monge, ed. ch. De Boor, 1904, 630), servia como documento de trabalho.

O decreto de 543 foi praticamente ignorado.
É certo que o concílio condenou Orígenes, suas ideias, seus seguidores.

São consideradas como heréticas as teorias sobre a apocatástase do universo, sobre a reencarnação das almas e outras menos conhecidas.

Infelizmente, perderam-se as atas e não possuímos sequer sua tradução latina, pois a questão não interessava aos ocidentais.

Ainda que nossos conhecimentos sejam incompletos nesse campo, o rápido declínio do origenismo depois do concílio indica que ele foi condenado em termos claros e severos.

pág. 134

Curiosamente, o texto de [Aleberigo] é contraditório.

Dois parágrafos antes do texto acima:

Não sabemos, porém, com exactidão o que aconteceu durante o concílio.
As actas do concílio se perderam.

Temos somente uma tradução latina, e em duas versões diferentes.
Parece que os originais se perderam em 1453, por ocasião da tomada de Constantinopla, pois em 1448, durante o concílio de Florença, ainda se fez uso deles
(Gill S., Actorum Graecorum Conciliorum Concilii Florentini, Roma, 1953).

De qualquer modo, sabemos que se realizaram oito sessões no secretum de Santa Sofia.

De facto, versões das atas do V concílio chegaram até nós e uma delas, inclusive, pode ser encontrada em inglês na bibliografia ao fim deste tópico.

Porém, há algo interessante no primeiro extracto:
“(...) o rápido declínio do origenismo depois do concílio indica que ele foi condenado em termos claros e severos”, em contraste com o termo citado por Severino Celestino da Silva:
“O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos.”

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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 30, 2012 8:42 am

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Parece pouca coisa, não fica claro aos mais desavisados a abismal diferença entre uma alegação categórica e uma dedução lógica representada pelo verbo “indicar” usado no texto original e cujas premissas estão envoltas por certa névoa.

Isto é mais sério do que alguns apologistas espíritas gostariam de admitir.

O cientista Robert Ehrlich, em “As Nove Ideias mais Malucas da Ciência” expõe em seu primeiro capítulo dez critérios para averiguar se uma teoria “maluca” merecia algum crédito ou investigação mais profunda, o sétimo deles:

De que modo ela se apoia nas referências a outros trabalhos?

(...) Não basta que um teórico demonstre familiaridade com uma outra obra importante e a cite numa publicação.

Devemos também verificar se as referências citadas dizem mesmo o que o autor alega e se o seu grau de consistência confere.

Devemos desconfiar seriamente quando o proponente de uma nova teoria informa que outros cientistas demonstraram alguma coisa, mas as referências citadas não confirmam esse comentário ou sugerem, no máximo, que a coisa talvez possa [grifo do autor] ser verdadeira.

A colectânea de [Alberigo] não foi tão categórica assim no trato contra o origenismo, apesar de dar bons indícios.

Se isso ainda não te convenceu da gravidade do mal-uso que autor de “Analisando...” faz da própria bibliografia, citemos alguns parágrafos anteriores de [Aleberigo]:

Claro, o origenismo não chamava tanto a atenção dos ortodoxos, pois não questionava o concílio de Calcedónia.

Mas depois do decreto de 533 e do sínodo de 536, os ortodoxos perceberam que por trás das decisões imperiais havia sempre um origenista.

Roma, sobretudo, não tinha motivo para tolerar o origenismo, pois este não compartilhava as ideias romanas a propósito dos “três capítulos”
(cf. Liberatus, Breviarium, ACO II V, 98-141).

Os ortodoxos do Oriente começaram a se preocupar com os origenistas, pois estes fortaleciam suas fileiras com padres ortodoxos como Gregório de Nissa, Dídimo, o Cego, e outros.

Sobretudo na Síria, os origenistas apareciam demais, por causa de seu grande número.
Por isso o patriarca Efrém de Antioquia convocou em 542 um sínodo que condenou o origenismo.

Os origenista da Palestina recorreram, então a Pedro de Jerusalém, pedindo-lhe que não mencionasse mais Efrém nos dísticos de Jerusalém.

Pedro, apertado entre as próprias opiniões ortodoxas e as pressões dos origenistas, apelou para Justiniano, com o apoio também do patriarca Mena e do representante de Roma, Pelágio.

Justiniano publicou um “Edito” em 543 (Mansi, 9, col. 125-128; ACO III, 189-214) contra o origenismo.

Mena aproveitou a ocasião e no mesmo ano convocou um sínodo, que deu à decisão imperial autoridade sinodal.

O papa Virgílio, os patriarcas orientais, e também os origenistas de Constantinopla Ascida e Domiciano assinaram a decisão.

Isso, porém, não eliminou o origenismo, que continuou a existir e predominar na Palestina.

A condenação sinodal conseguiu radicalizar as posições dos origenistas, que assumiram então atitude hostil à ortodoxia.

págs. 130-131

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 31, 2012 9:06 am

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Voilà! Eis aí uma explicação decente para a primeira condenação do origenismo em 543 e os motivos pelos quais ele (talvez) voltou a ser comentado em 553.

E o nome da imperatriz Teodora não é citado em nenhum instante.
Muito menos as ditas 500 prostitutas!

Severino Celestino da Silva teve acesso a uma melhor informação sobre as preliminares do V concílio.
Mas preferiu a teoria conspiratória... porque será?

E mais:
Nesse contexto já complicado, um novo movimento – o origenismo - veio tornar a situação realmente insolúvel.

É verdade que Orígenes fora condenado há muito tempo, mas sua irradiação intelectual nunca cessou, e seu misticismo exercia constante atracção sobre os monges instruídos do deserto.

Na realidade, o origenismo jamais desapareceu das zonas sírio-palestinenses.
Era tolerado na medida em que não criava problemas.

Ora, na efervescência provocada pelas decisões do concílio de Calcedónia, tudo estava envolto pela suspeita de heresia.

Pelo final do séc. V, o origenismo reapareceu sob a forma de contestação contra a ortodoxia, contra o monofisismo e contra o nestorianismo.

É claro que essa quarta via não tinha muitas possibilidades em contexto tão carregado como aquele.

Pág. 125

Pronto! A própria referência de Severino Celestino da Silva o desmente quando diz que até o século VI a Igreja (i.e. a ortodoxia, não os dissidentes) acreditava na reencarnação.

O origenismo já fora rejeitado de muito antes – como explanado acima – e recruscedeu como um fenómeno sírio-palestino, que estava mais ligado ao monacato local.

O texto de Severino Celestino da Silva contém mais dois erros crassos.

O primeiro é que o concílio não se deu 299 dias [grifo dele] após a morte do teólogo, mas 299 anos!

Poderia até ser um descuido de revisão, se esta não fosse a quarta edição do livro.

O mesmo dado (299 “dias”) se encontra em um livro de sua bibliografia (O Livro Tibetano dos Mortos, W.Y. Evans-Wentz, Ed. Pensamento, p. 177), porém sem o grifo.

Talvez houve uma predilecção por esta fonte errónea em vez de outra correcta, porém menos chamativa.
A definição de apocatástase também está errada.

Ela era uma doutrina concebida por Orígenes que enfatizava o carácter sacrificial da morte de Cristo, resgate tão alto pago aos poderes do mal que levaria não só todas as criaturas à salvação.

Ou seja, Orígenes era um universalista, mas fica patente que sua doutrina era essencialmente salvacionista.

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 31, 2012 9:06 am

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Uma consequência lógica deste princípio seria a salvação até do diabo, ideia que Orígenes parece ter rejeitado depois. J.R. Chaves aos menos acerta mais nesta definição.

Langley: Eliminando Fontes Históricas

Outros autores antes de Severino Celestino da Silva já abordaram a questão origenista de formas “alternativas”.

Lá pelo final da década de 60, Noel Langley escreveu o livro “Edgar Cayce on Reincarnation”, onde dedica o capítulo XI ao estudo da condenação a Orígenes.

É engraçado que Langley dá relatos largamente distintos para a convocação do V Concílio.

O capítulo abre assim:
Nossas versões ortodoxas do Antigo e Novo Testamentos não datam de antes do século VI, quando o Imperador bizantino Justiniano convocou o V Congresso Ecuménico de Constantinopla em 553 d.C. para condenar os platonicamente inspirados escritos de Orígenes.

Contrariando a crença das modernas Igrejas, este não foi um congresso sem influência secular.
O papa Virgílio foi proibido de comparecer e sua denúncia disto foi escarnecida.

Ele [o congresso] foi instigado pelo mesmo substrato de bárbaros abestalhados que tinham sido 'convertidos' à cristandade sob Constantino.

Caso o leitor deva achar singular que seja dada tanta atenção a esse congresso nas páginas seguintes, é por causa de os eventos que levaram ao Quinto Congresso representarem praticamente a única evidência sobrevivente de porque a reencarnação desapareceu da Bíblia.

Sinceramente, a leitura desse texto poderia ser encerrada por aqui:
“Nossas versões ortodoxas do Antigo e Novo Testamentos não datam de antes do século VI”.

Para o conhecimento dele, existem inúmeros códices como o Vaticanus (325-350 d.C), Sinaiticus (350), Alexandrino (400), Efremi (400), Beza (450), Washingtonense (450) e Claromantano (séc. V) que precedem essa data, além disso há várias porções menores contendo só o NT como o papiro Chester Beatty (200 d.C.) e o AT das comunidades hebraicas, que tinham escolas importantes na Babilónia do Reino dos Partas e, portanto, livres de qualquer intervenção bizantina.

Também já havia Bíblias etíopes fora do domínio bizantino.

Apesar de serem ferramentas inestimáveis na crítica textual, todos esses documentos não revelam nenhuma mudança visando a eliminação da reencarnação quando comparados com as Bíblias posteriores.

Aliás, os que advogam esta outra teoria conspiratória deveriam explicar por que um suposto censor bizantino da Bíblia teria deixado passagens como o “cego de nascença” e a identificação entre Elias e João Baptista?

Lembrando que a primeira já foi apontada por Jerónimo como ferramenta dos origenistas de sua época (ad Demetrias) e que a última foi até refutada por Orígenes.

Que censura porca foi feita então, hein?

Além de se basear numa premissa falsa, Langley “inova” ao dar uma justificativa inusitada para o ódio de Teodora ao trabalho de Orígenes:

Infelizmente, sob a influência de Eutiques, Teodora tornou-se uma conversa a este dogma monofisista [que dava a Cristo uma natureza exclusivamente divina].

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 31, 2012 9:06 am

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A principal reivindicação dele para com os sentimentos dela era a sua total rejeição àqueles ensinamentos de Orígenes que tinham tão profundamente influenciado os primeiros Padres da Igreja.

Orígenes não apenas acreditava na metempsicose, como argumentava que Cristo o Logos, ou a Palavra, habitou o corpo humano de Jesus, santificando-o, assim.

Ou seja, para Langley, o detonador da perseguição a Orígenes pela imperatriz foram questões cristológicas e a reencarnação foi rejeitada por estar no bojo dos ensinamentos origenistas.

Em nenhum instante Langley fala do assassinato de 500 prostitutas.

Bem... lembro-me agora de uma citação que Severino Celestino da Silva faz a Jerónimo no começo de “Analisando...”:
“A verdade não poderia existir em coisas que divergem” [grifo do autor].

Apesar de eu ter minhas ressalvas quanto a validade plena desta frase – afinal, é possível que versões destoantes possuam fragmentos da verdade distintos – uma coisa devo admitir:
ela cai direitinho para a confrontação dele com sua bibliografia e com Langley.

Nota: William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47, situa o começo dos episódios em 538.
Mais confusão.

Misquoting Origens: Elizabeth Clare Prophet

“Estatísticas são como biquínis: mostram o que é sugestivo, mas escondem o que é vital”
(anónimo)

A jornalista (mas não historiadora) Elizabeth Clare Prophet produziu um livro muito falado de nome “Reencarnação: o elo perdido do cristianismo”.

Devo admitir que quando comparado com as pobrezas historiográficas feitas por Severino Celestino da Silva, José Reis Chaves e Langley, esta obra é em muito superior.

As querelas origenistas são descritas com uma quantidade maior de pormenores, ao contrário da simplificação exagerada feita pelos demais (ainda que a imparcialidade...), e não cai na tentação fácil de explicar tudo numa teoria conspiratória centrada na figura da imperatriz Teodora.

Também devo comentar que Prophet fez a gentileza de colocar muitas vezes referências directas às obras de Orígenes, o que facilita muito o trabalho de revisão e crítica, embora ainda se valha demais de citações não verificadas.

O que mais chama atenção, porém, não é exactamente o que ela diz (também o é), e sim o que ela deixa de dizer.

Procedamos a uma análise do capítulo XVI do livro (“Os Diferentes Destinos dos Gémeos”).

Os rabinos chegaram a uma conclusão incomum.

Como as escrituras diziam que os destinos dos gémeos [Esaú e Jacó] eram diferentes desde o nascimento, e uma vez que Deus era justo, acharam que a única resposta possível era que Esaú havia pecado enquanto estava no ventre de sua mãe.

Por mais estranho que pareça, é exactamente esta especulação que encontramos num comentário do Génesis escrito por volta de 400 a.C..

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 01, 2012 9:05 am

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Os rabinos conjecturavam que, quando Rebeca passava por “casas de idolatria”, Esaú indicava a sua preferência dando pontapés, mas 'quando ela passava por sinagogas e casas de estudo, era Jacó quem dava pontapés, tentando sair'(4).

Por estas acções os rabinos concluíram que Deus preferia Jacó e sua semente a Esaú e sua semente, por gerações.

Pouco depois disto, Prophet compara a explicação acima com a proposta de pré-existência dos gémeos dada por Orígenes, em De Pricipiis”, livro II, cap. IX, com esta contida no comentário rabínico Géneses Rabbah 63.6.3.

Este, conforme ela explica em sua nota (4) para este capítulo ao fim do livro, foi retirado de um livro do escritor judeu Jacob Neusner.

Bom, como estamos falando de citações de citações surge uma questão a respeito da datação de Géneses Rabbah.

Meu exemplar do livro é em português, não tenho acesso ao original inglês de Prophet, nem àquele livro Neusner.

Porém tenho outro livro desse mesmo autor (Judaísmo Vivo, ed. Imago cujo glossário traz a datação para Génesis Rabbah para 450 E.C. (Era Comum, isto é, d.C), portanto quando Prophet situa o livro em 400 a.C. devo indagar se o correcto não seria 400 d.C. e no meio desta “brincadeira de telefone-sem-fio”, o sentido original foi mudado.

Datar tal comentário já na era cristã está mais de acordo também com outras classificações disponíveis como a de Sacred Texts - Medieval Hebrew, http://www.sacred-texts.com/jud/mhl/index.htm além disto, a versão constante nesse portal, apesar de incompleta, cita claramente o nome de Rabi Akiba, situando-a após a destruição do segundo Templo.

Isto tem um efeito grande na interpretação de passagens como o “cego de nascença” (Jo 9:2), pois mostra que a crença em pecados pré-natais já estava presente no período inter-testamentário;
aliás, essa é a tese defendida por John Lightfoot http://eword.gospelcom.net/comments/john/light/john9.htm em seu comentário de João.

- Orígenes conhecia bem as tradições judaicas sobre a reencarnação e a divinização e, às vezes, parecia fazer eco à palavras de Filon, que escreveu sobre a reencarnação.

Orígenes acreditava que os judeus ensinavam a reencarnação. (15)

Bem, vejamos como Prophet desenvolve a questão em sua nota (15):
(...)Orígenes pode ter tido algo a acrescentar sobre a questão de se os judeus acreditavam ou não em reencarnação.

Em seu comentário sobre as passagens de João/Elias em seu Comentário sobre João, ele afirma que a pergunta a João:
“És tu Elias?” que eles acreditavam na metensomatose [transmigração], como uma doutrina herdada de seus ancestrais e que, por isso, não se chocava com o ensinamento secreto de seus mestres.

Ele afirma também que uma tradição judaica diz que Finéias, filho de Eleazar, “foi Elias”.

Talvez Orígenes tenha tido acesso a ensinamentos secretos judaicos além dos evangelhos.
O Comentário de João 6.7, citado por Jean Daniélou em “Gospel Message and Hellenistic Cuture” (A Mensagem do Evangelho e a Cultura Helénica), trad. John Austin Baker, vol. 2 de “A History of Early Christian Doctrine before the Coucil of Nicaea” (A História da Doutrina do Cristianismo Primitivo antes do Concílio de Nicéia)
(Londres: Darton, Longman and Todd, 1973), pp. 493-494.

Bem, vejamos excertos maiores do capítulo VII do sexto livro de Comentários de João, edição da Ante-Nicene Fathers, a mesma de usada por ela:

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 01, 2012 9:06 am

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Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. (...)

E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos.

João, portanto, diz, “Eu não sou Elias”, porque não sabe sobre sua vida prévia.
Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. (...)

Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias?

E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença.

Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento. [grifo meu]

Trecho em que Prophet se baseou

Parte omitida pela mesma

Senhores, está claro que, quando Orígenes fala de um ensino “secreto dos hebreus”, ele o coloca na boca de filósofos antagonistas.

Depois ele diz com todas as letras que, àquela altura, a transmigração ainda não entrara no judaísmo místico.

Quanto ao caso de Finéias, Orígenes fala ao fim do capítulo:
Eu não sei como os hebreus começaram a falar que Fíneias, filho de Eleazar, que admitidamente prolongou sua vida ao tempo de muitos dos juízes, como lemos no Livro de Juízes (Jz 20:28), para dizer o que agora menciono.

Dizem que ele foi Elias porque Deus lhe prometera imortalidade, devido à aliança concedida a ele (Nm 25:12-13) (...) .

Aqui fica claro que não se tratava de reencarnação, mas de uma imortalidade.
Os judeus teriam confundido o “sacerdócio eterno” de Finéias e sua descendência com uma espécie de imortalidade para o próprio.

Por todo o exposto acima, fica patente que Prophet não leu nada do texto original de Orígenes e, além disso, ou mal citou suas fontes ou confiou demais nelas. Uma falha grave de pesquisa.

Prossigamos:

Clemente de Alexandria, um professor cristão que dirigiu a escola de catequese antes de Orígenes – Diz-se que ensinava a reencarnação (16)

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 01, 2012 9:07 am

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Dêem uma lida em Clemente de Alexandria para esclarecimentos reais sobre o que Clemente defendia.

- O Gnosticismo – Orígenes absorveu este conceito através de um professor chamado Paulo de Antióquia (...)
Existe ainda uma possível sexta fonte para a crença de Orígenes na reencarnação.

Ele pode tê-la aceito por ter-se convencido – através do estudo do Gnosticismo, dos escritos de Clemente ou de outras escrituras que se perderam – de que a reencarnação fazia parte dos ensinamentos secretos de Jesus.

Sinceramente, quem escreve uma coisa destas me passa apenas um atestado de jamais ter lido sequer um parágrafo de Principiis nem que fosse apenas por passatempo.

A carreira de Orígenes teve por adversários e antagonistas grupos gnósticos:
(...) agora, quanto àquelas expressões que ocorrem no antigo Testamento, quando se diz que Deus ficou raivoso ou arrependido, ou quando um sentimento ou paixão humana é descrito, (nossos oponentes) pensam que estão abastecidos de subsídios para nos refutar, alegando que Deus é impassível ao todo e é considerado totalmente livre de sentimentos de qualquer tipo, nós temos de mostrar a eles que declarações similares são encontradas mesmo nas parábolas do Evangelho.

De Principiis, livro II, cap. IV

Fora dito nos profetas, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”.

Pois se o Salvador, sabendo que Ele que está escrito na lei é o Deus de Abraão e que é o mesmo que diz, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”, reconhece que o mesmíssimo que é Seu Pai é ignorante quanto a existência de qualquer outro Deus acima d'Ele mesmo, como os heréticos supõem, Ele absurdamente O declara ser Seu Pai que não conhece um Deus superior.

Mas se não é da ignorância, mas do engodo, que diz não haver outro Deus além de Si mesmo, então é um absurdo muito maior confessar que Seu Pai é culpado de falsidade.

De tudo, a conclusão a que se chega é que Ele desconhece outro Pai além de Deus, Fundador e Criador de todas as coisas.

Idem

Aqui é claro o combate de Orígenes ao dualismo gnóstico, que asseverava ser um demiurgo inferior o deus do Antigo Testamento e criador do mundo material, aprisionando centelhas divinas em corpo de carne.

O mundo material seria mal em si mesmo.
Jesus teria sido enviado pelo verdadeiro Deus superior e bom para libertar as almas das mãos do demiurgo.

Boa parte do texto de Principiis é gasto em justificar a unidade entre o Deus do Antigo e do Novo Testamentos e buscar uma justificativa para a encarnação das almas que estivesse de acordo com parâmetros de “bondade divina”, daí a teoria de uma beatitude primordial, as quedas, necessidade de corpos para individualizar almas decaídas, regeneração pela submissão a Cristo.

Ao contrário do que alguns escritores reencarnacionistas afirmam, Orígenes não foi influenciado pelo gnosticismo, muito pelo contrário, era anti-gnóstico.

Se isto ainda não te convence, veja Orígenes citando com todas as letras expoentes gnósticos:

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